Desde que as passagens foram compradas, minha cabeça ficou fixada na data da viagem. Não em contagem regressiva, mas no dia em que eu iria enfrentar uma odisseia no espaço circulando por cinco diferentes aeroportos, todos internacionais, totalizando quase doze horas de espera neles.
Durante as noites, minha filha, comportando-se como se fosse um policial da imigração, me faz as prováveis perguntas em inglês para eu ir me me acostumando com as pronúncias dos neozelandeses. E, minha querida professora de inglês, lá de Salvador, já vinha me preparando para eu praticar minha conversação. Até retomei minhas sessões de análise. Prevenir foi necessário. Eu estava mesmo querendo trabalhar algumas questões do meu eu lá de dentro da alma. A decisão pela viagem tem sido fundamental para eu sair da minha casa, do conforto da língua portuguesa e viver, por um tempo, noutro país.
Já disse noutra ocasião que o tal do “jet lag” me toma de mim e só me devolve quando estou de volta à minha casa. Desta vez pretendo fazer diferente. Descansar corpo e mente. Ler e caminhar bastante. Contemplar a exuberância geográfica do país. E, muito mais do que isto, estar ao lado do meu neto me fará mais nova, mais bonita e mais feliz. Quero, no meu silêncio, ouvir sua voz, ouvir sua afinação nas cantorias que acontecem quando ele está inspirado, ouvir seus assobios e sentir todo seu pequeno ser envolto pela companhia da sua vovó Zarinha. Soube que havia algo de cumplicidade entre nós desde que o vi pela primeira vez. Naquele dia seus olhinhos miraram os meus e nossa afinidade nasceu ali. Somos loucos um pelo outro. Por isto embrenharei nesta viagem pelos espaços.
Paçoca de amendoim foi o pedido dele para que eu levasse na mala, enquanto meu filho pediu o nosso delicioso chocolate “Ouro Branco”. Pois só agora, enquanto escrevo, é que entendo o Ouro Branco do meu filho. Coisas de mãe. O requeijão de raspa, pedido pela minha nora, não terei coragem de levar. Os cães farejadores denunciarão e eu não saberei como explicar aos policiais. Não me arriscarei. Muitos livros infantis, revistinhas do Cebolinha e do Chico Bento, Machado de Assis, Luiz Rufato e um livro cujo autor moçambicano me é desconhecido estão indo junto com as paçocas e os bombons.
Roupas de verão e de outono para aquele país dos ventos cortantes composto por duas ilhas maiores e centenas de ilhas menores.
Acho que por hoje está bem. Agora é arrastar malas com meu coração que deverá estar tranquilo para não se perder nesta odisseia. Ainda bem que irei dentro de uma nave espacial construída por meu neto com as peças do Lego.
10/02/2026
Ritinha na janela
Mirtilo
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