quinta-feira, 26 de março de 2015

REX E SULTÃO

                                  

REX E SULTÃO



Defronte a minha casa havia a casa mais bonita da rua. Assim era para mim. E talvez para meus sonhos infantis. Era a única casa afastada da rua. Todas as outras, inclusive a de meus pais, eram pareadas e as janelas davam diretamente aos passantes.

Esta casa era toda diferente. Havia uma pequenina varanda dando acesso ao seu interior no lado direito e uma linda e moderna janela de vidro no lado esquerdo. Um jardim sempre muito florido a deixava ainda mais encantadora. Parecia que havia saído dos contos de fadas. 

O proprietário era o morador do lado de cima. Pai de alguns dos meus amigos e amigas. Ele era metalúrgico e trabalhava no Morro da Mina na extração de manganês. Era alto, muito negro, tinha um caminhão basculante e um sorriso muito branco. Eu gostava muito de toda a sua família. Mas ele tinha um cachorro de cor marrom avermelhada, sem raça definida, que vivia preso e que causava medo em todos nós. O nome dele era Rex embora não tivesse uma coroa de rei. Tinha sim uma corrente que o mantinha sob controle.

Do lado de baixo da minha casinha de sonhos morava um casal de velhos. Não tão velhos assim. Ele já aposentado. Nunca soube no que ele trabalhava. Era de estatura mediana, moreno e vivia arrastando um chinelo de couro. Ela era da cor do chocolate e seus cabelos eram compridos, lisos, negros e viviam amarrados num coque que se prendia por si mesmo. 

O casal tinha vários filhos e netos que viviam por ali. Um dos filhos morava com ele, era o Tião Bento que também tinha um cachorro grande, da cor acinzentada, sem raça definida e que vivia solto dentro de um pequeno espaço que o separava daquela casa da minha infância e da nossa rua. 

Sultão vivia quieto e solitário. Não incomodava os passantes nem causava medo. Parecia habitar apenas o mundo dos cachorros.

E os dois viviam em paz nos seus territórios. Talvez porque não houvesse fêmeas para a disputa. Ou porque não atinavam para seus nomes tão nobres. Eram apenas dois vira-latas. 

Hoje, Rex me faz lembrar Henrique VIII, um Rei britânico astuto, inteligente, impiedoso e que fora capturado pela beleza de Ana Bolena de quem se tornou amante e marido e a quem, depois de mil dias, mandou decapitar acusada de traição. 

E sultão me faz lembrar Tipu, o grande Tigre de Mysore, ou Tipu Sahib como era chamado pelos ingleses. Adorava conviver com seus seis tigres domesticados. Foi o governante indiano que resistira à conquista do sul da Índia e que fora assassinado pelas tropas inglesas em 1799.

Henrique VIII e Tipu foram grandes guerreiros e estrategistas militares guardadas as devidas distâncias entre os territórios e as devidas  distâncias entre os tempos.

Mas para meus vizinhos cães não havia distancia geográfica nem cronológica. Estavam separados apenas pela minha bela casinha com jardim na frente e pela corrente no pescoço do Rei mineiro.

Entretanto como nada são flores nas vidas de cachorros, de vez em quando  Rex soltava de sua corrente e investia contra o solitário Sultão. Os urros se faziam ouvir por todos os lados. Eles se odiavam e mostravam este sentimento em furiosos ataques. 

 Seria um espetáculo da idade média inglesa ou da era da Companhia das Índias Orientais não fosse a tristeza estampada no olhar de cada um deles. Pareciam chorar e seus lamentos ecoavam ao longo daquela rua. 

Só havia uma pessoa que conseguia separa-los. O pai dos meus amigos e dono daquela casinha. Ele chegava muito calmo e fazia um laço com uma corda numa mão e a corrente na outra. Gritava para seu cão Rei. Chegava bem perto da luta e, como um mediador, os separava. Sultão era conduzido para seu lugar por algum familiar da sua casa ou por seu dono. Rex voltava para suas correntes. Até um próximo combate.

Eu não gostava de ver nem de ouvir seus gritos de guerra e dor.

Hoje quando lembro daqueles raivosos cães penso como cada um vivia no seu território e na sua solidão, presos em pequenos espaços, sem quaisquer contatos com outros animais de suas espécies.

Ambos com nomes de soberanos: Rex e Sultão. Portanto não seria possível um encontro entre eles que não fosse uma disputa pela posse daquele território e pelo poder total.

Penso que eles lutavam bravamente pela disputa daquela casinha tão linda que os separava. Talvez pudessem se tornar grandes aliados.

Conselheiro Lafaiete, março de 2015

Foto: casa de Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, M.G.

Observação: Caso queiram fazer algum comentário não esqueçam de de se identificarem. 


sexta-feira, 20 de março de 2015

Conto: FELICIDADE




                                         FELICIDADE: CADÊ VOCÊ ?


  Acordo com o barulho do silêncio. Embora  ainda muito cedo resolvo levantar nesta manhã de sexta feira. Quis o destino e os homens que eu não trabalhasse hoje. Eu nada havia previsto dada a expectativa do plantão.

  Tivera uma semana de muitos estudos e muito trabalho.

  Então faço meu café forte e o saboreio com queijo e pão dormido. Logo me vem a vontade de falar com um amigo distante. Envio uma mensagem na manhã silenciosa. O dia está lindo.

  Fazer o quê? Nunca consegui fazer nada. Então sento e olho em torno. Há aquela samambaia para ser mudada de lugar; aquele mensageiro do vento precisava ser hidratado, pois as peças de bambu estão esbranquiçadas e podem se quebrar. Os cachorros precisam de banho e remédios para pulgas e carrapatos. Os projetos da minha horta e do meu enorme vaso de flores estão parados. Eu queria comprar mais frangas botadeiras e tenho que ir à loja para pagar as rações. 

  Minha filha pediu que eu não esquecesse de levar limão capeta e eu quero limão galego. É a primeira produção deles, os galeguinhos, cuja muda eu havia plantado há dois anos.

  E eu continuo sentada pensando em tudo isto.

  Meu amigo responde  dizendo-se feliz pela minha mensagem. E é só o que ele consegue dizer. Sempre em seu castelo de espíritos.

  Lembrei da minha total falta de iniciativa. Eu sei fazer o que se faz necessário mas sempre me falta a palavra de uma outra pessoa. E eis que essa outra chega e já começa a dar rumo nos meus afazeres. 

  É Andreia, esposa do meu vizinho Alberto. Ela cuida de tudo para mim, até mesmo me dando as ordens para o fazer.

 - Eu não aplico as injeções! Tenho nojo de cachorros com carrapatos e pulgas!

  Disse-me ela já tendo buscado os tais medicamentos. 

  Pego as seringas descartáveis e aplico, por via subcutânea e com facilidade, em dois dos cachorros e os outros dois não caem na minha armadilha com o pão. Decidimos que o melhor seria mesmo contratar um serviço especializado para aqueles cuidados. Telefono e agendo uma busca deles para banho, vacinas e exames periódicos. O veterinário já nos é conhecido. 

 E dai por diante começamos tudo aquilo que eu queria. As coisas vão mudando de cara e sendo decididas. Pagamos as dívidas, compramos vasilhames para as rações diferenciadas para as novas moradoras da casa. E lá vamos nós na granja para aquisição das franguinhas.

 Já são onze e trinta horas quando estamos de volta.

 Decido fazer um omelete com muita cebolinha verde e queijo que eu comeria com os tais pães de ontem e limonada. Adoro pães e queijos. Minha vizinha, amiga e dona das iniciativas, convidou-me para comer sardinhas fritas e eu aceitei. Juntamos o meu almoço com o dela e nos fartamos daquela comida tão gostosa. Arroz, feijão, batatas cozidas com açafrão, omelete verde-amarelo, sardinhas fritas e muita limonada.

 - Você quer salada de couve?

  Minha fome dispensou a verdura naquela hora.

  "Barriga cheia, pé na areia."

  Agora é rumo à Via Expressa, onde outra obrigação me aguarda. No caminho porém há a compra da semana no supermercado, frango, pão com baixíssimas calorias, foi o pedido de uma filha, café pra mim (que eu esqueci), frutas, e "iogurte para eu comer com granola", fora o pedido da outra filha.

  Resolvida a questão em Contagem continuo meu caminho para Belo Horizonte, de volta para casa.

  Devo dizer que eu sempre fico ouvindo notícias. Agora dei também para ouvir aulas de francês em CD. Ou prefiro ouvir só meus pensamentos e desligo o rádio. 

 Então, ao entrar no carro escuto o comentário sobre o dia de hoje quando é comemorada a Felicidade. Então lembro do tanto que já li sobre esse tal estado de humor. Um sentimento ou sei lá o quê. 

  Percebi através daquele comentário radiofônico que hoje eu estou deveras feliz.

  Após chegar no meu apartamento e encontrar muitas dificuldades para guardar o carro na garagem, tudo aquilo vai-se embora. 

 Fico ainda mais tensa com a desordem deixada pelas filhas, embora reconheça o pouco tempo disponível. Começo a arrumar tudo de uma só vez e nada faço.

 Deixemos as bagunças para elas arrumarem e voltemos à tal Felicidade. Acho que ela, essa tal Felicidade, vem e vai e só alguns de nós, em seu devido tempo, é capaz de percebê-la no exato momento de sua ocorrência. Estamos sempre atrasados.

 Quando perguntamos por ela, é porque ela já se foi. 

 Então só nos resta a saudade de sua passagem.

20/03/2015