A coisa foi se dando sem que eu desse conta do que estava acontecendo. Nas conversas com as amigas, se antes brincavam e riam conversando comigo, depois passei a pensar que faziam piadas porque eu não entendia nada do que falavam, até eu não mais participar das conversas.
Eu, que sempre tive grandes dificuldades com as palavras faladas, me vi ficando cada dia mais calada. Passei a não sair com as amigas nos fins de tarde. Havia sempre uma desculpa. No trabalho fui me vendo com muitas dificuldades. Fui me isolando e diminuindo meus atendimentos. Ficava mais em casa, a ler e a escrever.
Não percebia que precisava olhar diretamente para os lábios das pessoas durante nossas conversas. Não me lembro quem atentou-me para o fato de estar perdendo a audição. Ao fazer uma retrospectiva do que vinha me acontecendo pude avaliar que estaria em torno dos quarenta anos quando comecei com tal deficiência.
Procurei ajuda profissional.
O diagnóstico foi implacável: surdez não orgânica ou funcional, ou seja, exames físicos normais, mas o cérebro deixa de processar os sons. Sabia do que se tratava: uma deficiência auditiva progressiva e irreversível, sem tratamento em medicina senão através de uma prótese.
Esta semana escutei a chuva e as algazarras dos pássaros no meu quintal. Um imenso prazer tomou conta de mim. Estava com meus aparelhos de som com tecnologias de IA.
Apesar das muitas dificuldades, tenho pra mim que perder um dos sentidos me trouxe de volta para mais perto de mim e das pessoas com quem gosto de estar.
E, com Guimarães Rosa, aprendi que a gente nasce e morre dispronta
03/09/2026
Observações:
1 - Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.
2 - Esta pequena crônica foi escrita como dever de casa proposto pela oficineira, Cida Amaral, nas nossas oficinas de escrita "Escrevivência" junto à Casa de Cultura, em Betim, M.G.