sábado, 25 de janeiro de 2020

Carta de amor III

Meu amor

Nesta manhã, ainda na cama, vejo enviada por uma amiga comum, sua foto estampada num convite de palestra para este Natal. Nada do assunto me trouxe desejo de ouvir tal conferência. Entretanto a possibilidade de ver você me deixou em dúvida. Neste momento, tão perto e tão distante nos encontramos nós.

Como em todos os anos, a proximidade do natal, me traz uma saudade imensa do tão pouco que vivemos e do tanto que recusamos viver. Tanto no amor quanto noutros sentimentos nossas lembranças não situam num tempo cronológico mas se dispõem no aqui e agora. E nossas escolhas foram tais que nos deixaram à mercê de nós outros. Eu, infantilidade e desejo. Você razão e defesa. Um encontro impossível.

Não irei à sua palestra. Irei ver você. Afugentar seu espirito e afoguear sua carne. E, antes que termine suas palavras, sairei “à francesa”. Sei que minh'alma ficará estraçalhada e sei também que, embora fique impassível a minha presença, não deixará de me olhar. Pouparei você disto? Ainda não sei. Sei que você buscou um deus misericordioso para abrigar as angústias de suas contradições. Suas epifanias certamente são resultados daquilo que não lhe convém.

Ah! Quanto amor guardado! Quantas palavras por dizer! Quantos gestos por fazer!

E você estará na cidade ainda nesta semana.

Vou ou não vou? 

Ah! Dúvida atroz!

Certamente você não virá para “destruir a lei”. Afinal você vive ao abrigo desta lei para não se haver com seus quereres. Confortável sua posição. Queria ver você sem a imposição de suas leis. A assim sempre estive eu. 



                      
Lafaiete, 19 de dezembro de 2017

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