domingo, 12 de julho de 2026
Poema: Amar - fazer-se verbo
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Crônica: Por onde andará minha inspiração?
Livros que estou lendo atualmente. Maravilhosos
Flor de cera
terça-feira, 16 de junho de 2026
Poema: Copa do Mundo de Futebol - 2026
Com muito orgulho
Com muito amor”
Até bem pouco tempo
sabia os nomes de todos os onze jogadores titulares da Copa de Setenta
Mas, à medida que o tempo andava, eu crescia e
entendia as mazelas criadas pelo capital.
Então, dediquei o canto do meu coração canarinho às pessoas sem vez e voz
Hoje, numa copa em desatino,
busco de novo minha lembrança perdida,
encontro Sócrates, Falcão,
aplaudo nosso Rei-naldo,
Hoje sei o nome de apenas um jogador brasileiro:
aquele que cai em campo,
rola em milhões de dólares,
e do qual me recuso a escrever o nome
Mas lá, dou de cara com aquele governante
estúpido, mentiroso, ditador, medíocre,
Um senhor das guerras
que se aventura ao desejo de ser dono do mundo.
Saio de lá, onde nunca deveria ter entrado.
Junto-me àqueles que foram barrados, humilhados, interrogados
E beijo-lhes os pés.
12/06/2026
Fotografia: bandeira de Cabo Verde, em homenagem ao goleiro "Vozinha", à seleção Tubarões azuis e a toda nação cabo-verdiana. Hoje meu coração também é cabo-verdiana.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Crônica: Encontro com o filho
Já conversei bastante com meu filho sobre minha viagem de volta ao Brasil. Falei sobre a surpresa boa com o atendimento da empresa aérea, sobre o problema que enfrentei no gigantesco aeroporto de Guarulhos e meu desembaraço para resolvê-lo. Já conversamos e nos vimos através deste aparelhinho que tem tomado conta das nossas vidas, das vidas alheias e, até, derrubado políticos e candidatos.
Pois bem, agora não é disto que quero falar, apesar do meu riso sarcástico sobre o novo filme “O Financiamento Secreto”. Deixemos isto para os graúdos resolverem. Agora quero falar de outras coisas. Quero falar dos detalhes que me acompanharam durante nossas infindáveis caminhadas pela cidade, meu filho e eu. Pra começar, confesso que aceitava todos os convites do meu filho para caminhar, mesmo já tendo caminhado naquele dia e mesmo estando com meus quadris ferroando de tanta dor, eu ia. Jamais perderia um momento sequer para estar ao lado dele. Escutava-o falar sobre seus projetos de vida com a família, sobre seu trabalho atual, sobre suas avaliações da política brasileira atual, suas assertivas sobre os ataques de Israel contra os palestinos e libaneses, sobre o ataque dos EUA ao Irã, sobre a guerra Rússia x Ucrânia, etc. Seu pensamento crítico, sua inteligência e a clareza de suas avaliações não me deixaram dúvidas do fato dele ser é um grande analista em ciências políticas nacionais e internacionais. Naqueles momentos eu só queria ficar em silêncio para absorver cada palavra dita de forma segura e lúcida.
Outra hora eram meus joelhos que doíam, e doíam muito. Então, sugeria a ele que sentássemos um pouco aproveitando uma sombra ou um banco bem colocado. Por duas ou mais ocasiões lhe perguntava se nosso tempo daria para dar uma volta naqueles espaços gigantescos. - Oh mãe, dá até para dar mais de duas voltas! Ele me respondia e dava um sorriso. E lá íamos nós. Ele caminhando com passadas largas e eu carregando minhas dores da bursite crônica do trocanter (fêmur) esquerdo, das patas de ganso dos dois joelhos e dos quadris. Jamais iria reclamar. Não perderia sua companhia por dor alguma. Eu não deixaria de aprender história, política, geografia, relações internacionais, conflitos mundiais, filosofia, e tantas outras coisas. Entretanto, nada disto me fora mais importante do que estar acompanhada por meu filho, de sentir amada e querida por ele.
Um dia ele me disse que me levaria para uma caminhada num local diferente, como se cada dia não fosse diferente e num local diferente. Naquele dia ele não foi ao trabalho. De carro ele me levou para regiões distantes da sua casa. Chegamos a um parque florestal. Logo vimos várias pessoas em famílias ou mesmo solitárias, caminhando por ali. Através de um painel ele escolheu qual trilha iríamos fazer. Ai, meu Deus! Uma caminhada morro acima! Inicialmente entre muitas árvores, daí a pouco começamos a subir numa trilha entre pedras. Vi uma mãe com um bebê amarrado no peito e outro filho, muito pequenino, caminhando ora na frente, ora atrás da mãe. Logo vi outras mães e outros bebês aconchegados a elas.
Continuamos a subir e a olhar a cidade dos pontos mais altos. Eram minhas dores e eu em silêncio. De repente estávamos ao redor de pirambeiras de pedras. Isto aqui é a boca de um vulcão? Fiquei deveras impressionada com o que via. Estávamos na beirada de uma pedreira. E a boca, do que teria sido um vulcão, querendo nos engolir. No ponto mais alto, um mirante com um painel a nos dizer que tratava-se de uma pedreira de 7 milhões de anos, atualmente desativada. Toda a região havia se transformado no Halswell Quarry Park. (1). E, lá de cima, avistamos, ao longe, as monhanhas nevadas dos Alpes do Sul, do outro lado da cidade
Ainda, sob o efeito do que havia visto e, circundando a boca daquilo, começamos nossa descida, agora entre árvores e escadas de madeira e pedras. Então visitamos alguns jardins como o jardim japonês, o jardim coreano e esculturas, como presentes das “seis cidades irmãs”, aquelas com as quais a cidade de Christchurch mantém relações amistosas. (2)
Voltei para casa com a imagem daquela boca de pedra a me impressionar.
Entretanto, o que mais me impressionou foi o carinho e a sensibilidade do meu filho junto a mim.
Francisco, meu filho, eu te amo tanto que até doi. E doi mais que todas as minhas dores articulares juntas.
Muitas saudades.
Brasil, 20/05/2026
Observações: - por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo.
Fotografias: - Capa: Francisco e eu na despedida no aeroporto em Auckland.
- Demais fotos: arquivo pessoal
Notas:
(1)The story of Halswell Quarry Park, para caso você queira conhecer e se encantar com a história e os vídeos do Parque da Pedreira de Halswell
(2) Cidades irmãs: Adelaide (Austrália), Christchurch (Reino Unido), Kurashiki (Japão), Seattle (EUA), Songpa-gu -Seoul (Coreia do Sul), Wuhan (China)
Outro ângulo
Francisco (flagrado)
Presente de uma das "cidades irmãs" Seul?
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Diário da vovó 8/2: Em casa, a vovó só ficava...
Em casa, a vovó só ficava…
…lendo
Espero que continuem comigo nestas viagens através das letras, das palavras e das histórias contadas por tanta gente ao redor do mundo.
Vamos lá?
Latim em Pó / Um passeio pela formação do nosso português, Companhia das Letras, de Caetano W. Galindo.
Vejam o que nos diz Noemi Jaffe, escritora, professora e crítica literária sobre este autor:
“Não contente em ser um dos melhores tradutores do país, Caetano Galindo também nos presenteia com uma das melhores leituras da nossa língua, sua história, seus aspectos, e uso. Este livro é um passeio, uma navegação pelo português e pelo Brasil.”
Jamais poderia imaginar eu viajando por uma língua. Disse para meu filho que não estava conseguindo avançar na leitura porque queria guardar tudo que lia. Tudo aquilo era muito novo e eu achava tudo muito importante. Vai lendo mãe, depois você lê outra vez. Foi a recomendação do meu filho. Até hoje continuo lendo e relendo. Interessante demais. Então descobri que, na verdade, eu não queria perder nada do que este Caetano, tal qual o nosso Caetano Veloso, nos ensinava no livro. Senão vejamos na página 182:
“Apesar das adversidades, foi a língua falada por negros e mestiços que dominou o Brasil. Somos um país que fala português como fruto direto da presença negra.
Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da ‘última flor do Lácio’. O português brasileiro foi um broto africano, flor de Luanda.” (pag. 182)
“... E os milhões e milhões de mortos do passado, nossos antepassados nas estepes da Ucrânia, nas penínsulas da Ibéria e da Itália, nas terras germânicas do centro da Europa, na Arabia, no Magrebe, na Sibéria e nesta América, na África toda, inteirinha cortada pela cicatriz dos séculos de escravismo, Todas aquelas pessoas que um dia ergueram as vozes que nos deram o ‘céu’ (indo-europeu), ‘azul’ (persa), que nos desejaram ‘axé’ (fon), que nos moldaram o ‘barro’ (iberico) ou um ‘carro’ (celta) de ‘boi’ (latim), aqueles que por ‘azar’ (arabe) atravessaram ‘guerras’ (germânico), as maẽs que nos fizeram ‘pipoca’ (tupi) e zelar por nossos ‘cochilos’ (banto). (pag. 210)
Saber que a palavra azul veio do fasci/persa me fez gostar ainda mais do Irã com seu povo guerreiro, com sua história milenar, com o grande Império medo-persa dos reis Ciro, Dario e Xerxes (550 a.c.).
Gostaria de trazer outras citações, mas meu texto ficaria ainda mais longo e ainda há mais livros por aqui.
E chegou a vez de reler:
Vidas Secas, 120 Editora Record, Rio de Janeiro - São Paulo / 2013.
Havia lido este livro na minha adolescência, e agora como uma escolha da Tertúlia Literária de Betim. Excelente escolha. Aqui chorei outra vez, feito criança, com as histórias de Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Maior, o Menino Menor e a cachorra Baleia. Graciliano Ramos nos leva junto à família numa peregrinação do viver a vida sem ser vivida. A miséria escancarada num país rico de tudo. A seca matando e exercendo sua seleção natural.
Agora lembrei-me de alguns professores, durante meu curso de medicina - em tempos sombrios da ditadura militar no Brasil - afirmarem/agourarem o futuro das crianças nordestinas, porque eles não ingeriam proteínas e vitaminas suficientes para formarem cérebros críticos e pensantes. Contrariando todas estas profecias, o povo nordestino tem nos dado histórias gigantes nos campos social, político, cultural, educacional e tantos mais. Confesso que amo nosso nordeste com sua gente.
Enquanto escrevo, vou relendo algumas partes do livro com o fim de trazer-lhes um período ou um parágrafo para verem a beleza/tristeza do relato de Graciliano Ramos sobre a família que tenta sobreviver à seca e à miséria de um nordeste abandonado pelo poder público da época. Entretanto, todo o livro é maravilhoso, trago-lhes um pouco dele:
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O livro é grande demais, mas, por vezes, ainda leio alguma coisa nele. (1)
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No livro o jovem nos conta suas histórias, “mais íntimas do que um diário, as cartas de Charlie são estranhas, hilárias e devastadoras" . Sua cartas - diários nos deixam apaixonados por ele. Não sabemos quem é ele, onde mora, com quem vive, sua idade, etc. Entretanto é lendo que vamos descobrindo quem é Charlie. O livro foi adaptado para filme, em 2012, com o mesmo nome.
E Charlie nos diz:
"Eu tive uma sensação na sexta à noite, ……..Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:
Num outro ponto ele nos diz:
“27 de maio de 1992
Querido amigo,
Fiquei lendo The Fountainhead nos últimos dias, e é um livro excelente. Estou lendo na capa que a autora nasceu na Rússia e veio para os Estados Unidos quando era jovem. Ela falava mal o inglês, mas queria ser escritora. Acho que é uma pessoa admirável, então me sentei e tentei escrever uma história.
‘ Ian MacArthur é um companheiro maravilhoso que usa óculos e os usa com deleite.’
Era a primeira frase. O problema foi que eu não consegui encontrar a segunda. Depois de limpar meu quarto três vezes, decidi deixar Ian em paz por um tempo, porque eu estava começando a ficar chateado com ele.”
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Na Ponta da Língua - Nosso Português da Cabeça aos Pés, Editora Companhia das Letras - 2025
Neste livro Caetano percorre o corpo humano através da língua portuguesa e vamos vendo e entendendo as interligações das várias origens do nosso idioma. Vejam por onde ele começa:
"Se você viajasse no tempo, até 7 mil atrás, e presenciasse uma conversa de um grupo de pastores nômades na região onde hoje fica a Ucrânia, talvez percebesse que estavam falando de um cavalo mas teriam poucas chances de entender algo do que diziam."
Mais adiante ele continua:
"Esse idioma na linguística recebe o nome de protoindo-europeu não porque tenha qualquer coisa de imperfeito (proto-) nem porque fosse falado na Índia (indo-), mas por ser considerado a matriz de todo um tronco de idiomas que, esses sim, são falados desde a Inglaterra até Bangladesh, da Rússia a Itália. E isto porque os descendentes daqueles pastores que conversavam a respeito de um cavalo no início do capítulo acabaram se espalhando por um terreno gigantesco, ao longo dos 4 mil anos seguintes, determinando a paisagem cultural, linguística e genética da Europa, da Pérsia e de boa parte do subcontinente indiano."
Numa outra passagem deste livro me diverti com o nome philtrum dado ao pequeno canal entre o nariz e a boca quando o autor nos diz que:
"Aquele risquinho recebe o nome de uma poção mágica! Afinal, a raiz grega por trás dessa versão da palavra, e também da mais comum filtro, tem ligação com o radical phileo - de amor. Na verdade, o sentido mais básico, mais antigo de filtro em português é poção do amor."
E assim vou me divertindo com os livros.
(1) Quero agradecer e homenagear nossa colega da Tertúlia Literária de Betim, Ana Claudia Gomes, historiadora com quem tenho aprendido muito durante as discussões dos livros escolhidos e lidos por nós. Ana Claudia tem enriquecido nossas discussões sobre os livros. Jamais esquecerei Dinamene.

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