domingo, 28 de fevereiro de 2021

O Carnaval das Borboletas

 (Horrores em Tempos de Coronavírus -I)             




Marcia decidira que naquele ano iria sair no carnaval. Perderia a vergonha. Descobrira que, com uma única dose da caipirinha, soltava seu corpo e arriscava alguns passos de dança. Amava o carnaval de sua cidade. Os sons e os ritmos das bandinhas traziam de volta a menina que ficou lá trás. A prima já a havia convidado desde sempre; esta jamais faltaria a um bloco de carnaval. Era a animação transvestida de estudante de química. Sua química era bem outra: muita alegria e muita sedução. Ângela e Luciana também estavam na roda. Quatro amigas mais outras tantas que foram se aconchegando.

Uma semana antes começaram a fazer as fantasias. Marcia nunca ousara vestir uma minissaia ou uma blusa mais extravagante. Foi criada como moça de família, moça virgem para o casamento, moça de bons modos. Não se havia permitido nem se olhar nua no espelho. Aliás não existiam espelhos na sua casa senão aqueles pequenos com molduras alaranjadas. Só via seu rosto. Agora havia decidido cair na folia. Ângela, a amiga artista nas costuras, bordados e tantas outras invenções, sugerira sair como odalisca. Faria para Márcia, uma calça e uma blusa, esvoaçantes, nos tons azul marinho para destacar sua pele muito branca. Enquanto para si faria nos tons amarelos para realçar sua pele morena. Tidinha, a prima, escolhera o vermelho e Luciana, o verde escuro. O quarteto de odaliscas estava formado. As quatro procuraram aprender alguns passos da dança do ventre e prometia alvoraçar os colegas com muita sensualidade e beleza.

A ansiedade tomou conta das meninas ainda bem antes das ruas. Combinaram quando e onde iriam as odaliscas mineiras nos quatro dias do carnaval juiz-forano. Sexta-feira haveria um baile numa boate famosa da cidade e um dos proprietários havia convidado a festeira Tidinha que, de imediato, aceitou desde que pudesse levar as outras três. Feito e combinado foram logo escolhendo seus trajes para aquela noite de estreia no carnaval. Era uma das boates mais famosas da cidade e o início do baile estava previsto para as vinte e duas horas. Para lá se foram as quatro borboletas coloridas e esvoaçantes após se encontrarem num local combinado. Estavam lindas.

Uma mesa as esperava com todo o requinte que o ambiente exigia. Tidinha logo encontrou um antigo namorado e voou para junto dele. Lucinha ficou sentada, à espera do acaso, Ângela era a mais animada. Dançava para si. Não precisava de nenhum outro. Marcia estava atônita. Era sua estreia num baile de carnaval como aquele. Percebeu que estava sendo flertada por um simpático rapaz. Ficou quieta vendo-o dançar com outras moças. Até que chegou e convidou-a para dançar. Marcia, que sempre ouvira de seu pai sobre seu desarranjo nos passos, arriscou aceitar e foi para o meio do salão. Começaram a conversar: Como é seu nome? Perguntou ele. Ela respondeu e devolveu a pergunta. “É de Prata”, foi a resposta dele. Ela logo pensou que ele estaria debochando dela e, instantaneamente, respondera: “Pensei que fosse de ouro.” A música acabou e ele agradeceu a parceira. Marcia voltou para a mesa e ficou a observar os dançantes.

De repente um alvoroço tomou conta do lugar. Foi o tempo de Marcia ver um jovem caído ao chão. Estava ensanguentado. Na correria para a saída Marcia pode ver o rosto de um jovem transtornado, com sangue na sua roupa e um estilete comprido na mão

A noite acabara naquela hora. Cada qual de volta pra sua casa. Marcia entrou em casa sem nem mesmo saber como chegou ali. No dia seguinte, as emissoras de rádio anunciavam a morte de um estudante numa boate da cidade. E, por volta do meio dia, o prédio onde morava fora cercado por policiais. Olhou pela janela e viu um vizinho ser conduzido até um camburão. Ele virou o olhar e encontrou o olhar de Marcia. Teria pensado que fora ela a denuncia-lo? Esta ideia ficou nos pensamentos de Marcia que logo pedira abrigo na república de Tidinha.

Na tarde do sábado as meninas haviam combinado desfilar na avenida num bloco de universitários. Embora ainda com a cena da noite anterior bem viva dentro delas, foi decidido que manteriam a programação. Ângela era a mais tranquila. Lucinha ainda perguntava o que teria acontecido. Tidinha estava noutro planeta depois do cigarrinho de cannabis. Marcia estava ressabiada, mas acompanhou o voo das borboletas.

No ponto de encontro dos estudantes foi lhes oferecido o cheirinho da loló. Só Lucinha não aceitou. Dançando e cantando “prá não dizer que não falei das flores” o bloco chegou na avenida principal da cidade. Nesse momento Marcia se viu tonta, a visão embaralhada, o estômago dando reviravoltas. Mais tarde só lembraria que sentou-se no meio-fio e um braço lhe socorreu. O trio havia seguido o bloco. Estava num bar bebendo Coca-Cola. Ao seu lado o jovem da boate. Edir Prata era seu nome. Tratou-a com gentileza e cuidados e oferecera para leva-la para casa. Marcia não conseguia nem pensar para onde deveria ir. Tidinha estava na avenida com as duas amigas. Ela tinha medo de voltar para sua república e encontrar o vizinho. Aceitou ir para o apartamento daquele que não era de ouro. Ainda conseguiu esboçar um sorriso ao lembrar da noite anterior.

O rapaz sugeriu que tomasse um banho e fosse descansar um pouco. Marcia acordou no meio da noite. Um cheiro de sopa caseira pairava no ar. Ela saboreou o caldo leve. Agradeceu os cuidados e pediu que a levasse para a casa de Tidinha.

Ele prometeu leva-la na manhã seguinte e tranquilizou-a. Era um apartamento bem cuidado. Tudo nos seus devidos lugares. Limpo. Decorado com simplicidade, mas tudo de bom gosto. Um só quarto com uma cama de casal, um enorme guarda-roupas. A cozinha em estilo americano. A sala ampla e um espaço com uma luxuosa escrivaninha.

Marcia acordou com uma mesa de café da manhã e flores. Estranhou tanta dedicação, mas se calou. Edir Prata falou de seu trabalho como gerente de banco. Disse que já algum tempo vinha gostando dela e, por meio de Tidinha, soubera de todos os seus passos. Confessou que estava apaixonado por ela. Falou sobre seus familiares vivendo num sítio numa cidadezinha próximo dali. Falou dos pais e dos irmãos mais novos que viviam dos produtos da roça. Convidou-a para irem até lá naquele domingo de carnaval. Marcia aceitou o convite desde que passassem na casa de Ângela, a mais pé no chão, e dissessem para elas não se preocuparem.

Ângela não estava em casa. Havia dormido na casa de amigas. Marcia deixou o recado.

Viajaram brincando e cantando, embora Marcia ainda estivesse um pouco enjoada. Seria bom sair da cidade. O ar do interior lhe faria bem, pensou ela.

Pararam no meio do mato, sem casas visíveis ao redor e Edir Prata pediu-a que descesse. Queria lhe mostrar umas árvores raras daquela região. Seguiram por um caminho estreito, adentraram pela mata e encontraram uma cabana abandonada.

Aproximaram da cabana. Ele abriu a morta e um cheiro forte de carne apodrecida saiu de dentro do espaço escuro e sem janelas.

Ele pegou-a pelo braço, empurrou-a para dentro. Trancou a porta e gritou.

-É aqui que guardo aquelas que amo.

E foi-se embora ouvindo apenas o silêncio que emanava daquele lugar.

28/02/2021 (Em clima de horror frente ao bolsonarismo)


Fotografia: feita por mim numa visita ao distrito de Córrego do Feijão - Brumadinho - cinco meses após a tragédia-crime da Vale em janeiro de 2019.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Carnaval de 2021

 

Neste carnaval meu coração bateu aos sons da cuíca, do pandeiro e, às vezes, do surdo, que lhe deu voz. 

Então meu coração cantou esparramando pelo mundo todas as dores das famílias das duzentas e cinquenta mil pessoas mortas pela Covid-19 num país presidido por um genocida.

E eu chorei fora da avenida.

(Exercício da oficina de escrita Ronald Claver, fevererio de 2021)