quinta-feira, 5 de maio de 2022

A japona cor de laranja passada



Foi assim. Ele chegou dentro de sua japona cor de laranja passada. Parou defronte a minha casa e me olhou com olhos de menino perdido. Nem consegui saber que cor tinham aqueles olhos. Olhei com desdém. Era um menino feio; sem jeito algum; sem beleza alguma. Só a japona da cor de laranja passada.


De pé, no meio da rua, meu olhar cruzou com o dele. Eu e meus preconceitos nem demos bola para aquele menino esmirrado dentro daquela japona cor de laranja passada. Era mês de março naquele interior dos interiores. Chovia. Será que fazia frio? Nem sei.

Crescemos perto um do outro. Eu e meus preconceitos não o vimos mais. Será que ele estava ali por perto? Nem dei fé caso estivesse. 

De novo o mês de março chegou. Chuvas trazendo lamas para aquela rua nossa.

E outros marços chegaram. Descobri que São José era pai do Menino Jesus. Descobri também que era carpinteiro. Fiquei sabendo que o menino da japona cor de laranja trabalhava como servente de pedreiro. Eu e meus preconceitos não queríamos saber dele.

Virei moça feita. Escolhi namorados tantos e tontos. Nada mais.

A japona cor de laranja passada e seu dono desapareceram.

Numa tarde de um dia de verão ele apareceu. Sem a japona cor de laranja passada. Estava dentro de um Cadillac verde brilhante. Eu e meus preconceitos choramos o tempo da japona cor de laranja passada sabedoras de que não voltaria mais.

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