quarta-feira, 11 de março de 2015
MARIAS QUE VISITAM MARIAS
MARIAS QUE VISITAM MARIAS
Zildinha deixava pra lá os pedidos de sua mãe para que visitasse suas tias.
"Elas gostam tanto de você. É preciso ir à casa delas". E essa conversa sempre se repetia quando ela ainda era muito jovem.
Não gostava de tais compromissos familiares. Preferia as amigas da escola e aquelas de sua rua. Sempre lembrava das súplicas da mãe mas continuava alheia ao cumprimento delas.
Neste domingo algo inusitado acontecera na rotina daquela filha.
Ela levantou cedo, tomou seu café com as quitandas que a cunhada comprara especialmente para ela e fora cumprir uma penitencia de quaresma. Na noite anterior, durante uma festa de aniversário, a irmã de Zildinha puxou conversa com ela e a outra irmã.
-"Todo ano, na quaresma, eu tenho um propósito. Não que seja uma penitência, mas um propósito". Reiterou Helena.
Zildinha escutou e gostou muito daquele propósito de visitar as Tias oitentonas, as mesmas que a mãe tanto pedia para que fosse visita-las. Então pegou o carro e se dirigiu à casa de uma irmã e depois da outra. Ela já havia feito o roteiro das visitas levando em conta pontos geográficos das moradia e acessos viários. Fora de pronto aprovado pelas duas.
Chegaram à casa da primeira Tia. Veio atender uma mulher mais velha que abriu o portão tão logo perguntarmos pela Tia Maria da Glória. E a tia nem abriu os olhos. Permaneceu no seu mundo distante. A cuidadora explicara que os efeitos da medicação tomada para dormir ficavam até por volta do meio dia. As três irmãs riam e contavam fatos da convivência daquelas épocas. Lembraram de pequenos detalhes. Aquela tia era viúva de um dos tios paternos. Tio José Pedro que batizara Helena e tinha verdadeira adoração por aquela afilhada. Agora, beirando seus noventa anos, estava em estado demencial já avançado. Entretanto, de uma hora para outra a tia, mantendo os olhos fechados, dá sua peculiar risada. E Zildinha pensou que alguma coisa da Tia permanecia ainda só dela.
-"Vamos para outra tia". ( anunciou a irmã mais velha)
Nesse momento a cuidadora pediu que se identificassem para que ela falasse aos filhos de Dona Maria da Glória. Com certeza eles ficariam muito felizes com a visita.
-"Diga que são as três Marias, filhas do Tio Edson".
Elas gargalharam com suas próprias apresentações.
Entraram no carro e rumaram para a casa da outra Tia. Entraram por ruelas onde nunca haviam passado e foram sair na rua exata da Tia Maria do Rosário. Foram recebidas com festa, muita alegria e uma incontida surpresa. Tudo naquela casa estava exatamente como estava há quarenta anos. A Tia gabava seu bem estar aos oitenta e quatro anos e sorria de satisfação. Maria Média estava no seu quartinho de sempre, se recuperava de uma grave doença que a deixou por vários dias no único CTI da cidade. Cuidara daquela família desde menina. Mas a Tia Maria do Rosário continuava chamando as atenções para si. Mostrou roupas novas e falou dos filhos bem empregados, dos netos nos Estados Unidos e da "super" inteligência do bisneto com apenas seis anos.
Falou que considerava madrinha de Maria Zilda mesmo sendo seu marido o padrinho oficial. Zildinha, neste momento, lembrou que aquela Tia sempre a chamara por seu nome composto. Gostava daquela deferência mesmo considerando outras as suas madrinhas. Conversaram, riram e desencavaram mortos. Por fim se despediram e foram para a última etapa daquele propósito.
A bela casa da tia Maria das Graças ficava no mesmo bairro da antiga casa das três irmãs, por isto fora deixada por último.
Demoraram atender ao chamado da campainha. Então viera Maria Pequena, a fiel companheira de todos os tempos daquela família. As irmãs foram conduzidas até a sala de TV onde aquela elegante mulher assistia seu programa preferido, Sr Brasil, da TV Cultura. Ficou emocionada ao ver as sobrinhas, sorria a todo instante, apontava para aquele apresentador tão familiar a ela. Perguntava, repetidamente, se elas, as sobrinhas tocavam violão, se gostavam dos cabelos brancos daquele moço da TV, sorria de novo e dizia que era a unica irmã do pai delas e afilhada dele.
Tia Maria das Graças era madrinha de Maria de Lourdes a irmã mais velha a quem ensinara a arte de ser uma excelente dona de casa. Tinha uma linda voz e aventurara algumas vezes no coro da igreja e nas serestas. Mas acabara se dedicando às artes plásticas. Tivera suas peças em porcelana, pintadas até com madrepérolas, e seus quadros espalhados por todo o mundo. Ainda conservava a beleza da pele clara. Há alguns anos fora eleita Miss Terceira Idade Agora era sua própria arte.
As irmãs ainda lembraram da Maria Grande, a eterna companheira da avó paterna e que tem um filho Padre.
E as visitas terminaram.
Então Maria Zilda viajou de volta ao tempo. Nem desceu do carro ao levar as irmãs às suas casas. Continuou dirigindo, coisa que ela sempre adorou fazer. Queria ficar sozinha. Procurou seu lugar secreto na cidade e fora para lá. Saiu do carro e caminhou alguns passos. Olhou as montanhas a sua frente. E chorou muito. Lembrou de sua vida ao largo daquelas pessoas. Foram muitas histórias.
A mãe tinha razão. Era preciso visitar as Tias. Mesmo com quase quarenta de atraso.
Propósito cumprido e longo.
22/02/2015
segunda-feira, 2 de março de 2015
DE VOLTA PARA ALGUM LUGAR
Eis mais uma vez eu carregando caixas de livros escada
abaixo. Com ajudantes jovens, calados e apressados. Tudo é descido em
menos de uma hora. Caminhão cheio, lá vamos nós para nosso novo endereço.
Lembro bem das minhas várias mudanças de bairros e cidades. Cada uma delas nas suas extravagâncias. Mas confesso que sempre gostei de fazê-las.
Uma vez ganhei um guarda-roupas. Morávamos nove moças numa única república. Era um luxuoso apartamento num edifício velho que se tornou fora de moda. Busquei aquele presente como quem busca um tesouro. Com a ajuda de outras colegas, trouxemos nas costas nosso elefante, todo branquinho, pela Avenida Rio Branco, em Juiz de Fora. E nele guardei minhas parcas roupas, deixando espaço para as duas meninas com quem dividia meu quarto. Esse lindo móvel me acompanhou pelo tempo necessário até minha formatura. Ainda vejo cada pequenina gaveta que parecia guardar segredos inconfessáveis.
Algum tempo depois desse episódio fui convidada para um almoço na bela casa de um parente distante, na mesma cidade. Ao cumprimentar aquele senhor que eu não conhecia, ele me dissera:
-“Você não é a menina que carregou um guarda- roupa pela
avenida? Naquele dia eu parei meu carro e fiquei
apreciando a cena.”
Desde então nunca mais parei de carregar guarda-roupas.
Logo que cheguei a Juiz de Fora, em 1975, eu fui morar na casa de um colega de trabalho e compadre do meu pai. A casa ficava num bairro não muito distante do centro da cidade onde eu fazia meu terceiro ano integrado ao cursinho. Eu havia ganhado uma bolsa de estudos numa seleção para cursar o maior e melhor pré-vestibular da época. Logo fiquei fascinada com a arquitetura do Colégio Cristo Redentor. Ele estava e ainda está encrustado no morro do Cristo Redentor, no ponto mais alto do centro da cidade que fica toda a seus pés.
Tudo me era novidade. Minha sala era gigantesca e havia um enorme tablado para os professores. Éramos cem alunos desconhecidos. E eu só fazia estudar. Estudei com vários colegas, uma em especial fez toda a diferença. Ela ia até a casa onde eu morava e estudávamos muito. Logo suas notas melhoraram e ela passou a vir frequentemente. Tínhamos métodos, planejamentos e a esperança de uma vaga para o curso de medicina naquela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Voltemos a minha amiga que um dia apareceu com seu pai, um libanês que mal falava algumas palavras do nosso português. Ele mandou que eu juntasse minhas coisas e que mudasse para sua casa, na mais fria região montanhosa da cidade. E foram seis meses a dormir de duas a quatro horas por noite, tomar coca-cola com café para espantar o sono e comer todas aquelas comidas árabes.
Enfim chegou nosso bendito vestibular. Aquele libanês chorou como uma criança quando soube da aprovação de sua filha. Eu também fui aprovada e conquistei meu lugar. Jamais esquecerei o seu carinho paterno, a paciência de sua esposa, a língua falada de maneira desajeitada e cheia de arrancos. (1)
Aquela fora uma mudança deveras promissora.
Continuei mudando daqui pra ali e dali para acolá. Fui deixando coisas para trás e buscando outras. Num total desassossego e harmonia.
Uma vez, escrevendo para um amigo, falei que estava mudando de casa, de cidade, de jeito, de modos de vida e por ai afora. Ele respondeu com uma dissertação acerca de sua própria falta de mudanças, comparando-se a um tronco envelhecido, rígido e imutável. Ele dizia admirado com a flexibilidade que eu dava a minha vida. Acho que ele não entendia que aquilo me era preciso.
Às vezes brinco com os nomes das cidades por onde passei, morei ou trabalhei. Brinco que a letra B é parte integrante da minha vida e fiel escudeira. Pois nasci em Brás Pires, estagiei em Barbacena, especializei-me em Belo Horizonte, morei e trabalhei em Betim e em Brumadinho. Mas afirmo e reafirmo que não quero mudar para Bonfim. Nada contra a charmosa cidade do carnaval a cavalos. Mas tudo contra meu fim.
Hoje, mais uma grande mudança se faz na minha vida. Voltamos para Belo Horizonte, cidade que me encantou no primeiro ano da década de oitenta. É uma meia volta pois metade de mim ficará junto aos ipês na região das brumas, em Mário Campos. E é de lá que continuarei a viver e mudar sempre que se fizer preciso.
Não carrego mais guarda-roupas. Entretanto jamais deixarei de carregar caixas pesadas com meus tesouros.
Por onde for levarei meus livros. Sempre...
(1) Nome: Joseph Kalil El Khoury
Cidade Natal: Kfarnice (área das montanhas libanesas, próximo de Beirute).
Joseph Kalil el Khoury chegou ao Brasil, de navio, depois de vários dias viajando, com 10 apenas anos de idade.
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