terça-feira, 4 de junho de 2019

Crônica: MEU COMPANHEIRO DE VIAGEM




                           (*)


Comprei minhas passagens com bastante antecedência. Com a tal cinetose é preciso viajar como um burro de cargas; com viseiras laterais; não que eu pudesse desviar do meu caminho mas quase morro de enjoos e dores de cabeça. Desde muito jovem aprendi que as poltronas ímpares estão na janela e que múltiplos de três estão do lado oposto do motorista. Sabia a posição do sol nas idas e vindas de todos os meus destinos.

Então, como sempre, comprei minha passagem número três apesar do sol estar batendo nela. Entretanto, sendo uma longa viagem, eu pegaria o sol nascendo, veria a estrada e as cidades da minha infância, não teria enjoos e quando o sol virasse eu estaria contra ele.

Mas deixemos minhas manias de viajante para lá pois quero falar do lugar vazio ao meu lado; poltrona quatro. Assim que deixamos a minha amada BH, pulou para a referida poltrona um senhor que certamente beirava sua idade com a minha. Devo dizer que, com minha perda auditiva, tenho grandes dificuldades em entender o que os outros dizem. Sempre olho para quem está falando para ter em meu auxílio os movimentos labiais. Porém, dentro de um ônibus, seria impossível a lateralidade dos meus músculos orbiculares. Eu morreria de dor de cabeça. 

O que fazer?

Desta vez eu queria ouvir as histórias daquele homem simples que estava indo visitar uma irmã em fase final de um CA que lhe consumia a face.
Contou-me que nascera na zona rural de uma cidadezinha próxima a Ponte Nova. (Lamento ter esquecido o nome. Gosto das cidades do interior de Minas). 

Contou-me que desde menino trabalhava na roça ajudando o pai que falecera ainda muito jovem. A mãe também morrera e ele ficou apenas com os quatro irmãos. Os tios ajudaram nesta fase. Não frequentou a escola. Não haviam escolas rurais naquela época. Assinava com o dedo. Depois desse tempo ele continuou plantando. Era só o que ele sabia fazer. Mais tarde saiu da casa dos tios e começou a se empregar numa ou outra fazenda até se tornar adulto. 

Disse-me que gostou muito de trabalhar com um desconhecido que precisava de alguém para limpar as sujeiras dos seus cavalos de estimação. Acabou se dando tão bem com os animais que fora promovido a cavaleiro e treinador. Chegou a viajar para as exposições com seus cavalos famosos. 

Logo que casou veio a mudança para Contagem onde conseguia um ou outro lote para capinar. Ficou alguns anos vendendo laranjas. Apareceu um emprego na construção civil. Os filhos foram chegando. Um encarregado gostou dele e o levou para uma empresa terceirizada da Refinaria Gabriel Passos, em Betim. Concluiu que precisava aprender a ler. Não se intimidou e se matriculou no MOBRAL - lembrei que na minha adolescência ensinei alguns adultos dando aulas neste que foi um grande "Movimento Brasileiro de Alfabetização"- 

E, nesse vai e vem de empregos, chegou seu grande dia. Foi escolhido entre vários outros colegas para fazer uma prova na Petrobrás. Fez e foi aprovado. A empresa o queria em seu quadro de trabalhadores e ele precisava trabalhar. 

Hoje, bem aposentado, conta orgulhosamente que dois filhos estão quase aposentando. (Eu errara na sua idade.) Meu companheiro de viagem estava com quase oitenta anos. Adorava viajar para visitar os irmãos. Estava muito preocupado com a irmã que "já não tem mais recursos e os médicos deram alta para ela voltar para casa"

Chegou o destino do simpático trabalhador brasileiro. Agora não mais anônimo. Sua história, igual a de tantos outros milhões de trabalhadores brasileiros, está carinhosamente registrada por dois ouvidos já ávidos para escutar mais histórias.

Obrigada meu companheiro e que Deus acolha sua irmã com alegria quando sua hora chegar.

Foi um prazer conhecer você.




(*) A foto foi feita por mim da janela do carro no alto da Serra da Mantiqueira nos arredores da cidade de Aiuruoca, no sul de Minas.


domingo, 26 de maio de 2019

Poema: Café de domingo







Acordei domingo

verdejando folhas

pela janela

tomando café comigo

Já nem sei se sou ipê

ou sou mangueira

Talvez a orquídea

florescendo

na sibipiruna

Quem sabe

sou o azul do céu

Ou verde árvore

sou areia do mar

ou água derramada.







26/05/2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

AMANTES OUTONAIS



                                                          (*)

A manhã estava esplendorosa. Era uma qualquer manhã de outono. 

A água fria da piscina exigia exercícios rápidos. Era preciso esquentar os corpos.

Apenas o coração daquela menina de sessenta e três anos já  se encontrava bem aquecido. Júlia estava ausente da hidroginástica havia mais de um ano. Ninguém dava notícias dela. De repente seu sorriso apareceu naquelas águas geladas antes mesmo do início da aula. 

Assim como o sol nossa colega estava radiante. 

Devagarinho e com muita alegria, vai contando sobre seu novo amor. As colegas damos risadas e escutamos a história daquele romance da terceira idade. Júlia voltou a ser a primeira namorada daquele jovem de setenta anos. E nos outonos das vidas o amor reacendeu dois corações. 

Cantado, decantado, falado, versado, declamado, sonhado, escrito nas estrelas e, por ai afora, está o amor. É preciso ter olhos para ver o olhar do outro. É preciso escutar o outro nas entrelinhas. É preciso se fazer desejada pelo outro. 

Mas eis a questão que se coloca para a grande maioria das pessoas: como se fazer querida ou querido quando não se reconhece portadora ou portador daquilo que poderia causar desejo no outro? O que tem Júlia, aos sessenta e três anos, ou o que tem Zezinho, aos setenta anos, para que, no reencontro, tenham se encantado de novo? 

Porém isto agora  não tem a menor importância para os amantes outonais.  

E que sejam amantes também no inverno, na primavera, no verão e, de novo, no outono. Para sempre ou enquanto durar a chama ardente da paixão. Sabemos bem que amor e paixão não tem idade. Só tem tesão.


(*) Foto feita pela autora da Sala Vermelha do Inhotim há em junho de 2017

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Lançamento do livro "Rosa nos Tempos"




É com enorme alegria que convido os moradores de Mário Campos, de Brumadinho, de Sarzedo e das regiões vizinhas para participarem comigo da noite de lançamento do meu primeiro livro de contos "Rosa nos Tempos". 

O evento acontecerá na noite de 18 de maio, sábado, na Parada do Gigante, do nosso amigo Carlos Alberto, na região do Funil, em Mário Campos.

Um pouco da minha história com a região: há quinze anos me encantei com o povoado do Funil. Logo comprei minha chácara, construí meu chalé e fui conhecendo as pessoas de lá. Descobrir que todos vieram de uma mesma família. Mais tarde viria saber que a cidade de Mário Campos nasceu a partir dali.

Mas o tempo passou, os filhos voaram, minha aposentadoria chegou e, junto, chegou meu desejo de retornar aos familiares que há mais de quarenta anos deixei em Conselheiro Lafaiete. Decidi voltar para aquela cidade e morar na mesma casa onde vivi criança. Obviamente que não me adaptei. As pessoas eram outras, minha rua era e a cidade era outra também.

Então voltei para os morros e as flores que tanto me fascinaram e que tanto embelezam o Funil. E, mais uma vez, as pessoas dali me receberam carinhosamente. Não pretendo sair daqui. Acho que meus pés já fincaram raízes nestas terras vermelhas de minério.

Tô aqui e por aqui quero ficar.

Abraços e obrigada a toda gente do Funil e região.





sexta-feira, 10 de maio de 2019

Conto: A camisola de dormir





                                         (*)


A menina bem que gostava de todo aquele luxo. A casa era a mais chique da rua. Os móveis clássicos davam a impressão de que ali não se deveria sentar. Os vários quartos com suas camas eram propriedades privadas. Nem pensar em olhar para aqueles recintos. Ali moravam sua tia com o marido, os filhos e sua mãe.

A menina brincava o tempo todo esperando a hora do café da tarde. Ou quem sabe não ficaria até o jantar para se deliciar com toda aquela comida gostosa. 

A avó ensinava os pontos básicos do crochê. Primeiro as correntinhas. Depois os buracos como se fossem redes. A seguir pontos abertos e pontos fechados que ela achava muito bonito. O ponto aranha viria por fim. Ela nunca gostou deste ponto mas sabia do seu lugar de destaque nas peças crochetadas por ele.  A irmã aprendia com muito mais facilidade mas não tinha a tal disciplina exigida pela avó que logo arrumava uma desculpa para mandá-la de volta para a casa da mãe.

A menina se fazia de boazinha para ganhar privilégios. Atendia a todos os pedidos e ordens da avó e da tia. Percebia que havia algo de estranho no ar no que se referia a ela mas resistia a tudo pelo prazer dos quitutes. Entretanto na hora dos tais cafés da tarde, enquanto devorava os bolos e os pães caseiros, lembrava dos irmãos em casa. Certamente estariam comendo angu frito que, de propósito, havia sido feito em demasia na hora do almoço. Lembrava da irmã que fora embora a mando da avó ou da tia.

Terezinha era o nome da menina que si fazia de boazinha. Logo ela aprendeu, de forma muito perigosa, a ter mais dias naquela casa. E já aprendera muitos pontos no crochê que a avó não parava de ensinar. A irmã, que aprendera com muito mais desenvoltura, já confeccionava todo tipo de trabalho, até o famoso ponto segredo que Terezinha sempre achava o mais bonito.

Um dia a avó mandou que Gracinha, a irmã, começasse a crochetar uma camisola na linha mais fina, cara e das cores mais bonitas que existia: uma mercê-crochê na cor rosa claro. Gracinha não se intimidou. Começou logo seu trabalho com capricho e encanto. Certamente a avó iria lhe presentear por seu trabalho. A cada dia a tal camisola ia crescendo e ficando mais perfeita.

E a camisola ficara pronta na semana do aniversário de Gracinha que, toda contente, tinha certeza que seria  presenteada com seu trabalho. Pensava que a avó iria lhe fazer uma surpresa. 

Terezinha ficava só admirando o talento da irmã que estava virando uma mocinha muito linda. Ia fazer doze anos. E ela ficaria muito feliz dentro daquela camisola cheia de pontos difíceis.

Chegou o aniversário da irmã. Logo cedo ela foi para a casa da avó. Estava ansiosa para ganhar o presente. Na hora do almoço a tia disse para que ela voltasse para casa porque a mãe poderia estar esperando e ficaria preocupada. Nada de presentes. Talvez a avó tivesse esquecido. 

No outro dia Gracinha fora lá bem cedo e a avó pediu que buscasse uma folha de presente bem bonita. Lá fora a irmã cumprir o pedido. Ou a ordem? A avó então diz para a neta que aquela camisola era um presente para Aninha, a neta filha de um outro filho seu. Aninha era vestida como se fosse uma boneca. E era educada para ser princesa.

A irmã voltou para casa. Era só tristeza e raiva. 

A mãe das duas irmãs vivia muito doente. Então elas suspeitavam que a avó e a tia rica falavam que o filho não deveria ter se casado com ela. Gracinha juntou isto com aquilo e foi à forra. Nunca mais voltou para cumprir pedidos ou ordens.

Mas Terezinha continuava indo pois sua gula falava mais alto que seu orgulho. Não quis mais aprender crochê. Passou a ficar só brincando com a prima e sua bonecas. Uma delas era do tamanho da prima e até falava "mamãe".

E os tempos passaram. Eles são implacáveis. 

Gracinha cresceu "topetuda" como dizia a mãe dela. Casou. Teve quatro filhos. Virou a avó mais doce da família. Hoje ela faz inúmeras peças em crochê e muitas roupas para as netas. Sem quaisquer discriminações.

Terezinha não gosta de crochê. Amarga ainda hoje a desfeita que a avó fizera com sua irmã. E amarga ainda mais a sua gula, a sua falta de solidariedade com a irmã naqueles tempos. Só de uma coisa ela se orgulha: do imenso amor que sente por Gracinha e da saudade da mãe adoentada.



(*) Foto feita pela autora no hall de um hotel em Amsterdã - julho de 2018

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Crônica: Viagem a Muriaé





Decidi que desta vez eu iria lá. Já houvera um encontro da turma no mesmo local e outros tantos convites. Recusei todos. Agora foi diferente. Eu queria ir; precisava ir e fui. A principio estava decidida ir de carro, mas pensando bem, comprei passagens e viajei por mais de seis horas até Viçosa. Ali visitei uma velha colega da pediatria e revi primos. De lá fomos de carro para nosso destino final: Muriaé. Meu amigo mandou um motorista nos buscar. Chegamos depois das vinte e uma horas. Valeu!

O tempo estava quente e o céu salpicado de estrelas. 


























Muitos abraços. Muitos sorrisos. Uma mesa posta para o jantar. E uma casa saída dos filmes de faroeste. Em estilo rústico, com muitas histórias sobre sua construção. Acho que voltarei para ouvir essas histórias. E a noite foi pequena para tantos assuntos.

Na manhã seguinte, após um café com frutas e coalhada libanesa, o anfitrião nos levou por entre seus jardins. Flores, árvores, arbustos, caminhos tortuosos, talude de antúrios, espaços de descanso debaixo de pérgolas coloridas, redes, bancos. Uma capela da Sagrada Família com telhado em escama de peixe, projeto contemporâneo de iluminação e pedras nas paredes do barranco escarpado.

Meus passos, algumas vezes, se perderam entre tanta exuberância da natureza. A flor da vitória-régia convocou nossos olhares para um dos lagos. O jardim japonês até que tentou colocar ordem no nosso caminhar. Mas já estávamos perdidas e perdidos no emaranhado de tanta beleza.

Nosso anfitrião, calmamente, ia respondendo nossas inúmeras perguntas. "Aquela é uma árvore africana e seu nome é 'para soleil'", "aquele é um baobá", "vejam aquela com tronco cor de cobre". Além de espécies raras há também o cultivo de árvores frutíferas para atrair pássaros. O jambeiro está na sua época de frutos e pensei que eram maçãs. Muitos jambos avermelhados pontilhando o chão. Meu colega sabe os nomes científicos de todas aquelas plantas. E tem cada nome!

Quis conhecer o galinheiro e a história da raposa que visita a casa e dorme numa toca bem ali pertinho.

Chegou a hora do nosso almoço em Pirapanema, distrito de Muriaé, na Serra do Brigadeiro. Observar as montanhas lá do alto foi um momento único naquela viagem.

Para o jantar mudamos de casa. Agora nossa anfitriã é uma mulher de outras artes. A música. E ouvimos músicas que encantaram nossos ouvidos. Conversamos. Lemos poemas. E rimos por quaisquer lembranças. Variados e deliciosos pratos nos foram servidos. Naquela hora ao som de uma música cubana.

Na manhã de domingo um café bem mineiro. Despedidas e a volta para casa.

Agora fiquei aqui pensando no meu colega anfitrião que, em tempos de faculdade, não conseguia parar tamanha ansiedade. Tinha suores por todo o corpo, risos nervosos e passos apressados. Hoje seus suores brotaram em flores, seu corpo exala as fragrâncias de suas plantas e seu andar tem a firmeza dos troncos de suas árvores. Penso que foi recriado num sopro especial. Não foi por acaso que se tornou um grande Pneumologista.

Temos outro colega na cidade que, em tempos da faculdade, andava desvairado pelas ruas da cidade. Entretanto mais tarde, ficaria embriagado pelos acordes da musicista e se encontraria na perdição do amor.

Concluo que Gênesis e seu sopro da vida andaram soltos por Muriaé.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Poema: Visitações



Em Brumadinho 

arrebanho o amigo.

Desorientado,

perdemos o caminho

Meu olhar rearranja o trajeto.

Ponte nova, 

estradas novas, 

caminhões vários

Uniformes alaranjados

lama por todos os lados

“Lá no alto estava a barragem”

Córrego do Feijão - Unidade Básica de saúde

Mulher amarelada

Debilitada. Pressão alta

Uma supervisão clínica na mesa do café:

Depressão grave. 

Quem vai atender?

“A vale deu tudo,

até cadeira de roda elétrica;

sem precisão”

No bar, pastel de queijo com café.

Rumo Parque da Cachoeira

Caminho da lama

Militares buscam o corpo do Sô Manoel

“A irmã correu 

 ele voltou para buscar não sei o quê.”

A vida e a morte debaixo da lama

e do capital.

Vale?



  ...e a estrada acabou. Agora só lama

 Meu Deus, tende piedade de nós.


 Procurando Sô Manoel.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Carta aos Familiares de um Homem Desaparecido

Funil, Mário Campos, 15 de abril de 2019

Prezados Familiares de José Odilon

Uma chuva mansa começa a cair na região onde moro e com ela as lembranças tomam novo colorido.

Desde à tarde do domingo, dia 7 último, tenho estado com vocês. Meus olhos iniciaram numa viagem  incessante e meus pensamentos foram  junto numa louca tentativa de encontrar Odilon.

Não o conheci senão quando as palavras já vinham perdendo os sentidos e os verbos não eram mais significativos de ações. Apenas um belo sorriso iluminava sua face. Entretanto sua história, contada em versos e prosas por Selma, me encheu de uma grande admiração por este homem que, certamente, esteve muito além de nosso tempo, seja enquanto psicólogo, ambientalista ou idealista. 

Sei que não há o que dizer nestas horas. Há que estar ao lado. E, ao lado de vocês, nestes dias que passam rápidos e nestas horas que demoram séculos, estamos centenas de pessoas. Pessoas desconhecidas que, sentindo suas dores, dão-se as mãos e também procuram-no por todos os cantos. 

Queridos Familiares e Amigos, penso que Odilon foi em busca dos tempos perdidos, como Marcel Proust nos escreveu a fim de "alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente 'recriada pelo nosso pensamento' ”.

Ou, quem sabe, foi se encontrar com alguns de seus inúmeros pacientes que lhe deixaram lembranças acolhedoras. Talvez tenha ido a Andréquicé se entrever com seu amigo, o vaqueiro Manuelzão para, numa prosa sertaneja, caminhar ao lado de Guimarães Rosa e viajar no lombo de um burro pelo sertão das Minas Gerais.

Selma e Familiares ainda nos anos oitenta me dediquei ao estudo das demências quando já vislumbrávamos um futuro sombrio para a população brasileira que começava a ter um aumento significativo na expectativa de vida. Ainda eram raros e pouco diagnosticados os casos da Doença de Alzheimer. Logo depois comecei a atender, em meu consultório, alguns casos que chegavam trazidos por familiares. Posso afirmar que, diante de cada caso com diagnóstico confirmado, eu chorava no depois. E, depois, fui aprendendo com os familiares e cuidadores, a doce missão de viajar de volta no tempo com nossos portadores de Alzheimer.

De uns tempos para cá tenho falado que a mãe natureza é sábia por demais,pois, através de uma doença tão drástica, nos dá uma segunda chance para vivermos de novo todas as nossas dores e nossos amores.

E continuemos a procurar o caminho de volta junto a José Odilon.

Abraços respeitosos

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Poesia: O João-de- Barro



Ele chega de mansinho
pousa no para-brisa
vê sua imagem refletida
e bica o vidro
Repetidas vezes ele beija 
sua fêmea  que
do lado de lá
lhe beija também.
Voa pelos arredores
e volta a beijar
Fico ali 
morrendo de ciúmes da imagem
refletida.

05/04/2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Quando comecei a escrever

Já morava em outra cidade. Durante algumas semanas das férias voltava para minha terra natal. Ali eu pensava que tivesse um lugar. Caminhava desenfreada pelas raras ruas entre os morros. Havia duas praças. A principal ficava na região do meio, entre a outra no alto e a ponte de madeira sobre o Rio, mais embaixo. 

Junto das minhas exuberâncias adolescentes havia na cidade uma promessa dos jovens rapazes que saíam para estudar técnicas agrícolas em Barbacena ou engenharia florestal na Universidade Federal de Viçosa. E muitos deles  conseguiam ser aprovados naqueles vestibulares tão concorridos. Outros, talvez aqueles sem recursos, acabavam indo para São Paulo em busca de empregos. Eu ficava admirando uns e apaixonando por outros. Obviamente guardava em segredo todas aquelas paixões. 

Com treze ou catorze já havia decidido que faria engenharia florestal em em Viçosa.

Para acolher tantos amores e sentimentos novos precisava de um diário. Então comecei a escrever.

Nesta época aconteceram dois fatos que marcaram a minha vida para sempre: eu me aproximei de uma menina da minha idade que tinha as pernas paralisadas. Ela vivia em cima da cama. E me apaixonei por um novo morador da cidade.

A menina era muito linda mas o moço era muito feio. Nunca soube o que havia visto nele. Talvez a novidade ou algum charme captado por meu coração. Acho que as coisas aconteceram juntas e tinha um por que. Minha nova amiga havia se apaixonado pelo irmão mais velho do outro. Este sim era tão bonito quanto sua apaixonada. Estava tudo explicado. Duas meninas amando dois irmãos.  Estes irmãos nos deram muito o que falar além de me deixar sonhando várias semanas e de consumir quase todo meu primeiro caderno de diário.

Porém, nisto tudo havia um detalhe deveras importante: a ascendência dos dois irmãos. Eram filhos do mais novo fazendeiro promissor da cidadezinha que logo seria eleito prefeito. 

Deu-se entretanto uma uma tragédia a seguir. O mais velho, ajudando o pai prefeito na conservação das estradas de terra, foi vítima de um acidente quando a patrola mononiveladora que dirigia virou num barranco sobre ele. A morte o levou com seus dezoito anos. Eu nunca havia visto a morte tão de perto. Para suportar a presença dela bem ali ao meu lado eu escrevia. Foi o jeito conseguido para dar nome àquele sentimento avassalador, até então desconhecido.  

Certamente, graças às minhas escritas confidenciais, sobrevivi ao primeiros amores e à primeira morte.

Quase meio século se passou desde então. Mas, ainda hoje, o nome do amor da minha amiga continua entranhado nas minhas memórias e, como canta seu homônimo, "você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir".

01/04/2019




sábado, 30 de março de 2019

2000 curtidas



Hoje tem sido um dia especial.

Emocionar com a Exposição RAIZ do artista plástico chinês AI Weiwei no CCBB (BH) com belíssimos e intrigantes trabalhos.

Ler nas paredes das várias salas da exposição:

"Se uma nação não pode enfrentar o seu passado, não há futuro".

"A história nos ensina que no início das maiores tragédias havia ignorância."

E ter chegado hoje ao número de 2000 pessoas curtindo os "Contos de Rivelli" me enche de esperanças. 


São pessoas de todo o Brasil e de mais de 30 países.

Obrigada leitores

    Maria do Rosário Nogueira Rivelli

30/03/2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

Crônica: Angu doce frito


                                                       *
Na primeira manhã de outono, ainda bem cedo, sai de casa. Após atravessar Betim, Contagem e Belo Horizonte pela BR Fernão Dias, subir o anel rodoviário em direção à BR 040 e viajar quase que totalmente no automático, cheguei a Ouro Branco. É ali que, às vezes no final da tarde, passeio com meu netinho pela feirinha semanal dos pequenos produtores rurais da cidade. Nesta quinta-feira, de novo, saboreamos o delicioso mingau de milho verde "com muita canela né vovó?".

E, após conseguir negar o convite "vovó dorme aqui na minha casinha" saí para Lafaiete aonde cheguei por volta das vinte e duas horas. Viajar pela Estrada Real me leva de volta a muitos outros tempos.

Nesta semana cismei em fazer angu doce, deixá-lo esfriar de um dia para outro e fritá-lo no dia seguinte. Adoçado com rapadura, é claro. Como sempre acontece ficou apenas na vontade. Precisaria do fubá de moinho d'água, do fogão a lenha e de uma boa rapadura. Até que conseguiríamos tudo isto. Entretanto, nos dias atuais, estaria faltando o imprescindível de faltar: a meninada impaciente para esperar o angu cozinhar e para rapar o caldeirão de ferro deixado no terreiro. Ainda fritarei este meu "angu doce frito" na banha de coco da lata branca e verde da cozinha da minha mãe.

Pois bem, após não me lambuzar do dito angu doce frito, fui dormir porque no dia seguinte um compromisso  profissional me aguardava. E a primeira noite deste outono me exigiu dois cobertores. Adorei o frio repentino.

Outono e frio. Um me desfaz em pedaços e o outro me refaz no aconchego.

Minha filha chegara para ir comigo à cidade onde nasci que se localiza na Zona da Mata Mineira. Brás Pires. E para lá nos dirigimos na manhã de sábado. Nesta semana minha tia que olhava com as mãos, que tinha a sabedoria estampada em gestos, que tinha o olhar falante e que se reinventou depois da loucura, deixou-nos. Morreu depois de longos anos acometida de um câncer e da demência consequente ao diabetes crônico. Certamente ela fora cantar e dançar com todos os seus pretendentes deixados de lado. Foi a mulher que mais referências me deixou ao longo de sua vida. 

Visitas feitas. Agradecimentos à prima que dedicou aos cuidados da minha tia por longos anos e com imenso desvelo.

Voltamos numa tarde morna prometedora de chuva. Minha filha encantada com as estradas que, pela primeira vez, desbravava. Eu refazendo os caminhos da infância. E, durante toda a viagem, senti o sabor do angu doce frito, senti os ventos do outono cortando a minha pele e pude sentir os cuidados da minha Tia por todo o meu corpo ainda criança.

Acho que sobrevivi pelos carinhos que vinham para além dos cuidados.

Observação: * Foto feita pela autora à entrada da cidade de Lamin.

25/03/2019


















quinta-feira, 14 de março de 2019

Amores contados: ...que falta ele me fez.

   Foto: Bruxelas  

Ela bem que tentou dar continuidade ao namoro. Ele econômico nas palavras, como era seu costume, apenas enviou uma mensagem dizendo que não estava bem. Precisava de um tempo para si. Ela chorou sozinha por aquele amor que julgava para sempre. Chorou também pelo tempo dedicado ao namorado. Foram quase dez anos. Agora, já com seus trinta anos, chorava também com receio de não encontrar um novo amor. Começar tudo de novo; talvez não tivesse mais forças.

Depois de algumas semanas, ainda apaixonada mas sem importuná-lo com pedidos de reencontros, resolveu viajar. Com férias vencidas no trabalho numa grande empresa de cosméticos pediu para que as mesmas lhe fossem concedidas. Arrumou uma viagem para outro país e para lá se foi.

Dentro do avião conheceu um homem cujo destino era o mesmo seu. Conversaram sobre filosofia, política e amores perdidos. Obviamente que, naquele instante, visse nele sua tábua de salvação. Agarrou-se nela. Estava salva.

Na Bélgica, combinaram de saírem juntos. Pelas ruas de Bruxelas se encantaram com as histórias, as flores, os riachos, a arquitetura. Almoçavam nas praças do centro histórico da cidade ou nos finos restaurantes do conjunto das famosas e luxuosas Galeries Royales Saint-Hubert. No final de semana foram para a cidade medieval de Bruges, capital do estado de Flandres Ocidental. Os vários canais com seus barcos, sua construções medievais, seus castelos, suas igrejas e todo o colorido das flores deixaram Teresa esquecida do recente desfeito amor.


  Foto: Bruges (Bélgica)

E naqueles dez dias de viagem ela, sendo formada em direito, aproveitou para conhecer a cidade holandesa de Haia, sede do Tribunal Internacional de Justiça. Foi até lá sozinha. Sentia um grande peso apertando seu peito. Logo se deu conta que a liberdade lhe doía por dentro. Mesmo assim andou pelas ruas históricas da cidade. Procurou um café e, quando se viu, estava diante de um bar cubano. Ali estava um charmoso Café Havana. Sorriu sozinha aliviada daquele estranho peso. Agora estava acompanhada de toda a alegria do povo cubano. Havia lido, ainda na sua adolescência, acerca da colonização da ilha e os rumos políticos mais recentes. Gostava dela como se gosta de uma terra natal. 

Tomou seu café. Passeou pela decoração do bar. Sorriu sozinha ao entrar no banheiro e ver a identificação: uma típica cubana estampada numa das portas. Voltou leve para o hotel.

Mas o tempo da viagem acabou e a moça voltou para casa. Retomou sua rotina no trabalho. Estranhou que não recebesse nenhum telefonema ou mensagens do seu acompanhante de viagem e dos passeios turísticos. Porém recebeu flores e um bilhete de agradecimento pelos "dias maravilhosos" que passaram juntos. Era casado e havia ido para o exterior decidido pela separação. De volta havia repensado e retomou seu casamento. De novo ela chorou. Nem mesmo sabia porque chorou tanto.

Apesar do trabalho, dos amigos, dos familiares, de novas viagens, nada demoveu dela aquele amor que havia vivido nos dez melhores anos de sua vida. Continuava apaixonada pelo homem que lhe fez mulher. Não conseguia odiá-lo. Sabia do tanto que ele também gostava dela. Mas não sabia o que havia acontecido para o afastamento dele. Neste caso o tempo não havia sido um bom conselheiro. Ela não tinha dúvidas de que seria para sempre. Sendo assim foi reconstruindo no seu imaginário o seu amado. Conversava com ele no silêncio que a cada dia se prolongava mais. Via que tudo em torno a levava até ele. A cor de um carro. O nome de uma cidade no painel de um ônibus. Um sorriso qualquer numa calçada qualquer. Entretanto nem percebera que aquele homem esteve apenas dentro de si. Ela o havia criado para não estar só. Agora estava nas mãos de sua criatura. Então adoeceu de amor.

As amigas, que acompanhavam toda aquela mudança, decidiram que estava passando da hora de Teresa procurar ajuda psicológica. Escolheram alguns nomes e forçaram-na pelo tratamento.

- "Eu não tenho nada a dizer e nem vou deitar naquele divã que fica me olhando do lado de lá da sala." 

Neste tempo ela já havia iniciado suas idas a um psicanalista que ela mesma escolhera. Não suportava mais tanta dor.

Nos primeiros meses saía chorando de dentro do consultório e dizia que não voltaria na próxima semana. Não deixou de ir a nenhuma sessão. Tão logo percebeu o que estava lhe acontecendo. E isto trazia-lhe mais angústia. Até que um dia, caminhando pelas ruas teve o tal de "insight": o homem que amava era tão só um outro que não aquele com quem ficara por dez anos. Aquele ela desconhecia. Chorou muito diante do entendido.

E agora? 

Determinou a não deixar de amá-lo. Ele fazia parte dela. Eram um só. 

Mas aos poucos Teresa foi se envolvendo com outros afazeres. Voltou a sair com as amigas. Passou a ir mais vezes ao cinema. Fez pequenas viagens. O sorriso voltou a aparecer. Aceitou o convite de um colega de trabalho para um jantar.

As sessões de psicanálise continuavam semanalmente.

Depois de alguns anos começou a ficar triste. Era uma tristeza bem diferente. Sem perceber havia enamorado da sua própria solidão. Passou a comprar mais livros. Ir ao cinema sozinha. Até decidir sair da casa dos pais e ter seu próprio apartamento. Estava já com seus trinta e cinco anos. Não havia se interessado por outros homens.

Um dia percebeu que algo havia mudado dentro dela. Apavorou com os pensamentos que ora lhe vinham à cabeça. Era isto! Ela havia desconstruído o homem por quem tanto amou. Restou apenas aquele de fato. 

Então constatou o vazio deixado na sua alma. A existência dele era sua própria vida. E, portanto, a falta dele configurava sua morte em vida.

Não chorou. Apenas decidiu que fazia-se a hora de se reinventar. Caminhou leve pelas ruas da cidade. Entrou numa loja de roupas. Olhou-se no espelho e viu uma bela mulher.


14/03/2019 

Obervações: 1- Um ano do assassinato de Marielle e Anderson Gomes - Quem os matou?

                     2- As fotos são de feitas por mim. 

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crônica: Carnaval de um jovem sonhador



                                  *
Ele concluiu que estava na hora de se afastar das pessoas, das redes sociais, dos acontecimentos políticos que, segundo ele, caminhavam para uma verdadeiro retrocesso de conquistas sociais do seu tão querido país, Brasil. Precisava voltar aos estudos, afinal seu doutorado caminhava a passos lentos e o tempo não pára. Era necessário dar um rumo às suas ideias e colocá-las no papel. Decidiu fazer um retiro neste carnaval. Não queria um refúgio compartilhado nem religioso. Queria mesmo trancar dentro de si, trabalhar e produzir os argumentos para sua tese. 

E lá se foi o jovem para o sítio de um amigo que, ao contrário, optou pela folia de BH. Levou "O Adolescente", obra prima de Fiódor Dostoiévski, que ganhara recentemente da namorada. Sabia que iria precisar de outras leituras além dos vários livros de sociologia, filosofia, direito, política, etc. Seu trabalho deverá discorrer sobre as relações sociais contemporâneas num mundo globalizado que caminha na contra-mão dos direitos humanos. 

Passou num supermercado. Comprou frutas, pães, queijos, café e duas garrafas de um bom vinho argentino.  

Na manhã do primeiro dia alimentou-se muito bem. Abriu seus livros e retomou suas leituras. Chegou a sentir uma grande vontade de escrever e ler, e ler e ler mais. E assim o fez.

Por volta das treze horas decidiu por um almoço bem simples: feijão, arroz integral com muito alho e cebola, ovos fritos no bacon. Não sabia lidar com os legumes e verduras. Na verdade tinha preguiça nas escolhas e nos preparos deles. 

Almoçou bem. Tudo como havia preparado. Uma banana caramelizada com canela para a sobremesa. Pensou em deitar um pouco para relaxar e voltar aos estudos. Mas antes se deu ao direito de ver algumas mensagens e ver como estava seu perfil no Facebook. Buscou suas músicas preferidas e arriscou outras delas. Então deparou com a belíssima canção de Chico César "Estado de Poesia" quando ele escreve e canta:

"...Chega tem hora que ri de dentro pra fora
 Não fica nem vai embora
 É o estado de poesia
 Para viver em estado de poesia
 Me entranharia nestes sertões de você

 Para deixar a vida que eu vivia..."

O moço logo sentiu seu coração palpitar mais forte e lágrimas brotaram dos seus olhos. Já não se aguentava mais com esse 2019. Seus ideias sociais, seus sonhos de um país soberano, grandioso e livre esvaiam-se com a nova política. A ética e a moral que tanto estudava e pregava transformavam-se em ódio e incitações à violência. Não queria acreditar no que via nas postagens dos "amigos virtuais". 

A morte tão prematura e dolorosa do pequeno Arthur, neto do ex-presidente Lula, havia sido a gota d'água para que ele se refugiasse da folia do carnaval. Chorou muito naquele dia. Tinha certeza que chorava pela criança, por seus pais, pelo avô, pelo Brasil e, sobretudo, por si mesmo. 

Nem havia se refeito dos mortos em Mariana, da lama tóxica que matou o rio Doce; dos assassinatos da vereadora Marielle e  Anderson, seu motorista; do incêndio que destruíra partes da riqueza histórica do país; dos mortos  e desaparecidos em Brumadinho, das cenas dantescas da lama assassina; da impunidade dos crimes; da morte do seu querido rio Paraopeba; dos ataques de ódio escancarados em rede nacional; das medidas provisórias nas caladas das noites retirando direitos conquistados  pelos trabalhadores e tantos outros desatinos. 

Pensava em sair do país. Vivia com uma bolsa de doutorado de uma universidade federal ao conquistar o primeiro lugar  numa disputada seleção. Ainda se angustiava com a possibilidade do governo deixar de pagá-la. Mas não! Decidiu ficar aqui, trabalhar e lutar como brasileiro que é. 

Agora, isolado e sozinho, ele chora com seus livros abertos sobre a mesa. Ele sabe onde podemos chegar com a incitação nada velada ao ódio e o amor cego à ignorância. O fascismo começou assim mesmo e ele bem sabe disto. 

Ele que nascera  em finais do regime militar, que estudara acerca daqueles tempos sombrios, que ainda na adolescência a mãe lhe presenteara com os livros "As Veias Abertas da América Latina" do uruguaio Eduardo Galeano e " Batismo de Sangue" de Frei Beto, agora se via desamparado.

Resolveu então fechar seu notebook, voltar às suas leituras, restaurar suas forças físicas e intelectuais para as lutas que se aproximam. E ele sabe que lutar será preciso.

* Pintura de Gisele batista ( Conselheiro Lafaiete - Minas Gerais)

04/03/2019

sábado, 2 de março de 2019

Crônica: A dor do avô

Dizem que pais são para educar e avôs são para adoçar. Certamente não faltaram afetos do homem Lula para seu neto Arthur. Hoje, contrariando a natureza, seu pequeno se vai. No céu os anjos preparam uma grande festa. E uma estrela gigante já ilumina nossas lágrimas.

Observação: Arthur Araújo Lula da Silva, 7 anos, neto de Luiz Inácio lula da Silva, morreu hoje em consequência a  meningite meningocócica, num hospital em são Bernardo do Campo, SP.

01/03/2019

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Poema: A COR VERMELHA






Quiçá fossem alucinações
uso abusado da morfina
de tantas outras dores.
Mas não!

O sangue nas águas do rio
não são visões turvas
ou alucinadas.
A cor vermelha 
que coloriu a água do rio
é de puro sangue.
O sangue dos trabalhadores,
o sangue da mais valia,
o sangue do pequeno agricultor,
da dona de casa,
da menina enamorada,
O sangue
da criança no ventre da mãe.

A cor vermelha 
do oxigênio nos pulmões
agora escureceu.
Inundado de minerais.
O rio morreu 
Intoxicado.

Agora: JÁ!

Lavem este rio!
Lavem suas águas!
Tirem dele a cor vermelha
da morte!
Tragam de volta nossos sonhos!
Tragam de volta nossos amores!
Tragam de volta nossos filhos!

Eles foram soterrados
vivos!

Agora: JÁ
Desenterrem-nos
Ressuscita-os
Pois quero beijá-los.

(Homenagem a todas as vítimas, mortas ou vivas, ou vivas-mortas em Brumadinho.)

Maria do Rosário Nogueira Rivelli
29/01/2019

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Crônica: Outra tragédia anunciada



                      (*)

Há cerca de quinze anos optei por morar num povoado encantador às margens da rodovia que liga a cidade de Betim (grande BH) à cidade de Brumadinho, onde trabalhava naquela época. Ali comprei uma pequena chácara e comecei a conviver com seus moradores. Mais tarde construí um chalé onde vivo hoje dividindo com a cidade de Conselheiro Lafaiete para onde me mudei logo após minha aposentadoria.

Exatamente hoje, quando esperava meus filhos para um almoço, chegou a notícia do rompimento de mais uma barragem de rejeitos da VALE. Talvez, como defesa dos efeitos da tragédia, fui brincar com meu netinho de três anos. Era necessário viver. Logo meu filho quis saber onde estava a irmã que também era esperada para o almoço. Ainda estava dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte. Não conseguiu chegar. As estradas já haviam sido isoladas.

Telefono para uma amiga-vizinha que, já chorando, me informa o desaparecimento de uma grande amiga que estava trabalhando na tal Mina do Feijão, bem perto daqui. A outra vizinha também chega chorando informando que o marido fora a Brumadinho e já não havia como voltar. O sobrinho trabalha na VALE e não tem notícias dele. 

Meu filho, muito ansioso, entra no carro e desce até a rodovia para tentar mais informações. Tudo isolado. A cidade de Mário Campos, onde moro, entre Betim e Brumadinho, cresceu às margens do Rio Paraopeba e da rede ferroviária. Pois bem, de um lado toda a cidade está bem próxima do Rio Paraopeba, do outo lado a cidade sobe pelas montanhas onde se localizam várias minas de minério.

Todos foram embora bem rápido uma vez que chegada a lama, não haverá saída da cidade. Minha filha, ainda no caminho, foi levada por uma amiga para Betim.
Eu fiquei. Talvez ficarei sem água e sem luz. 

Estou aqui pensando entre tantas vítimas o acampamento Pátria Livre" dos sem terras" com mais de cinco mil pessoas bem próximo daqui, às margens do Paraopeba. Estou aqui pensando nos moradores da ex-colônia de hanseníase, Casa de Saúde Santa Isabel, em Betim, neste final de semana  no Concerto Contra o Preconceito, tão bem preparado e aguardado pela comunidade. Toda a área se localiza numa belíssima região às margens do Rio Paraopeba.

Estou aqui com o peito apertado. Morre hoje o maior afluente da margem direita do Rio São Francisco. Força Velho Chico! Aguente mais esta, por favor. E o Rio da Integração nacional vai enlamear todos seus estados. Baianos, pernambucanos, alagoanos e sergipanos, desculpem a ganância trazida pelo solo das minas gerais. O sertão vai virar um mar de lama contrariando a canção.

Ainda não consegui ver as imagens da tragédia pela TV. Meu coração pode não aguentar. Ficarei aqui até a dor passar. Até quando?

(*) Foto de minha autoria do belo entardecer da região.


PS.:"Lindo texto e pode acrescentar a Aldeia Pataxó Hâ Hâ Hãe Naô Xohã no Funil de Bicas, do outro lado do Funil de Mário Campos.
Rio já era assoreado e agora tomado pela contaminação.
Peixes morreram." (Enviado por um amigo da região.)