segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Crônica: Diário de viagem: Vovó no espaço


 
Desde que as passagens foram compradas, minha cabeça ficou fixada na data da viagem. Não em contagem regressiva, mas no dia em que eu iria enfrentar uma odisseia no espaço circulando por cinco diferentes aeroportos, todos internacionais, totalizando quase doze horas de espera neles.

Durante as noites, minha filha, comportando-se como se fosse um policial da imigração, me faz as prováveis perguntas em inglês para eu ir me me acostumando com as pronúncias dos neozelandeses. E, minha querida professora de inglês, lá de Salvador, já vinha me preparando para eu praticar minha conversação. Até retomei minhas sessões de análise. Prevenir foi necessário. Eu estava mesmo querendo trabalhar algumas questões do meu eu lá de dentro da alma. A decisão pela viagem tem sido fundamental para eu sair da minha casa, do conforto da língua portuguesa e viver, por um tempo, noutro país.

Já disse noutra ocasião que o tal do “jet lag” me toma de mim e só me devolve quando estou de volta à minha casa. Desta vez pretendo fazer diferente. Descansar corpo e mente. Ler e caminhar bastante. Contemplar a exuberância geográfica do país. E, muito mais do que isto, estar ao lado do meu neto me fará mais nova, mais bonita e mais feliz. Quero, no meu silêncio, ouvir sua voz, ouvir sua afinação nas cantorias que acontecem quando ele está inspirado, ouvir seus assobios e sentir todo seu pequeno ser envolto pela companhia da sua vovó Zarinha. Soube que havia algo de cumplicidade entre nós  desde que o vi pela primeira vez. Naquele dia seus olhinhos miraram os meus e nossa afinidade nasceu ali. Somos loucos um pelo outro. Por isto embrenharei nesta viagem pelos espaços.

Paçoca de amendoim foi o pedido dele para que eu levasse na mala, enquanto meu filho pediu o nosso delicioso chocolate “Ouro Branco”. Pois só agora, enquanto escrevo, é que entendo o Ouro Branco do meu filho. Coisas de mãe. O requeijão de raspa, pedido pela minha nora, não terei coragem de levar. Os cães farejadores denunciarão e eu não saberei como explicar aos policiais. Não me arriscarei. Muitos livros infantis, revistinhas do Cebolinha e do Chico Bento, Machado de Assis, Luiz Rufato e um livro cujo autor moçambicano me é desconhecido estão indo junto com as paçocas e os bombons.

Roupas de verão e de outono para aquele país dos ventos cortantes composto por duas ilhas maiores  e centenas de ilhas menores.

Acho que por hoje está bem. Agora é arrastar malas com meu coração que deverá estar tranquilo para não se perder nesta odisseia. Ainda bem que irei dentro de uma nave espacial construída por meu neto com as peças do Lego.

10/02/2026


Ritinha na janela



Mirtilo



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Pequena crônica do cotidiano: Filas

 


Filas: uma mania?

Nesta manhã algumas questões corriqueiras e outras nem tanto me levaram até Betim, cidade onde morei por três décadas, onde criei e eduquei meu filho e minhas filhas. Andei como se estivesse em minha casa. Betim é minha casa e sempre será. Que isto fique bem claro. Entrei em lojas, tomei café com pães de queijo numa padaria e até deixei um abraço para um sobrinho que não vejo há algum tempo. Estranho que só agora enquanto escrevo me dou conta de que eu não percebia as pessoas nas ruas; eu caminhava automaticamente como se estivesse olhando para dentro de mim.

Eis que uma cena me dá a certeza de que eu estava bem distante de tudo e de todos. Já é sabido do tanto que gosto de conversar comigo mesma, razão de troças dos filhos. “Onde você está mãe?” Ouço de vez em quando. Uma enorme fila aguardando o horário de abertura de uma agência bancária. Se não me segurasse do outro lado da rua acabaria entrando naquela fila mesmo não sendo correntista daquele banco. Penso que as filas sempre exerceram inúmeras funções nas nossas vidas, desde descarregar raivas, silenciar-se, espichar os ouvidos para escutar conversas alheias, xingar os “pobres coitados” dos trabalhadores, perder nosso precioso tempo, mas sobretudo, como bons mineiros, conhecer pessoas, trocar receitas de bolos, falar dos filhos, falar das flores e do tempo. Paradoxalmente, filas pra mim sempre foram locais de horrores e de magia. Às vezes entrava numa fila, me irritava com a morosidade da mesma, os pensamentos se perdiam em meio a tantos problemas para, ao chegar a minha vez de ser atendida, não saber o que eu havia ido fazer lá. Confesso, sem quaisquer constrangimentos, que isto aconteceu algumas vezes comigo. Hoje penso que as filas detinham senão meus pensamentos, mas ao menos meu corpo. Eram tempos de muito trabalho em vários trabalhos. Trabalhava, estudava, criava filhos, cuidava da casa e pagava as contas. Ah! As contas. Em muitas noites de insônia essas danadas vinham me fazer companhia. Embora sempre fosse boa em matemática naquelas noites as contas não fechavam. Era mais um motivo para ir aos bancos ou, quem sabe, uma desculpa para entrar numa fila?

Filas me fascinavam. Algo no momento da minha vez seria desvendado, mesmo que tão só um engano.

27/01/2026





Observações:
1 - fotografia da flor das onze horas. (arquivo pessoal)
                     
                       2 - Caso faça comentário, por favor, coloque seu nome para eu saber quem o fez. Obrigada