segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Crônica infantil: Um flagrante da vida

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXV)

Na semana passada, em visita ao meu neto, este me pediu para que eu construísse uma nave e viajasse com ele pelos espaços siderais. Assim disse ele com todos as letras e muitos detalhes para que se dessem nossoas viagens. Obviamente que não recusei o pedido que, naquele momento se fazia como uma ordem. Ele já estava em grandes empreendimentos pelo espaço com suas duas naves, a X-Wing e a Tie-fighter, construídas pela ajuda dos pais, com as peças do fantástico brinquedo LEGO.

Eu fiquei com o que sobrou das peças. Uma metade de uma capsula transparente flexível sobre duas rodas que ele chamava de Barrigudinha. E esta ficou sendo a minha nada potente nave espacial. 

- Vovó repete comigo: SU – PLAI – ERRE. 

- De novo vovó: SU – PLAI - ERRE. 

- Entendeu vovó? Você está de aparelho? 

- Agora o nome do outro robô. Repete comigo: BORN – I. 

- Entendeu? 

Não! A vovó não entendia aqueles nomes ingleses que não fazem parte do seu vocabulário. Então pediu ao neto que escrevesse pra que ela pudesse ler. Assim ela iria ler e não precisava ouvir aqueles nomes. Ele a levou até o muro onde a sua mãe já havia escrito os nomes dos tais robôs. De qualquer forma, a vovó teve que aprender na marra. 

Dado o meu cansaço, não tive dúvidas. Enquanto Dudu viajava com suas potentes naves, fazendo reparos com os ultra inteligentes robôs, Supply-R e Burn-E, nas avarias causas por pedaços de gelos, a Barrigudinha abria-se ao sol para capturar energia e ganhar forças extras para alcançar as naves do neto.

Dudu ficava rindo das atrapalhadas da Barrigudinha que não conseguia nem acompanhar o palavreado técnico, em inglês, usado por ele. Por isso ela acabou virando um Jeep e ficar passeando pelas crateras da Lua enquanto Dudu dava várias voltas pelos anéis de Saturno ou encontrando com seus tantos amigos espaciais imaginários.

Apesar do cansaço com as viagens espaciais, dos trabalhos de reparos com técnicas robóticas em pleno espaço, dos cuidados para não cair nos buracos negros, foi uma tarde de grandes emoções e de muitos aprendizados sobre naves espaciais, robôs e os sons e escritas de outra língua.

A Barrigudinha serviu para a vovó se deliciar com as risadas do neto vendo os desarranjos de uma nave espacial gorda, velha e surda.



Ouro Branco, 31 de agosto de 2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Meninas dos Espíritos Santos

 (Indelicadeza em Tempos de Coronavírus - I)


- Vó acordei com vontade de vomitar...

- Vou fazer um chá de boldo pra você.


- Vó tô com dor por baixo

- Vou preparar umas ervas prá você se banhar


- Vó tô muito cansada

- Deixa de manha minha neta e vai logo pegar água na cisterna


- Vó minha barriga tá inchada.

- Deve de ser os vermes. Coma semente de mamão que mata tudo


- Vó tem uma coisa mexendo dentro da minha barriga

- Deve de ser as tripas. Cê anda enchendo muito os buchos.


- Vó você viu minhas bonecas que tavam aqui?

- Levei tudo para seu quarto. E não deixe seus brinquedos esparramados por ai


- Vó, vou esconder debaixo da cama. Não diz pró tio onde estou

- Deixe de bobagem minha neta. Ele te traz tantas coisas gostosas


- Vô, nós vamos tirar este trem que está machucando minha barriga?

- Vamos de avião? Obá! Eu nunca andei de avião.

- Quando voltar vou querer jogar futebol...


Observação: Minha homenagem a esta e a tantas outras meninas do Brasil vítimas do machismo na sua forma mais cruel e da hipocrisia de alguns fundamentalistas religiosos.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Mini-conto: EL GUAPO

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXIV)


   EL GUAPO

Ele era lindo. Alto, moreno, olhos verdes, andar solto e o sorriso mais lindo que Ana já havia visto. Com pouca conversa fisgou o belo. Mas a vizinha de cima também ficou encantada com o rapaz que já se tornara namorado da outra.

“O que ela tem prá fisgar esse peixe?” “Como ela consegue manter este namorado tão lindo?” “Será que ela não tem ciúmes de tanta beleza?”

A vizinha pensava, perguntava e não conseguia respostas. Até que resolveu jogar todo seu charme prá cima do jovem da outra e, para sua surpresa, nada fora difícil e o peixe caiu na sua rede.

Nos primeiros dias o encantamento tomou conta do namoro. Porém, passado este tempo, veio a resposta para suas tantas perguntas. O fantástico, o belo, aquele dos olhos verdes era totalmente desprovido de palavras. Ele não sabia nada de coisa alguma e se achava o filé mignon da boiada. 

Passando defronte a casa da outra percebeu um risinho sarcástico na cara da moça. 

O mais difícil de tudo foi desfazer daquele peixe que apaixonou de vez pelas palavras da segunda.

Há quem diga que até hoje ele fica tentando comer a minhoca do anzol dela que acabou indo pescar noutras freguesias.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Lenda: A Noiva do Morro de São Pedro

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXIII)



Lamentavelmente, até então, nunca havia me interessado pela história contada e recontada na cidade de Juiz de Fora sobre a noiva que aparecia aos desavisados nas noites de lua nova (ou cheia?) no Morro do Cristo que era o único acesso à região do São Pedro.

Pedi ajuda aos colegas médicos que estudaram comigo e um deles gravou um áudio me contando o que sabia da lenda. Relatou que morava no Bairro do Morro de São Pedro desde a época do cursinho e, por isto, sabia da história daquela noiva. Ele ainda lembrou-se da existência de lagoas pelas estradas. Mas não me lembro das águas pelos morros. Só lembro-me da beleza de toda a região e da visão fantástica daquelas alturas.

A estrada que liga, ainda hoje, o Bairro da Glória, no centro de Juiz de Fora, ao bairro de São Pedro é toda estreita e sinuosa. De um lado, as pirambeiras. Do outro lado o morro. Toda a região, coberta pela Mata Atlântica, deixando penetrar apenas alguns raios de sol.

Quantas vezes eu subi por aquele morro durante os seis anos do meu curso de medicina. Também não sei por que cargas d´água a UFJF fora plantada naquela região. Mas devo confessar que recentemente fui revisitar “minha UFJF” e qual não foi minha surpresa ao vê-la ainda mais bela, moderna, revitalizada, com um arrojado projeto paisagístico de reflorestamento. Estava toda florida e totalmente integrada à comunidade da cidade que, nos finais de semana, passeia por ela e suas belas praças de lazer. Atualmente as estradas do Campus são usadas como integração do Morro de São Pedro aos novos e luxuosos bairros na região sul da cidade.

Mas minha história hoje é sobre a lenda que conta ter havido um acidente com um casal de noivos em lua de mel quando a porta do passageiro do carro se abriu e a noiva rolou pelas ribanceiras daquelas estradas. Deve ter morrido, obviamente, para ter constituído a história. Pois bem, a partir deste fato, o espectro da noiva vem aparecendo nas encostas escuras do morro para um ou outro que passe por ali.

A moça apenas aparece com seu vestido de noiva, de pé, entre as árvores, causando arrepios em alguns, desafios em outros, encantamentos e amores nos mais solitários.

Até hoje a aparição da noiva no Morro de São Pedro continua circulando no inconsciente coletivo das pessoas de Juiz de Fora. E, sempre que aparece, as histórias reassumem novos contornos. Quem vê jura que a visão da noiva é verdadeira.

E essa história já faz parte do folclore da cidade.

10/08/2020