terça-feira, 19 de abril de 2016

Pelo retrovisor

   Acordei antes de despertar o meu celular. Outros pormenores me tiraram o sono gostoso do amanhecer.
Café fresco, forte, saboroso e pão com manteiga me acompanharam neste desjejum. Sem frutas. Esqueci de comprá-las. Meus limoeiros estão carregados do galeguinho cheiroso e suculento. Mas limonada pela manhã, jamais.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Crônica: Um que se vai


   Como disse sabiamente minha filha, o fato já era esperado há tempo, mas quando chega a hora percebemos que não estávamos preparados para vivê-lo.

   O do lado era um jovem de trinta e cinco anos. Morreu após se acidentar num caco de vidro e a hemorragia esvair-se e levar junto sua vida. Isto devido ao precário processo de coagulação provocado pela diabetes.

   Mas ali estávamos velando outro homem que se fora. Esse sim nosso velho companheiro. 

   "Ele foi descansar" foi a frase mais ouvida durante todo o velório.

   Ele foi descansar. Como um soldado que luta por sua sobrevivência numa batalha da guerra que não é sua, nosso personagem lutou bravamente para sobreviver a uma fatalidade que lhe deixara tetraplégico e com perdas cognitivas sucessivas após várias infecções hospitalares. 

   Nosso soldado lutou porque amava a vida. Conseguiu estabilizar-se mesmo contra todas as evidências da medicina. Sua guerra solitária não lhe deu tréguas e ele venceu cada batalha como um herói anônimo.

   Agora deixou-se ir. Era a hora.

   Entretanto sua história permanecerá viva em vários de nós. Cada um a seu modo levará junto um pedaço dele. 

  Valente, impulsivo, muitas vezes inconsequente, trazia sérios e desconcertantes problemas na escola quando ainda menino. A mãezinha não sabia por onde mais pedir desculpas e dar-lhe castigos. Se passasse por sua cabeça que um tal menino estivesse olhando enviesado para uma de suas irmãs, coitado daquele. Lá vinha socos.

   Um dia, e há um porque disto, ele cortou a energia da escola. Fizera o danado do trabalho tão bem feito que os técnicos da Cemig levaram três dias para encontrar o defeito e restituir a luz na escola.
Fora o prazo suficiente para que acabasse o castigo de uma irmã e dele próprio depois de uma surra por amores supostos.

   Na adolescência conheceu a cidade grande e se encantou com as ofertas de beleza e sonhos dourados. Não se conteve. Desamarrou de vez dos conselhos valorosos da mãe. Viveu e trabalhou pelo prazer. O preço a pagar ele daria um jeito. 

   E nosso personagem virou homem. Conseguira se fazer amado tanto quanto se fizera indesejado. Gostava de ser assim. Dizia que não acreditava em Deus. Outras vezes dizia que Deus era seu amigo e que viviam juntos.

  Mas fora a matemática o dom que nascera junto do homem que conheci. E foram os números, os problemas, as equações e seu raciocínio lógico que mais me chamou a atenção no dia a dia de nosso relacionamento. Obviamente a alegria de um lado e o puro prazer de outro também foram encantamentos.

  Vieram duas filhas e lhe tornara um pai. Então todo amor do mundo fora posto aos cuidados delas.

  O tempo passou e o pai continuou sua vida de muita alegria.

  Mas hoje, nosso personagem, herói ou anti herói, soldado raso ou cacique, lá se vai. Certamente para outras batalhas.

   Ide. 


14/04/2016