quarta-feira, 4 de março de 2026

Crônica: Zona da Mata, meu Amor.


Tenho acompanhado, mesmo que do outro lado do mundo, a tragédia abatida sobre cidades da zona da Mata Mineira em decorrência das intensas chuvas da semana passada. Quero lembrar que tais efeitos climáticos poderiam ser evitados se não houvesse tantos negacionistas espalhados pelo mundo que, com suas bases nada científicas, vêm provocando o aquecimento global. Mas não é disso que pretendo falar.

Quero falar do meu amor pela região onde nasci. Quero falar das minhas raízes fincadas em Brás Pires, cidadezinha próxima a Ubá, a Senador Firmino, tão destruídas pelas águas. Não “são as águas de março fechando o verão”, foram as águas fechando o fevereiro e levando consigo vidas dos morros pobres de Juiz de Fora e sonhos de uma gente trabalhadora e sofrida. Quero dizer que sofri junto com cada pessoa que ficou ilhada, com cada pessoa que perdeu seu familiar. Chorei com as terríveis cenas de horror e destruição. Vi a prefeita, Margarida Salomão, chorando e chorei com ela. Assisti ao desespero do prefeito de Ubá, José Damato Neto, e me desesperei em pranto com ele também.

Pensei na fúria do rio Paraibuna despejando suas águas lamacentas no rio Paraíba do Sul e, ainda, podendo assustar ribeirinhos por lá.

Aprendi a amar as cidades por onde fui vivendo. Entendi que todas elas são irmãs, são vivas, são pungentes e que, cada uma, tem suas histórias, seus conflitos e seus sonhos.

A cidade de Ubá guarda histórias da minha infância; guarda o delicioso sabor da manga-Ubá; a cidade que até hoje acolhe moradores de Brás Pires que vão em busca de trabalho, em busca de assistência em saúde; pessoas que passam por lá em direção a Juiz de Fora, São Paulo ou Rio de Janeiro. Ubá que guarda meu grande “amigo-irmão” e colega de profissão com sua família. Ubá da quentura de verão.

À cidade de Juiz de Fora devo minha formação médica pela UFJF. Ali vivi sete anos da minha juventude. Ali conquistei bolsa de estudos para o terceiro ano integrado ao cursinho. Ali morei em vários bairros sempre procurando locais mais baratos.

Ali fiz amizades e tenho afilhados de casamento. Juiz de Fora do Cristo Redentor abençoando a cidade aos seus pés, eu te amo.

Mas chorei também quando vi as inúmeras ações cidadãs de socorro vindas de tantos lugares e tantas pessoas. Vi moradores de Brás Pires fazendo sanduíches e recebendo doações para serem levadas a Ubá como agradecimento pelo tanto que aquela cidade tem sido maternal com nossa população. Vi o prefeito de Brás Pires, (meu querido sobrinho Dominguinhos) disponibilizando máquinas pesadas, caminhões e trabalhadores para socorrer sua irmã, Ubá.

Não vamos subestimar a força da natureza. Ela vem cobrando as constantes agressões do homem. Como bem disse nosso ambientalista e indígena, Ailton Krenak, a terra é nossa casa comum, a ela devemos nossas vidas.

Abraço carinhosamente os familiares que perderam seus entes queridos, abraço a todos e todas que vêm socorrendo as cidades atingidas.

Agora meu coração parece um pouco mais aliviado. Que março nos traga novas vidas e esperanças.

05 de março de 2026

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Diário da Vovó - 2 - Livre, leve e solta.



Botamos o pé na estrada para Confins, minha filha na direção do Toyota. Uma cratera aberta na MG 10 foi nossa preocupação. Tudo mais ou menos tranquilo. Meu coração já antecipava o que eu enfrentaria nos aeroportos gigantes.


Cheguei em São Paulo com a assistência especializada conforme pedidos dos meus filhos. Um carro muito esquisito,  parecendo tanque de guerra, todo em ângulo reto, levou-nos, duas turistas  mais velhas do que eu, uma jovem com sério problema de saúde e eu. Depois de andar muito por entre aviões e serviços de manutenção, o esquisito nos deixou num espaço vazio, atrás das esteiras rolantes de bagagens. “Daqui a pouco os assistentes virão pegar vocês”,  nos garantiram eles. Ninguém apareceu. Ficamos alí até que o marido da jovem apareceu para resgatá-la. Fui atrás, pegando carona no resgate. O tempo se esgotava rápido e eu corria rápido. Encontrei meu portão de embarque, número 32.


Adorei o delicioso lanche oferecido pela companhia aérea no trajeto para Santiago. Alí ficaria por oito horas até meu próximo destino, Auckland. Não me desesperei. Queria entender o aeroporto e fiquei procurando os painéis eletrônicos para saber onde eu estava. Agora seria sentar e esperar. Enquanto aguardava, fiz longas caminhadas para esticar minhas pernas e ver tudo em volta. Era madrugada. Outra hora, lia meu livro “O Penhoar Chinês” da autora juizforana, Raquel Jardim, que eu não conhecia e, com o qual, me identificava a cada página. 


Ao enviar mensagem no pequeno grupo da minha família, percebi que o  wi-fi do aeroporto não funcionava. Tentei outras vezes e nada. A partir daí era eu sozinha. Sem as orientações do filho e das filhas pelo whatsapp.


Mais tarde iria me dar conta que só então que me senti livre e leve para continuar minha viagem. Sentei num restaurante e pedi meu café da manhã. Ainda eram seis horas da manhã. “Como pagar?” Havia esquecido deste detalhe. Perguntei, em português, para a trabalhadora. Não tinha o dinheiro local. Paguei com uma nota de dólar guardada quando da minha viagem a Cuba, há dois anos. Ri de satisfação, como uma criança, que faz sua primeira compra na padaria. 


O painel eletrônico dizia que o portão do meu voo só seria informado às 10:30 h. Procurei um lugar tranquilo, sentei e esperei de novo. Eu reparava a estrutura física daquele aeroporto por onde havia andado por vários espaços. Depois, minha nora arquiteta, vai me dizer que ele se parece com uma aranha. Exatamente. 


“Portão F a 3 minutos” do local onde eu estava indicou o painel ao meu lado. Ótimo. Arrastei minhas bolsas até lá e já comecei a procurar  brasileiros que falavam  inglês fluentemente para me ajudarem na polícia de imigração. Conversei com uma jovem, chilena, que tentou me ajudar. Impossível conversarmos em três idiomas diferentes. Agradeci o esforço dela em tentar me ajudar. Uma senhora, ouvindo nossa conversa, me disse, em espanhol, que o marido dela era fluente em inglês. Trouxe o marido que eu entendia menos ainda, mas fiquei feliz quando me disseram que eram cubanos e estavam indo para Auckland conhecer a netinha de dois meses. Disse-lhes do meu carinho e respeito pela resistência do povo cubano, disse também que havia ido lá recentemente e que havia conhecido a belíssima região montanhosa de Pinar del Rio. Eles me disseram que eram moradores daquela região. 


Então, outra jovem ali por perto, ouvindo nossa conversa, se apresenta como brasileira, moradora na mesma cidade para onde eu estava indo, Christchurch, na Ilha Sul da Nova Zelândia. Respirei aliviada quando ela me disse que me acompanharia pela imigração. Conversa vai, conversa vem, ela lembrou que já havia conversado com minha nora pelo celular, passando receita de paçoca caseira.


Ouvi várias histórias da vida dela enquanto trabalhadora da educação em Montes Claros. Contou como se deu sua emigração para  aquele país, a nação mais remota do do mundo. Respondeu à minha curiosidade  sobre o casamento da sua mãe brasileira com um jovem neozelandês há cinquenta anos e o seu próprio casamento com um também neozelandês. De repente chegou o marido e,  em tom de brincadeira,  perguntou se ela estava fazendo terapia comigo. Nesse momento eu me apresentei e disse ser psiquiatra. Todos rimos. 


O portão foi aberto. Entramos no avião para mais treze horas de viagem. Até o fim do mundo onde meu neto me receberá com um afetuoso abraço. Quando passamos, tranquilamente, pela imigração, atravessamos imensos espaços kiwis, logo vi o sorriso da minha nora que me aguardava para o próximo voo, Christchurch.


Christchurch,  13/02/2026