terça-feira, 10 de março de 2026

Diário da vovó: Muitas aventuras

                             




Não pensem que foi fácil arrastar malas pelo aeroporto internacional de Auckland até o aeroporto doméstico que fica do lado de fora. Não fosse minha nora com a mala pesada pela faixa verde, sob uma chuva fina, fria e ventos por todos os lados, eu estaria perdida. Mas tudo valeu a pena ao ver meu neto me receber brincando de pique-esconde pelo saguão do aeroporto da cidade de Christchurch. Parecíamos duas crianças. E, naquela hora, éramos duas crianças saudosas de abraços e de muitas brincadeiras.
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Estou por aqui há duas semanas. 

No primeiro final de semana fomos à biblioteca central do município. Entre vários espaços e livros, muitas pessoas lendo sentadas em confortáveis poltronas, outras tantas pegando ou devolvendo livros, muitas mães com seus pequenos circulando por todos os cantos. 

O prédio tem quatro andares interligados por belas escadas, rampas de acessibilidade e elevadores. No andar para a criançada havia vários outros espaços com contação de histórias, vestuários para encenações, estantes baixas para que cada criança possa escolher seus livros e terminais de computador para fazerem as transações desejadas. Pude ver crianças asiáticas, muitas delas chinesas, tantas outras indianas ou do Sri-Lanka, como disse meu filho. No quarto andar havia várias oficinas, algumas de costura, oficinas de crochê, de tricô, de computação, de robótica, etc. Saí dali encantada e entristecida ao pensar nas crianças carentes do meu Brasil ou, até mesmo, crianças da classe média.

No domingo, dia 17, fomos ver um amigo do meu neto desfilar na abertura do ano novo chinês, o ano do cavalo de fogo. Muitas cores, muitos cavalos, dragões, muitos mascarados e uma charanga tocando músicas regionais. O desfile terminou numa praça envolta pelo famoso rio Avon. Adorei ver a criançada chinesa participando do evento.

Porque a fome chegou fomos almoçar num mercado e, ao acaso, sentamos defronte a um restaurante argentino. Comida grega cheia de folhas e iogurtes envolvida numa massa de pão como um sorvete.

A seguir caminhamos ao longo do rio Avon com suas margens arborizadas com por inúmeras árvores de  bordos (árvore nativas da Coreia do Sul e do Japão, cujas folhas lembram o carvalho e, que no outono ficam avermelhadas). "Papai esta é aquela folha?” agacha e apanha a tal folha. Uma folha de GINCKO, que segundo meu neto, a árvore viveu na época dos dinossauros. Chegando em casa me mostra seu livro da evolução da Terra com suas plantas ou animais das eras terrestres. Fiquei pasmada com esta informação. (Lembrei do medicamento Ginkgo biloba que muitas vezes prescrevi conforme fui orientada por colegas da clínica médica e da geriatria)

Meu neto, às vezes, vem devagarinho encostando e sentando no meu colo enquanto escrevo ou enquanto estamos conversando ao redor da mesa. Nesses momentos sinto-me no céu.

                 Vovó Zarinha
 
Observação: meu neto fez as mudanças no layout do meu blog com a mãe fazendo um posterior ajuste. Espero que tenha gostado.

Registros ¨fotográficos": aprendi com nosso saudoso Sebastião Salgado que o celular apenas registra aquilo que queremos enquanto a máquina fotografa.

                               Folha de Gincko

                               Rua próxima ao Rio Avon

                           Porta do restaurante argentino



                         
           Rio Avon


                                                            Dragão chinês

















                               
                                                      Afinal é o ano do cavalo



Página do livro do meu neto onde mostra a folha do gincko ao lado dos dinossauros


27/02/2026

quarta-feira, 4 de março de 2026

Crônica: Zona da Mata, meu Amor.


Tenho acompanhado, mesmo que do outro lado do mundo, a tragédia abatida sobre cidades da zona da Mata Mineira em decorrência das intensas chuvas da semana passada. Quero lembrar que tais efeitos climáticos poderiam ser evitados se não houvesse tantos negacionistas espalhados pelo mundo que, com suas bases nada científicas, vêm provocando o aquecimento global. Mas não é disso que pretendo falar.

Quero falar do meu amor pela região onde nasci. Quero falar das minhas raízes fincadas em Brás Pires, cidadezinha próxima a Ubá, a Senador Firmino, tão destruídas pelas águas. Não “são as águas de março fechando o verão”, foram as águas fechando o fevereiro e levando consigo vidas dos morros pobres de Juiz de Fora e sonhos de uma gente trabalhadora e sofrida. Quero dizer que sofri junto com cada pessoa que ficou ilhada, com cada pessoa que perdeu seu familiar. Chorei com as terríveis cenas de horror e destruição. Vi a prefeita, Margarida Salomão, chorando e chorei com ela. Assisti ao desespero do prefeito de Ubá, José Damato Neto, e me desesperei em pranto com ele também.

Pensei na fúria do rio Paraibuna despejando suas águas lamacentas no rio Paraíba do Sul e, ainda, podendo assustar ribeirinhos por lá.

Aprendi a amar as cidades por onde fui vivendo. Entendi que todas elas são irmãs, são vivas, são pungentes e que, cada uma, tem suas histórias, seus conflitos e seus sonhos.

A cidade de Ubá guarda histórias da minha infância; guarda o delicioso sabor da manga-Ubá; a cidade que até hoje acolhe moradores de Brás Pires que vão em busca de trabalho, em busca de assistência em saúde; pessoas que passam por lá em direção a Juiz de Fora, São Paulo ou Rio de Janeiro. Ubá que guarda meu grande “amigo-irmão” e colega de profissão com sua família. Ubá da quentura de verão.

À cidade de Juiz de Fora devo minha formação médica pela UFJF. Ali vivi sete anos da minha juventude. Ali conquistei bolsa de estudos para o terceiro ano integrado ao cursinho. Ali morei em vários bairros sempre procurando locais mais baratos.

Ali fiz amizades e tenho afilhados de casamento. Juiz de Fora do Cristo Redentor abençoando a cidade aos seus pés, eu te amo.

Mas chorei também quando vi as inúmeras ações cidadãs de socorro vindas de tantos lugares e tantas pessoas. Vi moradores de Brás Pires fazendo sanduíches e recebendo doações para serem levadas a Ubá como agradecimento pelo tanto que aquela cidade tem sido maternal com nossa população. Vi o prefeito de Brás Pires, (meu querido sobrinho Dominguinhos) disponibilizando máquinas pesadas, caminhões e trabalhadores para socorrer sua irmã, Ubá.

Não vamos subestimar a força da natureza. Ela vem cobrando as constantes agressões do homem. Como bem disse nosso ambientalista e indígena, Ailton Krenak, a terra é nossa casa comum, a ela devemos nossas vidas.

Abraço carinhosamente os familiares que perderam seus entes queridos, abraço a todos e todas que vêm socorrendo as cidades atingidas.

Agora meu coração parece um pouco mais aliviado. Que março nos traga novas vidas e esperanças.

05 de março de 2026