quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PARAISÓPOLIS

Não sou covarde
Estou covarde
Entrei na minha casa
Tranquei portas e janelas
Desliguei a TV

Fechei os olhos
Meus pés escorregaram na terra úmida
Fincaram raízes

A Amazônia incendiada não entrou na minha casa
O óleo dos mares não manchou minhas praias
As balas perdidas não furaram meu corpo

Fiz-me mulher maravilha
Coloquei vestes anti-fogo
Colori meus cabelos
Calcei botas mágicas
Bailei no funk
Mas não subi o morro

Permaneci inabalável
Foi o jeito encontrado
Para não ser o décimo menino morto
Em Paraisópolis.

04/12/2019
(Para suportar a dor pelos nove jovens assassinados pela PM num baile funk na periferia de São Paulo no último final de semana)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A limpeza de pele.



Júlia estava com os olhos vedados. Deitada de costas sobre o lençol branco que recobria o fino colchão da maca ela ouvia a suave música que tocava ali dentro. Decidira aceitar o presente da amiga: uma limpeza de pele. Afinal haveria uma festa e ela queria estar bem aparentada. 
Durante seus quase cinquenta anos lembra que poucas vezes se dera a este luxo. Confessa que adorou o presente. 

A cada massagem a esteticista ia descrevendo as etapas do processo. "Agora é o esfoliante". "Agora é um creme refrescante". "Agora é um calmante para a pele". Mas Júlia gostava mesmo era daquele pequeno instrumento que tirava os cravos. Sempre queria saber se havia algum "milium" a ser retirado. E respondia negativamente quando a moça pergunta se sentia alguma dor. Suas dores sempre foram aquelas foram do corpo.

Em determinada hora Júlia quase adormeceu. A tal máscara refrescante lhe enebriou e ela deixou-se levar para fora de seus sentidos. Neste momento sentiu a presença da sua mãe. Ela estava ali, bem junto dela. Tomou-se de volta. Estava assustada. Sempre percebia vultos da mãe passeando por sua casa. Outras vezes corria ao telefone fixo, por mais de meio século, no mesmo local da casa. Ora queria pedir-lhe uma receita de bolo ou dos docinhos deliciosos que ela fazia nos aniversários dos netos. Algumas vezes para saber como estava. Às vezes apenas para ouvir sua voz. Parava no meio do caminho ao lembrar que a mãe já havia falecido há muitos anos.

Agora, ali, a lembrança da mãe viera acompanhada de uma grande gargalhada. Sem ninguém saber a causa ela soltava sua risada. Parecia algo incontido dentro dela. Só ela sabia porque ria tanto. Mas todos em volta acabavam rindo também. Era uma alegria contagiante.

Enquanto a esteticista esfoliava sua pele, Júlia lembrou da pele do rosto de sua mãe. Era alva, limpa e com os traços bem marcantes. As rugas, quando ainda bem jovem, ao invés de traduzir seus janeiros, davam-lhe suavidade e contavam belas histórias. Jamais fora a um salão de beleza para cuidar de si. Os cabelos negros tinham ondulações precisas. Bastava lavá-los. Eles ficavam do jeito que ela gostava. Júlia nem lembrou quando eles começaram a branquear. Mas lembra deles brancos como a neve.

De vez em quando, ao visita-la, ela pedia que lhe tirasse os pelos do queixo e do buço. E falava rindo que "com mulher de bigode nem o diabo pode". Outras vezes via que ela tentava arranca-los com as pontas dos dedos pois já não os enxergava no espelho. "A vista tá ficando fraca" dizia ela. Nestes raros momentos notava que havia na mãe um resquício de vaidade. Como teria sido ela na juventude?

Júlia não conseguia abraça-la. Sentia que havia uma enorme barreira separando as duas. Entretanto sabia também que era tão amada quanto amava a sua mãe. Cada qual a sua maneira. Mas algo as mantinha distantes. Agora, deitada naquela maca, ainda com os olhos vedados, pode vê-la perfeitamente. Ela era linda. Sabia usar as palavras certas na horas certas. Ela era toda. Completa. Nada lhe faltava naquela vida de parcos recursos e muitos sonhos. Sua fé em Deus lhe bastava.

Mas quando adoecia ficava calada. Seus olhos encovados miravam o vazio. Seus gestos tornavam-se escassos. As gargalhadas não eram mais ouvidas. Suas noites eram longas e sem sonhos. Nesses tempos Júlia adoecia também. Todos adoeciam em torno. Era o tempo da escuridão por toda a casa. Muitos remédios e poucos resultados. A melhora vinha lenta e por si mesma.

Noutros tempos esbanjava alegria. Como a primavera, ela se abria em sorrisos, em coloridos e em muitas palavras. Desabrochava. Então tudo recomeçava. Renasciam todos na casa. A pele voltava a brilhar na sua brancura. Os cabelos teriam de volta as ondulações. E os pelos na face haveriam de ser retirados. Assim fora toda a vida de sua mãe. Talvez ela fosse de lua. Ou quem sabe ela acompanhasse os equinócios e solstícios do hemisfério sul?

Júlia foi retirada de seus devaneios quando a esteticista anunciou a última etapa da limpeza. Ela levantou, foi até o espelho e se aproximou para ver a pele cuidada.

Refletida do outro lado ela viu a imagem da sua mãe num grande sorrindo. Constatou então que jamais seria a mulher que fora sua mãe. Linda. Sem vaidade. E toda mulher.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Seu olhar



Vi que me olhava

Tímida,

abaixei a cabeça

desviei o olhar.

Só queria mesmo

ver você me olhando 



Santo não é

Mas quem disse

Que não sou profana?




24/11/2019

terça-feira, 19 de novembro de 2019

AS CORES DA LOBA



    Quinta-feira cor de rosa

    andou pela cidade

    fez o precisado

    e comprou sem precisão

    Sexta-feira amarela

    Viajou pelas estradas

    esgotou seu corpo

    comeu o desejado

    e bebeu o rosé

    Sábado vermelha

    Perdeu-se na multidão

    Sem palavras

    Dormiu branca

    Acordou lilás

    Abraçou sem braços

    beijou azul

    Domingo arroxeou

    Olhou para si

    devastada

    Descobriu-se loba

    Segunda-feira na água

    Translúcida

    Chorou a mulher

    Do coração de menina.


    18/11/2019

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

"Olhares Clínicos" - Lançamento em Belo Horizonte



E chegou o dia do lançamento do nosso livro "Olhares Clínicos" em Belo Horizonte.

   Convido vocês a participarem conosco desta festa entre amigos.


Data: 22 de novembro, próxima sexta-feira
Local: Coopemed  (Faculdade de Medicina da UFMG / Avenida Alfredo Balena)
Horário: às 19:30 h

terça-feira, 12 de novembro de 2019

"Olhares Clínicos" Lançamento em Juiz de Fora




E foi assim a noite do primeiro lançamento do nosso livro em Juiz de Fora: familiares, colegas de faculdade e alguns amigos. Não faltou a alegria do reencontro mesmo com muitas lágrimas rolando face abaixo.
Nosso dia do médico foi comemorado com contos, crônicas e poesias escritos por médicos/amigos sessentões num livro nascido desde sempre.

Agora que venham os próximos lançamentos:

Belo Horizonte, dia 22 de novembro, 6ª feira, a partir das 19:30 h na Coopemed, andar térreo da Faculdade de Medicina da UFMG, Avenida Alfredo Balena.

Depois virá Muriaé, no dia 13 de dezembro com local e data ainda a serem divulgados.


A seguir virão Betim, Ipatinga, Ubá e Rio de Janeiro.

Comemore conosco.

Aguardamos vocês.


Abraços poéticos.















segunda-feira, 4 de novembro de 2019

mAtalinguagem

...ou MeTALINGUAGEM



“É o duplo do homem”

 O outro lado

 Aquilo que o corpo fala



                                         Eu sinto meu duplo

                                   Olhe para mim

                                   Veja o estrago que me fez



  “É o duplo do homem”

  Uma bela mulher

  À noite desfila nos sonhos



                         Meu duplo vagueia no mundo

                               Procurando o um

                               Se encontrarem, avisem pra mim.



  Olho-me no espelho

  Vejo senão

  o reflexo do duplo



29/10/2019

sábado, 26 de outubro de 2019

Crônica: Os flamboyants das Retas 1 e 2 da cidade de Mário Campos (MG)









Numa manhã desta semana, enquanto ainda tomava meu café, meus olhos foram coloridos pelas flores rosa do ipê à entrada da minha casa/chalé. É a primeira florada de um dos três pés de ipê que plantei na terrinha logo que cheguei aqui há pouco mais de dez anos. Já havia pés de ipê amarelos cascudos, como aqueles do cerrado mineiro.(Numa tarde de intensa ventania, o "pai de todos" voou pelos ares. O tronco principal foi partido ao meio, mas manteve fixo à terra. Hoje ele está coberto pelas raízes aéreas da pitaia.) 

Plantei também um ipê branco, outro roxo e um cedro. Ainda não floriram embora caminhem para uma primeira floração. Fico esperando.

Na época vários fatores me levaram a morar nesta região. Alguns  deles foram o relevo da região, o Rio Paraopeba e as flores margeando a estrada. 

Mas não foi para falar da floração do meu ipê rosa que estou cá a escrever. Quero falar de outras flores que colorem meus olhos na estrada que liga Mário Campos a Brumadinho. 

Quem transita por aqui não pode deixar de admirar os coloridos escandalosos dos vários flamboyants, à direita em sentido a Brumadinho/Inhotim, das Retas 1 e 2, nomes que os máriocampenses carinhosamente deram a esses dois trechos da estrada, ainda dentro do município. Nesta época do ano suas flores misturam o amarelo ouro ao vermelho vigoroso e alaranjado formando imensos cachos densos contrastando com o verde vivo brilhante de suas folhas.  Sem falar que toda a cidade, na primavera, é um canteiro de flores. E tem árvores florindo em todas as estações do ano.

Convoco os olhos dos motoristas e demais viajantes a se extasiarem com os coloridos destas flores ao transitarem por aqui. E convoco os moradores de Mário Campos e órgãos públicos competentes a transformarem estes majestosos flamboyants em Patrimônio Material de Mário Campos.

Aproveito para agradecer ao município que tão bem me acolheu em suas terras.

                    
    26 de outubro, manhã de sábado/Funil/ Mário Campos


(*) O flamboyant é uma árvore de copa abundante e irregular que costuma exibir suas exuberantes flores de forma vigorosa na época do verão. Não tem como passar por essa árvore sem admirá-la, pois, além de bela é radiante com suas flores vermelhas levantando qualquer astral! Esta árvore é considerada uma das mais belas do mundo, devido ao colorido intenso de suas flores. É muito frondosa, possui tronco forte e um pouco retorcido e sua copa é muito ampla, cuja largura pode ser maior do que a própria altura da árvore.
(https://www,greenme.com.br/comoplantar/6939-arvore-flamboyant)

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Palavras do meu neto

Há uma semana tive que fazer uma viagem a Juiz de Fora. Aproveitei e passei em Ouro Branco para ver Dudu, meu neto de quase quatro anos. Fui, com os pais, buscá-lo à saída da escola. Assim que me viu, abriu um sorriso e perguntou:

- Você está morrendo de saudades de mim? 

Respondi que sim. Então ele emendou:

- Ainda bem que me encontrou!

24/10/2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Convite: Lançamento do livro "Olhares Clínicos"



Após mais de trinta anos de formados um grupo de colegas médicos afins aproximou para relembrar os tempos de faculdade. 

Ávidos pelas histórias, pelos causos, pelos contos e poemas, estes jovens doutores se encantaram. Dai nasceu a ideia da coletânea dos nossos escritos. Então nosso livro, que fora gestado bem antes, nasceu nesta primavera. 

Para o primeiro lançamento escolhemos homenagear a cidade de Juiz de Fora que, ainda nos anos setenta, acolheu estes jovens para o curso de medicina na UFJF.

"Olhares Clínicos" traz aquilo que, de cada um, transborda da alma.

Convidamos você, seus familiares e amigos para esta noite tão especial. Venham comemorar conosco este transbordamento de felicidade.

Data: 18 de Outubro, sexta-feira.

Horário: 19:30h 

Local: Associação Cultural Brasil- Estados Unidos

          Rua Braz Bernardino, 73 - Centro - Juiz de Fora

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

JALAPÃO III: MULHERES DOURADAS E CAPIM JALAPOEIRO



Já me perdi nas estreitas e longas trilhas arenosas em meio às veredas que circundam o Jalapão. Mas não quero esquecer das serras que constituem as fronteiras agrícolas do MATOPIBA OU DO MAPITOBA* embora não tenha conseguido guardar qual serra faz fronteira com qual estado.

Entretanto meus olhos guardaram a exuberância das formações rochosas de arenitos coloridos e seus platôs retilíneos, certamente provocados pela ação dos ventos nos milhões de anos passados.

Durantes as quatro noites e cinco dias que ali passamos numa convivência festiva e próxima tudo em mim era sentido. Era pura emoção. A razão ficaria para depois. Sempre é assim em minhas viagens. Fico tomada pelos sentidos e só “a posteriori” vou colocando as coisas nos seus devidos lugares e entender o que se passou.

Pois bem, agora quero falar do que senti ao vivenciar e observar algumas cenas da nossa expedição pelo cerrado.  

Onde estava o capim dourado tão encantado? Enquanto não havia arriscado na pergunta pensei que todo aquele capinzal cor de ouro envelhecido na beira das estradas fosse ele. Não era.

Fui procurar informações e descobri que o capim dourado é uma espécie da sempre-viva de cor dourada. Ele vem sendo usado para confecção de bijuterias e peças de decoração desde o início do século XX. A técnica foi trazida pelos índios Xerente à região do quilombola da Mumbuca, no município de Mateiros, em Tocantins.

- “É proibido entrar na área dele.” Informou o guia. A resposta me decepcionou. Mas logo depois, durante a travessia de uma longa passarela até um dos vários rios da região, o guia me apresentou ao capim dourado. Uma pequenina moita de capim cujos filetes brilhavam ao sol. Pareciam fios de ouro.

Mais tarde fui entender algumas questões que envolvem o cuidado com o capim dourado. Naqueles dias de nossa expedição estava chegando a época da colheita para a confecção dos artesanatos e existem regulamentos de proteção evitando assim a pirataria e sua extinção no cerrado. E a delicadeza de sua floração agradece aos órgãos de defesa de tão rara espécie.

Entre mergulhos em rios e banhos em cachoeiras parávamos para nossas refeições. É aqui que as mulheres entram em minha história. Elas estavam por todos os lugares. Ora nos servindo almoço. Ora nos oferecendo doces regionais, um pedaço de queijo, um suco. Sempre num sorriso que saía da alma e entrava em nós. Eram elas as protagonistas do cerrado.

                                               (1)

No caminho das Dunas, local de estonteante beleza e difícil acesso, encontramos uma delas. Vendia a famosa cachaça com jalapa. Recebia a todos com as mesmas palavras: “jalapa é uma batata do cerrado e que deu origem ao nome. Ela é medicinal, é depurativa do sangue, bom para o intestino, levanta o astral e rejuvenesce. E venha você conhecer o Jalapão e beber a jalapa”. 

E claro que, depois de tantas propriedades, todas nós provamos da cachaça com jalapa. Uma delícia ...

Mas, enquanto ouvia a repetição da mulher para outros turistas, meus olhos clínicos viram um jovem solitário, de pé, com "facies” tristonha e face edematosa, certamente cheia de cachaça. A cena me doeu o coração. Calado ele estava. E calado continuou. Pegou carona na carroceria de uma das Toyotas. Era filho da vendedora da jalapa que pediu a carona. Ali no Jalapão, conforme fui ler no depois, pode-se viajar por até cinco dias sem ver uma única pessoa. O sol queimando as areias inviabiliza o caminhar e existem apenas as comunidades quilombolas remanescentes de escravos que fugiam das fazendas na Bahia e alguns índios.  Por isto apenas carros grandes, com trações nas quatro rodas, conseguem trafegar pelos bancos de areia.

E a  solidariedade dos guias, em várias ocasiões, não me passou em branco.

Numa outra localidade encontramos as bijuterias, bolsas e algumas peças de decoração numa minúscula choupana de palha. A mulher, jovem, inibida e envergonhada, tentava atender a todas nós e nossas ansiedades pelas compras confeccionadas com o famoso capim dourado. Era ela e o marido alternando entre a confecção e a venda. “Cada peça que vocês compraram é um tijolo para a casinha deles” iria nos dizer, mais tarde, um dos guia, muito emocionado e agradecido por nossas compras.

Chegamos à comunidade do Prata. Outro quilombola. Este pertencente à cidade de São Félix. Obras públicas por todo o entorno. Uma mulher com sua filha pequena veio nos atender no espaço comunitário de venda dos produtos locais. Doces, rapaduras, bijuterias, canetas com envoltório do capim dourado e outras pequenas peças. Perguntei se havia uma unidade de saúde na comunidade dadas a dimensão da localidade e sua provável elevada densidade demográfica em relação às demais. “Havia a doutora Maria que o governo mandou embora prometendo mandar outro médico para nós.” Respondeu a artesã. Era uma médica cubana que atendia a todos naquele distante Brasil.

E, na noite do aniversário da minha filha no meio do Jalapão, elas fizeram um delicioso bolo com direito a recheio e cobertura. Ajudaram a cantar os parabéns e agradeceram a nossa presença.

Num dos almoços que aconteciam com mesas fartas de pratos regionais uma das cozinheiras nos fêz um delicioso estrogonofe de legumes e nos apresentou outras tantas iguarias que elas fizeram mesmo sem ter energia elétrica no local. "O gerador é pequeno e não conseguimos gelo para os sucos mas o patrão foi buscar e logo chega." Era ela a se desculpar. Logo o gelo chegou e ela nos serviu deliciosos refrescos de frutas.

Sempre lá estavam elas a nos servir nos restaurantes e pousadas. Havia eficiência, dedicação e prazer naquilo que faziam. Procuravam fazer o melhor para atender as “turistas do sul” como se fôssemos superiores a elas.
Mal sabiam que todas nós ali nos tornamos pequenas demais diante da grandeza de todas elas.

Comprei rapaduras, doces, cachaça, blusinha para meu neto, brincos e pulseiras. Com estes presentes trouxe um pedaço da fortaleza das mulheres jalapoeiras e a beleza do capim dourado.







                                                                         (2)



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Fotos:
11)    Mandalas de Capim dourado
( 2)    Mandalas de Capim dourado
( 3)    Exposição de peças de capim dourado
( 4)    Floração de sucupira
( 5)    Cachoeira da Velha
( 6)    Cachoeira da Velha
( 7)    Trilhas arenosas e, ao fundo, Serra do Espírito Santo.
( 8)    Passarela a um os Fervedouros


(*) MATOPIBA ou MAPITOBA são as iniciais dos nomes dos quatro estados brasileiros que compõem a fronteira agrícola. Maranhão - Tocantins - Piauí – Bahia.

OBSERVAÇÃO: Agradeço às jovens turistas que estiveram junto comigo nesta expedição e que, prontamente, me enviaram fotos e vídeos para que pudesse ilustrar e lembrar de alguns fatos. 


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Microcontos / AMOR

UM AMOR

Nos 15 anos de Helena ele chegou. Ofereceu seu amor mas ela não o quis. Aos vinte anos, quando Helena o desejou, ele se foi. Entretanto continuaram se amando, em outros corpos, por toda a vida.


UM CACHORRO

Tigre jamais aceitou que outras mãos lhe dessem o alimento. Quando seu dono virou moço e saiu de casa para trabalhar, ele morreu de tristeza, ou de fome?


UM AMOR DE OUTRO CACHORRO

Ele chegou ressabiado. Namorou o espaço, calculou o tempo, entrou e ficou. Hoje, envelhecido, ele esquenta ao sol enquanto namora o voo dos pássaros e aguarda o tempo que lhe resta.

 30/09/2019   FUNIL


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Desandança

Da lua cheia eu sei
  que está pensando em nós

Uma saudade imensa
 de tudo que não foi dito

Olha a lua mansa a se derramar
  seu nome já me soa estrangeiro

Por onde for
 ainda quero ser seu par

Meu namorado é rei
 e governa meu coração

Mas só a dor me ensina
  a viver sem pensar

E me diz onde vou chegar
 vagando em versos eu vim

E essa Terra encerra meu bem querer
 vestido de cetim

Jamais termina meu bem querer

terça-feira, 24 de setembro de 2019

JALAPÃO II: "ARROCHA O BURITI" (*)

Pedra Furada vista da estrada.

                               


Acordamos bem cedo na manhã seguinte e descemos com nossas bagagens para o hall do hotel. Logo em frente estacionou um carro marca Toyota, modelo 4x4, branca, plotado nas laterais com o nome SAFARI DOURADO. Minha filha observou a pontualidade do motorista tão logo este se apresentou. Ele acomodou as cinco mulheres, nossas malas, nossas mochilas e nossas ansiedades.

Lá vamos nós. Óculos escuros, roupas leves conforme sugerido, chapéus ou viseiras, nada de cremes hidratantes, repelentes e ou bloqueadores solar. 
No carro tínhamos água gelada a vontade e frutas frescas. Nosso guia-motorista falava pouco, mas respondia nossas perguntas e essas eram muitas. Eu queria saber da geografia do local, da hidrografia, nomes das arvores, das flores, quais pássaros habitavam o local, quais bichos viviam por ali. E ele, calmamente, respondia a tudo. 

Fui observando, ao longo da expedição, que apesar do trabalho árduo dos guias, havia uma ligação de afeto com toda a vida da região.


Paramos algumas vezes para as necessidades fisiológicas, para um descanso, para conhecer uma serra ou uma pedra famosa ao longo do caminho. E toda a estrada estava sobre enormes bancos de areia. Durante várias horas nenhum outro carro em sentido contrário. Nenhuma pessoa andava por ali. Éramos apenas nós, quatro carros Toyota, modelo 4x4 e um bando de turistas ávidas pelo Jalapão. Eu era a mais velha do grupo. Assim começaram a me chamar, carinhosamente, de Tia Maria. Estávamos no meio daquele mundão de terrenos arenosos e árvores retorcidas, ali estava o cerrado.

Não sei em que ordem ou desordem devo descrever nossas aventuras, entretanto tentarei falar daquilo que ouvi, que deixei de ouvir, do que vi e, sobretudo, do que senti por todos aqueles dias. Sei que não queria perder nenhum detalhe da viagem e meus olhos iam de lado ao outro do carro como se fosse possível ver tudo.

A cinquenta quilômetros de Palmas passamos por Porto Nacional, cidade do século XIX, “Capital Cultural de Tocantins” e capital estadual do agronegócio. Ela está a 212 metros de altitude em relação ao mar (calor médio de 39 graus). Lembrei-me da minha amiga dizendo, com muita gratidão, que “Porto Nacional é o berço cultural de Tocantins”. Depois deixamos o asfalto e entramos nas estradas de terra e areia.

Mais cem quilômetros e chegamos a Ponte Alta do Tocantins, pequena cidade, onde meus olhos sorriram ao verem duas placas. Numa delas li Faculdade de Gestão Fazendária e na outra, escrita num talude gramado e em letras grandes, PORTAL DO JALAPÃO. Agora estávamos entrando no nosso destino e nosso primeiro mergulho seria na Lagoa do Japonês. Mesmo ainda acanhada diante da moçada, dos guias e de toda aquela gente, decidi entrar e nadar. Um espetáculo da natureza. 


As águas azuis-esverdeadas transparentes, sua calmaria e seu frescor foram os fatores que me levaram a aventurar um mergulho. Então não parei mais de nadar e mergulhar até minha próxima aventura: uma tirolesa por sobre toda a extensão da lagoa descendo por um penhasco de pedras, árvores e águas. Tudo aquilo alinhado num abraço inimaginável. Será que terei coragem?

E para lá subimos, eu, minha filha e outras corajosas mulheres. Quase sem fôlego chegamos finalmente à pequena plataforma de madeira para nos amarrarem com cintos e cordas de segurança além do indispensável capacete. Minha filha quase desistiu, mas foi. Chegou a minha vez. “Eu não vou mais. Amarelei” disse ao instrutor que me encorajava dizendo "desce até na ponta". Eu desci. Olhei para baixo e já não dava mais tempo para voltar atrás. Ai meu Deus. Lá fui eu. Segurei firme e, nos vinte segundos da estonteante descida, abri os braços, voei e gritei por duas vezes: “LULALIVRE”. Então me livrei do fantasma da inibição.

Mais tarde rumamos para outros destinos. De novo faço viagens maravilhosas tanto para fora de mim quanto para dentro da minha alma.

De um determinado ponto da estrada pude ver uma enorme rocha cujos contornos me fizeram lembrar o bisão americano e, de acordo com a proximidade, já pareceu um elefante conforme me mostrou o guia. Chegamos até aquele animal. Era a famosa Pedra Furada - “um gigantesco conjunto de blocos areníticos esculpidos pelos ventos há milhões de anos”. (**). À medida que o sol ia se pondo, os raios vão mudando as tonalidades das cores do arenito e formando um espetáculo de se ver.

As meninas voltaram extasiadas com a beleza do fenômeno e, obviamente, fizeram várias fotos delas no local.

Não fui até lá, pois fomos alertados de que havia alguns enxames das danadas abelhas africanas instaladas recentemente na redondeza da Pedra. Contudo se não fui assistir ao encanto do pôr do sol na Pedra Furada, ganhei com a presença de um pássaro que, escondido nas árvores, entoou seu canto só para mim.

Até a próxima parada.



(*) Expressão muito usada no Jalapão que, segundo me disse a linda amiga que fora comigo e minha filha, significa “mete bronca”, “vamos ver”.

(**) 
https://turismo.to.gov.br/regioes-turisticas/encantos-do-jalapao/principais-atrativos/ponte-alta-do-tocantins/).


Lagoa do Japonês



Arara do Cerrado




quarta-feira, 18 de setembro de 2019

JALAPÃO I: Palmas




Aprendi ainda bem jovem, acerca da geografia física do Brasil e o planalto central sempre me chamou a atenção dada suas características às avessas de nossas Minas Gerais cheias de serras e cidades cheias de morros.

Pois bem, há muitos anos ouço falar do Jalapão. Não há tanto tempo ouço falar do capim dourado. Não sabia da existência dos fervedouros nem das comunidades quilombolas naquelas terras. E jamais havia pensado nas vidas dos “jalapoeiros”. Ou seja, muitas novidades para meu mundo de conforto em torno da minha tão querida Belo Horizonte.

Então, sentindo em dívida com minha primeira filha, resolvi propor uma viagem dentro do Brasil. Sugeri três destinos e ela escolheu o Jalapão. Com minha idade um tanto já avançada, seria a hora de fazer este passeio. Mais tarde talvez seja impossível. E o Jalapão era meu favorito. Ganhamos na escolha.

Obviamente que, com a minha costumeira preguiça e a total falta de jeito com a informática, deixei por conta dela todos os detalhes da viagem. Era meu presente do seu aniversário, dia 12 de setembro.

Passagens aéreas compradas, hotel reservado, roteiros turísticos de acordo com a agência escolhida, uma pequena mala com roupas leves, calçados adequados, chapéus e lá fomos nós três: eu, minha filha e uma jovem amiga dela. 

Voamos para Palmas numa escala de três horas em Goiânia, cidade que eu não conhecia. Resolvemos sair do aeroporto e passear na cidade. Ficamos entre dois locais: Mercado Central ou Mercado Municipal. Escolhemos, sem quaisquer critérios, o Mercado Central onde poderíamos almoçar. Porém, para minha surpresa, bem defronte ao dito mercado havia uma placa gigante “Estacionamento Mercado Central” e, ao descermos conforme orientou o motorista do Uber, li no alto do prédio do mercado outra placa “Mercado Municipal de Goiânia”. Nestas horas vem meu lado obsessivo acompanhado da minha chatice e eu interrogo: é Mercado Central ou Municipal? Seja um ou outro não tem a menor importância.

Entramos saltitantes e ficamos andando pelos corredores procurando souvenires, doces, cachaças e outros produtos regionais. De repente meus olhos são convocados a olharem para uma banca de calçados “genéricos”, como bem disse minha filha, onde deparei com aqueles emborrachados de andar dentro de piscinas, rios e cachoeiras. Havia, há algum tempo, procurado em BH um deles para presentear uma colega da hidroginástica. Não os encontrei. Agora, que não posso carrega-los, eis que me aparecem bem ao alcance das mãos.

Continuamos nossa “via-crucis” pelos corredores quentes daquele mercado até nos depararmos com os restaurantes onde garçons convidavam as três turistas, apresentando cardápios variados e a gosto. Entretanto o calor nos encaminhou para um lanche modesto. Optamos por sucos naturais e empadas. Como apaixonada por elas, escolhi aquela de frango com guariroba – “é um palmito amargo do cerrado”- nos respondeu o jovem empregado. Mas, na primeira mordida, veio a decepção. Não era da massa podre, minha predileta. “É massa goiania” informou novamente o moço. Acabei adorando a tal massa. Estava tudo delicioso.

Ali comprei apenas duas pequenas lembranças para o filho e a filha que não vieram. E Goiânia não poderia ficar esquecida. Nunca havia pensado em conhecer esta capital. Agora veio a vontade.

De volta ao avião não encontrei lugar para minha mala. Os espaços acima das nossas poltronas estavam ocupados por mochilas e bolsas de mão que deveriam estar sob as poltronas conforme orientação das comissárias. Pedi a uma delas que me ajudasse e ela, simplesmente, me disse “lá nos fundos ainda tem lugar” declinando de suas próprias orientações e de seu dever. Nada contra “os fundos”, mas tudo contra o nonsense e os abusos destes passageiros. Pensei noutras posições destas pessoas, entretanto não quero falar disto aqui.

Chegamos a Palmas. Esta cidade eu sempre quis conhecer! Já no percurso entre o aeroporto e nosso hotel foi possível ver a grandeza da construção da capital de Tocantins. Traçados amplos, avenidas arborizadas com a vegetação típica da região, trânsito tranquilo, edifícios modernos, construções baixas e lindas. E, embora a temperatura estivesse em 38 graus, às 17:30 horas, a sensação térmica era bem inferior.

Logo que nos acomodamos, entrei em contato com a colega pediatra, moradora dali a quase vinte anos. Havíamos conversado no encontro de trinta e cinco anos de formados da turma de medicina UFJF/1981, em Juiz de Fora. Embora seu nome também inicie com “Maria”, ela não havia feito os primeiros semestres da terrível anatomia com o grupo das outras quatro Marias. Não sei o que houve na época. Mas jamais poderia esquecer suas risadas, a gravidez ainda no início do curso e o grande amor de sua vida, de quem falava com muita paixão.

Combinamos local e hora. Ela apareceu lá, acompanhada de sua paixão e de sua risada, no Bar Dona Maria Beach, na belíssima Praia da Graciosa onde todas as Marias nos sentimos em casa. Um drink regional e petiscos à moda do local. Falamos e rimos  como duas adolescentes em época de acadêmicas.

Escutar sua história, enquanto profissional médica, nos últimos trinta e oito anos, foi um prazer. Mais uma de nós que dedicou à Saúde Pública conforme nos foram confiados os ensinamentos da Faculdade de Medicina ainda nos anos sombrios da ditadura no Brasil.

Não pude deixar de observar o amor com o qual ela falou do estado de Tocantis. Contou que o norte de Goiás sempre fora a ferida aberta que nenhum governo queria cuidar até que optaram por deixá-lo à própria sorte. (vou querer conhecer esta história tão recente de nosso país). Após a sua criação, o jovem estado do Tocantins, desenvolveu rapidamente, despontando com sua cultura nascida na cidade de Porto Nacional, bem ao lado, com seu povo alegre e sua riquíssima história.

Combinamos novo encontro na volta da expedição. O casal nos levou até o hotel.

Agora vamos dormir porque amanhã tem o cerrado e as águas do Jalapão.

domingo, 8 de setembro de 2019

Nós, o ar e o Lula Livres




Lembro lá em 2002 a festa que foi em casa e não entendia bem o porquê.
Hoje, com todo esse circo que está armado no Brasil, consigo ver claramente que a felicidade dessa mulher maravilhosa ao meu lado na foto não era por ela, e sim porque o povo brasileiro ia ter um pingo de esperança e dignidade.
A vergonha do governo é enorme, mas o orgulho de ter crescido e aprendido com uma pessoa honesta, íntegra e trabalhadora é MUITO maior.
Obrigada mãe, por ter me ensinado e proporcionado tudo que levamos pra luta hoje, ela só está começando.
Teve Lula Livre no show do Alceu Valença no Inhotim e a galera correspondeu demais, foi lindo!


Eulália, 08/09/2019

OBSERVAÇÃO: ontem, dia 7 de Setembro, minha filha, Eulália, e eu tivemos uma experiência bem singular. Estivemos no Inhotim, Brumadinho, MG, assistindo a apresentação do Orquestra Ouro Preto, sob a regência do maestro Rodrigo Toffolo, com Alceu Valença quando ao final, durante a canção Anunciação, minha filha levantou a faixa LULALIVRE, começou a cantar e a dançar. Obviamente a mãe orgulhosa ficou filmando e não viu a repercussão do ato. Várias pessoas também a filmaram e, à saída nos jardins, algumas pessoas pediram para que fossem fotografadas com ela e sua faixa. 
Queremos nosso país de volta. Nossa soberania e nossa alegria. 

Maria do Rosário Nogueira Rivelli

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

UM SONHO.





Ele descia a rua com seu passo dançante. Não vi se naquele dia ele trazia a costumeira marmita de alumínio envolta num branquíssimo pano de prato. Reparei que seus cabelos estavam bem penteados, com as ondulações escurecidas e brilhantes do tonalizante masculino da época, o famoso "Grecin". Suas roupas eram adequadas, comuns. Reparei também que chegava sozinho. Provavelmente vinha do trabalho senão estaria de braços dados com a esposa.

O que chamava a atenção era seu sorriso de mansidão ao cumprimentar os vizinhos. Ele descia a rua. E a rua parava para vê-lo passar. Será que trabalhava na mineração? 

Era um homem como outro qualquer. Tinha sua casa como todas as outras da rua. O capricho ficava por conta de sua eterna namorada. Não era um homem rico. Era respeitado pelos outros homens da rua. Era um homem cheio de carismas.

Subindo a rua havia um outro homem. Também tinha um sorriso estampado na face. Entretanto trazia em si uma face de sofreguidão. Vestido sempre com extrema elegância. Morava na casa mais bonita da rua de cima. Lembro-me dele andando de um lado para outro no belo jardim da sua casa. Às vezes assobiava uma canção desconhecida. Era de poucos amigos. Tinha um emprego que lhe garantia bons salários e uma vida de luxos. Quando o via, notava que seus olhos buscavam algo nas alturas. Quem sabe a paz que parecia lhe faltar?

Agora esses dois homens cruzam na minha rua.

Primeiro aquele do sorriso manso descendo a rua. Depois, este do sorriso sôfrego, subindo a mesma rua. Era a minha rua.

Ao cruzarem, sem que um se soubesse do outro, apareceu no meio deles uma mulher. Não uma qualquer mulher. Mas uma mulher que não precisava de sorriso, indumentárias, ou qualquer palavra. Ela se fazia toda. Não carecia de nada. Apenas olhou para os dois homens. De alto a baixo. Estava dito. Entre o operário e a nobreza havia o desejo de uma mulher. Ser vista. 

Assim é o inconsciente. Mesmo dormindo ele não pára de desejar. 

Então acordei de um sonho entre dois homens tão iguais e tão diferentes. E meu sonho apenas veio me confirmar aquilo que eu já sabia, ou seja: como eu gostaria de ser tal e qual aquela mulher! 

Se assim fosse certamente eu teria o amor do terceiro homem. Aquele que não aparece nos meus sonhos porque dorme preguiçoso dentro do meu peito.


05/09/2019

(Foto feita por mim num dos Palácios da Família Real, em Londres em julho de 2018)

 05/09/2019

sábado, 24 de agosto de 2019

SAVE THE AMAZON

Ontem tive mais uma súbita crise hipertensiva. Tenho minha pressão arterial sempre em níveis baixos e, por isto, não devo usar os anti-hipertensivos; orientação do meu grande amigo cardiologista.

Ontem foi um dia muito produtivo. Resolvi várias questões pendentes e estava acompanhada das minhas filhas. 

O que então me levou a tal crise? Minha pressão diastólica, aquela que segura meu fluxo sanguíneo quando a outra, a sistólica, eleva por demais, chegou a ficar muito além dos desejáveis 90 mmHg. Tomei o remédio recomendado neste caso e fiquei quieta.

Mas como ficar calma com as chamas de nossa Amazônia fogueando meus olhos?

Como ficar em silêncio com o barulho do crepitar do fogo ateado na floresta?

Como não chorar pela falta de ar do nosso pulmão caminhando para uma fibrose?

Como sossegar diante de um povo que defende o presidente de nosso Brasil defecando palavras em vão?

Não bastará bater panelas. 

Vamos às ruas. 

E que nenhuma pressão arterial desassossegue homens e mulheres do meu país por conta da tirania do mandatário.

Então me ajudem a gritar ao mundo:

          "HELP. SAVE THE AMAZON".

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A novela turca




Sem sinal de TV e optando, para preservar minha saúde mental não assistindo os horrores da política brasileira atual, decidi pelas séries da Netflix. Minhas escolhas nunca agradaram minhas filhas que preferem assistir as complicadíssimas séries americanas. Prefiro aquelas épicas e recheadas de romantismos.

Eis que começo a ver "Resurrection - Ertugrul - O Grande Guerreiro Otomano". Logo nos primeiros capítulos fui capturada pela história, pelo figurino, pelas fotografias, pelo modo de vida das tribos nômades e pelas conversas cheias de metáforas.

Começarei então pela aventura histórica que acontece no século XIII, mais precisamente em 1250, quando os muçulmanos turcos Oguzes, da tribo nômade Kayi, se vêem diante de um grande conflito que poderia exterminar seu povo caso não reagissem e lutassem heroicamente. Do noroeste vieram soldados bárbaros das Cruzadas ou Templários que desejavam expandir seus territórios e sua religião a qualquer preço. E muitas vidas humanas foram ceifadas em nome do cristianismo, a mando da santa amada Igreja. A violência nas variadas formas de matar e as torturas impostas ao povo turco foram marcantes naquela época. E, pelo leste, chegavam os terríveis  mongóis assassinando e queimando as tribos e seus povos para a expansão do Império Mongol uma vez que queriam dominar a Europa.

Neste contexto aconteceram as lutas de resistência de um povo liderado pelo grande "Alp" -guerreiro turco - Ertugrul que foi um líder, filho do "Bei" ou Senhor da tribo Kayi. Eles se viram em meio ao fogo cruzado uma vez que seu território ficava exatamente no local estratégico tanto para quem queria ir para a Ásia, quanto para quem desejava ir para a Europa. E é neste ambiente que a novela acontece.

Se as cenas de lutas, nada bem feitas da TV turca, nos fazem criticar a série, por outro lado todo o enredo vai nos contaminando com as emoções em cada capítulo. 

O cuidado com as palavras, a preocupação com o bem estar da tribo, as histórias contadas pelo "dervixe"- monge muçulmano que faz votos de caridade -, as leis do alcorão e o respeito pelo outro, são exaltados durante todo o tempo.

Em relação ao figurino não foram poupados os adereços e os coloridos nas mulheres. As roupas são de dar inveja a nós, mulheres ocidentais de hoje. Entretanto muito mais visível que as vestimentas da época são as relações com "seus homens". Caladas, submissas, subservientes, são elas entretanto que dão toda a direção dos trabalhos e comandam, no silêncio, as atitudes de seus maridos. Responsáveis pelas mercadorias a serem vendidas em mercados turcos, elas confeccionam as tapeçarias colorindo as lãs, tosquiadas pelos pastores, com os mais belos tons. E os resultados são tecidos e tapetes ainda hoje desejáveis por todo o mundo. (Lembro que há muitos anos decorei meu consultório com um belíssimo "Kilim" nos tons salmão. Onde foi parar meu tapete oriental?)

As emoções ficam por conta das intrigas e traições de membros da própria tribo que, desejando ascensão e poder, se uniam aos templários ou aos mongóis. 

Os hábitos dos povos dentro e fora das tendas, os casamentos realizados nos interesses das tribos, as migrações nas primaveras, os invernos rígidos, as decorações e utensílios do dia a dia das famílias, nos dizem do muito que perdemos com os tempos vindouros. 

Se "meu dever de casa" da Oficina de Escrita era para falar sobre algo "acima de qualquer suspeita", digo que, mesmo sendo uma série de uma TV Turca, com vários defeitos nas filmagens, sinto um  prazeroso bem estar em conhecer outras culturas e outros tempos. E isto está acima de qualquer suspeita.