Em casa, a vovó só ficava…
…lendo
Espero que continuem comigo nestas viagens através das letras, das palavras e das histórias contadas por tanta gente ao redor do mundo.
Vamos lá?
Latim em Pó / Um passeio pela formação do nosso português, Companhia das Letras, de Caetano W. Galindo.
Vejam o que nos diz Noemi Jaffe, escritora, professora e crítica literária sobre este autor:
“Não contente em ser um dos melhores tradutores do país, Caetano Galindo também nos presenteia com uma das melhores leituras da nossa língua, sua história, seus aspectos, e uso. Este livro é um passeio, uma navegação pelo português e pelo Brasil.”
Jamais poderia imaginar eu viajando por uma língua. Disse para meu filho que não estava conseguindo avançar na leitura porque queria guardar tudo que lia. Tudo aquilo era muito novo e eu achava tudo muito importante. Vai lendo mãe, depois você lê outra vez. Foi a recomendação do meu filho. Até hoje continuo lendo e relendo. Interessante demais. Então descobri que, na verdade, eu não queria perder nada do que este Caetano, tal qual o nosso Caetano Veloso, nos ensinava no livro. Senão vejamos na página 182:
“Apesar das adversidades, foi a língua falada por negros e mestiços que dominou o Brasil. Somos um país que fala português como fruto direto da presença negra.
Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da ‘última flor do Lácio’. O português brasileiro foi um broto africano, flor de Luanda.” (pag. 182)
“... E os milhões e milhões de mortos do passado, nossos antepassados nas estepes da Ucrânia, nas penínsulas da Ibéria e da Itália, nas terras germânicas do centro da Europa, na Arabia, no Magrebe, na Sibéria e nesta América, na África toda, inteirinha cortada pela cicatriz dos séculos de escravismo, Todas aquelas pessoas que um dia ergueram as vozes que nos deram o ‘céu’ (indo-europeu), ‘azul’ (persa), que nos desejaram ‘axé’ (fon), que nos moldaram o ‘barro’ (iberico) ou um ‘carro’ (celta) de ‘boi’ (latim), aqueles que por ‘azar’ (arabe) atravessaram ‘guerras’ (germânico), as maẽs que nos fizeram ‘pipoca’ (tupi) e zelar por nossos ‘cochilos’ (banto). (pag. 210)
Saber que a palavra azul veio do fasci/persa me fez gostar ainda mais do Irã com seu povo guerreiro, com sua história milenar, com o grande Império medo-persa dos reis Ciro, Dario e Xerxes (550 a.c.).
Gostaria de trazer outras citações, mas meu texto ficaria ainda mais longo e ainda há mais livros por aqui.
E chegou a vez de reler:
Vidas Secas, 120 Editora Record, Rio de Janeiro - São Paulo / 2013.
Havia lido este livro na minha adolescência, e agora como uma escolha da Tertúlia Literária de Betim. Excelente escolha. Aqui chorei outra vez, feito criança, com as histórias de Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Maior, o Menino Menor e a cachorra Baleia. Graciliano Ramos nos leva junto à família numa peregrinação do viver a vida sem ser vivida. A miséria escancarada num país rico de tudo. A seca matando e exercendo sua seleção natural.
Agora lembrei-me de alguns professores, durante meu curso de medicina - em tempos sombrios da ditadura militar no Brasil - afirmarem/agourarem o futuro das crianças nordestinas, porque eles não ingeriam proteínas e vitaminas suficientes para formarem cérebros críticos e pensantes. Contrariando todas estas profecias, o povo nordestino tem nos dado histórias gigantes nos campos social, político, cultural, educacional e tantos mais. Confesso que amo nosso nordeste com sua gente.
Enquanto escrevo, vou relendo algumas partes do livro com o fim de trazer-lhes um período ou um parágrafo para verem a beleza/tristeza do relato de Graciliano Ramos sobre a família que tenta sobreviver à seca e à miséria de um nordeste abandonado pelo poder público da época. Entretanto, todo o livro é maravilhoso, trago-lhes um pouco dele:
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O livro é grande demais, mas, por vezes, ainda leio alguma coisa nele. (1)
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No livro o jovem nos conta suas histórias, “mais íntimas do que um diário, as cartas de Charlie são estranhas, hilárias e devastadoras" . Sua cartas - diários nos deixam apaixonados por ele. Não sabemos quem é ele, onde mora, com quem vive, sua idade, etc. Entretanto é lendo que vamos descobrir quem é Charlie. O livro foi adaptado para filme, em 2012, com o mesmo nome.
E Charlie nos diz:
"Eu tive uma sensação na sexta à noite, ……..Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:
Num outro ponto ele nos diz:
“27 de maio de 1992
Querido amigo,
Fiquei lendo The Fountainhead nos últimos dias, e é um livro excelente. Estou lendo na capa que a autora nasceu na Rússia e veio para os Estados Unidos quando era jovem. Ela falava mal o inglês, mas queria ser escritora. Acho que é uma pessoa admirável, então me sentei e tentei escrever uma história.
‘ Ian MacArthur é um companheiro maravilhoso que usa óculos e os usa com deleite.’
Era a primeira frase. O problema foi que eu não consegui encontrar a segunda. Depois de limpar meu quarto três vezes, decidi deixar Ian em paz por um tempo, porque eu estava começando a ficar chateado com ele.”
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Na Ponta da Língua - Nosso Português da Cabeça aos Pés, Editora Companhia das Letras - 2025
Neste livro Caetano percorre o corpo humano através da língua portuguesa e vamos vendo e entendendo as interligações das várias origens do nosso idioma. Vejam por onde ele começa:
"Se você viajasse no tempo, até 7 mil atrás, e presenciasse uma conversa de um grupo de pastores nômades na região onde hoje fica a Ucrânia, talvez percebesse que estavam falando de um cavalo mas teriam poucas chances de entender algo do que diziam."
Mais adiante ele continua:
"Esse idioma na linguística recebe o nome de protoindo-europeu não porque tenha qualquer coisa de imperfeito (proto-) nem porque fosse falado na Índia (indo-), mas por ser considerado a matriz de todo um tronco de idiomas que, esses sim, são falados desde a Inglaterra até Bangladesh, da Rússia a Itália. E isto porque os descendentes daqueles pastores que conversavam a respeito de um cavalo no início do capítulo acabaram se espalhando por um terreno gigantesco, ao longo dos 4 mil anos seguintes, determinando a paisagem cultural, linguística e genética da Europa, da Pérsia e de boa parte do subcontinente indiano."
Numa outra passagem deste livro me diverti com o nome philtrum dado ao pequeno canal entre o nariz e a boca quando o autor nos diz que:
"Aquele risquinho recebe o nome de uma poção mágica! Afinal, a raiz grega por trás dessa versão da palavra, e também da mais comum filtro, tem ligação com o radical phileo - de amor. Na verdade, o sentido mais básico, mais antigo de filtro em português é poção do amor."
E assim vou me divertindo com os livros.
(1) Quero agradecer e homenagear nossa colega da Tertúlia Literária de Betim, Ana Claudia Gomes, historiadora com quem tenho aprendido muito durante as discussões dos livros escolhidos e lidos por nós. Ana Claudia tem enriquecido nossas discussões sobre os livros. Jamais esquecerei Dinamene.
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