terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MINHA MENSAGEM DE NATAL



  

  Meu pai sempre dizia que o carnaval era a festa do ano que ele mais gostava. Explicava do jeito dele que todos ficavam felizes. Saíam para as ruas com sua fantasias e suas criatividades. Não havia diferenças entre pobres e ricos, brancos e negros, machões e gays. Eram todos iguais.

 Já o Natal escancarava as desastrosas diferenças das camadas sociais. Havia lágrimas em seus olhos quando falava dos pais que não tinham condições financeiras para comprar presentes para seus filhos. E ele entendia bem dessas dores.

 Acho que meu pai, lá no fundo, sabia o que estava dizendo e tinha razão.

 Hoje, aos 95 anos e com plena lucidez, ele continua dizendo a mesma coisa.

 Entretanto, reconhece sua alegria, nas noites de Natal, ao receber em sua casa seus 22 netos, seus quase 17 bisnetos, seus filhos, genros, noras e todos que vieram somar e constituir sua grande família. 

"...e isto dinheiro não compra", emenda ele. 

(Agradeço aqueles que leram, curtiram, comentaram e compartilharam meus contos e, com os dizeres do meu pai, desejo a todos vocês um Natal à maneira de cada um, desde que seja com muitas alegrias, com familiares e amigos por perto. Que venha 2015 cheio de mais desafios e coragem.)



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Dois amores de Rosa



É chegado mais um Natal. Para Rosa, jamais será apenas só mais um natal. Ano após ano ela esperava por este dia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


UM PRESENTE DE NATAL

   O tempo era das chuvas. Mas também era o tempo do Natal. E as chuvas não davam trégua. E o Natal estava chegando.

   Já não havia roupas para o vestir, nem para as camas e os banhos. Minha mãe ficava nos cuidados da casa, era um leva e trás de roupas da área para o fogão a lenha e dai para o ferro a brasa onde ela acabava de secá-las.

   A área era uma continuação da nossa cozinha e onde minha mãe guardava milho e farelos para as galinhas. Ali também ficava a lenha para o fogo diário e um enorme forno de barro sobre uma armação de madeira. Era de chão batido e telhas de cerâmica feitas na própria região. Nossa cozinha tinha o fogão de lenha mais bem feito que eu conhecia. Era todo vermelho assim como o piso. Mas era naquele forno lá de fora que minha mãe fazia quitandas variadas e deliciosas. As rosquinhas de salamunico eram as minhas preferidas mas ficavam dentro de grandes latas bem fechadas. Elas seriam liberadas para o café depois que todas as outras qualidades já tivessem acabado. E eu ficava esperando até por semanas.

   Havia toda uma ciência no preparo daquelas merendas, assim como no armazenamento e na liberação para os filhos ou visitas. As broas de fubá e os cubus, aqueles assados em folhas de bananeiras, tinham pequeno tempo de sobrevida pois deterioravam mais rapidamente, portanto eram os primeiros a serem servidos. Depois os bolos de farinha de trigo. A seguir seriam os biscoitos assados de polvilho. E, finalmente as deliciosas rosquinhas trançadas e lacradas nas latas de vinte litros. Lembro bem dessas latas. Elas vinham com gorduras, farinhas, leite e mais não sei o quê. Eram enviadas pelo governo americano para alimentar o povo brasileiro que vivia na miséria. Acho que o programa americano chamava "Aliança para o Progresso". Deixemos os americanos para lá.

   Tia Teté, também minha madrinha, sabia como ninguém a arte de fazê-las e trançá-las. As tais rosquinhas ficavam ainda mais gostosas. Ela também fazia os tarecos que pareciam ser feitos da mesma massa, com muitos ovos, muita nata daquele leite de vaca de verdade, farinha de trigo e o salamunico. Muito tempo depois, já nos meus estudos de química, saberia que se tratava de sal amoníaco. Mas as quitandas da minha cidade eram e ainda são feitas de salamunico. E é com esse fermento de nome esquisito que elas se tornam saborosas e inesquecíveis.

   Bem, as chuvas continuaram para nossas alegrias e dos lavradores e para o desespero das mães com tantas crianças e roupas para lavar e secar.

   "Este ano elas resolveram se invernar", dizia minha mãe. 

   Minha rua virava uma enxurrada de lama vermelha e eu ficava imaginando o encontro de tanta água com nosso rio logo ali perto.

   "Será que o rio vai encostar nas traves do gol?" Perguntava meu pai. 

   Outros lembravam de enchentes passadas quando o rio invadia plantações, pastos e até o bonito campo de futebol da minha cidade. Eu só ficava escutando e imaginando aquele mundão de água vermelha.

   E o Natal? Como Papai Noel vai chegar neste fim de mundo se nem tem estrada?

   Meu pai, naquelas noites, à luz de lamparina, contava histórias de Tiradentes, de D. Pedro I, de Portugal. Hoje, eu penso que ele aproveitava aquelas noites e nos ensinava a história do Brasil. Mas as histórias que eu mais gostava eram aquelas da coleção de contos e lendas dos índios da Amazônia e dos fantasmas andantes da floresta. Eu dormia com todos eles dentro do meu quarto. 

   Às vezes ele nos ensinava canções natalinas, tocava flauta ou conversava com os compadres. Falava das cidades por onde andara com seu pai que era caixeiro-viajante.

   E o Natal estava chegando e a chuva continuava...

   Meu pai faz aniversário no dia vinte e dois de dezembro e minha mãe jamais deixou de fazer seu doce predileto, aletria. Sempre com muita canela. Mas o doce de natal que eu mais gostava era a sopa dourada, feita com muitas gemas e pão umedecido ao leite. Ela também preparava doces de laranja-da-terra, de figo, de pêssego. A aletria era encomendada e vinha da cidade vizinha. E todas as frutas eram colhidas no nosso imenso quintal.

   Aquela pergunta não se calava ou seja, as estradas deixarão o Papai Noel chegar? 

   Os poucos carros e seus donos não arriscavam sair pelas estradas que cortavam nossa pequenina cidade. Duas delas serpenteavam o rio e, portanto, estariam tomadas pela cheia. As outras eram em perigosos ribanceiras e morros que ofereciam riscos de acidentes.

   Papai Noel certamente não arriscaria. Era muito perigoso.

   E chegou o Natal. Durante o dia não haveria missas. Mas a noite tinha a Missa do Galo que eu adorava mas cochilava antes mesmo das epístolas. Acabava sempre dormindo no banco duro de madeira até o Amém. 

   Debaixo de chuva e sobre o barro lá fomos nós para a benção do nascimento do Menino Jesus. Meus pais aconselharam que colocássemos nossos sapatinhos debaixo da bela árvore de natal que eles haviam feito.


  "Talvez Papai Noel conseguiria chegar montado num cavalo", disse meu pai.

   A cada ano era uma árvore diferente. Um ano era um galho de pinhão. Outro ano era de jabuticabeira, era a que eu mais gostava. Às vezes era de goiabeira. Eles eram muito caprichosos naqueles enfeites natalinos. Sempre inventavam novidades

   Tá na hora de dormir.Todos os cinco filhos na cama, ansiosos por aquela noite tão esperada. E difícil foi dormir com tanta ansiedade.

   Na manhã seguinte acordamos com um som familiar que via da nossa sala, bem perto de nós.  

  Papai Noel havia passado, ainda tivera tempo para entrelaçar nossos calçados e ali deixara, amarrado, um único presente.

  E fora nosso Natal mais feliz daqueles tempos com o cabritinho berrando e brincando conosco o dia todo. 



27/11/2014


Mais de meio século depois da história deste conto, nosso querido Rio Xopotó tem novamente sua águas extravasadas por toda a região ribeirinha.






PS: Fotos gentilmente cedidas por Vicente Teixeira.
Enchente 15/12/2016.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ANA

                                                               
Toda vez que a avó olhava aquela menina seu coração batia deferente. Assim como diferente era aquela menina. Parecia homem na valentia mas doce no conviver. Tinha nome pequeno mas tudo nela era grandioso. Às vezes tudo nela era aos avessos. 

Fora desde cedo abandonada pelo pai, um jovem das aparências boas e do caráter duvidoso. A mãe, uma menina que viera do interior, tomou todas as vergonhas do mundo para si e escondeu a barriga crescida. Chorou noites inteiras. Perdera o amor de sua vida ao dizer que esperava um filho dele.

A cidade grande não lhe trouxera sorte. Nada estava a seu favor. A família não perdoaria. Todos os santos e santas deixariam de lhe abençoar. A patroa dispensou seu trabalho de doméstica logo que percebeu o estado da jovem.
Mandou-a de volta com sua barriga.

Dorinha tomou rumo de volta para casa. Não havia palavras a dizer. O que estava feito estava feito. Quando o tio de Dorinha, irmão do pai, viera tirar satisfações, o pai do moço retrucou: "a moça de vocês estava a disposição e meu filho é homem e não deixou ela na vontade". 

E a vontade da moça era que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo. Seu sonho acabou. Agora era ajudar a mãe na plantação do milho, da mandioca, do feijão e na colheita, à terça, do café. O pai havia falecido de anemia. A mãe ficara com seis filhos e Dorinha era a mais velha, tinha apenas catorze anos. Agora era ficar em casa escondendo as vergonhas.

A mãe chorava de desgosto. Tomava bronca dos outros se demonstrasse perdão e carinho para com a filha.

Foi chegado o dia de nascer aquela criança. Chamaram a parteira que morava na distância de uma légua dali. Tudo nos arrumados da boca fechada. Ela veio e deu as ordens na casa: muita água quente, muito pano limpo, uma tesoura e um barbante. Dorinha não chorou. Suportou as contrações que amiudavam no tempo e aumentavam na intensidade. Suas dores eram outras. E estas eram muito maiores.

Nasceu a menina. Ana seria seu nome. Dorinha, em seu silencio, já havia escolhido. Sua filha teria o nome da avó do Menino Jesus. Fora uma promessa em agradecimento à sua mãe. E a avó aqui da terra, quando ouviu o choro da menina, sentiu uma dor profunda no coração.  Nunca conseguira dizer daquela dor. Uma dor para sempre. Ali estava sua primeira neta. 

-"E se o padre não quiser batizar ?"  O falatório foi geral. Uns defendiam que a criança devia ser batizada. Outros diziam que se o padre batizasse aquele criança seria uma blasfêmia. A menina era filha do pecado e devia viver com o pecado. Por vários dias aquele assunto tomou conta do povoado.

O dia a dia naquela casa passou a ser uma mistura de alegria, de resignação, de vergonha, de carinho, de pecado. 

Todos viviam confusos com seus sentimentos.

Até que um dia a casa recebera uma visita nada esperada. O pároco. Ele queria conhecer a menina e esbravejou por deixá-la sem o batismo, o primeiro sagrado sacramento. Marcou a cerimônia e a criança fora salva. Acabou o falatório.

Ana cresceu rápido. Aprendeu as onomatopeias dos bichos e conversava com eles. Aprendeu a ler com a mesma facilidade. Perguntou uma vez pelo pai. Ele veio conhecê-la. Prometeu ajudar nos estudos e na criação da menina. Não apareceu outra vez nem ajudou em nada.

Dorinha casou com um bom homem. Ana pode escolher com quem ficaria. Para alívio da avó, fora a escolhida. A menina ia crescendo na beleza, na inteligência, na ajuda da lida da casa, nas iniciativas. De repente virou moça. 

O pai apareceu de novo. Ofereceu estudos na cidade grande. Ana ficou de pensar. Passados alguns dias sua decisão fora tomada. A avó sentiu aquela dor de novo. Seu coração estava a lhe dizer alguma coisa. Não sabia o que era. Sua neta faria quinze anos nos próximos meses. O pai prometera uma festa.

Dorinha despediu da filha com palavras de amor e de muitos conselhos. Chorou muitas vezes às escondidas. E muitas vezes o sono não viera. Ficava abafada e o coração não cabia no peito. Os dias se tornaram longos e tristes. Nunca falou com a mãe sobre seus sentimentos. Ainda era só vergonha e respeito.

Numa manhã comum receberam a notícia. Ana havia morrido. Bebera veneno. Fizera isto no dia de seu aniversário de quinze anos. 

Mais uma vez, naquele derradeiro dia, as conversas giraram em torno das normas religiosas.

 "Seu corpo poderia passar na igreja ? Poderia ser abençoado?"

 "Não seria contra a Santa Amada Igreja tal benção?"

Na confusão alguém aproximou de Dorinha e deu-lhe uma carta. Dentro do envelope havia um bilhete. Reconhecera a letra da filha. Uma tia, irmã do pai de Ana, encontrara tal papel deixado por ela. Entendeu a importância e decidira entregá-lo.

Ana contava que seu pai abusara dela desde a primeira noite em que a trouxera para sua casa. Fizera ameaças caso ela contasse os acontecidos. Por aqueles dias descobrira que esperava um filho. No desespero só encontrara aquela saída. Pedia que fosse abençoada por sua mãe e por sua avó. E pedia perdão a Deus...

E Ana nunca estivera tão linda quanto naquele dia. Sua avó lhe enfeitara os cabelos com flores de laranjeiras, suas preferidas. Dorinha lhe vestira com o vestido branco que lhe havia feito de presente para seus quinze anos.

A igreja encheu. Cada qual trazia uma flor branca e depositava sobre o corpo de Ana.

Na igreja, os fiéis nunca ouviram o padre falar palavras tão bonitas. E todos se ajoelharam para serem abençoados.


05/12/2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

QUER CASAR COMIGO ?


                     QUER CASAR COMIGO ?                                     

Nessa ocasião eu já era uma mocinha e, portanto, deveria agir como tal. Vestidos decentes, cabelos presos, embora meus cabelos fossem compridos e lindos, eles não poderiam ficar soltos pois seriam provocativos. Posturas discretas e boca fechada. Assim me diziam que eu deveria ser. Ou seja, eu não poderia ser eu, apenas estar.

No tempo devido minhas férias chegaram e lá se foram nós para nossa terra natal. Haveria de ver muitos amigos e amigas e eu, nesse outro tempo, também estava interessada por aquele moço cuja voz eu jamais ouvira. Ele morava num sítio bem próximo à praça da minha pequena cidade. Ouvi dizer que ele havia ido trabalhar em São Paulo. Será que deixaria a mãe sozinha? Será que ele viria nestas férias? Será que ele gostava de mim? E eram muitas as minhas dúvidas. E nenhuma resposta.

A costureira havia feito um vestido que falava por mim. Era um tecido de crepe de algodão, que chamavam de “anarruga".  A estampa e o modelo eram “mamãe Dolores”. A novela "O Direito de Nascer" havia sido um grande sucesso na televisão e trouxera a famosa personagem com sua simplória indumentária.  Eu guardara aquele vestido para um possível encontro. Ele ficou muito lindo e eu fiquei muito bonita dentro dele.

Da ampla janela do sobrado, onde meu Tio morava, eu avistava toda a praça. Ficaria ali até ele chegar e, então, desceria e provocaria um encontro.

Ele não apareceu.

Minha prima mais velha do que eu, criada por este Tio, veio e me deu um recado. O Afonso queria conversar comigo. Ele era já um moço feito, com profissão, uma casa construída e terrenos e....sei lá mais o quê.
Lá vou eu. Na ausência daquele, chegou o outro. Eram primos e eu nem sabia.

Afonso era um belo rapaz. Educado, gentil, alegre, filho de boa família. Havia parado com seus estudos muito cedo e fora trabalhar. Conseguiu vencer na vida e, agora, queria se casar. Ele me falou belas palavras e razões de sua escolha. Eu ouvi, calada. Fiquei aturdida.

Entre a alegria do amor declarado e a tristeza da falta do outro, escolhi e cai no primeiro. Durante o resto de minhas férias fiquei envolta numa paixão que não era  minha.

Então voltei para o mundo dos estudos, das leituras e da minha rua.
Alguns dias depois uma carta chegou. Um pedido de casamento. Eu com apenas quinze anos. E agora?  Pensei, pensei e pensei. Então respondi ao meu pretendente dizendo de minha pouca idade, dos meus planos quanto aos estudos pois eu queria ser médica e do fato de eu não estar tão certa daquele amor. Aliviei minh’alma.

E a vida continuou. 

Até que, passados outros dias, cheguei em casa após minhas aulas e encontrei minha mãe e aquele minha prima que naquele tempo fora morar conosco para o curso de normalista. Estavam com caras de Madalena arrependida. Acuei e fiquei amedrontada.

Perdi o apetite.

Minha mãe me chamou para uma conversa. Repreendeu-me duramente por ter desfeito do rapaz, por ter recusado um pedido de casamento “daqueles” e de ter escrito uma carta desaforada. Mandou que eu escrevesse outra carta pedindo desculpas e aceitasse o pedido.  Minha prima, desde sempre muito católica e temente a Deus, havia feito aquilo comigo. Na certa era ela quem queria se casar.

E eu chorei pelo não entendido de nada. Eu nada sabia de noivados e casamentos. Sabia apenas do sentimento gostoso que me acometia quando pensava naquele outro que eu jamais iria ver.

Tentei  em vão escrever e pedir desculpas a Afonso. Nunca soube se ele me perdoou. Só sei que ficou ainda mais rico.

O tempo passou e eu não esqueci de Afonso. Lembrara dele com carinho e reconhecimento por suas conquistas na vida. Pedia a Deus que ele me esquecesse e que encontrasse uma moça merecedora de seu valor.
Mas da minha prima eu só lembrava cheia de raiva.

Meu lindo vestido continuou comigo. Acho que mamãe Dolores ficou do meu lado. Aprendi muito dentro de  seu vestido.

21/09/2014