sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ana Júlia



a menina
que sacudiu o Brasil
tem nome.
enquanto
nossa geração
viveu em  pesadelos
uma nova geração
acorda
de seu sono
e grita
por educação
e respeito
naqueles tempos
não podíamos falar
então cantamos.
naqueles tempos
não conseguimos sonhar
então fizemos artes
hoje
inspirados em Ana Júlia
vamos novamente
cantar
e fazer artes...

27/10/2016






quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A menina e o beija-flor


O pé era daquele fumo
das folhas raspentas
das flores feias
e do cheiro sem cheiro
Então veio o beija -flor
a menina sem piedade
deu-lhe uma vassourada
Vá lá entender as crianças
O bichinho caiu morto
a menina nem deu fé
O irmão sarcástico gritou
"não vai aprender a ler"
então a menina chorou
apanhou o corpinho morto
fez-lhe uma cova
e o enterrou
Mas a profecia maldita
pegou a menina
que depois
lia, lia e lia
e nada entendia.


01/10/2016




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Revisitar


          Ali
      um grande amor
      eu revi
      ele me sorriu
      e me abraçou
      Ah! 
      Esse tempo
      que não volta mais...

16/10/2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Fábula: O Gato emprestou suas Botas


   Dimitri já não tinha mais onde demarcar seu território com aquele seu líquido urinário mal cheiroso. O apartamento de Susi estava todo contaminado com o cheiro ácido da amônia. Mas o bichano continuava ora aqui ora acolá a urinar por onde encontrasse um espaço ainda não demarcado.
  
 Ele chegou para ela ainda tão pequenino que se escondia em lugares jamais pensado para esconderijo de um gato. Tinha sido acolhido nas ruas da grande cidade onde a mãe gata morrera atropelada e deixou os filhinhos desamparados e esfomeados. A futura dona quando fora escolher com qual deles ficaria disse que deixasse que todos fossem escolhidos e que ela ficaria com o rejeitado.

   Quando Susi chegou em casa com aquele gato-ratinho a mãe fora logo dizendo que ele era cego de um olho. Estava ali o fato de ter sido refugado. Mas aquele detalhe não fizera a menor diferença para o amor entre eles que já havia se instalado. E Dimitri logo procurou de mamar nas tetas secas da Princesa Consuelo a quem não parava de solicitar atenção. Passou a brincar todo o pouco tempo em que permanecia acordado. Cismava de dar corredeiras atrás da mãe arranjada. Dava pinotes no ar e logo se fez um belo gato.

   E numa noite a mãe de Susi escutou uma voz estranha que vinha de algum lugar escondido da casa. Levantou e caminhou em direção àquela voz desconhecida. E lá estava Dimitri batendo longos papos com a Princesa.

  -"Onde fica o aeroporto desta cidade? Preciso urgente fazer uma longa viagem"

  A mulher aterrorizada achou que estava alucinando ao ver um gato falar.
  
 Dai ouviu a vozinha aguda da gata respondendo:
   
-"Sei não. Mas para onde tu queres viajar?"
-"Quero ir para Moscou", respondeu Dimitri.

-"E o que tem lá para se embrenhar em tão perigosa viagem?"

 - "Preciso ir salvar minha Anastácia"

   Agora já era demais. A mulher descabelou de vez. Chamou a filha, dona do gato falante, e a levou para a sala. Susi pensou que ainda estivesse dormindo e sonhando. Dimitri logo pulou em seu colo e lhe pediu que providenciasse suas passagens pois não tinha mais tempo. Precisava salvar sua amada dos revolucionários russos.

   Princesa Consuelo também pulou para o colo de sua dona disputando lugar e atenção.

  -"E eu ficarei aqui sozinha?" Queixou-se ela já enroscando-se toda nos braços de Susi.

   A mãe continuava achando tudo aquilo muito estapafúrdio. Entretanto não conseguiu mais voltar a pregar os olhos bambos de sono.

  Agora a filha discutia com o casal aquela situação e prometeu a Dimitri pensar no caso. E que todos voltassem para a cama. Amanhã seria outro dia.

   E no outro dia ambas, mãe e filha, acharam que tivessem tido uma "Folie a deux". Mas logo depararam com os gatos já em discussão para encaminhar a solução. E foi ouvindo tamanho desespero que surgiu uma ideia gatuna na cabeça da proprietária daqueles gatos tagarelas.

  Então disse ela: 


-"De avião não tem jeito de vocês fazerem a viagem. Quem sabe vocês consigam viajar nos porões de um navio cargueiro? Assim ninguém verá vocês"

 -"E quem disse que eu quero viajar para uma terra gelada e ainda mais dentro de um navio? Nem pensar! Esse moço ai tá é doido de amor. Euzinha não!" Resmungou Princesa Consuelo toda dona de si. 


 Dimitri até então permanecia calado e pensativo.

 -"Já sei. Tive uma ideia. Vou pedir emprestadas ao Gato de Botas suas botas de sete léguas. Assim irei tão rápido e não molharei minhas belas patas peludas." E Dimitri saltou de alegria diante de tal possibilidade.

 Então ficou decidido que Susi levaria Dimitri até as montanhas e de lá ele iria buscar sua amada Anastácia calçado com aquelas botas mágicas emprestadas pelo Senhor Gatos de Botas que ficou de pernas para o ar, sem suas botas, na Praia de Itapuã, em salvador, na Bahia.
  
  Dizem que Dimitri encontrou Anastácia na bucólica cidade de Toledo, na Espanha, para onde ela havia fugido. Casaram no Castelo de Seteais, em Sintra, no Portugal. Tiveram muitos convidados. Susi não foi porque tem medo de avião. E Princesa ficou no seu castelo na Floresta.

  F
icaram sabendo que tudo havido saído nos conformes devido a confusão que aprontaram na lua de mel em cima dos telhados do Castelo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A escrivaninha do meu pai

    Meu pai nunca teve uma escrivaninha alta, se bem que certamente teria desejado ter uma escrivaninha alta e de jacarandá. Ele era dado a palavras bonitas e aos números. Sua caligrafia era impecável e sua aritmética não tinha lugar para erros. Sabia toda a tabuada e se orgulhava das contas feitas de cabeça. Ainda se exibia nas provas dos "novesfora", coisa que eu nunca aprendi nem entendi. 

   Da alta escrivaninha que meu pai não teve eu pegava um avião e viajava por seus atlas e seus países exóticos e desconhecidos. E é obvio que meu pai sempre estava junto em nossas aventuras. Arranjando nossos trajetos e se esbaldando na cabine do piloto.

   Mas, a escrivaninha que meu pai não teve, teria várias gavetas. Numa delas ele guardaria aquele seu estojo de nogueira, dividido em três compartimentos iguais e acolchoados de cetim verde. Ali dentro ficaria seu tesouro. A sua bela  flauta de madeira e aço inoxidável, presente da cunhada e professora de música dos tempos de adolescente. Em outra gaveta ele colocaria suas composições musicais e seus papéis relacionados ao coração.

   Mas, a escrivaninha que meu iria mesmo gostar, teria que ter muitas outras gavetas. Seria necessário uma escrivaninha alta e grande para que ele pudesse guardar suas histórias, seus sorrisos, suas dores, suas alegrias e toda sua família que ele tanto amava.

04/10/2016

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Casa Azul


A Casa Azul   

   Letícia sempre quisera ter sua casa no campo. Assim vivia a cantarolar a música interpretada por sua tão querida Elis Regina: "eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz". Sabia da impossibilidade de concretizar tal sonho naquela época da sua vida diante da turbulência com filhos pequenos, os empregos em cidades diferentes, casamento acabando sem acabar e condições financeiras tal qual a grande maioria de sua classe social naqueles tempos. 

   Até então ainda nem conseguira adquirir seu próprio apartamento. Pagava aluguel desde que se casara e as palavras do pai ressoavam em sua mente: "O dinheiro do aluguel é a prestação de sua casa". Sabia que o pai sempre estivera certo neste e em tantos outros conselhos. Encontrava dificuldades nas pequenas tarefas do seu dia a dia. Como pensar em comprar uma casa?
   Mas tudo isto não lhe impedia de sonhar com uma casa. Aprendeu e assim desejava. Os quartos das crianças deveriam ser voltados para o sol nascente. Sabia também que desejava uma ampla área de serviço pois sempre gostara de lavar roupas. Dizia que enquanto tirava os sujos das roupas também limpava sua alma. E uma biblioteca para seus tesouros, os livros.
   À medida que os filhos foram crescendo foi percebendo que se fazia necessário divorciar também deles. O que podia lhes ensinar já o havia feito. Agora era a vez do voo de cada um. Entretanto faltava-lhe a decisão e o verbo agir nunca fizera parte de sua vida. Era levada pelos outros.
   Um dia, nem sabe como o sucedido sucedeu, a filha mais nova anunciou sua saída de casa. E foi na mesa do café de uma manhã que Juju anunciou:
   -"Preciso estudar e o ambiente nesta casa não tem sido satisfatório para mim"
   Letícia sentiu-se aliviada. Moravam num belo apartamento numa grande cidade e as despesas estavam acima do orçamento dela. Não titubeou. Chamou a filha mais velha e decidiram separar-se. Sofia alugaria um apartamento pequeno e ficaria sozinha. Afinal já havia formado e tinha um emprego que iria lhe garantir a sobrevivência.
   E Letícia sentiu que agora era a sua vez. O que queria ela? Para onde ir? Eram as perguntas que fazia a si e, sabia, que não queria encontrar as respostas.
   Sempre quis viver na sua casinha no campo. Decidiu mudar-se para ela. Afinal a casinha estava lá. Ela, após a separação do marido, havia finalmente construído seu chalé no pé da serra e quase nunca aparecia por lá. A preocupação com as filhas lhe tomava todas as energias. Nada lhe sobrava.
   Contratou um caminhão. Contratou uma ajudante. E mudou. Mudou muito. Agora as noites são só suas. Às vezes um vinho tinto. Sempre uma boa leitura. Seus companheiros os cachorros adotados compartilham sua solidão. Descobriu que podia desejar. E desejou viver muito tempo ainda porque tinha amores deixados no tempo. De lado.
   Agora podia amar sem receio de pecar porque deu um jeito deste verbo escapulir de seu dicionário.
   A casa pintada de azul disse-lhe que seria eternamente sua cúmplice nos pensamentos e nos acasos. E a casa azul resgatou-a de si.