quarta-feira, 22 de julho de 2020

Crônica: Moradia Compartilhada




(Delicadezas em Tempos de Pandemia - XXIII)





Moradia compartilhada

-“Se trouxeram o Rio Xingu até a Baia da Guanabara eu juro que fico com vocês”

“Pois não foi que uma vez eu, único médico daquelas florestas amazônicas, tive que viajar com o tal general, presidente do Brasil na época, só porque o digníssimo queria sobrevoar a região de Tefé. Eu calado, ele cheio de fardas e de distintivos coloridos na lapela. O homem tremia de medo. A chuva caía sem compaixão. Eu, quieto no meu canto, afinal quem está na garupa não governa rédea, já dizia meu pai. Tinha ido atender a um chamado de uma tribo onde a malária atacava sem dó”.

- “Por favor vamos atentar ao nosso objetivo senão não sairemos daqui.” Esta era a Menga, sempre muito objetiva, a colega pediatra aposentada, casada com um canadense prá lá de gente boa e bebedor de finos vinhos.

Vamos ouvir o idealizador do projeto. Fala ai King.

- Pois então, na qualidade de anfitrião e proponente do projeto, gostaria que o meu Fogão ganhasse o campeonato...

- Oh não! Desculpem! Me ajuda ai Jéssica (a bela companheira de King).

- Então amigos e amigas, vamos lá. Eu e King temos conversado muito sobre nosso grupo. Estamos envelhecendo e, em alguns países da Europa este sistema já vem sendo efetivado, ou seja, queremos convidar vocês para vivermos todos juntos?

- Mas o verdureiro próximo a minha casa, na Baia de Guanabara, entrega coisas deliciosas de Minas e eu não sei se conseguiria que ele levasse as frutas e verduras para todos nós.

- Espera ai Jéssica, você está sugerindo que façamos uma comunidade tal e qual os novos baianos? Seríamos assim como “os velhos comunistas”? Gostei da ideia. Poderia até levar minhas cuecas velhas de algodão. Elas me dão muita sorte no amor.

- Atenção pessoal! Temos várias etapas a pensar, estudar e partir para a execução. Quem gostaria de viver numa comunidade assim?

- Eu não tenho nem cartão bancário mas adoro cantar e, se necessário, poderei atender alguns amiguinhos que aparecessem pela vizinhança.

Era Tonico Feliz que logo levantou a mão em sinal de aprovação da ideia e continuou:

-“Mas tenho que perguntar prá Tita antes. Se ela concordar eu topo.”

- Vamos voltar aos projetos. Alguém mais quer falar alguma coisa?

- Eu não quero ficar em quarto perto da Tereza. Nem com porta a prova de som. Ela ronca e parece que tá morta. E vou fazer muitas calcinhas de filó prá vender na feira. Poderia fazer cuecas de filó também. Acho que faria o maior sucesso.

- Companheiros e companheiras temos que eleger o presidente dessa associação para defender nossos direitos a serem conquistados com a implantação deste sistema de moradia. Eu me candidato a presidente.

- Mas se trouxerem o Rio Xingu até cá eu não terei tantos problemas com o entrelaçamento de raízes das vitórias-régias. Gostei dessa ideia. E Ravi e meu filho, chef de cozinha famoso no mundo inteiro, poderão fazer muita comida árabe para nós. Mas já adianto que ficarei por conta dos jardins.

- Pessoal alguém teria sugestão onde seria implantada esta nossa casa? Pois bem quero sugerir a cidade de São Paulo, pois não consigo viver longe dos espetáculos e do glamour das garndes metrópoles. E minha filha poderia nos presentear com sua bela voz e suas performances.

- Tô aqui calado mas pensando nas minhas viagens aos Estados Unidos para meus congressos de endoscopia e tantas “cositas más”. Gostaria que fosse perto de um aeroporto internacional.

Nesse momento foi dada uma pausa para o lanche devidamente organizado por King e Jéssica.

Bananas assadas com mel, canela e queijo, pasteis de guaraná, suco de umbu, vinho para quem é de vinho e uma cachacinha para os mais corajosos.

Todos haviam dado suas opiniões e, quem se absteve, estava implícito que concordava com o grupo.

A partir dai a empolgação tomou conta da reunião. King era puro fogo.

Alguns queriam morar na Serra do Cipó, sob a proteção ambiental do Juquinha. Outros queriam que fossem viver nas alturas da Pedra Menina na Serra do Caparaó. Tonico pediu uma oração prá Nhá Chica abençoar e iluminar aquele projeto.

Chegando ao fim do horário previsto todos concordaram que a alegria foi o tom do encontro. Agora que cada um retornasse para sua casa e pensassem na viabilização do projeto.

Menga pediu que fosse feita a ata desta primeira reunião e assinada por todos com a seguinte introdução:

- “Nesta data de vinte e um de julho do ano de 2020, perdido pela pandemia do Coronavírus, o grupo de médicos sessentões, aposentados e sem ter o que fazer, foi convocado por um deles, King, para uma primeira reunião com o objetivo de apresentar seu projeto de “Moradia compartilhada”. Após discussão e nenhum consenso cada um voltou para sua casa com todas as saudades do mundo dentro do peito.”

21 de julho de 2020

 

 


terça-feira, 21 de julho de 2020

Poema: Vermelhou...

(Delicadezas em tempos de Pandemia - XXII)

Um vento súbito avançou
sobre meu quintal
uma chuva de folhas secas 
dançou no ar
coloriu de outono o chão


Ontem pela manhã
um Tico -Tico - Rei 
me honrou com sua visita
acompanhado da sua rainha

Ontem a tarde
um pássaro grande 
de linhas retas
penacho vermelho na cabeça
agarrou-se no tronco do ipê
da minha cozinha

então um som ôco 
repetitivo
invadiu meus ouvidos

Pica-pau

19/07/2020

domingo, 19 de julho de 2020

Redação Infantil: Biribim



BIRIBIM

Um dia eu estava vendo um vídeo na internet, nesse vídeo aparecia uma cadelinha que se chamava Biribim, ela era uma cadelinha treinada que fazia muitas coisas legais.

Ela fazia tudo que seu dono falava. Ela pulava obstáculos, ficava em pé e deitava quando o seu dono pedia. Era uma cadelinha muito brincalhona e alegre. Eu e meu irmão mais novo, o Lucas, assistimos o vídeo várias vezes, pois gostamos muito de animais, principalmente de cachorrinhos.

Alguns meses depois meu pai encontrou um cachorrinho parecido com aquele do vídeo. Nós ficamos tão felizes, que nem pensei duas vezes e já coloquei o nome de Biribim, só que o nosso cachorrinho é macho, então chamamos ele de “o Biribim”.

Estamos tentando treinar o Biribim, mas ele não nos obedece, mas a gente ri se diverte com ele assim mesmo, acho que ele parece comigo e meu irmão, por isso é um pouquinho bagunceiro. Ele nos passa alguns sustos, mas nós amamos ele demais.

Pedro Otávio dos Santos




Observação:
Pedro e Lucas, com a ajuda da mamãe, Eunice Aparecida, fizeram a redação e o desenho conforme eu havia pedido. Confesso que fiquei muito feliz. E, conforme combinado, compartilho aqui com todos vocês. Abraços Pedro e Lucas e muito obrigada.
19/07/2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Crônica Infantil: BIRIBIM

 (Delicadezas em tempos de Pandemia - XXI)

 BIRIBIM



Ainda nem tinha nome. Estava nas ruas. Tinha o pelo da cor da estrada. Seria sujeira? Pó do asfalto. Cristiano freou o carro e viu aquilo se mexendo. Um cachorrinho perdido. Parou o UNO no acostamento, aproximou lentamente do cachorrinho e viu que ele estava assustado.

-Não vou te machucar. Só quero ver se está tudo bem com você.

Assim o homem falou com o cãozinho. Logo viu que se tratava de um filhote. Nem pensou duas vezes. Convidou-o a acompanha-lo e perguntou se ele queria uma casa e dois amiguinhos. E todo sujo entrou no carro.

- Vejam o que eu encontrei na estrada!

Os filhos olharam e aconteceu aquilo que os adultos chamam de “amor à primeira vista”.

Pedro e Lucas logo foram brincar com o mais novo companheiro.

- Podemos ficar com ele, papai?

- Como vai ser o nome dele?

- Ele está sujo ou tem esta cor de cinzas?

E foram tantas as perguntas que Cristiano nem conseguia responde-las. Mas disse:

- Primeiro temos que conversar sua mãe. Se ela aceitar, vamos leva-lo ao veterinário para nos orientar sobre os cuidados e as vacinas.

Pedro e Lucas sabiam que iriam convencer a mãe para deixar o cachorrinho com eles.

Deram banho no cãozinho e logo viram alguns pelos brancos entre todo o resto acinzentado.

Estava feita a amizade entre os três e com o consentimento dos pais.

Biribim foi o nome escolhido e logo Biribim já ocupou seu lugar na casa. Mas ele queria mais que o espaço da casa e, um dia no descuido, ele saiu pelas vizinhanças. Entrou no primeiro portão que viu aberto.

Ali não Biribim! Ali não!

Ali, naquele sítio, havia quatro cachorros com fama de serem muito bravos. Eles cercaram o Biribim que os enfrentou com muita coragem. Os meninos escutaram a confusão e vieram logo em socorro.

Biribim estava acuado num canto da cerca e tremia de medo. Parecia ferido.

Eunice, a mãe, chamou a vizinha que veio em socorro. Desajeitada feito ela só e mais apavorada que o Biribim, ela tentou afastar seus quatro cachorros, aproximou e o pegou no colo. Ele esbravejava de medo, de dor e de defesa. Tudo durou um segundo, mas o tempo suficiente para que ela visse lágrimas nos olhos dos meninos.

Foi neste instante que Biribim acabou caindo e, Pedro num reflexo de amizade, pegou Biribim no ar, do outro lado da cerca. A vizinha havia esquecido o arame farpado sobre a cerca que arranhou os dois e Biribim tentando se soltar daquela desajeitada deu-lhe uma leve mordida no dedo.

Mas a vizinha ficou muito preocupada de ter ferido o cachorrinho. Pediu desculpas aos meninos. E uma coisa não lhe saiu da cabeça: de onde Pedro e Lucas tiraram aquele nome para seu cachorrinho?

Então resolveu pedir-lhes que, cada um, fizesse uma redação sobre o BIRIBIM e que eles enviassem-lhe para que ela pudesse saber e contar para todo mundo.



BILHETE

Pedro e Lucas

Por favor, escrevam sobre o Biribim e me enviem suas redações.

Peço também que, se quiserem e seus pais autorizarem, que eu possa publicá-las no meu blog, Contos de Rivelli.

Abraços e me deem notícias do BIRIBI

16/07/2020

Da vizinha

                      Rivelli

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A Gata


(Delicadezas em tempos de Pandemia XX)



Princesa rodeava sua dona

Gata manchada

preto, laranja e branco

Mais parecia uma flor.

Num descuido de Clara

pulou em cima da mesa

deitou sobre um dos livros

e leu Freud

“Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”

Saiu assustada

foi caçar um gato

ninguém mais soube dela.

 

Lafaiete, 13/07/2020


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Fábula : O rei cruel

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XIX)

 O rei cruel


Num reino de faz-de-conta o povo escolheu como rei um cidadão desconhecido, mas que se dizia cidadão de bem. Ele asseverava querer mudar os rumos da história daquelas terras temendo que conquistadores invadissem o território uma vez que os últimos reis e rainhas haviam transformado o reino em uma moderna e rica nação.

Os povos estavam divididos quanto suas intenções.

Havia aqueles que, desde os tempos remotos, tiveram seus privilégios garantidos e suas riquezas que só aumentavam. Estes nada queriam mudar. Para eles que “tudo ficasse como dantes no castelo de Abrantes”.

Havia aqueles que ficavam à margem dessas riquezas e viviam das sobras daqueles.

Portanto tratava-se de um reino com grandes diferenças no tocante aos viveres de seu povo. Por isto que dentre estes últimos foi crescendo o desejo por melhores condições do viver. Não queriam mais apenas sobreviver de favores e à sombra dos ricos e poderosos. 

Mas o rei escolhido não tinha inteligência, não tinha conhecimentos, nem sabedorias de vida. Ele só tinha filhos, esposas e um passado de militar atleta. Ah! Ele também adorava dormir durante reuniões importantes dentro e fora dos quarteis, pois as achava desinteressantes e sem valor.

Entretanto se os assuntos fossem sobre armas, principalmente aquelas de cano longo, ele despertava e dava opiniões. Achava que todos do reino deveriam tê-las em casa para se protegerem dos outros que também tinham armas. E foi assim que as matanças foram autorizadas no reino. Vale contar que essas armas eram tão caras que só os abastados tinham dinheiro para adquiri-las. Pois bem, mais uma vez os pobres e desvalidos seriam assassinados.

Embora mais da metade da população do reino dizia discordar de suas ações, ninguém entendia como um rei assim tão despreparado, tão claro e mau em suas intenções, odiado por todos os demais reinos, continuava reinando. Pior ainda, ninguém entendia como ainda era venerado por muitos como se fosse um messias enviado por um deus.

Deu-se que outro deus resolveu castigar os reinos da Terra e transformou um verme que só adoecia pequenos animais, em um potente verme que passou também a adoecer os humanos. Para tentar combater a doença provocada por este verme, todos os reis procuraram os grandes curandeiros e xamâs e, humildemente, pediram ajuda.

Os reinos estavam sendo devastados. Os súditos começaram a morrer em todos os reinos. Neste tempo resolveram se unir para um reino ajudar o outro em todas as formas e nos conhecimentos que cada um fosse adquirindo.

Os abraços foram proibidos pois o verme passava de pessoa a pessoa pelas respirações. E respirar foi ficando cada vez mais difícil. Os vermes entravam nos pulmões, sugavam todo o ar e deixavam as pessoas se afogarem na falta de ar.

A tragédia afetou todos os reinos. Era preciso que todas as pessoas se distanciassem umas das outras para se protegerem e protegessem aos outros.

Mas aquele rei malévolo nada respeitava e, desconsiderando os sábios curandeiros e xamâs, minimizou o verme que, descontrolado e raivoso, foi matando seus súditos, os que gostavam dele e os que não gostavam dele também.

O rei cismou que todos os doentes fossem tratados por uma erva medicinal de nome estranho embora os curandeiros alertassem acerca dos graves riscos que a tal erva poderia provocar, inclusive a morte. Mas o rei continuava esbravejando e indicando tal erva milagrosa para todos os seus súditos como se ele tivesse a sabedoria dos curandeiros e xamâs. Ele nada fêz para ajudar seu povo.

A partir de então o reino foi-se fechando em tristeza e abandono. Enquanto isto, o rei, seus familiares e amigos foram se tornando mais intolerantes, cruéis e, terrivelmente, amados por aqueles que o defendia mesmo sabendo de suas atitudes desbaratadas.

Mas eis que aparece uma cobra naja nos salões do castelo do rei e ele é picado por ela. Ninguém sabia como isto aconteceu uma vez que tal cobra altamente venenosa vivia apenas noutros reinos bem distantes.

O alvoroço tomou conta do reino. Os curandeiros foram chamados para salvar o rei. E, nas suas moralidades e benevolências, curandeiros e xamâs salvaramm o rei.

Depois deste fato, enquanto todos esperavam que o rei se humanizasse com a proximidade da morte ele, ao contrário, retorna às suas atividades ainda de forma mais cruel. Determinou que deixassem de oferecer água, alimentos e tratamentos para os povos que viviam no meio das matas do reino. “Eles devem morrer. Não prestam prá nada” cuspia o rei.

Foi nesse momento que um sábio que vivia naquelas terras do meio da floresta, sabendo do decreto e das palavras do rei, disse aos povos de todo o reino que observassem a natureza.

“Quando uma madeira vai crescendo no disforme de sua família, nada haverá de dar rumo certo a ela em direção ao sol. Ela há de vergar e viver na escuridão”.

Escutando aquele sábio, o povo percebeu que se fazia hora para que um novo rei fosse escolhido.

Então todo o reino se uniu para destituir aquele que fora o pior rei daquele imenso reino encantado chamado Brasil. 


10/07/2020














segunda-feira, 29 de junho de 2020

Conto: O quê este texto está dizendo?



(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVIII)

-“Este ano vocês aprenderão a escrever o português com todos os tipos de suas orações. Irão também conhecer alguns escritores brasileiros, em especial um deles, e irão ler suas obras. Na biblioteca tem alguns exemplares, mas vocês poderão procurar mais livros na biblioteca municipal”.

Assim se apresentou meu primeiro professor de português no Colégio Estadual da cidade de Conselheiro Lafaiete.(*)

Monteiro Lobato entrou na grande sala da minha primeira série do ginásio. Estava com onze anos. Era o ano de 1969 e o homem se preparava para pisar na lua.

O professor, um jovem entusiasta que havia acabado de formar em letras na capital, chegou ao colégio com toda sua bagagem universitária e um grande desejo em ensinar.

Pronto. Foi dada a partida para que eu me enfurnasse dentro do quarto com Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Tia Anastácia, dona Benta, Marques de Rabicó e tantos outros. Vivia todas as emoções com se fosse mais um morador daquele sítio encantado.

Mas tinha um problema. Um grande problema. Eu não sabia falar nem escrever sobre o que havia lido. Portanto, nas provas e exames orais, minhas notas eram as piores da sala. Não conseguia nem abrir a boca.

E aquele professor não perdoava.

Na matemática eu brilhava nas equações. Adorava a exatidão dos resultados. Nada dava errado. Eu tirava as melhores notas da sala. Em casa meu irmão mais velho, que também amava os números, estava sempre a me ajudar.

Na geografia eu viajava pelo Brasil, pelos rios, pelas montanhas, pelas cidades, pelos estados e seus limítrofes. Meu avô foi caixeiro viajante e meu pai viajou com ele na adolescência. Ele sabia de tudo das cidades e dos rios. Mas eu fazia todas as minhas viagens em companhia de Narizinho e Pedrinho. Emília me dava nos nervos. Eu não era páreo para ela e sua teimosia.

Nas aulas de artes me apaixonei pela clave de sol, pelo som do lá menor e jamais me esqueci da definição de música enquanto “o som agradável aos nossos ouvidos”. Embora não tenha conseguido aprender a tocar flauta ou violão, aprendi a distinguir os sons de alguns instrumentos e sempre me interessava por conhecê-los.

Nas ciências me divertia fazendo todas as atividades em casa. Até minha mãe ajudava nas experiências com alimentos e meu pai construía instrumentos sonoros e fazia telefones sem fio para nos ensinar sobre a propagação do som.

Não conseguia aprender a história do Brasil. Achava tudo muito confuso. Nada daquelas datas me interessavam, mas decorava e tirava boas notas.

Mas o danado do português me deixava desorientada. Lia uma coisa e entendia outra. Ou lia e não entendia nada. Os sentidos das palavras entravam em mim, misturavam meus pensamentos e me deixavam sem sentidos.

Juro que tentava ser uma boa aluna naquele português. Tinha medo do professor e de suas “orações coordenadas e subordinadas”. Nada daquilo entrava na minha cabeça de onze anos. Nem as tais análises sintática e morfológica das palavras. Todas elas fugiam de mim. Parecia que eu ficava desamparada diante de tantas palavras. Meu coração disparava e meu rosto queimava de vergonha.

Eu queria mesmo era brincar no sítio do Picapau Amarelo. Entrar dentro das páginas e reinar com Narizinho, comer os deliciosos bolinhos de Tia Anastácia e nunca mais ouvir falar em orações. Orações já bastavam aquelas de todas as noites em minha casa.

Devo confessar que vivi de corpo e alma em inúmeras personagens dos tantos livros lidos a partir de então.

E foi assim que deixei as orações e as palavras e me enchi de sonhos.


29/06/2020 dia de São Pedro


(*) Professor Arlindo Lúcio da Cunha Andrade a quem dediquei meu primeiro livro (Rosa nos Tempos) e a por quem tenho uma enorme gratidão. “Desculpe se não aprendi o português, entretanto você me possibilitou sentir as leituras”.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Condutas diante do amado

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVII)

1 – Se ele aparecer não ceda, pois ele, o amor, despenteia os cabelos e desarruma as gavetas; 


2 – Se acender a chama da paixão, apague-a logo. Ela arde e queima os corações;

3 – Se ouvir uma canção de amor, não rodopie. A labirintite pode aparecer e estragar sua dança;

4 – Se ele te convidar para ir ao cinema, não vá. No escurinho ele pode querer botar a mão naquilo e você não vai aguentar.

5 – Se sentir saudades não escreva cartas. Elas podem extraviar e caírem nas mãos do outro;

6 – Se assim mesmo você optar pelo perigo do amor poderá perder o sono e ai, só um rivotril.



13/06/2020

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Mini-conto: Dia de São João

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVI)

Naquela noite de São João, como nos anos anteriores, seus olhos me fitaram e ruborizaram minha face. 

Para fazer fita dancei com  outro que nunca esteve lá. Aquele foi embora e este não valeu a pena. 

Hoje, neste dia de São João, como nos últimos anos, meus olhos fitam as ruas vazias de ti. 

À noite dançarei de paixão e a fogueira queimará meu coração. Só não terei mais seu olhar a me fitar.

24/06/2020

segunda-feira, 15 de junho de 2020

História do mês de Junho

  (Delicadezas em Tempos de Coronavírus XV)                   



Os tempos estavam desencontrados. Era junho e o frio não chegara. O sol continuava brilhante, quente e desinteressado pelo inverno prometido. As flores, ignorando a presença do outono, coloriam o quintal. Eram flores de antúrios, grandes e pequeninas, flores de alamandas, algumas teimosas flores do jasmim manga, sofridas flores de spatifilus, mimosas meio-dia, flores de hibisco (que por ali são chamadas de nariz-de-seu-pai) e buganvílias. Catarina não se cansava de festejar as flores adversas aos tempos delas. Enquanto ficava a admirá-las ela pensava no seu amor.

Só ele ainda não apareceu. Será que desentendeu com São Pedro? Será que, exibido feito ele só, pulou outra fogueira e se queimou? “Mas as fogueiras ainda não estão subindo aos céus e hoje é dia de Santo Antônio”, resignou-se.

Enquanto isto os olhos de moça continuavam refletindo as cores das flores e viajavam com a esperança que ele chegasse antes da noite de São João. Ele sempre veio. Ao pensar assim o coração bateu aliviado. Era só esperar. Seria apenas uma questão de dias e ele apareceria.

Catarina esperou. Quisera que as horas voassem no relógio da parede da sala e o namorado, como que vindo do nada, aparecesse.

Na carta recebida ele confirmara a data de sua chegada. Ela trançou os cabelos, pintou as unhas, botou o vestido novo. “Será que ele vai reparar?” Era ela e sua impaciência.

Chegado o dia esperado as batidas do coração de Catarina aceleraram no mais não poder. Ficou na janela. A namoradeira com os cotovelos marcados com a pele comprimida.

Ele desceu a rua. Era todo calmo e charme. Cumprimentou-a com os devidos respeitos de seu jeito. Tentou sorrir. O riso saiu amarelo. Pediu a Catarina que chamasse o pai e a mãe. Ela abaixou a cabeça e obedeceu.

Os pais entraram na sala e o jovem, sem meias palavras, foi logo dizendo. Havia noivado outra moça. Estava de casamento marcado. Sem pedir desculpas apenas esperou o que viesse do lado de lá. O pai, ainda sem dizer palavras, abriu a porta e encaminhou para a rua o que noivo da outra que não era sua filha. Ele não valia palavra alguma. Só Catarina e seu coração queimado de amor não vira a verdade dos fatos.

Depois disto a mãe quis conversar. Mas Catarina não tinha ouvidos naquela hora. Era toda lágrimas e dores. Entrou para seu quarto e por lá ficou emudecida. Os pais alarmaram. As amigas foram chamadas para dar conselhos e alegrá-la. Nada. Catarina nem tinha mais olhos floridos.

Porém na noite de São João ela saiu do quarto com seu vestido mais bonito. Tinha os cabelos soltos e os olhos brilhantes. Foi para a festa e dançou a quadrilha. No final da dança seu par lhe convidou para uma conversa. Quiçá um namorico. Ela, alvoroçada, aceitou o convite.

Contam, aqueles que viram o acontecido, que Catarina naquela noite dançou toda a noite em torno da fogueira até virar uma língua de fogo e subir aos céus. O moço pegou seu alazão e, entre as estrelas, campeou atrás dela.

No dia seguinte, para espanto de todos, as flores alaranjadas das buganvílias do quintal da casa de Catarina amanheceram entrelaçadas com os galhos do frondoso ipê.

Catarina e o moço nunca mais foram vistos. Até hoje a ciência dos homens e das plantas buscam explicações para aqueles mistérios.

E, por todos os anos em junho, essa história é contada pelo povo daquela região.



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ela e o Tempo

(Delicadezas em tempos de Coronavírus  XIV)


Hoje ela se lembrou das palavras do poeta Mário Quintana, lidas onde ela não se lembrou, “Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...” 

Então entendeu que em todos os dias do ano brotam as flores e as esperanças. E logo tratou de bendizer ao tempo os amores de outrora que a vida havia lhe dado.


11/06/2020

 

 


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Crônica: "A caminhada ecológica"

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XIII)

Era natal. Meados dos anos noventa. Todos os quinze netos e meu filho ainda bem pequenino estavávamos na casa dos meus pais aguardando a noite em que Papai Noel traria os presentes.

“Que tal uma caminhada Ecológica?” Era a tia querida, no caso eu mesma. O ânimo foi total. Sugeri bermudas e tênis, uma vez que faríamos uma longa trilha pela maior depressão geológica da cidade e, onde na minha infância, buscávamos água para beber. Era onde eu amava ver as lavadeiras dentro do curso d´água batendo suas roupas nas pedras.

Meninos e meninas eufóricos e dispostos a tal empreitada. Certamente não sabiam o que era uma caminhada ecológica e nem imaginavam do que se tratava aquele convite. Pois iriam aprender. E lá fomos nós com a compania do Tio Paulinho, o mais querido, e seus dois filhos.

Descemos a ladeira da minha rua e andamos pela desértica rua de baixo. Alguns já queriam desistir. Todos estavam entre cinco e treze anos. 

"Tô cansado", era um deles.

“Nem pensar! Nossa caminhada ainda nem começou!”

Esta era eu animando meus sobrinhos e sobrinhas.

Logo chegamos à rua por cujo final se estende a fontinha. Agora seria só entrar no amplo gramado que serpenteava todas aquelas bicas de água natural que descia dentro da montanha como um rio subterrâneo.

Porém, eis que a minha fontinha havia sido inundada pelas águas das recentes chuvas de dezembro. Só havia brejo. Não declinei do meu intento e convoquei toda meninada àquela aventura.

Água até os joelhos, tênis barreados, bermudas molhadas e uns ajudando outros que se agarravam no barro. Ariane com uns seis anos, barreada até a cintura, não quis continuar nossa trajetória. Então seu pai, o querido Tio Paulinho, trouxe-a de volta.

Finalmente vencemos o pântano em que havia transformado minha fontinha. Pura emoção, sem queixas e alguns com os olhos arregalados, continuamos nossa viagem.

Atravessamos a cancela de arame farpado que demarcava aqueles imensos pastos baldios para que as "criações" (vacas e bois) não entrassem em terrenos alheios. Começamos a segunda etapa da nossa aventura: subir a trilha no meio da montanha bem perto do buracão mais assustador da região.

Finalmente chegamos num beco estreito por entre quintais de pequenas casinhas. Estávamos nos fundos do Bairro de Santa Efigênia com sua população composta na grande maioria por pessoas negras e pobres. Eu já conhecia aquela região e sempre admirava os coloridos em épocas das festas de folia de Reis e de Santa Efigênia. Lá em cima havia a igreja da santa que deu nome ao bairro.(1)

Estávamos bem longe de casa.

Eu não parava de falar um só minuto com meus sobrinhos durante todo o percurso. Eles escutavam atentos e maravilhados. Expliquei que ali era a metade do círculo que faríamos até chegar a nossa casa. Portanto, a partir dali, começávamos o retorno. Completaríamos o contorno de trezentos e sessenta graus (assim eu ensinava a geometria)

Estávamos no final da longa Rua Barão de Suassuí que inicia no centro da cidade alta. Mostrei-lhes o colégio estadual, suntuoso prédio pintado em verde e em arquitetura moderna para aqueles tempos. Ali eu havia estudado o ginásio e o científico que já foram renomeados para “ensino fundamentral e ensino médio", respectivamente.

No início da mesma rua, mais próximo da nossa casa, também havia o casarão da Tieta, construção do século XVIII, que abrigara o Grupo Escolar Inconfidência, onde também iniciei minha vida estudantil quando ainda criança. Eu aproveitei e lhes falei sobre a Inconfidência Mineira, obviamente floreando minha paixão pelos inconfidentes e suas inconfidências. Nos porões daquele casarão nossos inconfidentes haviam se encontrado por muitas vezes para suas reuniões secretas quando tramavam os movimentos libertários do nosso país que, naquele tempo, era a maior e mais rica colônia de Portugal (assim eu ensinava aos meus sobrinhos sobre história, geografia e política).

Por esta rua passava todo o ouro que vinha de Ouro Preto e Ouro Branco indo para a corte, no Rio de Janeiro.(2) 

Contei-lhes que o terreno daquele casarão, um imenso pomar de frutas, com inúmeras jabuticabeiras, ia até os fundos da rua onde ficava nossa casa e, roubar jabuticabas naqueles pomares da Tieta, era a grande aventura dos pais deles.

Mais história de casarões famosos.

-“Estão vendo esta escola ali?” Era eu apontando para outro casarão, próximo dali. Era a casa onde viveu, por uns tempos, o famoso escritor Bernardo Guimarães. E lhes falei da novela Escrava Isaura, baseada no livro escrito por ele enquanto morava ali. Naquele tempo da nossa caminhada a casa já abrigava o Colégio Monsenhor Horta.

Mais uma ladeira para subir e já estaríamos quase fechando nosso círculo por interio.

Enfim, com todos cansados, encharcados, felizes e mais ricos em conhecimentos, chegamos à casa da vovó e do vovô. Nossa casa!

Avaliando hoje, penso que tudo teria sido perfeito se as únicas lembranças desta aventura tivessem ficado por conta dos filhos e filhas barreados. Entretanto minha honra, que já não era tão imaculada, ficou suja demais.

Até hoje a caminhada ecológica com a tia Zarinha é lembrada com gostosas gargalhadas pelos sobrinhos e sobrinhas, hoje pais e mães, mas ainda com muitas reprovações pelas cunhadas e irmãs que continuam reclamando dos tênis e das roupas novas que ficaram imprestáveis.


Notas:
(1) Hoje esta capela, localizada num dos pontos mais altos de Conselheiro Lafaiete, está totalmente restaurada e dando à cidade um aspecto de sua história e de sua cultura religiosa.

(2) Hoje toda a rua Barão de Suassui que termina no Bairro Santa Efigênia em direção a Ouro Branco e à fazenda das Carreiras ou Casa de Tiradentes é, para mim, um dos trechos mais bonitos da Estrada Real)




02/06/2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônica: Mateus 5:10


(Delicadezas em tempos de Coronavírus XII)


Jamais esqueci este episódio que, por muitos anos, vem ressoando na minha memória como se fosse um devaneio. Ainda agora, quando me lembro dele, parece um fato inverossímil.
Pois bem, eu havia me oferecido para trabalhar como acadêmica estagiária num projeto inovador na reeducação e posterior reinserção social de menores infratores.

Era início dos anos 70. Estávamos em Barbacena. Para tal eu teria que estudar acerca dos objetivos do projeto assim como da pedagogia e da metodologia a serem usadas e tantos outros estudos. Uma cartilha havia sido elaborada pela equipe dos profissionais idealizadores. Várias entidades públicas, multidisciplinares, participaram daquilo que seria uma revolução no trato dos menores infratores em Minas Gerais.

Escolhido local para sua implantação, selecionadas as equipes de trabalhadores e, tão logo, os meninos começaram a chegar de várias cidades, encaminhados pelos órgãos competentes da justiça mineira.

Não lembro porque abandonei este estágio ou se esqueci de propósito. Mas lembro do acontecido que eu ouvira, talvez, através do noticiário de uma rádio como tinha o hábito de fazer durante minhas várias viagens.

O locutor informava sobre uma fuga em massa dos meninos detidos no prédio onde funcionava o projeto. Vários policiais e funcionários do “Instituto” já procuravam por eles. Alguns haviam sido recapturados e estes contaram como decidiram e planejaram a fuga.

Na tarde anterior à fuga um religioso havia ido falar sobre o evangelho de São Mateus. Tão logo havia terminado a palestra, os meninos, apoiados no versículo dez, fizeram dele a senha para a rebelião e a fuga, pois, como nos disse São Mateus “bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus”.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020









segunda-feira, 1 de junho de 2020

Poema: O Homem

(Delicadezas em tempos de Coronavírus  XI)



O Homem

Calado, cabeça enterrada no pescoço,

como a procurar ouro na terra.

Lá vem ele,

a roupa é a mesma do domingo passado,

do domingo retrasado

E de todos os domingos de sua vida

Desce a ladeira com uma filha ao lado

Distante dele, mas no mesmo passo

As demais filhas casaram,

não tem notícias delas.

Dos filhos

só sabe que foram ganhar dinheiro em São Paulo

A esposa Deus levou na quaresma de dois anos atrás

Por “compadre” é chamado

Compadre até do padre

Vinte e três filhos

só lhe restou esta

A filha que lhe faz o café

a broa, o feijão e o angu

Bença pai

Diz toda manhã

Bença pai

Diz ela a noite

Sua filha sem ideia de gente

A retardada.

Bença pai 




Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020

(Alongamento da terceira Oficina de Escrita de Maio)

domingo, 31 de maio de 2020

Festa no interior - Mini conto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus X)

Durante todos os anos da festa do Santíssimo as mocinhas da cidade esperavam pelos rapazes que chagavam de São Paulo. Cada uma se informava acerca do seu pretendente. E a pergunta que todas faziam: “será que ele vem este ano?”. 

Foi num ano desses encontros e desencontros que Lurdinha ficou com o irmão do Bento e este ficara com a prima dela. Nada com haviam planejado. Lurdinha tinha jurado que na festa deste ano não queria amolações, mas esqueceu sua promessa uma vez que não avisara ao seu coração. Bento que imaginou uma grande paixão com Lurdinha, maltratou seu coração e jurou nunca mais voltar à festa do Santíssimo.

E o Santíssimo que nada havia previsto continuou sendo carregado nos andores enfeitados com flores coloridas de papel crepon.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mês de Maio 2

(Delicadezas em tempos de Coronavírus IX)


No mês de maio tem amor, mãe, presentes 

No mês de maio tem almoço com os filhos, 

tem lombo de panela 

e arroz doce com canela.

Depois tem arrumação 


e solidão.



(Alongamento da Oficina de Escrita)

Mês de Maio 1 - Sonhos


(Delicadezas em tempos de Coronavírus VIII)


Ela sempre sonhou em se casar no mês de maio.

Ele queria em dezembro.

Ela falou do perfume das flores de maio. 

Ele falou do décimo terceiro para a viagem.

Ela abriu mão da viagem de núpcias para casar em maio.

Ele insistiu em se casar em dezembro.

“Mas é época de chuvas!” Lamentou ela.

“Quantos menos convidados presentes melhor. A festa fica mais barata” Argumentou ele.

Ela se calou. Ele se deu por vencedor.

Ela se foi e nunca mais voltou. 

(Alongamento da Oficina de Escrita)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Conceição ou a Rainha de Sabá?


Delicadezas em tempos de Coronavírus - VII



Naquela época já estava obesa. Não lembro se o fato de não andar estava relacionado com isto, se era portadora de alguma outra doença, ou se, simplesmente, gostava de ser levada dentro daquele carrinho.

Mas ainda lembro bem de suas exaltações nos meses de maio quando as flores brancas serpenteavam o vão da pequena ponte sobre a via férrea. Ou quando chegava o frio e ela queria ficar ao sol.

Tanto suas risadas quanto seus xingamentos e deboches se davam em altíssimo tom e reverberava pelo entorno.

Conhecia bem seus súditos e os pontos fracos de cada um, assim chantageava uns, defendia ou culpabilizava outros, sempre de acordo com seus interesses e vontades. Comia exageradamente. Não aceitava as dietas ou os remédios prescritos. Dizia que não precisava daquilo.

Seus banhos exigiam dois ou três eunucos e fazia desses momentos, cerimônias sagradas para si. Exigia roupas limpas, vestidos coloridos, cabelos lavados e água de cheiro. E, como já informei, todos andavam sob suas ordens ou poderiam sofrer terríveis retaliações.

Sobre sua carruagem empurrada por funcionários escolhia os destinos e fazia longas viagens pelos arredores do seu imenso palácio.

Dar um bom dia podia ter como resposta um suave aceno de mão, um bom dia desinteressado ou um palavrão conforme tivesse acordada. Mas ela sempre amanhecia dando ordens e coitado daquele que caísse em seu desagrado. Ela gritava uma infinidade de impropérios tirados do fundo do seu baú.

Quem a visse assim poderia imaginá-la como sendo a famosa rainha das terras de Sabá que teria vivido por volta do século X a.C., ou quem sabe, a terrível Catarina de Médicis. 


Só sei que era uma matrona da realeza mineira.

Conceição era assim, poderosa nas suas atitudes, ferina nas suas palavras e dona de suas vontades. Todos deveriam andar sob seu jugo senão lá vinham xingatórios e muito furdunço.

Sua voz ia do agudo dos gritos de raiva e destempero ao grave de suas histórias dos amores deixados ao leu, passando pela rouquidão quando queria fazer charme, ou pelas estridentes gargalhadas por deboches de alguém.

Ela era assim: uma mulher completamente dona de si. Para ela não fazia a menor diferença seu corpo avantajado, sua pele branca e envelhecida, seus cabelos em desalinho. Todo aquele conjunto desarranjado fazia dela a mulher mais bela de todo seu reino.

E seu reino era toda a vastíssima área do Hospital Colônia de Barbacena com seus vários pavilhões apinhados de “loucos e loucas” abandonados e segregados pela política de assistência psiquiátrica daquele início de século.

E Conceição era a rainha de seu tempo.

Quando morreu foi enterrada com honras de estado e seu carrinho empurrado por vários funcionários daquela unidade hospitalar.

Salve sua alteza, a rainha Conceição!


Observação: esta história foi inspirada na paciente do mesmo nome, interna do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), onde fui “acadêmica de medicina concursada” pela FHEMIG, no ano de 1981. A ela  (e aos demais que ali viveram) rendo muitas homenagens.


(Conselheiro Lafaiete, 27 de maio de 2020)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

VIAGENS NO TERRAÇO

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VI)


Sempre gostei dos serviços de lavações numa casa. Lavar banheiros, lavar o chão, lavar vasilhas e, principalmente lavar roupas. Agora, neste tempo de pandemia e quarentena, voltei às minhas lavações. Acabei descobrindo o tanto que gosto de subir as estreitas escadas até o terraço não apenas para estender minhas roupas lavadas e cheirosas. O que antes seria apenas mais um trabalho doméstico, passou a ser também uma desculpa para escalar os degraus e deslumbrar com minha visão lá de cima.

Minha casa está localizada numa rua pequena, tranquila, com muitos moradores desde o tempo em que fui criança, num dos pontos mais altos da cidade, a mais de mil metros de altitude. Portanto tenho uma visão privilegiada em 360°. Com muitos arames esticados logo percebi que poderia colocar as roupas de modo a não obstruir as imagens mais belas que ficam na parte dos fundos da minha casa.

Se eu olhar em direção retilínea e bem próximo de nós - a nordeste - vejo o que sobrou da mineradora inglesa que extraiu e levou todo nosso manganês. Olho e ainda posso ver a poeira dos minérios subindo, ainda posso escutar as explosões das dinamites nas rochas e ainda posso sintir as trepidações nas janelas de vidro. Por conta disto minha casa sempre teve rachaduras em várias paredes. Hoje, dizem, ainda tem uma barragem de dejetos bem no alto e posso ver muitos eucaliptos plantados na base. Um sobrinho mora bem aos pés de onde estava este “Morro da Mina” causando-nos preocupação embora seja um local encantador.

Se eu olhar a leste vejo as montanhas por onde viajo em direção a Itaverava, Catas Altas da Noruega - (cidade que não conheço e que sempre estou adiando minha visita), Lamin, Piranga, Senhora de Oliveira e minha doce Brás Pires. Se arrisco olhar um pouco mais à esquerda da estrada, encontro Ouro Preto e Mariana. 

Pausa para o trabalho:
“Espere aí, deixe eu arredar aquele lençol para ver Pinheiros Altos, distrito de Piranga, de onde vem a pedra sabão para as panelas, as imagens e tantas outras peças. Passei por lá dentro de um Jeep velho, com meu Tio Padre Zizinho no volante para irmos a Mariana visitar Tio Felício Rivelli."

Por toda a região atrás da minha casa, ainda pode-se ver grandes áreas verdes que, gradualmente vem sendo povoadas. Não gostava de ver o cemitério municipal construído, obviamente, na região mais desvalorizada da cidade onde há um pequeno aglomerado de pessoas das camadas mais pobres da cidade. Ali havia um matadouro (não sei se ainda existe) e, em torno dele, nasceu o Bairro nomeado de JK, mas vingou apenas como Matadouro. Nesta hora toda uma história de miséria social invade meu peito. Mas deixarei, por ora, essas mazelas brasileiras de lado, para falar do meu olhar. Embora meu olhar olhe duas mortes naquela direção.

Recomponho-me desta visão para virar um pouco mais a norte onde, bem perto, vejo outra área verde, com uma trilha por onde, ainda menina e acompanhada da minha irmã também menina, atravessamos algumas vezes indo encomendar “1 metro de lenha” para nosso fogão. Não tínhamos fogão a gás que foi um presente do meu pai para minha mãe no Natal de 1969 e que só chegou ao último dia daquele ano. A trilha era muito erma. Nenhuma casa na redondeza. De um lado dela ainda tem um grande buraco que me faz lembrar a dolina do Pantanal. Sério problema para administração pública uma vez que tal formação geológica tende a desabar no entorno por onde passa uma importante via de acesso, outrora um pedaço da verdadeira Estrada Real que atravessa toda a cidade alta de Conselheiro Lafaiete. Uma honra para nós.

Pausa para um devaneio:
(De vez em quando me vejo também conspirando com os inconfidentes contra os impostos da coroa. Acho que eu seria "Marília de Dirceu")

E bem naquele alto tem uma gigantesca escultura do Cristo como se fosse uma réplica do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Uma praça ampla envolve nosso Cristo que, embora fique na cidade alta, está voltado para a cidade baixa. Logo estamos todos abençoados.

Ainda tenho mais roupas para lavar. Ainda bem! Vou subir de novo até o terraço.

Enquanto trabalho viajo para dentro e para fora de mim e ainda faço atividades físicas.

Minha quarentena tem sido cheia de lembranças e grandes viagens.

Quem sabe amanhã viajo para dentro da rua, por ora esvaziada, mas posso viajar pelo oeste e pelo sul até onde eu quiser. 

Então até amanhã em direção a Barbacena, Juiz de Fora e Rio de Janeiro.
















sexta-feira, 15 de maio de 2020

poema- amanheci mais lerda que ontem

acordei no meio da noite
o ar me sufocava
libertei minha face 

adormeci ainda
no frio
senti calor 
debaixo do cobertor 
de pelos

enfim 
levantei
na cozinha
um café forte 
na janela fechada
reparei
a prisão da alma
no corpo 
esvaziado de mim

acudi o olhar
vi a cidade
envolta no sereno

desci o olhar
o peito doeu
me encontrei 


me vi 
mais lerda que ontem

15/05/2020


quarta-feira, 13 de maio de 2020

AMIGAS PARA SEMPRE


(DELICADEZAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS - V)


-"Mãe, lá em Minas tem minério pra todo lado. Até nas margens das estradas. Olhe aqui!"

Margarida entregou à mãe uma pequena pedra escura que havia apanhado quando, deslumbrada com sua primeira viagem a Minas Gerais, pedira a um motorista que parasse para que pudesse pegar uma pedra. Guardara a relíquia dentro da bolsa como se aquela fosse uma pedra valiosa.

Foi assim que Lúcia reviu Dona Aparecida. Havia combinado com a amiga de infância que voltaria com ela se a mesma fosse visitá-la em seu novo emprego na capital mineira.

As duas se conheceram ainda crianças, no bairro da Moca onde morava a avó de uma delas. Tornaram-se inseparáveis desde então. Mas, como sabido, os sonhos infantis nem sempre acompanham seus sonhadores. E assim se dera com as duas meninas, naquela ocasião, já eram jovens adultas. Cada uma seguira seu caminho. Cada uma buscando seu lugar no mundo.

Margarida cursou contabilidade; trabalhava num escritório no centro de São Paulo e Lúcia acompanhou um grande amor que morava em Belo Horizonte. Continuaram mantendo contato e prometeram uma à outra de se verem uma vez por ano.

No primeiro ano, após a partida de Lúcia, Margarida agendou suas férias tendo alguns dias coincidindo com o período das férias escolares. Telefonou para a amiga e combinaram as viagens. Adiantou o desejo de conhecer a histórica cidade de Ouro Preto e ver as montanhas mineiras.

Depois de passearem pela Pampulha, pela Praça da Liberdade, pela Feira Hippie, pelo Mercado Central, nos dois primeiros dias, foram para Ouro Preto.

Margarida não contava com o encantamento das estradas nem com as pedras nas suas margens. Seus olhos queriam ver além. Percebeu que via mais com o coração do que com os olhos. Não se importou com a emoção nem com as lágrimas. Estava emocionada. Era sua primeira viagem para outro estado brasileiro.

Lúcia, enquanto acompanhava a amiga, ia contando as histórias de Minas que aprendera com o namorado, professor de história e amante dos "Inconfidentes". 

As duas subiam e desciam pelas ladeiras da cidade encantadas com os calçamentos de pedras, com os casarios, com as igrejas e suas artes barrocas que ela já ouvira falar e, principalmente, com a Praça Tiradentes. Às vezes riam com os nomes das repúblicas dos estudantes universitários. Comentavam acerca do grande número de turistas que cruzavam por elas em todos os lugares da cidade.

No final da tarde voltaram para a capital. Margarida, apesar do cansaço, não conseguiu fechar os olhos que saltavam de um lado para outro entre as montanhas e os desfiladeiros da estrada.

Voltando para São Paulo com a amiga, Lúcia, depois de rever seus familiares entrou num ônibus e se dirigiu à casa de Margarida. E foi no abraço dado à dona Aparecida que seu olhar viu outra cena.

O irmão mais velho da amiga estava sentado numa cadeira na área contígua à porta da cozinha. Viu que ele usava um pijama bem maior que seu corpo. Nele chegavam os últimos raios de sol daquele inverno. Antônio não virou para ver a amiga da irmã. Continuaram os abraços e conversas como se ele não estivesse ali. Mas Lúcia não pode deixar de perceber seus movimentos lentos, seu emagrecimento e sua pele muito esbranquiçada.

Durante todo o tempo da visita se viu buscando aquela cena. Ouviu o rapaz pedir uma lata de leite condensado. Notou a voz fraca e irritadiça. A mãe apenas comentou que, “ultimamente ele só come isto”. A amiga disse, com desinteresse, que o irmão estava com uma doença rara que os médicos não descobriam o que era. Já havia feito vários exames e não conseguiam chegar a nenhuma conclusão. Só diziam que ele estava com anemia e sem defesas para outras doenças, mas não conseguiam descobrir a causa. Já havia sido internado devido a crises de diarreia e até tivera pneumonia. Tratavam, davam muitos antibióticos, mas logo piorava novamente. E o rapaz só ia definhando.

Dona Aparecida achava que poderia ser mau-olhado, pois o rapaz era muito bonito e tinha um futuro promissor. Estudava engenharia e já trabalhava como estagiário numa grande empresa de construção civil.

-"É isto. Fizeram alguma coisa muito bem feita para meu filho", dizia Dona Aparecida, resignada com a situação. Lúcia apenas escutava. Lembrava-se do irmão da amiga e das várias colegas que apaixonavam por ele. Nunca havia se interessado por nenhuma delas. Quisera olhar nos olhos do moço e lhe dar um sorriso, entretanto só o viu através das palavras da mãe.

Voltou para Belo Horizonte com a cabeça ainda dentro daquela cena. Não conseguia entender porque não parava de pensar naquela doença esquisita, na solidão, na anemia, no pijama largo, nas réstias de sol e no mau-olhado do irmão da sua amiga que estava mais preocupada com a pedra no meio do caminho das Minas Gerais.

Depois de algumas semanas, Lúcia já tendo retomado sua rotina de estudos num cursinho de pré-vestibular da cidade, escutou uma notícia que lhe chamou a atenção. Médicos e cientistas anunciavam as primeiras mortes, em São Paulo, de doentes portadores da “síndrome da imunodeficiência adquirida” à qual chamaram de SIDA. A doença seria causada por um vírus descoberto recentemente, originário da África e o primeiro caso, descoberto nos Estados Unidos, havia infectado um homem que tinha morrido.

Era final dos anos oitenta do século passado quando o mundo conheceu um vírus que, infectando os homens através das relações sexuais e das transfusões sanguíneas, atacava e destruía todo o sistema de defesa do corpo humano. Muitos jovens morreriam naquela década de noventa.

A partir de então jovens do mundo inteiro foram alertados sobre o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e mudariam seus comportamentos sexuais uma vez que havia uma pedra no meio do caminho.



(Conselheiro Lafaiete, 13/05/2020)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Aldir Blanc é vencido pelo Coronavírus



Leitores

Nesta manhã fomos informados da morte do colega médico, psiquiatra e grande compositor, Aldir Blanc. 

Há quinze dia lemos, com muita tristeza, o apelo de seus familiares pedindo um leito de UTI na cidade do Rio de Janeiro. 

Portador de diabetes e na faixa etária de risco para o Coronavírus, nosso poeta da música se foi.

Logo a seguir um amigo e colega médico, num grupo de rede social, nos envia a letra da música abaixo sugerindo que eu a publicasse pois estaria em conformidade com as paixões dos meus contos.

Aceitei a sugestão dizendo-lhe que, coincidentemente, é uma canções de Aldir Blanc que escuto com maior frequência.

E é publicando esta letra que agradeço e homenageio Aldir Blanc. 

Muito obrigada por ter vivido conosco e nos presenteado com tanta poesia.




Resposta ao tempo

“Batidas na porta da frente é o tempo

Eu bebo um pouquinho pra ter argumento

Mas fico sem jeito, calado, ele ri

Ele zomba do quanto eu chorei

Porque sabe passar e eu não sei

Um dia azul de verão, sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo

Recordo um amor que perdi, ele ri

Diz que somos iguais, se eu notei

Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos

Que amores terminam no escuro, sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto

Que ele adormece as paixões, eu desperto

E o tempo se rói com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder me esquecer”



(Obrigada a você também, Felício, por este presente)

Foto: Cine Teatro Central (Juiz de Fora - MG, minha autoria)

domingo, 26 de abril de 2020

ORAÇÃO DA CASA



Nasci mineira
Pequenina
Em torno de mim
algumas outras
como eu assim

Dentro de mim
sorrisos e interrogações
Das minhas janelas abertas
um mundo familiar


Devagar meus apêndices cresceram
dentro de mim rumores continuaram
São Jerônimo e Santa Bárbara,
em noites de tormenta,
me protegeram.


Aromas doces habitaram em mim
Cresci mais um tanto
Reformei-me em candura
De repente amadureci


Estou vazia
Na minha solidão,
Pessoas vagueiam.
Fui Maria
Fui José
Fui a trindade cristã


Envelheci
As lembranças me sucumbem
Preciso de ti
Ainda tenho histórias pra contar
Não me deixe morrer


Hoje te peço:
Volte!
Tome meu corpo
Penetre nas minhas entranhas
Cuida de mim

Daqui ainda ouço os sinos
Fazenda das Carreiras,
Itatiaia,
Lavras Novas,
Santa Rita.


Daqui ainda vejo o ouro
Ouro Branco
Ouro Preto


Mas de que me vale a liberdade
Se ainda estou presa a ti?



Abril/2020
Este poema foi escrito para o 17° Abril Poético do grupo LESMA Poesia de Conselheiro Lafaiete cujo tema neste ano foi "300 anos de Capitania de Minas Gerais". Neste ano de pandemia, o evento tem sido realizado de forma digital.

domingo, 12 de abril de 2020

A comunista vai para Cuba








Já que me mandaram ir para Cuba resolvi pegar meu casaco de pele de largatixa e me mandar. Afinal é época do degelo e naquelas savanas a temperatura é de rachar os calcanhares. 

Meu desejo mesmo é ir direto para sua capital, a lindíssima Cidade do Cabo, onde as cores verde, amarelo e preto brilham e dançam ao som das polcas.

Recomendaram-me não deixar de visitar suas imensas muralhas mas deverei ter muio cuidado com os tigres de Bengala e os cangurus que saltitam por lá.

Obviamente não deixarei de visitar a Praça Vermelha, nem o maior prédio de parlamento do mundo, o Parlamento Húngaro.

Mas, meu amor me disse que estará na cidade de Cascavel que fica logo ali, bem pertinho das cataratas do Iguaçu, e que eu devo pegar um trem-bala e ir me encontrar com ele. Entretanto tenho medo dos ursos polares que podem aparecer por lá caso tenham sede. Arriscarei, apesar do meu medo. Para ver meu amor, atravesso até o tal estreito do Pacífico com seus (até) sessenta quilometros de profundidade e suas águas azul marinho.

Será que terei tempo para comprar os tamanquinhos holandeses no Covent Garden de Londres. Com as fortes proteções dos guardas do exército devo me sentir segura embora me alertassem que neste tal jardim/garden tem as terríveis surucucus e as jaguatiricas e que, portanto todo cuidado é pouco. Juro que tentarei chegar perto. Mas minha amiga terá mesmo que andar de havaianas, nada de tamanquinhos holandeses.

Bem, ontem comecei a arrumar minha mala com bastante roupas de frio. Dizem que tem lá um tal de Caribe e que pode até fazer um pouco de calor, mas não quero fazer feio nem sentir frio quando for esquiar no Vale Nevado. 

Como tenho muitos amigos escritores, darei um pulo em Berlim e trarei  livros das famosas livrarias de Fernando Pessoa. 

Nos Champs Elysees passearei com meu amor, inebriados com os perfumes das vanilas canadenses e das cerejeiras argentinas.

Beberemos uma puríssima vodka da Indonésia e comeremos os deliciosos pasteis de Belém. 

Obviamente faremos amor sob as estrelas, ao som das ondas do Havai, cheirando a maresia do haxixe e convivendo com o despudor dos índios da Amazônia.

Porém, como não sou afeita a brincadeiras, a seguir acordaremos debaixo das redes no nordeste do Brasil gritando:

 "#ele não".

Mais alguém quer ir comigo?

OBSERVAÇÃO: Este é mais um texto proposto na Oficina de Escrita como exemplo de escrita DADAISTA ou NONSENSE.

Foto 1 -  Teatro Isabelino - Londres - construído em 1589 onde foi encenada a peça "Romeu e Julieta"

Foto 2 - Café Havana - Haia -  Bélgica

(Fotografias feitas por mim quando da minha primeira viagem a Europa em 2018)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

HOJE



(Delicadezas em tempos de Coronavírus – IX) 


Entrevistas, vídeos

Na Bahia

Artur Henrique morreu

Faltam EPIs

Cadastro. R$660,00

Uma enfermeira morreu

Presidente Cloroquina

em rede nacional

Desligar a TV

Bater panelas

Ex-presidente numa live,

primeiro salvamos vidas

a economia salvamos depois

Ligar a TV

Um médico morreu

China ajuda o Consórcio do Nordeste

Ministro da Justiça na rádio

Mudar a estação

Infectologistas de Santos entrevistados

Deixar nesta estação



MLB(Movimento de Luta nos Bairros)

dá show no PolitiQueijo

Coronavírus nas periferias

Luiza, 25 anos, na UTI

Nos Estados Unidos

a maioria de mortos são latinos.

O mundo se isola

E dá as mãos

É outono

Vovô morreu

A espécie humana hibernou

Na primavera nasceremos flores.



09/04/2020













quarta-feira, 1 de abril de 2020

VIAGENS IMAGINÁRIAS

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VIII)

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade de
Queluz de Minas
(Conselheiro Lafaiete)
Realizo longas viagens

Olho para o leste
(e eu amo o nascer do sol)

Atravesso Catas Altas da Noruega
(desvio uns quilômetros para almoçar com minha irmã em Lamin)

Passo por Piranga, Porto Firme, Viçosa,
Dou um pulo em Ervália
e beijo minha afilhada

Tomo o café das montanhas em Martins Soares
Sigo para Realeza,
Venda Nova dos Imigrantes
Ouço os amores do Frade e da Freira petrificados.
As placas de Brejetuba e Brejaúba divertem a mim e meu neto
que vamos nos esbaldar nas areias escuras da praia do Morro
E dormiremos exaustos ao som das ondas

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens

Olho para o oeste
Sinto uma pontada no peito
(tudo por ali me é desconhecido)
Mesmo assim embrenho na minha viagem
Em Lagoa Dourada
como o tradicional rocambole
Atravesso São Paulo,
São José do Rio Preto
Chego ao Pantanal, ao Buraco da Araras
Mato Grosso do Sul
Arranho o norte do Paraguai
(não compararei quinquilharias,
mas abraçarei, respeitosamente o povo paraguaio, talvez pedir desculpas)
Encanto-me com o chaco boliviano,
lembro-me do grande general Sucre
E, para ver as águas profundas do Pacífico,
busco coragem
e atravesso o deserto de Atacama

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o sul

Logo estou em Barbacena
Desço, nostálgica, a Serra da Mantiqueira
Talvez entre em Cabangu
Certamente subirei o Morro do Cristo
De lá verei toda minha Juiz de Fora
Parque Halfeld,
rua Halfeld
Avenida Rio Branco
Academia Cristo Redentor
(aqui estudei, com bolsa, meu terceiro ano para o vestibular)

Estou chegando de novo
no charmoso Museu Mariano Procópio
passeio com Dom Pedro II pelos jardins da casa

Depois descerei pelas encostas da Serra do Mar
entre os perfumes da Mata Atlântica
subirei por Itaipava
tomarei um tinto seco
com minha colega cigana (médica antroposófica)

Chego em Copacabana
E mergulho nas praias do Rio de Janeiro

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o norte

E logo vejo o Belo Horizonte
Pego minha amada BR-040
Sete Lagoas
(antes terei lido, na estrada, Bairro Franciscadriângela)
Meus olhos viajam com os jagunços de Guimarães Rosa
Curvelo, Corinto, Boacaiuva,
Em Montes Claros dançarei ao som da valsinha de Godofredo Guedes

Cheguei em São Francisco, Januária,
Em Verdelândia encontro Frei Agnaldo e sua bondade
Continuarei subindo
Agora, montada no Benjamin Guimarães de outros tempos
Tô na Bahia de todos os santos
Bom Jesus da Lapa me abençoe.

São Raimundo Nonato
Aqui quero ver as artes rupestres,
as riquezas e belezas naturais das serras
e chegar em Teresina, a princesa do nordeste.
Mas no delta do Parnaíba
não dormirei
Ficarei ali por toda a madrugada
Só para ver as águas doces do Rio beijando
O mar do Piauí

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo distantes viagens

-desce daí menina e vem estender as roupas!

É minha mãe
me acordando dos sonhos
de primeiro de abril.



1° de abril de 2020