terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Pequena crônica do cotidiano: Filas

 


Filas: uma mania?

Nesta manhã algumas questões corriqueiras e outras nem tanto me levaram até Betim, cidade onde morei por três décadas, onde criei e eduquei meu filho e minhas filhas. Andei como se estivesse em minha casa. Betim é minha casa e sempre será. Que isto fique bem claro. Entrei em lojas, tomei café com pães de queijo numa padaria e até deixei um abraço para um sobrinho que não vejo há algum tempo. Estranho que só agora enquanto escrevo me dou conta de que eu não percebia as pessoas nas ruas; eu caminhava automaticamente como se estivesse olhando para dentro de mim.

Eis que uma cena me dá a certeza de que eu estava bem distante de tudo e de todos. Já é sabido do tanto que gosto de conversar comigo mesma, razão de troças dos filhos. “Onde você está mãe?” Ouço de vez em quando. Uma enorme fila aguardando o horário de abertura de uma agência bancária. Se não me segurasse do outro lado da rua acabaria entrando naquela fila mesmo não sendo correntista daquele banco. Penso que as filas sempre exerceram inúmeras funções nas nossas vidas, desde descarregar raivas, silenciar-se, espichar os ouvidos para escutar conversas alheias, xingar os “pobres coitados” dos trabalhadores, perder nosso precioso tempo, mas sobretudo, como bons mineiros, conhecer pessoas, trocar receitas de bolos, falar dos filhos, falar das flores e do tempo. Paradoxalmente, filas pra mim sempre foram locais de horrores e de magia. Às vezes entrava numa fila, me irritava com a morosidade da mesma, os pensamentos se perdiam em meio a tantos problemas para, ao chegar a minha vez de ser atendida, não saber o que eu havia ido fazer lá. Confesso, sem quaisquer constrangimentos, que isto aconteceu algumas vezes comigo. Hoje penso que as filas detinham senão meus pensamentos, mas ao menos meu corpo. Eram tempos de muito trabalho em vários trabalhos. Trabalhava, estudava, criava filhos, cuidava da casa e pagava as contas. Ah! As contas. Em muitas noites de insônia essas danadas vinham me fazer companhia. Embora sempre fosse boa em matemática naquelas noites as contas não fechavam. Era mais um motivo para ir aos bancos ou, quem sabe, uma desculpa para entrar numa fila?

Filas me fascinavam. Algo no momento da minha vez seria desvendado, mesmo que tão só um engano.

27/01/2026





Observações:
1 - fotografia da flor das onze horas. (arquivo pessoal)
                     
                       2 - Caso faça comentário, por favor, coloque seu nome para eu saber quem o fez. Obrigada

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carta para Júnior Loyola

 

                           



Boa tarde Júnior.

Desculpe minha ausência nesta tarde com seus colegas e amigos de trabalho para te homenagearem. Questões familiares impediram-me de estar entre eles, o que gostaria muito.

Júnior, não me lembro de quando conheci você. Teria sido na campanha para a prefeitura de Betim em 1992 quando elegemos Maria do Carmo? - (Foi uma grande festa a vitória dela) - Mas lembro-me bem de alguns momentos especiais nos quais observava você com sua competência, seu entusiasmo, sua garra e seu compromisso frente ao trabalho de implantação do SUS em Betim.

Devo confessar-lhe que, todos os dias em que me deparava com você, eu aprendia alguma coisa.

Uma vez, enquanto na secretaria adjunta de saúde, pedi a você que ajudasse minha pequenina Brás Pires a entender e orientar no referente a algumas questões relativas à implantação de serviços de saúde no munícipio. Você, prontamente, aceitou meu pedido desde que liberado pela prefeita. Maria do Carmo não só o liberou como colocou-nos à disposição carro e motorista. Foi naquele momento que ela me disse uma frase que jamais esqueci: “Rivelli, as cidades são irmãs; temos que ajudar umas às outras.”

E lá fomos nós ajudar minha terrinha: você, Lôlô, a dona da casa que hora recebe seus amigos, o motorista e eu. Durante a viagem você, observando as serras e suas matas, me ensinou sobre as embaúbas: “Veja Rivelli como elas tem as mãos voltadas para o céu. Quando elas nascem em meio a outras espécies, isto quer dizer que a mata já não é primária.” E você lamentava o enorme desmatamento por toda a extensão da estrada em plena Zona da Mata Mineira.

E, no encontro em Brás Pires, estavam o prefeito eleito, meu jovem sobrinho, sua pequena equipe de saúde, Lôlô, você e eu. Suas propostas de planejamento deram orientações e sugestões que fizeram toda diferença nos planos para o município.

Entretanto, se, por um lado, até hoje aquela reunião é lembrada pelos resultados positivos, por outro lado, nossa colega Lôlô promoveu em mim um desencantamento danado ao ver fotos da fazenda lendária dos ancestrais da minha família e constatar que aquela era uma construção pobre, sem eira nem beira.

Pois é bem assim a vida da gente. Uma vez lhe telefonei pedindo socorro para me ajudar no que fazer com as colônias de Tunga penetrans que invadiram meu terreiro e que coçavam nos meus pés a noite inteira.

Júnior, ainda quero te falar das ocasiões em que você permitia que um menino sapeca escapulisse de dentro de você. Então você se transformava num diabinho saltitante, esfregava uma mão na outra, seus olhos brilhavam e você se abria em deliciosos sorrisos. Até hoje não sei se era um menino dentro de um homem ou se era um homem dentro de um menino.

Terminando gostaria de parafrasear nossa amiga Lôlô e afirmar que, com sua partida, ficamos sem eira nem beira.

Um abraço e muitas saudades

                                     Rivelli

10/01/2026



P.S. Já ia me esquecendo de lhe contar que plantei três embaúbas, um pau-mulato, duas tamareiras (como dizia meu pai: quero conferir se é verdade que elas só darão frutos daqui cinquenta anos), plantei também algumas frutas incluindo o cajueiro “roubado” pelo Zé Luiz do maior cajueiro do mundo) além de muitas flores. Meu quintal está exuberante com estas chuvas de verão que também acabaram com todos os bichos-de-pé.

Agora terminei.

Outro abraço carinhoso.

                                         Rivelli