sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Centro de Memória e Ação em Hanseníase Luiz Verganin

Ontem, dia 20 de fevereiro, foi um dia muito especial para mim. Fui conhecer o Centro de Memória e Ação em Hanseníase "Luiz Verganin" localizado na antiga Colônia Santa Isabel, em Betim. O espaço foi construído sobre as ruínas de pedra de um antigo pavilhão dos internos segregados pela "lepra".
Fora ali que iniciei minha carreira como psiquiatra em 1984 e fiquei até meados de 2003.
Foram 19 anos de muito trabalho e, mais ainda, de grandes aprendizados.
Fui recebiba por Mara, da ONG (alemã) DAHW, que, carinhosa e entusiasticamente, me falou do referido Centro, seu percurso até ali e a inauguração prevista para o próximo mes de março.
O espaço está lindo, amplo, com histórias vivas, com um acervo de peças que contam sobre os diversos tratamentos da Hanseníase em Minas e no Brasil.
Minha estadia foi curta, mas muito intensa. Um filme de dezenove anos passou pela minha cabeça. Revivi momentos ímpares enquanto uma mera médica num lugar de pessoas extraordinárias.
Obrigada Mara. Obrigada Vila. Obrigada e parabéns a DAHW
Convido a todos para conhecerem o Centro de Memória e Ação em Hanseníase Luiz Verganin.
Rua Emílio Ribas, 300. Colônia Santa Isabel. Betim/MG








quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

OPINIÃO: Palavras e Desabafos



Hoje acordei precisando escrever.

Fiquei muito tempo calada, como reitero por diversas vezes (quem me conhece e/ou convive comigo decerto já escutou isso), não acredito que as palavras serão nossa salvação. Não por duvidar do poder delas, pelo contrário, sempre fui maravilhada pelo alcance e pelo impacto da linguagem na sociedade e, consequentemente, na vida das pessoas. A descrença é um pouco mais empírica mesmo, vem da desilusão de ver tudo o que está acontecendo e, mesmo com estudos, pesquisas, estatísticas, às vezes até desenhos, filmes, séries e tudo o mais que as artes verbal e não verbal nos proporcionam, de nada adianta. Basta meia dúzia de palavras (na maioria das vezes: 1- Comunismo; 2- Lula; 3- PT; 4, 5 e 6 - Família Tradicional Brasileira) e vai por água abaixo todo o trabalho sério anteriormente realizado. Precisamos agir. Urgente.

Mas hoje acordei precisando escrever.

Como um desabafo.

Tá difícil.

Difícil me sentir de mãos atadas pra tudo o que está acontecendo aos olhos de quem quiser ver. Não fazem mais questão de esconder o desdém contra o pobre. Não fazem mais questão de esconder o preconceito contra o negro. Não fazem mais questão de esconder a violência contra a mulher. Não fazem mais questão de esconder a intolerância contra os LGBTQI+. Não fazem mais questão de esconder o ódio. Não fazem mais questão de esconder o projeto de Brasil (e quiçá de mundo) branco, opressor, capitalista e patriarcal (redundância? rs).

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que ninguém nasce pobre porque quer, e nem fica pobre porque quer.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que não é porque o menino é negro que ele vai entrar no mundo do crime, ou que ele não é bonito, ou que o cabelo dele é ruim, ou, ainda, que ele não precisa estudar.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que a mulher não é agredida fisicamente pelo namorado, marido, companheiro ou seja por quem for, porque ela usou uma roupa curta ou o respondeu de forma mal educada.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que a menina de 13 anos não foi estuprada porque quis ou porque ela estava se assanhando pra cima do cidadão de bem.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que o gay não pretende estragar a família tradicional brasileira (lê-se: lar abusivo, em situação de violência doméstica e familiar, na maioria das vezes formado por marido + esposa + filhos + amante).

Tá difícil, muito difícil e exaustivo, praticamente implorar pras pessoas se importem umas com as outras.

Uma vez eu li uma coisa que um cara escreveu há uns anos, posso estar enganada mas acho que o nome dele era Jesus de Nazaré: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo".

Pois bem. Estamos falhando nisso, e muito.

Vivemos na esperança de que as pessoas vão se sensibilizar, que foi apenas um momento de frustração, mas em breve elas irão enxergar tudo o que está acontecendo e vão sentir empatia.

Eu senti essa esperança. Perdoei aqueles que defenderam o golpe, perdoei aqueles que votaram em um "fascista concedido" que homenageou um torturador em uma sessão do plenário da Câmara dos Deputados. Perdoei por amor, afeto, amizade, mas, principalmente, para não ser injusta com aquele que "pensa diferente de mim", afinal vivemos em uma democracia.

Enganei a mim mesma durante este tempo usando o termo entre aspas, tentando a todo instante entender o que levaria uma pessoa a defender um cidadão tão deplorável. E todas as opções me pareciam insuficientes, mas eu me forçava a aceitar em prol da harmonia e da famigerada convivência.

Mas a verdade é que eles pensam igual, são incapazes de se indignar com os indígenas sendo friamente assassinados, com as dezenas de crianças morrendo por ações da Polícia Militar (que por si só já seria uma pauta enorme a se tratar, mas vou me ater a tecer apenas este comentário), com as operações policiais nas favelas no combate ao tráfico, quando ao mesmo tempo nada se faz a respeito de um helicóptero de um Senador carregando meia tonelada de cocaína, e 40 kg no avião da FAB, e detalhe, em viagem oficial.

Parece nada mais indigná-los, a não ser dois homens se beijando. Dois homens, porque duas mulheres, ah, aí sim o cidadão de bem aprova.

Ao contrário do mundo perfeito, sem corrupção e sem violência da classe média, a cada minuto que nos quedamos parados, milhares e milhares de pessoas morrem, pouco a pouco, com nossa inércia. Centenas de mulheres são violentadas, centenas de adolescentes são estupradas (e como as estatísticas já se exauriram de demonstrar, a maioria das vezes dentro de casa), centenas de travestis e homens e mulheres trans são agredidos/as nas ruas de todo o país, centenas de homens negros são presos sem qualquer acusação, e mantidos presos sem qualquer prova para tal, centenas de mulheres negras são minimizadas de sua capacidade de ser simplesmente O QUE ELAS QUISEREM.

Daqui, da minha posição de privilégio, já tá extremamente difícil e angustiante ver diante dos meus olhos tudo isso. Mas sei nunca serei capaz de imaginar como estar pra quem vivencia e vive a luta diariamente.

Por isso hoje acordei precisando escrever.

Vou usar a licença poética para também usar a frase recentemente parafraseada por Julia Reichert, e ainda acrescentar:

Trabalhadores do Brasil, uni-vos! Negros e negras do Brasil, uni-vos! Indígenas do Brasil, uni-vos! Mulheres do Brasil, uni-vos! LGBT's do Brasil, uni-vos!

Todos nós que nos sentimos parte de alguma minoria (que por ironia da língua portuguesa, ainda somos a maioria no país), do Brasil, uni-nos!

O ódio está vencendo. Não deixemos!
A nossa luta é gigantesca, vamos adiante!



Eulalia Nogueira Mota é minha filha, grande companheira, formada em Direito e pós-graduada em Advocacia Criminal.