sábado, 30 de março de 2019

2000 curtidas



Hoje tem sido um dia especial.

Emocionar com a Exposição RAIZ do artista plástico chinês AI Weiwei no CCBB (BH) com belíssimos e intrigantes trabalhos.

Ler nas paredes das várias salas da exposição:

"Se uma nação não pode enfrentar o seu passado, não há futuro".

"A história nos ensina que no início das maiores tragédias havia ignorância."

E ter chegado hoje ao número de 2000 pessoas curtindo os "Contos de Rivelli" me enche de esperanças. 


São pessoas de todo o Brasil e de mais de 30 países.

Obrigada leitores

    Maria do Rosário Nogueira Rivelli

30/03/2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

Crônica: Angu doce frito


                                                       *
Na primeira manhã de outono, ainda bem cedo, sai de casa. Após atravessar Betim, Contagem e Belo Horizonte pela BR Fernão Dias, subir o anel rodoviário em direção à BR 040 e viajar quase que totalmente no automático, cheguei a Ouro Branco. É ali que, às vezes no final da tarde, passeio com meu netinho pela feirinha semanal dos pequenos produtores rurais da cidade. Nesta quinta-feira, de novo, saboreamos o delicioso mingau de milho verde "com muita canela né vovó?".

E, após conseguir negar o convite "vovó dorme aqui na minha casinha" saí para Lafaiete aonde cheguei por volta das vinte e duas horas. Viajar pela Estrada Real me leva de volta a muitos outros tempos.

Nesta semana cismei em fazer angu doce, deixá-lo esfriar de um dia para outro e fritá-lo no dia seguinte. Adoçado com rapadura, é claro. Como sempre acontece ficou apenas na vontade. Precisaria do fubá de moinho d'água, do fogão a lenha e de uma boa rapadura. Até que conseguiríamos tudo isto. Entretanto, nos dias atuais, estaria faltando o imprescindível de faltar: a meninada impaciente para esperar o angu cozinhar e para rapar o caldeirão de ferro deixado no terreiro. Ainda fritarei este meu "angu doce frito" na banha de coco da lata branca e verde da cozinha da minha mãe.

Pois bem, após não me lambuzar do dito angu doce frito, fui dormir porque no dia seguinte um compromisso  profissional me aguardava. E a primeira noite deste outono me exigiu dois cobertores. Adorei o frio repentino.

Outono e frio. Um me desfaz em pedaços e o outro me refaz no aconchego.

Minha filha chegara para ir comigo à cidade onde nasci que se localiza na Zona da Mata Mineira. Brás Pires. E para lá nos dirigimos na manhã de sábado. Nesta semana minha tia que olhava com as mãos, que tinha a sabedoria estampada em gestos, que tinha o olhar falante e que se reinventou depois da loucura, deixou-nos. Morreu depois de longos anos acometida de um câncer e da demência consequente ao diabetes crônico. Certamente ela fora cantar e dançar com todos os seus pretendentes deixados de lado. Foi a mulher que mais referências me deixou ao longo de sua vida. 

Visitas feitas. Agradecimentos à prima que dedicou aos cuidados da minha tia por longos anos e com imenso desvelo.

Voltamos numa tarde morna prometedora de chuva. Minha filha encantada com as estradas que, pela primeira vez, desbravava. Eu refazendo os caminhos da infância. E, durante toda a viagem, senti o sabor do angu doce frito, senti os ventos do outono cortando a minha pele e pude sentir os cuidados da minha Tia por todo o meu corpo ainda criança.

Acho que sobrevivi pelos carinhos que vinham para além dos cuidados.

Observação: * Foto feita pela autora à entrada da cidade de Lamin.

25/03/2019


















quinta-feira, 14 de março de 2019

Amores contados: ...que falta ele me fez.

   Foto: Bruxelas  

Ela bem que tentou dar continuidade ao namoro. Ele econômico nas palavras, como era seu costume, apenas enviou uma mensagem dizendo que não estava bem. Precisava de um tempo para si. Ela chorou sozinha por aquele amor que julgava para sempre. Chorou também pelo tempo dedicado ao namorado. Foram quase dez anos. Agora, já com seus trinta anos, chorava também com receio de não encontrar um novo amor. Começar tudo de novo; talvez não tivesse mais forças.

Depois de algumas semanas, ainda apaixonada mas sem importuná-lo com pedidos de reencontros, resolveu viajar. Com férias vencidas no trabalho numa grande empresa de cosméticos pediu para que as mesmas lhe fossem concedidas. Arrumou uma viagem para outro país e para lá se foi.

Dentro do avião conheceu um homem cujo destino era o mesmo seu. Conversaram sobre filosofia, política e amores perdidos. Obviamente que, naquele instante, visse nele sua tábua de salvação. Agarrou-se nela. Estava salva.

Na Bélgica, combinaram de saírem juntos. Pelas ruas de Bruxelas se encantaram com as histórias, as flores, os riachos, a arquitetura. Almoçavam nas praças do centro histórico da cidade ou nos finos restaurantes do conjunto das famosas e luxuosas Galeries Royales Saint-Hubert. No final de semana foram para a cidade medieval de Bruges, capital do estado de Flandres Ocidental. Os vários canais com seus barcos, sua construções medievais, seus castelos, suas igrejas e todo o colorido das flores deixaram Teresa esquecida do recente desfeito amor.


  Foto: Bruges (Bélgica)

E naqueles dez dias de viagem ela, sendo formada em direito, aproveitou para conhecer a cidade holandesa de Haia, sede do Tribunal Internacional de Justiça. Foi até lá sozinha. Sentia um grande peso apertando seu peito. Logo se deu conta que a liberdade lhe doía por dentro. Mesmo assim andou pelas ruas históricas da cidade. Procurou um café e, quando se viu, estava diante de um bar cubano. Ali estava um charmoso Café Havana. Sorriu sozinha aliviada daquele estranho peso. Agora estava acompanhada de toda a alegria do povo cubano. Havia lido, ainda na sua adolescência, acerca da colonização da ilha e os rumos políticos mais recentes. Gostava dela como se gosta de uma terra natal. 

Tomou seu café. Passeou pela decoração do bar. Sorriu sozinha ao entrar no banheiro e ver a identificação: uma típica cubana estampada numa das portas. Voltou leve para o hotel.

Mas o tempo da viagem acabou e a moça voltou para casa. Retomou sua rotina no trabalho. Estranhou que não recebesse nenhum telefonema ou mensagens do seu acompanhante de viagem e dos passeios turísticos. Porém recebeu flores e um bilhete de agradecimento pelos "dias maravilhosos" que passaram juntos. Era casado e havia ido para o exterior decidido pela separação. De volta havia repensado e retomou seu casamento. De novo ela chorou. Nem mesmo sabia porque chorou tanto.

Apesar do trabalho, dos amigos, dos familiares, de novas viagens, nada demoveu dela aquele amor que havia vivido nos dez melhores anos de sua vida. Continuava apaixonada pelo homem que lhe fez mulher. Não conseguia odiá-lo. Sabia do tanto que ele também gostava dela. Mas não sabia o que havia acontecido para o afastamento dele. Neste caso o tempo não havia sido um bom conselheiro. Ela não tinha dúvidas de que seria para sempre. Sendo assim foi reconstruindo no seu imaginário o seu amado. Conversava com ele no silêncio que a cada dia se prolongava mais. Via que tudo em torno a levava até ele. A cor de um carro. O nome de uma cidade no painel de um ônibus. Um sorriso qualquer numa calçada qualquer. Entretanto nem percebera que aquele homem esteve apenas dentro de si. Ela o havia criado para não estar só. Agora estava nas mãos de sua criatura. Então adoeceu de amor.

As amigas, que acompanhavam toda aquela mudança, decidiram que estava passando da hora de Teresa procurar ajuda psicológica. Escolheram alguns nomes e forçaram-na pelo tratamento.

- "Eu não tenho nada a dizer e nem vou deitar naquele divã que fica me olhando do lado de lá da sala." 

Neste tempo ela já havia iniciado suas idas a um psicanalista que ela mesma escolhera. Não suportava mais tanta dor.

Nos primeiros meses saía chorando de dentro do consultório e dizia que não voltaria na próxima semana. Não deixou de ir a nenhuma sessão. Tão logo percebeu o que estava lhe acontecendo. E isto trazia-lhe mais angústia. Até que um dia, caminhando pelas ruas teve o tal de "insight": o homem que amava era tão só um outro que não aquele com quem ficara por dez anos. Aquele ela desconhecia. Chorou muito diante do entendido.

E agora? 

Determinou a não deixar de amá-lo. Ele fazia parte dela. Eram um só. 

Mas aos poucos Teresa foi se envolvendo com outros afazeres. Voltou a sair com as amigas. Passou a ir mais vezes ao cinema. Fez pequenas viagens. O sorriso voltou a aparecer. Aceitou o convite de um colega de trabalho para um jantar.

As sessões de psicanálise continuavam semanalmente.

Depois de alguns anos começou a ficar triste. Era uma tristeza bem diferente. Sem perceber havia enamorado da sua própria solidão. Passou a comprar mais livros. Ir ao cinema sozinha. Até decidir sair da casa dos pais e ter seu próprio apartamento. Estava já com seus trinta e cinco anos. Não havia se interessado por outros homens.

Um dia percebeu que algo havia mudado dentro dela. Apavorou com os pensamentos que ora lhe vinham à cabeça. Era isto! Ela havia desconstruído o homem por quem tanto amou. Restou apenas aquele de fato. 

Então constatou o vazio deixado na sua alma. A existência dele era sua própria vida. E, portanto, a falta dele configurava sua morte em vida.

Não chorou. Apenas decidiu que fazia-se a hora de se reinventar. Caminhou leve pelas ruas da cidade. Entrou numa loja de roupas. Olhou-se no espelho e viu uma bela mulher.


14/03/2019 

Obervações: 1- Um ano do assassinato de Marielle e Anderson Gomes - Quem os matou?

                     2- As fotos são de feitas por mim. 

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crônica: Carnaval de um jovem sonhador



                                  *
Ele concluiu que estava na hora de se afastar das pessoas, das redes sociais, dos acontecimentos políticos que, segundo ele, caminhavam para uma verdadeiro retrocesso de conquistas sociais do seu tão querido país, Brasil. Precisava voltar aos estudos, afinal seu doutorado caminhava a passos lentos e o tempo não pára. Era necessário dar um rumo às suas ideias e colocá-las no papel. Decidiu fazer um retiro neste carnaval. Não queria um refúgio compartilhado nem religioso. Queria mesmo trancar dentro de si, trabalhar e produzir os argumentos para sua tese. 

E lá se foi o jovem para o sítio de um amigo que, ao contrário, optou pela folia de BH. Levou "O Adolescente", obra prima de Fiódor Dostoiévski, que ganhara recentemente da namorada. Sabia que iria precisar de outras leituras além dos vários livros de sociologia, filosofia, direito, política, etc. Seu trabalho deverá discorrer sobre as relações sociais contemporâneas num mundo globalizado que caminha na contra-mão dos direitos humanos. 

Passou num supermercado. Comprou frutas, pães, queijos, café e duas garrafas de um bom vinho argentino.  

Na manhã do primeiro dia alimentou-se muito bem. Abriu seus livros e retomou suas leituras. Chegou a sentir uma grande vontade de escrever e ler, e ler e ler mais. E assim o fez.

Por volta das treze horas decidiu por um almoço bem simples: feijão, arroz integral com muito alho e cebola, ovos fritos no bacon. Não sabia lidar com os legumes e verduras. Na verdade tinha preguiça nas escolhas e nos preparos deles. 

Almoçou bem. Tudo como havia preparado. Uma banana caramelizada com canela para a sobremesa. Pensou em deitar um pouco para relaxar e voltar aos estudos. Mas antes se deu ao direito de ver algumas mensagens e ver como estava seu perfil no Facebook. Buscou suas músicas preferidas e arriscou outras delas. Então deparou com a belíssima canção de Chico César "Estado de Poesia" quando ele escreve e canta:

"...Chega tem hora que ri de dentro pra fora
 Não fica nem vai embora
 É o estado de poesia
 Para viver em estado de poesia
 Me entranharia nestes sertões de você

 Para deixar a vida que eu vivia..."

O moço logo sentiu seu coração palpitar mais forte e lágrimas brotaram dos seus olhos. Já não se aguentava mais com esse 2019. Seus ideias sociais, seus sonhos de um país soberano, grandioso e livre esvaiam-se com a nova política. A ética e a moral que tanto estudava e pregava transformavam-se em ódio e incitações à violência. Não queria acreditar no que via nas postagens dos "amigos virtuais". 

A morte tão prematura e dolorosa do pequeno Arthur, neto do ex-presidente Lula, havia sido a gota d'água para que ele se refugiasse da folia do carnaval. Chorou muito naquele dia. Tinha certeza que chorava pela criança, por seus pais, pelo avô, pelo Brasil e, sobretudo, por si mesmo. 

Nem havia se refeito dos mortos em Mariana, da lama tóxica que matou o rio Doce; dos assassinatos da vereadora Marielle e  Anderson, seu motorista; do incêndio que destruíra partes da riqueza histórica do país; dos mortos  e desaparecidos em Brumadinho, das cenas dantescas da lama assassina; da impunidade dos crimes; da morte do seu querido rio Paraopeba; dos ataques de ódio escancarados em rede nacional; das medidas provisórias nas caladas das noites retirando direitos conquistados  pelos trabalhadores e tantos outros desatinos. 

Pensava em sair do país. Vivia com uma bolsa de doutorado de uma universidade federal ao conquistar o primeiro lugar  numa disputada seleção. Ainda se angustiava com a possibilidade do governo deixar de pagá-la. Mas não! Decidiu ficar aqui, trabalhar e lutar como brasileiro que é. 

Agora, isolado e sozinho, ele chora com seus livros abertos sobre a mesa. Ele sabe onde podemos chegar com a incitação nada velada ao ódio e o amor cego à ignorância. O fascismo começou assim mesmo e ele bem sabe disto. 

Ele que nascera  em finais do regime militar, que estudara acerca daqueles tempos sombrios, que ainda na adolescência a mãe lhe presenteara com os livros "As Veias Abertas da América Latina" do uruguaio Eduardo Galeano e " Batismo de Sangue" de Frei Beto, agora se via desamparado.

Resolveu então fechar seu notebook, voltar às suas leituras, restaurar suas forças físicas e intelectuais para as lutas que se aproximam. E ele sabe que lutar será preciso.

* Pintura de Gisele batista ( Conselheiro Lafaiete - Minas Gerais)

04/03/2019

sábado, 2 de março de 2019

Crônica: A dor do avô

Dizem que pais são para educar e avôs são para adoçar. Certamente não faltaram afetos do homem Lula para seu neto Arthur. Hoje, contrariando a natureza, seu pequeno se vai. No céu os anjos preparam uma grande festa. E uma estrela gigante já ilumina nossas lágrimas.

Observação: Arthur Araújo Lula da Silva, 7 anos, neto de Luiz Inácio lula da Silva, morreu hoje em consequência a  meningite meningocócica, num hospital em são Bernardo do Campo, SP.

01/03/2019