terça-feira, 29 de setembro de 2015

VIAGENS POR SÃO PAULO - FINAL



                         
                       FINAL DO TERCEIRO DIA




   Ao sairmos daquele espaço que ocupava mais de um quarteirão, perguntamos ao porteiro onde poderíamos pegar um táxi ou um ônibus que nos levasse até o Museu do Catavento, outro local que gostaria de conhecer por sugestão da minha cunhada metade mineira - metade paulista, moradora na bicentenária cidade de Itapetininga (SP).

   -" é só virar a primeira a direita e seguir reto até o final. Lá tem um ponto de ônibus e é só perguntar se eles passam na antiga prefeitura."

   E ele nos explicou que o tal museu funcionava na antigo prédio da prefeitura de São Paulo. E lá vamos nós para nossa próxima visita. Seguimos reto, sem sair do passeio e viramos à direita. Eis que neste mesmo passeio, rodeando o Museu da Imigração, deparamos com vários homens deitados de barriga para cima e com os braços estendidos ao lado ou sobre a barriga,as pernas esticadas e cruzadas. Parecia que aguardavam por algo. Estavam limpos, com bolsas ao lado, alguns jovens, outros mais velhos, mas todos na mesma posição. Não havia uma só mulher. 

   Mais à frente havia uma rua à esquerda onde, na esquina, três homens muito negros conversavam entre si e com  uma jovem, também negra. Pareciam irmãos. Só então entendi tratar-se de imigrantes, moradores de rua , doentes mentais e os quatro da esquina seriam haitianos ou africanos. Naquele lado da gigantesca construção ainda funcionava um espaço para acolher pessoas em condições de vida sociais vulneráveis.  

   No ônibus ainda fiquei com meus olhos diante daqueles homens e quis saber quantos havia ali. Fazendo uma regra de 3 simples, calculei que: para cada dois metros encontravam-se cinco homens deitados. Eles ocupavam cerca de 50 m dos 200 m que havia nas laterais do quarteirão. Logo, deviam haver em torno de 125 homens deitados e nos vendo caminhar numa direção desconhecida.

   Chegamos numa praça que mais parecia uma cidade abandonada. Mas logo vimos os jardins externos ao belíssimo prédio do Museu do Catavento. Lá dentro viajamos pelo tempo e pelos espaços cósmicos. Vimos os planetas, as galaxias, as formações estelares e centenas de outras coisas. Tratá-se de um museu interativo, cultural e educacional, dividido em quatro espaços: universo, vida, engenho e sociedade, com 250 instalações.

   Na verdade o prédio em estilo italiano, eclético, fora construído de 1911 a 1924 para abrigar o Palácio das Industrias que, depois de desativado, deu abrigo à prefeitura municipal de São Paulo até 2004.

  Bêbada de cultura. Alegre por ver o Catavento lotado de crianças e pais. E perplexa com a frase na parede:

   "Há mais estrelas no espaço do que a soma dos grãos de areia de todos os desertos e praias da terra, algo em torno de 70.000.000.000.000.000.000.........."

   Saí dali com a certeza de que, sendo assim como dizem os físicos e astrônomos, eu devo ter uma estrela no céu. Somente minha.

   Nesse momento, sentadas nos bancos externos ao museu e tiritando de frio, tentávamos ver por onde ficava o Mercado Municipal. Logo chegou meu irmão e minha referida cunhada, que viajaram para me darem a honra de tê-los ao meu lado por algumas horas. Estávamos nos comunicando desde cedo. Dissemos a eles que queríamos ir ao Mercado e ele com seu jeito mineiro: 

"- olha ele ali`"

  Olhamos em direção ao local indicado e lá estava ele. Do outro lado daquele Parque Dom Pedro, onde se localiza o Catavento.

  Comprei queijo árabe e pães sírios. Aguardamos a fila do famoso pão com salame e os tais pasteis gigantes.

  Seguimos para Tatuapé, em casa de amigos. Assisti o jogo do Corinthians, entre corintianos e, obviamente, torcendo contra. Afinal sou atleticana.

   E meu querido irmão nos levou de volta ao distante Brooklin. Dormi em berço esplêndido.

   Amanhã será o encerramento deste nosso Encontro.



                               QUARTO DIA



   Naquela manhã aconteceriam os trabalhos e conferências mais importantes, sem intervalos para lanches ou almoço. E para lá fomos nós duas. Chuva e frio.

    Não quero deixar de falar da conferência, Imagens Sonoras, proferida por um jovem diretor de orquestras de São Paulo que nos brindou com os sons e a frase " O Espelho deveria refletir melhor antes de devolver nossas imagens".

  Saímos às quatro horas com os estômagos na boca e por ali mesmo resolvemos almoçar. Esqueci que ali era o World Trade Center. Pedi uma massa verde com molho de tomates; afinal era um restaurante italiano. Um vinho tinto para acompanhar, com buschettas e alguns pedacinhos de queijo. O adiantado das horas impossibilitaram a ida ao teatro Renaissance, com a peça " Loucas por Eles", indicada por outro amigo de BH.

   Assim que cheguei ao hotel arrumei minha mala e fui para a cama. Não sei se foram os tomates com seu molho ácido ou se fora a acidez da conta daquele almoço. Não consegui sair da cama.O estômago dava voltas e revoltas. Nosso vôo de volta seria muito cedo no próximo dia.


                                          
                     QUINTO E ÚLTIMO DIA

  
   Dentro do táxi ia me despedindo de São Paulo, lamentei não ter conseguido ir a nenhum dos quase 50 restaurantes especializados em comida mineira dos "meninos de Senador Firmino", pequena cidade que faz limite com minha querida Brás Pires, na Zona da Mata Mineira. Havia levado na minha carteira os endereços de oito deles. Prometo aos meus vizinhos mineiros que jantarei em algum deles da próxima vezE prometo também que irei ver meu primo e amigo de infãncia, Waguinho, profundo conhecedor na arte de supervisionar garçons em hotéis daquela megalópole.
   
   E da janelinha do avião eu ia vendo e rindo dos quero-quero disputando a pista de decolagem com aquelas desengonçadas e barulhentas aves de metais. Os pássaros faziam lindas coreografias com suas asas e seus vôos rasantes. 

   "- esse trem avoador é muito danoso", pensava eu.

   Cheguei na rodoviária de Belo Horizonte, onde minha filha, demorara para me apanhar porque era 7 de Setembro e o trânsito estava cheio de desvios.

   Bem, em casa estava eu novamente. 

   No próximo ano, 2016, haverá o X Congresso da Associação Mundial de Psicanálise na cidade do Rio de Janeiro com o tema "O Corpo Falante - Sobre o Inconsciente no Século XXI"

  16/09/2015






terça-feira, 22 de setembro de 2015

MY FATHER'S NAME



     My father was born in 1919. He always took pride in saying his name, chosen by his mother. A tribute to the great British Lord who bravely fought against Napoleon in the famous battle of Trafalgar. What my father didn't know, I guess, is that the fearsome admiral was mortally injured in that battle, despite the British Navy's victory. But this doesn't matter to my father and neither to the great stories of his life.


    He is ninety four years old and still sane, joyful and full of memories from his childhood, his adolescence and his adult life as a family father, musician, politician, driver and public employee. He never hid his love for the theatre, Dalva de Oliveira and Vicente Celestino . Fourth born from a family of eight men and a woman, the boy grew up doing small choirs forhis mom. His father, a small business traveller, showed up once in a while to make another baby and get the money his wife gathered from selling mocotó jelly made by herself, eggs and the chicken she raised.      
    My father was chosen to do the deliveries, receive the payment and give the change. He learned rapidly to calculate and was never wrong. However, if in one hand he had the responsibilities of a grown up boy, on the other he was devilish and was always getting into trouble. Back then, the punishments and the beatings were at the same level of the devilry. More than once my grandmother broke a quince stick on his back.
     Desperate to educate that son, his mother asked for the Priest's special blessings, her dear friend. He gave her advices and a brilliant idea. Her son, old enough to the catechism, was going to be one of his acolytes. There went Nelson assisting the Priests latin masses, cleaning the church, helping the sick's communion, on the extreme unction of the hopeless, visiting the rural areas, making candles, funerals and so on.    
    My grandmother was joyful with the boy's manners and righteousness. Or she thought so. Her son kept doing his devilries, a lot cleverer now, getting rid of the punishments by blaming a younger brother or cousin for his acts. And he always succeeded. He was already a saint due to his religious activities.

    There was a funeral on that day and the children wanted to know who had died. Wanted to see the dead body. My grandmother's mischiefing son did not tell what he had seen before closing the church's huge and heavy doors. He was supposed to leave just a crack open to avoid cats, dogs and other animals to get into that holy place. After all, there was a coffin, no matter how poor, and a dead woman with no family.

    My father knew her to be Banguela (toothless). A woman who lived on the streets, but not because her family had abandoned her. It was her, at the age of sixteen, after losing her beloved, that also lost her wits and lived wandering through houses.

    He wasn't scared of her like the other boys, all it took was her to show up on the streets and the boys vanished. That little admiral used to give her goodies and enjoyed her madness. But she was getting cranky and already dragged her legs while walking. Her knees got arched. The rotten teeth were falling. The town's dentist promised her a denture. She said it was the devil's laugh and did not accept. An ugly character to the eye.

    Banguela died and they had to stretch and bind her legs to close the coffin, my father heard. An acolyte sees everything. As usually happened, at the sunset the children got together in the church's square. They wanted to see who had died. They waited until the night came. To prove their courage, they gambled, and a few went to see the dead. After they overcame the difficulty to push those heavy and noisy doors, they set course to the candles.

    They needed to open the coffin. With their little shaky hands they managed to set loose the screws. And then the dreadful happened.
     
Banguela's loose kneesbentand, with a singlestrike,threw the coffin's lid to one side whileher body fell on the other. The children were crying, screaming and running away.

   As my father says, a few still running to this day.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

VIAGENS POR SÃO PAULO- SEGUNDO E TERCEIRO DIAS



                     SEGUNDO DIA


   Este era o dia de abertura do nosso Encontro Americano de Psicanálise. Minha amiga, Marina, naquela primeira noite, ficou olhando para o prédio do outro lado da rua, cujas luzes de todos os andares permaneceram acesas durante toda a madrugada. Eram grandes espaços por andar, sem divisórias, onde trabalhavam várias pessoas. Entretanto, à noite quase não se viam trabalhadores por ali. Arrisquei a hipótese de ser uma empresa com limpezas noturnas. 

  -"Mas é preciso estarem todas as lâmpadas acesas em todos os andares num só tempo?" Era ela com seu estilo ecológico em tempos de energia com altos custos e propagandas para economias do gasto da mesma.

  Pela manhã as luzes continuavam acesas, mas, agora, foi devido ao tempo nublado, escuro e frio. E eu que, enganada com a possibilidade de muito calor, não levara roupas adequadas àquele clima.

  Mesmo assim resolvi sair para uma caminhada. Fazia-se necessário estar comigo pelas ruas daquele Brooklin paulista. E lá fui eu. Não sai do passeio. Queria fazer contornos. Então encontrei um passeio que não acabava nunca. Quanto mais eu andava mais distante eu ia ficando do hotel. Voltar?  Jamais. Brinco com o fato de ter nascido sob o signo de câncer mas jamais andar de lado ou para trás. Sempre para frente. Numa grande  esquina, ainda em torno do tal terreno, deparo com cruzamentos de imensas avenidas e viadutos. Parecia que só eu andava a pé por ali. Comecei a ficar temerosa mas não parei. Minha pernas caminhavam num mesmo ritmo desde a saída. Aquilo parecia uma subestação de transmissão de energia elétrica como as que a gente vê por aqui da nossa tão grandiosa CEMIG.

   E cheguei na Av Das Nações Unidas. Estava em casa. Será? Decidi ir além da rua do hotel. Então deparo com belas praças arborizadas por centenárias espécies brasileiras e encontrei restaurantes aconchegantes.

  Voltei de alma lavada. Havia andado mais de uma hora. Agora era esperar para o almoço e a abertura do meu Encontro; afinal fui até São Paulo com tal propósito.

   Como não podia deixar de ser, muitas roupas bonitas, agasalhos de todos os gostos e cores e muitos echarpes argentinos. Feito o credenciamento, assistidas as conferencias de abertura com o convidado especial da Argentina, voltamos para o hotel e de lá, ja no inicio da noite, para o coquetel numa outra localidade.

   E terminou esse segundo dia com champagne, salgados e  risoto de sei lá o quê.



                  

                TERCEIRO DIA

  Uma extensa programação nos aguardava nesse dia, mas minha grande companheira de congressos e de fugas de congresso, sugeriu passeios pela capital. Aceita a sugestão, saímos perguntando sobre a estação de metrô Berrini e os paulistanos nos responderam com gentilezas e certezas.
  
   Lá  fomos nós entrar naquele tubulão atravessando avenidas que eu vira durante minha caminhada de ontem e não sabia do que se tratava. Pois bem, eram passarelas para as  estações do trem subterrâneo. Marina na frente e eu atrás como uma verdadeira mineira. Linha amarela até a Estação da República e de lá, linha vermelha, até o Brás. E sobe e desce, e sai e entra. Toda uma multidão apressada por escadas rolantes como se perder alguns segundos fosse vital em suas vidas desenfreadas. E eu olhava tudo aquilo; e dava muitos "fora" por aqueles concretos afora. Ria de mim mesma.

   Finalmente chegamos no Brás. Perguntamos  como fazíamos para chegar ao Museu da Imigração, escolha minha para aquela manhã.

  "- É só atravessar aquele pontilhão e seguir reto."

   E o tal do pontilhão deveria ter tantos anos quanto a estrada de ferro que passava sob ele. E foi ai que iniciamos nossas fotos. Havíamos saído do primeiro mundo e caído no terceiro mundo imundo do outro lado.

   De repente eis uma construção encantadora, majestosa, recém restaurada a convidar-nos para entrar. Era o Museu da Imigração que nos encontrou perdidas por lá.

  Entramos e logo vimos corredores que nos levaram de volta ao tempo.

  Subindo uma escadaria deparamos com uma carroceria de caminhão quebrada ao meio, lotada de tijolos caídos uns sobre os outros. Nos tijolos, gravados na própria cerâmica, lia-se em vários idiomas a palavra tijolo. Era  a exposição "Migrar: Experiencias, Memórias e Identidades" relatando a imigração como atividade permanente na história da humanidade.

   Então foi impossível não lembrar, naquele momento, da fotografia do menino morto, afogado em uma praia turca, que corria o mundo e pedia paz

   Bem, no final do século XIX e inicio do século XX, chegaram ao Brasil imigrantes de mais de setenta nacionalidades em busca do "sonho da América". Vinham substituir o trabalho escravo uma vez que a abolição da escravatura havia se dado naquele final de século. Não me proponho aqui  discutir tal troca do ponto de vista da sociologia e da vergonha do Brasil diante destes fatos. Mas buscara ali  histórias destas pessoas partidas. Deixaram partes de si nas suas distantes terras para reconstruir outras partes por aqui.

   O dormitório com suas inúmeras beliches e  gavetas semi abertas mostravam cartas escritas por parentes dos vários países deixados para trás. Cada qual na sua linguá-mãe.

   As imagens e sons daqueles imigrantes ainda vivos falando do que deixaram e os objetos que conseguiram trazer na travessia do Atlântico. Eram sapatos, máquinas de costura, uma maleta de couro, um vestido e tantos outros. Como se cada um daqueles objetos fosse uma parte deles daqui e de lá.

   Na exposição de fotos em grandes painéis em preto e branco numa moderníssima projeção, entrei no olhar de uma menina que acompanhava a mãe e uma outra menina menor. Pude sentir a angústia que se instalara em seu coração. Angústia do desconhecido e do por vir.

   Sai daquela gigantesca construção para os também gigantescos jardins internos. Tinha dentro de mim aquela menina a me pedir acolhimento. 

  Tomei café e fui embora. 

  Eu que  havia ido ali procurar registros do meu bisavô italiano mesmo sabendo que ele chegara no porto do Rio de Janeiro, agora saia dali com milhares de imigrantes atrás de mim. Ou eu atrás deles?

  Ainda muito a contar deste sábado por São Paulo


15/09/2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

VIAGENS POR SÃO PAULO




                                    PRIMEIRO DIA
                                         
       
   A decisão em participar do Encontro Americano de Psicanálise em São Paulo já havia sido feita desde o início deste ano, apesar da viagem de avião, conforme combinado com uma grande amiga, viajadeira desse mundão. Então vamos lá. Decidimos ir no dia anterior ao início do mesmo para aproveitar a cidade antes dos intensos trabalhos que seriam apresentados no tal  VII ENAPOL ( Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana).

   Ainda na rodoviária de Belo Horizonte onde fui deixada pela minha filha para pegar a "conexão rodoviária-aeroporto de Confins", deparo com um jovem, único passageiro a esperar, com uma grande bagagem incluindo uma caixa de papelão que me chamou a atenção. Ele pediu que eu tomasse conta de tudo aquilo porque, estando viajando desde o amanhecer, precisava ir ao banheiro. Portanto meus olhos puderam passear por tais bagagens e por aquele embrulho. Seria um tambor de percussão? O moço, um belo homem negro com sua performance, me pareceu um músico. Não resisti à pergunta. 

  -"Não. Sou escultor em madeiras. Faço imagens sacras. Sou de Mariana".- Respondeu o artista com a simpatia dos mineiros. E nosso ônibus chegou. Entrei. Ocupei meu lugar. Logo apareceu outra passageira com o mesmo número do meu assento. Achei que daria confusão mas logo ela sentou-se em outra poltrona. E o meu escultor dera um sorriso e fora para trás. Em Confins ele passou rapidamente e me deixou um cartão de visitas. Aproveitei e dei-lhe um meu também. Deste blog.

   "-Oh meu Deus, lá vai eu entrar neste trem que avoa!" Era eu e meu medo de avião. 

   Obviamente de olhos fechados na decolagem e por bom tempo dos cinquenta e cinco minutos até meu destino.

   Chegamos. Pegamos um táxi para nosso hotel no belíssimo bairro do Brooklin próximo de onde aconteceria nosso Encontro. Digo ao motorista que no final da década de setenta eu vinha muito a Santo Amaro visitar minha irmã, recém casada, que morava próximo ao Bairro Jardim São Luís e onde ainda residem parentes mineiros de seu marido. Ele foi logo me dizendo: "É o bairro onde moro há mais de vinte anos". Portanto estávamos em casa.

   Finalmente chegamos ao hotel. Já era mais de meio dia. Almoçamos ali mesmo e já saímos para o centro da megalópole, rumo Av Paulista. Mais precisamente para o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. 

   Então qual não é nossa surpresa quando ao lado da inscrição MASP, havia a seguinte inscrição: "HISTÓRIAS DA LOUCURA: DESENHOS DO JUQUERY" . E foi para lá que nos dirigimos. 

   O Hospital Psiquiátrico do Juquery fora criado em Franco da Rocha (SP) em 1898 e teve sua Escola Livre de Artes Plásticas até 1956.

   As frases na entrada da exposição nos convocou a refletir:

   "Os homens são tão necessariamente loucos, que não ser louco seria uma outra forma de loucura" (Blaise Pascoal)

   e,

   "Não é confinando seu vizinho que alguém se convence de sua própria sanidade" ( Fiódor Dostoiévski)

   A exposição do conjunto com 102 obras foram feitas em materiais comuns como papel e lápis, em formatos pequenos, provavelmente desenhados antes de 1948 pelos internos daquele nosocômio.

  Meus olhos dançavam de um para outro, tentando entender as histórias dos pacientes ali contadas em desenhos de inúmeras variedades. Era a loucura estampada em formas. Comprei o livro da Exposição para presentear uma amiga de Betim  e nele leio a seguinte frase de Nise da Silveira:

                "Em decorrência do avassalamento do consciente pelo inconsciente o indivíduo perde o contato com a realidade e desadapta-se do meio onde vive. É internado nos tristes lugares que são a instituições psiquiátricas. O ateliê de pintura será um oásis, se o doente tiver a liberdade de exprimir-se livremente e ai relacionar-se afetivamente com alguém que o aceite e procure entendê-lo na sua peculiar forma de linguagem"

   Seguimos para outro piso. Agora bem mais ameno com a exposição "A Arte da Itália: De Rafael a Ticiano" e nossos olhos se embriagaram com o colorido das pinturas. " A Virgem  Maria e o Menino com São João Batista Criança" de Sandro Botticelli datada de 1500 . Outras tantas obras do período Renascentista até o Barroco. Acho que ficaria por ali não fosse outro piso a nos seduzir com a exposição: "Arte da França: de Delacroix a Cézanne" onde parei diante dos quadros "O Pobre Pescador" de Paul Gauguim (1896) e "As Meninas Cahen d'Anvers " de Renoir. Então não pude deixar de constatar através da arte, mais uma vez, as desigualdades sociais e econômicas do mundo e do nosso Brasil. E meus olhos viram aquilo que só o coração sente.

   E já era noite quando caminhamos por aquela avenida tão glamourosa em direção ao Conjunto Nacional com sua localização privilegiada e suas grandes livrarias. Ai sentei e me deixei descansar. Algumas ligações de BH.

   Voltamos para o hotel embaladas pelo imperioso daquelas imagens em São Paulo. No dia seguinte iniciaria nosso encontro com o título "O Império das Imagens".




08/09/2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CORAGEM, FÉ E ASAS





    Há uma semana Mina acordou diferente. Não entendia o que se passava com ela e nem procurou saber do que se tratava. Entretanto, lá pelas tantas da manhã, percebeu algo estranho nas luzes do dia. De repente deu-se conta que havia colorido no ar. Uma alegria estampou em seu rosto e quis falar disto para alguém. Precisava contar a novidade, afinal estava escondida e isolada já havia três meses. Levava uma rotina de compromissos e agendas cheias, e nada a demovia deles. Agora, tomada de assalto pelas cores do mundo, abriu os braços e encheu os pulmões de um novo ar.

  Onde estariam as cores até então?  Por onde estivera sem que percebesse as matizes da natureza? Pensava ela com as idéias encaracoladas e amarradas frouxamente umas às outras. Não lembrava de nada que pudesse ter-lhe causado tamanho desânimo e tamanha falta de vontade com a vida. 

  E foi procurando as respostas que as lembranças dos últimos meses vieram desconforta-lhe o coração já tão envelopado e lacrado. Havia fugido de si. Escondera-se nos afazeres. Dormia tarde todas as noites e levantava-se ainda muito cedo. Era preciso ajeitar isto e aquilo. Nada podia faltar do que se incumbia no seu dia de vinte e quatro horas.

  Mas naquele dia ela quis ver as cores que apareceram sem que ela soubesse de onde haviam surgido. Simplesmente surgiram aqui e acolá. Quis adiar tudo. Tomou seu café, abriu a janela de seu quarto e voltou para cama. Não estava desanimada. Apenas queria sentir seu corpo até então amortecido e engessado por aqueles tempos.

  Com sua inquietude marcante, levantou-se novamente, ajeitou sua cama e fora trabalhar. O dia fora longo, pesado e cansativo dentro do que havia proposto para ele. Ao voltar para seu apartamento, instintivamente, enviou uma mensagem no celular para aquele amigo de quem nunca soubera nada. Também não sabia se o amava tanto quanto dizia amar ou se o amava naquilo onde ele era o avesso dela. Escrevera acerca das cores daquele seu dia. E enviou um grande abraço. Nada mais. Não esperou resposta. Não carecia da felicidade do outro. A sua já bastava.

  Tomou eu banho. Fez seu último lanche da noite. Brincou com Margarida, sua bela e companheira  gritante calopsita que logo acomodou-se em seu ombro. Como todas as noites lá se fora Mina aos seus estudos. Calculava que hora iria dormir. Dividia o faltante do tempo nos textos didáticos de seu curso atual e em literatura. Nesta ordem. Achava que a leitura dos escritores criativos lhe trazia um sono restaurador.

  Naquela noite lia Quincas Borba, de Machado de Assis, e se encantava com algumas descrições da cidade do Rio de Janeiro da segunda metade do século dezenove. Fora dormir no horário determinado com o perfume das rosas dos jardins de Sofia.

   Acordou com o som de uma chamada no seu celular. Não conseguiu identificar o chamador. Seria sua mãe? Pensou que tivesse lido o nome dela. Ou seria seu último namorado. Atendeu sem saber quem era. Era o destinatário de sua mensagem. Reconheceu-lhe a voz rouca. Ainda meio dormindo e meio acordada brincou na resposta "sou a Bela Adormecida". E dai ele não parou mais de falar. Ela sabia do tanto que ele gostava de falar e deixou-o falar. Até lembrar que estava em outro estado. Mas continuou falando ao saber que as operadoras dos celulares eram as mesmas e permitiam tais delongas. Disse que viria no dia seguinte para um trabalho e a convidara para um jantar. Iria busca-la em seu apartamento. Conhecia bem a cidade.

   Naquele resto de noite Mina dormira como uma adolescente. Afogueada. No dia seguinte levantou ainda mais cedo que o previsto e esperara pela faxineira. Aparecida notara a moça mais feliz que as semanas anteriores. As duas se juntaram no serviço das limpezas. Parecia que Mina limpava a si mesma. 

   A tarde chegou logo. À noite ela estaria pronta para o encontro. Gostava do estilo casual. Escolhera uma blusa colorida, com o vermelho predominando, tal qual estava seu dia desde ontem. Ela estava deveras feliz.

   Ele chegou na hora certa e lá se foram os dois como velhos amigos. Ou velhos enamorados? Conversaram, brincaram, riram, comeram. Estiveram juntos por quase quatro horas. Ela se esforçando para parecer casual. Já faziam dois anos que se viram pela última vez. Mas para ela sempre era uma primeira vez. Nenhum deles se atreveu ao convite para adentrar pela noite. Embora ela soubesse que esse era o desejo de ambos.

   Marcos deixou-a em casa e se foi. Não se tocaram. Ela, naquela noite não conseguira dormir. 

   Havia muitas perguntas sem respostas. Ou talvez ela soubesse delas. Dormiu na madrugada e acordou exaltada. Falara o dia todo. Não conseguia se conter. O amor deveria ser vivido, mesmo que fosse na exaltação.

   Outro dia chegara. Os pensamentos retornaram ao seu ritmo, acelerados mas dominados. Mina pensara que jamais estivera tão perto e por tanto tempo junto daquele homem. Por outro lado percebera que entre eles havia uma grande distância. Talvez um descompasso. Ou, quem sabe um estreito profundo? Havia mesmo algo que os separava. Concluíra dolorosamente que havia entre eles um abismo intransponível. Percebera que Marcos construíra em torno de si um aparato antiálgico, sabedor que era das dores dos amores. 

   Mina que pensara já ter chorado todo o seu pranto por aquele amor amigo, mais uma vez chorou. Muito. Entretanto seu pranto agora tinha uma causa. Ela chorou por um irremediável desencontro.


Funil, MG
02/09/2015