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Na primeira manhã de outono, ainda bem cedo, sai de casa. Após atravessar Betim, Contagem e Belo Horizonte pela BR Fernão Dias, subir o anel rodoviário em direção à BR 040 e viajar quase que totalmente no automático, cheguei a Ouro Branco. É ali que, às vezes no final da tarde, passeio com meu netinho pela feirinha semanal dos pequenos produtores rurais da cidade. Nesta quinta-feira, de novo, saboreamos o delicioso mingau de milho verde "com muita canela né vovó?".
E, após conseguir negar o convite "vovó, dorme aqui na minha casinha!", saí para Lafaiete aonde cheguei por volta das vinte e duas horas. Viajar pela Estrada Real me leva de volta a muitos outros tempos.
Nesta semana cismei em fazer angu doce, deixá-lo esfriar de um dia para outro e fritá-lo no dia seguinte. Adoçado com rapadura, é claro. Infelizmente, como sempre acontece, ficou apenas na vontade. Precisaria do fubá de moinho d'água, do fogão a lenha e de uma boa rapadura. Até que conseguiríamos tudo isto. Entretanto, nos dias atuais, estaria faltando o imprescindível de faltar: a meninada impaciente para esperar o angu cozinhar e para rapar o caldeirão de ferro deixado no terreiro.
Um dia ainda fritarei este meu "angu doce frito" na banha de coco da lata branca e verde da cozinha da minha mãe.
Pois bem, após não me lambuzar do dito angu doce frito, fui dormir porque no dia seguinte um compromisso profissional me aguardava. E a primeira noite deste outono me exigiu dois cobertores. Adorei o frio repentino.
Outono e frio. Um me desfaz em pedaços e o outro me refaz no aconchego.
Minha filha chegou para ir comigo à cidade onde nasci e que se localiza na Zona da Mata Mineira, Brás Pires. E para lá nos dirigimos na manhã de sábado.
Nesta semana minha tia que olhava com as mãos, que tinha a sabedoria estampada em gestos, que tinha o olhar falante e que se reinventou depois da loucura, deixou-nos. Morreu depois de longos anos acometida de um câncer e da demência consequente ao diabetes crônico. Certamente ela fora cantar e dançar com todos os seus pretendentes deixados de lado. Foi a mulher que mais referências me deixou ao longo de sua vida.
Visitas feitas. Agradecimentos à prima que se dedicou aos cuidados da minha tia por longos anos e com imenso desvelo.
Voltamos na tarde morna prometedora de chuva. Minha filha, encantada com as estradas que, pela primeira vez, desbravava. Eu refazendo os caminhos da infância. E, durante toda a viagem, senti o sabor do angu doce frito, senti os ventos do outono cortando a minha pele e pude sentir os cuidados da minha Tia por todo o meu corpo ainda criança.
Acho que sobrevivi pelos carinhos que vinham para além dos cuidados.
Observação: * Foto feita pela autora à entrada da cidade de Lamin.
25/03/2019