terça-feira, 8 de setembro de 2015
VIAGENS POR SÃO PAULO
PRIMEIRO DIA
A decisão em participar do Encontro Americano de Psicanálise em São Paulo já havia sido feita desde o início deste ano, apesar da viagem de avião, conforme combinado com uma grande amiga, viajadeira desse mundão. Então vamos lá. Decidimos ir no dia anterior ao início do evento para aproveitar a cidade antes dos intensos trabalhos que seriam apresentados no tal VII ENAPOL ( Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana).
Ainda na rodoviária de Belo Horizonte onde fui deixada pela minha filha para pegar a "conexão rodoviária-aeroporto de Confins", deparo com um jovem, único passageiro a esperar, com uma grande bagagem incluindo uma caixa de papelão que me chamou a atenção. Ele pediu que eu tomasse conta de tudo aquilo porque, estando viajando desde o amanhecer, precisava ir ao banheiro. Portanto meus olhos puderam passear por tais bagagens e por aquele embrulho. Seria um tambor de percussão? O moço, um belo homem negro com sua performance, me pareceu um músico. Não resisti à pergunta.
-"Não. Sou escultor em madeiras. Faço imagens sacras. Sou de Mariana".- Respondeu o artista com a simpatia dos mineiros. E nosso ônibus chegou. Entrei. Ocupei meu lugar. Logo apareceu outra passageira com o mesmo número do meu assento. Achei que daria confusão mas logo ela sentou-se em outra poltrona. E o meu escultor dera um sorriso e fora para trás. Em Confins ele passou rapidamente e me deixou um cartão de visitas. Aproveitei e dei-lhe um meu também. Deste blog.
- "Oh meu Deus, lá vai eu entrar neste trem que avoa!" (Era eu e meu medo de avião.)
Obviamente de olhos fechados na decolagem e por bom tempo dos cinquenta e cinco minutos até meu destino.
Chegamos. Pegamos um táxi para nosso hotel no belíssimo bairro do Brooklin próximo de onde aconteceria nosso Encontro. Digo ao motorista que no final da década de setenta eu vinha muito a Santo Amaro visitar minha irmã, recém casada, que morava próximo ao Bairro Jardim São Luís e onde ainda residem parentes mineiros de seu marido. Ele foi logo me dizendo: "É o bairro onde moro há mais de vinte anos". Portanto estávamos em casa.
Finalmente chegamos ao hotel. Já era mais de meio dia. Almoçamos ali mesmo e já saímos para o centro da megalópole, rumo Av Paulista. Mais precisamente para o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.
Então qual não é nossa surpresa quando ao lado da inscrição MASP, havia a seguinte inscrição: "HISTÓRIAS DA LOUCURA: DESENHOS DO JUQUERY" . E foi para lá que nos dirigimos.
O Hospital Psiquiátrico do Juquery fora criado em Franco da Rocha (SP) em 1898 e teve sua Escola Livre de Artes Plásticas até 1956.
As frases na entrada da exposição nos convocou a refletir:
"Os homens são tão necessariamente loucos, que não ser louco seria uma outra forma de loucura" (Blaise Pascoal)
e,
"Não é confinando seu vizinho que alguém se convence de sua própria sanidade" ( Fiódor Dostoiévski)
A exposição do conjunto com 102 obras foram feitas em materiais comuns como papel e lápis, em formatos pequenos, provavelmente desenhados antes de 1948 pelos internos daquele nosocômio.
Meus olhos dançavam de um para outro, tentando entender as histórias dos pacientes ali contadas em desenhos de inúmeras variedades. Era a loucura estampada em formas. Comprei o livro da Exposição para presentear uma amiga de Betim e nele leio a seguinte frase de Nise da Silveira:
"Em decorrência do avassalamento do consciente pelo inconsciente o indivíduo perde o contato com a realidade e desadapta-se do meio onde vive. É internado nos tristes lugares que são a instituições psiquiátricas. O ateliê de pintura será um oásis, se o doente tiver a liberdade de exprimir-se livremente e ai relacionar-se afetivamente com alguém que o aceite e procure entendê-lo na sua peculiar forma de linguagem"
Seguimos para outro piso. Agora bem mais ameno com a exposição "A Arte da Itália: De Rafael a Ticiano" e nossos olhos se embriagaram com o colorido das pinturas. " A Virgem Maria e o Menino com São João Batista Criança" de Sandro Botticelli datada de 1500 . Outras tantas obras do período Renascentista até o Barroco. Acho que ficaria por ali não fosse outro piso a nos seduzir com a exposição: "Arte da França: de Delacroix a Cézanne" onde parei diante dos quadros "O Pobre Pescador" de Paul Gauguim (1896) e "As Meninas Cahen d'Anvers " de Renoir. Então não pude deixar de constatar através da arte, mais uma vez, as desigualdades sociais e econômicas do mundo e do nosso Brasil. E meus olhos viram aquilo que só o coração sente.
E já era noite quando caminhamos por aquela avenida tão glamourosa em direção ao Conjunto Nacional com sua localização privilegiada e suas grandes livrarias. Ai sentei e me deixei descansar. Algumas ligações de BH.
Voltamos para o hotel embaladas pelo imperioso daquelas imagens em São Paulo. No dia seguinte iniciaria nosso encontro com o título "O Império das Imagens".
08/09/2015
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
CORAGEM, FÉ E ASAS
Há uma semana Mina acordou diferente. Não entendia o que se passava com ela e nem procurou saber do que se tratava. Entretanto, lá pelas tantas da manhã, percebeu algo estranho nas luzes do dia. De repente deu-se conta que havia colorido no ar. Uma alegria estampou em seu rosto e quis falar disto para alguém. Precisava contar a novidade, afinal estava escondida e isolada já havia três meses. Levava uma rotina de compromissos e agendas cheias, e nada a demovia deles. Agora, tomada de assalto pelas cores do mundo, abriu os braços e encheu os pulmões de um novo ar.
Onde estariam as cores até então? Por onde estivera sem que percebesse as matizes da natureza? Pensava ela com as idéias encaracoladas e amarradas frouxamente umas às outras. Não lembrava de nada que pudesse ter-lhe causado tamanho desânimo e tamanha falta de vontade com a vida.
E foi procurando as respostas que as lembranças dos últimos meses vieram desconforta-lhe o coração já tão envelopado e lacrado. Havia fugido de si. Escondera-se nos afazeres. Dormia tarde todas as noites e levantava-se ainda muito cedo. Era preciso ajeitar isto e aquilo. Nada podia faltar do que se incumbia no seu dia de vinte e quatro horas.
Mas naquele dia ela quis ver as cores que apareceram sem que ela soubesse de onde haviam surgido. Simplesmente surgiram aqui e acolá. Quis adiar tudo. Tomou seu café, abriu a janela de seu quarto e voltou para cama. Não estava desanimada. Apenas queria sentir seu corpo até então amortecido e engessado por aqueles tempos.
Com sua inquietude marcante, levantou-se novamente, ajeitou sua cama e fora trabalhar. O dia fora longo, pesado e cansativo dentro do que havia proposto para ele. Ao voltar para seu apartamento, instintivamente, enviou uma mensagem no celular para aquele amigo de quem nunca soubera nada. Também não sabia se o amava tanto quanto dizia amar ou se o amava naquilo onde ele era o avesso dela. Escrevera acerca das cores daquele seu dia. E enviou um grande abraço. Nada mais. Não esperou resposta. Não carecia da felicidade do outro. A sua já bastava.
Tomou eu banho. Fez seu último lanche da noite. Brincou com Margarida, sua bela e companheira gritante calopsita que logo acomodou-se em seu ombro. Como todas as noites lá se fora Mina aos seus estudos. Calculava que hora iria dormir. Dividia o faltante do tempo nos textos didáticos de seu curso atual e em literatura. Nesta ordem. Achava que a leitura dos escritores criativos lhe trazia um sono restaurador.
Naquela noite lia Quincas Borba, de Machado de Assis, e se encantava com algumas descrições da cidade do Rio de Janeiro da segunda metade do século dezenove. Fora dormir no horário determinado com o perfume das rosas dos jardins de Sofia.
Acordou com o som de uma chamada no seu celular. Não conseguiu identificar o chamador. Seria sua mãe? Pensou que tivesse lido o nome dela. Ou seria seu último namorado. Atendeu sem saber quem era. Era o destinatário de sua mensagem. Reconheceu-lhe a voz rouca. Ainda meio dormindo e meio acordada brincou na resposta "sou a Bela Adormecida". E dai ele não parou mais de falar. Ela sabia do tanto que ele gostava de falar e deixou-o falar. Até lembrar que estava em outro estado. Mas continuou falando ao saber que as operadoras dos celulares eram as mesmas e permitiam tais delongas. Disse que viria no dia seguinte para um trabalho e a convidara para um jantar. Iria busca-la em seu apartamento. Conhecia bem a cidade.
Naquele resto de noite Mina dormira como uma adolescente. Afogueada. No dia seguinte levantou ainda mais cedo que o previsto e esperara pela faxineira. Aparecida notara a moça mais feliz que as semanas anteriores. As duas se juntaram no serviço das limpezas. Parecia que Mina limpava a si mesma.
A tarde chegou logo. À noite ela estaria pronta para o encontro. Gostava do estilo casual. Escolhera uma blusa colorida, com o vermelho predominando, tal qual estava seu dia desde ontem. Ela estava deveras feliz.
Ele chegou na hora certa e lá se foram os dois como velhos amigos. Ou velhos enamorados? Conversaram, brincaram, riram, comeram. Estiveram juntos por quase quatro horas. Ela se esforçando para parecer casual. Já faziam dois anos que se viram pela última vez. Mas para ela sempre era uma primeira vez. Nenhum deles se atreveu ao convite para adentrar pela noite. Embora ela soubesse que esse era o desejo de ambos.
Marcos deixou-a em casa e se foi. Não se tocaram. Ela, naquela noite não conseguira dormir.
Havia muitas perguntas sem respostas. Ou talvez ela soubesse delas. Dormiu na madrugada e acordou exaltada. Falara o dia todo. Não conseguia se conter. O amor deveria ser vivido, mesmo que fosse na exaltação.
Outro dia chegara. Os pensamentos retornaram ao seu ritmo, acelerados mas dominados. Mina pensara que jamais estivera tão perto e por tanto tempo junto daquele homem. Por outro lado percebera que entre eles havia uma grande distância. Talvez um descompasso. Ou, quem sabe um estreito profundo? Havia mesmo algo que os separava. Concluíra dolorosamente que havia entre eles um abismo intransponível. Percebera que Marcos construíra em torno de si um aparato antiálgico, sabedor que era das dores dos amores.
Mina que pensara já ter chorado todo o seu pranto por aquele amor amigo, mais uma vez chorou. Muito. Entretanto seu pranto agora tinha uma causa. Ela chorou por um irremediável desencontro.
Funil, MG
02/09/2015
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