sábado, 3 de outubro de 2020

Crônica: A construção da minha casa


(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXVIII)



Amo viajar. Mais que viajar amo as janelas dos veículos por onde viajo. Por isto não gosto de viajar de avião. Aquelas janelinhas que, por vezes, estão no assento do outro passageiro. Prefiro ônibus, trens e carros. Melhor seriam as charretes e os carros de bois, pois assim viajo nas primeiras assistindo o rebolado dos cavalos e com uma visão de trezentos e sessenta graus e, no segundo, apesar do som triste dos chiados das rodas e os cabrestos da junta de bois, aprendo sobre o boiadeiro solitário a guiar seu caminho. Mas são através das janelas dos ônibus por onde faço minhas grandes viagens.

Foi me vendo morar naquela casa de janelas altas, ou naquela de portas largas, ou quem sabe naquela toda colorida, ou naquela onde o sol entra nas tardes ou nas manhãs, que fui decidindo como queria minha casa. Já morei em mais de duas dezenas de casas e apartamentos. Mudar sempre me foi necessário. Talvez tenha sido a maneira que encontrei de estar no mundo. Ou a maneira de mudar externamente já que não conseguia mudar cá dentro de mim. Só sei que morei em muitas cidades, em muitos bairros e amava fazer assim. 

E foi assim que comecei a construir minha casa ao longo da vida, como uma colcha de retalhos tecida no percurso dos anos com cada peça da estrutura física que eu vim colhendo através da beleza no olhar e da alma.

Dos quintais da minha infância trouxe as amoreiras, o abacateiro, as mangueiras, as bananeiras, as parreiras de maracujá foram presente de um amigo de Nova Era, os pés de limão galego, de limão-capeta ou limão-rosa foram plantios meus e, mais recentemente uma amiga me trouxe uma muda de cajueeiro. Das montanhas do Espírito Santo algum passarinho trouxe semente de café que, nesta semana, floriu e perfumou tudo em volta.  Do cerrado trouxe pés de ipê e da estrada para minha terrinha na Zona da Mata Mineira trouxe uma muda de cedro. Aqui já estavam o magnânimo jatobá e dois pés de angico. 

Depois vieram os hibiscos, a buganvília alaranjada, as orquídeas nos troncos das árvores, a grama em volta da casa. E ainda virão muitas outras flores.

A decisão de retomar a obra da minha casa viera com a visita à casa de um amigo em Muriaé. Nunca havia me encantado tanto com uma construção. Parecia que a casa havia sido feita com os retalhos da minha vida. Dela, além do desejo de construir minha casa, vieram retoques importantes como a sala com pé direito alto para refrescar todo o ambiente, as janelas no alto para entrada de claridade, os tapetes de ladrilhos hidráulicos, a grande quantidade de vegetação no entorno, a rusticidade dos materiais empregados na construção. E por ai afora. A casa do meu amigo virou capa de revista e já é famosa também fora do Brasil. Meu amigo pneumologista virou paisagista por profissão. Ele e sua esposa completam a elegância da casa.

Pois bem, continuemos com mãos à obra porque aquela é a casa do meu amigo e esta será a minha casa.

Da casa do primeiro homem libanês que conheci na minha vida, no Bairro de Bom Clima em Juiz de Fora, eu trouxe o clima bom do pé da serra e a coalhada no café da manhã.

Dos apartamentos apertados do centro de Juiz de Fora eu não trouxe as janelas voltadas para o interior dos prédios. Sem privacidade e sem passagens para o vento correr pelos espaços. Quero amplos corredores para me esbaldar correndo com o vento.

Já do primeiro apartamento em Betim trouxe o exagero na largura e altura das janelas. E do segundo trouxe o estilo e o som mineiro dos trens de ferro a correrem pelos trilhos. Daqui da minha obra ainda posso ouvi-los apitar e chacoalhar lá embaixo serpenteando o rio Paraopeba.

O fogão a lenha veio comigo de todas as casas das Minas Gerais onde não recusei os cafés com rapadura, as broas, o queijo e a deliciosa rosquinha de sal amoníaco. Entretanto, pensando bem, este fogão sempre morou dentro de mim desde a casa onde vivi entre os dois e cincos anos de idade. Era pequeno, feito com barro branco ou pintado de vermelhão, não me lembro.

Mas o construtor do meu fogão colocou nele melindres de cidade grande e eu coloquei nele as panelas de pedra de Santa Rita de Ouro Preto.

Já a churrasqueira não trouxe de lugar algum. Foi um agrado para o filho, a nora e as filhas. Mas devo confessar que ela ficou jeitosa e caprichosa.

Durante a realização do projeto arquitetônico, há mais de dez anos, insisti com o arquiteto para que todos os quartos tivessem janelas abertas para o sol nascente. Não foi possível. Apenas meu quarto terá o sol da manhã. Os dois outros não terão sol. As janelas estão voltadas para o sul e, segundo os modernos aplicativos dos raios solares durante todo o ano, apenas nos dias 30 e 31 de dezembro de cada ano, a rotação do planeta propiciará a entrada do sol neles. Não vou me entristecer com esse fato.

Já o espaço social não tem paredes. Todo aberto como se fosse o belíssimo barracão de fundos onde morei no bairro Floresta em BH no início dos anos oitenta. O projeto aproveitara um pequeno terreno nos fundos da casa e construíra um bucólico barracão de dois andares. Embaixo, num desenho em “L”, todo aberto, estava a sala, a copa, a cozinha, um pequenino banheiro social debaixo da escada, e uma lavanderia minúscula. Em cima dois quartos e um banho social. O bom gosto da arquiteta deixou sua marca registrada. Jamais esqueci daquele mini barracão encantador. 

No chão da minha sala, todo em cimento queimado da cor natural, coloquei um enorme tapete de ladrilho hidráulico nas cores azul, vermelho e amarelo que trouxera, bem antes da visita à casa do meu amigo, das igrejas por onde passei, da casa e do salão paroquial de Brás Pires, das antigas fazendas de Minas Gerais e de tantos outros lugares quando meus pés sentiam o frescor da temperatura hídrica. Sempre tirava meus sapatos para aproveitar aquela sensação.

Os cobogós foram um pedido meu. Eles me trarão privacidade. Sempre os via por ali e por aqui e nunca havia lhes dado importância. Devo dizer que a parede feita por eles ficou perfeita e ficará ainda mais quando eu enchê-la de flores.

Ainda não sei como será minha estante. Minha arquiteta e designer, hoje minha nora, tem me tranquilizado. “Farei sua estante”. Quero uma estante onde eu possa guardar e proteger meus livros. Quero espalhá-los ou deixa-los à mão e a vista. São os livros que me deram, gentilmente, todos os conhecimentos que carrego comigo. Tem sido, através deles, que choro ou alivio minhas dores. Dentro deles estão os personagens com os quais venho me interagindo por toda a vida. Certamente que terei uma vasta biblioteca.

Para segurança da casa e minha proteção tenho os cachorros de rua que me adotaram. Antônio, quando veio viver comigo, além de sua delicadeza, do gosto pelo vinho e dos pratos deliciosos, me presenteou com um casal de filhotes pastores-belgas, minha raça preferida. A família canina cresceu e toda ela vive em perfeita harmonia nos latidos e nas travessuras. 

Agora faltará a confortável poltrona da vovó – uma vovó bem moderna - onde beberei meus vinhos, lerei meus livros e de onde verei o por do sol. Entretanto não faltarão os familiares em dias de festa. Não faltarão meus vizinhos e vizinhos para a “jogatina do buraco”. Nem faltarão os amigos e amigas que trouxe comigo ao longo dos tempos.

E fico esperando que meu filho, minhas filhas, minha nora e meu neto, em seus voos, façam muitas e demoradas conexões por aqui.

03/10/2020


Toda semelhança não é mera coincidência



Ainda do livro "Canção Inacabada - A vida e a obra de Victor Jara" morto no golpe pela ditadura de Augusto Pinochet em 13 de setembro de 1973. Qualquer semalhança não é mera coincidência.

"Ao mesmo tempo, a ideia do diálogo estava se tornando difícil, senão impossível...................... Até em nível pessoal ou com os nossos vizinhos era quase impraticável uma maior aproximação com gente que procurava sabotar o governo* e fechar as portas às melhorias que estavam sendo feitas para as maiorias menos favorecidas; essas pessoas chegariam a qualquer extremo para manter seus confortos e privilégios, inclusive conspirar lado a lado com os fascistas." (pag.290)


* A autora está se referindo ao gevrno de Salvador Allende eleito democraticamente pelo povo numa das maiores manisfestações populares no Chile.



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Crônica: Aniversários



Setembro chegando ao fim e tive um susto ao ouvir de minha filha que mora longe que virá para o meu aniversário, no comecinho de outubro. Só que este ano resolvi pular a data e não fazer aniversário. Talvez porque a época não esteja mesmo favorecendo alegrias, talvez porque, antes de chegar aos setenta, eu tenha resolvido por em prática a mágica do Chico Adrião, nosso folclórico personagem que, já velhinho, dizia, sempre sorrindo, que sua idade estava minguando, que estava contando seus anos pra trás. 

Chico Adrião, de batismo Francisco Adriano, acho que realmente descobriu a mágica, porque povoa a memória de várias gerações sempre do mesmo jeito: baixinho, de barba e cabelos muito brancos, um sorriso largo em que se percebia a falta de dentes, carregando nas costas um velho saco cheio de latas de vários tamanhos, entre tantas, as azuis de gordura de coco Carioca, com um coqueiro no meio, as amarelas de óleo de cozinha Salada, de doces em compotas Cica, presentes que ganhava nas casas onde passava pra tomar café. 

Não raro, estendia a mão com uma lata dentro de outra, porque podia parecer, mas não era bobo: café quente servido em lata queima a mão. E as latas eram sempre limpas e redondas: não aceitava presente de lata em outro formato, talvez porque era mais fácil arrumar as redondas certinhas, uma dentro da outra, sem fazer muito volume no saco. Junto com as latas, muitas vezes vinha também um vidro ou uma lata com tampa, onde ele trazia água da mina do Pau d’Alho, água benta porque, segundo ele, havia uma imagem de Nossa Senhora em cima do morro onde brotava a mina, uma santa fujona que levaram para a igreja e que voltou sozinha para a morada antiga. 

Ninguém nunca viu tal imagem, mas todos viam quando ele aspergia a água em alguns cantos da cidadezinha, repetindo rezas que ninguém entendia. No fundo de minha imaginação de menina, achava que ele já nascera assim, velhinho, e que realmente conseguia fazer a idade minguar, mágica que vou tentar reproduzir esse ano, porque não estou vendo graça nenhuma em comemorar 68 num ano com uma cara tão fechada.

Não me lembro de nenhuma festa de aniversário de criança na minha infância: na minha casa, nada de bolos, docinhos vários ou presentes. Mamãe matava um frango, que era servido ensopado, acompanhado de arroz e angu. Em volta da mesa os irmãos se reuniam, rezavam juntos pelo aniversariante, oração que sempre terminava com um pedido: Nossa Senhora do Rosário, rogai por ele. 

Depois que todos almoçavam, servia-se a sobremesa: doce de leite picado em pequenos losangos, três para cada um, falta de educação pedir mais. O que não queria dizer que bastasse: a gente sempre surrupiava muitos, às escondidas, da lata de doce guardada em cima do armário. E na primeira quinta-feira do mês, dia de todo mundo confessar, os ouvidos do velho padre deviam ficar cansados de ouvir o pecado comum: peguei umas coisas escondido lá em casa. Não era uma questão de miséria, de regrar o que comer: era apenas um modo de educar para a sobriedade, para evitar a gula e o desperdício. Afinal, uma família grande, que crescia a cada ano, precisava aprender a ter moderação à mesa. O que não impediu minhas duas irmãs do meio de comerem quase dois quilos de doce de leite, de uma só vez, bem escondidas no quarto da mamãe.

Mas ainda assim éramos privilegiados. A maioria dos meus amigos de infância nem sabia o dia do aniversário.

Alguns adultos, sim, comemoravam a data: pessoas com certa representatividade naquela pequena sociedade do interior. E os adultos convidados levavam os filhos, não sem antes passar um bom tempo ensinando boas maneiras: não vai pedir nada! Não mexa em nada da casa dos outros! Fique quieto, perto de mim! E olha a esganação: só pode comer três docinhos; depois não aceite mais, só agradeça! E a gente via as bandejas passando com pés-de-moleque, doces de coco, de mamão, de cidra, de leite, delícias com cheiro de cravo e canela e, educadamente, dizíamos: obrigada, estou satisfeita. E lá se iam as bandejas, acompanhadas por nossos olhos compridos e gulosos . 

Essa era a regra, toda boa mãe ensinava a mesma coisa, a mesma medida. O que não impediu minha prima de comparar o que cada um comia e, no meio da festa, falar alto e bom som: "Aí, mamãe, fala com a gente pra comer três, mas já comeu quatro, né?"

Pois eram assim os aniversários dos privilegiados que podiam comemorá-los. E como disse o poeta, a gente era feliz e não sabia.
E agora que não há mais a regra de três docinhos, há a de regular os amigos: três, quatro, evitar aglomerações, usar máscaras, álcool gel, nesse pandemônio que estamos vivendo, mas,graças a Deus, ainda vivendo. Mas resolvi pular a data, resolvi fazer a mágica, voltar no tempo, minguar a idade. 

Com sua licença e sua bênção, Chico Adrião!!!



Beth Lima (Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação) - Barbacena M.G.

Observação: Ao ler esta crônica não tive dúvidas de que gostaria de publicá-la neste Blog e fiquei muito honrada com a autorização de Beth Lima, minha prima, conterrânea  e contemporânea. 
Beth, obrigada pelo presente.

24/09/2020






sábado, 19 de setembro de 2020

Crônica: Que encantos tem aquela blusa?

 

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXVI)



Mariângela abriu uma das portas do seu guarda-roupas. Várias blusas, vestidos, saias, calças compridas e écharps, dependuradas numa variação de cores e modelos. Abrindo espaço entre elas seus olhos foram imediatamente convocados por uma das peças.

Teria ido procurar um creme, talvez seu desodorante preferido, um brinco ou algum objeto para limpeza e cuidado das unhas? Já nem se lembrava mais o porquê de ter escancarado aquela parte do guarda-roupas.

Mas, despretensiosamente, fixou os olhos naquela blusa. Então uma enxurrada de lembranças lhe chegou através dela.

Quando e onde teria comprado aquela blusa? Não lhe vieram quaisquer lembranças. Mas, com certeza, teria sido um amor à primeira vista. Corte e costuras perfeitas. Tecido leve e em cores ao mesmo tempo fortes e discretas. Poderia usá-la em dias de temperatura mais baixa ou em noites mais frescas. Parecia que a blusa fora feita sob medida para Mariângela.

Tirou o cabide e viu que havia poeira nos ombros da mesma. Nesta pandemia não saiu de casa e, portanto, não usou nem lavou a mesma. Rodou o cabide e voltou com ele e a blusa para o local de antes.

Neste momento um barulho do lado de fora chamou sua atenção. Correu o olhar na direção e ainda pode ver o voo de uma ave grande bem perto da janela do seu quarto. Caminhou até o quintal e viu outro voo. Eram dois jacus que pousaram nos galhos do enorme pé de ipê no terreno do vizinho. Seria um casal? Mariângela ficou ali por alguns instantes. Sempre que via aquela ave se reportava ao “Café Jacu” com sua história de preservação da natureza e agricultura com sustentabilidade.

Estava já escurecendo. O sol acabava de se por bem a sua frente num belo espetáculo. Ela voltou para dentro de casa e seus pensamentos voltaram a viajar em companhia da blusa.

Na foto com as colegas do curso de pedagogia, num evento bienal de aniversário de formatura, noutra cidade, levou a blusa e usou-a no jantar. Ainda vê as fotos e percebe o quanto ela e a blusa formaram um visual bonito.

Numa outra ocasião Mariângela recebeu o telefonema de um antigo namorado enquanto trabalhava no primeiro turno de uma das escolas. Nesta ocasião estava se divorciando do marido e sofria muito, pois até então, nem desconfiava que ele já estivesse com uma namorada bem mais jovem que ela. Talvez, naquele dia, tenha vestido a blusa como sua companheira de leveza e combinação. Sentia que a blusa lhe deixava menos só.

-“Estou na sua cidade. Vim resolver questões administrativas do Banco. Gostaria de te ver. Seria possível?”.

E logo ele chegou. A blusa presenciou um afetuoso encontro. Ele lhe falou do seu trabalho junto à gerência bancária e depois quis saber como ela estava. Trocaram telefones pessoais e combinaram novos encontros.

Mariângela e a blusa sentiram-se, por alguns instantes, que tudo havia valido a pena – nesta hora riu sozinha e lembrou-se do poeta português, Fernando Pessoa.

Outra feita, uma amiga lhe telefonou e lhe convidou para uma “happy hour”, após o trabalho, com as “Espaçosas”, apelido carinhoso que haviam se dado. Eram sete amigas de longa data, supervisoras pedagógicas na mesma cidade. Mais uma vez a blusa lhe vestiu naquele dia. Elas riram, brindaram os sucessos de uma, as desventuras de outra, a separação de uma, o novo namorado da outra, os problemas nas escolas de cada uma, e tantos outros casos. E mais uma vez a blusa lhe fizera ficar bem nas fotos.

Mariângela hoje, enquanto aguarda o fim do isolamento imposto pela pandemia ao Coronavírus, decide lavar a blusa, perfumá-la e esperar pelo próximo encontro ao acaso. E sabe que sua blusa continuará sendo sempre sua fiel testemunha pela vida afora.

19/09/2020


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Delicadezas em tempos de Coronavírus XXVII - "A Mãe"

Ainda com os olhos fechados ela tateou a cama até encontrar o celular que despertava insistentemente e o desligou. Continuou dormindo. Não conseguira pegar no sono na noite passada e acabou dormindo muito tarde. 

Tinha alguns planos para as semanas anteriores. Aulas, estudos, eventos sociais e, até mesmo uma pequena viagem. Queria visitar seu irmão num outro estado. Tudo adiado. Ou tudo suspenso por enquanto? Ninguém tinha as respostas para suas dúvidas. O mundo passando pela pandemia do Coronavírus e, em tempo real, todos assistindo às centenas de mortes, que sem nomes, serão apenas complicados gráficos com pontos, colunas, curvas e números.

Viúva de um soldado que morrera durante uma operação militar, Leila está cumprindo rigorosamente o isolamento social orientado pelos médicos e estudiosos de todo o mundo. O casal de filhos adolescentes lhe surpreende com a resignação de ficarem dentro de casa. Aceitaram a rotina que a mãe e eles próprios vêm construindo, sem discussões ou relaxamentos. Cada um, depois de alguns dias, estabeleceu sua rotina incluindo os serviços da casa. Ficou decidido que a filha mais velha faria as compras necessárias aproveitando essas raras saídas para fazer tarefas indispensáveis como, levar o pagamento para a diarista que mora em bairro distante com o filho pequeno, alguma cesta básica para uma família conhecida ou fazer os pagamentos no banco.

Assim os dias de Leila vêm passando, indiferente a quaisquer outras pessoas que se vissem acatando a tal quarentena cujo nome ela pensava não estar apropriado a este confinamento. Esta denominação lhe remeteu à quarentena de Jesus no deserto, à quarentena das mulheres após o parto, ao jejum de carne que a mãe lhes impunha no período da quaresma. Quarentena para Leila eram quarenta dias. Quarenta dias?! Assustou com a possibilidade de assim ser.

Leila é professora de história do ensino fundamental. Gosta muito do seu trabalho enquanto educanda. Conhece seus alunos tanto no que se refere aos rendimentos escolares quanto naquilo que pode interferir negativamente nos aprendizados. Sabe bem que adolescentes precisam, para além das normas pedagógicas, de carinho, atenção e acolhimento. Leila é desse jeito. Respeitada e adorada pelos alunos.

Hoje recebeu telefonemas de alguns pais preocupados com os filhos em casa, com as perdas dos conteúdos das disciplinas, com a falta da rotina deles e querendo saber quando voltariam às aulas. Recebeu também, pelo whatsapp, o texto de uma educadora interrogando a mesma questão para um futuro próximo. Leila tem bem claro para si que, em quaisquer que sejam as séries cursadas pelos estudantes, as perdas programáticas serão bem menor do que esses tempos estão ensinando aos alunos. O Coronavírus, para além dos sintomas e das pneumonias, traz consigo também informações em história, em geografia, em ecologia, em preservação do planeta, em matemática e estatísticas nos gráficos, biologia e ainda traz noções de epidemiologia, medicina sanitária, cuidados de higiene e solidariedade. Para ela, se os pais aproveitassem os acontecimentos advindos da pandemia, já estariam cumpridos todos os conteúdos e toda a carga horária. E nenhum aluno perderia o ano letivo.

Mas nesta manhã algo mais que a dita quarentena, lhe apertava o coração.

Logo cedo, após comer sua fruta predileta, lembrou-se da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar da cozinha descascando melão. Nunca soubera que melão fosse a fruta favorita dela. Nem mesmo sabia que na sua cidade daqueles tempos encontravam-se melões nas quitandas. Mas sabia que seu pai satisfaria todos os seus gostos e que, portanto, daria um jeito de encontrar a distinta fruta.

E, uma pontada no peito lhe trouxe de volta às discussões com sua mãe. Lembra que até seus quinze anos acompanhava a mãe pelos desfiladeiros, tanto geográficos quanto da religião católica, para acompanha-la às missas, às reuniões do apostolado da oração, chegando até mesmo a participar do grupo das “filhas de Maria”. Porém este tempo acabara e Leila teve novos entendimentos da vida e na vida. Não aceitara que o Deus de sua mãe, tão adorado e generoso, pudesse ser corrompido pelas atitudes contrárias aos ensinamentos da Santa Amada Igreja. Fora lentamente distanciando do catolicismo embora soubesse do tanto que sua atitude abalasse a mãe. Na universidade, os estudos do obscurantismo da Idade Média quando a igreja, se misturando politicamente aos reinados, teria praticado tantos horrores em nome de Deus, fora a gota d’água para o corte definitivo com sua religião. Aprendeu que o capital sempre falava mais alto que qualquer virtude cristã. Entretanto o amor pelos rituais, o apreço pela arquitetura das igrejas, catedrais e tantas outras engenharias, permaneceram nela. Ainda hoje um de seus passeios preferidos, continua sendo conhecer as igrejas e as histórias dos “santos”.

Fora também a partir de seus estudos e de sua história pessoal, sem que percebesse o que lhe vinha acontecendo, que acabou adotando posturas de defesa às pessoas mais pobres e vulneráveis. Começou a fazer vários estudos acerca das formações das civilizações; adentrou através dos povos do continente africano e dos aborígenes australianos e entendeu muito mais do que as muitas discussões com sua mãe. E é isto que tem lhe trazido tantas pontadas no peito.

Agora, enquanto saboreia o mamão, vem-lhe as inúmeras negativas em resposta aos pedidos da mãe para que a acompanhasse ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Fecha seus olhos e vê a mãe indo, sozinha pelos ditos desfiladeiros geográficos de sua cidade em direção ao templo de Deus, todas as primeiras sextas-feiras do mês ou, até mesmo, em todas as sextas-feiras. Porém, hoje, Leila reconhece que, para aproximar da sua mãe, aqueles “nãos” foram preciosos. E reconhece também que aqueles “Nãos” ainda doem mais nela do que teriam doído na sua mãe.

Leila, de uns tempos para cá, vem reconciliando com seus santos e santas deixados de lado. Não nega o fato de sua reaproximação com a igreja ter se dado com o papado do argentino, Francisco, cujas ideias coadunam com as suas. Não é por acaso que esse é o nome também do seu filho.

Entretanto nem todos esses saberes, reconhecimentos e reaproximações, nestes tempos de isolamento social, serão suficientes para apagar nela as delicadezas da mãe comendo o melão.

- Mamãe! Eu estou pensando que a vovó estava certa quando se preocupava com os lixos que produzimos na casa. Ela sempre dizia que não devíamos comprar nada que não pudesse voltar para a natureza. Você lembra?

A filha havia entrado na cozinha e Leila nem percebera.

Sim. Ela se lembra disto.

Olha pela janela e, nas suas lembranças, vê a mãe colocando cascas de frutas e restos de verduras nos dois pequeninos canteiros que ainda sobreviveram após a reforma da casa.

Teve a certeza que amara tanto a sua mãe quanto fora amada por ela. Apesar das diferenças. 


Observação: Este conto foi escrito no mês de abril deste ano e concorreu no "Concurso de Contos da Pandemia da TV 247".

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Crônica infantil: Um flagrante da vida

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXV)

Na semana passada, em visita ao meu neto, este me pediu para que eu construísse uma nave e viajasse com ele pelos espaços siderais. Assim disse ele com todos as letras e muitos detalhes para que se dessem nossoas viagens. Obviamente que não recusei o pedido que, naquele momento se fazia como uma ordem. Ele já estava em grandes empreendimentos pelo espaço com suas duas naves, a X-Wing e a Tie-fighter, construídas pela ajuda dos pais, com as peças do fantástico brinquedo LEGO.

Eu fiquei com o que sobrou das peças. Uma metade de uma capsula transparente flexível sobre duas rodas que ele chamava de Barrigudinha. E esta ficou sendo a minha nada potente nave espacial. 

- Vovó repete comigo: SU – PLAI – ERRE. 

- De novo vovó: SU – PLAI - ERRE. 

- Entendeu vovó? Você está de aparelho? 

- Agora o nome do outro robô. Repete comigo: BORN – I. 

- Entendeu? 

Não! A vovó não entendia aqueles nomes ingleses que não fazem parte do seu vocabulário. Então pediu ao neto que escrevesse pra que ela pudesse ler. Assim ela iria ler e não precisava ouvir aqueles nomes. Ele a levou até o muro onde a sua mãe já havia escrito os nomes dos tais robôs. De qualquer forma, a vovó teve que aprender na marra. 

Dado o meu cansaço, não tive dúvidas. Enquanto Dudu viajava com suas potentes naves, fazendo reparos com os ultra inteligentes robôs, Supply-R e Burn-E, nas avarias causas por pedaços de gelos, a Barrigudinha abria-se ao sol para capturar energia e ganhar forças extras para alcançar as naves do neto.

Dudu ficava rindo das atrapalhadas da Barrigudinha que não conseguia nem acompanhar o palavreado técnico, em inglês, usado por ele. Por isso ela acabou virando um Jeep e ficar passeando pelas crateras da Lua enquanto Dudu dava várias voltas pelos anéis de Saturno ou encontrando com seus tantos amigos espaciais imaginários.

Apesar do cansaço com as viagens espaciais, dos trabalhos de reparos com técnicas robóticas em pleno espaço, dos cuidados para não cair nos buracos negros, foi uma tarde de grandes emoções e de muitos aprendizados sobre naves espaciais, robôs e os sons e escritas de outra língua.

A Barrigudinha serviu para a vovó se deliciar com as risadas do neto vendo os desarranjos de uma nave espacial gorda, velha e surda.



Ouro Branco, 31 de agosto de 2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Meninas dos Espíritos Santos

 (Indelicadeza em Tempos de Coronavírus - I)


- Vó acordei com vontade de vomitar...

- Vou fazer um chá de boldo pra você.


- Vó tô com dor por baixo

- Vou preparar umas ervas prá você se banhar


- Vó tô muito cansada

- Deixa de manha minha neta e vai logo pegar água na cisterna


- Vó minha barriga tá inchada.

- Deve de ser os vermes. Coma semente de mamão que mata tudo


- Vó tem uma coisa mexendo dentro da minha barriga

- Deve de ser as tripas. Cê anda enchendo muito os buchos.


- Vó você viu minhas bonecas que tavam aqui?

- Levei tudo para seu quarto. E não deixe seus brinquedos esparramados por ai


- Vó, vou esconder debaixo da cama. Não diz pró tio onde estou

- Deixe de bobagem minha neta. Ele te traz tantas coisas gostosas


- Vô, nós vamos tirar este trem que está machucando minha barriga?

- Vamos de avião? Obá! Eu nunca andei de avião.

- Quando voltar vou querer jogar futebol...


Observação: Minha homenagem a esta e a tantas outras meninas do Brasil vítimas do machismo na sua forma mais cruel e da hipocrisia de alguns fundamentalistas religiosos.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Mini-conto: EL GUAPO

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXIV)


   EL GUAPO

Ele era lindo. Alto, moreno, olhos verdes, andar solto e o sorriso mais lindo que Ana já havia visto. Com pouca conversa fisgou o belo. Mas a vizinha de cima também ficou encantada com o rapaz que já se tornara namorado da outra.

“O que ela tem prá fisgar esse peixe?” “Como ela consegue manter este namorado tão lindo?” “Será que ela não tem ciúmes de tanta beleza?”

A vizinha pensava, perguntava e não conseguia respostas. Até que resolveu jogar todo seu charme prá cima do jovem da outra e, para sua surpresa, nada fora difícil e o peixe caiu na sua rede.

Nos primeiros dias o encantamento tomou conta do namoro. Porém, passado este tempo, veio a resposta para suas tantas perguntas. O fantástico, o belo, aquele dos olhos verdes era totalmente desprovido de palavras. Ele não sabia nada de coisa alguma e se achava o filé mignon da boiada. 

Passando defronte a casa da outra percebeu um risinho sarcástico na cara da moça. 

O mais difícil de tudo foi desfazer daquele peixe que apaixonou de vez pelas palavras da segunda.

Há quem diga que até hoje ele fica tentando comer a minhoca do anzol dela que acabou indo pescar noutras freguesias.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Lenda: A Noiva do Morro de São Pedro

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXIII)



Lamentavelmente, até então, nunca havia me interessado pela história contada e recontada na cidade de Juiz de Fora sobre a noiva que aparecia aos desavisados nas noites de lua nova (ou cheia?) no Morro do Cristo que era o único acesso à região do São Pedro.

Pedi ajuda aos colegas médicos que estudaram comigo e um deles gravou um áudio me contando o que sabia da lenda. Relatou que morava no Bairro do Morro de São Pedro desde a época do cursinho e, por isto, sabia da história daquela noiva. Ele ainda lembrou-se da existência de lagoas pelas estradas. Mas não me lembro das águas pelos morros. Só lembro-me da beleza de toda a região e da visão fantástica daquelas alturas.

A estrada que liga, ainda hoje, o Bairro da Glória, no centro de Juiz de Fora, ao bairro de São Pedro é toda estreita e sinuosa. De um lado, as pirambeiras. Do outro lado o morro. Toda a região, coberta pela Mata Atlântica, deixando penetrar apenas alguns raios de sol.

Quantas vezes eu subi por aquele morro durante os seis anos do meu curso de medicina. Também não sei por que cargas d´água a UFJF fora plantada naquela região. Mas devo confessar que recentemente fui revisitar “minha UFJF” e qual não foi minha surpresa ao vê-la ainda mais bela, moderna, revitalizada, com um arrojado projeto paisagístico de reflorestamento. Estava toda florida e totalmente integrada à comunidade da cidade que, nos finais de semana, passeia por ela e suas belas praças de lazer. Atualmente as estradas do Campus são usadas como integração do Morro de São Pedro aos novos e luxuosos bairros na região sul da cidade.

Mas minha história hoje é sobre a lenda que conta ter havido um acidente com um casal de noivos em lua de mel quando a porta do passageiro do carro se abriu e a noiva rolou pelas ribanceiras daquelas estradas. Deve ter morrido, obviamente, para ter constituído a história. Pois bem, a partir deste fato, o espectro da noiva vem aparecendo nas encostas escuras do morro para um ou outro que passe por ali.

A moça apenas aparece com seu vestido de noiva, de pé, entre as árvores, causando arrepios em alguns, desafios em outros, encantamentos e amores nos mais solitários.

Até hoje a aparição da noiva no Morro de São Pedro continua circulando no inconsciente coletivo das pessoas de Juiz de Fora. E, sempre que aparece, as histórias reassumem novos contornos. Quem vê jura que a visão da noiva é verdadeira.

E essa história já faz parte do folclore da cidade.

10/08/2020

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Crônica: Moradia Compartilhada




(Delicadezas em Tempos de Pandemia - XXIII)





Moradia compartilhada

-“Se trouxeram o Rio Xingu até a Baia da Guanabara eu juro que fico com vocês”

“Pois não foi que uma vez eu, único médico daquelas florestas amazônicas, tive que viajar com o tal general, presidente do Brasil na época, só porque o digníssimo queria sobrevoar a região de Tefé. Eu calado, ele cheio de fardas e de distintivos coloridos na lapela. O homem tremia de medo. A chuva caía sem compaixão. Eu, quieto no meu canto, afinal quem está na garupa não governa rédea, já dizia meu pai. Tinha ido atender a um chamado de uma tribo onde a malária atacava sem dó”.

- “Por favor vamos atentar ao nosso objetivo senão não sairemos daqui.” Esta era a Menga, sempre muito objetiva, a colega pediatra aposentada, casada com um canadense prá lá de gente boa e bebedor de finos vinhos.

Vamos ouvir o idealizador do projeto. Fala ai King.

- Pois então, na qualidade de anfitrião e proponente do projeto, gostaria que o meu Fogão ganhasse o campeonato...

- Oh não! Desculpem! Me ajuda ai Jéssica (a bela companheira de King).

- Então amigos e amigas, vamos lá. Eu e King temos conversado muito sobre nosso grupo. Estamos envelhecendo e, em alguns países da Europa este sistema já vem sendo efetivado, ou seja, queremos convidar vocês para vivermos todos juntos?

- Mas o verdureiro próximo a minha casa, na Baia de Guanabara, entrega coisas deliciosas de Minas e eu não sei se conseguiria que ele levasse as frutas e verduras para todos nós.

- Espera ai Jéssica, você está sugerindo que façamos uma comunidade tal e qual os novos baianos? Seríamos assim como “os velhos comunistas”? Gostei da ideia. Poderia até levar minhas cuecas velhas de algodão. Elas me dão muita sorte no amor.

- Atenção pessoal! Temos várias etapas a pensar, estudar e partir para a execução. Quem gostaria de viver numa comunidade assim?

- Eu não tenho nem cartão bancário mas adoro cantar e, se necessário, poderei atender alguns amiguinhos que aparecessem pela vizinhança.

Era Tonico Feliz que logo levantou a mão em sinal de aprovação da ideia e continuou:

-“Mas tenho que perguntar prá Tita antes. Se ela concordar eu topo.”

- Vamos voltar aos projetos. Alguém mais quer falar alguma coisa?

- Eu não quero ficar em quarto perto da Tereza. Nem com porta a prova de som. Ela ronca e parece que tá morta. E vou fazer muitas calcinhas de filó prá vender na feira. Poderia fazer cuecas de filó também. Acho que faria o maior sucesso.

- Companheiros e companheiras temos que eleger o presidente dessa associação para defender nossos direitos a serem conquistados com a implantação deste sistema de moradia. Eu me candidato a presidente.

- Mas se trouxerem o Rio Xingu até cá eu não terei tantos problemas com o entrelaçamento de raízes das vitórias-régias. Gostei dessa ideia. E Ravi e meu filho, chef de cozinha famoso no mundo inteiro, poderão fazer muita comida árabe para nós. Mas já adianto que ficarei por conta dos jardins.

- Pessoal alguém teria sugestão onde seria implantada esta nossa casa? Pois bem quero sugerir a cidade de São Paulo, pois não consigo viver longe dos espetáculos e do glamour das garndes metrópoles. E minha filha poderia nos presentear com sua bela voz e suas performances.

- Tô aqui calado mas pensando nas minhas viagens aos Estados Unidos para meus congressos de endoscopia e tantas “cositas más”. Gostaria que fosse perto de um aeroporto internacional.

Nesse momento foi dada uma pausa para o lanche devidamente organizado por King e Jéssica.

Bananas assadas com mel, canela e queijo, pasteis de guaraná, suco de umbu, vinho para quem é de vinho e uma cachacinha para os mais corajosos.

Todos haviam dado suas opiniões e, quem se absteve, estava implícito que concordava com o grupo.

A partir dai a empolgação tomou conta da reunião. King era puro fogo.

Alguns queriam morar na Serra do Cipó, sob a proteção ambiental do Juquinha. Outros queriam que fossem viver nas alturas da Pedra Menina na Serra do Caparaó. Tonico pediu uma oração prá Nhá Chica abençoar e iluminar aquele projeto.

Chegando ao fim do horário previsto todos concordaram que a alegria foi o tom do encontro. Agora que cada um retornasse para sua casa e pensassem na viabilização do projeto.

Menga pediu que fosse feita a ata desta primeira reunião e assinada por todos com a seguinte introdução:

- “Nesta data de vinte e um de julho do ano de 2020, perdido pela pandemia do Coronavírus, o grupo de médicos sessentões, aposentados e sem ter o que fazer, foi convocado por um deles, King, para uma primeira reunião com o objetivo de apresentar seu projeto de “Moradia compartilhada”. Após discussão e nenhum consenso cada um voltou para sua casa com todas as saudades do mundo dentro do peito.”

21 de julho de 2020

 

 


terça-feira, 21 de julho de 2020

Poema: Vermelhou...

(Delicadezas em tempos de Pandemia - XXII)

Um vento súbito avançou
sobre meu quintal
uma chuva de folhas secas 
dançou no ar
coloriu de outono o chão


Ontem pela manhã
um Tico -Tico - Rei 
me honrou com sua visita
acompanhado da sua rainha

Ontem a tarde
um pássaro grande 
de linhas retas
penacho vermelho na cabeça
agarrou-se no tronco do ipê
da minha cozinha

então um som ôco 
repetitivo
invadiu meus ouvidos

Pica-pau

19/07/2020

domingo, 19 de julho de 2020

Redação Infantil: Biribim



BIRIBIM

Um dia eu estava vendo um vídeo na internet, nesse vídeo aparecia uma cadelinha que se chamava Biribim, ela era uma cadelinha treinada que fazia muitas coisas legais.

Ela fazia tudo que seu dono falava. Ela pulava obstáculos, ficava em pé e deitava quando o seu dono pedia. Era uma cadelinha muito brincalhona e alegre. Eu e meu irmão mais novo, o Lucas, assistimos o vídeo várias vezes, pois gostamos muito de animais, principalmente de cachorrinhos.

Alguns meses depois meu pai encontrou um cachorrinho parecido com aquele do vídeo. Nós ficamos tão felizes, que nem pensei duas vezes e já coloquei o nome de Biribim, só que o nosso cachorrinho é macho, então chamamos ele de “o Biribim”.

Estamos tentando treinar o Biribim, mas ele não nos obedece, mas a gente ri se diverte com ele assim mesmo, acho que ele parece comigo e meu irmão, por isso é um pouquinho bagunceiro. Ele nos passa alguns sustos, mas nós amamos ele demais.

Pedro Otávio dos Santos




Observação:
Pedro e Lucas, com a ajuda da mamãe, Eunice Aparecida, fizeram a redação e o desenho conforme eu havia pedido. Confesso que fiquei muito feliz. E, conforme combinado, compartilho aqui com todos vocês. Abraços Pedro e Lucas e muito obrigada.
19/07/2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Crônica Infantil: BIRIBIM

 (Delicadezas em tempos de Pandemia - XXI)

 BIRIBIM



Ainda nem tinha nome. Estava nas ruas. Tinha o pelo da cor da estrada. Seria sujeira? Pó do asfalto. Cristiano freou o carro e viu aquilo se mexendo. Um cachorrinho perdido. Parou o UNO no acostamento, aproximou lentamente do cachorrinho e viu que ele estava assustado.

-Não vou te machucar. Só quero ver se está tudo bem com você.

Assim o homem falou com o cãozinho. Logo viu que se tratava de um filhote. Nem pensou duas vezes. Convidou-o a acompanha-lo e perguntou se ele queria uma casa e dois amiguinhos. E todo sujo entrou no carro.

- Vejam o que eu encontrei na estrada!

Os filhos olharam e aconteceu aquilo que os adultos chamam de “amor à primeira vista”.

Pedro e Lucas logo foram brincar com o mais novo companheiro.

- Podemos ficar com ele, papai?

- Como vai ser o nome dele?

- Ele está sujo ou tem esta cor de cinzas?

E foram tantas as perguntas que Cristiano nem conseguia responde-las. Mas disse:

- Primeiro temos que conversar sua mãe. Se ela aceitar, vamos leva-lo ao veterinário para nos orientar sobre os cuidados e as vacinas.

Pedro e Lucas sabiam que iriam convencer a mãe para deixar o cachorrinho com eles.

Deram banho no cãozinho e logo viram alguns pelos brancos entre todo o resto acinzentado.

Estava feita a amizade entre os três e com o consentimento dos pais.

Biribim foi o nome escolhido e logo Biribim já ocupou seu lugar na casa. Mas ele queria mais que o espaço da casa e, um dia no descuido, ele saiu pelas vizinhanças. Entrou no primeiro portão que viu aberto.

Ali não Biribim! Ali não!

Ali, naquele sítio, havia quatro cachorros com fama de serem muito bravos. Eles cercaram o Biribim que os enfrentou com muita coragem. Os meninos escutaram a confusão e vieram logo em socorro.

Biribim estava acuado num canto da cerca e tremia de medo. Parecia ferido.

Eunice, a mãe, chamou a vizinha que veio em socorro. Desajeitada feito ela só e mais apavorada que o Biribim, ela tentou afastar seus quatro cachorros, aproximou e o pegou no colo. Ele esbravejava de medo, de dor e de defesa. Tudo durou um segundo, mas o tempo suficiente para que ela visse lágrimas nos olhos dos meninos.

Foi neste instante que Biribim acabou caindo e, Pedro num reflexo de amizade, pegou Biribim no ar, do outro lado da cerca. A vizinha havia esquecido o arame farpado sobre a cerca que arranhou os dois e Biribim tentando se soltar daquela desajeitada deu-lhe uma leve mordida no dedo.

Mas a vizinha ficou muito preocupada de ter ferido o cachorrinho. Pediu desculpas aos meninos. E uma coisa não lhe saiu da cabeça: de onde Pedro e Lucas tiraram aquele nome para seu cachorrinho?

Então resolveu pedir-lhes que, cada um, fizesse uma redação sobre o BIRIBIM e que eles enviassem-lhe para que ela pudesse saber e contar para todo mundo.



BILHETE

Pedro e Lucas

Por favor, escrevam sobre o Biribim e me enviem suas redações.

Peço também que, se quiserem e seus pais autorizarem, que eu possa publicá-las no meu blog, Contos de Rivelli.

Abraços e me deem notícias do BIRIBI

16/07/2020

Da vizinha

                      Rivelli

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A Gata


(Delicadezas em tempos de Pandemia XX)



Princesa rodeava sua dona

Gata manchada

preto, laranja e branco

Mais parecia uma flor.

Num descuido de Clara

pulou em cima da mesa

deitou sobre um dos livros

e leu Freud

“Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”

Saiu assustada

foi caçar um gato

ninguém mais soube dela.

 

Lafaiete, 13/07/2020


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Fábula : O rei cruel

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XIX)

 O rei cruel


Num reino de faz-de-conta o povo escolheu como rei um cidadão desconhecido, mas que se dizia cidadão de bem. Ele asseverava querer mudar os rumos da história daquelas terras temendo que conquistadores invadissem o território uma vez que os últimos reis e rainhas haviam transformado o reino em uma moderna e rica nação.

Os povos estavam divididos quanto suas intenções.

Havia aqueles que, desde os tempos remotos, tiveram seus privilégios garantidos e suas riquezas que só aumentavam. Estes nada queriam mudar. Para eles que “tudo ficasse como dantes no castelo de Abrantes”.

Havia aqueles que ficavam à margem dessas riquezas e viviam das sobras daqueles.

Portanto tratava-se de um reino com grandes diferenças no tocante aos viveres de seu povo. Por isto que dentre estes últimos foi crescendo o desejo por melhores condições do viver. Não queriam mais apenas sobreviver de favores e à sombra dos ricos e poderosos. 

Mas o rei escolhido não tinha inteligência, não tinha conhecimentos, nem sabedorias de vida. Ele só tinha filhos, esposas e um passado de militar atleta. Ah! Ele também adorava dormir durante reuniões importantes dentro e fora dos quarteis, pois as achava desinteressantes e sem valor.

Entretanto se os assuntos fossem sobre armas, principalmente aquelas de cano longo, ele despertava e dava opiniões. Achava que todos do reino deveriam tê-las em casa para se protegerem dos outros que também tinham armas. E foi assim que as matanças foram autorizadas no reino. Vale contar que essas armas eram tão caras que só os abastados tinham dinheiro para adquiri-las. Pois bem, mais uma vez os pobres e desvalidos seriam assassinados.

Embora mais da metade da população do reino dizia discordar de suas ações, ninguém entendia como um rei assim tão despreparado, tão claro e mau em suas intenções, odiado por todos os demais reinos, continuava reinando. Pior ainda, ninguém entendia como ainda era venerado por muitos como se fosse um messias enviado por um deus.

Deu-se que outro deus resolveu castigar os reinos da Terra e transformou um verme que só adoecia pequenos animais, em um potente verme que passou também a adoecer os humanos. Para tentar combater a doença provocada por este verme, todos os reis procuraram os grandes curandeiros e xamâs e, humildemente, pediram ajuda.

Os reinos estavam sendo devastados. Os súditos começaram a morrer em todos os reinos. Neste tempo resolveram se unir para um reino ajudar o outro em todas as formas e nos conhecimentos que cada um fosse adquirindo.

Os abraços foram proibidos pois o verme passava de pessoa a pessoa pelas respirações. E respirar foi ficando cada vez mais difícil. Os vermes entravam nos pulmões, sugavam todo o ar e deixavam as pessoas se afogarem na falta de ar.

A tragédia afetou todos os reinos. Era preciso que todas as pessoas se distanciassem umas das outras para se protegerem e protegessem aos outros.

Mas aquele rei malévolo nada respeitava e, desconsiderando os sábios curandeiros e xamâs, minimizou o verme que, descontrolado e raivoso, foi matando seus súditos, os que gostavam dele e os que não gostavam dele também.

O rei cismou que todos os doentes fossem tratados por uma erva medicinal de nome estranho embora os curandeiros alertassem acerca dos graves riscos que a tal erva poderia provocar, inclusive a morte. Mas o rei continuava esbravejando e indicando tal erva milagrosa para todos os seus súditos como se ele tivesse a sabedoria dos curandeiros e xamâs. Ele nada fêz para ajudar seu povo.

A partir de então o reino foi-se fechando em tristeza e abandono. Enquanto isto, o rei, seus familiares e amigos foram se tornando mais intolerantes, cruéis e, terrivelmente, amados por aqueles que o defendia mesmo sabendo de suas atitudes desbaratadas.

Mas eis que aparece uma cobra naja nos salões do castelo do rei e ele é picado por ela. Ninguém sabia como isto aconteceu uma vez que tal cobra altamente venenosa vivia apenas noutros reinos bem distantes.

O alvoroço tomou conta do reino. Os curandeiros foram chamados para salvar o rei. E, nas suas moralidades e benevolências, curandeiros e xamâs salvaramm o rei.

Depois deste fato, enquanto todos esperavam que o rei se humanizasse com a proximidade da morte ele, ao contrário, retorna às suas atividades ainda de forma mais cruel. Determinou que deixassem de oferecer água, alimentos e tratamentos para os povos que viviam no meio das matas do reino. “Eles devem morrer. Não prestam prá nada” cuspia o rei.

Foi nesse momento que um sábio que vivia naquelas terras do meio da floresta, sabendo do decreto e das palavras do rei, disse aos povos de todo o reino que observassem a natureza.

“Quando uma madeira vai crescendo no disforme de sua família, nada haverá de dar rumo certo a ela em direção ao sol. Ela há de vergar e viver na escuridão”.

Escutando aquele sábio, o povo percebeu que se fazia hora para que um novo rei fosse escolhido.

Então todo o reino se uniu para destituir aquele que fora o pior rei daquele imenso reino encantado chamado Brasil. 


10/07/2020














segunda-feira, 29 de junho de 2020

Conto: O quê este texto está dizendo?



(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVIII)

-“Este ano vocês aprenderão a escrever o português com todos os tipos de suas orações. Irão também conhecer alguns escritores brasileiros, em especial um deles, e irão ler suas obras. Na biblioteca tem alguns exemplares, mas vocês poderão procurar mais livros na biblioteca municipal”.

Assim se apresentou meu primeiro professor de português no Colégio Estadual da cidade de Conselheiro Lafaiete.(*)

Monteiro Lobato entrou na grande sala da minha primeira série do ginásio. Estava com onze anos. Era o ano de 1969 e o homem se preparava para pisar na lua.

O professor, um jovem entusiasta que havia acabado de formar em letras na capital, chegou ao colégio com toda sua bagagem universitária e um grande desejo em ensinar.

Pronto. Foi dada a partida para que eu me enfurnasse dentro do quarto com Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Tia Anastácia, dona Benta, Marques de Rabicó e tantos outros. Vivia todas as emoções com se fosse mais um morador daquele sítio encantado.

Mas tinha um problema. Um grande problema. Eu não sabia falar nem escrever sobre o que havia lido. Portanto, nas provas e exames orais, minhas notas eram as piores da sala. Não conseguia nem abrir a boca.

E aquele professor não perdoava.

Na matemática eu brilhava nas equações. Adorava a exatidão dos resultados. Nada dava errado. Eu tirava as melhores notas da sala. Em casa meu irmão mais velho, que também amava os números, estava sempre a me ajudar.

Na geografia eu viajava pelo Brasil, pelos rios, pelas montanhas, pelas cidades, pelos estados e seus limítrofes. Meu avô foi caixeiro viajante e meu pai viajou com ele na adolescência. Ele sabia de tudo das cidades e dos rios. Mas eu fazia todas as minhas viagens em companhia de Narizinho e Pedrinho. Emília me dava nos nervos. Eu não era páreo para ela e sua teimosia.

Nas aulas de artes me apaixonei pela clave de sol, pelo som do lá menor e jamais me esqueci da definição de música enquanto “o som agradável aos nossos ouvidos”. Embora não tenha conseguido aprender a tocar flauta ou violão, aprendi a distinguir os sons de alguns instrumentos e sempre me interessava por conhecê-los.

Nas ciências me divertia fazendo todas as atividades em casa. Até minha mãe ajudava nas experiências com alimentos e meu pai construía instrumentos sonoros e fazia telefones sem fio para nos ensinar sobre a propagação do som.

Não conseguia aprender a história do Brasil. Achava tudo muito confuso. Nada daquelas datas me interessavam, mas decorava e tirava boas notas.

Mas o danado do português me deixava desorientada. Lia uma coisa e entendia outra. Ou lia e não entendia nada. Os sentidos das palavras entravam em mim, misturavam meus pensamentos e me deixavam sem sentidos.

Juro que tentava ser uma boa aluna naquele português. Tinha medo do professor e de suas “orações coordenadas e subordinadas”. Nada daquilo entrava na minha cabeça de onze anos. Nem as tais análises sintática e morfológica das palavras. Todas elas fugiam de mim. Parecia que eu ficava desamparada diante de tantas palavras. Meu coração disparava e meu rosto queimava de vergonha.

Eu queria mesmo era brincar no sítio do Picapau Amarelo. Entrar dentro das páginas e reinar com Narizinho, comer os deliciosos bolinhos de Tia Anastácia e nunca mais ouvir falar em orações. Orações já bastavam aquelas de todas as noites em minha casa.

Devo confessar que vivi de corpo e alma em inúmeras personagens dos tantos livros lidos a partir de então.

E foi assim que deixei as orações e as palavras e me enchi de sonhos.


29/06/2020 dia de São Pedro


(*) Professor Arlindo Lúcio da Cunha Andrade a quem dediquei meu primeiro livro (Rosa nos Tempos) e a por quem tenho uma enorme gratidão. “Desculpe se não aprendi o português, entretanto você me possibilitou sentir as leituras”.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Condutas diante do amado

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVII)

1 – Se ele aparecer não ceda, pois ele, o amor, despenteia os cabelos e desarruma as gavetas; 


2 – Se acender a chama da paixão, apague-a logo. Ela arde e queima os corações;

3 – Se ouvir uma canção de amor, não rodopie. A labirintite pode aparecer e estragar sua dança;

4 – Se ele te convidar para ir ao cinema, não vá. No escurinho ele pode querer botar a mão naquilo e você não vai aguentar.

5 – Se sentir saudades não escreva cartas. Elas podem extraviar e caírem nas mãos do outro;

6 – Se assim mesmo você optar pelo perigo do amor poderá perder o sono e ai, só um rivotril.



13/06/2020

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Mini-conto: Dia de São João

(Delicadezas em tempos de Coronavírus XVI)

Naquela noite de São João, como nos anos anteriores, seus olhos me fitaram e ruborizaram minha face. 

Para fazer fita dancei com  outro que nunca esteve lá. Aquele foi embora e este não valeu a pena. 

Hoje, neste dia de São João, como nos últimos anos, meus olhos fitam as ruas vazias de ti. 

À noite dançarei de paixão e a fogueira queimará meu coração. Só não terei mais seu olhar a me fitar.

24/06/2020

segunda-feira, 15 de junho de 2020

História do mês de Junho

  (Delicadezas em Tempos de Coronavírus XV)                   



Os tempos estavam desencontrados. Era junho e o frio não chegara. O sol continuava brilhante, quente e desinteressado pelo inverno prometido. As flores, ignorando a presença do outono, coloriam o quintal. Eram flores de antúrios, grandes e pequeninas, flores de alamandas, algumas teimosas flores do jasmim manga, sofridas flores de spatifilus, mimosas meio-dia, flores de hibisco (que por ali são chamadas de nariz-de-seu-pai) e buganvílias. Catarina não se cansava de festejar as flores adversas aos tempos delas. Enquanto ficava a admirá-las ela pensava no seu amor.

Só ele ainda não apareceu. Será que desentendeu com São Pedro? Será que, exibido feito ele só, pulou outra fogueira e se queimou? “Mas as fogueiras ainda não estão subindo aos céus e hoje é dia de Santo Antônio”, resignou-se.

Enquanto isto os olhos de moça continuavam refletindo as cores das flores e viajavam com a esperança que ele chegasse antes da noite de São João. Ele sempre veio. Ao pensar assim o coração bateu aliviado. Era só esperar. Seria apenas uma questão de dias e ele apareceria.

Catarina esperou. Quisera que as horas voassem no relógio da parede da sala e o namorado, como que vindo do nada, aparecesse.

Na carta recebida ele confirmara a data de sua chegada. Ela trançou os cabelos, pintou as unhas, botou o vestido novo. “Será que ele vai reparar?” Era ela e sua impaciência.

Chegado o dia esperado as batidas do coração de Catarina aceleraram no mais não poder. Ficou na janela. A namoradeira com os cotovelos marcados com a pele comprimida.

Ele desceu a rua. Era todo calmo e charme. Cumprimentou-a com os devidos respeitos de seu jeito. Tentou sorrir. O riso saiu amarelo. Pediu a Catarina que chamasse o pai e a mãe. Ela abaixou a cabeça e obedeceu.

Os pais entraram na sala e o jovem, sem meias palavras, foi logo dizendo. Havia noivado outra moça. Estava de casamento marcado. Sem pedir desculpas apenas esperou o que viesse do lado de lá. O pai, ainda sem dizer palavras, abriu a porta e encaminhou para a rua o que noivo da outra que não era sua filha. Ele não valia palavra alguma. Só Catarina e seu coração queimado de amor não vira a verdade dos fatos.

Depois disto a mãe quis conversar. Mas Catarina não tinha ouvidos naquela hora. Era toda lágrimas e dores. Entrou para seu quarto e por lá ficou emudecida. Os pais alarmaram. As amigas foram chamadas para dar conselhos e alegrá-la. Nada. Catarina nem tinha mais olhos floridos.

Porém na noite de São João ela saiu do quarto com seu vestido mais bonito. Tinha os cabelos soltos e os olhos brilhantes. Foi para a festa e dançou a quadrilha. No final da dança seu par lhe convidou para uma conversa. Quiçá um namorico. Ela, alvoroçada, aceitou o convite.

Contam, aqueles que viram o acontecido, que Catarina naquela noite dançou toda a noite em torno da fogueira até virar uma língua de fogo e subir aos céus. O moço pegou seu alazão e, entre as estrelas, campeou atrás dela.

No dia seguinte, para espanto de todos, as flores alaranjadas das buganvílias do quintal da casa de Catarina amanheceram entrelaçadas com os galhos do frondoso ipê.

Catarina e o moço nunca mais foram vistos. Até hoje a ciência dos homens e das plantas buscam explicações para aqueles mistérios.

E, por todos os anos em junho, essa história é contada pelo povo daquela região.



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ela e o Tempo

(Delicadezas em tempos de Coronavírus  XIV)


Hoje ela se lembrou das palavras do poeta Mário Quintana, lidas onde ela não se lembrou, “Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...” 

Então entendeu que em todos os dias do ano brotam as flores e as esperanças. E logo tratou de bendizer ao tempo os amores de outrora que a vida havia lhe dado.


11/06/2020

 

 


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Crônica: "A caminhada ecológica"

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XIII)

Era natal. Meados dos anos noventa. Todos os quinze netos e meu filho ainda bem pequenino estavávamos na casa dos meus pais aguardando a noite em que Papai Noel traria os presentes.

“Que tal uma caminhada Ecológica?” Era a tia querida, no caso eu mesma. O ânimo foi total. Sugeri bermudas e tênis, uma vez que faríamos uma longa trilha pela maior depressão geológica da cidade e, onde na minha infância, buscávamos água para beber. Era onde eu amava ver as lavadeiras dentro do curso d´água batendo suas roupas nas pedras.

Meninos e meninas eufóricos e dispostos a tal empreitada. Certamente não sabiam o que era uma caminhada ecológica e nem imaginavam do que se tratava aquele convite. Pois iriam aprender. E lá fomos nós com a compania do Tio Paulinho, o mais querido, e seus dois filhos.

Descemos a ladeira da minha rua e andamos pela desértica rua de baixo. Alguns já queriam desistir. Todos estavam entre cinco e treze anos. 

"Tô cansado", era um deles.

“Nem pensar! Nossa caminhada ainda nem começou!”

Esta era eu animando meus sobrinhos e sobrinhas.

Logo chegamos à rua por cujo final se estende a fontinha. Agora seria só entrar no amplo gramado que serpenteava todas aquelas bicas de água natural que descia dentro da montanha como um rio subterrâneo.

Porém, eis que a minha fontinha havia sido inundada pelas águas das recentes chuvas de dezembro. Só havia brejo. Não declinei do meu intento e convoquei toda meninada àquela aventura.

Água até os joelhos, tênis barreados, bermudas molhadas e uns ajudando outros que se agarravam no barro. Ariane com uns seis anos, barreada até a cintura, não quis continuar nossa trajetória. Então seu pai, o querido Tio Paulinho, trouxe-a de volta.

Finalmente vencemos o pântano em que havia transformado minha fontinha. Pura emoção, sem queixas e alguns com os olhos arregalados, continuamos nossa viagem.

Atravessamos a cancela de arame farpado que demarcava aqueles imensos pastos baldios para que as "criações" (vacas e bois) não entrassem em terrenos alheios. Começamos a segunda etapa da nossa aventura: subir a trilha no meio da montanha bem perto do buracão mais assustador da região.

Finalmente chegamos num beco estreito por entre quintais de pequenas casinhas. Estávamos nos fundos do Bairro de Santa Efigênia com sua população composta na grande maioria por pessoas negras e pobres. Eu já conhecia aquela região e sempre admirava os coloridos em épocas das festas de folia de Reis e de Santa Efigênia. Lá em cima havia a igreja da santa que deu nome ao bairro.(1)

Estávamos bem longe de casa.

Eu não parava de falar um só minuto com meus sobrinhos durante todo o percurso. Eles escutavam atentos e maravilhados. Expliquei que ali era a metade do círculo que faríamos até chegar a nossa casa. Portanto, a partir dali, começávamos o retorno. Completaríamos o contorno de trezentos e sessenta graus (assim eu ensinava a geometria)

Estávamos no final da longa Rua Barão de Suassuí que inicia no centro da cidade alta. Mostrei-lhes o colégio estadual, suntuoso prédio pintado em verde e em arquitetura moderna para aqueles tempos. Ali eu havia estudado o ginásio e o científico que já foram renomeados para “ensino fundamentral e ensino médio", respectivamente.

No início da mesma rua, mais próximo da nossa casa, também havia o casarão da Tieta, construção do século XVIII, que abrigara o Grupo Escolar Inconfidência, onde também iniciei minha vida estudantil quando ainda criança. Eu aproveitei e lhes falei sobre a Inconfidência Mineira, obviamente floreando minha paixão pelos inconfidentes e suas inconfidências. Nos porões daquele casarão nossos inconfidentes haviam se encontrado por muitas vezes para suas reuniões secretas quando tramavam os movimentos libertários do nosso país que, naquele tempo, era a maior e mais rica colônia de Portugal (assim eu ensinava aos meus sobrinhos sobre história, geografia e política).

Por esta rua passava todo o ouro que vinha de Ouro Preto e Ouro Branco indo para a corte, no Rio de Janeiro.(2) 

Contei-lhes que o terreno daquele casarão, um imenso pomar de frutas, com inúmeras jabuticabeiras, ia até os fundos da rua onde ficava nossa casa e, roubar jabuticabas naqueles pomares da Tieta, era a grande aventura dos pais deles.

Mais história de casarões famosos.

-“Estão vendo esta escola ali?” Era eu apontando para outro casarão, próximo dali. Era a casa onde viveu, por uns tempos, o famoso escritor Bernardo Guimarães. E lhes falei da novela Escrava Isaura, baseada no livro escrito por ele enquanto morava ali. Naquele tempo da nossa caminhada a casa já abrigava o Colégio Monsenhor Horta.

Mais uma ladeira para subir e já estaríamos quase fechando nosso círculo por interio.

Enfim, com todos cansados, encharcados, felizes e mais ricos em conhecimentos, chegamos à casa da vovó e do vovô. Nossa casa!

Avaliando hoje, penso que tudo teria sido perfeito se as únicas lembranças desta aventura tivessem ficado por conta dos filhos e filhas barreados. Entretanto minha honra, que já não era tão imaculada, ficou suja demais.

Até hoje a caminhada ecológica com a tia Zarinha é lembrada com gostosas gargalhadas pelos sobrinhos e sobrinhas, hoje pais e mães, mas ainda com muitas reprovações pelas cunhadas e irmãs que continuam reclamando dos tênis e das roupas novas que ficaram imprestáveis.


Notas:
(1) Hoje esta capela, localizada num dos pontos mais altos de Conselheiro Lafaiete, está totalmente restaurada e dando à cidade um aspecto de sua história e de sua cultura religiosa.

(2) Hoje toda a rua Barão de Suassui que termina no Bairro Santa Efigênia em direção a Ouro Branco e à fazenda das Carreiras ou Casa de Tiradentes é, para mim, um dos trechos mais bonitos da Estrada Real)




02/06/2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônica: Mateus 5:10


(Delicadezas em tempos de Coronavírus XII)


Jamais esqueci este episódio que, por muitos anos, vem ressoando na minha memória como se fosse um devaneio. Ainda agora, quando me lembro dele, parece um fato inverossímil.
Pois bem, eu havia me oferecido para trabalhar como acadêmica estagiária num projeto inovador na reeducação e posterior reinserção social de menores infratores.

Era início dos anos 70. Estávamos em Barbacena. Para tal eu teria que estudar acerca dos objetivos do projeto assim como da pedagogia e da metodologia a serem usadas e tantos outros estudos. Uma cartilha havia sido elaborada pela equipe dos profissionais idealizadores. Várias entidades públicas, multidisciplinares, participaram daquilo que seria uma revolução no trato dos menores infratores em Minas Gerais.

Escolhido local para sua implantação, selecionadas as equipes de trabalhadores e, tão logo, os meninos começaram a chegar de várias cidades, encaminhados pelos órgãos competentes da justiça mineira.

Não lembro porque abandonei este estágio ou se esqueci de propósito. Mas lembro do acontecido que eu ouvira, talvez, através do noticiário de uma rádio como tinha o hábito de fazer durante minhas várias viagens.

O locutor informava sobre uma fuga em massa dos meninos detidos no prédio onde funcionava o projeto. Vários policiais e funcionários do “Instituto” já procuravam por eles. Alguns haviam sido recapturados e estes contaram como decidiram e planejaram a fuga.

Na tarde anterior à fuga um religioso havia ido falar sobre o evangelho de São Mateus. Tão logo havia terminado a palestra, os meninos, apoiados no versículo dez, fizeram dele a senha para a rebelião e a fuga, pois, como nos disse São Mateus “bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus”.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020









segunda-feira, 1 de junho de 2020

Poema: O Homem

(Delicadezas em tempos de Coronavírus  XI)



O Homem

Calado, cabeça enterrada no pescoço,

como a procurar ouro na terra.

Lá vem ele,

a roupa é a mesma do domingo passado,

do domingo retrasado

E de todos os domingos de sua vida

Desce a ladeira com uma filha ao lado

Distante dele, mas no mesmo passo

As demais filhas casaram,

não tem notícias delas.

Dos filhos

só sabe que foram ganhar dinheiro em São Paulo

A esposa Deus levou na quaresma de dois anos atrás

Por “compadre” é chamado

Compadre até do padre

Vinte e três filhos

só lhe restou esta

A filha que lhe faz o café

a broa, o feijão e o angu

Bença pai

Diz toda manhã

Bença pai

Diz ela a noite

Sua filha sem ideia de gente

A retardada.

Bença pai 




Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020

(Alongamento da terceira Oficina de Escrita de Maio)

domingo, 31 de maio de 2020

Festa no interior - Mini conto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus X)

Durante todos os anos da festa do Santíssimo as mocinhas da cidade esperavam pelos rapazes que chagavam de São Paulo. Cada uma se informava acerca do seu pretendente. E a pergunta que todas faziam: “será que ele vem este ano?”. 

Foi num ano desses encontros e desencontros que Lurdinha ficou com o irmão do Bento e este ficara com a prima dela. Nada com haviam planejado. Lurdinha tinha jurado que na festa deste ano não queria amolações, mas esqueceu sua promessa uma vez que não avisara ao seu coração. Bento que imaginou uma grande paixão com Lurdinha, maltratou seu coração e jurou nunca mais voltar à festa do Santíssimo.

E o Santíssimo que nada havia previsto continuou sendo carregado nos andores enfeitados com flores coloridas de papel crepon.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mês de Maio 2

(Delicadezas em tempos de Coronavírus IX)


No mês de maio tem amor, mãe, presentes 

No mês de maio tem almoço com os filhos, 

tem lombo de panela 

e arroz doce com canela.

Depois tem arrumação 


e solidão.



(Alongamento da Oficina de Escrita)

Mês de Maio 1 - Sonhos


(Delicadezas em tempos de Coronavírus VIII)


Ela sempre sonhou em se casar no mês de maio.

Ele queria em dezembro.

Ela falou do perfume das flores de maio. 

Ele falou do décimo terceiro para a viagem.

Ela abriu mão da viagem de núpcias para casar em maio.

Ele insistiu em se casar em dezembro.

“Mas é época de chuvas!” Lamentou ela.

“Quantos menos convidados presentes melhor. A festa fica mais barata” Argumentou ele.

Ela se calou. Ele se deu por vencedor.

Ela se foi e nunca mais voltou. 

(Alongamento da Oficina de Escrita)