terça-feira, 21 de julho de 2026

Crônica : A caderneta da minha mãe




Apesar de saber que minha mãe tinha uma letra linda, quase bordada e firme, raramente a vi escrever. Por uns tempos passei a vê-la desejando anotar números de telefone, datas de aniversários, receitas de alguns bolos - ela adorava fazer bolos - e outras coisas que ela precisava lembrar. Foi então que decidi dar a ela uma caderneta de anotações com os nomes em ordem alfabética, para anotar os números dos telefones assim como datas de aniversários. Mas nunca soube que fim ela deu no meu presente. E os ventos me sopraram para longe da minha mãe.

Muitos anos após sua morte a caderneta de capa carmim me encontrou. Fiz dela um tesouro e a trouxe comigo, escondida de outros olhares. Afinal ela só dizia respeito a mim, pensava eu. Hoje, quando tento localizar este meu tesouro, já não o encontro mais. Ainda agora estava enfurnada na minha biblioteca, por tantos anos improvisada, à procura de um livro. De repente me dei conta de que era aquele tesouro que eu procurava. Sentei no chão, exausta. “Amanhã voltarei a procurá-la”, foi o que pensei. Preciso, urgentemente, descobrir quem eram seus amigos, quem eram aqueles de quem ela queria se lembrar nos aniversários, quais aromas estariam nas suas receitas. Só agora percebo que busco saber quem era minha mãe, o que ela pensava, quais eram suas dores, quais foram suas decepções, o que sua fé encobria. Quem era minha mãe, afinal?

Lembro que, entre as páginas daquela sua caderneta, estavam ainda sua carteirinha do IPSEMG, nosso plano de saúde, em papelão fino sem foto, dentro de um plástico. O marido era servidor público, um orgulho para ela. Havia também um outro pedaço de papel ali. Fui eu quem o guardou. Deste não quero falar.

Quando ainda estava sob minha vista, virava e mexia e eu folheava aquele presente. Lembro que as anotações, em sua maioria, estavam escritas não com a letra dela, mas com minha letra. Constato agora que aquilo não fazia parte de seu tempo. Uma caderneta sofisticada com capa carmim definitivamente não fazia parte dos seus desejos. É isso, quando hoje faço questão de esquecer meu celular em algum lugar é porque ele não faz parte da minha época.

‘Inda agora, ao procurar uma foto para “enfeitar” esta crônica, assusto com uma mensagem do banco me avisando que uma compra com meu cartão de crédito fora recusada. Peço socorro para minha filha. Mãe, vejamos: se seu celular fosse um Android, tudo estaria nele. E, se você desse seu contato para alguém, ele poderia roubar todo seu dinheiro. Aliviei-me uma vez que não tenho todo seu dinheiro e ela continuou: já bloqueei seu cartão. (Nem sabia que meu celular não é um android. Credo em androids) Não precisa ficar conversando não, é tudo robô, continuou minha filha. E eu cá preocupada em ser deselegante com os robôs.

Pois bem, nestes tempos já adiantados da minha vida, quero tão só estar comigo e com meus pensamentos. Estes já me bastam uma vez que eles me levam para onde quero ir.

Voltarei amanhã para dizer se encontrei a caderneta carmim que dei de presente para minha mãe.


21/07/2026

domingo, 12 de julho de 2026

Poema: Amar - fazer-se verbo



      Daqueles que amei

      Trago comigo gestos

      Ainda  sinto

      um toque suave

      Ainda vejo

      um franzido na testa

      Um riso contido

      Ainda tenho a boca molhada

      dos beijos trocados


Daqueles que me amaram
     e que não amei

Trago comigo a solidão

A tristeza imensa 
 
que ainda me toma

Sei do olhar apagado

Da desesperança

Da busca desenfreada

Do adeus não dado


Daqueles que ainda amo

Já não trago nada

É outro o desejo erótico

Bastam as lembranças

que ainda me perfumam

Os olhares que ainda vejo

As palavras

Que ainda escuto


Gestos que me fizeram mulher


Funil, 12/07/2026


Fotografia: pequeninas flores de cravina, presente da minha netinha, Pérola