quinta-feira, 30 de julho de 2026

Escrita "nonsense": Dona Baratinha



Era uma vez uma tal dona Baratinha que cismou em querer representar, numa peça, o inseto da metamorfose. Tanto fez e refez que acabou ganhando o papel naquele programa kafkiano da noite do terror de segunda-feira. Comprou uma capa nova da dona Cascavel, incluindo o chocalho no final da cauda. Ficou assim, de morte. Guardou todo o veneno para desbaratar sobre os concorrentes caso não fosse classificada para o nobre papel. Entre os jurados estava o próprio dono daquele terrível livro famoso, que logo se apaixonou pela figura temerosa. Mas, a asquerosa concorrente, só não contava que entre os jurados estava Dom Casmurro que, muito desconfiado com aquele deleite entre os dois, preferiu aspergir Detefon na nojenta e transfigurar sua Capitu para o papel principal. 

Como dizia minha avó, o grande mentecapto matou dois coelhos duma cajadada só. Nada de baratas, nada de traição.

Assim como dizia Virgolino Lampião: "Não sou cangaceiro por vontade minha, mas pela maldade dos outros."

Observação: Esta escrita foi feita como dever de casa na Oficina de Escrita Criativa: Escrevivência, Junto à Casa de Cultura de Betim, em julho de 2026.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Crônica : A caderneta da minha mãe




Apesar de saber que minha mãe tinha uma letra linda, quase bordada e firme, raramente a vi escrever. Por uns tempos passei a vê-la desejando anotar números de telefone, datas de aniversários, receitas de alguns bolos - ela adorava fazer bolos - e outras coisas que ela precisava lembrar. Foi então que decidi dar a ela uma caderneta de anotações com os nomes em ordem alfabética, para anotar os números dos telefones assim como datas de aniversários. Mas nunca soube que fim ela deu no meu presente. E os ventos me sopraram para longe da minha mãe.

Muitos anos após sua morte a caderneta de capa carmim me encontrou. Fiz dela um tesouro e a trouxe comigo, escondida de outros olhares. Afinal ela só dizia respeito a mim, pensava eu. Hoje, quando tento localizar este meu tesouro, já não o encontro mais. Ainda agora estava enfurnada na minha biblioteca, por tantos anos improvisada, à procura de um livro. De repente me dei conta de que era aquele tesouro que eu procurava. Sentei no chão, exausta. “Amanhã voltarei a procurá-la”, foi o que pensei. Preciso, urgentemente, descobrir quem eram seus amigos, quem eram aqueles de quem ela queria se lembrar nos aniversários, quais aromas estariam nas suas receitas. Só agora percebo que busco saber quem era minha mãe, o que ela pensava, quais eram suas dores, quais foram suas decepções, o que sua fé encobria. Quem era minha mãe, afinal?

Lembro que, entre as páginas daquela sua caderneta, estavam ainda sua carteirinha do IPSEMG, nosso plano de saúde, em papelão fino sem foto, dentro de um plástico. O marido era servidor público, um orgulho para ela. Havia também um outro pedaço de papel ali. Fui eu quem o guardou. Deste não quero falar.

Quando ainda estava sob minha vista, virava e mexia e eu folheava aquele presente. Lembro que as anotações, em sua maioria, estavam escritas não com a letra dela, mas com minha letra. Constato agora que aquilo não fazia parte de seu tempo. Uma caderneta sofisticada com capa carmim definitivamente não fazia parte dos seus desejos. É isso, quando hoje faço questão de esquecer meu celular em algum lugar é porque ele não faz parte da minha época.

‘Inda agora, ao procurar uma foto para “enfeitar” esta crônica, assusto com uma mensagem do banco me avisando que uma compra com meu cartão de crédito fora recusada. Peço socorro para minha filha. Mãe, vejamos: se seu celular fosse um Android, tudo estaria nele. E, se você desse seu contato para alguém, ele poderia roubar todo seu dinheiro. Aliviei-me uma vez que não tenho todo seu dinheiro e ela continuou: já bloqueei seu cartão. (Nem sabia que meu celular não é um android. Credo em androids) Não precisa ficar conversando não, é tudo robô, continuou minha filha. E eu cá preocupada em ser deselegante com os robôs.

Pois bem, nestes tempos já adiantados da minha vida, quero tão só estar comigo e com meus pensamentos. Estes já me bastam uma vez que eles me levam para onde quero ir.

Voltarei amanhã para dizer se encontrei a caderneta carmim que dei de presente para minha mãe.


21/07/2026

domingo, 12 de julho de 2026

Poema: Amar - fazer-se verbo



      Daqueles que amei

      Trago comigo gestos

      Ainda  sinto

      um toque suave

      Ainda vejo

      um franzido na testa

      Um riso contido

      Ainda tenho a boca molhada

      dos beijos trocados


Daqueles que me amaram
     e que não amei

Trago comigo a solidão

A tristeza imensa 
 
que ainda me toma

Sei do olhar apagado

Da desesperança

Da busca desenfreada

Do adeus não dado


Daqueles que ainda amo

Já não trago nada

É outro o desejo erótico

Bastam as lembranças

que ainda me perfumam

Os olhares que ainda vejo

As palavras

Que ainda escuto


Gestos que me fizeram mulher


Funil, 12/07/2026


Fotografia: pequeninas flores de cravina, presente da minha netinha, Pérola

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Crônica: Por onde andará minha inspiração?

                             (*)Adoro tomar café aqui. Kero Bolo

Nas últimas semanas não tenho conseguido escrever. Abro gavetas, mexo e remexo em meus guardados, releio cartas antigas - amo minhas cartas - Na semana passada encontrei uma carta escrita por meu tio padre, parabenizando pela minha graduação em medicina, selada e datada em 21 de dezembro de 1981 conforme carimbo do correio. A letra é impecável. Mas nada de encontrar inspiração para escrever. Por onde andará essa danada?

Algumas vezes abro meu guarda-roupa e olho minhas roupas. Esta eu usei em tal lugar, aquela usei naquele encontro, esta foi comprada na feira da Avenida Paulista, quando fui lá com algumas amigas. Adoro sentir o perfume das peças lavadas por mim, é claro! Alguns segredos andam escondidos ou pendurados nas minhas roupas. Proibido falar! Ordeno a elas.

Assim, sem saber o que fazer, ando plantando e replantando flores e cuidando do meu jardim, Recentemente conheci uma apaixonada e entendedora das plantas. Já nos tornamos amigas. Ela tem me ensinado muito sobre a terra, as folhas caídas no outono, as florações, os frutos, a preparação dos canteiros e muito mais. Até me presenteou com chá das flores de hibisco e temperos finos feitos por ela.

Outras vezes vou ao galinheiro mas as galinhas não me dão bola, só querem rações e milho. Mas volto parecendo uma criança feliz com os ovos nas mãos. No galinheiro também não encontrei a desaparecida inspiração.

Olho de soslaio para o canil. Não gosto de ver meus cachorros presos. Paçoca, Totó (apelido de Ernesto Guevara, guerrilheiro argentino/cubano) e Jara (homenagem ao grande poeta, músico, cantor e professor, Victor Jara, assassinado pela ditadura chilena de Pinochet em 1974). Solto-os à noite, aí é aquela confusão. Atualmente eles andam mais tranquilos. Já não destroem tanto minhas plantas.

Devo contar também que, de tanto procurar pela minha inspiração, criei um hábito de leitura que jamais pensei em fazê-lo, ou seja, estou lendo de quatro a cinco livros de uma só vez. A experiência tem sido genial. Os livros ficam empilhados no braço do meu sofá, e pequenos post its marcam as páginas que mais gostei ou que gostaria de revê-las ou trabalhá-las. Quando acabo de ler um, já tem outro no aguardo. Por ali também não encontrei minha inspiração.

Será que a coitada da minha inspiração ficou chorando ao lado do meu neto, lá no fim do mundo?

Não sabia mais onde procurar minha inspiração. Só me restou esperar por ela.

E, hoje, como um clarão, ela apareceu. Era mesmo preciso esperar porque ela não estava por aqui nem por lá. A inspiração me foi dada de presente pelas dezenas de amigas e amigos que me abraçaram e desejaram felicidades por ocasião do meu aniversário no último dia 3 de julho.

Muito obrigada a todas e todos vocês que me trouxeram de volta minha rebelde inspiração.


08/07/2026

Funil, Mário Campos, M.G.














                                   




































































                                        Meus filhos e eu...há muitos anos



                             Livros que estou lendo atualmente. Maravilhosos


              Flor de cera