domingo, 12 de julho de 2026

Poema: Amar - fazer-se verbo



      Daqueles que amei

      Trago comigo gestos

      Ainda  sinto

      um toque suave

      Ainda vejo

      um franzido na testa

      Um riso contido

      Ainda tenho a boca molhada

      dos beijos trocados


Daqueles que me amaram
     e que não amei

Trago comigo a solidão

A tristeza imensa 
 
que ainda me toma

Sei do olhar apagado

Da desesperança

Da busca desenfreada

Do adeus não dado


Daqueles que ainda amo

Já não trago nada

É outro o desejo erótico

Bastam as lembranças

que ainda me perfumam

Os olhares que ainda vejo

As palavras

Que ainda escuto


Gestos que me fizeram mulher


Funil, 12/07/2026


Fotografia: pequeninas flores de cravina, presente da minha netinha, Pérola

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Crônica: Por onde andará minha inspiração?

                             (*)Adoro tomar café aqui. Kero Bolo

Nas últimas semanas não tenho conseguido escrever. Abro gavetas, mexo e remexo em meus guardados, releio cartas antigas - amo minhas cartas - Na semana passada encontrei uma carta escrita por meu tio padre, parabenizando pela minha graduação em medicina, selada e datada em 21 de dezembro de 1981 conforme carimbo do correio. A letra é impecável. Mas nada de encontrar inspiração para escrever. Por onde andará essa danada?

Algumas vezes abro meu guarda-roupa e olho minhas roupas. Esta eu usei em tal lugar, aquela usei naquele encontro, esta foi comprada na feira da Avenida Paulista, quando fui lá com algumas amigas. Adoro sentir o perfume das peças lavadas por mim, é claro! Alguns segredos andam escondidos ou pendurados nas minhas roupas. Proibido falar! Ordeno a elas.

Assim, sem saber o que fazer, ando plantando e replantando flores e cuidando do meu jardim, Recentemente conheci uma apaixonada e entendedora das plantas. Já nos tornamos amigas. Ela tem me ensinado muito sobre a terra, as folhas caídas no outono, as florações, os frutos, a preparação dos canteiros e muito mais. Até me presenteou com chá das flores de hibisco e temperos finos feitos por ela.

Outras vezes vou ao galinheiro mas as galinhas não me dão bola, só querem rações e milho. Mas volto parecendo uma criança feliz com os ovos nas mãos. No galinheiro também não encontrei a desaparecida inspiração.

Olho de soslaio para o canil. Não gosto de ver meus cachorros presos. Paçoca, Totó (apelido de Ernesto Guevara, guerrilheiro argentino/cubano) e Jara (homenagem ao grande poeta, músico, cantor e professor, Victor Jara, assassinado pela ditadura chilena de Pinochet em 1974). Solto-os à noite, aí é aquela confusão. Atualmente eles andam mais tranquilos. Já não destroem tanto minhas plantas.

Devo contar também que, de tanto procurar pela minha inspiração, criei um hábito de leitura que jamais pensei em fazê-lo, ou seja, estou lendo de quatro a cinco livros de uma só vez. A experiência tem sido genial. Os livros ficam empilhados no braço do meu sofá, e pequenos post its marcam as páginas que mais gostei ou que gostaria de revê-las ou trabalhá-las. Quando acabo de ler um, já tem outro no aguardo. Por ali também não encontrei minha inspiração.

Será que a coitada da minha inspiração ficou chorando ao lado do meu neto, lá no fim do mundo?

Não sabia mais onde procurar minha inspiração. Só me restou esperar por ela.

E, hoje, como um clarão, ela apareceu. Era mesmo preciso esperar porque ela não estava por aqui nem por lá. A inspiração me foi dada de presente pelas dezenas de amigas e amigos que me abraçaram e desejaram felicidades por ocasião do meu aniversário no último dia 3 de julho.

Muito obrigada a todas e todos vocês que me trouxeram de volta minha rebelde inspiração.


08/07/2026

Funil, Mário Campos, M.G.














                                   




































































                                        Meus filhos e eu...há muitos anos



                             Livros que estou lendo atualmente. Maravilhosos


              Flor de cera

terça-feira, 16 de junho de 2026

Poema: Copa do Mundo de Futebol - 2026

                              

“Eu sou brasileira
Com muito orgulho
Com muito amor”


Até bem pouco tempo
sabia os nomes de todos os onze jogadores titulares da Copa de Setenta

Mas, à medida que o tempo andava, eu crescia e
entendia as mazelas criadas pelo capital.
Então, dediquei o canto do meu coração canarinho às pessoas sem vez e voz

Hoje, numa copa em desatino,
busco de novo minha lembrança perdida,
encontro Sócrates, Falcão,
aplaudo nosso Rei-naldo,

Hoje sei o nome de apenas um jogador brasileiro:
aquele que cai em campo,
rola em milhões de dólares,
e do qual me recuso a escrever o nome

Mas lá, dou de cara com aquele governante
estúpido, mentiroso, ditador, medíocre,
Um senhor das guerras
que se aventura ao desejo de ser dono do mundo.

Saio de lá, onde nunca deveria ter entrado.
Junto-me àqueles que foram barrados, humilhados, interrogados
E beijo-lhes os pés.


12/06/2026


Fotografia: bandeira de Cabo Verde, em homenagem ao goleiro "Vozinha", à seleção Tubarões azuis e a toda nação cabo-verdiana. Hoje meu coração também é cabo-verdiana.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Crônica: Encontro com o filho





Já conversei bastante com meu filho sobre minha viagem de volta ao Brasil. Falei sobre a surpresa boa com o atendimento da empresa aérea, sobre o problema que enfrentei no gigantesco aeroporto de Guarulhos e meu desembaraço para resolvê-lo. Já conversamos e nos vimos através deste aparelhinho que tem tomado conta das nossas  vidas, das vidas alheias e, até,  derrubado políticos e candidatos. 


Pois bem, agora não é disto que quero falar, apesar do meu riso sarcástico sobre o novo filme “O Financiamento Secreto”. Deixemos isto para os graúdos resolverem. Agora quero falar de outras coisas. Quero falar dos detalhes que me acompanharam durante nossas infindáveis caminhadas pela cidade,  meu filho e eu. Pra começar, confesso que aceitava todos os convites do meu filho para caminhar, mesmo já tendo caminhado naquele dia e mesmo estando com meus quadris ferroando de tanta dor, eu ia. Jamais perderia um momento sequer para estar ao lado dele. Escutava-o falar sobre seus projetos de vida com a família, sobre seu trabalho atual,  sobre suas avaliações da política brasileira atual, suas assertivas sobre os ataques de Israel contra os palestinos e libaneses, sobre o  ataque dos EUA ao Irã, sobre a guerra  Rússia x Ucrânia, etc. Seu pensamento crítico,  sua inteligência e  a clareza de suas avaliações não me deixaram dúvidas do fato dele ser é um grande analista em ciências políticas nacionais e internacionais. Naqueles momentos eu só queria ficar em silêncio para absorver cada palavra dita de forma segura e lúcida. 


Outra hora eram meus joelhos que doíam, e doíam  muito. Então, sugeria a ele que sentássemos um pouco aproveitando uma sombra ou um banco bem colocado. Por duas ou mais ocasiões lhe perguntava se nosso tempo daria para dar uma volta naqueles espaços gigantescos. - Oh mãe, dá até para dar mais de duas voltas! Ele me respondia e dava um sorriso. E lá íamos nós. Ele caminhando com passadas largas e eu carregando minhas dores da bursite crônica do trocanter (fêmur) esquerdo, das patas de ganso dos dois joelhos e dos quadris. Jamais iria reclamar. Não perderia sua companhia por dor alguma. Eu não deixaria de aprender história, política, geografia, relações internacionais, conflitos mundiais, filosofia, e tantas outras coisas. Entretanto, nada disto me fora mais importante do que estar acompanhada por meu filho, de sentir amada e querida por ele. 


Um dia ele me disse que me levaria para uma caminhada num local diferente, como se  cada dia não fosse diferente e num local diferente. Naquele dia ele não foi ao trabalho. De carro ele me levou para regiões distantes da sua casa. Chegamos a um parque florestal. Logo vimos várias pessoas em famílias ou mesmo solitárias, caminhando por ali. Através de um painel ele escolheu qual trilha iríamos fazer. Ai, meu Deus! Uma caminhada morro acima! Inicialmente entre muitas árvores, daí a pouco começamos a subir numa trilha entre pedras. Vi uma mãe com um bebê amarrado no peito e outro filho, muito pequenino, caminhando ora na frente, ora atrás da mãe. Logo vi outras mães e outros bebês aconchegados a elas. 


Continuamos a subir e a olhar a cidade dos pontos mais altos. Eram minhas dores e eu em silêncio. De repente estávamos ao redor de pirambeiras de pedras. Isto aqui é a boca de um vulcão? Fiquei deveras impressionada com o que via. Estávamos na beirada de uma pedreira. E a boca,  do que  teria sido um vulcão, querendo nos engolir. No ponto mais alto, um mirante com um painel a nos dizer que tratava-se de uma pedreira de 7 milhões de anos, atualmente desativada. Toda a região havia se transformado no Halswell Quarry Park. (1). E, lá de cima, avistamos, ao longe, as monhanhas nevadas dos Alpes do Sul, do outro lado da cidade


Ainda, sob o efeito do que havia visto e, circundando a boca daquilo, começamos nossa descida, agora entre árvores e escadas de madeira e pedras. Então visitamos alguns jardins como o jardim  japonês, o jardim coreano e esculturas, como  presentes  das “seis cidades irmãs”, aquelas com as quais a cidade de Christchurch mantém relações amistosas. (2) 


Voltei para casa com a imagem daquela boca de pedra a me impressionar. 


Entretanto, o que mais me impressionou foi o carinho e a sensibilidade do meu filho junto a mim. 


Francisco, meu filho, eu te amo tanto que até doi. E doi mais que todas as minhas dores articulares juntas. 


Muitas saudades.


Brasil, 20/05/2026



Observações: - por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo. 

Fotografias: - Capa: Francisco e eu na despedida no aeroporto em Auckland.

- Demais fotos: arquivo pessoal


Notas:


(1)The story of Halswell Quarry Park, para caso você queira conhecer e se encantar com a história e os vídeos do Parque da Pedreira de Halswell


(2) Cidades irmãs: Adelaide (Austrália), Christchurch (Reino Unido), Kurashiki (Japão), Seattle (EUA), Songpa-gu -Seoul (Coreia do Sul), Wuhan (China)




Um ângulo da Pedreira




Outro ângulo





Francisco (flagrado)





                                          Presente de uma das "cidades irmãs" Seul?




              
                                                   Perigo - afaste-se




                               Foto de um painel com o mapa do Parque




                                  

                                                            Eu na trilha





No jardim japonês





Christchurch vista do alto. Lá no fundo vemos os Aples do sul nevados. (imagem do Facebook)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Diário da vovó 8/2: Em casa, a vovó só ficava...

 Em casa, a vovó só ficava…         

    …lendo




Espero que continuem comigo nestas viagens através das letras, das palavras e das histórias contadas por tanta gente ao redor do mundo. 


Vamos lá? 


Latim em Pó / Um passeio pela formação do nosso português, Companhia das Letras, de Caetano W. Galindo. 


Vejam o que nos diz Noemi Jaffe, escritora, professora e crítica literária sobre este autor:


“Não contente em ser um dos melhores tradutores do país, Caetano Galindo também nos presenteia com uma das melhores leituras da nossa língua, sua história, seus aspectos, e uso. Este livro é um passeio, uma navegação  pelo português e pelo Brasil.” 


Jamais poderia imaginar eu viajando por uma língua. Disse para meu filho que não estava conseguindo avançar na leitura porque queria guardar tudo que lia. Tudo aquilo era muito novo e eu achava tudo muito importante. Vai lendo mãe, depois você lê outra vez. Foi a recomendação do meu filho. Até hoje continuo lendo e relendo. Interessante demais. Então descobri que, na verdade, eu não queria perder nada do que este Caetano, tal qual o nosso Caetano Veloso, nos ensinava no livro. Senão vejamos na página 182:


“Apesar das adversidades, foi a língua falada por negros e mestiços que dominou o Brasil. Somos um país que fala português como fruto direto da presença negra.

Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da ‘última flor do Lácio’. O português brasileiro foi um broto africano, flor de Luanda.” (pag. 182)


“... E os milhões e milhões de mortos do passado, nossos antepassados nas estepes da Ucrânia, nas penínsulas da Ibéria e da Itália, nas terras germânicas do centro da Europa, na Arabia, no Magrebe, na Sibéria e nesta América, na África toda, inteirinha cortada pela cicatriz dos séculos de escravismo, Todas aquelas pessoas que um dia ergueram as vozes que nos deram o ‘céu’ (indo-europeu), ‘azul’ (persa), que nos desejaram ‘axé’ (fon), que nos moldaram o ‘barro’ (iberico) ou um ‘carro’ (celta) de ‘boi’ (latim), aqueles que por ‘azar’ (arabe) atravessaram ‘guerras’ (germânico), as maẽs que nos fizeram ‘pipoca’ (tupi)  e zelar por nossos ‘cochilos’ (banto).  (pag. 210)


Saber que a palavra azul veio do fasci/persa me fez gostar ainda mais do Irã com seu povo guerreiro, com sua história milenar, com o grande Império medo-persa dos reis Ciro,  Dario e Xerxes (550 a.c.). 


Gostaria de trazer  outras citações, mas meu texto ficaria ainda mais longo e ainda há mais livros por aqui.  








E chegou a vez de reler:


Vidas Secas, 120 Editora Record, Rio de Janeiro - São Paulo / 2013.


Havia lido este livro na minha adolescência, e agora como uma escolha da Tertúlia Literária de Betim. Excelente escolha. Aqui chorei outra vez, feito criança, com as histórias de Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Maior, o Menino Menor e a cachorra Baleia. Graciliano Ramos nos leva junto à família  numa peregrinação do viver a vida  sem ser vivida. A miséria escancarada num país rico de tudo. A seca matando e exercendo sua seleção natural.    


Agora lembrei-me de alguns professores, durante meu curso de medicina - em tempos sombrios da ditadura militar no Brasil - afirmarem/agourarem o futuro das crianças nordestinas, porque eles não ingeriam proteínas e vitaminas suficientes para formarem cérebros críticos e  pensantes. Contrariando todas estas profecias, o povo nordestino tem nos dado histórias gigantes nos campos social, político, cultural, educacional e tantos mais. Confesso que amo nosso nordeste com sua gente.


Enquanto escrevo, vou relendo algumas partes do livro com o fim de trazer-lhes um período ou um parágrafo para verem a beleza/tristeza do relato de Graciliano Ramos sobre a família que tenta sobreviver à seca e à miséria de um nordeste abandonado pelo poder público da época. Entretanto, todo o livro é maravilhoso, trago-lhes um pouco dele:


“Como é que sinhá Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando a gente via que era assim, mas sinhá Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano entendia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinhá Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo.”


      
     



Nunca fui uma boa estudante de história. Mas meus olhos brilharam aqui ao ver na estante uma pequena coleção juvenil de Química, Ciências, Matemática e História para meu neto, uma vez que o ensino daqui deixa muito a desejar. Obviamente que fui folheá-lo. Por muitos dias ele ficou ao lado da minha cama.(Gosto muito de ler sobre o imperador Romano, Júlio César.)

E já me deliciei com a história da formação da Inglaterra quando li vários livros do escritor inglês Bernard Cornwell. Amo as histórias das formações dos povos.


O livro é grande demais, mas, por vezes, ainda leio alguma coisa nele. (1)



                        







Mais um livro me chamou atenção, este sugerido por minha nora que o leu junto ao Dudu:


As vantagens de ser invisível, Editora Rocco Ltda, 1999, autor Stephen Chbosky.

No livro o jovem nos conta suas histórias, “mais íntimas do que um diário, as cartas de Charlie são estranhas, hilárias e devastadoras" . Sua cartas - diários nos deixam apaixonados por ele. Não sabemos quem é ele, onde mora, com quem vive, sua idade, etc. Entretanto é lendo que vamos descobrindo quem é Charlie.  O livro foi adaptado para filme, em 2012,  com o mesmo nome.


E Charlie nos diz: 


"Eu tive uma sensação na sexta à noite, ……..Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:

'Eu me sinto infinito'."


Num outro ponto ele nos diz:


“27 de maio de 1992


Querido amigo,


Fiquei lendo The Fountainhead nos últimos dias, e é um livro excelente. Estou lendo na capa que a autora nasceu na Rússia  e veio para os Estados Unidos quando era jovem. Ela falava mal o inglês, mas queria ser escritora. Acho que é uma pessoa admirável, então me sentei e tentei escrever uma história.


Ian MacArthur é um companheiro maravilhoso que usa óculos e os usa com deleite.’


Era a primeira frase. O problema foi que eu não consegui encontrar a segunda. Depois de limpar meu quarto três vezes, decidi deixar Ian em paz por um tempo, porque eu estava começando a ficar chateado com ele.”



                                     


Enquanto não tenho o PDF do próximo livro da Tertúlia, fico escarafunchando o segundo livro do Caetano W. Galindo, tomo um café com leite, pelando a língua, para espantar o frio de 8 graus daqui agora.

Na Ponta da Língua - Nosso Português da Cabeça aos Pés, Editora Companhia das Letras - 2025


Neste livro Caetano percorre o corpo humano através da língua portuguesa e vamos vendo e entendendo as interligações das várias origens do nosso idioma. Vejam por onde ele começa:


"Se você viajasse no tempo, até 7 mil atrás, e presenciasse uma conversa de um grupo de pastores nômades na região onde hoje fica a Ucrânia, talvez percebesse que estavam falando de um cavalo mas teriam poucas chances de entender algo do que diziam." 

 

Mais adiante ele continua:


"Esse idioma na linguística recebe o nome de protoindo-europeu não porque tenha qualquer coisa de imperfeito (proto-) nem porque fosse falado na Índia (indo-), mas por ser considerado a matriz de todo um tronco de idiomas que, esses sim, são falados desde a Inglaterra até Bangladesh, da Rússia a Itália. E isto porque os descendentes daqueles pastores que conversavam a respeito de um cavalo no início do capítulo acabaram se espalhando por um terreno gigantesco, ao longo dos 4 mil anos seguintes, determinando a paisagem  cultural, linguística e genética da Europa, da Pérsia e de boa parte do subcontinente indiano."


Numa outra passagem deste livro me diverti com o nome  philtrum dado ao pequeno canal entre o nariz e a boca quando o autor nos diz que:


"Aquele risquinho recebe o nome de uma poção mágica! Afinal, a raiz grega por trás  dessa versão da palavra, e também da mais comum filtro, tem ligação com o radical phileo - de amor. Na verdade, o sentido mais básico, mais antigo de filtro em português é poção do amor." 


E assim vou me divertindo com os livros. 





Agora é hora do Som do rugido da Onça, nosso próximo livro para o encontro da Tertúlia que acontecerá em maio.

Trago aqui algumas frases e passagens que considerei espetaculares:

“Ademais, todo castelo guarda em si túmulo e prisão.”

“O mundo é um pasto de maravilhas para quem tiver olhos de ver e alma para crer.
Eu em nada creio, sou um rio. Eu vou e volto, conheço o chão e o céu, compartilho a língua comum de todas as águas, atravesso o tempo. Morro e renasço. Engulo e regurgito. Sei dos animais tristes que são os homens.”




Também li o conto completo de Clarice Lispector, O Búfalo (2), e não quero deixar de trazer aqui um pequeno trecho dele que muito me colocou a pensar:

"Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, estava tudo preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia pedoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar."

Pois bem, ainda por arrumar as malas de volta para meu país, estou como as águas do rio da Onça, “Eu vou e volto”.  Meu neto já me intimou a voltar no seu aniversário de 13 anos. Acho que não terei coragem. As águas do grande Rio chamado Oceano Pacifico continuarão a me amedrontar. Tenho pra mim que, algum dia, ele vai cismar e regurgitar.

Obrigada a vocês que me acompanharam nesta viagem por lugares, livros, sentimentos e pensamentos. Muitos pensamentos.

Christchurch, N.Z., 08/05/2026






(1) Quero agradecer e homenagear nossa colega da Tertúlia Literária de Betim, Ana Claudia Gomes, historiadora com quem tenho aprendido muito durante as discussões dos livros escolhidos e lidos por nós. Ana Claudia tem enriquecido nossas discussões sobre os livros. Jamais esquecerei Dinamene.

                      



(2) Agradeço à colega e amiga Márcia Chagas que me enviou este conto, trabalhado na Oficina de Escrita da OAP em Belo Horizonte.