terça-feira, 31 de março de 2026

Diario da Vovó - 5 - "Oh! E agora, quem poderá me socorrer?"







- Eu te falei! Meus filhos já falam que eu não posso falar nada, que acontece…

Não fosse essa profecia da minha irmã, que vive dando gostosas gargalhadas, nada disto teria acontecido. Fiquei imaginando suas risadas a contar e recontar meus dramas neste fim de mundo. Ainda bem que só contei um deles. O outro só contarei para vocês que, certamente, não tripudiarão sobre minhas desventuras. Espero.

Cheguei aqui numa quinta feira, por volta das 23:30 horas.

Depois de muitos abraços, de um bom banho, de um delicioso lanche e de me emocionar muito com meu neto, fomos dormir. Acordei na manhã seguinte sozinha dentro de casa do outro lado do planeta. Uma mensagem do meu filho, no celular, me dizia que eu ficasse à vontade e que ele voltaria do trabalho às quinze horas, com o Dudu.

Após nosso café do sábado saímos para caminhar numa trilha margeando o Rio Heathcote, algumas encruzilhadas, muitas árvores e muita gente pra lá e pra cá com seus cachorros ou mesmo sozinhas. Conversamos muito para matar nossas saudades. No domingo saímos para a festa da chegada do ano novo chinês. Ano do cavalo de fogo.

Mas, na segunda-feira, toda dona de mim, saí para a tal trilha. Eis que voltando da distinta, entrei numa encruzilhada errada e saí numa rua desconhecida. Sem me preocupar, comecei a caminhar pelas ruas. Sempre me considerei uma especialista quanto às localizações olhando para os pontos cardeais. O sol nasce alí, então alí é o leste. (Confesso que já me perdi muito nas grandes cidades e rodovias). Entendi o que é andar em círculos, não numa selva, mas em meio às ruas, todas iguais. Não encontrei o caminho de volta. Saí na famosa e gigante Colombo St. Estou em casa. Pensei eu. Foi inevitável não guardar este nome de uma rua na Nova Zelândia. Já havíamos transitado por ela. Andei… andei… e sempre saindo no mesmo lugar. Nem uma alma viva nas ruas. Na minha timidez não me atreveria a comunicar no meu inglês.

Eis que avistei um homem num ponto de ônibus. OH, my god, help me

- Please. I’m lost. Help me. Where is Barrington St?

Ele, muito solícito, danou a me explicar onde ficava tal rua. Eu olhava perplexa. Só entendi que ele já havia terminado as explicações quando ouvi “Good luck.”

(Nesta hora lembrei da minha professora de inglês que tanto trabalhou comigo as expressões de direções de ruas numa cidade.)

Eu estava, deveras, perdida embora não tenha me dado por perdida. Continuei andando. Minha bursite trocantérica começou a doer. Meus quadris dançavam dois pra lá dois pra cá. Eu continuei andando até que resolvi pedir socorro para meu filho. Que ele viesse me resgatar. Mas onde eu estou? Nenhuma placa de rua. Do lado esquerdo casas em meio a morros, sem numeração. Do lado direito, onde eu caminhava, apenas grandes placas escritas com o número 35 ou escritas com a palavra ahead. Arreda pra onde? Eu me perguntava. Precisava encontrar o nome da rua, ou rodovia ou seja lá o que fosse aquele caminho. 

De repente, no meio da montanha vejo uma casa lá em cima do morro que eu já vinha namorando, vistosa entre tantas construções do mesmo nível. Caminhei olhando para a tal mansão e quase bati com a cabeça num poste. Parei e olhei o poste. Bem em cima da minha cabeça, a placa Barrington St.

Minha mania de olhar casas havia me salvado.

(Vou deixar para a próxima semana a história do outro vexame, mancada ou manota.)


31- 03 - 2026



Registros fotográficos: pelas ruas e trilhas da cidade de Christchurch.

Observação: devo creditar ao meu neto, Eduardo, a viabilidade desta postagem. Nao fosse ele e eu nao conseguiria fazê-la uma vez que o computador do pai dele esta sem algumas teclas.

Pedido: Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.





Placa sinalizadora




                                   
                                        Patos no Rio



                                   
                             Um pedacinho da trilha






Casa e placa salvadoras





Eu nas trilhas






                                                      
                               Minha irmã Profetisa brejeira






Nome do rio na língua Maori e em Inglês (línguas oficiais da Nova Zelândia. 

                                               

segunda-feira, 30 de março de 2026

haikats(em inglês)




soft flames flicker bright
whiskers sway in warm ember
silent night's fierce glow

when a cat is startled
it leaps around like crazy
screaming its head off
Christchurch, 30/03/26


firecat
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terça-feira, 24 de março de 2026

Poema: Broto de Luanda


Cá estou

Em ilhas terras remotas

de cores mil

Línguas diferentes

Corpos tatuados

em sabedorias


 estou 

Frio com ventos cortantes

Peles brancas, amarelas e

pretas



Cá estamos

Hoje teve carnaval

Música brasileira

Disritmia

Em ritmo de samba

Passantes nas ruas

Param

Para verem e ouvirem 

Tentam o batuque

nas mesas dos bares
 


Brasil enfeita tudo

tem língua “broto de Luanda”

Lá e cá deixo metade de mim


22/03/2026


Titulo em homenagem ao livro "Latim em Pó" de Galindo Caetano


Registro fotográfico: Margaridinhas azuis ( Jardim Botânico de Christchuruch/ Nova Zelândia)


quinta-feira, 19 de março de 2026

Diário da vovó 4: Tia Clarice em apuros no sítio

                                 


 

Com muitas saudades das filhas, a vovó Zarinha resolveu ligar para o Brasil. Queria saber como andam as modas na sua casa. (Ainda bem que hoje tem essas modernidades de whatsapp). Assim que Clarice apareceu na telinha do celular, a vovó percebeu que ela estava toda molhada e foi logo perguntando:

-O quê houve, minha filha? Estava nadando?

-Que nada; fui resgatar uma galinha. Respondeu ela.

Então Tia Clarice começou a contar o drama com a galinha presa no entremeio das duas telas.
Pela manhã ela havia pedido ao nosso querido Cornélio que deixasse as galinhas soltas porque, além da cobra coral encontrada próxima a máquina de lavar roupas, as plantas indesejadas cresceram muito e há sempre o perigo dos escorpiões.

-Elas voltam para os poleiros no final do dia. É só contar. Elas são oito.  Explicou nosso ajudante.

Mas as chuvas não deram trégua no final da tarde. Mesmo assim, Tia Clarice, ciente da sua obrigação, foi lá contar as galinhas e fechar o galinheiro.

Está faltando uma! Constatou ela

Tia Clarice encontrou a coitada presa entre as duas telas conforme a vovó Zarinha havia pedido ao Cornélio, para evitar que os cachorros abocanhassem as distintas aves. Ela tentou uma, duas, várias vezes e a galinha não dava sinais de conseguir sair dali. De repente Theo, aquele seu cachorrinho que andava arrastando as patinhas traseiras e, que tanto ela fez, que o danadinho voltou a andar direito, entrou no galinheiro já todo molhado. Ela subiu de volta até a casa para prender o fujão. Mais chuvas nas costas, no rosto, nos cabelos…

A dona da casa da vez, Tia Clarice, voltou ao galinheiro para tentar soltar a coitada ainda presa. Desta vez encontrou o Boy, que é seu outro cachorrinho, abocanhando a penada, tirou-o dali e levou-o de volta até a casa. Voltou a cena da aprisionada e, finalmente, conseguiu afrouxar um lado da tela. Nada da distinta sair dali.

Devo contar que Tia Clarice, nada afeita às tarefas exigidas no sítio nunca havia entrado no galinheiro, nem para apanhar os deliciosos e nutritivos ovos vermelhos.

- Mãe, ela nem se mexeu. Parece que nem viu o buraco na tela que fiz para ela sair. Me esperou tirá-la de lá.

- Clarice, qual galinha é esta ? A dona das galináceas perguntou.

Diante da resposta, a vovó Zarinha, conhecedora de suas galinhas, soube tratar-se daquela que foi doada pelo Cornélio que sentia nervoso quando via a pobre coitada balançar a cabeça de um lado para outro ao ciscar o chão. Então, rindo do lado de cá, a vovó respondeu assim:

- Clarice, esta galinha é cega de um olho!


19/03/2026

Por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo.

Registros fotográficos: (entardecer no sitio) arquivo pessoal

                     
Galinha caipira

]
                                  Galinha isabrown ou Embrapa



Jacu visitando o terreiro

                         Theo e Boy do meu lado

                          Theo

                                    Boy






terça-feira, 10 de março de 2026

Diário da vovó 3: Muitas aventuras

                             


Não pensem que foi fácil arrastar malas pelo aeroporto internacional de Auckland até o aeroporto doméstico que fica do lado de fora. Não fosse minha nora puxando a mala pesada pela extensa faixa verde, sob uma chuva fina, fria e com muita ventania, eu estaria perdida. Mas tudo valeu a pena ao ver meu neto me receber brincando de pique-esconde pelo saguão do aeroporto da cidade de Christchurch. Parecíamos duas crianças correndo desvairadas. Naquela hora, éramos duas crianças saudosas de abraços e de muitas brincadeiras.
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Estou por aqui há duas semanas. 

No primeiro final de semana fomos à biblioteca central do município. Entre vários espaços e livros, muitas pessoas lendo sentadas em confortáveis poltronas, outras tantas pegando ou devolvendo livros, muitas mães com seus pequenos circulando por todos os cantos. 

O prédio tem quatro andares interligados por um átrio central, com  belas escadas e elevadores de acessibilidade. No andar para a criançada havia vários outros espaços para contação de histórias, vestuários para encenações, estantes baixas para que cada criança pudesse escolher seus livros e terminais de computador para fazerem as transações desejadas. Pude ver crianças asiáticas, muitas delas chinesas, tantas outras indianas ou do Sri-Lanka, como disse meu filho. No quarto andar havia salas para várias oficinas, uma de costura, crochê e tricô, outra de computação, de robótica, etc. Saí dali encantada, mas entristecida ao pensar nas crianças carentes do meu Brasil ou, até mesmo, crianças da classe média.

No domingo, dia 17, fomos ver um amigo do meu neto desfilar na abertura do ano novo chinês, o ano do cavalo de fogo. Muitas cores, muitos cavalos, dragões, mascarados e uma charanga tocando músicas chinesas. O desfile terminou numa praça envolta pelo famoso rio Avon. Adorei ver a criançada chinesa participando do evento.

Porque a fome chegou fomos almoçar no mercado e, ao acaso, sentamos defronte a um restaurante argentino. Comida grega cheia de folhas e iogurtes envolvida numa massa de pão como um sorvete.

A seguir caminhamos ao longo do rio Avon com suas margens arborizadas  por inúmeras árvores de  bordos (árvore nativas da Coreia do Sul e do Japão, cujas folhas lembram o carvalho e, que no outono ficam da cor do vinho tinto). 

Papai esta é aquela folha? Dudu agacha e apanha a tal folha. Uma folha de Ginko, lembrou-lhe seu pai. A tal folha, segundo meu neto, pertence a uma árvore que tem  vivido desde a época dos dinossauros. Chegando em casa me mostra seu livro sobre a evolução da Terra com suas plantas e animais das correspondentes eras terrestres. Fiquei pasmada com esta informação. (Lembrei do medicamento Ginkgo biloba que muitas vezes prescrevi conforme fui orientada por colegas da clínica médica, da homeopatia e da geriatria)

Meu neto, às vezes, vem devagarinho encostando e sentando no meu colo enquanto escrevo ou enquanto estamos conversando ao redor da mesa. Nesses momentos sinto-me no céu.

                 Vovó Zarinha
 
Observação: meu neto fez as mudanças no layout do meu blog  e sua a mãe fazendo um posterior ajuste. Espero que tenham gostado.

Registros ¨fotográficos": aprendi com nosso saudoso Sebastião Salgado que o celular apenas registra aquilo que queremos enquanto a máquina  faz a fotografia.

- Por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo.



Folha de Ginko


Worcester Boulevard


Restaurante Argentino




Rio Avon








Ano Novo Chinês


Afinal é o ano do Cavalo


Folha do livro do meu neto em que mostra a folha de Ginko ao lado de dinossauros

27/02/2026

quarta-feira, 4 de março de 2026

Crônica: Zona da Mata, meu Amor.


Tenho acompanhado, mesmo que do outro lado do mundo, a tragédia abatida sobre cidades da zona da Mata Mineira em decorrência das intensas chuvas da semana passada. Quero lembrar que tais efeitos climáticos poderiam ser evitados se não houvesse tantos negacionistas espalhados pelo mundo que, com suas bases nada científicas, vêm provocando o aquecimento global. Mas não é disso que pretendo falar.

Quero falar do meu amor pela região onde nasci. Quero falar das minhas raízes fincadas em Brás Pires, cidadezinha próxima a Ubá, a Senador Firmino, tão destruídas pelas águas. Não “são as águas de março fechando o verão”, foram as águas fechando o fevereiro e levando consigo vidas dos morros pobres de Juiz de Fora e sonhos de uma gente trabalhadora e sofrida. Quero dizer que sofri junto com cada pessoa que ficou ilhada, com cada pessoa que perdeu seu familiar. Chorei com as terríveis cenas de horror e destruição. Vi a prefeita, Margarida Salomão, chorando e chorei com ela. Assisti ao desespero do prefeito de Ubá, José Damato Neto, e me desesperei em pranto com ele também.

Pensei na fúria do rio Paraibuna despejando suas águas lamacentas no rio Paraíba do Sul e, ainda, podendo assustar ribeirinhos por lá.

Aprendi a amar as cidades por onde fui vivendo. Entendi que todas elas são irmãs, são vivas, são pungentes e que, cada uma, tem suas histórias, seus conflitos e seus sonhos.

A cidade de Ubá guarda histórias da minha infância; guarda o delicioso sabor da manga-Ubá; a cidade que até hoje acolhe moradores de Brás Pires que vão em busca de trabalho, em busca de assistência em saúde; pessoas que passam por lá em direção a Juiz de Fora, São Paulo ou Rio de Janeiro. Ubá que guarda meu grande “amigo-irmão” e colega de profissão com sua família. Ubá da quentura de verão.

À cidade de Juiz de Fora devo minha formação médica pela UFJF. Ali vivi sete anos da minha juventude. Ali conquistei bolsa de estudos para o terceiro ano integrado ao cursinho. Ali morei em vários bairros sempre procurando locais mais baratos.

Ali fiz amizades e tenho afilhados de casamento. Juiz de Fora do Cristo Redentor abençoando a cidade aos seus pés, eu te amo.

Mas chorei também quando vi as inúmeras ações cidadãs de socorro vindas de tantos lugares e tantas pessoas. Vi moradores de Brás Pires fazendo sanduíches e recebendo doações para serem levadas a Ubá como agradecimento pelo tanto que aquela cidade tem sido maternal com nossa população. Vi o prefeito de Brás Pires, (meu querido sobrinho Dominguinhos) disponibilizando máquinas pesadas, caminhões e trabalhadores para socorrer sua irmã, Ubá.

Não vamos subestimar a força da natureza. Ela vem cobrando as constantes agressões do homem. Como bem disse nosso ambientalista e indígena, Ailton Krenak, a terra é nossa casa comum, a ela devemos nossas vidas.

Abraço carinhosamente os familiares que perderam seus entes queridos, abraço a todos e todas que vêm socorrendo as cidades atingidas.

Agora meu coração parece um pouco mais aliviado. Que março nos traga novas vidas e esperanças.

05 de março de 2026