terça-feira, 13 de outubro de 2026

Apresentando "Juju, a baleia encantada"


Uma história que não esqueci




Uma vez, sentindo saudades do mar e, sem companhia para fazer a viagem, acabei convidando uma jovem vizinha.

- Nunca fui à praia - disse-me ela.

Então lá fomos nós duas, uma velha senhora e uma jovem mulher. Depois de quase vinte horas de viagem de ônibus e em caronas, chegamos lá. Eu já conhecia a região de longo tempo atrás. Queria reviver as mesmas emoções de antes.

Naquela semana o mar não estava pra peixe. Sem sol, as areias estavam escuras e as pedras vulcânicas impossibilitavam as caminhadas na beira da praia.

Eis que surgiu um aviso pregado no quadro de avisos do refeitório. Um convite para as atividades recreativas daquele lugar. Nos inscrevemos e nossas aventuras começaram de verdade.

O monitor, um homem de meia idade, não parava de falar. A princípio não havia nenhuma simpatia nele, mas daí a pouco ele foi sendo mais suave, menos falante e nos contando muitas histórias interessantes daquelas regiões.

Entretanto, o melhor da praia foram as companhias de Edgar e Carolina, irmãos paulistas, pré-adolescentes, que coloriram nossos passeios. Eles acabaram me inspirando a escrever sobre a Juju, a filhote de baleia jubarte que habitou aquele pedaço do oceano Atlântico cuja história nos foi contada pelo monitor.

Dez anos depois está nascendo “Juju, a baleia encantada”.

13/10/2026

Observações:  eis meu primeiro livro infantil para todas as crianças acima de sete anos, inclusive para aquelas que moram dentro de nós e nos acompanham por toda a vida.

Caso queira fazer um comentário, deixe seu nome após o mesmo.

Lançamentos: 

Betim, dia 24 de outubro, sábado, às 9:00h no Salão do Encontro.

Belo Horizonte e Conselheiro Lafaiete ainda sem datas previstas

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Suruba na História - Crônica Nonsense


Faz-se necessário contar esta história num tempo em que estas mesmas coisas andam acontecendo nos andares de cima da elite brasileira.

Florbela Espanca apaixonou por Miguel Ângelo que fêz-lhe uma escultura posteriormente colocada no reino persa do Rei Sahriar. Quando Sherazade soube do ocorrido, houve um danado de um furdunço. Ainda bem que Tomás Antônio Gonzaga, alí por perto, percebeu tudo e gritou socorro para Madalena, a santa do pau oco.

Há quem diga que, até hoje, Roma e Portugal não se dão bem e juram que os gêmeos Rômulo e Remo, nascidos daquela Mil e Uma Noites, nunca existiram de fato.

Mesmo assim, nada de juras de amor entre lisboetas e romanos.

Por conta disto, Marília de Dirceu  ainda hoje anda enlouquecida, gritando pelas praias do mar da Galileia pelo amor traído de D.Pedro I.

01/10/2026

Observações:

- Fotografia: Capitólio, Havana, arquivo pessoal

- Este texto foi escrito durante a Oficina de Escrita Criativa Escrevivência, em Betim, M.G.

- Favor colocar seu nome no final do comenário, caso queira fazê-lo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Carta para meu neto, 21 de setembro de 2026

                           



Funil, 21 de setembro de 2026


Boa tarde Dudu

Já fazem alguns dias que quero lhe escrever para falar das novidades aqui do sítio e saber como você está em casa e na escola com os colegas e amigos.

Antes de começar a contar tudo tenho uma novidade: está pronto meu primeiro livro infantil. “Juju, a baleia encantada” é o nome do livro. Acho que você já conhece esta história. Estou muito feliz com a publicação deste livro e penso que as crianças irão gostar dele.

Aqui no sítio temos plantado mais frutas. A jabuticabeira já deu flores e deu as deliciosas jabuticadas por duas vezes, em agosto e agora, em setembro. É só chover que as frutas amadurecem e ficam suculentas.

E tenho uma nova amiga, Ivone, que mora num grande sítio e ama cuidar das plantas. Ela trouxe da casa dela mudas de mandioca e plantou quatro mudas aqui, trouxe uma muda de orquídea e me ensinou como devo fazer canteiros e usar folhas e pedaços de madeiras para proteger todas as mudas. Tenho plantado muitas flores também.

Estamos colhendo uma média de quatro ovos por dia, fico muito feliz quando vou buscá-los no galinheiro.

Acabaram de construir o muro que divide com o vizinho, mas só na parte de baixo, onde os cachorros dele ficavam atacando os nossos cachorros. Foi muito bom para proteger a Jara, o Paçoca e o Totó, assim eles podem ficar soltos mais tempo durante o dia. A Severina está muito bem, mesmo após a cirurgia de desarticulação da pata traseira.

Parabéns para você com o prêmio que recebeu na sua escola.

Agora você está animado com a nova escola no ano que vem? Quando seu pai me contou que você foi sorteado, como fazem aí, para uma das vagas, fiquei rindo sozinha que nem uma tonta.

Vi você brincando com novos colegas da escola na sua casa e jogando vídeo game com seus amigos aqui do Brasil. Fiquei contente em vê-lo cheio de amigos.

Gostaria de ficar conversando com você a tarde inteira. Amo de montão conversar e rir com você. 

Um abraço e um pedaço de queijo e até ano que vem. Estou contando os dias para ver vocês.

                                 Vovó Zarinha

P.S. Esqueci de lhe dizer que estamos às vésperas das eleições no Brasil. Seu pai e sua mãe já compraram as passagens para irem votar no LULA lá em Wellington? (é lá mesmo que eles podem votar?)












                                                      Teo e Boy


                             
                              Severina antes e depois             

                                                                

Observações:

Fotografias: arquivo pessoal

- Pounamo: Pedra de jade verde encontrada no sul do país, esculpida em amuletos sagrados (taonga) como o hei-tiki e o koru (que simboliza novos começos e crescimento). São brotos e folhas de samabaia, planta nativa da região com mais de cem espécies. Um presente do Dudu da última vez em que estive lá como prova do amor que ele sente por mim.

- Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Poema Física de um amor

                          

Ele descia a rua
passos em
velocidade média
contados e recontados
Em linha reta…
sem cambalear
Temeria a força centrífuga?
Ou, quem sabe,
ser tragado pela força centrípeta?
Nestas horas,
acelerado
só o coração


Hoje,
o tempo reduziu-lhe a velocidade
dentro do peito desacelerou o coração
Perdeu a massa que,
até então, era constante
Optou pela quântica
Quantos átomos seriam necessários
para amar de novo?
Quantas partículas subatômicas,
para rever o amor
numa viagem no tempo?

Calculou que estava certo quando,
na juventude,
afirmou que seriam referenciais
um ao outro.

O tempo acelerou mais que o devido
como os elétrons no núcleo de um átomo

Infeliz descobriu que,
tomaram a mesma direção,
em sentidos opostos.

No meio do caminho
um princípio de incerteza

Ele na física
Ela energia astral

17/09/2026

Observações:

1 - Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.

2- Fotografia: aurora astral na Oreti Beach, cidade de Invercardil, Ilha sul, Nova Zelândia (arquivo pessoal)

3 - Este poema foi escrito como dever de casa da Oficina de Escrita Escrevivência, da Casa de Cultura Josephina Bento, de Betim,M.G., proposto após leitura da Poesia Matemática de Millôs Fernandes,

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Crônica: Mudanças em mim

                                        




A coisa foi se dando sem que eu desse conta do que estava acontecendo. Nas conversas com as amigas, se antes brincavam e riam conversando comigo, depois passei a pensar que faziam piadas porque eu não entendia nada do que falavam, até eu não mais participar das conversas.

Eu, que sempre tive grandes dificuldades com as palavras faladas, me vi ficando cada dia mais calada. Passei a não sair com as amigas nos fins de tarde. Havia sempre uma desculpa. No trabalho fui me vendo com muitas dificuldades. Fui me isolando e diminuindo meus atendimentos. Ficava mais em casa, a ler e a escrever.

Não percebia que precisava olhar diretamente para os lábios das pessoas durante nossas conversas. Não me lembro quem atentou-me para o fato de estar perdendo a audição. Ao fazer uma retrospectiva do que vinha me acontecendo pude avaliar que estaria em torno dos quarenta anos quando comecei com tal deficiência.

Procurei ajuda profissional.

O diagnóstico foi implacável: surdez não orgânica ou funcional, ou seja, exames físicos normais, mas o cérebro deixa de processar os sons. Sabia do que se tratava: uma deficiência auditiva progressiva e irreversível, sem tratamento em medicina senão através de uma prótese.

Esta semana escutei a chuva e as algazarras dos pássaros no meu quintal. Um imenso prazer tomou conta de mim. Estava com meus aparelhos de som com tecnologias de IA.

Apesar das muitas dificuldades, tenho pra mim que perder um dos sentidos me trouxe de volta para mais perto de mim e das pessoas com quem gosto de estar.

E, com Guimarães Rosa, aprendi que a gente nasce e morre dispronta


03/09/2026


Observações:
1 - Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.

2 - Esta pequena crônica foi escrita como dever de casa proposto pela oficineira, Cida Amaral, nas nossas oficinas de escrita "Escrevivência" junto à Casa de Cultura, em Betim, M.G.



terça-feira, 25 de agosto de 2026

Crônica: Uma mulher chamada Fina

                                                

                                             


Quando soube que ela estava morando no asilo da minha pequenina cidade natal, quase não acreditei. Não é possível! Ela fez parte da minha infância. Muitas vezes ficava olhando para ela  da janela da casa da minha avó, pensando sozinha com os meus botões. 

Mais do que querer vê-la, eu precisava olhar para ela, conversar com ela. Seria uma maneira de entrar em contato com minha infância outra vez. Eu faria uma viagem no tempo percorrendo toda a história que ouvia contar dela. E adorava ouvir falar dela ou de quaisquer pessoas da sua família.

O irmão dela mais velho, foi para São Paulo e casou com uma viúva rica. Passadas várias décadas escutei: O irmão dela voltou de São Paulo e foi morar com ela. Dizem que estava bebendo muito. Nessa época era ela quem estava casada com um viúvo rico lá pras bandas dos encontros dos dois rios da minha infância. Sobre isso eu já havia escutado há algumas décadas e fiquei feliz por ela. Não me lembro quem havia ficado com a irmã diferente. 

Minhas idas à minha cidadezinha têm ficado, a cada ano, menos frequentes. Várias são as razões: o avançar da idade e a solidão são algumas delas. Inversamente, meu desejo de ir lá tem aumentado, como se eu precisasse buscar a água que bebi pela primeira vez na vida. Lá está uma das minhas fontes de energia.

Fui ao asilo e lá estava ela, logo me reconheceu quando falei quem eu era. Afinal sou filha de uma prima de primeiro grau dela, com quem conviveu nas proximidades das fazendas onde moravam, minha mãe e ela, cada qual com seus os pais. Com certeza mais de sessenta anos nos separam  dos tempos. Ela continuava como se fosse a mesma das minhas lembranças. Embora bastante debilitada fisicamente, continuava altiva e desembaraçada.  Fui convidada a conhecer as instalações daquela unidade asilar. (Havia um tempo em que eu tinha doado uma pequena quantia financeira com as vendas do livro Olhares Clínicos. Nós, os autores, colegas meus da faculdade de medicina da UFJF, havíamos sugerido que toda  renda arrecadada fosse doada a uma ONG como forma de retribuir à sociedade um pouco do que foi gasto com nossa formação numa universidade pública. Daquela vez a Sociedade São Vicente de Paula - SSVP - mantenedora daquele asilo foi a agraciada)

Fina estava tomando sol com outras pessoas asilares. Logo chegou uma parenta jovem que sabia quem eu era e me fez sinais de que ela, a Fina, não estava regulando bem. Até então não havia percebido nada. Talvez a emoção de reencontrá-la não me deixasse observar quaisquer alterações no pensamento da minha parenta tão querida e admirada. Ela me contou sobre sua vinda para o asilo, os familiares falecidos, a irmã diferente de quem cuidou com tanta devoção à Nossa Senhora do Rosário, o irmão que morreu na sua casa no encontro dos rios. Meus olhos acompanhavam seus movimentos corporais como se a vissem lá atrás nos tempos idos. Saí dali com apenas dez anos, ainda na janela da casa da minha avó.

Jamais esqueci seu andar apressado  jogando o tronco sobre o abdome, carregando nas mãos seu terço, o véu branco dobrado, com os folhetins das missas daquela semana e suas cantorias. Às vezes estava toda vestida de branco com a faixa azul-claro em volta do pescoço, símbolo das Virgens de Maria. Seriam dias de festas religiosas?

Para mim, ver aquela moça-mulher atravessar a praça ao lado ou logo à frente da irmã diferente, era um sentimento indescritível. Meus olhos seguiam os passos desajustados das duas, eles acompanhavam a pressa de uma enquanto a outra tentava ir no mesmo ritmo. Hoje penso que para ela, ir à igreja se fazia mais importante do que propriamente viver. Não era uma moça-mulher bonita, mas para mim sua beleza  estava na sua liberdade de ir e vir com tanta destreza, com tanta fé na Nossa Senhora do Rosário e nos caprichos ao enfeitar andores, altares, ao fazer asas e coroas para os anjos do mês de maio. 

Os pais moravam na roça, bem distante da nossa rua como diziam da cidadezinha onde eu a via. Outros irmãos e irmãs ficaram na roça ajudando seus pais. Fui lá muitas vezes, me lembro da bica com grande volume d’água que descia da serra  caindo sobre uma mesa improvisada onde eram colocadas as vasilhas da cozinha. Ali eram todos lavados os utensílios assim toda a roupa da casa em grandes bacias. Lembro também das quitandas e dos queijos no café adoçado com rapadura. Estranho eu nunca  ter conseguido, na minha cabeça de criança, juntar aquela família  dos tios da minha mãe pelos lados materno e paterno, à Fina. 

Ela morava na  maior casa da praça, numa esquina. Um grandioso chalé. Teria sido herança da velha tia que não se casou? Será que ela foi criada por essa tia? Acho que aquela tia morreu quando eu ainda era bem criança. Não me lembro dela e nem de ter entrado naquela casa mesmo sendo parente bem próxima. Nem precisava. Se fosse lá poderia ter  quebrar o encanto que eu sentia por Fina. Ou melhor, pelas duas irmãs inseparáveis. 

Fina, batizada Josefina, tinha os cabelos pretos, um tanto curtos, encaracolados e esvoaçantes com seu andar. Óculos em estilo da época que lhe davam ainda mais o aspecto de imponência. Ela nunca soube do tanto que eu admirava e gostava dela.

Era tida com uma solteirona para aqueles tempos em que as moças se casavam antes dos vinte anos. Será que não arranjou casamento? Para mim Fina já estava casada com a igreja e com os cuidados da irmã. 

Soube, recentemente, que Fina partiu para o céu, como sempre rezou e sonhou. Mas, para mim, Fina não morrerá nunca, porque ela tem vida eterna…

Amém.


25/08/2026



 

  

     




                                                                            

Fotografias : arquivo pessoal

Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Carta a um desamor




Betim, 6 de agosto de 2026

Boa noite Antônio,

Ainda ontem combinamos nosso café. Embora soubesse, de antemão, que tal guloseima, muito apreciada por mim, não o seja para você, acreditei, mais uma vez, que compareceria. você não compareceu.

Assim tem sido nossa história. Onde apareço, você desaparece. Daquilo que gosto, você faz cara de desgosto. Se gosto de música clássica, você prefere o rap. Se amo o azul, você prefere o cinza.

Pois bem, se somos os opostos e sabemos que as retas se encontram no infinito, embora na minha matemática elas nunca se encontrem, faz-se a hora de eu tomar meu rumo numa curva e cair fora. Você faça o que bem entender. Provavelmente seguirá na mesma reta porque nunca soube ser curva.

Veja você, se eu pudesse adjetivá-lo, diria que lhe desejo como companheiro, o Senhor Caronte.Que ele lhe conduza ao inferno.

Nosso tempo escafedeu-se. Extinguiu-se a validade.

Sem abraços

                               Amélia


Observação: esta carta foi escrita como dever de casa da Oficina de Escrita Criativa Escrevivência que acontece na Casa de cultura Josefina Bento, em Betim, M.G. Tal carta deveria ser escrita sem adjetivos.

Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Agosto a gosto



agosto benvindo
julho adeus
julho, mês favorito
veio transtornado
longo e penoso
chuvas, ventos fortes, 
calor intenso
tudo fora do tempo
que agosto venha a gosto
a gosto de queijo Minas
agosto das sementes esvoaçando
a gosto …


02/08/2026

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Escrita "nonsense": Dona Baratinha



Era uma vez uma tal dona Baratinha que cismou em querer representar, numa peça, o inseto da metamorfose. Tanto fez e refez que acabou ganhando o papel naquele programa kafkiano da noite do terror de segunda-feira. Comprou uma capa nova da dona Cascavel, incluindo o chocalho no final da cauda. Ficou assim, de morte. Guardou todo o veneno para desbaratar sobre os concorrentes caso não fosse classificada para o nobre papel. Entre os jurados estava o próprio dono daquele terrível livro famoso, que logo se apaixonou pela figura temerosa. Mas, a asquerosa concorrente, só não contava que entre os jurados estava Dom Casmurro que, muito desconfiado com aquele deleite entre os dois, preferiu aspergir Detefon na nojenta e transfigurar sua Capitu para o papel principal. 

Como dizia minha avó, o grande mentecapto matou dois coelhos duma cajadada só. Nada de baratas, nada de traição.

Assim como dizia Virgolino Lampião: "Não sou cangaceiro por vontade minha, mas pela maldade dos outros."

Observação: Esta escrita foi feita como dever de casa na Oficina de Escrita Criativa: Escrevivência, Junto à Casa de Cultura de Betim, em julho de 2026.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Crônica : A caderneta da minha mãe




Apesar de saber que minha mãe tinha uma letra linda, quase bordada e firme, raramente a vi escrever. Por uns tempos passei a vê-la desejando anotar números de telefone, datas de aniversários, receitas de alguns bolos - ela adorava fazer bolos - e outras coisas que ela precisava lembrar. Foi então que decidi dar a ela uma caderneta de anotações com os nomes em ordem alfabética, para anotar os números dos telefones assim como datas de aniversários. Mas nunca soube que fim ela deu no meu presente. E os ventos me sopraram para longe da minha mãe.

Muitos anos após sua morte a caderneta de capa carmim me encontrou. Fiz dela um tesouro e a trouxe comigo, escondida de outros olhares. Afinal ela só dizia respeito a mim, pensava eu. Hoje, quando tento localizar este meu tesouro, já não o encontro mais. Ainda agora estava enfurnada na minha biblioteca, por tantos anos improvisada, à procura de um livro. De repente me dei conta de que era aquele tesouro que eu procurava. Sentei no chão, exausta. “Amanhã voltarei a procurá-la”, foi o que pensei. Preciso, urgentemente, descobrir quem eram seus amigos, quem eram aqueles de quem ela queria se lembrar nos aniversários, quais aromas estariam nas suas receitas. Só agora percebo que busco saber quem era minha mãe, o que ela pensava, quais eram suas dores, quais foram suas decepções, o que sua fé encobria. Quem era minha mãe, afinal?

Lembro que, entre as páginas daquela sua caderneta, estavam ainda sua carteirinha do IPSEMG, nosso plano de saúde, em papelão fino sem foto, dentro de um plástico. O marido era servidor público, um orgulho para ela. Havia também um outro pedaço de papel ali. Fui eu quem o guardou. Deste não quero falar.

Quando ainda estava sob minha vista, virava e mexia e eu folheava aquele presente. Lembro que as anotações, em sua maioria, estavam escritas não com a letra dela, mas com minha letra. Constato agora que aquilo não fazia parte de seu tempo. Uma caderneta sofisticada com capa carmim definitivamente não fazia parte dos seus desejos. É isso, quando hoje faço questão de esquecer meu celular em algum lugar é porque ele não faz parte da minha época.

‘Inda agora, ao procurar uma foto para “enfeitar” esta crônica, assusto com uma mensagem do banco me avisando que uma compra com meu cartão de crédito fora recusada. Peço socorro para minha filha. Mãe, vejamos: se seu celular fosse um Android, tudo estaria nele. E, se você desse seu contato para alguém, ele poderia roubar todo seu dinheiro. Aliviei-me uma vez que não tenho todo seu dinheiro e ela continuou: já bloqueei seu cartão. (Nem sabia que meu celular não é um android. Credo em androids) Não precisa ficar conversando não, é tudo robô, continuou minha filha. E eu cá preocupada em ser deselegante com os robôs.

Pois bem, nestes tempos já adiantados da minha vida, quero tão só estar comigo e com meus pensamentos. Estes já me bastam uma vez que eles me levam para onde quero ir.

Voltarei amanhã para dizer se encontrei a caderneta carmim que dei de presente para minha mãe.


21/07/2026

domingo, 12 de julho de 2026

Poema: Amar - fazer-se verbo



      Daqueles que amei

      Trago comigo gestos

      Ainda  sinto

      um toque suave

      Ainda vejo

      um franzido na testa

      Um riso contido

      Ainda tenho a boca molhada

      dos beijos trocados


Daqueles que me amaram
     e que não amei

Trago comigo a solidão

A tristeza imensa 
 
que ainda me toma

Sei do olhar apagado

Da desesperança

Da busca desenfreada

Do adeus não dado


Daqueles que ainda amo

Já não trago nada

É outro o desejo erótico

Bastam as lembranças

que ainda me perfumam

Os olhares que ainda vejo

As palavras

Que ainda escuto


Gestos que me fizeram mulher


Funil, 12/07/2026


Fotografia: pequeninas flores de cravina, presente da minha netinha, Pérola

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Crônica: Por onde andará minha inspiração?

                             (*)Adoro tomar café aqui. Kero Bolo

Nas últimas semanas não tenho conseguido escrever. Abro gavetas, mexo e remexo em meus guardados, releio cartas antigas - amo minhas cartas - Na semana passada encontrei uma carta escrita por meu tio padre, parabenizando pela minha graduação em medicina, selada e datada em 21 de dezembro de 1981 conforme carimbo do correio. A letra é impecável. Mas nada de encontrar inspiração para escrever. Por onde andará essa danada?

Algumas vezes abro meu guarda-roupa e olho minhas roupas. Esta eu usei em tal lugar, aquela usei naquele encontro, esta foi comprada na feira da Avenida Paulista, quando fui lá com algumas amigas. Adoro sentir o perfume das peças lavadas por mim, é claro! Alguns segredos andam escondidos ou pendurados nas minhas roupas. Proibido falar! Ordeno a elas.

Assim, sem saber o que fazer, ando plantando e replantando flores e cuidando do meu jardim, Recentemente conheci uma apaixonada e entendedora das plantas. Já nos tornamos amigas. Ela tem me ensinado muito sobre a terra, as folhas caídas no outono, as florações, os frutos, a preparação dos canteiros e muito mais. Até me presenteou com chá das flores de hibisco e temperos finos feitos por ela.

Outras vezes vou ao galinheiro mas as galinhas não me dão bola, só querem rações e milho. Mas volto parecendo uma criança feliz com os ovos nas mãos. No galinheiro também não encontrei a desaparecida inspiração.

Olho de soslaio para o canil. Não gosto de ver meus cachorros presos. Paçoca, Totó (apelido de Ernesto Guevara, guerrilheiro argentino/cubano) e Jara (homenagem ao grande poeta, músico, cantor e professor, Victor Jara, assassinado pela ditadura chilena de Pinochet em 1974). Solto-os à noite, aí é aquela confusão. Atualmente eles andam mais tranquilos. Já não destroem tanto minhas plantas.

Devo contar também que, de tanto procurar pela minha inspiração, criei um hábito de leitura que jamais pensei em fazê-lo, ou seja, estou lendo de quatro a cinco livros de uma só vez. A experiência tem sido genial. Os livros ficam empilhados no braço do meu sofá, e pequenos post its marcam as páginas que mais gostei ou que gostaria de revê-las ou trabalhá-las. Quando acabo de ler um, já tem outro no aguardo. Por ali também não encontrei minha inspiração.

Será que a coitada da minha inspiração ficou chorando ao lado do meu neto, lá no fim do mundo?

Não sabia mais onde procurar minha inspiração. Só me restou esperar por ela.

E, hoje, como um clarão, ela apareceu. Era mesmo preciso esperar porque ela não estava por aqui nem por lá. A inspiração me foi dada de presente pelas dezenas de amigas e amigos que me abraçaram e desejaram felicidades por ocasião do meu aniversário no último dia 3 de julho.

Muito obrigada a todas e todos vocês que me trouxeram de volta minha rebelde inspiração.


08/07/2026

Funil, Mário Campos, M.G.














                                   




































































                                        Meus filhos e eu...há muitos anos



                             Livros que estou lendo atualmente. Maravilhosos


              Flor de cera

terça-feira, 16 de junho de 2026

Poema: Copa do Mundo de Futebol - 2026

                              

“Eu sou brasileira
Com muito orgulho
Com muito amor”


Até bem pouco tempo
sabia os nomes de todos os onze jogadores titulares da Copa de Setenta

Mas, à medida que o tempo andava, eu crescia e
entendia as mazelas criadas pelo capital.
Então, dediquei o canto do meu coração canarinho às pessoas sem vez e voz

Hoje, numa copa em desatino,
busco de novo minha lembrança perdida,
encontro Sócrates, Falcão,
aplaudo nosso Rei-naldo,

Hoje sei o nome de apenas um jogador brasileiro:
aquele que cai em campo,
rola em milhões de dólares,
e do qual me recuso a escrever o nome

Mas lá, dou de cara com aquele governante
estúpido, mentiroso, ditador, medíocre,
Um senhor das guerras
que se aventura ao desejo de ser dono do mundo.

Saio de lá, onde nunca deveria ter entrado.
Junto-me àqueles que foram barrados, humilhados, interrogados
E beijo-lhes os pés.


12/06/2026


Fotografia: bandeira de Cabo Verde, em homenagem ao goleiro "Vozinha", à seleção Tubarões azuis e a toda nação cabo-verdiana. Hoje meu coração também é cabo-verdiana.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Crônica: Encontro com o filho





Já conversei bastante com meu filho sobre minha viagem de volta ao Brasil. Falei sobre a surpresa boa com o atendimento da empresa aérea, sobre o problema que enfrentei no gigantesco aeroporto de Guarulhos e meu desembaraço para resolvê-lo. Já conversamos e nos vimos através deste aparelhinho que tem tomado conta das nossas  vidas, das vidas alheias e, até,  derrubado políticos e candidatos. 


Pois bem, agora não é disto que quero falar, apesar do meu riso sarcástico sobre o novo filme “O Financiamento Secreto”. Deixemos isto para os graúdos resolverem. Agora quero falar de outras coisas. Quero falar dos detalhes que me acompanharam durante nossas infindáveis caminhadas pela cidade,  meu filho e eu. Pra começar, confesso que aceitava todos os convites do meu filho para caminhar, mesmo já tendo caminhado naquele dia e mesmo estando com meus quadris ferroando de tanta dor, eu ia. Jamais perderia um momento sequer para estar ao lado dele. Escutava-o falar sobre seus projetos de vida com a família, sobre seu trabalho atual,  sobre suas avaliações da política brasileira atual, suas assertivas sobre os ataques de Israel contra os palestinos e libaneses, sobre o  ataque dos EUA ao Irã, sobre a guerra  Rússia x Ucrânia, etc. Seu pensamento crítico,  sua inteligência e  a clareza de suas avaliações não me deixaram dúvidas do fato dele ser é um grande analista em ciências políticas nacionais e internacionais. Naqueles momentos eu só queria ficar em silêncio para absorver cada palavra dita de forma segura e lúcida. 


Outra hora eram meus joelhos que doíam, e doíam  muito. Então, sugeria a ele que sentássemos um pouco aproveitando uma sombra ou um banco bem colocado. Por duas ou mais ocasiões lhe perguntava se nosso tempo daria para dar uma volta naqueles espaços gigantescos. - Oh mãe, dá até para dar mais de duas voltas! Ele me respondia e dava um sorriso. E lá íamos nós. Ele caminhando com passadas largas e eu carregando minhas dores da bursite crônica do trocanter (fêmur) esquerdo, das patas de ganso dos dois joelhos e dos quadris. Jamais iria reclamar. Não perderia sua companhia por dor alguma. Eu não deixaria de aprender história, política, geografia, relações internacionais, conflitos mundiais, filosofia, e tantas outras coisas. Entretanto, nada disto me fora mais importante do que estar acompanhada por meu filho, de sentir amada e querida por ele. 


Um dia ele me disse que me levaria para uma caminhada num local diferente, como se  cada dia não fosse diferente e num local diferente. Naquele dia ele não foi ao trabalho. De carro ele me levou para regiões distantes da sua casa. Chegamos a um parque florestal. Logo vimos várias pessoas em famílias ou mesmo solitárias, caminhando por ali. Através de um painel ele escolheu qual trilha iríamos fazer. Ai, meu Deus! Uma caminhada morro acima! Inicialmente entre muitas árvores, daí a pouco começamos a subir numa trilha entre pedras. Vi uma mãe com um bebê amarrado no peito e outro filho, muito pequenino, caminhando ora na frente, ora atrás da mãe. Logo vi outras mães e outros bebês aconchegados a elas. 


Continuamos a subir e a olhar a cidade dos pontos mais altos. Eram minhas dores e eu em silêncio. De repente estávamos ao redor de pirambeiras de pedras. Isto aqui é a boca de um vulcão? Fiquei deveras impressionada com o que via. Estávamos na beirada de uma pedreira. E a boca,  do que  teria sido um vulcão, querendo nos engolir. No ponto mais alto, um mirante com um painel a nos dizer que tratava-se de uma pedreira de 7 milhões de anos, atualmente desativada. Toda a região havia se transformado no Halswell Quarry Park. (1). E, lá de cima, avistamos, ao longe, as monhanhas nevadas dos Alpes do Sul, do outro lado da cidade


Ainda, sob o efeito do que havia visto e, circundando a boca daquilo, começamos nossa descida, agora entre árvores e escadas de madeira e pedras. Então visitamos alguns jardins como o jardim  japonês, o jardim coreano e esculturas, como  presentes  das “seis cidades irmãs”, aquelas com as quais a cidade de Christchurch mantém relações amistosas. (2) 


Voltei para casa com a imagem daquela boca de pedra a me impressionar. 


Entretanto, o que mais me impressionou foi o carinho e a sensibilidade do meu filho junto a mim. 


Francisco, meu filho, eu te amo tanto que até doi. E doi mais que todas as minhas dores articulares juntas. 


Muitas saudades.


Brasil, 20/05/2026



Observações: - por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo. 

Fotografias: - Capa: Francisco e eu na despedida no aeroporto em Auckland.

- Demais fotos: arquivo pessoal


Notas:


(1)The story of Halswell Quarry Park, para caso você queira conhecer e se encantar com a história e os vídeos do Parque da Pedreira de Halswell


(2) Cidades irmãs: Adelaide (Austrália), Christchurch (Reino Unido), Kurashiki (Japão), Seattle (EUA), Songpa-gu -Seoul (Coreia do Sul), Wuhan (China)




Um ângulo da Pedreira




Outro ângulo





Francisco (flagrado)





                                          Presente de uma das "cidades irmãs" Seul?




              
                                                   Perigo - afaste-se




                               Foto de um painel com o mapa do Parque




                                  

                                                            Eu na trilha





No jardim japonês





Christchurch vista do alto. Lá no fundo vemos os Aples do sul nevados. (imagem do Facebook)