sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Diário da Vovó - 2 - Livre, leve e solta.



Botamos o pé na estrada para Confins, minha filha na direção do Toyota. Uma cratera aberta na MG 10 foi nossa preocupação. Tudo mais ou menos tranquilo. Meu coração já antecipava o que eu enfrentaria nos aeroportos gigantes.


Cheguei em São Paulo com a assistência especializada conforme pedidos dos meus filhos. Um carro muito esquisito,  parecendo tanque de guerra, todo em ângulo reto, levou-nos, duas turistas  mais velhas do que eu, uma jovem com sério problema de saúde e eu. Depois de andar muito por entre aviões e serviços de manutenção, o esquisito nos deixou num espaço vazio, atrás das esteiras rolantes de bagagens. “Daqui a pouco os assistentes virão pegar vocês”,  nos garantiram eles. Ninguém apareceu. Ficamos alí até que o marido da jovem apareceu para resgatá-la. Fui atrás, pegando carona no resgate. O tempo se esgotava rápido e eu corria rápido. Encontrei meu portão de embarque, número 32.


Adorei o delicioso lanche oferecido pela companhia aérea no trajeto para Santiago. Alí ficaria por oito horas até meu próximo destino, Auckland. Não me desesperei. Queria entender o aeroporto e fiquei procurando os painéis eletrônicos para saber onde eu estava. Agora seria sentar e esperar. Enquanto aguardava, fiz longas caminhadas para esticar minhas pernas e ver tudo em volta. Era madrugada. Outra hora, lia meu livro “O Penhoar Chinês” da autora juizforana, Raquel Jardim, que eu não conhecia e, com o qual, me identificava a cada página. 


Ao enviar mensagem no pequeno grupo da minha família, percebi que o  wi-fi do aeroporto não funcionava. Tentei outras vezes e nada. A partir daí era eu sozinha. Sem as orientações do filho e das filhas pelo whatsapp.


Mais tarde iria me dar conta que só então que me senti livre e leve para continuar minha viagem. Sentei num restaurante e pedi meu café da manhã. Ainda eram seis horas da manhã. “Como pagar?” Havia esquecido deste detalhe. Perguntei, em português, para a trabalhadora. Não tinha o dinheiro local. Paguei com uma nota de dólar guardada quando da minha viagem a Cuba, há dois anos. Ri de satisfação, como uma criança, que faz sua primeira compra na padaria. 


O painel eletrônico dizia que o portão do meu voo só seria informado às 10:30 h. Procurei um lugar tranquilo, sentei e esperei de novo. Eu reparava a estrutura física daquele aeroporto por onde havia andado por vários espaços. Depois, minha nora arquiteta, vai me dizer que ele se parece com uma aranha. Exatamente. 


“Portão F a 3 minutos” do local onde eu estava indicou o painel ao meu lado. Ótimo. Arrastei minhas bolsas até lá e já comecei a procurar  brasileiros que falavam  inglês fluentemente para me ajudarem na polícia de imigração. Conversei com uma jovem, chilena, que tentou me ajudar. Impossível conversarmos em três idiomas diferentes. Agradeci o esforço dela em tentar me ajudar. Uma senhora, ouvindo nossa conversa, me disse, em espanhol, que o marido dela era fluente em inglês. Trouxe o marido que eu entendia menos ainda, mas fiquei feliz quando me disseram que eram cubanos e estavam indo para Auckland conhecer a netinha de dois meses. Disse-lhes do meu carinho e respeito pela resistência do povo cubano, disse também que havia ido lá recentemente e que havia conhecido a belíssima região montanhosa de Pinar del Rio. Eles me disseram que eram moradores daquela região. 


Então, outra jovem ali por perto, ouvindo nossa conversa, se apresenta como brasileira, moradora na mesma cidade para onde eu estava indo, Christchurch, na Ilha Sul da Nova Zelândia. Respirei aliviada quando ela me disse que me acompanharia pela imigração. Conversa vai, conversa vem, ela lembrou que já havia conversado com minha nora pelo celular, passando receita de paçoca caseira.


Ouvi várias histórias da vida dela enquanto trabalhadora da educação em Montes Claros. Contou como se deu sua emigração para  aquele país, a nação mais remota do do mundo. Respondeu à minha curiosidade  sobre o casamento da sua mãe brasileira com um jovem neozelandês há cinquenta anos e o seu próprio casamento com um também neozelandês. De repente chegou o marido e,  em tom de brincadeira,  perguntou se ela estava fazendo terapia comigo. Nesse momento eu me apresentei e disse ser psiquiatra. Todos rimos. 


O portão foi aberto. Entramos no avião para mais treze horas de viagem. Até o fim do mundo onde meu neto me receberá com um afetuoso abraço. Quando passamos, tranquilamente, pela imigração, atravessamos imensos espaços kiwis, logo vi o sorriso da minha nora que me aguardava para o próximo voo, Christchurch.


Christchurch,  13/02/2026







segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Crônica: Diário de viagem: Vovó no espaço


 
Desde que as passagens foram compradas, minha cabeça ficou fixada na data da viagem. Não em contagem regressiva, mas no dia em que eu iria enfrentar uma odisseia no espaço circulando por cinco diferentes aeroportos, todos internacionais, totalizando quase doze horas de espera neles.

Durante as noites, minha filha, comportando-se como se fosse um policial da imigração, me faz as prováveis perguntas em inglês para eu ir me me acostumando com as pronúncias dos neozelandeses. E, minha querida professora de inglês, lá de Salvador, já vinha me preparando para eu praticar minha conversação. Até retomei minhas sessões de análise. Prevenir foi necessário. Eu estava mesmo querendo trabalhar algumas questões do meu eu lá de dentro da alma. A decisão pela viagem tem sido fundamental para eu sair da minha casa, do conforto da língua portuguesa e viver, por um tempo, noutro país.

Já disse noutra ocasião que o tal do “jet lag” me toma de mim e só me devolve quando estou de volta à minha casa. Desta vez pretendo fazer diferente. Descansar corpo e mente. Ler e caminhar bastante. Contemplar a exuberância geográfica do país. E, muito mais do que isto, estar ao lado do meu neto me fará mais nova, mais bonita e mais feliz. Quero, no meu silêncio, ouvir sua voz, ouvir sua afinação nas cantorias que acontecem quando ele está inspirado, ouvir seus assobios e sentir todo seu pequeno ser envolto pela companhia da sua vovó Zarinha. Soube que havia algo de cumplicidade entre nós  desde que o vi pela primeira vez. Naquele dia seus olhinhos miraram os meus e nossa afinidade nasceu ali. Somos loucos um pelo outro. Por isto embrenharei nesta viagem pelos espaços.

Paçoca de amendoim foi o pedido dele para que eu levasse na mala, enquanto meu filho pediu o nosso delicioso chocolate “Ouro Branco”. Pois só agora, enquanto escrevo, é que entendo o Ouro Branco do meu filho. Coisas de mãe. O requeijão de raspa, pedido pela minha nora, não terei coragem de levar. Os cães farejadores denunciarão e eu não saberei como explicar aos policiais. Não me arriscarei. Muitos livros infantis, revistinhas do Cebolinha e do Chico Bento, Machado de Assis, Luiz Rufato e um livro cujo autor moçambicano me é desconhecido estão indo junto com as paçocas e os bombons.

Roupas de verão e de outono para aquele país dos ventos cortantes composto por duas ilhas maiores  e centenas de ilhas menores.

Acho que por hoje está bem. Agora é arrastar malas com meu coração que deverá estar tranquilo para não se perder nesta odisseia. Ainda bem que irei dentro de uma nave espacial construída por meu neto com as peças do Lego.

10/02/2026


Ritinha na janela



Mirtilo



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Pequena crônica do cotidiano: Filas

 


Filas: uma mania?

Nesta manhã algumas questões corriqueiras e outras nem tanto me levaram até Betim, cidade onde morei por três décadas, onde criei e eduquei meu filho e minhas filhas. Andei como se estivesse em minha casa. Betim é minha casa e sempre será. Que isto fique bem claro. Entrei em lojas, tomei café com pães de queijo numa padaria e até deixei um abraço para um sobrinho que não vejo há algum tempo. Estranho que só agora enquanto escrevo me dou conta de que eu não percebia as pessoas nas ruas; eu caminhava automaticamente como se estivesse olhando para dentro de mim.

Eis que uma cena me dá a certeza de que eu estava bem distante de tudo e de todos. Já é sabido do tanto que gosto de conversar comigo mesma, razão de troças dos filhos. “Onde você está mãe?” Ouço de vez em quando. Uma enorme fila aguardando o horário de abertura de uma agência bancária. Se não me segurasse do outro lado da rua acabaria entrando naquela fila mesmo não sendo correntista daquele banco. Penso que as filas sempre exerceram inúmeras funções nas nossas vidas, desde descarregar raivas, silenciar-se, espichar os ouvidos para escutar conversas alheias, xingar os “pobres coitados” dos trabalhadores, perder nosso precioso tempo, mas sobretudo, como bons mineiros, conhecer pessoas, trocar receitas de bolos, falar dos filhos, falar das flores e do tempo. Paradoxalmente, filas pra mim sempre foram locais de horrores e de magia. Às vezes entrava numa fila, me irritava com a morosidade da mesma, os pensamentos se perdiam em meio a tantos problemas para, ao chegar a minha vez de ser atendida, não saber o que eu havia ido fazer lá. Confesso, sem quaisquer constrangimentos, que isto aconteceu algumas vezes comigo. Hoje penso que as filas detinham senão meus pensamentos, mas ao menos meu corpo. Eram tempos de muito trabalho em vários trabalhos. Trabalhava, estudava, criava filhos, cuidava da casa e pagava as contas. Ah! As contas. Em muitas noites de insônia essas danadas vinham me fazer companhia. Embora sempre fosse boa em matemática naquelas noites as contas não fechavam. Era mais um motivo para ir aos bancos ou, quem sabe, uma desculpa para entrar numa fila?

Filas me fascinavam. Algo no momento da minha vez seria desvendado, mesmo que tão só um engano.

27/01/2026





Observações:
1 - fotografia da flor das onze horas. (arquivo pessoal)
                     
                       2 - Caso faça comentário, por favor, coloque seu nome para eu saber quem o fez. Obrigada

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carta para Júnior Loyola

 

                           



Boa tarde Júnior.

Desculpe minha ausência nesta tarde com seus colegas e amigos de trabalho para te homenagearem. Questões familiares impediram-me de estar entre eles, o que gostaria muito.

Júnior, não me lembro de quando conheci você. Teria sido na campanha para a prefeitura de Betim em 1992 quando elegemos Maria do Carmo? - (Foi uma grande festa a vitória dela) - Mas lembro-me bem de alguns momentos especiais nos quais observava você com sua competência, seu entusiasmo, sua garra e seu compromisso frente ao trabalho de implantação do SUS em Betim.

Devo confessar-lhe que, todos os dias em que me deparava com você, eu aprendia alguma coisa.

Uma vez, enquanto na secretaria adjunta de saúde, pedi a você que ajudasse minha pequenina Brás Pires a entender e orientar no referente a algumas questões relativas à implantação de serviços de saúde no munícipio. Você, prontamente, aceitou meu pedido desde que liberado pela prefeita. Maria do Carmo não só o liberou como colocou-nos à disposição carro e motorista. Foi naquele momento que ela me disse uma frase que jamais esqueci: “Rivelli, as cidades são irmãs; temos que ajudar umas às outras.”

E lá fomos nós ajudar minha terrinha: você, Lôlô, a dona da casa que hora recebe seus amigos, o motorista e eu. Durante a viagem você, observando as serras e suas matas, me ensinou sobre as embaúbas: “Veja Rivelli como elas tem as mãos voltadas para o céu. Quando elas nascem em meio a outras espécies, isto quer dizer que a mata já não é primária.” E você lamentava o enorme desmatamento por toda a extensão da estrada em plena Zona da Mata Mineira.

E, no encontro em Brás Pires, estavam o prefeito eleito, meu jovem sobrinho, sua pequena equipe de saúde, Lôlô, você e eu. Suas propostas de planejamento deram orientações e sugestões que fizeram toda diferença nos planos para o município.

Entretanto, se, por um lado, até hoje aquela reunião é lembrada pelos resultados positivos, por outro lado, nossa colega Lôlô promoveu em mim um desencantamento danado ao ver fotos da fazenda lendária dos ancestrais da minha família e constatar que aquela era uma construção pobre, sem eira nem beira.

Pois é bem assim a vida da gente. Uma vez lhe telefonei pedindo socorro para me ajudar no que fazer com as colônias de Tunga penetrans que invadiram meu terreiro e que coçavam nos meus pés a noite inteira.

Júnior, ainda quero te falar das ocasiões em que você permitia que um menino sapeca escapulisse de dentro de você. Então você se transformava num diabinho saltitante, esfregava uma mão na outra, seus olhos brilhavam e você se abria em deliciosos sorrisos. Até hoje não sei se era um menino dentro de um homem ou se era um homem dentro de um menino.

Terminando gostaria de parafrasear nossa amiga Lôlô e afirmar que, com sua partida, ficamos sem eira nem beira.

Um abraço e muitas saudades

                                     Rivelli

10/01/2026



P.S. Já ia me esquecendo de lhe contar que plantei três embaúbas, um pau-mulato, duas tamareiras (como dizia meu pai: quero conferir se é verdade que elas só darão frutos daqui cinquenta anos), plantei também algumas frutas incluindo o cajueiro “roubado” pelo Zé Luiz do maior cajueiro do mundo) além de muitas flores. Meu quintal está exuberante com estas chuvas de verão que também acabaram com todos os bichos-de-pé.

Agora terminei.

Outro abraço carinhoso.

                                         Rivelli