Filas: uma mania?
Nesta manhã algumas questões corriqueiras e outras nem tanto me levaram até Betim, cidade onde morei por três décadas, onde criei e eduquei meu filho e minhas filhas. Andei como se estivesse em minha casa. Betim é minha casa e sempre será. Que isto fique bem claro. Entrei em lojas, tomei café com pães de queijo numa padaria e até deixei um abraço para um sobrinho que não vejo há algum tempo. Estranho que só agora enquanto escrevo me dou conta de que eu não percebia as pessoas nas ruas; eu caminhava automaticamente como se estivesse olhando para dentro de mim.
Eis que uma cena me dá a certeza de que eu estava bem distante de tudo e de todos. Já é sabido do tanto que gosto de conversar comigo mesma, razão de troças dos filhos. “Onde você está mãe?” Ouço de vez em quando. Uma enorme fila aguardando o horário de abertura de uma agência bancária. Se não me segurasse do outro lado da rua acabaria entrando naquela fila mesmo não sendo correntista daquele banco. Penso que as filas sempre exerceram inúmeras funções nas nossas vidas, desde descarregar raivas, silenciar-se, espichar os ouvidos para escutar conversas alheias, xingar os “pobres coitados” dos trabalhadores, perder nosso precioso tempo, mas sobretudo, como bons mineiros, conhecer pessoas, trocar receitas de bolos, falar dos filhos, falar das flores e do tempo. Paradoxalmente, filas pra mim sempre foram locais de horrores e de magia. Às vezes entrava numa fila, me irritava com a morosidade da mesma, os pensamentos se perdiam em meio a tantos problemas para, ao chegar a minha vez de ser atendida, não saber o que eu havia ido fazer lá. Confesso, sem quaisquer constrangimentos, que isto aconteceu algumas vezes comigo. Hoje penso que as filas detinham senão meus pensamentos, mas ao menos meu corpo. Eram tempos de muito trabalho em vários trabalhos. Trabalhava, estudava, criava filhos, cuidava da casa e pagava as contas. Ah! As contas. Em muitas noites de insônia essas danadas vinham me fazer companhia. Embora sempre fosse boa em matemática naquelas noites as contas não fechavam. Era mais um motivo para ir aos bancos ou, quem sabe, uma desculpa para entrar numa fila?
Filas me fascinavam. Algo no momento da minha vez seria desvendado, mesmo que tão só um engano.
27/01/2026
2 - Caso faça comentário, por favor, coloque seu nome para eu saber quem o fez. Obrigada
Adoro ler suas histórias. É como se tivesse te ouvindo. Neuza Lima
ResponderExcluirObrigada Neuza. Um grande abraço
ExcluirSuas histórias são ótimas, amei esse texto sensível e introspectivo, que transforma a cidade e a fila em metáforas da memória, do cansaço e do pertencimento.
ResponderExcluirSempre bom ler seus comentários, afinal eles vêm de uma mestra. Minha linda vizinha.
ExcluirSuas cronicas são singelas e nos faz retornar a vida. Gosto do seu jeito aconchegante de escrever. Sou Cláudia Cardas. Participantes do Tertúlia.
ResponderExcluirObrigada Cláudia. Um abraço
ExcluirSuas narrativas fluem como se fosse a vida da gente. Só que enfeitada. Beth Cardoso
ResponderExcluirEis aqui uma grande cidadã barbacenense, uma grande mestra da literatura. Obrigada minha prima.
ExcluirSim... Filas nos permitem conhecer pessoas e nós mesmos... Sempre gostei de testar minha paciência, resistência e solidariedade nas filas. Catharina Mattos
ResponderExcluirÉ isto mesmo. Filas são trocas de sentimentos e conhecimentos. Um abraço
ExcluirAmo filas... Conversar... "voar"... Chegar em casa e escrever sobre minha ida ao centro e àquilo que absorvi daquelas filas em meu diário... Amo diário... Sua escrita nos transporta e reaviva algo meio que trivial em nós de uma forma doce ao escrever!
ResponderExcluirAbraços fraternos!
Sofia Chiara.
Sofia, adorei seu comentário. Um abraço
ExcluirFilas!? Ahhh essas têm um poder descomunal de me tirar de mim! Me tranforma em um ogro das cavernas.
ExcluirMas adorei sua crônica e seu olhar sobre as filas!
Um fraterno abraço!
Pois é, filas sempre fazem um fascínio para quem gosta de conversar !
ResponderExcluirAssuntos mil aparecem nas filas, desde xingamentos até elogios !!!
É verdade. Mas quem é você?
ExcluirGosto de seus poemas me leva a reviver nosso dia a dia. Parabéns te
ResponderExcluirBacana de joia ,,é tudo muito bom,,andar ,falar sozinho,conversar .mas a tal da fila,,pelamordeDeus( mauro visin
ResponderExcluirMauro, te vi falando seu comentário. Um abraço
ExcluirSiiiim...grande momento da crônica. Esses pequenos momentos diante desses fatos próprios de nossa vida em sociedade. Adorei a poesia em volta dessa fila. Parece que eu estava nela.
ResponderExcluirEntão Juvêncio, as filas nos transpostam para além de suas finalidades. Não é?
ExcluirAdoro ser lembrada que você existe e que já nos existimos mais, e que, para além disso, já resistimos muito. Rivelli, gosto muito de você.
ResponderExcluirEsqueceu de assinar. Mas penso que sei quem está comentando.
ExcluirExcelente! Gosto de uma fila também. Kkkkkk
ResponderExcluirAmei! Rayane
ResponderExcluirAmei!
ResponderExcluirQuando não tem fila, a gente acha estranho, aí quer formar uma fila. Outra, se houver várias filas, a fila que a gente entrar sempre vai ser a que menos anda. Adilson Franco
ResponderExcluirAdilson, amei seu comentário. É exatamente assim mesmo. Um abraço
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