Já conversei bastante com meu filho sobre minha viagem de volta ao Brasil. Falei sobre a surpresa boa com o atendimento da empresa aérea e sobre o problema que enfrentei no gigantesco aeroporto de Guarulhos com meu desembaraço para resolvê-lo. Já conversamos e nos vimos através deste aparelhinho que tem tomado conta das nossas vidas, das vidas alheias e, até, derrubado políticos e candidatos.
Pois bem, agora não é disto que quero falar, apesar do meu riso sarcástico sobre o novo filme “O Financiamento Secreto”. Deixemos isto para os graúdos resolverem. Agora quero falar de outras coisas. Quero falar dos detalhes que me acompanharam durante nossas infindáveis caminhadas pela cidade, meu filho e eu. Pra começar, confesso que aceitava todos os convites do meu filho para caminhar, mesmo já tendo caminhado naquele dia e mesmo estando com meus quadris ferroando de tanta dor, eu ia. Jamais perderia um momento sequer para estar ao lado dele. Escutava-o falar sobre seus projetos de vida com a família, sobre seu trabalho atual, sobre suas avaliações da política brasileira atual, suas assertivas sobre os ataques de Israel contra os palestinos e libaneses, sobre o ataque dos EUA ao Irã, sobre a guerra Rússia x Ucrânia, etc. Seu pensamento crítico, sua inteligência e a clareza de suas avaliações não me deixaram dúvidas do fato dele ser é um grande analista em ciências políticas nacionais e internacionais. Naqueles momentos eu só queria ficar em silêncio para absorver cada palavra dita de forma segura e lúcida.
Outra hora eram meus joelhos que doíam, e doíam muito. Então, sugeria a ele que sentássemos um pouco aproveitando uma sombra ou um banco bem colocado. Por duas ou mais ocasiões lhe perguntava se nosso tempo daria para dar uma volta naqueles espaços gigantescos. - Oh mãe, dá até para dar mais de duas voltas! Ele me respondia e dava um sorriso. E lá íamos nós. Ele caminhando com passadas largas e eu carregando minhas dores da bursite crônica do trocanter (fêmur) esquerdo, das patas de ganso dos dois joelhos e dos quadris. Jamais iria reclamar. Não perderia sua companhia por dor alguma. Eu não deixaria de aprender história, política, geografia, relações internacionais, conflitos mundiais, filosofia, e tantas outras coisas. Entretanto, nada disto me fora mais importante do que estar acompanhada por meu filho, de sentir amada e querida por ele.
Um dia ele me disse que me levaria para uma caminhada num local diferente, como se cada dia não fosse diferente e num local diferente. Naquele dia ele não foi ao trabalho. De carro ele me levou para regiões distantes da sua casa. Chegamos a um parque florestal. Logo vimos várias pessoas, famílias ou solitárias, caminhando por ali. Através de um painel ele escolheu qual trilha iríamos fazer. Ai, meu Deus! Uma caminhada morro acima! Inicialmente entre muitas árvores, daí a pouco começamos a subir numa trilha entre pedras. Vi uma mãe com um bebê amarrado no peito e outro filho, muito pequenino, caminhando ora na frente, ora atrás da mãe. Logo vi outras mães e outros bebês aconchegados a elas.
Continuamos a subir e a olhar a cidade dos pontos mais altos. Eram minhas dores e eu em silêncio. De repente estávamos ao redor de pirambeiras de pedras. Isto aqui é a boca de um vulcão? Fiquei deveras impressionada com o que via. Estávamos na beirada de uma pedreira. E a boca, do que teria sido um vulcão, querendo nos engolir. No ponto mais alto, um mirante com um painel a nos dizer que tratava-se uma pedreira de 7 milhões de anos, atualmente desativada. Toda a região havia se transformado no Halswell Quarry Park. (1). E, lá de cima, avistamos, ao longe, as monhanhas nevadas dos Alpes do sul, do outro lado da cidade
Ainda, sob o efeito do que havia visto e, circundando a boca daquilo, começamos nossa descida, agora entre árvores e escadas de madeira e pedras. Então visitamos alguns jardins como o jardim japonês, o jardim coreano e esculturas, como presentes das “seis cidades irmãs”, aquelas com as quais a cidade de Christchurch mantém relações amistosas. (2)
Voltei para casa com a imagem daquela boca de pedra a me impressionar.
Entretanto, o que mais me impressionou foi o carinho e a sensibilidade do meu filho junto a mim.
Francisco, meu filho, eu te amo tanto que até doi. E doi mais que todas as minhas dores articulares juntas.
Muitas saudades.
Brasil, 20/05/2026
Observações: - por favor, deixe seu nome no final do comentário caso queira fazê-lo.
Fotografias: - Capa: Francisco e eu na despedida no aeroporto em Auckland.
- Demais fotos: arquivo pessoal
Notas:
(1)The story of Halswell Quarry Park, caso você queira conhecer e se encantar com a história e os vídeos do Parque da Pedreira de Halswell
(2) Cidades irmãs: Adelaide (Austrália), Christchurch (Reino Unido), Kurashiki (Japão), Seattle (EUA), Songpa-gu -Seoul (Coreia do Sul), Wuhan (China)
Outro ângulo
Francisco (flagrado)
Presente de uma das "cidades irmãs" Seul?
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