terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MINHA MENSAGEM DE NATAL



  

  Meu pai sempre dizia que o carnaval era a festa do ano que ele mais gostava. Explicava do jeito dele que todos ficavam felizes. Saíam para as ruas com sua fantasias e suas criatividades. Não havia diferenças entre pobres e ricos, brancos e negros, machões e gays. Eram todos iguais.

 Já o Natal escancarava as desastrosas diferenças das camadas sociais. Havia lágrimas em seus olhos quando falava dos pais que não tinham condições financeiras para comprar presentes para seus filhos. E ele entendia bem dessas dores.

 Acho que meu pai, lá no fundo, sabia o que estava dizendo e tinha razão.

 Hoje, aos 95 anos e com plena lucidez, ele continua dizendo a mesma coisa.

 Entretanto, reconhece sua alegria, nas noites de Natal, ao receber em sua casa seus 22 netos, seus quase 17 bisnetos, seus filhos, genros, noras e todos que vieram somar e constituir sua grande família. 

"...e isto dinheiro não compra", emenda ele. 

(Agradeço aqueles que leram, curtiram, comentaram e compartilharam meus contos e, com os dizeres do meu pai, desejo a todos vocês um Natal à maneira de cada um, desde que seja com muitas alegrias, com familiares e amigos por perto. Que venha 2015 cheio de mais desafios e coragem.)



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Dois amores de Rosa



É chegado mais um Natal. Para Rosa, jamais será apenas só mais um natal. Ano após ano ela esperava por este dia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


UM PRESENTE DE NATAL

   O tempo era das chuvas. Mas também era o tempo do Natal. E as chuvas não davam trégua. E o Natal estava chegando.

   Já não havia roupas para o vestir, nem para as camas e os banhos. Minha mãe ficava nos cuidados da casa, era um leva e trás de roupas da área para o fogão a lenha e dai para o ferro a brasa onde ela acabava de secá-las.

   A área era uma continuação da nossa cozinha e onde minha mãe guardava milho e farelos para as galinhas. Ali também ficava a lenha para o fogo diário e um enorme forno de barro sobre uma armação de madeira. Era de chão batido e telhas de cerâmica feitas na própria região. Nossa cozinha tinha o fogão de lenha mais bem feito que eu conhecia. Era todo vermelho assim como o piso. Mas era naquele forno lá de fora que minha mãe fazia quitandas variadas e deliciosas. As rosquinhas de salamunico eram as minhas preferidas mas ficavam dentro de grandes latas bem fechadas. Elas seriam liberadas para o café depois que todas as outras qualidades já tivessem acabado. E eu ficava esperando até por semanas.

   Havia toda uma ciência no preparo daquelas merendas, assim como no armazenamento e na liberação para os filhos ou visitas. As broas de fubá e os cubus, aqueles assados em folhas de bananeiras, tinham pequeno tempo de sobrevida pois deterioravam mais rapidamente, portanto eram os primeiros a serem servidos. Depois os bolos de farinha de trigo. A seguir seriam os biscoitos assados de polvilho. E, finalmente as deliciosas rosquinhas trançadas e lacradas nas latas de vinte litros. Lembro bem dessas latas. Elas vinham com gorduras, farinhas, leite e mais não sei o quê. Eram enviadas pelo governo americano para alimentar o povo brasileiro que vivia na miséria. Acho que o programa americano chamava "Aliança para o Progresso". Deixemos os americanos para lá.

   Tia Teté, também minha madrinha, sabia como ninguém a arte de fazê-las e trançá-las. As tais rosquinhas ficavam ainda mais gostosas. Ela também fazia os tarecos que pareciam ser feitos da mesma massa, com muitos ovos, muita nata daquele leite de vaca de verdade, farinha de trigo e o salamunico. Muito tempo depois, já nos meus estudos de química, saberia que se tratava de sal amoníaco. Mas as quitandas da minha cidade eram e ainda são feitas de salamunico. E é com esse fermento de nome esquisito que elas se tornam saborosas e inesquecíveis.

   Bem, as chuvas continuaram para nossas alegrias e dos lavradores e para o desespero das mães com tantas crianças e roupas para lavar e secar.

   "Este ano elas resolveram se invernar", dizia minha mãe. 

   Minha rua virava uma enxurrada de lama vermelha e eu ficava imaginando o encontro de tanta água com nosso rio logo ali perto.

   "Será que o rio vai encostar nas traves do gol?" Perguntava meu pai. 

   Outros lembravam de enchentes passadas quando o rio invadia plantações, pastos e até o bonito campo de futebol da minha cidade. Eu só ficava escutando e imaginando aquele mundão de água vermelha.

   E o Natal? Como Papai Noel vai chegar neste fim de mundo se nem tem estrada?

   Meu pai, naquelas noites, à luz de lamparina, contava histórias de Tiradentes, de D. Pedro I, de Portugal. Hoje, eu penso que ele aproveitava aquelas noites e nos ensinava a história do Brasil. Mas as histórias que eu mais gostava eram aquelas da coleção de contos e lendas dos índios da Amazônia e dos fantasmas andantes da floresta. Eu dormia com todos eles dentro do meu quarto. 

   Às vezes ele nos ensinava canções natalinas, tocava flauta ou conversava com os compadres. Falava das cidades por onde andara com seu pai que era caixeiro-viajante.

   E o Natal estava chegando e a chuva continuava...

   Meu pai faz aniversário no dia vinte e dois de dezembro e minha mãe jamais deixou de fazer seu doce predileto, aletria. Sempre com muita canela. Mas o doce de natal que eu mais gostava era a sopa dourada, feita com muitas gemas e pão umedecido ao leite. Ela também preparava doces de laranja-da-terra, de figo, de pêssego. A aletria era encomendada e vinha da cidade vizinha. E todas as frutas eram colhidas no nosso imenso quintal.

   Aquela pergunta não se calava ou seja, as estradas deixarão o Papai Noel chegar? 

   Os poucos carros e seus donos não arriscavam sair pelas estradas que cortavam nossa pequenina cidade. Duas delas serpenteavam o rio e, portanto, estariam tomadas pela cheia. As outras eram em perigosos ribanceiras e morros que ofereciam riscos de acidentes.

   Papai Noel certamente não arriscaria. Era muito perigoso.

   E chegou o Natal. Durante o dia não haveria missas. Mas a noite tinha a Missa do Galo que eu adorava mas cochilava antes mesmo das epístolas. Acabava sempre dormindo no banco duro de madeira até o Amém. 

   Debaixo de chuva e sobre o barro lá fomos nós para a benção do nascimento do Menino Jesus. Meus pais aconselharam que colocássemos nossos sapatinhos debaixo da bela árvore de natal que eles haviam feito.


  "Talvez Papai Noel conseguiria chegar montado num cavalo", disse meu pai.

   A cada ano era uma árvore diferente. Um ano era um galho de pinhão. Outro ano era de jabuticabeira, era a que eu mais gostava. Às vezes era de goiabeira. Eles eram muito caprichosos naqueles enfeites natalinos. Sempre inventavam novidades

   Tá na hora de dormir.Todos os cinco filhos na cama, ansiosos por aquela noite tão esperada. E difícil foi dormir com tanta ansiedade.

   Na manhã seguinte acordamos com um som familiar que via da nossa sala, bem perto de nós.  

  Papai Noel havia passado, ainda tivera tempo para entrelaçar nossos calçados e ali deixara, amarrado, um único presente.

  E fora nosso Natal mais feliz daqueles tempos com o cabritinho berrando e brincando conosco o dia todo. 



27/11/2014


Mais de meio século depois da história deste conto, nosso querido Rio Xopotó tem novamente sua águas extravasadas por toda a região ribeirinha.






PS: Fotos gentilmente cedidas por Vicente Teixeira.
Enchente 15/12/2016.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ANA

                                                               
Toda vez que a avó olhava aquela menina seu coração batia deferente. Assim como diferente era aquela menina. Parecia homem na valentia mas doce no conviver. Tinha nome pequeno mas tudo nela era grandioso. Às vezes tudo nela era aos avessos. 

Fora desde cedo abandonada pelo pai, um jovem das aparências boas e do caráter duvidoso. A mãe, uma menina que viera do interior, tomou todas as vergonhas do mundo para si e escondeu a barriga crescida. Chorou noites inteiras. Perdera o amor de sua vida ao dizer que esperava um filho dele.

A cidade grande não lhe trouxera sorte. Nada estava a seu favor. A família não perdoaria. Todos os santos e santas deixariam de lhe abençoar. A patroa dispensou seu trabalho de doméstica logo que percebeu o estado da jovem.
Mandou-a de volta com sua barriga.

Dorinha tomou rumo de volta para casa. Não havia palavras a dizer. O que estava feito estava feito. Quando o tio de Dorinha, irmão do pai, viera tirar satisfações, o pai do moço retrucou: "a moça de vocês estava a disposição e meu filho é homem e não deixou ela na vontade". 

E a vontade da moça era que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo. Seu sonho acabou. Agora era ajudar a mãe na plantação do milho, da mandioca, do feijão e na colheita, à terça, do café. O pai havia falecido de anemia. A mãe ficara com seis filhos e Dorinha era a mais velha, tinha apenas catorze anos. Agora era ficar em casa escondendo as vergonhas.

A mãe chorava de desgosto. Tomava bronca dos outros se demonstrasse perdão e carinho para com a filha.

Foi chegado o dia de nascer aquela criança. Chamaram a parteira que morava na distância de uma légua dali. Tudo nos arrumados da boca fechada. Ela veio e deu as ordens na casa: muita água quente, muito pano limpo, uma tesoura e um barbante. Dorinha não chorou. Suportou as contrações que amiudavam no tempo e aumentavam na intensidade. Suas dores eram outras. E estas eram muito maiores.

Nasceu a menina. Ana seria seu nome. Dorinha, em seu silencio, já havia escolhido. Sua filha teria o nome da avó do Menino Jesus. Fora uma promessa em agradecimento à sua mãe. E a avó aqui da terra, quando ouviu o choro da menina, sentiu uma dor profunda no coração.  Nunca conseguira dizer daquela dor. Uma dor para sempre. Ali estava sua primeira neta. 

-"E se o padre não quiser batizar ?"  O falatório foi geral. Uns defendiam que a criança devia ser batizada. Outros diziam que se o padre batizasse aquele criança seria uma blasfêmia. A menina era filha do pecado e devia viver com o pecado. Por vários dias aquele assunto tomou conta do povoado.

O dia a dia naquela casa passou a ser uma mistura de alegria, de resignação, de vergonha, de carinho, de pecado. 

Todos viviam confusos com seus sentimentos.

Até que um dia a casa recebera uma visita nada esperada. O pároco. Ele queria conhecer a menina e esbravejou por deixá-la sem o batismo, o primeiro sagrado sacramento. Marcou a cerimônia e a criança fora salva. Acabou o falatório.

Ana cresceu rápido. Aprendeu as onomatopeias dos bichos e conversava com eles. Aprendeu a ler com a mesma facilidade. Perguntou uma vez pelo pai. Ele veio conhecê-la. Prometeu ajudar nos estudos e na criação da menina. Não apareceu outra vez nem ajudou em nada.

Dorinha casou com um bom homem. Ana pode escolher com quem ficaria. Para alívio da avó, fora a escolhida. A menina ia crescendo na beleza, na inteligência, na ajuda da lida da casa, nas iniciativas. De repente virou moça. 

O pai apareceu de novo. Ofereceu estudos na cidade grande. Ana ficou de pensar. Passados alguns dias sua decisão fora tomada. A avó sentiu aquela dor de novo. Seu coração estava a lhe dizer alguma coisa. Não sabia o que era. Sua neta faria quinze anos nos próximos meses. O pai prometera uma festa.

Dorinha despediu da filha com palavras de amor e de muitos conselhos. Chorou muitas vezes às escondidas. E muitas vezes o sono não viera. Ficava abafada e o coração não cabia no peito. Os dias se tornaram longos e tristes. Nunca falou com a mãe sobre seus sentimentos. Ainda era só vergonha e respeito.

Numa manhã comum receberam a notícia. Ana havia morrido. Bebera veneno. Fizera isto no dia de seu aniversário de quinze anos. 

Mais uma vez, naquele derradeiro dia, as conversas giraram em torno das normas religiosas.

 "Seu corpo poderia passar na igreja ? Poderia ser abençoado?"

 "Não seria contra a Santa Amada Igreja tal benção?"

Na confusão alguém aproximou de Dorinha e deu-lhe uma carta. Dentro do envelope havia um bilhete. Reconhecera a letra da filha. Uma tia, irmã do pai de Ana, encontrara tal papel deixado por ela. Entendeu a importância e decidira entregá-lo.

Ana contava que seu pai abusara dela desde a primeira noite em que a trouxera para sua casa. Fizera ameaças caso ela contasse os acontecidos. Por aqueles dias descobrira que esperava um filho. No desespero só encontrara aquela saída. Pedia que fosse abençoada por sua mãe e por sua avó. E pedia perdão a Deus...

E Ana nunca estivera tão linda quanto naquele dia. Sua avó lhe enfeitara os cabelos com flores de laranjeiras, suas preferidas. Dorinha lhe vestira com o vestido branco que lhe havia feito de presente para seus quinze anos.

A igreja encheu. Cada qual trazia uma flor branca e depositava sobre o corpo de Ana.

Na igreja, os fiéis nunca ouviram o padre falar palavras tão bonitas. E todos se ajoelharam para serem abençoados.


05/12/2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

QUER CASAR COMIGO ?


                     QUER CASAR COMIGO ?                                     

Nessa ocasião eu já era uma mocinha e, portanto, deveria agir como tal. Vestidos decentes, cabelos presos, embora meus cabelos fossem compridos e lindos, eles não poderiam ficar soltos pois seriam provocativos. Posturas discretas e boca fechada. Assim me diziam que eu deveria ser. Ou seja, eu não poderia ser eu, apenas estar.

No tempo devido minhas férias chegaram e lá se foram nós para nossa terra natal. Haveria de ver muitos amigos e amigas e eu, nesse outro tempo, também estava interessada por aquele moço cuja voz eu jamais ouvira. Ele morava num sítio bem próximo à praça da minha pequena cidade. Ouvi dizer que ele havia ido trabalhar em São Paulo. Será que deixaria a mãe sozinha? Será que ele viria nestas férias? Será que ele gostava de mim? E eram muitas as minhas dúvidas. E nenhuma resposta.

A costureira havia feito um vestido que falava por mim. Era um tecido de crepe de algodão, que chamavam de “anarruga".  A estampa e o modelo eram “mamãe Dolores”. A novela "O Direito de Nascer" havia sido um grande sucesso na televisão e trouxera a famosa personagem com sua simplória indumentária.  Eu guardara aquele vestido para um possível encontro. Ele ficou muito lindo e eu fiquei muito bonita dentro dele.

Da ampla janela do sobrado, onde meu Tio morava, eu avistava toda a praça. Ficaria ali até ele chegar e, então, desceria e provocaria um encontro.

Ele não apareceu.

Minha prima mais velha do que eu, criada por este Tio, veio e me deu um recado. O Afonso queria conversar comigo. Ele era já um moço feito, com profissão, uma casa construída e terrenos e....sei lá mais o quê.
Lá vou eu. Na ausência daquele, chegou o outro. Eram primos e eu nem sabia.

Afonso era um belo rapaz. Educado, gentil, alegre, filho de boa família. Havia parado com seus estudos muito cedo e fora trabalhar. Conseguiu vencer na vida e, agora, queria se casar. Ele me falou belas palavras e razões de sua escolha. Eu ouvi, calada. Fiquei aturdida.

Entre a alegria do amor declarado e a tristeza da falta do outro, escolhi e cai no primeiro. Durante o resto de minhas férias fiquei envolta numa paixão que não era  minha.

Então voltei para o mundo dos estudos, das leituras e da minha rua.
Alguns dias depois uma carta chegou. Um pedido de casamento. Eu com apenas quinze anos. E agora?  Pensei, pensei e pensei. Então respondi ao meu pretendente dizendo de minha pouca idade, dos meus planos quanto aos estudos pois eu queria ser médica e do fato de eu não estar tão certa daquele amor. Aliviei minh’alma.

E a vida continuou. 

Até que, passados outros dias, cheguei em casa após minhas aulas e encontrei minha mãe e aquele minha prima que naquele tempo fora morar conosco para o curso de normalista. Estavam com caras de Madalena arrependida. Acuei e fiquei amedrontada.

Perdi o apetite.

Minha mãe me chamou para uma conversa. Repreendeu-me duramente por ter desfeito do rapaz, por ter recusado um pedido de casamento “daqueles” e de ter escrito uma carta desaforada. Mandou que eu escrevesse outra carta pedindo desculpas e aceitasse o pedido.  Minha prima, desde sempre muito católica e temente a Deus, havia feito aquilo comigo. Na certa era ela quem queria se casar.

E eu chorei pelo não entendido de nada. Eu nada sabia de noivados e casamentos. Sabia apenas do sentimento gostoso que me acometia quando pensava naquele outro que eu jamais iria ver.

Tentei  em vão escrever e pedir desculpas a Afonso. Nunca soube se ele me perdoou. Só sei que ficou ainda mais rico.

O tempo passou e eu não esqueci de Afonso. Lembrara dele com carinho e reconhecimento por suas conquistas na vida. Pedia a Deus que ele me esquecesse e que encontrasse uma moça merecedora de seu valor.
Mas da minha prima eu só lembrava cheia de raiva.

Meu lindo vestido continuou comigo. Acho que mamãe Dolores ficou do meu lado. Aprendi muito dentro de  seu vestido.

21/09/2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CAXOTIM



    Ainda vivíamos naquela casa de portas e janelas de madeira.Todas pintadas de azul claro. Era a última casa da rua que terminava ali. Depois ela continuava em dois caminhos. Um deles virava uma estrada que levava até Calambau, a cidade dos parentes da minha avó, mãe da minha mãe. O outro era uma trilha estreita sobre a grama ou capim, que chegava até a enorme chácara de Dona Zezinha. Era ali que eu e minha irmã buscávamos leite. 

    Apesar dos meus cinco anos já era habilidosa em fazer o pequeno caldeirão girar uma volta inteira segurando-o apenas por sua alça. Sem derramar o leite. Era necessário agilidade e rapidez com o braço. A ciência estava no começar e no parar, senão todo o leite ia para o chão. Fazia aquilo com um sorriso de alegria e triunfo. 

    O meu pequeno grande mundo era todo colorido das matizes da natureza e eu não perdia nada nele. Meus olhos viajavam pelo maravilhoso daquele lugar.

    Defronte a minha casa havia um barranco bem escarpado. Felício, meu irmão mais velho, com oito anos, ficava todo o dia construindo estradas, pontes, postos de gasolina, igrejas e prefeituras na terra macia e cheirosa daquele barranco.

    Papai aproveitava os carretéis de linha, as borrachinhas de enrolar dinheiro, palito de fósforo para confeccionar carrinhos que andavam pelos caminhos construídos naquela cidade imaginária. Meu irmão colocava alguns obstáculos que imitavam nossas estradas de verdade só para ver o carrinho deslizar, dançar e vencê-los. Acho que ainda sou capaz de ver aqueles fantásticos carretéis deslizando pelos barrancos. Felício sempre gostava de brincar sozinho.
Então vinha lá o irmão abaixo dele, Joãozinho, a lhe provocar e até acabar com seu sossego.

   “Mamãe olha o Joãozinho estragando meus carros”, gritava Felício.

    O outro não se intimidava com os gritos, continuava no deboche, escondia os carrinhos, mudava a direção das estradas, destruía as pontes e atormentava o sossego de Felício. Quando minha mãe chegava ele fazia cara de anjo Gabriel. E isto deixava Felício ainda mais nervoso.

    “Vou contar tudo para seu pai...deixa ele chegar e você vai ver”,  dizia minha mãe muito brava.
Joãozinho nem tomava conhecimento destas palavras. E continuava azucrinando o irmão.

    Acontecera que um dia eles brigaram feio.  Acho que a gota d’água da paciência de Felício extravasou. Os dois se atracaram e rolaram na terra. Minha mãe acudiu. Segurou cada um numa mão. E colocou os dois de castigo. 


    Eles deveriam ficar em pé, cada qual de um lado da cristaleira. Deveriam ficar calados, sem rir ou chorar e olhando um para o outro. Ficariam assim até se arrependerem e um pedir desculpas ao outro.

    Felício chorava de vergonha pelo castigo e pelo desgosto causado a nossa mãe. Não sei se pediu desculpas. O choro e a raiva deveriam ser maiores que a vontade de se desculpar.

    Do lado de lá estava Joãozinho a fazer caretas e a rir do irmão, afrontando-o a seu modo de “pouco me importa”. E nada lhe importava ou lhe causava resignação. Minha mãe vivia dizendo “ esse menino não emenda com nada”. Meu pai dizia que o menino tirava a todos do sério. E Joãozinho era só alegria e desarranjo.


    Meu coração ficava dividido entre a tristeza de Felício e a ousadia de Joãozinho.
   
    Um outro castigo marcou todos da família. Após mais uma briga entre os dois irmãos, mamãe proibiu que eles saíssem de casa e, para assegurar sua determinação, vestiu-lhes com nossas camisolas de dormir. Eles deveriam ficar o resto do dia com aquelas roupas e deveriam dormir com elas.

    Mais uma vez, Felício chorou pela vergonha e pela roupa de menina.

    No descuido por outros afazeres, nossa mãe esquecera do castigo e dos filhos. Ao dar pela ausência dos dois fora procurá-los. Encontrara Felício dormindo no chão atrás da porta do seu quarto. Acho que chorou até pegar no sono.

    Não encontrou Joãozinho dentro de casa. Saiu pelo quintal e nada. Eis que, das janelas, ela o viu brincando na cidade do barranco como se ele fosse o construtor, o dono dos carros e o prefeito. Continuava com a camisola como se fosse uma importante vestimenta para se apresentar naquela cidade tão linda.


    Joãozinho era um dos sobrinhos preferidos do meu tio Padre que, além de ter sido o pároco que o batizou, fora também seu padrinho. E um era do outro, cúmplices nas travessuras e no tudo de mal feito por ali.

    Enquanto Felício crescia nas responsabilidades, na timidez e nas vergonhas, Joãozinho crescia nas artimanhas.

    Não sei o que houve, mas de repente Joãozinho recebera o apelido de Caxotim. E o apelido pegou. Era Caxotim de rapadura, Caxotim de goiabada, Caxotim de doce de manga e por ai afora. Nunca soubemos a origem daquele apelido. Só sei que ele também se apegou ao apelido. Fora na época em que ele virava rapaz.

    O tempo passou rapidamente. Joãozinho cresceu, casou e se mudou para muito longe de nós.

    O Caxotim permaneceu apenas para os familiares.


    E, alguns dias atrás, tive um raro encontro com Joãozinho, meu amado irmão e compadre que recusou contar-me acerca do Caxotim apesar da minha insistência. Disse que apenas uma pessoa sabia da tal história. Mas o tio inventor do apelido se fora e nos deixou com nossas férteis explicações. 


    Sempre pensei ter sido devido aos ataques nos doces e queijos, durante as madrugadas, na gigantesca despensa da fazenda de nossa avó. Ele negou minha versão.

    Tenho cá pra mim que dentro deste Caxotim esconde alguma safadeza...

19/11/2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

DORES E FLORES



                       

           


Mesmo perrengada  com algumas dores, coisas de mulher, cumpri quase todos meus compromissos do dia. Deixei para a tarde a melhor tarefa, qual seja passar na minha casinha no caminho de volta a Brumadinho.

Ao sair do asfalto já senti o cheiro da terra úmida devido ao patrolamento da estrada facilitando assim o acesso.
Como sempre acontece, estava sozinha, mas bem acompanhada pelos pensamentos de viajante. Estes jamais faltam. São fiéis companheiros.

O telhado do meu chalé está sendo trocado uma vez que fora mal feito e sempre trouxera problemas com as chuvas. Agora está quase pronto e ficou ainda mais charmoso.

Duquesa e Neguinho correram para a costumeira festiva recepção. Eles sempre esperam por alguma guloseima diferente da ração diária. Não tem sido possível, pois tenho ido lá apenas para as conversas com o pedreiro. Entretanto sempre me sobra tempo para um carinho e uma palavra.  Os pássaros continuam chegando e aumentando em quantidade e diversidade. Outro dia tive a visita de um pássaro Preto. Diariamente tenho visto tico-tico Rei e Trinca Ferro além dos meus queridos canários da terra.

Mas, hoje, a obrigação me fez ir até Brumadinho. Aproveitei  e fui ao supermercado. Muitas lembranças  andaram comigo pelos corredores estreitos e arranjados, sem planejamento. Acabei me perdendo lá dentro. Acho que era isto mesmo que eu queria.
Onde fica o corredor dos vinhos? Eu me perguntava e logo o vi lá. Lindo, repleto dos meus vinhos. E os antibióticos? Então nada de vinho por agora. Paciência. Logo poderei degustar um deles. Ficará ainda mais saboroso.

Logo que cheguei à cidade vi uma vaga perto do local onde deveria resolver uma primeira questão junto a um banco. Olhei para o outro lado da rua e deparei com aquela casa onde trabalhei por alguns anos. A janela de madeira do consultório estava semi aberta. Então me vi lá dentro atendendo todos aqueles pacientes que tanto me ensinaram na minha profissão e na minha vida. Era um trabalho muito árduo, mas toda a equipe se esmerava para suavizá-lo e para que tivéssemos sucessos.

Por alguns instantes parei na calçada. Quase entrei. Não entrei. O encanto poderia se quebrar.

Rapidamente voltei para a minha realidade e lá fui eu ainda cheia de saudades.

As lágrimas me desobedeceram. Também, quem mandou ser tão chorona?

Ali, muito mais que um trabalho, deu-se a efetivação a nível municipal de um projeto nacional para atendimentos às pessoas portadoras de sofrimentos mentais fora dos hospitais psiquiátricos. E a cidade já se destacava e brilhava em tal serviço. Era assim que deveria ter sido desde sempre. Mas o que vimos e o que  a história nos conta é que o louco sempre vivera excluído, segregado e mal tratado pela sociedade, pela medicina e pelos governantes.

Mas ali a loucura apresentava um outro estatuto. Ela era livre e andava livre pelas ruas. E nós, trabalhadores, no meio dela e com ela. Às vezes era impossível saber quem eram os profissionais e quem eram os  ditos "loucos". E loucos somos todos nós.

Jamais esquecerei do empenho de uma profissional de belas artes que trabalhou conosco por algum tempo. Ela sempre inventava modas para sair com nossos pacientes, além das belíssimas produções artísticas de cada um. Agendou uma visita à Casa Fiat de Cultura para uma rara exposição de Rodin e Marc Chagall no ano da França no Brasil.

Conseguiu transporte com a prefeitura, lanches e, além da entrada franqueada para todos, profissionais e pacientes, ainda teriam um mediador para acompanhá-los pelos caminhos das esculturas e dos quadros, apresentando-os às obras. 

Meu trabalho quase nunca me permitia estar em outras atividades com eles. Eu sempre tinha uma agenda cheia com casos agudos e ou graves para acolher e atender. Entretanto, algumas vezes, ousei fazer bolos e biscoitos com alguns deles, então, tivemos deliciosos cafés da tarde. 

Na  semana seguinte daquele passeio, perguntei para alguns sobre a exposição e cada qual contou o que viu, a seu modo. Entretanto o que mais me marcou fora o relato da colega que os acompanhara. Minha colega nos contou que Chico das Tampinhas parou diante da escultura do Pensador, de Rodin, e ali ficou alguns minutos como que tomado pela belíssima obra. Contou também acerca da emoção sentida por Leonardo que tremia ao ver as pinturas.

Terminada a apresentação e prontos para a volta, o tal mediador  elogiou todo o grupo pelo interesse, pela discussão durante o percurso e pela gentileza de todos eles. Ele agradeceu pela oportunidade de acompanhá-los.

Bem, já está tarde e tenho que voltar.

Conversas  afinadas, acordos refeitos e despeço daquele lugar e de seus moradores, meus companheiros Duquesa e Neguinho. Afora os galináceos.

Ao sair meu olhar é convocado a ver as primeiras flores daquele  pé de Ipê Rosa que, junto aos outros,  plantei ao chegar ali. Estavam lindas e minhas mãos podiam tocá-las.

Certamente, minhas lembranças e estas flores conspiraram contra minhas dores. Porque elas se foram...


24/ 10/2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

PROSAMOROSA



                     ... DESCONSTRUINDO O CASTELO DA BRUXITA


Tenho um amor às escondidas de mim.
Um amor suave e intenso que também se esconde de si.
Fica na margem, me observando ao longe, com medo da aproximação.
Ainda posso vê-lo ali, eu e meus preconceitos tolos e infantis.
Naquela rua de mineiros.

Éramos ainda duas crianças.
Ele a me olhar...
e eu a desdenhá-lo.
Sangue italiano jamais se misturaria ao sangue africano.
Assim era o dito do meu pai. 
Aceitei o interdito.

O menino foi embora e nem me dei conta de sua ausência.
O menino virou homem e voltou; 
nem percebi.
E, na sua valentia conquistada, me procura. 
Encontra meu pai.
Resiste. 
Insiste.
Encontro-o na porta. Nossos olhares se tocam...
Ainda posso me ver através do seu olhar.
Era toda encantada.
Naquele instante já não sabia mais de mim.
Difíceis tempos assombrariam minha vida.

Eu sobreviveria por um outro amor:
a medicina.
Laborioso engano.
Nossos encontros continuaram
apesar da distancia terrestre,
apesar da distancia sanguínea.
Os correios passaram a fazer parte das nossas vidas


E escrevia muitas cartas. E recebia outras tantas cartas.
Encontrávamos pelas estradas.
Meu amor crescia a cada dia.
Estava nele o que faltava em mim.
Até que um dia  uma carta decide os rumos:
"Não sei o que fazer... Só sei que vou mal nos estudos e na vida.”

Acho que fora a última carta que recebera dele.
Mais tarde contaram que ele se casara
e que fora estudar no Japão.
Nunca soube se isto acontecera na sua vida.
Mas para mim ele se fora.
No desespero decido também embrenhar noutro caminho.


Talvez a pior viagem da minha vida.
Ai encontrei um outro amor.
Juntei-me a ele e às suas incertezas.
Viveríamos em desvario por alguns longos anos.


Muitas vezes, na sobriedade, buscava a delicadeza daquele das cartas.
No desespero tomei forças e  procurei.
Ele veio e escutou.
Então chorei o tempo da ilusão.


Algum tempo depois
Meu pretenso amor e companheiro se vão
Sobrou meu corpo que ora caiu.

Chegou o tempo da reconstrução.
Ao levantar outro amor se anunciou.


Um casamento no já adiantado da vida.
Muito amor, muita liberdade, nenhuma lei
Vida à deriva.
Mais uma vez o amar não sustentou o viver...
Chegou o instante do fazer,
Alar os filhos foi o tempo devido.

Agora me recolho para,
mais uma vez, começar de novo.
Então, no devaneio, vem a incompatibilidade sanguínea.
Meu primeiro amor que, sabidamente, não está no país das gueixas.
Esse homem que acolhe um convite e vem me encontrar.
E me ama como se tivéssemos ainda no tempo das paixões.
Outros rumos tomou na vida,
certamente perdido na interdição de outro homem:
Um pai dos olhos azuis e dos cabelos louros.
Uma grande altivez e uma úlcera no estômago
a lhe interditar os desejos.

E eu cá entre dois homens,
dos corpos interditados.

Faz-se a hora da desconstrução    


Março / 2014

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ZÉ "O GÊNIO"


    
                            ZÉ "O GÊNIO"


Todos os irmãos de minha mãe moravam naquela cidadezinha, exceto um tio que eu não conhecia e que morava com a esposa e as filhas em Mariana. Ouvia dizer que ele se casara muito jovem. A moça era uma professora lá dos Pinheiros Altos, terra da pedra sabão, aquela usada por Aleijadinho para esculpir os profetas de Congonhas e tantos outros.

Minha mãe vivia muito adoentada e eu me lembro pouco dela. Mas não esqueço das noites frias em que ela esquentava tijolos no fogão a lenha para aquecer nossas camas. Eu dormia com minha irmã mais velha do que eu apenas um ano. Ela era linda. Era mais franzina do que eu e sempre sabia de tudo e, para tudo, tinha respostas na ponta da língua. Eu ficava a olhá-la. Era a preferida do meu pai. Certamente eu sentia muitos ciúmes e queria ser igual a ela. A asma não me permitia segui-la em suas aventuras. Restava-me olhar. E como eu olhava.

Éramos quatro filhos, Felício com oito anos, Joãozinho com sete, Lia com seis e eu com cinco anos. Ainda não sabia de uma outra irmã mais velha. Ela morava na cidade grande com uma tia, sua madrinha.

E como éramos felizes. Nesta época nosso pai já havia conseguido um trabalho na coletoria do estado. Não sabia o que era isto, mas parecia que era muito importante. Minha mãe era uma pessoa muito querida por aquelas bandas. Era a primeira filha de um fazendeiro de prestígio na região e neta de um imigrante italiano.

Minha avó, mãe da minha mãe, nos visitava sempre, isto quando nós lhe dávamos tempo pois vivíamos em sua casa. Não entendia a preocupação dela com minha mãe. Por uns tempos passou a vir mais vezes em nossa casa. Estaria minha mãe adoentada outra vez ? Pensava eu.


Então, numa manhã, acordei com grande alvoroço na minha casa. Gente entrando, gente saindo e ninguém falava nada. Minha mãe presa num quarto. Silêncio total.

Minha avó e umas parentas mostravam-se muito preocupadas. Meu pai fumando um cigarro atrás do outro e com sua costumeira posição de segurar o estômago com a outra mão. A úlcera devia ter  atacado de novo. Parecia nervoso.

Eu, grudada na minha irmã. Como sua sombra. 

E mais pessoas chegando em nossa casa.

Mandaram chamar o Tio farmacêutico da minha mãe. Conclui que, deveras, minha mãe estava muito doente. 

Muita confusão. Eu a olhar. Parecia que as pessoas estavam aflitas.

Desespero total. 

Acho que eu chorei muito.

Ficava ouvindo o barulho dos passos daquela gente nas tábuas da sala da minha casa.

De repente uma trégua seguida de um suspiro. A alegria tomou conta de todos.

Minha avó sai do quarto onde estavam com minha mãe. Chama meu pai e diz que nascera um menino.

Que menino ?

Era mais um irmão que nascia. Então a doença era um filho...

Passados os primeiros tormentos escuto uma pergunta:

-" que tal o nome de Eugênio ?"

Pediu, piedosamente, minha avó. Seria uma homenagem ao Papa Pio XII. Ele também era italiano e morrera havia poucos anos. Seu nome  era Eugênio Pacelli.

Meu Tio Padre, irmão da minha mãe que, até agora só ficara rezando suas orações em latim, concordou, desde que viesse acompanhado pelo nome de José. Deveria honrar o patriarca da Sagrada Família. 

Meu pai aceitou tudo. 

Ganhei um irmão com um nome muito esquisito, José Eugênio. Eu e Lia, minha irmã, logo queríamos conhecê-lo mas nossas entradas foram barradas. Diante de nossa insistência e meu pai, sempre encontrando boas saídas, deu-nos umas moedas e pediu que fôssemos comprar uma chupeta para o menino.

Saímos felizes com aquela tão distinta tarefa. Foi um passo lá e outro cá.

Quando voltamos encontramos todos em volta de minha mãe. O que teria acontecido?  Cadê meu irmão? 

Para nossa surpresa ele estava sozinho naquele berço que já fora de tantas outras crianças. Meu irmão era muito pequenininho. Nem tinha forças para abrir os olhos. Eu e minha irmã ficamos ali a cuidar do mais novo membro da família.

Mas, por sorte daquele que acabara de nascer, chegou meu pai e deparou com a carinha dele toda suja de uma massaroca branca. Vai logo limpando e nos  pergunta o que havíamos feito.  

E foi, no seu primeiro dia de vida, que aquele menino mineiro comeu seu primeiro pedaço de queijo.


 -" Na venda não tinha chupeta..."


18/09/2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ERA UMA VEZ...


           
                    ...UMA LINDA HISTÓRIA DE AMOR


   Era uma vez uma rua nova num bairro que, de tão velho, tinha o nome de Museu.
   
   Ali viviam muitas famílias, também novas, com seus filhos.
   
   A rua, sempre ao entardecer, se enchia daquelas crianças e seus coloridos. Cantavam, brincavam, brigavam e cresciam.

   Depois, a Rua ganhou nome, e seus moradores se tornaram adolescentes.
Então começaram os namoricos. Alguns permitidos e outros  proibidos.

   Um menino chamado Carlinhos apaixonou pela vizinha. Filha única da costureira. Ele era ainda muito jovem, mas já sabia o que queria.

   A moça, amiga da outra vizinha, tinha um nome diferente e diferente era seu jeito.
   
   Luiziane, era assim que se chamava.

   Ela bem que gostou do rapaz mas não sei o que aconteceu que não deu em namoro.

   A obediência aos pais era a regra.

  Carlinhos cresceu mais um pouco; estudou e passou no primeiro concurso de gente grande. Agora virou importante.

  A mocinha sumiu do mapa daquela rua.

  Um dia a irmã do moço pediu para levá-la à praça. Queria passear e, quem sabe, ver também o seu amado.

  Lá se foram os irmãos dar voltas na praça da cidade no domingo a noite.

  A irmã queria comer pastel. O bar era logo ali. Entraram. E, logo ali, apareceu a fada encantada do irmão.

  Ela, a mocinha dos amores de Carlinhos, estancou seu olhar no dele.
A irmã viu tudo e não teve dúvidas: o cupido lançou sua flecha e enlaçou o destino dos dois jovens.

  Namoro. Noivado. E aquela rua assistiu o casamento mais esperado do ano.

  Logo veio o primeiro filho e a moça virou mãe.

  Carlinhos virou pai.

  E os dois, viviam muito felizes.

  A moça que naquele tempo, era tão jovem ainda, virou uma  mãe muito brava. Às vezes tremia as mãos de tanto nervoso. Ainda bem que, nestas horas, Carlinhos ficava mais doce do que já era.

  Outras vezes a Tia Luiziane  ficava tão boazinha que a meninada ia toda para a casa dela. E todos amavam dormir lá e esperar o café da manhã que ela preparava com todo carinho.

   Vai entender as mulheres...


   O tempo passou mais um pouquinho e aquela moça foi se tornando mulher, dona de casa e fiel companheira.
    
  Então veio uma filha e ela virou mãe de novo.


  Se o primeiro filho era um anjinho como o pai, agora veio uma menina danada que nem a mãe nos dias de braveza.

   E, aos 25 anos, Luiziane já era mãe de família.

  Mas, como nem tudo são flores, Luiziane chorou muito quando viu sua mãe costureira morrer subitamente. Do coração.

   Então cuidou com esmero do Tio tão querido. E mais uma vez chorou muito quando seu tio se foi.

   Mas ela não sabia o que estava por vir.
  
  Um dia a tal irmã do Carlinhos perguntou-lhe quais seriam seus planos para o futuro. Ela emudeceu. Ficou ferida.

  Passado algum tempo voltou a estudar. Formou e foi trabalhar. Os filhos cresceram e foram para outra cidade.

  Ela também criou asas e voou bem alto.

  Mas o ninho daquele casal continuou  recebendo muitos filhotes.

  Agora, Luiziane e Carlinhos voltaram a namorar.


  A rua onde eles moravam ficou velha mas ainda floresce em toda primavera.

  Acho que eles continuarão felizes para sempre...