terça-feira, 25 de agosto de 2026

Crônica: Uma mulher chamada Fina

                                                




Quando soube que ela estava morando no asilo da minha pequenina cidade natal, quase não acreditei. Não é possível! Ela fez parte da minha infância. Muitas vezes ficava olhando para ela  da janela da casa da minha avó, pensando sozinha com os meus botões. 


Mais do que querer vê-la, eu precisava olhar para ela, conversar com ela. Seria uma maneira de entrar em contato com minha infância outra vez. Eu faria uma viagem no tempo percorrendo toda a história que ouvia contarem dela. E adorava ouvir falar dela ou de quaisquer pessoas da sua família.


O irmão dela mais velho, foi para São Paulo e casou com uma viúva rica. Passadas várias décadas escutei: “O irmão dela voltou de São Paulo e foi morar com ela. Dizem que estava bebendo muito”. Nessa época era ela quem estava casada com um viúvo rico lá pras bandas dos encontros dos dois rios da minha infância. Sobre isso eu já havia escutado há algumas décadas e fiquei feliz por ela. Não me lembro quem havia ficado com a irmã diferente. 


Minhas idas à minha pequena terra natal têm ficado, a cada ano, menos frequentes. Várias são as razões, o avançar da idade e a solidão são algumas delas. Inversamente, meu desejo de ir lá tem aumentado, como se eu precisasse buscar a água que bebi pela primeira vez na vida. Lá está uma das minhas fontes de energia.


Fui ao asilo e lá estava ela, logo me reconheceu quando falei quem eu era. Afinal sou filha de uma prima de primeiro grau dela, com quem conviveu nas proximidades das fazendas onde moravam, minha mãe e ela, cada qual com seus os pais. Com certeza mais de sessenta anos nos separam  dos tempos. Ela continuava como se fosse a mesma das minhas lembranças. Embora bastante debilitada fisicamente, continuava altiva e desembaraçada.  Fui convidada a conhecer as instalações daquela unidade asilar. (Havia um tempo em que eu tinha doado uma pequena quantia financeira com as vendas do livro Olhares Clínicos. Nós, os autores, colegas meus da faculdade de medicina da UFJF e eu, havíamos sugerido que toda  renda arrecadada fosse doada a uma ONG como forma de retribuir à sociedade um pouco do que foi gasto com nossa formação numa universidade pública. Daquela vez a Sociedade São Vicente de Paula - SSVP - mantenedora daquele asilo foi a agraciada)


Fina estava tomando sol com outras pessoas asilares. Logo chegou uma parenta jovem que sabia quem eu era e me fez sinais de que ela, a Fina, não estava regulando bem. Até então não havia percebido nada. Talvez a emoção de reencontrá-la não me deixasse observar quaisquer alterações no pensamento da minha parenta tão querida e admirada. Ela me contou sobre sua vinda para o asilo, os familiares falecidos, a irmã diferente de quem cuidou com tanta devoção à Nossa Senhora do Rosário, o irmão que morreu na sua casa no encontro dos rios. Meus olhos acompanhavam seus movimentos corporais como se a vissem lá atrás nos tempos idos. Saí dali com apenas dez anos, ainda na janela da casa da minha avó.


Jamais esqueci seu andar apressado  jogando o tronco sobre o abdome, carregando nas mãos seu terço, o véu branco dobrado e os folhetins das missas daquela semana com suas cantorias. Às vezes estava toda vestida de branco com a faixa azul claro em volta do pescoço, símbolo das Virgens de Maria. Seriam dias de festas religiosas?


Para mim, ver aquela moça-mulher atravessar a praça ao lado ou logo à frente da irmã diferente, era um sentimento indescritível. Meus olhos seguiam os passos desajustados das duas, eles acompanhavam a pressa de uma enquanto a outra tentava ir no mesmo ritmo. Hoje penso que para ela, ir à igreja se fazia mais importante do que propriamente viver. Não era uma moça-mulher bonita, mas para mim sua beleza  estava na sua liberdade de ir e vir com tanta destreza, com tanta fé na Nossa Senhora do Rosário e nos caprichos ao enfeitar andores, altares, ao fazer asas e coroas para os anjos do mês de maio. 


Os pais moravam na roça, bem distante da cidadezinha onde eu a via. Outros irmãos e irmãs ficaram na roça ajudando seus pais. Fui lá muitas vezes e me lembro da bica com grande volume d’água que descia da serra e caía sobre uma mesa improvisada onde eram colocadas as vasilhas da cozinha. Ali eram todos lavados os utensílios assim toda a roupa da casa em grandes bacias. Estranho que eu nunca  tenha conseguido, na minha cabeça de criança, juntar aquela família  dos tios da minha mãe pelos lados materno e paterno, à Fina. 


Ela morava na  maior casa da praça, numa esquina. Um grandioso chalé. Teria sido herança da velha tia que não se casou? Será que ela foi criada por essa tia? Acho que aquela tia morreu quando eu ainda era bem criança. Não me lembro dela e nem de ter entrado naquela casa mesmo sendo parente bem próxima. Nem precisava. Se fosse lá poderia ter  quebrado o encanto que eu sentia por Fina. Ou melhor, pelas duas irmãs inseparáveis. 


Fina, batizada Josefina, tinha os cabelos pretos, um tanto curtos, encaracolados e esvoaçantes com seu andar. Óculos em estilo da época que lhe davam ainda mais o aspecto de imponência. Ela nunca soube do tanto que eu admirava e gostava dela.


Era tida com uma solteirona para aqueles tempos em que as moças se casavam antes dos vinte anos. Será que não arranjou casamento? Para mim já estava casada com a igreja e com os cuidados da irmã. 


Soube, recentemente, que Fina partiu para o céu, como sempre sonhou. Mas, para mim, Fina não morrerá nunca, porque ela tem vida eterna…


Amém.


25/08/2026



 

  

     




                                                                            

Fotografias : arquivo pessoal

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Carta a um desamor




Betim, 6 de agosto de 2026

Boa noite Antônio,

Ainda ontem combinamos nosso café. Embora soubesse, de antemão, que tal guloseima, muito apreciada por mim, não o seja para você, acreditei, mais uma vez, que compareceria. você não compareceu.

Assim tem sido nossa história. Onde apareço, você desaparece. Daquilo que gosto, você faz cara de desgosto. Se gosto de música clássica, você prefere o rap. Se amo o azul, você prefere o cinza.

Pois bem, se somos os opostos e sabemos que as retas se encontram no infinito, embora na minha matemática elas nunca se encontrem, faz-se a hora de eu tomar meu rumo numa curva e cair fora. Você faça o que bem entender. Provavelmente seguirá na mesma reta porque nunca soube ser curva.

Veja você, se eu pudesse adjetivá-lo, diria que lhe desejo como companheiro, o Senhor Caronte.Que ele lhe conduza ao inferno.

Nosso tempo escafedeu-se. Extinguiu-se a validade.

Sem abraços

                               Amélia


Observação: esta carta foi escrita como dever de casa da Oficina de Escrita Criativa Escrevivência que acontece na Casa de cultura Josefina Bento, em Betim, M.G. Tal carta deveria ser escrita sem adjetivos.

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