segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Convite: Lançamento do livro "Olhares Clínicos"



Após mais de trinta anos de formados um grupo de colegas médicos afins aproximou para relembrar os tempos de faculdade. 

Ávidos pelas histórias, pelos causos, pelos contos e poemas, estes jovens doutores se encantaram. Dai nasceu a ideia da coletânea dos nossos escritos. Então nosso livro, que fora gestado bem antes, nasceu nesta primavera. 

Para o primeiro lançamento escolhemos homenagear a cidade de Juiz de Fora que, ainda nos anos setenta, acolheu estes jovens para o curso de medicina na UFJF.

"Olhares Clínicos" traz aquilo que, de cada um, transborda da alma.

Convidamos você, seus familiares e amigos para esta noite tão especial. Venham comemorar conosco este transbordamento de felicidade.

Data: 18 de Outubro, sexta-feira.

Horário: 19:30h 

Local: Associação Cultural Brasil- Estados Unidos

          Rua Braz Bernardino, 73 - Centro - Juiz de Fora

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

JALAPÃO III: MULHERES DOURADAS E CAPIM JALAPOEIRO



Já me perdi nas estreitas e longas trilhas arenosas em meio às veredas que circundam o Jalapão. Mas não quero esquecer das serras que constituem as fronteiras agrícolas do MATOPIBA OU DO MAPITOBA* embora não tenha conseguido guardar qual serra faz fronteira com qual estado.

Entretanto meus olhos guardaram a exuberância das formações rochosas de arenitos coloridos e seus platôs retilíneos, certamente provocados pela ação dos ventos nos milhões de anos passados.

Durantes as quatro noites e cinco dias que ali passamos numa convivência festiva e próxima tudo em mim era sentido. Era pura emoção. A razão ficaria para depois. Sempre é assim em minhas viagens. Fico tomada pelos sentidos e só “a posteriori” vou colocando as coisas nos seus devidos lugares e entender o que se passou.

Pois bem, agora quero falar do que senti ao vivenciar e observar algumas cenas da nossa expedição pelo cerrado.  

Onde estava o capim dourado tão encantado? Enquanto não havia arriscado na pergunta pensei que todo aquele capinzal cor de ouro envelhecido na beira das estradas fosse ele. Não era.

Fui procurar informações e descobri que o capim dourado é uma espécie da sempre-viva de cor dourada. Ele vem sendo usado para confecção de bijuterias e peças de decoração desde o início do século XX. A técnica foi trazida pelos índios Xerente à região do quilombola da Mumbuca, no município de Mateiros, em Tocantins.

- “É proibido entrar na área dele.” Informou o guia. A resposta me decepcionou. Mas logo depois, durante a travessia de uma longa passarela até um dos vários rios da região, o guia me apresentou ao capim dourado. Uma pequenina moita de capim cujos filetes brilhavam ao sol. Pareciam fios de ouro.

Mais tarde fui entender algumas questões que envolvem o cuidado com o capim dourado. Naqueles dias de nossa expedição estava chegando a época da colheita para a confecção dos artesanatos e existem regulamentos de proteção evitando assim a pirataria e sua extinção no cerrado. E a delicadeza de sua floração agradece aos órgãos de defesa de tão rara espécie.

Entre mergulhos em rios e banhos em cachoeiras parávamos para nossas refeições. É aqui que as mulheres entram em minha história. Elas estavam por todos os lugares. Ora nos servindo almoço. Ora nos oferecendo doces regionais, um pedaço de queijo, um suco. Sempre num sorriso que saía da alma e entrava em nós. Eram elas as protagonistas do cerrado.

                                               (1)

No caminho das Dunas, local de estonteante beleza e difícil acesso, encontramos uma delas. Vendia a famosa cachaça com jalapa. Recebia a todos com as mesmas palavras: “jalapa é uma batata do cerrado e que deu origem ao nome. Ela é medicinal, é depurativa do sangue, bom para o intestino, levanta o astral e rejuvenesce. E venha você conhecer o Jalapão e beber a jalapa”. 

E claro que, depois de tantas propriedades, todas nós provamos da cachaça com jalapa. Uma delícia ...

Mas, enquanto ouvia a repetição da mulher para outros turistas, meus olhos clínicos viram um jovem solitário, de pé, com "facies” tristonha e face edematosa, certamente cheia de cachaça. A cena me doeu o coração. Calado ele estava. E calado continuou. Pegou carona na carroceria de uma das Toyotas. Era filho da vendedora da jalapa que pediu a carona. Ali no Jalapão, conforme fui ler no depois, pode-se viajar por até cinco dias sem ver uma única pessoa. O sol queimando as areias inviabiliza o caminhar e existem apenas as comunidades quilombolas remanescentes de escravos que fugiam das fazendas na Bahia e alguns índios.  Por isto apenas carros grandes, com trações nas quatro rodas, conseguem trafegar pelos bancos de areia.

E a  solidariedade dos guias, em várias ocasiões, não me passou em branco.

Numa outra localidade encontramos as bijuterias, bolsas e algumas peças de decoração numa minúscula choupana de palha. A mulher, jovem, inibida e envergonhada, tentava atender a todas nós e nossas ansiedades pelas compras confeccionadas com o famoso capim dourado. Era ela e o marido alternando entre a confecção e a venda. “Cada peça que vocês compraram é um tijolo para a casinha deles” iria nos dizer, mais tarde, um dos guia, muito emocionado e agradecido por nossas compras.

Chegamos à comunidade do Prata. Outro quilombola. Este pertencente à cidade de São Félix. Obras públicas por todo o entorno. Uma mulher com sua filha pequena veio nos atender no espaço comunitário de venda dos produtos locais. Doces, rapaduras, bijuterias, canetas com envoltório do capim dourado e outras pequenas peças. Perguntei se havia uma unidade de saúde na comunidade dadas a dimensão da localidade e sua provável elevada densidade demográfica em relação às demais. “Havia a doutora Maria que o governo mandou embora prometendo mandar outro médico para nós.” Respondeu a artesã. Era uma médica cubana que atendia a todos naquele distante Brasil.

E, na noite do aniversário da minha filha no meio do Jalapão, elas fizeram um delicioso bolo com direito a recheio e cobertura. Ajudaram a cantar os parabéns e agradeceram a nossa presença.

Num dos almoços que aconteciam com mesas fartas de pratos regionais uma das cozinheiras nos fêz um delicioso estrogonofe de legumes e nos apresentou outras tantas iguarias que elas fizeram mesmo sem ter energia elétrica no local. "O gerador é pequeno e não conseguimos gelo para os sucos mas o patrão foi buscar e logo chega." Era ela a se desculpar. Logo o gelo chegou e ela nos serviu deliciosos refrescos de frutas.

Sempre lá estavam elas a nos servir nos restaurantes e pousadas. Havia eficiência, dedicação e prazer naquilo que faziam. Procuravam fazer o melhor para atender as “turistas do sul” como se fôssemos superiores a elas.
Mal sabiam que todas nós ali nos tornamos pequenas demais diante da grandeza de todas elas.

Comprei rapaduras, doces, cachaça, blusinha para meu neto, brincos e pulseiras. Com estes presentes trouxe um pedaço da fortaleza das mulheres jalapoeiras e a beleza do capim dourado.







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Fotos:
11)    Mandalas de Capim dourado
( 2)    Mandalas de Capim dourado
( 3)    Exposição de peças de capim dourado
( 4)    Floração de sucupira
( 5)    Cachoeira da Velha
( 6)    Cachoeira da Velha
( 7)    Trilhas arenosas e, ao fundo, Serra do Espírito Santo.
( 8)    Passarela a um os Fervedouros


(*) MATOPIBA ou MAPITOBA são as iniciais dos nomes dos quatro estados brasileiros que compõem a fronteira agrícola. Maranhão - Tocantins - Piauí – Bahia.

OBSERVAÇÃO: Agradeço às jovens turistas que estiveram junto comigo nesta expedição e que, prontamente, me enviaram fotos e vídeos para que pudesse ilustrar e lembrar de alguns fatos. 


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Microcontos / AMOR

UM AMOR

Nos 15 anos de Helena ele chegou. Ofereceu seu amor mas ela não o quis. Aos vinte anos, quando Helena o desejou, ele se foi. Entretanto continuaram se amando, em outros corpos, por toda a vida.


UM CACHORRO

Tigre jamais aceitou que outras mãos lhe dessem o alimento. Quando seu dono virou moço e saiu de casa para trabalhar, ele morreu de tristeza, ou de fome?


UM AMOR DE OUTRO CACHORRO

Ele chegou ressabiado. Namorou o espaço, calculou o tempo, entrou e ficou. Hoje, envelhecido, ele esquenta ao sol enquanto namora o voo dos pássaros e aguarda o tempo que lhe resta.

 30/09/2019   FUNIL


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Desandança

Da lua cheia eu sei
  que está pensando em nós

Uma saudade imensa
 de tudo que não foi dito

Olha a lua mansa a se derramar
  seu nome já me soa estrangeiro

Por onde for
 ainda quero ser seu par

Meu namorado é rei
 e governa meu coração

Mas só a dor me ensina
  a viver sem pensar

E me diz onde vou chegar
 vagando em versos eu vim

E essa Terra encerra meu bem querer
 vestido de cetim

Jamais termina meu bem querer

terça-feira, 24 de setembro de 2019

JALAPÃO II: "ARROCHA O BURITI" (*)

Pedra Furada vista da estrada.

                               


Acordamos bem cedo na manhã seguinte e descemos com nossas bagagens para o hall do hotel. Logo em frente estacionou um carro marca Toyota, modelo 4x4, branca, plotado nas laterais com o nome SAFARI DOURADO. Minha filha observou a pontualidade do motorista tão logo este se apresentou. Ele acomodou as cinco mulheres, nossas malas, nossas mochilas e nossas ansiedades.

Lá vamos nós. Óculos escuros, roupas leves conforme sugerido, chapéus ou viseiras, nada de cremes hidratantes, repelentes e ou bloqueadores solar. 
No carro tínhamos água gelada a vontade e frutas frescas. Nosso guia-motorista falava pouco, mas respondia nossas perguntas e essas eram muitas. Eu queria saber da geografia do local, da hidrografia, nomes das arvores, das flores, quais pássaros habitavam o local, quais bichos viviam por ali. E ele, calmamente, respondia a tudo. 

Fui observando, ao longo da expedição, que apesar do trabalho árduo dos guias, havia uma ligação de afeto com toda a vida da região.


Paramos algumas vezes para as necessidades fisiológicas, para um descanso, para conhecer uma serra ou uma pedra famosa ao longo do caminho. E toda a estrada estava sobre enormes bancos de areia. Durante várias horas nenhum outro carro em sentido contrário. Nenhuma pessoa andava por ali. Éramos apenas nós, quatro carros Toyota, modelo 4x4 e um bando de turistas ávidas pelo Jalapão. Eu era a mais velha do grupo. Assim começaram a me chamar, carinhosamente, de Tia Maria. Estávamos no meio daquele mundão de terrenos arenosos e árvores retorcidas, ali estava o cerrado.

Não sei em que ordem ou desordem devo descrever nossas aventuras, entretanto tentarei falar daquilo que ouvi, que deixei de ouvir, do que vi e, sobretudo, do que senti por todos aqueles dias. Sei que não queria perder nenhum detalhe da viagem e meus olhos iam de lado ao outro do carro como se fosse possível ver tudo.

A cinquenta quilômetros de Palmas passamos por Porto Nacional, cidade do século XIX, “Capital Cultural de Tocantins” e capital estadual do agronegócio. Ela está a 212 metros de altitude em relação ao mar (calor médio de 39 graus). Lembrei-me da minha amiga dizendo, com muita gratidão, que “Porto Nacional é o berço cultural de Tocantins”. Depois deixamos o asfalto e entramos nas estradas de terra e areia.

Mais cem quilômetros e chegamos a Ponte Alta do Tocantins, pequena cidade, onde meus olhos sorriram ao verem duas placas. Numa delas li Faculdade de Gestão Fazendária e na outra, escrita num talude gramado e em letras grandes, PORTAL DO JALAPÃO. Agora estávamos entrando no nosso destino e nosso primeiro mergulho seria na Lagoa do Japonês. Mesmo ainda acanhada diante da moçada, dos guias e de toda aquela gente, decidi entrar e nadar. Um espetáculo da natureza. 


As águas azuis-esverdeadas transparentes, sua calmaria e seu frescor foram os fatores que me levaram a aventurar um mergulho. Então não parei mais de nadar e mergulhar até minha próxima aventura: uma tirolesa por sobre toda a extensão da lagoa descendo por um penhasco de pedras, árvores e águas. Tudo aquilo alinhado num abraço inimaginável. Será que terei coragem?

E para lá subimos, eu, minha filha e outras corajosas mulheres. Quase sem fôlego chegamos finalmente à pequena plataforma de madeira para nos amarrarem com cintos e cordas de segurança além do indispensável capacete. Minha filha quase desistiu, mas foi. Chegou a minha vez. “Eu não vou mais. Amarelei” disse ao instrutor que me encorajava dizendo "desce até na ponta". Eu desci. Olhei para baixo e já não dava mais tempo para voltar atrás. Ai meu Deus. Lá fui eu. Segurei firme e, nos vinte segundos da estonteante descida, abri os braços, voei e gritei por duas vezes: “LULALIVRE”. Então me livrei do fantasma da inibição.

Mais tarde rumamos para outros destinos. De novo faço viagens maravilhosas tanto para fora de mim quanto para dentro da minha alma.

De um determinado ponto da estrada pude ver uma enorme rocha cujos contornos me fizeram lembrar o bisão americano e, de acordo com a proximidade, já pareceu um elefante conforme me mostrou o guia. Chegamos até aquele animal. Era a famosa Pedra Furada - “um gigantesco conjunto de blocos areníticos esculpidos pelos ventos há milhões de anos”. (**). À medida que o sol ia se pondo, os raios vão mudando as tonalidades das cores do arenito e formando um espetáculo de se ver.

As meninas voltaram extasiadas com a beleza do fenômeno e, obviamente, fizeram várias fotos delas no local.

Não fui até lá, pois fomos alertados de que havia alguns enxames das danadas abelhas africanas instaladas recentemente na redondeza da Pedra. Contudo se não fui assistir ao encanto do pôr do sol na Pedra Furada, ganhei com a presença de um pássaro que, escondido nas árvores, entoou seu canto só para mim.

Até a próxima parada.



(*) Expressão muito usada no Jalapão que, segundo me disse a linda amiga que fora comigo e minha filha, significa “mete bronca”, “vamos ver”.

(**) 
https://turismo.to.gov.br/regioes-turisticas/encantos-do-jalapao/principais-atrativos/ponte-alta-do-tocantins/).


Lagoa do Japonês



Arara do Cerrado




quarta-feira, 18 de setembro de 2019

JALAPÃO I: Palmas




Aprendi ainda bem jovem, acerca da geografia física do Brasil e o planalto central sempre me chamou a atenção dada suas características às avessas de nossas Minas Gerais cheias de serras e cidades cheias de morros.

Pois bem, há muitos anos ouço falar do Jalapão. Não há tanto tempo ouço falar do capim dourado. Não sabia da existência dos fervedouros nem das comunidades quilombolas naquelas terras. E jamais havia pensado nas vidas dos “jalapoeiros”. Ou seja, muitas novidades para meu mundo de conforto em torno da minha tão querida Belo Horizonte.

Então, sentindo em dívida com minha primeira filha, resolvi propor uma viagem dentro do Brasil. Sugeri três destinos e ela escolheu o Jalapão. Com minha idade um tanto já avançada, seria a hora de fazer este passeio. Mais tarde talvez seja impossível. E o Jalapão era meu favorito. Ganhamos na escolha.

Obviamente que, com a minha costumeira preguiça e a total falta de jeito com a informática, deixei por conta dela todos os detalhes da viagem. Era meu presente do seu aniversário, dia 12 de setembro.

Passagens aéreas compradas, hotel reservado, roteiros turísticos de acordo com a agência escolhida, uma pequena mala com roupas leves, calçados adequados, chapéus e lá fomos nós três: eu, minha filha e uma jovem amiga dela. 

Voamos para Palmas numa escala de três horas em Goiânia, cidade que eu não conhecia. Resolvemos sair do aeroporto e passear na cidade. Ficamos entre dois locais: Mercado Central ou Mercado Municipal. Escolhemos, sem quaisquer critérios, o Mercado Central onde poderíamos almoçar. Porém, para minha surpresa, bem defronte ao dito mercado havia uma placa gigante “Estacionamento Mercado Central” e, ao descermos conforme orientou o motorista do Uber, li no alto do prédio do mercado outra placa “Mercado Municipal de Goiânia”. Nestas horas vem meu lado obsessivo acompanhado da minha chatice e eu interrogo: é Mercado Central ou Municipal? Seja um ou outro não tem a menor importância.

Entramos saltitantes e ficamos andando pelos corredores procurando souvenires, doces, cachaças e outros produtos regionais. De repente meus olhos são convocados a olharem para uma banca de calçados “genéricos”, como bem disse minha filha, onde deparei com aqueles emborrachados de andar dentro de piscinas, rios e cachoeiras. Havia, há algum tempo, procurado em BH um deles para presentear uma colega da hidroginástica. Não os encontrei. Agora, que não posso carrega-los, eis que me aparecem bem ao alcance das mãos.

Continuamos nossa “via-crucis” pelos corredores quentes daquele mercado até nos depararmos com os restaurantes onde garçons convidavam as três turistas, apresentando cardápios variados e a gosto. Entretanto o calor nos encaminhou para um lanche modesto. Optamos por sucos naturais e empadas. Como apaixonada por elas, escolhi aquela de frango com guariroba – “é um palmito amargo do cerrado”- nos respondeu o jovem empregado. Mas, na primeira mordida, veio a decepção. Não era da massa podre, minha predileta. “É massa goiania” informou novamente o moço. Acabei adorando a tal massa. Estava tudo delicioso.

Ali comprei apenas duas pequenas lembranças para o filho e a filha que não vieram. E Goiânia não poderia ficar esquecida. Nunca havia pensado em conhecer esta capital. Agora veio a vontade.

De volta ao avião não encontrei lugar para minha mala. Os espaços acima das nossas poltronas estavam ocupados por mochilas e bolsas de mão que deveriam estar sob as poltronas conforme orientação das comissárias. Pedi a uma delas que me ajudasse e ela, simplesmente, me disse “lá nos fundos ainda tem lugar” declinando de suas próprias orientações e de seu dever. Nada contra “os fundos”, mas tudo contra o nonsense e os abusos destes passageiros. Pensei noutras posições destas pessoas, entretanto não quero falar disto aqui.

Chegamos a Palmas. Esta cidade eu sempre quis conhecer! Já no percurso entre o aeroporto e nosso hotel foi possível ver a grandeza da construção da capital de Tocantins. Traçados amplos, avenidas arborizadas com a vegetação típica da região, trânsito tranquilo, edifícios modernos, construções baixas e lindas. E, embora a temperatura estivesse em 38 graus, às 17:30 horas, a sensação térmica era bem inferior.

Logo que nos acomodamos, entrei em contato com a colega pediatra, moradora dali a quase vinte anos. Havíamos conversado no encontro de trinta e cinco anos de formados da turma de medicina UFJF/1981, em Juiz de Fora. Embora seu nome também inicie com “Maria”, ela não havia feito os primeiros semestres da terrível anatomia com o grupo das outras quatro Marias. Não sei o que houve na época. Mas jamais poderia esquecer suas risadas, a gravidez ainda no início do curso e o grande amor de sua vida, de quem falava com muita paixão.

Combinamos local e hora. Ela apareceu lá, acompanhada de sua paixão e de sua risada, no Bar Dona Maria Beach, na belíssima Praia da Graciosa onde todas as Marias nos sentimos em casa. Um drink regional e petiscos à moda do local. Falamos e rimos  como duas adolescentes em época de acadêmicas.

Escutar sua história, enquanto profissional médica, nos últimos trinta e oito anos, foi um prazer. Mais uma de nós que dedicou à Saúde Pública conforme nos foram confiados os ensinamentos da Faculdade de Medicina ainda nos anos sombrios da ditadura no Brasil.

Não pude deixar de observar o amor com o qual ela falou do estado de Tocantis. Contou que o norte de Goiás sempre fora a ferida aberta que nenhum governo queria cuidar até que optaram por deixá-lo à própria sorte. (vou querer conhecer esta história tão recente de nosso país). Após a sua criação, o jovem estado do Tocantins, desenvolveu rapidamente, despontando com sua cultura nascida na cidade de Porto Nacional, bem ao lado, com seu povo alegre e sua riquíssima história.

Combinamos novo encontro na volta da expedição. O casal nos levou até o hotel.

Agora vamos dormir porque amanhã tem o cerrado e as águas do Jalapão.

domingo, 8 de setembro de 2019

Nós, o ar e o Lula Livres




Lembro lá em 2002 a festa que foi em casa e não entendia bem o porquê.
Hoje, com todo esse circo que está armado no Brasil, consigo ver claramente que a felicidade dessa mulher maravilhosa ao meu lado na foto não era por ela, e sim porque o povo brasileiro ia ter um pingo de esperança e dignidade.
A vergonha do governo é enorme, mas o orgulho de ter crescido e aprendido com uma pessoa honesta, íntegra e trabalhadora é MUITO maior.
Obrigada mãe, por ter me ensinado e proporcionado tudo que levamos pra luta hoje, ela só está começando.
Teve Lula Livre no show do Alceu Valença no Inhotim e a galera correspondeu demais, foi lindo!


Eulália, 08/09/2019

OBSERVAÇÃO: ontem, dia 7 de Setembro, minha filha, Eulália, e eu tivemos uma experiência bem singular. Estivemos no Inhotim, Brumadinho, MG, assistindo a apresentação do Orquestra Ouro Preto, sob a regência do maestro Rodrigo Toffolo, com Alceu Valença quando ao final, durante a canção Anunciação, minha filha levantou a faixa LULALIVRE, começou a cantar e a dançar. Obviamente a mãe orgulhosa ficou filmando e não viu a repercussão do ato. Várias pessoas também a filmaram e, à saída nos jardins, algumas pessoas pediram para que fossem fotografadas com ela e sua faixa. 
Queremos nosso país de volta. Nossa soberania e nossa alegria. 

Maria do Rosário Nogueira Rivelli

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

UM SONHO.





Ele descia a rua com seu passo dançante. Não vi se naquele dia ele trazia a costumeira marmita de alumínio envolta num branquíssimo pano de prato. Reparei que seus cabelos estavam bem penteados, com as ondulações escurecidas e brilhantes do tonalizante masculino da época, o famoso "Grecin". Suas roupas eram adequadas, comuns. Reparei também que chegava sozinho. Provavelmente vinha do trabalho senão estaria de braços dados com a esposa.

O que chamava a atenção era seu sorriso de mansidão ao cumprimentar os vizinhos. Ele descia a rua. E a rua parava para vê-lo passar. Será que trabalhava na mineração? 

Era um homem como outro qualquer. Tinha sua casa como todas as outras da rua. O capricho ficava por conta de sua eterna namorada. Não era um homem rico. Era respeitado pelos outros homens da rua. Era um homem cheio de carismas.

Subindo a rua havia um outro homem. Também tinha um sorriso estampado na face. Entretanto trazia em si uma face de sofreguidão. Vestido sempre com extrema elegância. Morava na casa mais bonita da rua de cima. Lembro-me dele andando de um lado para outro no belo jardim da sua casa. Às vezes assobiava uma canção desconhecida. Era de poucos amigos. Tinha um emprego que lhe garantia bons salários e uma vida de luxos. Quando o via, notava que seus olhos buscavam algo nas alturas. Quem sabe a paz que parecia lhe faltar?

Agora esses dois homens cruzam na minha rua.

Primeiro aquele do sorriso manso descendo a rua. Depois, este do sorriso sôfrego, subindo a mesma rua. Era a minha rua.

Ao cruzarem, sem que um se soubesse do outro, apareceu no meio deles uma mulher. Não uma qualquer mulher. Mas uma mulher que não precisava de sorriso, indumentárias, ou qualquer palavra. Ela se fazia toda. Não carecia de nada. Apenas olhou para os dois homens. De alto a baixo. Estava dito. Entre o operário e a nobreza havia o desejo de uma mulher. Ser vista. 

Assim é o inconsciente. Mesmo dormindo ele não pára de desejar. 

Então acordei de um sonho entre dois homens tão iguais e tão diferentes. E meu sonho apenas veio me confirmar aquilo que eu já sabia, ou seja: como eu gostaria de ser tal e qual aquela mulher! 

Se assim fosse certamente eu teria o amor do terceiro homem. Aquele que não aparece nos meus sonhos porque dorme preguiçoso dentro do meu peito.


05/09/2019

(Foto feita por mim num dos Palácios da Família Real, em Londres em julho de 2018)

 05/09/2019

sábado, 24 de agosto de 2019

SAVE THE AMAZON

Ontem tive mais uma súbita crise hipertensiva. Tenho minha pressão arterial sempre em níveis baixos e, por isto, não devo usar os anti-hipertensivos; orientação do meu grande amigo cardiologista.

Ontem foi um dia muito produtivo. Resolvi várias questões pendentes e estava acompanhada das minhas filhas. 

O que então me levou a tal crise? Minha pressão diastólica, aquela que segura meu fluxo sanguíneo quando a outra, a sistólica, eleva por demais, chegou a ficar muito além dos desejáveis 90 mmHg. Tomei o remédio recomendado neste caso e fiquei quieta.

Mas como ficar calma com as chamas de nossa Amazônia fogueando meus olhos?

Como ficar em silêncio com o barulho do crepitar do fogo ateado na floresta?

Como não chorar pela falta de ar do nosso pulmão caminhando para uma fibrose?

Como sossegar diante de um povo que defende o presidente de nosso Brasil defecando palavras em vão?

Não bastará bater panelas. 

Vamos às ruas. 

E que nenhuma pressão arterial desassossegue homens e mulheres do meu país por conta da tirania do mandatário.

Então me ajudem a gritar ao mundo:

          "HELP. SAVE THE AMAZON".

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A novela turca




Sem sinal de TV e optando, para preservar minha saúde mental não assistindo os horrores da política brasileira atual, decidi pelas séries da Netflix. Minhas escolhas nunca agradaram minhas filhas que preferem assistir as complicadíssimas séries americanas. Prefiro aquelas épicas e recheadas de romantismos.

Eis que começo a ver "Resurrection - Ertugrul - O Grande Guerreiro Otomano". Logo nos primeiros capítulos fui capturada pela história, pelo figurino, pelas fotografias, pelo modo de vida das tribos nômades e pelas conversas cheias de metáforas.

Começarei então pela aventura histórica que acontece no século XIII, mais precisamente em 1250, quando os muçulmanos turcos Oguzes, da tribo nômade Kayi, se vêem diante de um grande conflito que poderia exterminar seu povo caso não reagissem e lutassem heroicamente. Do noroeste vieram soldados bárbaros das Cruzadas ou Templários que desejavam expandir seus territórios e sua religião a qualquer preço. E muitas vidas humanas foram ceifadas em nome do cristianismo, a mando da santa amada Igreja. A violência nas variadas formas de matar e as torturas impostas ao povo turco foram marcantes naquela época. E, pelo leste, chegavam os terríveis  mongóis assassinando e queimando as tribos e seus povos para a expansão do Império Mongol uma vez que queriam dominar a Europa.

Neste contexto aconteceram as lutas de resistência de um povo liderado pelo grande "Alp" -guerreiro turco - Ertugrul que foi um líder, filho do "Bei" ou Senhor da tribo Kayi. Eles se viram em meio ao fogo cruzado uma vez que seu território ficava exatamente no local estratégico tanto para quem queria ir para a Ásia, quanto para quem desejava ir para a Europa. E é neste ambiente que a novela acontece.

Se as cenas de lutas, nada bem feitas da TV turca, nos fazem criticar a série, por outro lado todo o enredo vai nos contaminando com as emoções em cada capítulo. 

O cuidado com as palavras, a preocupação com o bem estar da tribo, as histórias contadas pelo "dervixe"- monge muçulmano que faz votos de caridade -, as leis do alcorão e o respeito pelo outro, são exaltados durante todo o tempo.

Em relação ao figurino não foram poupados os adereços e os coloridos nas mulheres. As roupas são de dar inveja a nós, mulheres ocidentais de hoje. Entretanto muito mais visível que as vestimentas da época são as relações com "seus homens". Caladas, submissas, subservientes, são elas entretanto que dão toda a direção dos trabalhos e comandam, no silêncio, as atitudes de seus maridos. Responsáveis pelas mercadorias a serem vendidas em mercados turcos, elas confeccionam as tapeçarias colorindo as lãs, tosquiadas pelos pastores, com os mais belos tons. E os resultados são tecidos e tapetes ainda hoje desejáveis por todo o mundo. (Lembro que há muitos anos decorei meu consultório com um belíssimo "Kilim" nos tons salmão. Onde foi parar meu tapete oriental?)

As emoções ficam por conta das intrigas e traições de membros da própria tribo que, desejando ascensão e poder, se uniam aos templários ou aos mongóis. 

Os hábitos dos povos dentro e fora das tendas, os casamentos realizados nos interesses das tribos, as migrações nas primaveras, os invernos rígidos, as decorações e utensílios do dia a dia das famílias, nos dizem do muito que perdemos com os tempos vindouros. 

Se "meu dever de casa" da Oficina de Escrita era para falar sobre algo "acima de qualquer suspeita", digo que, mesmo sendo uma série de uma TV Turca, com vários defeitos nas filmagens, sinto um  prazeroso bem estar em conhecer outras culturas e outros tempos. E isto está acima de qualquer suspeita.




segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quero um galinheiro


Sempre pensei em ter galinhas no meu sítio. Houve um tempo em que minha mãe conseguia criar galinhas mesmo no pequeno terreiro da nossa casa em Lafaiete.

Lembro-me dela dentro do galinheiro queimando nosso lixo seco. Dizia que não devíamos juntar lixos pois não haveria tanto lugar onde descartá-los. Achava aquele pensamento dela arcaico e nada progressista. 

Logo depois o galinheiro virou a construção de mais um quarto e um banheiro. A família crescia e faltavam espaços para os netos dormirem quando das visitas nos finais de ano. Junto a isto os lixos da casa e do mundo aumentaram e a procura de soluções para o descarte deles passou a ser uma constante preocupação dos governantes e cientistas. Minha mãe tinha razão. As galinhas comiam pequenos restos de alimentos e nos davam o esterco para a horta. E quase não produzíamos lixos não biodegradáveis. Estávamos ainda nos anos sessenta.

Mais de meio século se passou e, somado ao problema do lixo doméstico, chegou um problema ainda muito maior. Onde e como descartar os lixos químicos, biológicos, industriais e todos os lixos tóxicos de maneia geral? Já não é mais um problema apenas para governantes e cientistas. O problema é nosso.

Sem perder de vista este grande desafio da humanidade quero mesmo é falar das minhas galinhas. Há cerca de cinco anos comprei umas dez galinhas e um galo. Já havia feito um galinheiro bem simples para recebê-las. Queria colher ovos, galar ovos, conseguir tirar uma ninhada e me fartar de recordações dos tempos de infância. Para minha surpresa, entretanto, logo foram acontecendo os imprevistos. O danado do galo cismou com umas duas delas e acabou matando-as de tanto copular com as coitadas e ficar bicando suas costas. Acabaram perdendo as penas e feriram a pele. Resultado: tivemos que sacrificá-las. E um dos meus cachorros corria de um lado para outro, ao longo da tela, até elas se cansarem e acabarem feridas. Mais galinhas sacrificadas. Acabaram-se as galinhas. E o galo virou uma saborosa panelada de galope.

Agora voltou o desejo de um novo galinheiro. O vizinho, muito habilidoso, tem construído no entorno de sua casa um verdadeiro zoológico para os dois filhos menores. A menina de apenas cinco anos
 entra no galinheiro como se também fosse uma moradora de lá. Lá, além das galináceas, tem um casal de ganso – o macho não gosta de mim. Basta eu chegar por perto para logo vir me bicar - um cabrito e coelhos.  Ou ficando passeando entre as mexeriqueiras, laranjeiras, mangueiras e outras frutas. Próximo da entrada do terreno ele construiu um canil muito ajeitado e um pequeno parquinho com brinquedos ecológicos. E é aqui que fica o menino de dois anos quando desaparece dos olhos da mãe. Meu vizinho ainda cuida da jardinagem no entorno da bela casa. 

Bem, voltando ao meu desejo de ter um galinheiro, hoje conversei com meu  construtor. Deu ideias boas. Tudo dentro dos planejamentos. Eu, calada, só ia pensando nas dificuldades para construir meu galinheiro. Lembrei-me da “Galinha da Gigi”(*) que pulou a cerca e fugiu se escondendo no terreno da casa da minha irmã. Depois de muitos dias procurando pela tal fujona eis que foi encontrada sob um ninho. Estava chocando seus ovos. Acho que é isto que eu quero. Desaparecer e encontrar meu galinheiro prontinho para eu possa tão só admirar seus viveres e chocar meus sonhos.

Pois, nestes tempos de um Brasil sombrio, teremos que encontrar saídas para nos manter bem vivos. Além disto, atire a primeira pedra, quem não precisa de outras vidas, mesmo que sejam das galinhas, para dar preenchimento às nossas faltas?





(*) A Galinha da Gigi é uma crônica escrita por mim e postada neste blog em 13/07/2017

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Enquanto assa a broa




Ela comeu um pedaço de broa na casa do irmão quando de sua última viagem a tão distante cidade. Ficou só pensando no tanto que gostou da mesma.

Morada Nova de Minas é uma linda cidadezinha na região central de Minas, às margens da Represa de Três Marias, do nosso querido Rio São Francisco. Sempre achou estranho o nome da padroeira do lugar, Nossa Senhora do Loreto. Foi procurar sua origem. Descobriu que a santa é protetora dos aviadores e com muitas histórias e lendas envolvendo a cidade de Loreto, na Itália. 

Mas não é disse que Maria Luísa quer falar embora não queira deixar de salientar os dotes culinários da cunhada. Nem da broa que a esperava para o café da tarde. Embora quisesse logo anotar a receita. Estava há muito tempo sem conseguir fazer uma broa assim. Apenas aquela de farinha de milho, sua preferida. Não se esqueceu das palavras da cunhada: “tem que colocar muito queijo. Queijo curado e dos bons”. 

Pois bem, ela havia feito uma primeira vez para receber seus familiares e foi um sucesso. Agora teria convidados para o café da tarde e, enquanto almoçava, a broa assava. E o aroma já invadia toda a casa.

Entretanto outra situação não saía de sua cabeça. Ontem, ao acaso, cruzou na rua com uma mulher que lhe deixou entre risos e lembranças. Não acreditou no que viu. 

Suas lembranças voltaram para mais de quatro décadas quando via algumas amigas tentando esticar os cabelos. Se eram afrodescendentes passavam um pente de ferro aquecido na brasa. Havia um tal de “henê”. Colocavam rolinhos e outras tantas maneiras. Era um sofrimento danado para cuidar dos cabelos. Aquelas que tinham cabelos corridos tentavam encaracolá-los com papelotes, principalmente nas vésperas das coroações a Nossa Senhora.

Maria Luíza tinha os cabelos compridos, brilhantes, castanhos claros e ondulados. Sem os shampoos de hoje, lavava-os com o que tinha às mãos. Cada dia passava o que lhe dava na cabeça. Abacate, sabão de coco, sabão caseiro. Quase vomitou quando passou babosa. O cheiro lhe deixou nauseada. Aprenderia muitos anos depois porque não gostava dos shampoos de Aloe vera. Tratava-se da sua babosa babona e fedorenta. Até que um dia resolveu, literalmente, passar seus cabelos com o ferro elétrico debaixo do papel de pão. Eles brilharam e arrepiaram. Ficaram totalmente eletrizados. Enquanto a mãe ria, ela chorava de raiva. Nunca mais quis fazer isto.

Mas a mulher com quem cruzou na rua trazia seus cabelos enrolados e cheios de grampos. Antigamente chamávamos de “tôca”a este processo de alisar os cabelos uma vez que o penteado lembrava uma touca, peça do vestuário em tempos de frio.

Maria Luísa lembrou que, nas raras vezes que tentou enrolar e grampear seus cabelos com uma “tôca” quase morreu de dor no couro cabeludo. A sensação era de que os cabelos, que deveriam ser enrolados por algum tempo para um lado e depois para outro lado, levavam junto todo o couro cabeludo que obedecia àquela manobra e ficava todo espichado. Ainda pode sentir a dor que aquela “tôca de grampos” lhe causava. Até que resolveu deixar seus cabelos serem eles mesmos. Ficaram lindos e felizes para sempre.

Agora ela fica pensando naquela mulher:

"Será que a mulher dormiu de 'tôca' e não viu o tempo passar?

Não tenho nada com isto. Ela que faça o que quiser com seus cabelos."

A broa assou e ficou muito saborosa.

18/07/2019


domingo, 7 de julho de 2019

Crônica: A VOVÓ DO DUDU


De uns tempos para cá ela vem estando muito cansada. Qualquer esforço um pouco maior no seu cotidiano já a deixa esbaforida. Deixou de criticar as ações do atual governo brasileiro – nem sequer ouvia mais as notícias de seu estado com o “novo” governador. Entretanto doía-lhe o peito cada vez que ouvia alguma notícia de violência ou ataque aos direitos humanos contra as pessoas mais vulneráveis do país. 


Nesta manhã chorou ao ver as labaredas criminosas no entorno da Aldeia Pataxó na cidade de São Joaquim de Bicas, próximo a Belo Horizonte. O medo vem sendo um dos meios usado para intimidar o povo. A violência, as mentiras, as injustiças, a força e todos os descalabros tomaram conta do país.

Um dia teve um piripaque em casa e foi levada a UPA de sua cidade. “Stress” disse o médico após constatar crise hipertensiva sem outras anormalidades. As vizinhas disseram que ela estava estranha e não dizia nada com nada. Os filhos assustaram. Ela afastou ainda mais de tudo que vinha acontecendo bem perto de si.

A tal reforma da previdência lhe deixava de cabelos em pé. O povo chileno já vinha sofrendo as terríveis consequências por terem feito tal mudança nas regras da aposentadoria. Aumentou o número de idosos desamparados e pobres. Não é possível que seu povo tão esperto não visse o buraco em que estão caindo! Lamentava ela.

Televisão ela já não via há quase um ano. Quis por bem que sua TV nova não captasse os sinais de telecomunicação da região. Optou por continuar sem ela. À noite lia seus livros ou assistia algum filme pela internet. Nada de TVs.

Mas estava atenta a cada pedaço de seu país vendido para os países imperialistas. Sentia como se arrancassem um pedaço de sua alma toda vez que ouvia falar sobre as estatais despedaçadas. Envergonhou e não quis ver o presidente apresentando as bijuterias de nióbio no encontro dos vinte países mais importantes do planeta.

Apesar do filho dizer e acreditar numa saída honrosa para tudo isto ela não tinha mais esperanças. Ele até emagreceu de tanto trabalhar, estudar, discutir e argumentar contra tudo que o presidente e sua corriola têm aprontado.

Para a vovó do Dudu o ódio e a ignorância haviam vencido os sentimentos mais nobres do ser humano. A dignidade, o amor, o respeito, a generosidade, a educação e a justiça sucumbiram. Haveria de começar tudo outra vez.

Ela que cantou “Maria Maria” via agora as Marias serem perseguidas e ultrajadas. Ela que cantou “caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais...” assistia agora os caminhos sombrios e emudecidos. Ela que gritou por ”Diretas já” vinha agora a jovem democracia adoecida. Ela que acreditou que “dias melhores virão” via agora um futuro sem futuro.

Enquanto ela vive tudo isto ainda consegue lembrar-se daquela noite fria quando o filho, a nora e o neto foram dormir na barraca. Dudu caminhou até ela, pegou na sua mão e a pediu para deitar com ele e sua mamãe no colchão improvisado dentro da barraca. Silenciosamente ela aceitara o convite. Não sem alguma dificuldade ela deitou num extremo do colchão, a mãe no outro e ele no meio. Ora tocava com as mãos o corpo da mãe e com os pés acariciava o corpo da vovó. Ora invertia as posições sem perder uma ou outra.


Dormiu o netinho. E a vovó ficou pensando em como sair dali. Saiu com a ajuda do filho que veio em seu socorro. Ela olhou para o menino e pensou em todas as crianças neste país tão desigual. 

Não conseguiu evitar uma lágrima teimosa.

07/07/2019

segunda-feira, 24 de junho de 2019

TERESA E O VERBO AMAR


                                           (*)

-"Teresa tem o dedo podre"! Disse o primo com uma sonora gargalhada.

Pronto. Afinal não seria preciso mais nenhum comentário. Naquela noite, após vários assuntos e muitas brincadeiras, falavam-se dos namorados e das namoradas. Como sempre acontecia, nestes momentos, Teresa ficava emudecida. Não gostava de ouvir os primos e primas falarem de seus sucessos nas escolhas dos parceiros. Não entendia porque jamais conseguira ser amada como gostaria nem porquê sempre escolhera e amara os homens “errados”. Fora sempre abandonada pelos namorados embora fosse uma moça bonita, inteligente e interessante. O último namorado não dava noticias. Tinha ido fazer testes de emprego noutra capital e não ligou mais. O celular não atendia. Os amigos a tratavam bem, mas diziam não saber dele.

Aos trinta e oito anos Teresa morava sozinha num apartamento que conseguira comprar através das políticas da casa própria do governo federal. Pagava uma prestação que cabia dentro de seu orçamento. Ainda não comprara seu carro. A primeira opção era sua casa. Decorou com elegância e classe. Poucos móveis escolhidos a dedo. Havia conseguido ser efetivada num concurso que fizera havia dois anos. Mudara de bairro para facilitar o acesso. Agora, pensava ela, é hora de me refazer na vida. Procurou um analista com boas referências, agendou um horário e encarou sua história de vida.

Teresa nasceu na mesma cidade onde ainda vive hoje. Nunca quis arriscar grandes mudanças. Gostava de música e de dançar. Seus pais faleceram num acidente de carro, ainda jovens. Ela e o irmão ficaram com a avó materna. Quando chegou a época do  alistamento, o irmão já havia decidido seguir a carreira militar. Naquela tempo cursava o primeiro período de administração na universidade federal. E lá se foi o único amigo. Teresa era bem mais nova. Quis estudar direito e a avó aprovou a escolha. A neta era uma moça muito solitária. Precisava de amigos e um namorado. Entretanto, poucos meses antes de sua formatura, a avó teve um AVC fulminante. Agora Teresa ficou só para além de sua escolha.

Um colega de turma aproximou, ofereceu colo e ela não recusou. Teresa apaixonou pelo colega. Teria confundido os sentimentos? Mais tarde já não conseguia viver sem o namorado. Esqueceu de viver sua vida e passou a viver a vida dele. Não souberam lidar com aquilo. As brigas vieram apesar do amor. Ele, que não deixava dúvidas acerca de seu amor por ela, passou a evita-la. Obviamente que o desfecho fora o fim do relacionamento. Teresa não sabia como sobreviver àquela separação. Mas sobreviveu. Quando vencera o luto decidira estudar para concursos públicos. As leis e seus tantos parágrafos e adendos levaram-na de volta à vida. Aos vinte e cinco anos saiu de casa da avó pois os filhos decidiram vendê-la. Não teve dificuldades para alugar um apartamento. Suas dificuldades estavam noutro plano. Pouco tempo depois de sua mudança, apaixonou pelo vizinho que lhe dera boas vindas.

Outra relação que lhe traria muitos dissabores. Ele bem mais velho, estava divorciado. Deitou e rolou com a mocinha. Entretanto, tão logo sentira preso no amor, deixou-a só. Foram dez meses de muito carinho, muitas viagens e muitas festas em família. Mas acabou-se. Desta vez Teresa sofreu ainda mais. Juntou suas lágrimas e se trancou em casa. Saia apenas para o trabalho. E a tristeza começou a fazer parte da vida dela. Aos amigos se desculpava dizendo que não sabia amar de outro jeito. Parecia que amava àqueles que, certamente, um dia lhe abandonaria.

Amou outros poucos homens. Sempre com muito desejo e paixão. E sempre sendo deixada por eles.

Hoje, ao escutar o deboche do primo, lembrou-se, que a única vez em que fora escolhida e muito amada, sentira sufocada por tanta felicidade. Por telefone, terminou o namoro.


(*) foto feita pela autora na estrada de Piedade do Paraopeba (distrito de Brumadinho)


24/06/2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Poesia: TICO-TICO-REI

De repente
bem perto
lá estava ele
Pequeno
Saliente
Bicando os grãos
Meu olhar
encheu-se de encanto
Tentei capturar a imagem
Ele bateu asas
e vou
Devo antes
pedir-lhe licença
Sua majestade,
perdoe-me
o atrevimento.
Mas,
por favor,
quando voltar
cante pra mim

17/06/2019