sábado, 20 de março de 2021

Crônica: Mulheres da Região

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XL)



















Escrever... Escrevendo

Missão difícil foi-nos dada por nosso mestre em escritas. Pensei e pensei e nada saia na página que continuava em branco. Queria falar das mulheres da minha região. Então, ouvindo as belíssimas canções, “Ontem ao Luar” e “Mulher Nova Bonita e Carinhosa” dos compositores nordestinos, Catulo da Paixão Cearense e Zé Ramalho, respectivamente e, juntando aos vários nomes dos livros publicados por nós, alunos da oficina de letras, decidi botar a mão na massa. Obviamente que bati tudo no liquidificador, rebolei bastante, juntei algumas ervas aromáticas num caldeirão e deu no que deu. Senão vejamos:

 

Mulheres da região


Trata-se de uma região abençoada nela natureza que nela colocou um pedacinho da mata Atlântica. Por ali ela já se mistura com o cerrado mineiro. É o sopé de um pedaço de serra. Ao longo dos caminhos encontramos grandes árvores. São flamboyants, buganvílias, ipês amarelos, roxos, palmeiras com as folhas decoradas de ninhos de jandaias e flores nos jardins. Entretanto o mais belo que se vê por ali são suas moradoras.

Lá embaixo, bem junto à “margem que ladeia o rio” Paraopeba, encontramos uma mulher diferente assim como seu nome. Ela luta pelos seus direitos de cidadã e pelos direitos dos outros. Ao lado de outra mulher cujos “caminhos do viver” vem lhe trazendo muitas dores. A tragédia de Brumadinho levou seu único e jovem filho. Entretanto ela se mantém íntegra e guerreira junto de todas as mães, pais, namoradas e namorados e filhos que se tornaram órfãos antes do tempo.

A maioria dessas mulheres são parentes. São primas, sobrinhas, cunhadas. Parece que a região, “Da Pitangueira à Pasárgada” deu como berço essas mulheres encantadoras.

Algumas delas vivem na “Primeira Pessoa”, sem mesmo o saber. Não faria diferença se o soubesse. São poderosas, cheias de sabedoria e expediente. 

Outra vive na “Composição” de afetos, de educação e de liberdade. Como “A Criadora de Sonhos e outras histórias” ela tece muitos caminhos.

Algumas irmãs vivem tão juntas que, não fossem as características seguintes, não saberiam quem é quem. Uma é frágil e doce e anda com “Os Pés descalços”. Outra é forte e esperta e vive como “Essetremloucodavida”. Outra é inteligente, dançarina e tem “Um olhar em cada canto”.

Há um quarteto de outras irmãs indistintas também. Uma é enigmática como o “Flexível Aço”. Outra está sempre juntando pedaços como “Soldas Poéticas”. A alegre e danada lembra a “Rosa nos tempos”. A outra traz o silêncio e “Tudo que há em mim” e vive viajando no “Vagão da Lia”. E da outra nada se sabe.

Do outro lado do caminho, há uma enorme ladeira em curva, ali mora “A mãe de ouro”, cujo filho é um jovem belo, amigo e futurista.

Noutra curva, desbarrancada pelas enxurradas, pode-se ver uma filha dessas mulheres, ela tem os olhos verdes de Atena, a explosão de Menalau e, “Por não saber fotografar um pássaro” quase caiu no buracão defronte a sua casa.

Aquela é linda mas, se não fosse tão recatada, poderia viver “As quatro estações do amor”. Sua irmã, vivendo nas “Entranhas” da mata, faz florescer todas as belezas da natureza em seu pedaço de chão.

As tias, junto com as sobrinhas, podem ser vistas torrando farinha de mandioca em gigantescos tachos (seriam de cobre ou de alumínio?) sobre a lenha crepitando nas bocas dos fogões de barro. Uma é pura doçura, de estatura pequena, e tia de padre. Quem a escuta e vê seu sorriso pensa que ela é um “Livro nas estantes”, cheia de sabedorias dos antepassados. Bonito de se ver e ouvir. Certamente que, o aroma exalado pela torrefação, leva a todas ao mais íntimo de cada uma.

A filha, despachada e amorosa, “Pergunta ao luar do mar a canção,
Qual o mistério que há na dor de uma paixão?’


Uma outra Tia, muito bem respeitada na região, sabe bem o que quer e como “Desenrolar o fio”. E faz lembrar uma “Maria Fumaça”.

São tantas as mulheres da região que não caberia aqui falar de todas elas e, esse, nem é o propósito. Entretanto seria verdade afirmar que todas elas sabem que “A dor da paixão não tem explicação”.

Se fosse escrito um livro sobre essas mulheres , ele se chamaria "Crônicas de Sol".

São todas luminosas e flores amorosas.

E, “Quem não ama o sorriso feminino

      Desconhece a poesia de Cervantes”



Observações:

1 - Os escritos entre aspas, em itálico e negrito são os nomes dos livros dos colegas da Oficina de Escrita, incluindo o meu "Rosa nos Tempos"

2 - Os escritos entre aspas e em itálico, são versos das letras das referidas músicas citadas acima.

3 - Fotos gentilmente cedidas por Cristiane Siqueira e Andresa Rodrigues.

4 -Adorei escrever sobre essas mulheres maravilhosas.

Rivelli, 20/03/2021



terça-feira, 16 de março de 2021

Crônica: Pandemia x Ignorância

(Indelicadezas em Tempos de Coronavírus - I)

Há um ano a Organização Mundial de Saúde anunciou ao mundo uma nova doença causada pelo Coronavírus cuja transmissão humana se dava pelo contato com as gotículas de água expelidas durante a fala, os espirros e tosses e a respiração (o perdigoto como é chamado em medicina). Informaram que nada sabiam do novo vírus que sofrera mutação dos animais para o homem, surgido provavelmente na China. Foi dito também acerca da alta taxa de transmissão embora com baixo índice de adoecimento grave e ou morte. Mas salientaram que, devido ao contágio rápido, acabaria resultando em um grande número de pacientes graves e mortes. Nada sabiam sobre o possível tratamento. Nenhum medicamento havido sido eficaz na China, onde a doença fora diagnosticada, senão a prevenção que consistia em distanciamento, o uso de máscaras, o ato de lavar as mãos com água e sabão e álcool em gel, várias vezes ao dia, e o isolamento caso houvessem pacientes com exames positivos.

As TVs do mundo inteiro começaram a mostrar os doentes, os hospitais cheios, as dezenas de mortes, as centenas de mortes e as milhares de mortes pela então denominada doença COVID-19. Pelo mundo afora. Foi tudo muito rápido. Só se viam pessoas de máscaras transitando pelas diversas cidades do planeta. Assim aprendemos uma nova palavra que vem causando calorosas discussões: lockdown. As cidades deveriam fechar e manterem apenas os serviços essenciais. Estavam dadas as orientações.

Cada país, cada região, cada cidade foi criando seus comitês de enfrentamento à Pandemia pelo Coronavírus. Nossas famílias foram perdendo pais, mães, filhos, tios, avós, sem nem mesmo fazer as honras fúnebres. O mundo parou para chorar seus mortos.

Entretanto no país chamado Brasil nada fora feito pelo presidente que minimizava a doença, criticava aqueles e aquelas que se comportavam conforme os protocolos da ciência, ironizava as dores dos familiares órfãos. E, para além disto, incitava o povo a saírem às ruas sem máscaras, fazerem aglomerações e não obedecerem às instruções dos especialistas e que "aquilo", não passava de uma “gripezinha”. Esse mesmo presidente comprou toneladas de medicamentos que, segundo ele, deveriam ser usados como agentes preventivos. Medicamentos esses sem quaisquer comprovações científicas para tal uso e, para além disso, com efeitos colaterais graves como hepatite e problemas cardíacos. Mesmo assim, uma grande parcela do povo brasileiro obedeceu cegamente ao seu “mito”. Muitos deles acabaram sendo infectados, outros apresentaram doenças hepáticas e tantos outros acabaram morrendo também.

O Coronavírus vem nos mostrando que ele não escolhe raça, cor, gênero, rico, pobre, embora, inicialmente, fora observado que ele infectava mais as pessoas acima de sessenta anos, devido ao fato de terem o sistema imunitário mais lento e deficiente. Entretanto, passado um tempo, a transmissão se alastrou por todos os recantos do mundo e o Coronavírus passou a infectar também outras faixas etárias, chegando à triste realidade de mortes de crianças e recém-nascidos. Ele vem, sem piedade, entra em nossos pulmões, rouba-nos o ar e a vida. O vírus nos mata. Só isso. O vírus veio ensinar sobre o conceito de democracia. De todos para todos. Quem quiser que aprenda a lição negada pelo tal presidente do Brasil.

Esta foi a introdução para a questão que desejo colocar, ou seja, o que faz as pessoas se orientarem pelo erro, pela negação da obviedade, pelo descaso com a ciência, pelo apelo e amor à ignorância e ao ódio, pelo descaso com o outro, pela cegueira diante da luz?

A história já nos mostrou os horrores da idade Média, os povos vivendo nas trevas, os reis e clérigos usurpando direitos, queimando as “bruxas” porque elas eram mulheres sábias e belas. E, tal fato, era uma ameaça ao patriarcado, ao poderio da igreja e à imoralidade.

A história, ainda bem recente, nos mostra também sobre o inominável alemão de bigodes curtos quando, na segunda grande guerra mundial, matou seis milhões de judeus, duzentos mil ciganos, três milhões de soviéticos, dois milhões de poloneses, porque queria uma raça ariana pura, porque não gostava de outros povos. Fez o povo alemão acreditar que ele estava certo. E o povo acreditou e cometeu a barbárie que todos nós conhecemos.

Volto à questão: o que faz um povo amar um ser inescrupuloso, horrendo, sem expressão na sua língua mãe, violento, machista, racista, subserviente aos interesses imperialistas dos EUA?

Não quero acreditar que os apoiadores desse presidente - os chamados “bolsominions ou bolsonaristas” se identifiquem com tal figura. Freud nos ensinou sobre a identificação aos detentores do poder e aos líderes, quando esses tem dentro de si as mesmas características daqueles. Portanto e, infelizmente, me rendo, calo e aceito que assim seja como tão bem trabalhado pela psicanálise. 

Seja pela paixão à ignorância. 

Seja pelo ódio ao saber.

Mas, há o amor à ignorância e há a preguiça de ler e aprender. Aqui abro um parêntese para dizer daqueles que jamais tiveram a oportunidade de estudar e que, nem por isto, deixaram de aprender com a vida. A sabedoria é aprendida e apreendida com a vida. Não posso deixar de citar nosso eterno presidente Luiz Inácio da Silva. Mas volto ao presidente atual que, num desabafo de ignorância e contrário aos livros didáticos, nos disse que, “os livros atuais tem muitas letras”.

Então volto á minha leitura do clássico “Os Miseráveis”, escrito no século XIX, na França, com suas mais de mil páginas, outras milhões de belíssimas palavras e bilhões de letras.

E termino transcrevendo a seguinte afirmativa de Victor Hugo: “O impulso das paixões e das ignorâncias, é diferente do impulso do progresso. Levantem-se, que seja, para crescer. Mostrem-me para que lado vão. Não há insurreição senão para adiante. Qualquer outro levante é mau. Qualquer passo violento para trás é revolta. Recuar é uma violência contra o gênero humano.” (livro X – cap. I)

14/03/2021