Botamos o pé na estrada para Confins, minha filha na direção do Toyota. Uma cratera aberta na MG 10 foi nossa preocupação. Tudo mais ou menos tranquilo. Meu coração já antecipava o que eu enfrentaria nos aeroportos gigantes.
Cheguei em São Paulo com a assistência especializada conforme pedidos dos meus filhos. Um carro muito esquisito, parecendo tanque de guerra, todo em ângulo reto, levou-nos, duas turistas mais velhas do que eu, uma jovem com sério problema de saúde e eu. Depois de andar muito por entre aviões e serviços de manutenção, o esquisito nos deixou num espaço vazio, atrás das esteiras rolantes de bagagens. “Daqui a pouco os assistentes virão pegar vocês”, nos garantiram eles. Ninguém apareceu. Ficamos alí até que o marido da jovem apareceu para resgatá-la. Fui atrás, pegando carona no resgate. O tempo se esgotava rápido e eu corria rápido. Encontrei meu portão de embarque, número 32.
Adorei o delicioso lanche oferecido pela companhia aérea no trajeto para Santiago. Alí ficaria por oito horas até meu próximo destino, Auckland. Não me desesperei. Queria entender o aeroporto e fiquei procurando os painéis eletrônicos para saber onde eu estava. Agora seria sentar e esperar. Enquanto aguardava, fiz longas caminhadas para esticar minhas pernas e ver tudo em volta. Era madrugada. Outra hora, lia meu livro “O Penhoar Chinês” da autora juizforana, Raquel Jardim, que eu não conhecia e, com o qual, me identificava a cada página.
Ao enviar mensagem no pequeno grupo da minha família, percebi que o wi-fi do aeroporto não funcionava. Tentei outras vezes e nada. A partir daí era eu sozinha. Sem as orientações do filho e das filhas pelo whatsapp.
Mais tarde iria me dar conta que só então que me senti livre e leve para continuar minha viagem. Sentei num restaurante e pedi meu café da manhã. Ainda eram seis horas da manhã. “Como pagar?” Havia esquecido deste detalhe. Perguntei, em português, para a trabalhadora. Não tinha o dinheiro local. Paguei com uma nota de dólar guardada quando da minha viagem a Cuba, há dois anos. Ri de satisfação, como uma criança, que faz sua primeira compra na padaria.
O painel eletrônico dizia que o portão do meu voo só seria informado às 10:30 h. Procurei um lugar tranquilo, sentei e esperei de novo. Eu reparava a estrutura física daquele aeroporto por onde havia andado por vários espaços. Depois, minha nora arquiteta, vai me dizer que ele se parece com uma aranha. Exatamente.
“Portão F a 3 minutos” do local onde eu estava indicou o painel ao meu lado. Ótimo. Arrastei minhas bolsas até lá e já comecei a procurar brasileiros que falavam inglês fluentemente para me ajudarem na polícia de imigração. Conversei com uma jovem, chilena, que tentou me ajudar. Impossível conversarmos em três idiomas diferentes. Agradeci o esforço dela em tentar me ajudar. Uma senhora, ouvindo nossa conversa, me disse, em espanhol, que o marido dela era fluente em inglês. Trouxe o marido que eu entendia menos ainda, mas fiquei feliz quando me disseram que eram cubanos e estavam indo para Auckland conhecer a netinha de dois meses. Disse-lhes do meu carinho e respeito pela resistência do povo cubano, disse também que havia ido lá recentemente e que havia conhecido a belíssima região montanhosa de Pinar del Rio. Eles me disseram que eram moradores daquela região.
Então, outra jovem ali por perto, ouvindo nossa conversa, se apresenta como brasileira, moradora na mesma cidade para onde eu estava indo, Christchurch, na Ilha Sul da Nova Zelândia. Respirei aliviada quando ela me disse que me acompanharia pela imigração. Conversa vai, conversa vem, ela lembrou que já havia conversado com minha nora pelo celular, passando receita de paçoca caseira.
Ouvi várias histórias da vida dela enquanto trabalhadora da educação em Montes Claros. Contou como se deu sua emigração para aquele país, a nação mais remota do do mundo. Respondeu à minha curiosidade sobre o casamento da sua mãe brasileira com um jovem neozelandês há cinquenta anos e o seu próprio casamento com um também neozelandês. De repente chegou o marido e, em tom de brincadeira, perguntou se ela estava fazendo terapia comigo. Nesse momento eu me apresentei e disse ser psiquiatra. Todos rimos.
O portão foi aberto. Entramos no avião para mais treze horas de viagem. Até o fim do mundo onde meu neto me receberá com um afetuoso abraço. Quando passamos, tranquilamente, pela imigração, atravessamos imensos espaços kiwis, logo vi o sorriso da minha nora que me aguardava para o próximo voo, Christchurch.
Christchurch, 13/02/2026

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