quinta-feira, 4 de junho de 2020

Crônica: "A caminhada ecológica"

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XIII)

Era natal. Meados dos anos noventa. Todos os quinze netos e meu filho ainda bem pequenino estavávamos na casa dos meus pais aguardando a noite em que Papai Noel traria os presentes.

“Que tal uma caminhada Ecológica?” Era a tia querida, no caso eu mesma. O ânimo foi total. Sugeri bermudas e tênis, uma vez que faríamos uma longa trilha pela maior depressão geológica da cidade e, onde na minha infância, buscávamos água para beber. Era onde eu amava ver as lavadeiras dentro do curso d´água batendo suas roupas nas pedras.

Meninos e meninas eufóricos e dispostos a tal empreitada. Certamente não sabiam o que era uma caminhada ecológica e nem imaginavam do que se tratava aquele convite. Pois iriam aprender. E lá fomos nós com a compania do Tio Paulinho, o mais querido, e seus dois filhos.

Descemos a ladeira da minha rua e andamos pela desértica rua de baixo. Alguns já queriam desistir. Todos estavam entre cinco e treze anos. 

"Tô cansado", era um deles.

“Nem pensar! Nossa caminhada ainda nem começou!”

Esta era eu animando meus sobrinhos e sobrinhas.

Logo chegamos à rua por cujo final se estende a fontinha. Agora seria só entrar no amplo gramado que serpenteava todas aquelas bicas de água natural que descia dentro da montanha como um rio subterrâneo.

Porém, eis que a minha fontinha havia sido inundada pelas águas das recentes chuvas de dezembro. Só havia brejo. Não declinei do meu intento e convoquei toda meninada àquela aventura.

Água até os joelhos, tênis barreados, bermudas molhadas e uns ajudando outros que se agarravam no barro. Ariane com uns seis anos, barreada até a cintura, não quis continuar nossa trajetória. Então seu pai, o querido Tio Paulinho, trouxe-a de volta.

Finalmente vencemos o pântano em que havia transformado minha fontinha. Pura emoção, sem queixas e alguns com os olhos arregalados, continuamos nossa viagem.

Atravessamos a cancela de arame farpado que demarcava aqueles imensos pastos baldios para que as "criações" (vacas e bois) não entrassem em terrenos alheios. Começamos a segunda etapa da nossa aventura: subir a trilha no meio da montanha bem perto do buracão mais assustador da região.

Finalmente chegamos num beco estreito por entre quintais de pequenas casinhas. Estávamos nos fundos do Bairro de Santa Efigênia com sua população composta na grande maioria por pessoas negras e pobres. Eu já conhecia aquela região e sempre admirava os coloridos em épocas das festas de folia de Reis e de Santa Efigênia. Lá em cima havia a igreja da santa que deu nome ao bairro.(1)

Estávamos bem longe de casa.

Eu não parava de falar um só minuto com meus sobrinhos durante todo o percurso. Eles escutavam atentos e maravilhados. Expliquei que ali era a metade do círculo que faríamos até chegar a nossa casa. Portanto, a partir dali, começávamos o retorno. Completaríamos o contorno de trezentos e sessenta graus (assim eu ensinava a geometria)

Estávamos no final da longa Rua Barão de Suassuí que inicia no centro da cidade alta. Mostrei-lhes o colégio estadual, suntuoso prédio pintado em verde e em arquitetura moderna para aqueles tempos. Ali eu havia estudado o ginásio e o científico que já foram renomeados para “ensino fundamentral e ensino médio", respectivamente.

No início da mesma rua, mais próximo da nossa casa, também havia o casarão da Tieta, construção do século XVIII, que abrigara o Grupo Escolar Inconfidência, onde também iniciei minha vida estudantil quando ainda criança. Eu aproveitei e lhes falei sobre a Inconfidência Mineira, obviamente floreando minha paixão pelos inconfidentes e suas inconfidências. Nos porões daquele casarão nossos inconfidentes haviam se encontrado por muitas vezes para suas reuniões secretas quando tramavam os movimentos libertários do nosso país que, naquele tempo, era a maior e mais rica colônia de Portugal (assim eu ensinava aos meus sobrinhos sobre história, geografia e política).

Por esta rua passava todo o ouro que vinha de Ouro Preto e Ouro Branco indo para a corte, no Rio de Janeiro.(2) 

Contei-lhes que o terreno daquele casarão, um imenso pomar de frutas, com inúmeras jabuticabeiras, ia até os fundos da rua onde ficava nossa casa e, roubar jabuticabas naqueles pomares da Tieta, era a grande aventura dos pais deles.

Mais história de casarões famosos.

-“Estão vendo esta escola ali?” Era eu apontando para outro casarão, próximo dali. Era a casa onde viveu, por uns tempos, o famoso escritor Bernardo Guimarães. E lhes falei da novela Escrava Isaura, baseada no livro escrito por ele enquanto morava ali. Naquele tempo da nossa caminhada a casa já abrigava o Colégio Monsenhor Horta.

Mais uma ladeira para subir e já estaríamos quase fechando nosso círculo por interio.

Enfim, com todos cansados, encharcados, felizes e mais ricos em conhecimentos, chegamos à casa da vovó e do vovô. Nossa casa!

Avaliando hoje, penso que tudo teria sido perfeito se as únicas lembranças desta aventura tivessem ficado por conta dos filhos e filhas barreados. Entretanto minha honra, que já não era tão imaculada, ficou suja demais.

Até hoje a caminhada ecológica com a tia Zarinha é lembrada com gostosas gargalhadas pelos sobrinhos e sobrinhas, hoje pais e mães, mas ainda com muitas reprovações pelas cunhadas e irmãs que continuam reclamando dos tênis e das roupas novas que ficaram imprestáveis.


Notas:
(1) Hoje esta capela, localizada num dos pontos mais altos de Conselheiro Lafaiete, está totalmente restaurada e dando à cidade um aspecto de sua história e de sua cultura religiosa.

(2) Hoje toda a rua Barão de Suassui que termina no Bairro Santa Efigênia em direção a Ouro Branco e à fazenda das Carreiras ou Casa de Tiradentes é, para mim, um dos trechos mais bonitos da Estrada Real)




02/06/2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônica: Mateus 5:10


(Delicadezas em tempos de Coronavírus XII)


Jamais esqueci este episódio que, por muitos anos, vem ressoando na minha memória como se fosse um devaneio. Ainda agora, quando me lembro dele, parece um fato inverossímil.
Pois bem, eu havia me oferecido para trabalhar como acadêmica estagiária num projeto inovador na reeducação e posterior reinserção social de menores infratores.

Era início dos anos 70. Estávamos em Barbacena. Para tal eu teria que estudar acerca dos objetivos do projeto assim como da pedagogia e da metodologia a serem usadas e tantos outros estudos. Uma cartilha havia sido elaborada pela equipe dos profissionais idealizadores. Várias entidades públicas, multidisciplinares, participaram daquilo que seria uma revolução no trato dos menores infratores em Minas Gerais.

Escolhido local para sua implantação, selecionadas as equipes de trabalhadores e, tão logo, os meninos começaram a chegar de várias cidades, encaminhados pelos órgãos competentes da justiça mineira.

Não lembro porque abandonei este estágio ou se esqueci de propósito. Mas lembro do acontecido que eu ouvira, talvez, através do noticiário de uma rádio como tinha o hábito de fazer durante minhas várias viagens.

O locutor informava sobre uma fuga em massa dos meninos detidos no prédio onde funcionava o projeto. Vários policiais e funcionários do “Instituto” já procuravam por eles. Alguns haviam sido recapturados e estes contaram como decidiram e planejaram a fuga.

Na tarde anterior à fuga um religioso havia ido falar sobre o evangelho de São Mateus. Tão logo havia terminado a palestra, os meninos, apoiados no versículo dez, fizeram dele a senha para a rebelião e a fuga, pois, como nos disse São Mateus “bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus”.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020