terça-feira, 22 de setembro de 2015

MY FATHER'S NAME



     My father was born in 1919. He always took pride in saying his name, chosen by his mother. A tribute to the great British Lord who bravely fought against Napoleon in the famous battle of Trafalgar. What my father didn't know, I guess, is that the fearsome admiral was mortally injured in that battle, despite the British Navy's victory. But this doesn't matter to my father and neither to the great stories of his life.


    He is ninety four years old and still sane, joyful and full of memories from his childhood, his adolescence and his adult life as a family father, musician, politician, driver and public employee. He never hid his love for the theatre, Dalva de Oliveira and Vicente Celestino . Fourth born from a family of eight men and a woman, the boy grew up doing small choirs forhis mom. His father, a small business traveller, showed up once in a while to make another baby and get the money his wife gathered from selling mocotó jelly made by herself, eggs and the chicken she raised.      
    My father was chosen to do the deliveries, receive the payment and give the change. He learned rapidly to calculate and was never wrong. However, if in one hand he had the responsibilities of a grown up boy, on the other he was devilish and was always getting into trouble. Back then, the punishments and the beatings were at the same level of the devilry. More than once my grandmother broke a quince stick on his back.
     Desperate to educate that son, his mother asked for the Priest's special blessings, her dear friend. He gave her advices and a brilliant idea. Her son, old enough to the catechism, was going to be one of his acolytes. There went Nelson assisting the Priests latin masses, cleaning the church, helping the sick's communion, on the extreme unction of the hopeless, visiting the rural areas, making candles, funerals and so on.    
    My grandmother was joyful with the boy's manners and righteousness. Or she thought so. Her son kept doing his devilries, a lot cleverer now, getting rid of the punishments by blaming a younger brother or cousin for his acts. And he always succeeded. He was already a saint due to his religious activities.

    There was a funeral on that day and the children wanted to know who had died. Wanted to see the dead body. My grandmother's mischiefing son did not tell what he had seen before closing the church's huge and heavy doors. He was supposed to leave just a crack open to avoid cats, dogs and other animals to get into that holy place. After all, there was a coffin, no matter how poor, and a dead woman with no family.

    My father knew her to be Banguela (toothless). A woman who lived on the streets, but not because her family had abandoned her. It was her, at the age of sixteen, after losing her beloved, that also lost her wits and lived wandering through houses.

    He wasn't scared of her like the other boys, all it took was her to show up on the streets and the boys vanished. That little admiral used to give her goodies and enjoyed her madness. But she was getting cranky and already dragged her legs while walking. Her knees got arched. The rotten teeth were falling. The town's dentist promised her a denture. She said it was the devil's laugh and did not accept. An ugly character to the eye.

    Banguela died and they had to stretch and bind her legs to close the coffin, my father heard. An acolyte sees everything. As usually happened, at the sunset the children got together in the church's square. They wanted to see who had died. They waited until the night came. To prove their courage, they gambled, and a few went to see the dead. After they overcame the difficulty to push those heavy and noisy doors, they set course to the candles.

    They needed to open the coffin. With their little shaky hands they managed to set loose the screws. And then the dreadful happened.
     
Banguela's loose kneesbentand, with a singlestrike,threw the coffin's lid to one side whileher body fell on the other. The children were crying, screaming and running away.

   As my father says, a few still running to this day.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

VIAGENS POR SÃO PAULO- SEGUNDO E TERCEIRO DIAS



                     SEGUNDO DIA


   Este era o dia de abertura do nosso Encontro Americano de Psicanálise. Minha amiga, Marina, naquela primeira noite, ficou olhando para o prédio do outro lado da rua, cujas luzes de todos os andares permaneceram acesas durante toda a madrugada. Eram grandes espaços por andar, sem divisórias, onde trabalhavam várias pessoas. Entretanto, à noite quase não se viam trabalhadores por ali. Arrisquei a hipótese de ser uma empresa com limpezas noturnas. 

  -"Mas é preciso estarem todas as lâmpadas acesas em todos os andares num só tempo?" Era ela com seu estilo ecológico em tempos de energia com altos custos e propagandas para economias do gasto da mesma.

  Pela manhã as luzes continuavam acesas, mas, agora, foi devido ao tempo nublado, escuro e frio. E eu que, enganada com a possibilidade de muito calor, não levara roupas adequadas àquele clima.

  Mesmo assim resolvi sair para uma caminhada. Fazia-se necessário estar comigo pelas ruas daquele Brooklin paulista. E lá fui eu. Não sai do passeio. Queria fazer contornos. Então encontrei um passeio que não acabava nunca. Quanto mais eu andava mais distante eu ia ficando do hotel. Voltar?  Jamais. Brinco com o fato de ter nascido sob o signo de câncer mas jamais andar de lado ou para trás. Sempre para frente. Numa grande  esquina, ainda em torno do tal terreno, deparo com cruzamentos de imensas avenidas e viadutos. Parecia que só eu andava a pé por ali. Comecei a ficar temerosa mas não parei. Minha pernas caminhavam num mesmo ritmo desde a saída. Aquilo parecia uma subestação de transmissão de energia elétrica como as que a gente vê por aqui da nossa tão grandiosa CEMIG.

   E cheguei na Av Das Nações Unidas. Estava em casa. Será? Decidi ir além da rua do hotel. Então deparo com belas praças arborizadas por centenárias espécies brasileiras e encontrei restaurantes aconchegantes.

  Voltei de alma lavada. Havia andado mais de uma hora. Agora era esperar para o almoço e a abertura do meu Encontro; afinal fui até São Paulo com tal propósito.

   Como não podia deixar de ser, muitas roupas bonitas, agasalhos de todos os gostos e cores e muitos echarpes argentinos. 

   Feito o credenciamento, assistidas as conferencias de abertura com o convidado especial da Argentina, voltamos para o hotel e de lá, ja no inicio da noite, para o coquetel numa outra localidade.

   E terminou esse segundo dia com champagne, salgados e  risoto de sei lá o quê.



                  

                TERCEIRO DIA

  Uma extensa programação nos aguardava nesse dia, mas minha grande companheira de congressos e de fugas de congresso, sugeriu passeios pela capital. Aceita a sugestão, saímos perguntando sobre a estação de metrô Berrini e os paulistanos nos responderam com gentilezas e certezas.
  
   Lá  fomos nós entrar naquele tubulão atravessando avenidas que eu vira durante minha caminhada de ontem e não sabia do que se tratava. Pois bem, eram passarelas para as  estações do trem subterrâneo. Marina na frente e eu atrás como uma verdadeira mineira. Linha amarela até a Estação da República e de lá, linha vermelha, até o Brás. E sobe e desce, e sai e entra. Toda uma multidão apressada por escadas rolantes como se perder alguns segundos fosse vital em suas vidas desenfreadas. E eu olhava tudo aquilo; e dava muitos "fora" por aqueles concretos afora. Ria de mim mesma.

   Finalmente chegamos no Brás. Perguntamos  como fazíamos para chegar ao Museu da Imigração, escolha minha para aquela manhã.

  "- É só atravessar aquele pontilhão e seguir reto."

   E o tal do pontilhão deveria ter tantos anos quanto a estrada de ferro que passava sob ele. E foi ai que iniciamos nossas fotos. Havíamos saído do primeiro mundo e caído no terceiro mundo imundo do outro lado.

   De repente eis uma construção encantadora, majestosa, recém restaurada a convidar-nos para entrar. Era o Museu da Imigração que nos encontrou perdidas por lá.

  Entramos e logo vimos corredores que nos levaram de volta ao tempo.

  Subindo uma escadaria deparamos com uma carroceria de caminhão quebrada ao meio, lotada de tijolos caídos uns sobre os outros. Nos tijolos, gravados na própria cerâmica, lia-se em vários idiomas a palavra tijolo. Era  a exposição "Migrar: Experiencias, Memórias e Identidades" relatando a imigração como atividade permanente na história da humanidade.

   Então foi impossível não lembrar, naquele momento, da fotografia do menino morto, afogado em uma praia turca, que naqueles dias corria o mundo e pedia paz

   Bem, no final do século XIX e inicio do século XX, chegaram ao Brasil imigrantes de mais de setenta nacionalidades em busca do "sonho da América". Vinham substituir o trabalho escravo uma vez que a abolição da escravatura havia se dado naquele final de século. Não me proponho aqui  discutir tal troca do ponto de vista da sociologia e da vergonha do Brasil diante destes fatos. Mas buscara ali  histórias destas pessoas partidas. Deixaram partes de si nas suas distantes terras para reconstruir outras partes por aqui.

   O dormitório com suas inúmeras beliches e  gavetas semi abertas mostravam cartas escritas por parentes dos vários países deixados para trás. Cada qual na sua linguá-mãe.

   As imagens e sons daqueles imigrantes ainda vivos falando do que deixaram e os objetos que conseguiram trazer na travessia do Atlântico. Eram sapatos, máquinas de costura, uma maleta de couro, um vestido e tantos outros. Como se cada um daqueles objetos fosse uma parte deles daqui e de lá.

   Na exposição de fotos em grandes painéis em preto e branco numa moderníssima projeção, entrei no olhar de uma menina que acompanhava a mãe e uma outra menina menor. Pude sentir a angústia que se instalara em seu coração. Angústia do desconhecido e do por vir.

   Sai daquela gigantesca construção para os também gigantescos jardins internos. Tinha dentro de mim aquela menina a me pedir acolhimento. 

  Tomei café e fui embora. 

  Eu que  havia ido ali procurar registros do meu bisavô italiano mesmo sabendo que ele chegara no porto do Rio de Janeiro, agora saia dali com milhares de imigrantes atrás de mim. Ou eu atrás deles?

  Ainda muito a contar deste sábado por São Paulo


15/09/2015