sexta-feira, 30 de abril de 2021

Crônica: A Viúva Negra e a VALE

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XLVI)






Estava retornando para casa quando a vi pela segunda vez. Como da primeira vez, ela vinha sozinha, caminhando em passos largos e apressados no extremo da margem asfáltica da estrada. Vinha no sentido contrário daquele que meu carro e eu trafegávamos. Usava uma peruca escura, com franjas que, de forma desajeitada, acompanhava o balançar da cabeça. Teria uma maquiagem leve no rosto? Trazia feições de orbitar outro planeta. Dentro de si, talvez. Bustiê preto, brilhante, deixando costas e barriga nuas. Minissaia justa ao corpo, do mesmo tecido preto e brilhante do pretenso sutiã. Braços finos e longos. Esvoaçantes. Pernas finas e longas como dois cambitos. Tronco e abdome fazendo coro com a magreza e a forma. Pele da cor do pecado. Estatura mediana.
Cada parte apresentava-se sem encanto ou beleza.

Entretanto, a harmonia do conjunto, sua altivez e sua ousadia eram de dar inveja a todos os passantes.

Não sei o que estaria fazendo por ali. Uma rodovia estreita, perigosa, grande fluxo de veículos pesados, muitas curvas e sem proteções laterais para os pedestres.

Pela segunda vez aquela figura me chamou a atenção.

Estaria se insinuando e oferecendo seu corpo por algum dinheiro? Não me pareceu que assim o fosse. E se assim o fosse?


Por todo aquele trecho da estrada circula a VALE com seu dinheiro a pagar vítimas e destruições feitas ao meio ambiente.

E foi por aí que fiquei tentando elaborar um raciocínio lógico.

A VALE, espalhada por todo o planeta, causando
danos irreversíveis.

A VALE, que um dia foi DOCE, hoje mata rios, destrói florestas, polui e seca nascentes, leva nossas montanhas montadas em caminhões. E esses caminhões arrastam por estradas estreitas como cobras nas matas. Em grande número, fazendo enormes filas, aumentando o fluxo e provocando graves acidentes de trânsito.

A VALE comprou nossa malha ferroviária. O chic-chic dos nossos trens já não nos soam nostálgicos como outrora. Carregam prá lá e prá cá nosso ouro marrom. Entrega-o aos portos marítimos que o leva para outros países. Resta-nos as poeiras, as crateras, os rios secos, cadáveres soterrados nas lamas,  mudanças climáticas e órfãos. Muitos órfãos.

Pois bem, conclui que, aquela moça ousada, apressada, com roupas extravagantes e brilhantes, sob um sol escaldante, enfrentava e ocupava, sozinha, a estrada tomada pela VALE.

Nenhum olhar masculino ou feminino que por ali passava deixava de ver a moça.

E isto a VALE não compra nem toma.

É a moça se fazendo desejada, tomando, ocupando e usurpando os olhares desejosos dos motoristas da VALE que nada valem para aquela moça.



30/04/2021

terça-feira, 27 de abril de 2021

Carta para Lula. Homenagem ao dia das Empregadas Domésticas



Boa tarde

Depois de ficar toda a manhã tentando te escrever, eis que  me encho de coragem e já o faço.

Espero que sua saúde física esteja bem e que seu olhar viaje comigo pelas palavras a seguir.

Não quero falar de mim mas de duas das muitas mulheres que prestaram seus serviços em minha residência.

Não sei qual das duas chegou primeiro para me ajudar a criar meus três filhos. Bem, mas isto não tem a menor importância.

Então começarei por Aparecida Ambrósio priorizando a ordem alfabética. Pequena no tamanho. Com nome de "madroeira do Brasil" (como aprendi recentemente). Do interior de Minas Gerais. Veio ainda menina para cuidar dos filhos de uma conterrânea. Cresceu longe dos familiares embora, às vezes, seus patrões a levasse até eles. Logo engravidou de seu primeiro filho. Solteira e sem recursos financeiros viu a tristeza nascer junto com o menino. Ganhou um lote e fez sua primeira moradia: uma barraca com lonas pretas. Contou-me, uma única vez, que numa noite de chuva e frio, não sabia para onde correr com sua criança. Por esta época perdeu seu emprego. E, por esta época, veio trabalhar comigo. Deixava seu filho numa creche para cuidar dos meus filhos. E eu não conseguia conviver com aquilo. Para ela era mais fácil deixar seu filho na creche próxima à sua casa e vir trabalhar comigo. Nós duas fomos nos tornamos grandes amigas.

Não sei o que houve mas, por um tempo ela deixou de vir. Acho que isto se deu quando ela teve sua segunda filha. Ainda solteira. Pode ficar em casa uns tempos até retomar seu trabalho. E doze anos depois teve sua terceira filha que nascera com 900 gramas, aos cinco meses de gestação. A danadinha da menina sobreviveu com a mãe indo à UTI de um hospital público e  deixando seu leite para que fosse dado a conta-gotas. Isto iria impedir que a recém nascida tivesse as paredes do seu aparelho digestivo coladas. Obviamente que a mãe não pode trabalhar nesse tempo.

Recentemente tornou-se avó. Hoje, com trinta anos de convívio, tenho a honra e a alegria em dizer da minha grande admiração por esta mulher.

Vamos para a outra mulher. Esta é muito grande no tamanho. Tem nome moderno: Elisângela Cristina.  Conheci quando escutei suas dores durante um atendimento no meu trabalho enquanto psiquiatra num ambulatório quando o SUS ainda não havia sido implantado. Ela era uma menina. Com três filhos homens e sem marido. Portanto não fora difícil identificar e tratar suas dores. Depois de um tempo fiz o convite para cuidar dos meus filhos. E lá se foi aquela mãe-menina para minha casa. Enquanto os filhos dela ficavam aos cuidados da avó, ela cuidava da minha casa, dos meus filhos e, muitas vezes, de mim também. Minhas filhas amavam  os penteados nos cabelos, as brincadeiras, os almoços e tudo que vinha do sorriso daquela imensa mulher.

Muitas vezes esperava eu chegar dos meus plantões quando, já tarde da noite eu a levava em casa sob os protestos de várias pessoas: " Lá é muito perigoso. Mais ainda à noite. Cuidado!". Colocava minhas crianças no carro e lá íamos nós cinco. No dia seguinte cedo já voltava minha menina de novo.

A convite dela viajamos com a "Marcha Franciscana" percorrendo cem quilômetros na Serra da Canastra para cantar, rezar, brincar e salientar sobre a importância das nossas águas. Caminhamos a pé até a nascente do rio São Francisco. Até então não sabia de sua ligação com os Freis Franciscanos de sua região.
Aos trinta e poucos anos virou avó. Hoje é pura alegria com seus três netos na barra da saia.

Encerrando quero dizer mais um pouco dessas duas mulheres entre tantas outras que passaram por minha casa. Elas são pobres, negras, moradoras de periferias, mães. Certamente só puderam garantir suas dignidades porque viveram adultas no período em que as políticas sociais, as garantias trabalhistas, a ousadia de  implantar o SUS e muito mais, foram dadas por seu governo.

Lula, muito obrigada por tudo que fez pelas mulheres brasileiras e por muito mais.

Abraços.

                     Maria do Rosário Nogueira Rivelli

PS.: Conversei e li esta carta para Elisângela que autorizou seu envio inclusive com seu verdadeiro nome. Quanto a Aparecida, ela me pediu que enviasse por WhatsApp e logo respondeu afirmativamente.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Crônica: Tanto Mar de Mariana

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XLV)

 




Ainda sob o efeito do telefonema liguei para uma prima. Era a única parenta na cidade onde morava naquela época.

- “Eu também não sei onde fica, mas podemos procurar. Eu vou com você.”

Essa foi a resposta. E, sem demoras, nos dirigimos ao referido local. Só havia aquele crematório em toda a região metropolitana.

- “Fica atrás do CEASA, em Contagem”.

Foi a informação obtida.

Não foi difícil chegar ao local mesmo sem os tais sofisticados GPS de hoje.

Ao chegarmos no cemitério, procurei por aglomeração de carros, de pessoas, de entregadores de coroas de flores. Nada.

Mas conseguimos localizar a sala onde estava ela.

E ela estava linda como sempre.

Durante toda a vida tivemos raros contatos. Entretanto esses foram sempre intensos e marcantes. A história do casamento de seus pais foi-nos passada como cheia de mistérios. O pai era um dos irmãos da minha mãe. Havia se casado muito jovem e fora morar em Mariana. Ela, uma delicada professora de nome estrangeiro, do distrito de Pinheiros Altos, da cidade de Piranga. Tiveram três filhas. Era tudo que nos fora contado.

Na minha infância, quando de férias na casa da avó materna bem no interior da Zona da Mata Mineira, meu tio padre, o “Padrinho” como o chamávamos, nos levava lá para visitar o irmão e sua família. E foi assim que conheci Mariana, Ouro Preto apinhada de hippies – era o ano de mil novecentos e sessenta e oito – e foi assim também que conheci minhas primas. A mais velha já estava casada. Tinha no rosto um sorriso e uma beleza inconfundíveis, assim como o apelido. Cabelos liso e pretos. Olhos de jabuticaba e um quê nas atitudes que eu nunca esqueci. A mais nova usava aqueles óculos fundo de garrafa e seus jeitos pareciam com os de sua mãe. Mas foi a filha do meio que me chamou a atenção. Tinha a pela branca como a porcelana. Os olhos castanhos claros assim como seus cabelos. O rosto perfeito. O riso solto e os dentes alvos e bem colocados. Era a moça mais linda que eu havia visto até então. Mas outra característica foi tão marcante como sua beleza física. A beleza das palavras.

Algum tempo depois essa prima apareceu sozinha na minha casa, em Lafaiete. Dormia sem travesseiros. - Quem sabe aquele jeito de dormir não acabaria com minhas dores de cabeça? - Parei de usar todos aqueles travesseiros confeccionados por minha mãe na tentativa de acabar com aquelas dores terríveis. Eu era bem mais nova e ela me exercia um grande encantamento. Eu iria querer ser assim, delicada, sorridente, cheia de sabedorias e, ao mesmo tempo, misteriosa. Conversou assuntos particulares com meus pais.

Logo depois foi embora. Mas algum tempo depois voltou com o namorado. Teria fugido de casa? A rigidez de seus pais teria sido o motivo que a levou a pedir abrigo na nossa casa? E assim eles se casaram sob as bênçãos dos meus pais padrinhos. A lua de mel teria sido naquele quarto tão sem graça e sem conforto? Acho que sim.

Muitos anos mais tarde, fui convidada a visita-la no bairro onde haviam comprado uma casinha, pelo BNH, numa distante região de Belo Horizonte. Ela dava aulas numa escola pública. Duas filhas já haviam nascido. Era loiras e lindas como a mãe. E fora a primeira vez que vi as portas estilo “shallon” americano dos filmes de faroeste. Era tudo muito simples e tudo de muito bom gosto. Entretanto pude notar que algo não ia bem por ali. O primo que me levou até lá já havia me adiantado algum pormenor. Ele havia levado alguma ajuda. Prometemos voltar.

Saí dali sabendo o quanto eu admirava e gostava daquela prima tão afastada de nós. Naqueles tempos não tínhamos telefones. Os contatos eram raros. Mais tarde iríamos ter outros contatos. As notícias não eram boas. Eu ficava com uma imensa tristeza. Podia imaginar o tanto que aquela prima poderia estar sofrendo. E eu sofria por não ter como ajuda-la. (E também tinha lá meus sofrimentos). Pensava sempre nela com muito carinho e admiração.

Minha prima havia ido atrás dos sonhos dela. Era tudo que eu sabia.

Depois das meninas ela teve um filho cujo nome escolhera como forma de, mais uma vez, expressar seu amor pelo marido. E, mais tarde, nascera a terceira filha. Esta ganhou o nome de cidade italiana, talvez uma homenagem aos ascendentes de seu pai. Conheci esta menina bem pequenininha. Parecia uma boneca de verdade. Pele alva, cabelos e olhos claros (verdes?).

Uns tempos depois soube que o marido havia falecido. O que teria acontecido?

Quantos anos haviam de passado?

Agora eu estava ali diante dela. Morta. Ao redor suas três filhas. Algumas poucas mulheres. Elas cantavam para minha prima, traziam cartazes de agradecimento pela vida vivida da mulher branca, bela e eterna “companheira”. Até ali eu não sabia acerca de suas lutas pela dignidade dos moradores da sua região que havia crescido no abandono do poder público, na violência, nas drogas e na miséria. (Havia sido candidata a vereadora - me disseram). Juntei-me a elas e chorei como ainda choro todas as vezes que lembro do seu corpo descendo para ser cremado e não voltar jamais. Abracei-me às suas filhas. Uma pergunta me viera.

- Como conseguiram me localizar e me telefonar?

- Nos seus últimos dias de vida ela nos pediu que fosse cremada. Disse-nos que gostaria que você fosse comunicada quando de sua morte. Nós não conhecíamos você. Mas ela mostrou um papel onde havia escrito seu nome e o número do seu telefone. Queria que você estivesse presente aqui junto das outras mulheres.

Foi a resposta da filha mais velha.

Hoje penso que minha prima e eu sempre estivemos juntas através de uma conexão que ainda desconheço.


Fotografia: Catedral de Colônia (alemão: Kölner Dom) - Cidade de Colônia - Alemanha - Arquivo pessoal.


15/04/2021

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O desencontro dos astros

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLIV)



   


A lua, as estrelas, as constelações pareciam conspirar para a realização do amor, quando surgiu um vento, Zéfiro, anunciando tempestade.

Naquela noite Teresa estava exuberante. Nem se dava conta de sua alegria. Parecia que aquela felicidade vinha de dentro dela. E sua alegria genuína contaminava todos ao redor.

Apesar dos ventos anunciarem tempestade, arriscou sair de casa naquele fim de tarde. Vestiu uma roupa de festa, nada muito espalhafatoso. Olhou-se no espelho. Ajeitou os cabelos. Vermelhou os lábios com aquele batom sabor cereja. Pegou seu carro e foi ao encontro das amigas.

Água para começar a noite. Uma única taça de vinho tinto seco. Nunca bebia mais que uma taça. Sabia dos efeitos na sua cabeça. Muito enjoo e ressaca no dia seguinte. Sempre foi fraca para as bebidas. Havia alguns anos que parara com os refrigerantes. Só água e sucos naturais. Além do mais estava dirigindo. O encontro com as amigas era uma comemoração. Muitas novidades sendo colocadas em dia. Muitos risos. Muitas lembranças. Muito o que falar. Eram amigas inseparáveis. Trabalhavam juntas e comungavam os mesmos ideais sociais. O bar era o mesmo de toda semana. O dono, um grande amigo de todas. Um belo jovem empreendedor; de sorriso largo e de ares de grande artista latino.

Esqueceram a tempestade lá fora. Os ventos deixaram de assobiar; apenas acariciam-nas. Uma mansidão dominou o ambiente. O zumbido dos ventos deu lugar aos zumbidos das amigas, às gargalhadas de algumas delas e os despropósitos da Conceição depois do segundo copo de sua cerveja.

Teresa, como acontecia em todos aqueles encontros, dera uma desculpa e logo foi embora. Ao chegar em casa, instintivamente, olhou para o céu. Era noite de lua cheia. O céu escuro estava claro, salpicado das estrelas que piscavam ora lá ora cá. Então pensou no grande amor de sua vida. Quantas saudades. Onde estaria ele? O que estaria fazendo? Teria casado? Pensou naquilo que os astros falavam acerca de seus signos.

Estavam separados havia muitos anos. Separados de corpos, de conversas e com longas distâncias separando-os.

Ela de câncer. Romântica, sob a inspiração e regência da lua. Suave e flexível. Ela é da água.

Ele de touro. Ligado ao prazer, ao conforto, a boa comida e boa música. Ciumento por natureza. Conservador. Teimoso. Habilidoso. Ele é da terra.

Os astrólogos afirmam que terra e água podem dar relacionamentos duradouros. Mas o que Teresa viu foi o amor deles resultar em lama.

O toque do telefone tirou-a daqueles pensamentos nostálgicos. Reconheceria sua voz até os finais do tempo. Era ele.

-Teresa, boa noite. Estou retornado para casa e encostei o carro na beirada da estrada, bem no alto da serra. Queria ver a lua. Sempre que ela me aparece assim tão bela, é de você que me lembro.

Teresa entrou em casa e deitou. Não dormiu. Chorou durante toda aquela noite.

O Zéfiro lhe trouxera arrepios no corpo e dores no coração.

Fotografias: Daniela Vida

09/04/2021















sábado, 10 de abril de 2021

Receitas para brincar com um neto

 

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLI)

 



Voe com ele numa nave espacial

Arrepie de prazer ao andar num cavalo de pau

Engrosse a voz; seja a bruxa mexendo um caldeirão com poções mágicas

Caia sobre ele nas curvas das estradas e

grite: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!

Escute-o dizer:

“Vovó! Você passou de fase no LEGO!”

Então tente montar uma casa com as peças miúdas.

Fique no gol e seja uma péssima goleira

Escute-o gritar: “gol vovó!”

Conte a história dos Três Porquinhos

Coloque seu neto na floresta enfrentando o lobo mau.

Se chegar viva até o final da tarde

Durma se puder.




29/03/2021

 

domingo, 4 de abril de 2021

E, neste outono que se inicia, você espera o que, além da vacina?

( Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLIII)







Neste domingo, enquanto espero meu neto chegar e ouvi-lo me chamar de vovó, fico cá a pensar no vazio de cada um de nós que essa pandemia escancarou.

Aqueles cuja negação da funesta doença continuam, desnecessariamente, circulando pelas ruas não puderam e, talvez, jamais poderão sentir esse volteio interno em nós.

Lamentável quando nos acovardamos diante da possibilidade deste reencontro de cada sujeito consigo mesmo nesse momento "sublime" que nos é dado (imposto?).

Essas pessoas continuam expostas ao contágio e à transmissão deste Coronavírus para familiares, colegas de trabalho, amigos e, quiçá, continuam expostas à morte.

Pois bem, estou a falar da Covid19 que, neste outono, poderá matar ainda muitos milhares de brasileiros por ignorância ou por encarnar as palavras de um presidente desqualificado, impiedoso, que leva a morte de seus seguidores e de todo seu povo.

Vale lembrar que o Brasil tem o maior, mais amplo e bem implantado serviço de saúde pública do mundo, com profissionais altamente qualificados, com prestação de atendimentos em todas as áreas da saúde, com um plano nacional de imunização (PNI) invejado por todos os países e com financiamento garantido pela constituição federal.

Entretanto, nosso povo está morrendo afogado, sem oxigênio. O planeta “água” pegou fogo, as geleiras choram lágrimas vulcânicas. Os animais estão morrendo de fome, de sede e sem habitat. O surgimento de novas cepas de vírus e espécies de bactérias não é sem razão. O homem está se matando. Não sem ter sido avisado.

Não consigo ver nada além de uma vacinação lenta, precária e que, sabemos, não trará a esperada imunização contra o contágio nem a desesperada imunização contra a ignorância. Neste quesito só a educação pública e de boa qualidade salva.

Porém, diante da falta de luzes das ciências em meu país, ainda posso olhar no meu pequeno entorno. Ainda posso assistir ao sobrevoo raso dos tucanos procurando alimentos, das rolinhas, dos sanhaços, dos tico-ticos e canários beliscando os grãos bem na porta da minha cozinha. Ainda posso levantar saudável numa manhã qualquer e cuidar de mim. Ainda faço longas viagens para dentro das minhas lembranças. Ainda ando bem acompanhada dos grandes escritores. Ainda espero as folhas velhas das minhas árvores colorirem o solo dos encantadores tons do outono.

E, além da vacina, ainda espero meu neto chegar.



                                           
 


                                                 
Fotografias: arquivo pessoal

04/04/2021

“A terra me chamou de Poeta e o eco no céu respondeu, Profeta” (Victor Hugo)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ingredientes para um texto não ficar enxuto

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLII)




Abra bem os olhos

Veja as cores da natureza

use e abuse delas para colorir seu texto

Vá até as nuvens e roube suas formas

Agora dê formas às suas palavras

Viaje pelas estradas de Minas

Ilumine-se diante de tanta beleza

Sensualize seu texto com as curvas das montanhas

Quando lhe faltar verbos e carnes

Entre para dentro de si

Busque suas lembranças

e deixe que as lágrimas escrevam o resto.



Foto de Rosângela Alves ( poeta e fotógrafa)

30/03/2021