sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A novela turca




Sem sinal de TV e optando, para preservar minha saúde mental não assistindo os horrores da política brasileira atual, decidi pelas séries da Netflix. Minhas escolhas nunca agradaram minhas filhas que preferem assistir as complicadíssimas séries americanas. Prefiro aquelas épicas e recheadas de romantismos.

Eis que começo a ver "Resurrection - Ertugrul - O Grande Guerreiro Otomano". Logo nos primeiros capítulos fui capturada pela história, pelo figurino, pelas fotografias, pelo modo de vida das tribos nômades e pelas conversas cheias de metáforas.

Começarei então pela aventura histórica que acontece no século XIII, mais precisamente em 1250, quando os muçulmanos turcos Oguzes, da tribo nômade Kayi, se vêem diante de um grande conflito que poderia exterminar seu povo caso não reagissem e lutassem heroicamente. Do noroeste vieram soldados bárbaros das Cruzadas ou Templários que desejavam expandir seus territórios e sua religião a qualquer preço. E muitas vidas humanas foram ceifadas em nome do cristianismo, a mando da santa amada Igreja. A violência nas variadas formas de matar e as torturas impostas ao povo turco foram marcantes naquela época. E, pelo leste, chegavam os terríveis  mongóis assassinando e queimando as tribos e seus povos para a expansão do Império Mongol uma vez que queriam dominar a Europa.

Neste contexto aconteceram as lutas de resistência de um povo liderado pelo grande "Alp" -guerreiro turco - Ertugrul que foi um líder, filho do "Bei" ou Senhor da tribo Kayi. Eles se viram em meio ao fogo cruzado uma vez que seu território ficava exatamente no local estratégico tanto para quem queria ir para a Ásia, quanto para quem desejava ir para a Europa. E é neste ambiente que a novela acontece.

Se as cenas de lutas, nada bem feitas da TV turca, nos fazem criticar a série, por outro lado todo o enredo vai nos contaminando com as emoções em cada capítulo. 

O cuidado com as palavras, a preocupação com o bem estar da tribo, as histórias contadas pelo "dervixe"- monge muçulmano que faz votos de caridade -, as leis do alcorão e o respeito pelo outro, são exaltados durante todo o tempo.

Em relação ao figurino não foram poupados os adereços e os coloridos nas mulheres. As roupas são de dar inveja a nós, mulheres ocidentais de hoje. Entretanto muito mais visível que as vestimentas da época são as relações com "seus homens". Caladas, submissas, subservientes, são elas entretanto que dão toda a direção dos trabalhos e comandam, no silêncio, as atitudes de seus maridos. Responsáveis pelas mercadorias a serem vendidas em mercados turcos, elas confeccionam as tapeçarias colorindo as lãs, tosquiadas pelos pastores, com os mais belos tons. E os resultados são tecidos e tapetes ainda hoje desejáveis por todo o mundo. (Lembro que há muitos anos decorei meu consultório com um belíssimo "Kilim" nos tons salmão. Onde foi parar meu tapete oriental?)

As emoções ficam por conta das intrigas e traições de membros da própria tribo que, desejando ascensão e poder, se uniam aos templários ou aos mongóis. 

Os hábitos dos povos dentro e fora das tendas, os casamentos realizados nos interesses das tribos, as migrações nas primaveras, os invernos rígidos, as decorações e utensílios do dia a dia das famílias, nos dizem do muito que perdemos com os tempos vindouros. 

Se "meu dever de casa" da Oficina de Escrita era para falar sobre algo "acima de qualquer suspeita", digo que, mesmo sendo uma série de uma TV Turca, com vários defeitos nas filmagens, sinto um  prazeroso bem estar em conhecer outras culturas e outros tempos. E isto está acima de qualquer suspeita.




segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quero um galinheiro


Sempre pensei em ter galinhas no meu sítio. Houve um tempo em que minha mãe conseguia criar galinhas mesmo no pequeno terreiro da nossa casa em Lafaiete.

Lembro-me dela dentro do galinheiro queimando nosso lixo seco. Dizia que não devíamos juntar lixos pois não haveria tanto lugar onde descartá-los. Achava aquele pensamento dela arcaico e nada progressista. 

Logo depois o galinheiro virou a construção de mais um quarto e um banheiro. A família crescia e faltavam espaços para os netos dormirem quando das visitas nos finais de ano. Junto a isto os lixos da casa e do mundo aumentaram e a procura de soluções para o descarte deles passou a ser uma constante preocupação dos governantes e cientistas. Minha mãe tinha razão. As galinhas comiam pequenos restos de alimentos e nos davam o esterco para a horta. E quase não produzíamos lixos não biodegradáveis. Estávamos ainda nos anos sessenta.

Mais de meio século se passou e, somado ao problema do lixo doméstico, chegou um problema ainda muito maior. Onde e como descartar os lixos químicos, biológicos, industriais e todos os lixos tóxicos de maneia geral? Já não é mais um problema apenas para governantes e cientistas. O problema é nosso.

Sem perder de vista este grande desafio da humanidade quero mesmo é falar das minhas galinhas. Há cerca de cinco anos comprei umas dez galinhas e um galo. Já havia feito um galinheiro bem simples para recebê-las. Queria colher ovos, galar ovos, conseguir tirar uma ninhada e me fartar de recordações dos tempos de infância. Para minha surpresa, entretanto, logo foram acontecendo os imprevistos. O danado do galo cismou com umas duas delas e acabou matando-as de tanto copular com as coitadas e ficar bicando suas costas. Acabaram perdendo as penas e feriram a pele. Resultado: tivemos que sacrificá-las. E um dos meus cachorros corria de um lado para outro, ao longo da tela, até elas se cansarem e acabarem feridas. Mais galinhas sacrificadas. Acabaram-se as galinhas. E o galo virou uma saborosa panelada de galope.

Agora voltou o desejo de um novo galinheiro. O vizinho, muito habilidoso, tem construído no entorno de sua casa um verdadeiro zoológico para os dois filhos menores. A menina de apenas cinco anos
 entra no galinheiro como se também fosse uma moradora de lá. Lá, além das galináceas, tem um casal de ganso – o macho não gosta de mim. Basta eu chegar por perto para logo vir me bicar - um cabrito e coelhos.  Ou ficando passeando entre as mexeriqueiras, laranjeiras, mangueiras e outras frutas. Próximo da entrada do terreno ele construiu um canil muito ajeitado e um pequeno parquinho com brinquedos ecológicos. E é aqui que fica o menino de dois anos quando desaparece dos olhos da mãe. Meu vizinho ainda cuida da jardinagem no entorno da bela casa. 

Bem, voltando ao meu desejo de ter um galinheiro, hoje conversei com meu  construtor. Deu ideias boas. Tudo dentro dos planejamentos. Eu, calada, só ia pensando nas dificuldades para construir meu galinheiro. Lembrei-me da “Galinha da Gigi”(*) que pulou a cerca e fugiu se escondendo no terreno da casa da minha irmã. Depois de muitos dias procurando pela tal fujona eis que foi encontrada sob um ninho. Estava chocando seus ovos. Acho que é isto que eu quero. Desaparecer e encontrar meu galinheiro prontinho para eu possa tão só admirar seus viveres e chocar meus sonhos.

Pois, nestes tempos de um Brasil sombrio, teremos que encontrar saídas para nos manter bem vivos. Além disto, atire a primeira pedra, quem não precisa de outras vidas, mesmo que sejam das galinhas, para dar preenchimento às nossas faltas?





(*) A Galinha da Gigi é uma crônica escrita por mim e postada neste blog em 13/07/2017

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Enquanto assa a broa




Ela comeu um pedaço de broa na casa do irmão quando de sua última viagem a tão distante cidade. Ficou só pensando no tanto que gostou da mesma.

Morada Nova de Minas é uma linda cidadezinha na região central de Minas, às margens da Represa de Três Marias, do nosso querido Rio São Francisco. Sempre achou estranho o nome da padroeira do lugar, Nossa Senhora do Loreto. Foi procurar sua origem. Descobriu que a santa é protetora dos aviadores e com muitas histórias e lendas envolvendo a cidade de Loreto, na Itália. 

Mas não é disse que Maria Luísa quer falar embora não queira deixar de salientar os dotes culinários da cunhada. Nem da broa que a esperava para o café da tarde. Embora quisesse logo anotar a receita. Estava há muito tempo sem conseguir fazer uma broa assim. Apenas aquela de farinha de milho, sua preferida. Não se esqueceu das palavras da cunhada: “tem que colocar muito queijo. Queijo curado e dos bons”. 

Pois bem, ela havia feito uma primeira vez para receber seus familiares e foi um sucesso. Agora teria convidados para o café da tarde e, enquanto almoçava, a broa assava. E o aroma já invadia toda a casa.

Entretanto outra situação não saía de sua cabeça. Ontem, ao acaso, cruzou na rua com uma mulher que lhe deixou entre risos e lembranças. Não acreditou no que viu. 

Suas lembranças voltaram para mais de quatro décadas quando via algumas amigas tentando esticar os cabelos. Se eram afrodescendentes passavam um pente de ferro aquecido na brasa. Havia um tal de “henê”. Colocavam rolinhos e outras tantas maneiras. Era um sofrimento danado para cuidar dos cabelos. Aquelas que tinham cabelos corridos tentavam encaracolá-los com papelotes, principalmente nas vésperas das coroações a Nossa Senhora.

Maria Luíza tinha os cabelos compridos, brilhantes, castanhos claros e ondulados. Sem os shampoos de hoje, lavava-os com o que tinha às mãos. Cada dia passava o que lhe dava na cabeça. Abacate, sabão de coco, sabão caseiro. Quase vomitou quando passou babosa. O cheiro lhe deixou nauseada. Aprenderia muitos anos depois porque não gostava dos shampoos de Aloe vera. Tratava-se da sua babosa babona e fedorenta. Até que um dia resolveu, literalmente, passar seus cabelos com o ferro elétrico debaixo do papel de pão. Eles brilharam e arrepiaram. Ficaram totalmente eletrizados. Enquanto a mãe ria, ela chorava de raiva. Nunca mais quis fazer isto.

Mas a mulher com quem cruzou na rua trazia seus cabelos enrolados e cheios de grampos. Antigamente chamávamos de “tôca”a este processo de alisar os cabelos uma vez que o penteado lembrava uma touca, peça do vestuário em tempos de frio.

Maria Luísa lembrou que, nas raras vezes que tentou enrolar e grampear seus cabelos com uma “tôca” quase morreu de dor no couro cabeludo. A sensação era de que os cabelos, que deveriam ser enrolados por algum tempo para um lado e depois para outro lado, levavam junto todo o couro cabeludo que obedecia àquela manobra e ficava todo espichado. Ainda pode sentir a dor que aquela “tôca de grampos” lhe causava. Até que resolveu deixar seus cabelos serem eles mesmos. Ficaram lindos e felizes para sempre.

Agora ela fica pensando naquela mulher:

"Será que a mulher dormiu de 'tôca' e não viu o tempo passar?

Não tenho nada com isto. Ela que faça o que quiser com seus cabelos."

A broa assou e ficou muito saborosa.

18/07/2019


domingo, 7 de julho de 2019

Crônica: A VOVÓ DO DUDU


De uns tempos para cá ela vem estando muito cansada. Qualquer esforço um pouco maior no seu cotidiano já a deixa esbaforida. Deixou de criticar as ações do atual governo brasileiro – nem sequer ouvia mais as notícias de seu estado com o “novo” governador. Entretanto doía-lhe o peito cada vez que ouvia alguma notícia de violência ou ataque aos direitos humanos contra as pessoas mais vulneráveis do país. 


Nesta manhã chorou ao ver as labaredas criminosas no entorno da Aldeia Pataxó na cidade de São Joaquim de Bicas, próximo a Belo Horizonte. O medo vem sendo um dos meios usado para intimidar o povo. A violência, as mentiras, as injustiças, a força e todos os descalabros tomaram conta do país.

Um dia teve um piripaque em casa e foi levada a UPA de sua cidade. “Stress” disse o médico após constatar crise hipertensiva sem outras anormalidades. As vizinhas disseram que ela estava estranha e não dizia nada com nada. Os filhos assustaram. Ela afastou ainda mais de tudo que vinha acontecendo bem perto de si.

A tal reforma da previdência lhe deixava de cabelos em pé. O povo chileno já vinha sofrendo as terríveis consequências por terem feito tal mudança nas regras da aposentadoria. Aumentou o número de idosos desamparados e pobres. Não é possível que seu povo tão esperto não visse o buraco em que estão caindo! Lamentava ela.

Televisão ela já não via há quase um ano. Quis por bem que sua TV nova não captasse os sinais de telecomunicação da região. Optou por continuar sem ela. À noite lia seus livros ou assistia algum filme pela internet. Nada de TVs.

Mas estava atenta a cada pedaço de seu país vendido para os países imperialistas. Sentia como se arrancassem um pedaço de sua alma toda vez que ouvia falar sobre as estatais despedaçadas. Envergonhou e não quis ver o presidente apresentando as bijuterias de nióbio no encontro dos vinte países mais importantes do planeta.

Apesar do filho dizer e acreditar numa saída honrosa para tudo isto ela não tinha mais esperanças. Ele até emagreceu de tanto trabalhar, estudar, discutir e argumentar contra tudo que o presidente e sua corriola têm aprontado.

Para a vovó do Dudu o ódio e a ignorância haviam vencido os sentimentos mais nobres do ser humano. A dignidade, o amor, o respeito, a generosidade, a educação e a justiça sucumbiram. Haveria de começar tudo outra vez.

Ela que cantou “Maria Maria” via agora as Marias serem perseguidas e ultrajadas. Ela que cantou “caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais...” assistia agora os caminhos sombrios e emudecidos. Ela que gritou por ”Diretas já” vinha agora a jovem democracia adoecida. Ela que acreditou que “dias melhores virão” via agora um futuro sem futuro.

Enquanto ela vive tudo isto ainda consegue lembrar-se daquela noite fria quando o filho, a nora e o neto foram dormir na barraca. Dudu caminhou até ela, pegou na sua mão e a pediu para deitar com ele e sua mamãe no colchão improvisado dentro da barraca. Silenciosamente ela aceitara o convite. Não sem alguma dificuldade ela deitou num extremo do colchão, a mãe no outro e ele no meio. Ora tocava com as mãos o corpo da mãe e com os pés acariciava o corpo da vovó. Ora invertia as posições sem perder uma ou outra.


Dormiu o netinho. E a vovó ficou pensando em como sair dali. Saiu com a ajuda do filho que veio em seu socorro. Ela olhou para o menino e pensou em todas as crianças neste país tão desigual. 

Não conseguiu evitar uma lágrima teimosa.

07/07/2019

segunda-feira, 24 de junho de 2019

TERESA E O VERBO AMAR


                                           (*)

-"Teresa tem o dedo podre"! Disse o primo com uma sonora gargalhada.

Pronto. Afinal não seria preciso mais nenhum comentário. Naquela noite, após vários assuntos e muitas brincadeiras, falavam-se dos namorados e das namoradas. Como sempre acontecia, nestes momentos, Teresa ficava emudecida. Não gostava de ouvir os primos e primas falarem de seus sucessos nas escolhas dos parceiros. Não entendia porque jamais conseguira ser amada como gostaria nem porquê sempre escolhera e amara os homens “errados”. Fora sempre abandonada pelos namorados embora fosse uma moça bonita, inteligente e interessante. O último namorado não dava noticias. Tinha ido fazer testes de emprego noutra capital e não ligou mais. O celular não atendia. Os amigos a tratavam bem, mas diziam não saber dele.

Aos trinta e oito anos Teresa morava sozinha num apartamento que conseguira comprar através das políticas da casa própria do governo federal. Pagava uma prestação que cabia dentro de seu orçamento. Ainda não comprara seu carro. A primeira opção era sua casa. Decorou com elegância e classe. Poucos móveis escolhidos a dedo. Havia conseguido ser efetivada num concurso que fizera havia dois anos. Mudara de bairro para facilitar o acesso. Agora, pensava ela, é hora de me refazer na vida. Procurou um analista com boas referências, agendou um horário e encarou sua história de vida.

Teresa nasceu na mesma cidade onde ainda vive hoje. Nunca quis arriscar grandes mudanças. Gostava de música e de dançar. Seus pais faleceram num acidente de carro, ainda jovens. Ela e o irmão ficaram com a avó materna. Quando chegou a época do  alistamento, o irmão já havia decidido seguir a carreira militar. Naquela tempo cursava o primeiro período de administração na universidade federal. E lá se foi o único amigo. Teresa era bem mais nova. Quis estudar direito e a avó aprovou a escolha. A neta era uma moça muito solitária. Precisava de amigos e um namorado. Entretanto, poucos meses antes de sua formatura, a avó teve um AVC fulminante. Agora Teresa ficou só para além de sua escolha.

Um colega de turma aproximou, ofereceu colo e ela não recusou. Teresa apaixonou pelo colega. Teria confundido os sentimentos? Mais tarde já não conseguia viver sem o namorado. Esqueceu de viver sua vida e passou a viver a vida dele. Não souberam lidar com aquilo. As brigas vieram apesar do amor. Ele, que não deixava dúvidas acerca de seu amor por ela, passou a evita-la. Obviamente que o desfecho fora o fim do relacionamento. Teresa não sabia como sobreviver àquela separação. Mas sobreviveu. Quando vencera o luto decidira estudar para concursos públicos. As leis e seus tantos parágrafos e adendos levaram-na de volta à vida. Aos vinte e cinco anos saiu de casa da avó pois os filhos decidiram vendê-la. Não teve dificuldades para alugar um apartamento. Suas dificuldades estavam noutro plano. Pouco tempo depois de sua mudança, apaixonou pelo vizinho que lhe dera boas vindas.

Outra relação que lhe traria muitos dissabores. Ele bem mais velho, estava divorciado. Deitou e rolou com a mocinha. Entretanto, tão logo sentira preso no amor, deixou-a só. Foram dez meses de muito carinho, muitas viagens e muitas festas em família. Mas acabou-se. Desta vez Teresa sofreu ainda mais. Juntou suas lágrimas e se trancou em casa. Saia apenas para o trabalho. E a tristeza começou a fazer parte da vida dela. Aos amigos se desculpava dizendo que não sabia amar de outro jeito. Parecia que amava àqueles que, certamente, um dia lhe abandonaria.

Amou outros poucos homens. Sempre com muito desejo e paixão. E sempre sendo deixada por eles.

Hoje, ao escutar o deboche do primo, lembrou-se, que a única vez em que fora escolhida e muito amada, sentira sufocada por tanta felicidade. Por telefone, terminou o namoro.


(*) foto feita pela autora na estrada de Piedade do Paraopeba (distrito de Brumadinho)


24/06/2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Poesia: TICO-TICO-REI

De repente
bem perto
lá estava ele
Pequeno
Saliente
Bicando os grãos
Meu olhar
encheu-se de encanto
Tentei capturar a imagem
Ele bateu asas
e vou
Devo antes
pedir-lhe licença
Sua majestade,
perdoe-me
o atrevimento.
Mas,
por favor,
quando voltar
cante pra mim

17/06/2019





terça-feira, 4 de junho de 2019

Crônica: MEU COMPANHEIRO DE VIAGEM




                           (*)


Comprei minhas passagens com bastante antecedência. Com a tal cinetose é preciso viajar como um burro de cargas; com viseiras laterais; não que eu pudesse desviar do meu caminho mas quase morro de enjoos e dores de cabeça. Desde muito jovem aprendi que as poltronas ímpares estão na janela e que múltiplos de três estão do lado oposto do motorista. Sabia a posição do sol nas idas e vindas de todos os meus destinos.

Então, como sempre, comprei minha passagem número três apesar do sol estar batendo nela. Entretanto, sendo uma longa viagem, eu pegaria o sol nascendo, veria a estrada e as cidades da minha infância, não teria enjoos e quando o sol virasse eu estaria contra ele.

Mas deixemos minhas manias de viajante para lá pois quero falar do lugar vazio ao meu lado; poltrona quatro. Assim que deixamos a minha amada BH, pulou para a referida poltrona um senhor que certamente beirava sua idade com a minha. Devo dizer que, com minha perda auditiva, tenho grandes dificuldades em entender o que os outros dizem. Sempre olho para quem está falando para ter em meu auxílio os movimentos labiais. Porém, dentro de um ônibus, seria impossível a lateralidade dos meus músculos orbiculares. Eu morreria de dor de cabeça. 

O que fazer?

Desta vez eu queria ouvir as histórias daquele homem simples que estava indo visitar uma irmã em fase final de um CA que lhe consumia a face.
Contou-me que nascera na zona rural de uma cidadezinha próxima a Ponte Nova. (Lamento ter esquecido o nome. Gosto das cidades do interior de Minas). 

Contou-me que desde menino trabalhava na roça ajudando o pai que falecera ainda muito jovem. A mãe também morrera e ele ficou apenas com os quatro irmãos. Os tios ajudaram nesta fase. Não frequentou a escola. Não haviam escolas rurais naquela época. Assinava com o dedo. Depois desse tempo ele continuou plantando. Era só o que ele sabia fazer. Mais tarde saiu da casa dos tios e começou a se empregar numa ou outra fazenda até se tornar adulto. 

Disse-me que gostou muito de trabalhar com um desconhecido que precisava de alguém para limpar as sujeiras dos seus cavalos de estimação. Acabou se dando tão bem com os animais que fora promovido a cavaleiro e treinador. Chegou a viajar para as exposições com seus cavalos famosos. 

Logo que casou veio a mudança para Contagem onde conseguia um ou outro lote para capinar. Ficou alguns anos vendendo laranjas. Apareceu um emprego na construção civil. Os filhos foram chegando. Um encarregado gostou dele e o levou para uma empresa terceirizada da Refinaria Gabriel Passos, em Betim. Concluiu que precisava aprender a ler. Não se intimidou e se matriculou no MOBRAL - lembrei que na minha adolescência ensinei alguns adultos dando aulas neste que foi um grande "Movimento Brasileiro de Alfabetização"- 

E, nesse vai e vem de empregos, chegou seu grande dia. Foi escolhido entre vários outros colegas para fazer uma prova na Petrobrás. Fez e foi aprovado. A empresa o queria em seu quadro de trabalhadores e ele precisava trabalhar. 

Hoje, bem aposentado, conta orgulhosamente que dois filhos estão quase aposentando. (Eu errara na sua idade.) Meu companheiro de viagem estava com quase oitenta anos. Adorava viajar para visitar os irmãos. Estava muito preocupado com a irmã que "já não tem mais recursos e os médicos deram alta para ela voltar para casa"

Chegou o destino do simpático trabalhador brasileiro. Agora não mais anônimo. Sua história, igual a de tantos outros milhões de trabalhadores brasileiros, está carinhosamente registrada por dois ouvidos já ávidos para escutar mais histórias.

Obrigada meu companheiro e que Deus acolha sua irmã com alegria quando sua hora chegar.

Foi um prazer conhecer você.




(*) A foto foi feita por mim da janela do carro no alto da Serra da Mantiqueira nos arredores da cidade de Aiuruoca, no sul de Minas.


domingo, 26 de maio de 2019

Poema: Café de domingo







Acordei domingo

verdejando folhas

pela janela

tomando café comigo

Já nem sei se sou ipê

ou sou mangueira

Talvez a orquídea

florescendo

na sibipiruna

Quem sabe

sou o azul do céu

Ou verde árvore

sou areia do mar

ou água derramada.







26/05/2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

AMANTES OUTONAIS



                                                          (*)

A manhã estava esplendorosa. Era uma qualquer manhã de outono. 

A água fria da piscina exigia exercícios rápidos. Era preciso esquentar os corpos.

Apenas o coração daquela menina de sessenta e três anos já  se encontrava bem aquecido. Júlia estava ausente da hidroginástica havia mais de um ano. Ninguém dava notícias dela. De repente seu sorriso apareceu naquelas águas geladas antes mesmo do início da aula. 

Assim como o sol nossa colega estava radiante. 

Devagarinho e com muita alegria, vai contando sobre seu novo amor. As colegas damos risadas e escutamos a história daquele romance da terceira idade. Júlia voltou a ser a primeira namorada daquele jovem de setenta anos. E nos outonos das vidas o amor reacendeu dois corações. 

Cantado, decantado, falado, versado, declamado, sonhado, escrito nas estrelas e, por ai afora, está o amor. É preciso ter olhos para ver o olhar do outro. É preciso escutar o outro nas entrelinhas. É preciso se fazer desejada pelo outro. 

Mas eis a questão que se coloca para a grande maioria das pessoas: como se fazer querida ou querido quando não se reconhece portadora ou portador daquilo que poderia causar desejo no outro? O que tem Júlia, aos sessenta e três anos, ou o que tem Zezinho, aos setenta anos, para que, no reencontro, tenham se encantado de novo? 

Porém isto agora  não tem a menor importância para os amantes outonais.  

E que sejam amantes também no inverno, na primavera, no verão e, de novo, no outono. Para sempre ou enquanto durar a chama ardente da paixão. Sabemos bem que amor e paixão não tem idade. Só tem tesão.


(*) Foto feita pela autora da Sala Vermelha do Inhotim há em junho de 2017

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Lançamento do livro "Rosa nos Tempos"




É com enorme alegria que convido os moradores de Mário Campos, de Brumadinho, de Sarzedo e das regiões vizinhas para participarem comigo da noite de lançamento do meu primeiro livro de contos "Rosa nos Tempos". 

O evento acontecerá na noite de 18 de maio, sábado, na Parada do Gigante, do nosso amigo Carlos Alberto, na região do Funil, em Mário Campos.

Um pouco da minha história com a região: há quinze anos me encantei com o povoado do Funil. Logo comprei minha chácara, construí meu chalé e fui conhecendo as pessoas de lá. Descobrir que todos vieram de uma mesma família. Mais tarde viria saber que a cidade de Mário Campos nasceu a partir dali.

Mas o tempo passou, os filhos voaram, minha aposentadoria chegou e, junto, chegou meu desejo de retornar aos familiares que há mais de quarenta anos deixei em Conselheiro Lafaiete. Decidi voltar para aquela cidade e morar na mesma casa onde vivi criança. Obviamente que não me adaptei. As pessoas eram outras, minha rua era e a cidade era outra também.

Então voltei para os morros e as flores que tanto me fascinaram e que tanto embelezam o Funil. E, mais uma vez, as pessoas dali me receberam carinhosamente. Não pretendo sair daqui. Acho que meus pés já fincaram raízes nestas terras vermelhas de minério.

Tô aqui e por aqui quero ficar.

Abraços e obrigada a toda gente do Funil e região.





sexta-feira, 10 de maio de 2019

Conto: A camisola de dormir





                                         (*)


A menina bem que gostava de todo aquele luxo. A casa era a mais chique da rua. Os móveis clássicos davam a impressão de que ali não se deveria sentar. Os vários quartos com suas camas eram propriedades privadas. Nem pensar em olhar para aqueles recintos. Ali moravam sua tia com o marido, os filhos e sua mãe.

A menina brincava o tempo todo esperando a hora do café da tarde. Ou quem sabe não ficaria até o jantar para se deliciar com toda aquela comida gostosa. 

A avó ensinava os pontos básicos do crochê. Primeiro as correntinhas. Depois os buracos como se fossem redes. A seguir pontos abertos e pontos fechados que ela achava muito bonito. O ponto aranha viria por fim. Ela nunca gostou deste ponto mas sabia do seu lugar de destaque nas peças crochetadas por ele.  A irmã aprendia com muito mais facilidade mas não tinha a tal disciplina exigida pela avó que logo arrumava uma desculpa para mandá-la de volta para a casa da mãe.

A menina se fazia de boazinha para ganhar privilégios. Atendia a todos os pedidos e ordens da avó e da tia. Percebia que havia algo de estranho no ar no que se referia a ela mas resistia a tudo pelo prazer dos quitutes. Entretanto na hora dos tais cafés da tarde, enquanto devorava os bolos e os pães caseiros, lembrava dos irmãos em casa. Certamente estariam comendo angu frito que, de propósito, havia sido feito em demasia na hora do almoço. Lembrava da irmã que fora embora a mando da avó ou da tia.

Terezinha era o nome da menina que si fazia de boazinha. Logo ela aprendeu, de forma muito perigosa, a ter mais dias naquela casa. E já aprendera muitos pontos no crochê que a avó não parava de ensinar. A irmã, que aprendera com muito mais desenvoltura, já confeccionava todo tipo de trabalho, até o famoso ponto segredo que Terezinha sempre achava o mais bonito.

Um dia a avó mandou que Gracinha, a irmã, começasse a crochetar uma camisola na linha mais fina, cara e das cores mais bonitas que existia: uma mercê-crochê na cor rosa claro. Gracinha não se intimidou. Começou logo seu trabalho com capricho e encanto. Certamente a avó iria lhe presentear por seu trabalho. A cada dia a tal camisola ia crescendo e ficando mais perfeita.

E a camisola ficara pronta na semana do aniversário de Gracinha que, toda contente, tinha certeza que seria  presenteada com seu trabalho. Pensava que a avó iria lhe fazer uma surpresa. 

Terezinha ficava só admirando o talento da irmã que estava virando uma mocinha muito linda. Ia fazer doze anos. E ela ficaria muito feliz dentro daquela camisola cheia de pontos difíceis.

Chegou o aniversário da irmã. Logo cedo ela foi para a casa da avó. Estava ansiosa para ganhar o presente. Na hora do almoço a tia disse para que ela voltasse para casa porque a mãe poderia estar esperando e ficaria preocupada. Nada de presentes. Talvez a avó tivesse esquecido. 

No outro dia Gracinha fora lá bem cedo e a avó pediu que buscasse uma folha de presente bem bonita. Lá fora a irmã cumprir o pedido. Ou a ordem? A avó então diz para a neta que aquela camisola era um presente para Aninha, a neta filha de um outro filho seu. Aninha era vestida como se fosse uma boneca. E era educada para ser princesa.

A irmã voltou para casa. Era só tristeza e raiva. 

A mãe das duas irmãs vivia muito doente. Então elas suspeitavam que a avó e a tia rica falavam que o filho não deveria ter se casado com ela. Gracinha juntou isto com aquilo e foi à forra. Nunca mais voltou para cumprir pedidos ou ordens.

Mas Terezinha continuava indo pois sua gula falava mais alto que seu orgulho. Não quis mais aprender crochê. Passou a ficar só brincando com a prima e sua bonecas. Uma delas era do tamanho da prima e até falava "mamãe".

E os tempos passaram. Eles são implacáveis. 

Gracinha cresceu "topetuda" como dizia a mãe dela. Casou. Teve quatro filhos. Virou a avó mais doce da família. Hoje ela faz inúmeras peças em crochê e muitas roupas para as netas. Sem quaisquer discriminações.

Terezinha não gosta de crochê. Amarga ainda hoje a desfeita que a avó fizera com sua irmã. E amarga ainda mais a sua gula, a sua falta de solidariedade com a irmã naqueles tempos. Só de uma coisa ela se orgulha: do imenso amor que sente por Gracinha e da saudade da mãe adoentada.



(*) Foto feita pela autora no hall de um hotel em Amsterdã - julho de 2018

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Crônica: Viagem a Muriaé





Decidi que desta vez eu iria lá. Já houvera um encontro da turma no mesmo local e outros tantos convites. Recusei todos. Agora foi diferente. Eu queria ir; precisava ir e fui. A principio estava decidida ir de carro, mas pensando bem, comprei passagens e viajei por mais de seis horas até Viçosa. Ali visitei uma velha colega da pediatria e revi primos. De lá fomos de carro para nosso destino final: Muriaé. Meu amigo mandou um motorista nos buscar. Chegamos depois das vinte e uma horas. Valeu!

O tempo estava quente e o céu salpicado de estrelas. 


























Muitos abraços. Muitos sorrisos. Uma mesa posta para o jantar. E uma casa saída dos filmes de faroeste. Em estilo rústico, com muitas histórias sobre sua construção. Acho que voltarei para ouvir essas histórias. E a noite foi pequena para tantos assuntos.

Na manhã seguinte, após um café com frutas e coalhada libanesa, o anfitrião nos levou por entre seus jardins. Flores, árvores, arbustos, caminhos tortuosos, talude de antúrios, espaços de descanso debaixo de pérgolas coloridas, redes, bancos. Uma capela da Sagrada Família com telhado em escama de peixe, projeto contemporâneo de iluminação e pedras nas paredes do barranco escarpado.

Meus passos, algumas vezes, se perderam entre tanta exuberância da natureza. A flor da vitória-régia convocou nossos olhares para um dos lagos. O jardim japonês até que tentou colocar ordem no nosso caminhar. Mas já estávamos perdidas e perdidos no emaranhado de tanta beleza.

Nosso anfitrião, calmamente, ia respondendo nossas inúmeras perguntas. "Aquela é uma árvore africana e seu nome é 'para soleil'", "aquele é um baobá", "vejam aquela com tronco cor de cobre". Além de espécies raras há também o cultivo de árvores frutíferas para atrair pássaros. O jambeiro está na sua época de frutos e pensei que eram maçãs. Muitos jambos avermelhados pontilhando o chão. Meu colega sabe os nomes científicos de todas aquelas plantas. E tem cada nome!

Quis conhecer o galinheiro e a história da raposa que visita a casa e dorme numa toca bem ali pertinho.

Chegou a hora do nosso almoço em Pirapanema, distrito de Muriaé, na Serra do Brigadeiro. Observar as montanhas lá do alto foi um momento único naquela viagem.

Para o jantar mudamos de casa. Agora nossa anfitriã é uma mulher de outras artes. A música. E ouvimos músicas que encantaram nossos ouvidos. Conversamos. Lemos poemas. E rimos por quaisquer lembranças. Variados e deliciosos pratos nos foram servidos. Naquela hora ao som de uma música cubana.

Na manhã de domingo um café bem mineiro. Despedidas e a volta para casa.

Agora fiquei aqui pensando no meu colega anfitrião que, em tempos de faculdade, não conseguia parar tamanha ansiedade. Tinha suores por todo o corpo, risos nervosos e passos apressados. Hoje seus suores brotaram em flores, seu corpo exala as fragrâncias de suas plantas e seu andar tem a firmeza dos troncos de suas árvores. Penso que foi recriado num sopro especial. Não foi por acaso que se tornou um grande Pneumologista.

Temos outro colega na cidade que, em tempos da faculdade, andava desvairado pelas ruas da cidade. Entretanto mais tarde, ficaria embriagado pelos acordes da musicista e se encontraria na perdição do amor.

Concluo que Gênesis e seu sopro da vida andaram soltos por Muriaé.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Poema: Visitações



Em Brumadinho 

arrebanho o amigo.

Desorientado,

perdemos o caminho

Meu olhar rearranja o trajeto.

Ponte nova, 

estradas novas, 

caminhões vários

Uniformes alaranjados

lama por todos os lados

“Lá no alto estava a barragem”

Córrego do Feijão - Unidade Básica de saúde

Mulher amarelada

Debilitada. Pressão alta

Uma supervisão clínica na mesa do café:

Depressão grave. 

Quem vai atender?

“A vale deu tudo,

até cadeira de roda elétrica;

sem precisão”

No bar, pastel de queijo com café.

Rumo Parque da Cachoeira

Caminho da lama

Militares buscam o corpo do Sô Manoel

“A irmã correu 

 ele voltou para buscar não sei o quê.”

A vida e a morte debaixo da lama

e do capital.

Vale?



  ...e a estrada acabou. Agora só lama

 Meu Deus, tende piedade de nós.


 Procurando Sô Manoel.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Carta aos Familiares de um Homem Desaparecido

Funil, Mário Campos, 15 de abril de 2019

Prezados Familiares de José Odilon

Uma chuva mansa começa a cair na região onde moro e com ela as lembranças tomam novo colorido.

Desde à tarde do domingo, dia 7 último, tenho estado com vocês. Meus olhos iniciaram numa viagem  incessante e meus pensamentos foram  junto numa louca tentativa de encontrar Odilon.

Não o conheci senão quando as palavras já vinham perdendo os sentidos e os verbos não eram mais significativos de ações. Apenas um belo sorriso iluminava sua face. Entretanto sua história, contada em versos e prosas por Selma, me encheu de uma grande admiração por este homem que, certamente, esteve muito além de nosso tempo, seja enquanto psicólogo, ambientalista ou idealista. 

Sei que não há o que dizer nestas horas. Há que estar ao lado. E, ao lado de vocês, nestes dias que passam rápidos e nestas horas que demoram séculos, estamos centenas de pessoas. Pessoas desconhecidas que, sentindo suas dores, dão-se as mãos e também procuram-no por todos os cantos. 

Queridos Familiares e Amigos, penso que Odilon foi em busca dos tempos perdidos, como Marcel Proust nos escreveu a fim de "alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente 'recriada pelo nosso pensamento' ”.

Ou, quem sabe, foi se encontrar com alguns de seus inúmeros pacientes que lhe deixaram lembranças acolhedoras. Talvez tenha ido a Andréquicé se entrever com seu amigo, o vaqueiro Manuelzão para, numa prosa sertaneja, caminhar ao lado de Guimarães Rosa e viajar no lombo de um burro pelo sertão das Minas Gerais.

Selma e Familiares ainda nos anos oitenta me dediquei ao estudo das demências quando já vislumbrávamos um futuro sombrio para a população brasileira que começava a ter um aumento significativo na expectativa de vida. Ainda eram raros e pouco diagnosticados os casos da Doença de Alzheimer. Logo depois comecei a atender, em meu consultório, alguns casos que chegavam trazidos por familiares. Posso afirmar que, diante de cada caso com diagnóstico confirmado, eu chorava no depois. E, depois, fui aprendendo com os familiares e cuidadores, a doce missão de viajar de volta no tempo com nossos portadores de Alzheimer.

De uns tempos para cá tenho falado que a mãe natureza é sábia por demais,pois, através de uma doença tão drástica, nos dá uma segunda chance para vivermos de novo todas as nossas dores e nossos amores.

E continuemos a procurar o caminho de volta junto a José Odilon.

Abraços respeitosos

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Poesia: O João-de- Barro



Ele chega de mansinho
pousa no para-brisa
vê sua imagem refletida
e bica o vidro
Repetidas vezes ele beija 
sua fêmea  que
do lado de lá
lhe beija também.
Voa pelos arredores
e volta a beijar
Fico ali 
morrendo de ciúmes da imagem
refletida.

05/04/2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Quando comecei a escrever

Já morava em outra cidade. Durante algumas semanas das férias voltava para minha terra natal. Ali eu pensava que tivesse um lugar. Caminhava desenfreada pelas raras ruas entre os morros. Havia duas praças. A principal ficava na região do meio, entre a outra no alto e a ponte de madeira sobre o Rio, mais embaixo. 

Junto das minhas exuberâncias adolescentes havia na cidade uma promessa dos jovens rapazes que saíam para estudar técnicas agrícolas em Barbacena ou engenharia florestal na Universidade Federal de Viçosa. E muitos deles  conseguiam ser aprovados naqueles vestibulares tão concorridos. Outros, talvez aqueles sem recursos, acabavam indo para São Paulo em busca de empregos. Eu ficava admirando uns e apaixonando por outros. Obviamente guardava em segredo todas aquelas paixões. 

Com treze ou catorze já havia decidido que faria engenharia florestal em em Viçosa.

Para acolher tantos amores e sentimentos novos precisava de um diário. Então comecei a escrever.

Nesta época aconteceram dois fatos que marcaram a minha vida para sempre: eu me aproximei de uma menina da minha idade que tinha as pernas paralisadas. Ela vivia em cima da cama. E me apaixonei por um novo morador da cidade.

A menina era muito linda mas o moço era muito feio. Nunca soube o que havia visto nele. Talvez a novidade ou algum charme captado por meu coração. Acho que as coisas aconteceram juntas e tinha um por que. Minha nova amiga havia se apaixonado pelo irmão mais velho do outro. Este sim era tão bonito quanto sua apaixonada. Estava tudo explicado. Duas meninas amando dois irmãos.  Estes irmãos nos deram muito o que falar além de me deixar sonhando várias semanas e de consumir quase todo meu primeiro caderno de diário.

Porém, nisto tudo havia um detalhe deveras importante: a ascendência dos dois irmãos. Eram filhos do mais novo fazendeiro promissor da cidadezinha que logo seria eleito prefeito. 

Deu-se entretanto uma uma tragédia a seguir. O mais velho, ajudando o pai prefeito na conservação das estradas de terra, foi vítima de um acidente quando a patrola mononiveladora que dirigia virou num barranco sobre ele. A morte o levou com seus dezoito anos. Eu nunca havia visto a morte tão de perto. Para suportar a presença dela bem ali ao meu lado eu escrevia. Foi o jeito conseguido para dar nome àquele sentimento avassalador, até então desconhecido.  

Certamente, graças às minhas escritas confidenciais, sobrevivi ao primeiros amores e à primeira morte.

Quase meio século se passou desde então. Mas, ainda hoje, o nome do amor da minha amiga continua entranhado nas minhas memórias e, como canta seu homônimo, "você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir".

01/04/2019




sábado, 30 de março de 2019

2000 curtidas



Hoje tem sido um dia especial.

Emocionar com a Exposição RAIZ do artista plástico chinês AI Weiwei no CCBB (BH) com belíssimos e intrigantes trabalhos.

Ler nas paredes das várias salas da exposição:

"Se uma nação não pode enfrentar o seu passado, não há futuro".

"A história nos ensina que no início das maiores tragédias havia ignorância."

E ter chegado hoje ao número de 2000 pessoas curtindo os "Contos de Rivelli" me enche de esperanças. 


São pessoas de todo o Brasil e de mais de 30 países.

Obrigada leitores

    Maria do Rosário Nogueira Rivelli

30/03/2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

Crônica: Angu doce frito


                                                       *
Na primeira manhã de outono, ainda bem cedo, sai de casa. Após atravessar Betim, Contagem e Belo Horizonte pela BR Fernão Dias, subir o anel rodoviário em direção à BR 040 e viajar quase que totalmente no automático, cheguei a Ouro Branco. É ali que, às vezes no final da tarde, passeio com meu netinho pela feirinha semanal dos pequenos produtores rurais da cidade. Nesta quinta-feira, de novo, saboreamos o delicioso mingau de milho verde "com muita canela né vovó?".

E, após conseguir negar o convite "vovó dorme aqui na minha casinha" saí para Lafaiete aonde cheguei por volta das vinte e duas horas. Viajar pela Estrada Real me leva de volta a muitos outros tempos.

Nesta semana cismei em fazer angu doce, deixá-lo esfriar de um dia para outro e fritá-lo no dia seguinte. Adoçado com rapadura, é claro. Como sempre acontece ficou apenas na vontade. Precisaria do fubá de moinho d'água, do fogão a lenha e de uma boa rapadura. Até que conseguiríamos tudo isto. Entretanto, nos dias atuais, estaria faltando o imprescindível de faltar: a meninada impaciente para esperar o angu cozinhar e para rapar o caldeirão de ferro deixado no terreiro. Ainda fritarei este meu "angu doce frito" na banha de coco da lata branca e verde da cozinha da minha mãe.

Pois bem, após não me lambuzar do dito angu doce frito, fui dormir porque no dia seguinte um compromisso  profissional me aguardava. E a primeira noite deste outono me exigiu dois cobertores. Adorei o frio repentino.

Outono e frio. Um me desfaz em pedaços e o outro me refaz no aconchego.

Minha filha chegara para ir comigo à cidade onde nasci que se localiza na Zona da Mata Mineira. Brás Pires. E para lá nos dirigimos na manhã de sábado. Nesta semana minha tia que olhava com as mãos, que tinha a sabedoria estampada em gestos, que tinha o olhar falante e que se reinventou depois da loucura, deixou-nos. Morreu depois de longos anos acometida de um câncer e da demência consequente ao diabetes crônico. Certamente ela fora cantar e dançar com todos os seus pretendentes deixados de lado. Foi a mulher que mais referências me deixou ao longo de sua vida. 

Visitas feitas. Agradecimentos à prima que dedicou aos cuidados da minha tia por longos anos e com imenso desvelo.

Voltamos numa tarde morna prometedora de chuva. Minha filha encantada com as estradas que, pela primeira vez, desbravava. Eu refazendo os caminhos da infância. E, durante toda a viagem, senti o sabor do angu doce frito, senti os ventos do outono cortando a minha pele e pude sentir os cuidados da minha Tia por todo o meu corpo ainda criança.

Acho que sobrevivi pelos carinhos que vinham para além dos cuidados.

Observação: * Foto feita pela autora à entrada da cidade de Lamin.

25/03/2019


















quinta-feira, 14 de março de 2019

Amores contados: ...que falta ele me fez.

   Foto: Bruxelas  

Ela bem que tentou dar continuidade ao namoro. Ele econômico nas palavras, como era seu costume, apenas enviou uma mensagem dizendo que não estava bem. Precisava de um tempo para si. Ela chorou sozinha por aquele amor que julgava para sempre. Chorou também pelo tempo dedicado ao namorado. Foram quase dez anos. Agora, já com seus trinta anos, chorava também com receio de não encontrar um novo amor. Começar tudo de novo; talvez não tivesse mais forças.

Depois de algumas semanas, ainda apaixonada mas sem importuná-lo com pedidos de reencontros, resolveu viajar. Com férias vencidas no trabalho numa grande empresa de cosméticos pediu para que as mesmas lhe fossem concedidas. Arrumou uma viagem para outro país e para lá se foi.

Dentro do avião conheceu um homem cujo destino era o mesmo seu. Conversaram sobre filosofia, política e amores perdidos. Obviamente que, naquele instante, visse nele sua tábua de salvação. Agarrou-se nela. Estava salva.

Na Bélgica, combinaram de saírem juntos. Pelas ruas de Bruxelas se encantaram com as histórias, as flores, os riachos, a arquitetura. Almoçavam nas praças do centro histórico da cidade ou nos finos restaurantes do conjunto das famosas e luxuosas Galeries Royales Saint-Hubert. No final de semana foram para a cidade medieval de Bruges, capital do estado de Flandres Ocidental. Os vários canais com seus barcos, sua construções medievais, seus castelos, suas igrejas e todo o colorido das flores deixaram Teresa esquecida do recente desfeito amor.


  Foto: Bruges (Bélgica)

E naqueles dez dias de viagem ela, sendo formada em direito, aproveitou para conhecer a cidade holandesa de Haia, sede do Tribunal Internacional de Justiça. Foi até lá sozinha. Sentia um grande peso apertando seu peito. Logo se deu conta que a liberdade lhe doía por dentro. Mesmo assim andou pelas ruas históricas da cidade. Procurou um café e, quando se viu, estava diante de um bar cubano. Ali estava um charmoso Café Havana. Sorriu sozinha aliviada daquele estranho peso. Agora estava acompanhada de toda a alegria do povo cubano. Havia lido, ainda na sua adolescência, acerca da colonização da ilha e os rumos políticos mais recentes. Gostava dela como se gosta de uma terra natal. 

Tomou seu café. Passeou pela decoração do bar. Sorriu sozinha ao entrar no banheiro e ver a identificação: uma típica cubana estampada numa das portas. Voltou leve para o hotel.

Mas o tempo da viagem acabou e a moça voltou para casa. Retomou sua rotina no trabalho. Estranhou que não recebesse nenhum telefonema ou mensagens do seu acompanhante de viagem e dos passeios turísticos. Porém recebeu flores e um bilhete de agradecimento pelos "dias maravilhosos" que passaram juntos. Era casado e havia ido para o exterior decidido pela separação. De volta havia repensado e retomou seu casamento. De novo ela chorou. Nem mesmo sabia porque chorou tanto.

Apesar do trabalho, dos amigos, dos familiares, de novas viagens, nada demoveu dela aquele amor que havia vivido nos dez melhores anos de sua vida. Continuava apaixonada pelo homem que lhe fez mulher. Não conseguia odiá-lo. Sabia do tanto que ele também gostava dela. Mas não sabia o que havia acontecido para o afastamento dele. Neste caso o tempo não havia sido um bom conselheiro. Ela não tinha dúvidas de que seria para sempre. Sendo assim foi reconstruindo no seu imaginário o seu amado. Conversava com ele no silêncio que a cada dia se prolongava mais. Via que tudo em torno a levava até ele. A cor de um carro. O nome de uma cidade no painel de um ônibus. Um sorriso qualquer numa calçada qualquer. Entretanto nem percebera que aquele homem esteve apenas dentro de si. Ela o havia criado para não estar só. Agora estava nas mãos de sua criatura. Então adoeceu de amor.

As amigas, que acompanhavam toda aquela mudança, decidiram que estava passando da hora de Teresa procurar ajuda psicológica. Escolheram alguns nomes e forçaram-na pelo tratamento.

- "Eu não tenho nada a dizer e nem vou deitar naquele divã que fica me olhando do lado de lá da sala." 

Neste tempo ela já havia iniciado suas idas a um psicanalista que ela mesma escolhera. Não suportava mais tanta dor.

Nos primeiros meses saía chorando de dentro do consultório e dizia que não voltaria na próxima semana. Não deixou de ir a nenhuma sessão. Tão logo percebeu o que estava lhe acontecendo. E isto trazia-lhe mais angústia. Até que um dia, caminhando pelas ruas teve o tal de "insight": o homem que amava era tão só um outro que não aquele com quem ficara por dez anos. Aquele ela desconhecia. Chorou muito diante do entendido.

E agora? 

Determinou a não deixar de amá-lo. Ele fazia parte dela. Eram um só. 

Mas aos poucos Teresa foi se envolvendo com outros afazeres. Voltou a sair com as amigas. Passou a ir mais vezes ao cinema. Fez pequenas viagens. O sorriso voltou a aparecer. Aceitou o convite de um colega de trabalho para um jantar.

As sessões de psicanálise continuavam semanalmente.

Depois de alguns anos começou a ficar triste. Era uma tristeza bem diferente. Sem perceber havia enamorado da sua própria solidão. Passou a comprar mais livros. Ir ao cinema sozinha. Até decidir sair da casa dos pais e ter seu próprio apartamento. Estava já com seus trinta e cinco anos. Não havia se interessado por outros homens.

Um dia percebeu que algo havia mudado dentro dela. Apavorou com os pensamentos que ora lhe vinham à cabeça. Era isto! Ela havia desconstruído o homem por quem tanto amou. Restou apenas aquele de fato. 

Então constatou o vazio deixado na sua alma. A existência dele era sua própria vida. E, portanto, a falta dele configurava sua morte em vida.

Não chorou. Apenas decidiu que fazia-se a hora de se reinventar. Caminhou leve pelas ruas da cidade. Entrou numa loja de roupas. Olhou-se no espelho e viu uma bela mulher.


14/03/2019 

Obervações: 1- Um ano do assassinato de Marielle e Anderson Gomes - Quem os matou?

                     2- As fotos são de feitas por mim.