segunda-feira, 17 de março de 2025

Pequena crônica: Anistiei-me


                                           

Extasiado pela viagem, ele chegou. Correu ao meu encontro. Quase havia me esquecido do tom de sua voz. Seus cabelos, às vezes ruivos, brilhavam sob a luz da madrugada. Não sabia mais do seu olhar. Sabia do seu amor.

Assim que chegou foi-se reabastecendo das coisas que havia deixado para trás. Amigos, sabores, folguedos, histórias, muitas histórias ao adormecer.

Eu não conseguia acompanhar tanto amor. Antevendo a dor de mais uma partida, ensimesmei. Fugi para dentro de mim. Era preciso proteção.

Ora ele ria, ora ele brincava. A piscina foi a novidade. Amante da água assim como eu, ele nadava, nadava e nadava. Deu grandes pulos para dentro do meu coração.

Desconhecendo o acontecido, eu o prendi dentro de mim. Soltá-lo já não foi possível. Crescia dentro de mim como uma semente a germinar. Tomou todo meu ar. Sufocou-me no sem ar.

Tentei em vão tirá-lo de dentro de mim. Sabia do risco daquela junção.

Entretanto, embora ficasse preso no meu peito, seu corpo se foi mais uma vez. Chorei todos os choros do mundo. Adoeci. Longas noites com o peito cheio. Cheio do meu neto. Rezas, medicamentos, emplastos. Eu continuava sufocada com meu neto alojado no meu peito.

Pedi aos anjos e arcanjos para que, de onde estivesse, ele também se libertasse de mim. Era preciso novos voos.

Até que, como um raio de luz, anistiei-me de todo aquele amor.

Ontem ao telefone:
- Vovó , vê se não some, viu?

17/03/2025

Fotografia: arquivo pessoal. Meu neto e eu lendo no meu último dia em Nova Zelândia, novembro de 2023.

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quarta-feira, 12 de março de 2025

Fábula: Latões

                             


Foi assim: vivíamos felizes no nosso reino encantado onde tudo que se se plantava se colhia, até que um dia...

Um dia tiveram grandes olhos gordos sobre nossa felicidade. Quiseram o segredo da vida daquele reino encantado.

Então invadiram nossas terras. Levaram nossas frutas e nos trouxeram coca-cola. Trocaram nossas palavras como pão com queijo por sanduiche, quitandas por cookies e tantas outras. Vestiram-nos de calças lee e nos fizeram dançar o rock and roll.

Depois aquele povo, que tudo de nós levou, passou a enviar leite em pó em latões para alimentar os pobres do nosso reino que havia sido encantado.

Nos latões havia emblemas daquele outro reino que nunca havia sido encantado, e onde se lia “aliança para o progresso”.

O leite daqueles latões estava envenenado. Adoeceram as cabeças das crianças e aprisionaram lhes os sonhos.

Aquele reino desencantado continuou invadindo outros reinos e roubando sua gente.

Ninguém me contou. Eu estva lá. Eu vi tudo.

Agora ouço dizer que querem tomar outros reinos encantados.




Observação: Este texto foi construído ontem, durante a Oficina de Escrita ministrada pelo poeta e escritor mineiro, Ronald Claver, que sugeriu que escrevêssemos apenas uma palavra. A partir dela deveríamos escrever outras palavras e, depois, construir um texto com as palavras


LATÕES:

Sujeira, resto, carne de lata, “aliança para o progresso”, EUA, ditadura, golpe, fome, miséria, Judas, império, decadência, estilo de vida, riqueza, colonialismo, predador, animal, ignorância, idiota, capital.

Belo Horizonte, 12/03/2025

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