terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carta para Júnior Loyola

 

                           



Boa tarde Júnior.

Desculpe minha ausência nesta tarde com seus colegas e amigos de trabalho para homenagearem. Questões familiares impediram-me de estar entre eles, o que gostaria muito.

Júnior, não me lembro de quando conheci você. Teria sido na campanha para a prefeitura de Betim em 1992 quando elegemos Maria do Carmo? - Foi uma grande festa a vitória dela. - Mas lembro-me bem de alguns momentos especiais nos quais observava você com sua competência, seu entusiasmo, sua garra e seu compromisso frente ao trabalho de implantação do SUS em Betim.

Devo confessar-lhe que, todos os dias em que me deparava com você, eu aprendia alguma coisa.

Uma vez, enquanto na secretaria adjunta de saúde, pedi a você que ajudasse minha pequenina Brás Pires a entender e orientar no referente a algumas questões relativas à implantação de serviços de saúde no munícipio. Você, prontamente, aceitou meu pedido desde que liberado pela prefeita. Maria do Carmo não só o liberou como colocou-nos à disposição carro e motorista. Foi naquele momento que ela me disse uma frase que jamais esqueci: “Rivelli, as cidades são irmãs; temos que ajudar umas às outras.”

E lá fomos nós ajudar minha terrinha: você, Lôlô, a dona da casa que hora recebe seus amigos, o motorista e eu. Durante a viagem você, observando as serras e suas matas, me ensinou sobre as embaúbas: “Veja Rivelli como elas tem as mãos voltadas para o céu. Quando elas nascem em meio a outras espécies, isto quer dizer que a mata já não é primária.” E você lamentava o enorme desmatamento por toda a extensão da estrada em plena Zona da Mata Mineira.

E, no encontro em Brás Pires, estavam o prefeito eleito, meu jovem sobrinho, sua pequena equipe de saúde, Lôlô, você e eu. Suas propostas de planejamento deram orientações e sugestões que fizeram toda diferença nos planos para o município.

Entretanto, se, por um lado, até hoje aquela reunião é lembrada pelos resultados positivos, por outro lado, nossa colega Lôlô promoveu em mim um desencantamento danado ao ver fotos da fazenda lendária dos ancestrais da minha família e constatar que aquela era uma construção pobre, sem eira nem beira.

Pois é bem assim a vida da gente. Uma vez lhe telefonei pedindo socorro para me ajudar no que fazer com as colônias de Tunga penetrans que invadiram meu terreiro e que coçavam nos meus pés a noite inteira.

Júnior, ainda quero te falar das ocasiões em que você permitia que um menino sapeca escapulisse de dentro de você. Então você se transformava num diabinho saltitante, esfregava uma mão na outra, seus olhos brilhavam e você se abria em deliciosos sorrisos. Até hoje não sei se era um menino dentro de um homem ou se era um homem dentro de um menino.

Terminando gostaria de parafrasear nossa amiga Lôlô e afirmar que, com sua partida, ficamos sem eira nem beira.

Um abraço e muitas saudades

                                     Rivelli

10/01/2026



P.S. Já ia me esquecendo de lhe contar que plantei três embaúbas, um pau-mulato, duas tamareiras (como dizia meu pai: quero conferir se é verdade que elas só darão frutos daqui cinquenta anos), plantei também algumas frutas incluindo o cajueiro “roubado” pelo Zé Luiz do maior cajueiro do mundo) além de muitas flores. Meu quintal está exuberante com estas chuvas de verão que também acabaram com todos os bichos-de-pé.

Agora terminei.

Outro abraço carinhoso.

                                         Rivelli

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Crônica: Chuvas de Natal

                         

Esta invernada de chuvas tem me trazido muitas lembranças. Nesta semana me vi sentada no banco da minha varanda olhando a intensa chuvarada que caía por aqui. Desde que vim morar nesta região observo, curiosa, as águas andantes depois que elas caem do céu. Sei que havia, em tempos de outrora, um córrego que passava bem perto do meu lote. Ainda é possível ver o caminho por onde ele descia. Sei também que as enxurradas sabem perfeitamente encontrar esse riacho seco. Mas o que eu queria mesmo é dançar descalço nas águas dessas enxurradas e lavar minha alma e meu corpo e me esbaldar delas. Há uma semana estas águas peroladas têm caído sobre a terra mineira, encharcando-a para sua gestação e posterior reprodução. Eu só fico olhando esse fenômeno, dando-lhe o nome de milagre da natureza.
Noutros tempos, pelas frestas das janelas, eu olhava as chuvas caindo do céu e as águas barrentas descendo da serra defronte a minha casa. Parecia que as enxurradas iriam pedir licença para entrarem majestosamente pela porta da frente. Eu adoraria tê-las como minhas convidadas. Nestas horas minha mãe pegava as palmas secas da procissão de Ramos de São Jerônimo e Santa Bárbara e rezava. Pedia proteção. O fogo aceso das velas balançava ao tremor dos ventos. Umas até pagavam. Eu não tinha medo. Ao contrário, fosse de dia eu iria descer pelas enxurradas até a fazenda da Sazinha, bem na curva do rio Xopotó. Fosse de noite eu ficaria escutando as rezas da minha mãe. Não gostava daqueles estrondos. Gostava demais dos clarões dos relâmpagos. Às vezes ouvia as pessoas dizerem que era Deus castigando os pecadores. Nem sabia o que era isto, mas então sentia medo. Será que eu era uma pecadora aos cinco anos? Meu tio padre era muito bravo dentro da igreja. Mas, na casa dele, era calado com as meninas e terrivelmente brincalhão com os meninos. Meu pai era motorista, tocava na banda da cidade, trabalhava na Coletoria e adorava pescar. “Em época de chuva só mandi”, dizia ele.

Eu era muito manhosa, chorona, sentia dor de cabeça e tinha olhos tortos. Minha mãe fazia de um tudo para aliviar aquelas dores. Talvez eu soubesse que logo perderia o lugar de filha mais nova. Uma vez minha mãe fez um travesseiro de retalhos de tecido para mim. Alguém disse que aquilo me faria dormir melhor. Carreguei-o durante muitos anos, como um fetiche.

Neste tempo de agora as chuvas me trazem de volta nossas noites de natal. Será que Papai Noel conseguirá chegar aqui com tantas chuvas e rio cheio? Daqueles tempos minhas lembranças andam miúdas. Porém, elas clareiam com as luzes coloridas das nossas árvores de Natal. Não gostava das missas do Galo. Dormia nos bancos duros de madeira da igreja de Nossa Senhora do Rosário. O harmônio da Marieta e as vozes do tio Márcio e do Marcílio me acordavam. Eram todos irmãos. Ainda posso ouvi-los agora. Só fechar meus olhos e viajar pelas trilhas das notas musicais.

Já em Lafaiete não havia meu rio Xopotó. Morávamos no alto da cidade antiga que se chamava Queluz de Minas. Ali, minha irmã mais velha, com minha mãe e meu pai faziam o presépio mais bonito da rua. Tinha vila com casinhas feitas de papelão e cobertas com papel manilha colorido; tinha estradinha até o estábulo onde ficava a manjedoura - vazia até a meia noite do dia 24 para dia 25. Pela manhã era a surpresa. “Menino Jesus nasceu!” Logo apareciam as pequenas imagens dos três reis Magos, caminhando ainda bem distante do estábulo. Iam devagarinho, seguindo a estrela-guia. Eles chegavam dia 6 de janeiro. Dia dos Santos Reis. Só então todo aquele arranjo era desfeito e, cuidadosamente, guardado para o próximo Natal.

Meu pai tocava as músicas de Natal na banda. Íamos todos para ouvir a banda na praça. Outras vezes ele convidava alguns vizinhos músicos também e tocavam defronte a nossa casa. Uma serenata de natal. Era tudo uma beleza.

Comigo ainda ficaram as lembranças dos sabores dos doces de pêssego, do trabalhoso doce de figo, da sopa dourada que só minha mãe sabia fazer, do pavê de biscoito champanhe que minha tia comprava não sei onde, dos sons dos instrumentos musicais tocando cantigas de natal, das luzes coloridas das nossas árvores de natal, dos sorrisos da minha mãe, da satisfação do meu pai e das nossas algazarras.

E hoje Suely, minha querida, ajudante brilhou seus olhos quando lhe pedi para fazer um presépio para mim. Procuramos a caixa onde eu havia guardado todas as pequenas imagens do presépio da minha infância que ganhei no sorteio quando dividimos todas as coisas dos meus pais que haviam falecidos.

“Deixa eu pensar pra ter umas ideias” disse ela espalhando os carneirinhos, Nossa Senhora e São José, os pais do Menino Jesus, os Reis Magos, o cavalo, o boi, os pastores e até um flautista, sobre a pequena mesa improvisada.

- O Menino Jesus só a meia-noite, você sabe, não é? Me advertiu ela.

- Sim, eu sei. Quando ficar pronto vou bater umas fotos. Respondi


- Agora vocês vão me dar licença porque vou lá pra fora ver as águas das pingueiras do meu telhado cair na terra e formar as enxurradas. Então vou pegar carona com elas e ir até o riacho seco pra depois me encontrar com o Córrego do Vinho. Mais embaixo cairei nas águas do Paraopeba. No depois vou me desaguar dentro das profundezas do meu São Francisco. Acho que meu destino está ligado às aguas.

17/12/2025


Observação: 
Caso queiram fazer algum comentário não esqueçam  de se identificarem no final. 

Fotografias: arquivo pessoal (Ainda aguardando a Suely com suas ideias para fotografar nosso presépio.)

Fotos de 1 a 3 gentilmente cedidas por meu irmão, Luiz Paulo Rivelli.










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