Tenho acompanhado, mesmo que do outro lado do mundo, a tragédia abatida sobre cidades da zona da Mata Mineira em decorrência das intensas chuvas da semana passada. Quero lembrar que tais efeitos climáticos poderiam ser evitados se não houvesse tantos negacionistas espalhados pelo mundo que, com suas bases nada científicas, vêm provocando o aquecimento global. Mas não é disso que pretendo falar.
Quero falar do meu amor pela região onde nasci. Quero falar das minhas raízes fincadas em Brás Pires, cidadezinha próxima a Ubá, a Senador Firmino, tão destruídas pelas águas. Não “são as águas de março fechando o verão”, foram as águas fechando o fevereiro e levando consigo vidas dos morros pobres de Juiz de Fora e sonhos de uma gente trabalhadora e sofrida. Quero dizer que sofri junto com cada pessoa que ficou ilhada, com cada pessoa que perdeu seu familiar. Chorei com as terríveis cenas de horror e destruição. Vi a prefeita, Margarida Salomão, chorando e chorei com ela. Assisti ao desespero do prefeito de Ubá, José Damato Neto, e me desesperei em pranto com ele também.
Pensei na fúria do rio Paraibuna despejando suas águas lamacentas no rio Paraíba do Sul e, ainda, podendo assustar ribeirinhos por lá.
Aprendi a amar as cidades por onde fui vivendo. Entendi que todas elas são irmãs, são vivas, são pungentes e que, cada uma, tem suas histórias, seus conflitos e seus sonhos.
A cidade de Ubá guarda histórias da minha infância; guarda o delicioso sabor da manga-Ubá; a cidade que até hoje acolhe moradores de Brás Pires que vão em busca de trabalho, em busca de assistência em saúde; pessoas que passam por lá em direção a Juiz de Fora, São Paulo ou Rio de Janeiro. Ubá que guarda meu grande “amigo-irmão” e colega de profissão com sua família. Ubá da quentura de verão.
À cidade de Juiz de Fora devo minha formação médica pela UFJF. Ali vivi sete anos da minha juventude. Ali conquistei bolsa de estudos para o terceiro ano integrado ao cursinho. Ali morei em vários bairros sempre procurando locais mais baratos.
Ali fiz amizades e tenho afilhados de casamento. Juiz de Fora do Cristo Redentor abençoando a cidade aos seus pés, eu te amo.
Mas chorei também quando vi as inúmeras ações cidadãs de socorro vindas de tantos lugares e tantas pessoas. Vi moradores de Brás Pires fazendo sanduíches e recebendo doações para serem levadas a Ubá como agradecimento pelo tanto que aquela cidade tem sido maternal com nossa população. Vi o prefeito de Brás Pires, (meu querido sobrinho Dominguinhos) disponibilizando máquinas pesadas, caminhões e trabalhadores para socorrer sua irmã, Ubá.
Não vamos subestimar a força da natureza. Ela vem cobrando as constantes agressões do homem. Como bem disse nosso ambientalista e indígena, Ailton Krenak, a terra é nossa casa comum, a ela devemos nossas vidas.
Abraço carinhosamente os familiares que perderam seus entes queridos, abraço a todos e todas que vêm socorrendo as cidades atingidas.
Agora meu coração parece um pouco mais aliviado. Que março nos traga novas vidas e esperanças.
05 de março de 2026