quinta-feira, 4 de junho de 2020

Crônica: "A caminhada ecológica"

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XIII)

Era natal. Meados dos anos noventa. Todos os quinze netos e meu filho ainda bem pequenino estavávamos na casa dos meus pais aguardando a noite em que Papai Noel traria os presentes.

“Que tal uma caminhada Ecológica?” Era a tia querida, no caso eu mesma. O ânimo foi total. Sugeri bermudas e tênis, uma vez que faríamos uma longa trilha pela maior depressão geológica da cidade e, onde na minha infância, buscávamos água para beber. Era onde eu amava ver as lavadeiras dentro do curso d´água batendo suas roupas nas pedras.

Meninos e meninas eufóricos e dispostos a tal empreitada. Certamente não sabiam o que era uma caminhada ecológica e nem imaginavam do que se tratava aquele convite. Pois iriam aprender. E lá fomos nós com a compania do Tio Paulinho, o mais querido, e seus dois filhos.

Descemos a ladeira da minha rua e andamos pela desértica rua de baixo. Alguns já queriam desistir. Todos estavam entre cinco e treze anos. 

"Tô cansado", era um deles.

“Nem pensar! Nossa caminhada ainda nem começou!”

Esta era eu animando meus sobrinhos e sobrinhas.

Logo chegamos à rua por cujo final se estende a fontinha. Agora seria só entrar no amplo gramado que serpenteava todas aquelas bicas de água natural que descia dentro da montanha como um rio subterrâneo.

Porém, eis que a minha fontinha havia sido inundada pelas águas das recentes chuvas de dezembro. Só havia brejo. Não declinei do meu intento e convoquei toda meninada àquela aventura.

Água até os joelhos, tênis barreados, bermudas molhadas e uns ajudando outros que se agarravam no barro. Ariane com uns seis anos, barreada até a cintura, não quis continuar nossa trajetória. Então seu pai, o querido Tio Paulinho, trouxe-a de volta.

Finalmente vencemos o pântano em que havia transformado minha fontinha. Pura emoção, sem queixas e alguns com os olhos arregalados, continuamos nossa viagem.

Atravessamos a cancela de arame farpado que demarcava aqueles imensos pastos baldios para que as "criações" (vacas e bois) não entrassem em terrenos alheios. Começamos a segunda etapa da nossa aventura: subir a trilha no meio da montanha bem perto do buracão mais assustador da região.

Finalmente chegamos num beco estreito por entre quintais de pequenas casinhas. Estávamos nos fundos do Bairro de Santa Efigênia com sua população composta na grande maioria por pessoas negras e pobres. Eu já conhecia aquela região e sempre admirava os coloridos em épocas das festas de folia de Reis e de Santa Efigênia. Lá em cima havia a igreja da santa que deu nome ao bairro.(1)

Estávamos bem longe de casa.

Eu não parava de falar um só minuto com meus sobrinhos durante todo o percurso. Eles escutavam atentos e maravilhados. Expliquei que ali era a metade do círculo que faríamos até chegar a nossa casa. Portanto, a partir dali, começávamos o retorno. Completaríamos o contorno de trezentos e sessenta graus (assim eu ensinava a geometria)

Estávamos no final da longa Rua Barão de Suassuí que inicia no centro da cidade alta. Mostrei-lhes o colégio estadual, suntuoso prédio pintado em verde e em arquitetura moderna para aqueles tempos. Ali eu havia estudado o ginásio e o científico que já foram renomeados para “ensino fundamentral e ensino médio", respectivamente.

No início da mesma rua, mais próximo da nossa casa, também havia o casarão da Tieta, construção do século XVIII, que abrigara o Grupo Escolar Inconfidência, onde também iniciei minha vida estudantil quando ainda criança. Eu aproveitei e lhes falei sobre a Inconfidência Mineira, obviamente floreando minha paixão pelos inconfidentes e suas inconfidências. Nos porões daquele casarão nossos inconfidentes haviam se encontrado por muitas vezes para suas reuniões secretas quando tramavam os movimentos libertários do nosso país que, naquele tempo, era a maior e mais rica colônia de Portugal (assim eu ensinava aos meus sobrinhos sobre história, geografia e política).

Por esta rua passava todo o ouro que vinha de Ouro Preto e Ouro Branco indo para a corte, no Rio de Janeiro.(2) 

Contei-lhes que o terreno daquele casarão, um imenso pomar de frutas, com inúmeras jabuticabeiras, ia até os fundos da rua onde ficava nossa casa e, roubar jabuticabas naqueles pomares da Tieta, era a grande aventura dos pais deles.

Mais história de casarões famosos.

-“Estão vendo esta escola ali?” Era eu apontando para outro casarão, próximo dali. Era a casa onde viveu, por uns tempos, o famoso escritor Bernardo Guimarães. E lhes falei da novela Escrava Isaura, baseada no livro escrito por ele enquanto morava ali. Naquele tempo da nossa caminhada a casa já abrigava o Colégio Monsenhor Horta.

Mais uma ladeira para subir e já estaríamos quase fechando nosso círculo por interio.

Enfim, com todos cansados, encharcados, felizes e mais ricos em conhecimentos, chegamos à casa da vovó e do vovô. Nossa casa!

Avaliando hoje, penso que tudo teria sido perfeito se as únicas lembranças desta aventura tivessem ficado por conta dos filhos e filhas barreados. Entretanto minha honra, que já não era tão imaculada, ficou suja demais.

Até hoje a caminhada ecológica com a tia Zarinha é lembrada com gostosas gargalhadas pelos sobrinhos e sobrinhas, hoje pais e mães, mas ainda com muitas reprovações pelas cunhadas e irmãs que continuam reclamando dos tênis e das roupas novas que ficaram imprestáveis.


Notas:
(1) Hoje esta capela, localizada num dos pontos mais altos de Conselheiro Lafaiete, está totalmente restaurada e dando à cidade um aspecto de sua história e de sua cultura religiosa.

(2) Hoje toda a rua Barão de Suassui que termina no Bairro Santa Efigênia em direção a Ouro Branco e à fazenda das Carreiras ou Casa de Tiradentes é, para mim, um dos trechos mais bonitos da Estrada Real)




02/06/2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônica: Mateus 5:10


(Delicadezas em tempos de Coronavírus XII)


Jamais esqueci este episódio que, por muitos anos, vem ressoando na minha memória como se fosse um devaneio. Ainda agora, quando me lembro dele, parece um fato inverossímil.
Pois bem, eu havia me oferecido para trabalhar como acadêmica estagiária num projeto inovador na reeducação e posterior reinserção social de menores infratores.

Era início dos anos 70. Estávamos em Barbacena. Para tal eu teria que estudar acerca dos objetivos do projeto assim como da pedagogia e da metodologia a serem usadas e tantos outros estudos. Uma cartilha havia sido elaborada pela equipe dos profissionais idealizadores. Várias entidades públicas, multidisciplinares, participaram daquilo que seria uma revolução no trato dos menores infratores em Minas Gerais.

Escolhido local para sua implantação, selecionadas as equipes de trabalhadores e, tão logo, os meninos começaram a chegar de várias cidades, encaminhados pelos órgãos competentes da justiça mineira.

Não lembro porque abandonei este estágio ou se esqueci de propósito. Mas lembro do acontecido que eu ouvira, talvez, através do noticiário de uma rádio como tinha o hábito de fazer durante minhas várias viagens.

O locutor informava sobre uma fuga em massa dos meninos detidos no prédio onde funcionava o projeto. Vários policiais e funcionários do “Instituto” já procuravam por eles. Alguns haviam sido recapturados e estes contaram como decidiram e planejaram a fuga.

Na tarde anterior à fuga um religioso havia ido falar sobre o evangelho de São Mateus. Tão logo havia terminado a palestra, os meninos, apoiados no versículo dez, fizeram dele a senha para a rebelião e a fuga, pois, como nos disse São Mateus “bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus”.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020









segunda-feira, 1 de junho de 2020

Poema: O Homem

(Delicadezas em tempos de Coronavírus  XI)



O Homem

Calado, cabeça enterrada no pescoço,

como a procurar ouro na terra.

Lá vem ele,

a roupa é a mesma do domingo passado,

do domingo retrasado

E de todos os domingos de sua vida

Desce a ladeira com uma filha ao lado

Distante dele, mas no mesmo passo

As demais filhas casaram,

não tem notícias delas.

Dos filhos

só sabe que foram ganhar dinheiro em São Paulo

A esposa Deus levou na quaresma de dois anos atrás

Por “compadre” é chamado

Compadre até do padre

Vinte e três filhos

só lhe restou esta

A filha que lhe faz o café

a broa, o feijão e o angu

Bença pai

Diz toda manhã

Bença pai

Diz ela a noite

Sua filha sem ideia de gente

A retardada.

Bença pai 




Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020

(Alongamento da terceira Oficina de Escrita de Maio)

domingo, 31 de maio de 2020

Festa no interior - Mini conto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus X)

Durante todos os anos da festa do Santíssimo as mocinhas da cidade esperavam pelos rapazes que chagavam de São Paulo. Cada uma se informava acerca do seu pretendente. E a pergunta que todas faziam: “será que ele vem este ano?”. 

Foi num ano desses encontros e desencontros que Lurdinha ficou com o irmão do Bento e este ficara com a prima dela. Nada com haviam planejado. Lurdinha tinha jurado que na festa deste ano não queria amolações, mas esqueceu sua promessa uma vez que não avisara ao seu coração. Bento que imaginou uma grande paixão com Lurdinha, maltratou seu coração e jurou nunca mais voltar à festa do Santíssimo.

E o Santíssimo que nada havia previsto continuou sendo carregado nos andores enfeitados com flores coloridas de papel crepon.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mês de Maio 2

(Delicadezas em tempos de Coronavírus IX)


No mês de maio tem amor, mãe, presentes 

No mês de maio tem almoço com os filhos, 

tem lombo de panela 

e arroz doce com canela.

Depois tem arrumação 


e solidão.



(Alongamento da Oficina de Escrita)

Mês de Maio 1 - Sonhos


(Delicadezas em tempos de Coronavírus VIII)


Ela sempre sonhou em se casar no mês de maio.

Ele queria em dezembro.

Ela falou do perfume das flores de maio. 

Ele falou do décimo terceiro para a viagem.

Ela abriu mão da viagem de núpcias para casar em maio.

Ele insistiu em se casar em dezembro.

“Mas é época de chuvas!” Lamentou ela.

“Quantos menos convidados presentes melhor. A festa fica mais barata” Argumentou ele.

Ela se calou. Ele se deu por vencedor.

Ela se foi e nunca mais voltou. 

(Alongamento da Oficina de Escrita)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Conceição ou a Rainha de Sabá?


Delicadezas em tempos de Coronavírus - VII



Naquela época já estava obesa. Não lembro se o fato de não andar estava relacionado com isto, se era portadora de alguma outra doença, ou se, simplesmente, gostava de ser levada dentro daquele carrinho.

Mas ainda lembro bem de suas exaltações nos meses de maio quando as flores brancas serpenteavam o vão da pequena ponte sobre a via férrea. Ou quando chegava o frio e ela queria ficar ao sol.

Tanto suas risadas quanto seus xingamentos e deboches se davam em altíssimo tom e reverberava pelo entorno.

Conhecia bem seus súditos e os pontos fracos de cada um, assim chantageava uns, defendia ou culpabilizava outros, sempre de acordo com seus interesses e vontades. Comia exageradamente. Não aceitava as dietas ou os remédios prescritos. Dizia que não precisava daquilo.

Seus banhos exigiam dois ou três eunucos e fazia desses momentos, cerimônias sagradas para si. Exigia roupas limpas, vestidos coloridos, cabelos lavados e água de cheiro. E, como já informei, todos andavam sob suas ordens ou poderiam sofrer terríveis retaliações.

Sobre sua carruagem empurrada por funcionários escolhia os destinos e fazia longas viagens pelos arredores do seu imenso palácio.

Dar um bom dia podia ter como resposta um suave aceno de mão, um bom dia desinteressado ou um palavrão conforme tivesse acordada. Mas ela sempre amanhecia dando ordens e coitado daquele que caísse em seu desagrado. Ela gritava uma infinidade de impropérios tirados do fundo do seu baú.

Quem a visse assim poderia imaginá-la como sendo a famosa rainha das terras de Sabá que teria vivido por volta do século X a.C., ou quem sabe, a terrível Catarina de Médicis. 


Só sei que era uma matrona da realeza mineira.

Conceição era assim, poderosa nas suas atitudes, ferina nas suas palavras e dona de suas vontades. Todos deveriam andar sob seu jugo senão lá vinham xingatórios e muito furdunço.

Sua voz ia do agudo dos gritos de raiva e destempero ao grave de suas histórias dos amores deixados ao leu, passando pela rouquidão quando queria fazer charme, ou pelas estridentes gargalhadas por deboches de alguém.

Ela era assim: uma mulher completamente dona de si. Para ela não fazia a menor diferença seu corpo avantajado, sua pele branca e envelhecida, seus cabelos em desalinho. Todo aquele conjunto desarranjado fazia dela a mulher mais bela de todo seu reino.

E seu reino era toda a vastíssima área do Hospital Colônia de Barbacena com seus vários pavilhões apinhados de “loucos e loucas” abandonados e segregados pela política de assistência psiquiátrica daquele início de século.

E Conceição era a rainha de seu tempo.

Quando morreu foi enterrada com honras de estado e seu carrinho empurrado por vários funcionários daquela unidade hospitalar.

Salve sua alteza, a rainha Conceição!


Observação: esta história foi inspirada na paciente do mesmo nome, interna do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), onde fui “acadêmica de medicina concursada” pela FHEMIG, no ano de 1981. A ela  (e aos demais que ali viveram) rendo muitas homenagens.


(Conselheiro Lafaiete, 27 de maio de 2020)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

VIAGENS NO TERRAÇO

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VI)


Sempre gostei dos serviços de lavações numa casa. Lavar banheiros, lavar o chão, lavar vasilhas e, principalmente lavar roupas. Agora, neste tempo de pandemia e quarentena, voltei às minhas lavações. Acabei descobrindo o tanto que gosto de subir as estreitas escadas até o terraço não apenas para estender minhas roupas lavadas e cheirosas. O que antes seria apenas mais um trabalho doméstico, passou a ser também uma desculpa para escalar os degraus e deslumbrar com minha visão lá de cima.

Minha casa está localizada numa rua pequena, tranquila, com muitos moradores desde o tempo em que fui criança, num dos pontos mais altos da cidade, a mais de mil metros de altitude. Portanto tenho uma visão privilegiada em 360°. Com muitos arames esticados logo percebi que poderia colocar as roupas de modo a não obstruir as imagens mais belas que ficam na parte dos fundos da minha casa.

Se eu olhar em direção retilínea e bem próximo de nós - a nordeste - vejo o que sobrou da mineradora inglesa que extraiu e levou todo nosso manganês. Olho e ainda posso ver a poeira dos minérios subindo, ainda posso escutar as explosões das dinamites nas rochas e ainda posso sintir as trepidações nas janelas de vidro. Por conta disto minha casa sempre teve rachaduras em várias paredes. Hoje, dizem, ainda tem uma barragem de dejetos bem no alto e posso ver muitos eucaliptos plantados na base. Um sobrinho mora bem aos pés de onde estava este “Morro da Mina” causando-nos preocupação embora seja um local encantador.

Se eu olhar a leste vejo as montanhas por onde viajo em direção a Itaverava, Catas Altas da Noruega - (cidade que não conheço e que sempre estou adiando minha visita), Lamin, Piranga, Senhora de Oliveira e minha doce Brás Pires. Se arrisco olhar um pouco mais à esquerda da estrada, encontro Ouro Preto e Mariana. 

Pausa para o trabalho:
“Espere aí, deixe eu arredar aquele lençol para ver Pinheiros Altos, distrito de Piranga, de onde vem a pedra sabão para as panelas, as imagens e tantas outras peças. Passei por lá dentro de um Jeep velho, com meu Tio Padre Zizinho no volante para irmos a Mariana visitar Tio Felício Rivelli."

Por toda a região atrás da minha casa, ainda pode-se ver grandes áreas verdes que, gradualmente vem sendo povoadas. Não gostava de ver o cemitério municipal construído, obviamente, na região mais desvalorizada da cidade onde há um pequeno aglomerado de pessoas das camadas mais pobres da cidade. Ali havia um matadouro (não sei se ainda existe) e, em torno dele, nasceu o Bairro nomeado de JK, mas vingou apenas como Matadouro. Nesta hora toda uma história de miséria social invade meu peito. Mas deixarei, por ora, essas mazelas brasileiras de lado, para falar do meu olhar. Embora meu olhar olhe duas mortes naquela direção.

Recomponho-me desta visão para virar um pouco mais a norte onde, bem perto, vejo outra área verde, com uma trilha por onde, ainda menina e acompanhada da minha irmã também menina, atravessamos algumas vezes indo encomendar “1 metro de lenha” para nosso fogão. Não tínhamos fogão a gás que foi um presente do meu pai para minha mãe no Natal de 1969 e que só chegou ao último dia daquele ano. A trilha era muito erma. Nenhuma casa na redondeza. De um lado dela ainda tem um grande buraco que me faz lembrar a dolina do Pantanal. Sério problema para administração pública uma vez que tal formação geológica tende a desabar no entorno por onde passa uma importante via de acesso, outrora um pedaço da verdadeira Estrada Real que atravessa toda a cidade alta de Conselheiro Lafaiete. Uma honra para nós.

Pausa para um devaneio:
(De vez em quando me vejo também conspirando com os inconfidentes contra os impostos da coroa. Acho que eu seria "Marília de Dirceu")

E bem naquele alto tem uma gigantesca escultura do Cristo como se fosse uma réplica do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Uma praça ampla envolve nosso Cristo que, embora fique na cidade alta, está voltado para a cidade baixa. Logo estamos todos abençoados.

Ainda tenho mais roupas para lavar. Ainda bem! Vou subir de novo até o terraço.

Enquanto trabalho viajo para dentro e para fora de mim e ainda faço atividades físicas.

Minha quarentena tem sido cheia de lembranças e grandes viagens.

Quem sabe amanhã viajo para dentro da rua, por ora esvaziada, mas posso viajar pelo oeste e pelo sul até onde eu quiser. 

Então até amanhã em direção a Barbacena, Juiz de Fora e Rio de Janeiro.
















sexta-feira, 15 de maio de 2020

poema- amanheci mais lerda que ontem

acordei no meio da noite
o ar me sufocava
libertei minha face 

adormeci ainda
no frio
senti calor 
debaixo do cobertor 
de pelos

enfim 
levantei
na cozinha
um café forte 
na janela fechada
reparei
a prisão da alma
no corpo 
esvaziado de mim

acudi o olhar
vi a cidade
envolta no sereno

desci o olhar
o peito doeu
me encontrei 


me vi 
mais lerda que ontem

15/05/2020


quarta-feira, 13 de maio de 2020

AMIGAS PARA SEMPRE


(DELICADEZAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS - V)


-"Mãe, lá em Minas tem minério pra todo lado. Até nas margens das estradas. Olhe aqui!"

Margarida entregou à mãe uma pequena pedra escura que havia apanhado quando, deslumbrada com sua primeira viagem a Minas Gerais, pedira a um motorista que parasse para que pudesse pegar uma pedra. Guardara a relíquia dentro da bolsa como se aquela fosse uma pedra valiosa.

Foi assim que Lúcia reviu Dona Aparecida. Havia combinado com a amiga de infância que voltaria com ela se a mesma fosse visitá-la em seu novo emprego na capital mineira.

As duas se conheceram ainda crianças, no bairro da Moca onde morava a avó de uma delas. Tornaram-se inseparáveis desde então. Mas, como sabido, os sonhos infantis nem sempre acompanham seus sonhadores. E assim se dera com as duas meninas, naquela ocasião, já eram jovens adultas. Cada uma seguira seu caminho. Cada uma buscando seu lugar no mundo.

Margarida cursou contabilidade; trabalhava num escritório no centro de São Paulo e Lúcia acompanhou um grande amor que morava em Belo Horizonte. Continuaram mantendo contato e prometeram uma à outra de se verem uma vez por ano.

No primeiro ano, após a partida de Lúcia, Margarida agendou suas férias tendo alguns dias coincidindo com o período das férias escolares. Telefonou para a amiga e combinaram as viagens. Adiantou o desejo de conhecer a histórica cidade de Ouro Preto e ver as montanhas mineiras.

Depois de passearem pela Pampulha, pela Praça da Liberdade, pela Feira Hippie, pelo Mercado Central, nos dois primeiros dias, foram para Ouro Preto.

Margarida não contava com o encantamento das estradas nem com as pedras nas suas margens. Seus olhos queriam ver além. Percebeu que via mais com o coração do que com os olhos. Não se importou com a emoção nem com as lágrimas. Estava emocionada. Era sua primeira viagem para outro estado brasileiro.

Lúcia, enquanto acompanhava a amiga, ia contando as histórias de Minas que aprendera com o namorado, professor de história e amante dos "Inconfidentes". 

As duas subiam e desciam pelas ladeiras da cidade encantadas com os calçamentos de pedras, com os casarios, com as igrejas e suas artes barrocas que ela já ouvira falar e, principalmente, com a Praça Tiradentes. Às vezes riam com os nomes das repúblicas dos estudantes universitários. Comentavam acerca do grande número de turistas que cruzavam por elas em todos os lugares da cidade.

No final da tarde voltaram para a capital. Margarida, apesar do cansaço, não conseguiu fechar os olhos que saltavam de um lado para outro entre as montanhas e os desfiladeiros da estrada.

Voltando para São Paulo com a amiga, Lúcia, depois de rever seus familiares entrou num ônibus e se dirigiu à casa de Margarida. E foi no abraço dado à dona Aparecida que seu olhar viu outra cena.

O irmão mais velho da amiga estava sentado numa cadeira na área contígua à porta da cozinha. Viu que ele usava um pijama bem maior que seu corpo. Nele chegavam os últimos raios de sol daquele inverno. Antônio não virou para ver a amiga da irmã. Continuaram os abraços e conversas como se ele não estivesse ali. Mas Lúcia não pode deixar de perceber seus movimentos lentos, seu emagrecimento e sua pele muito esbranquiçada.

Durante todo o tempo da visita se viu buscando aquela cena. Ouviu o rapaz pedir uma lata de leite condensado. Notou a voz fraca e irritadiça. A mãe apenas comentou que, “ultimamente ele só come isto”. A amiga disse, com desinteresse, que o irmão estava com uma doença rara que os médicos não descobriam o que era. Já havia feito vários exames e não conseguiam chegar a nenhuma conclusão. Só diziam que ele estava com anemia e sem defesas para outras doenças, mas não conseguiam descobrir a causa. Já havia sido internado devido a crises de diarreia e até tivera pneumonia. Tratavam, davam muitos antibióticos, mas logo piorava novamente. E o rapaz só ia definhando.

Dona Aparecida achava que poderia ser mau-olhado, pois o rapaz era muito bonito e tinha um futuro promissor. Estudava engenharia e já trabalhava como estagiário numa grande empresa de construção civil.

-"É isto. Fizeram alguma coisa muito bem feita para meu filho", dizia Dona Aparecida, resignada com a situação. Lúcia apenas escutava. Lembrava-se do irmão da amiga e das várias colegas que apaixonavam por ele. Nunca havia se interessado por nenhuma delas. Quisera olhar nos olhos do moço e lhe dar um sorriso, entretanto só o viu através das palavras da mãe.

Voltou para Belo Horizonte com a cabeça ainda dentro daquela cena. Não conseguia entender porque não parava de pensar naquela doença esquisita, na solidão, na anemia, no pijama largo, nas réstias de sol e no mau-olhado do irmão da sua amiga que estava mais preocupada com a pedra no meio do caminho das Minas Gerais.

Depois de algumas semanas, Lúcia já tendo retomado sua rotina de estudos num cursinho de pré-vestibular da cidade, escutou uma notícia que lhe chamou a atenção. Médicos e cientistas anunciavam as primeiras mortes, em São Paulo, de doentes portadores da “síndrome da imunodeficiência adquirida” à qual chamaram de SIDA. A doença seria causada por um vírus descoberto recentemente, originário da África e o primeiro caso, descoberto nos Estados Unidos, havia infectado um homem que tinha morrido.

Era final dos anos oitenta do século passado quando o mundo conheceu um vírus que, infectando os homens através das relações sexuais e das transfusões sanguíneas, atacava e destruía todo o sistema de defesa do corpo humano. Muitos jovens morreriam naquela década de noventa.

A partir de então jovens do mundo inteiro foram alertados sobre o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e mudariam seus comportamentos sexuais uma vez que havia uma pedra no meio do caminho.



(Conselheiro Lafaiete, 13/05/2020)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Aldir Blanc é vencido pelo Coronavírus



Leitores

Nesta manhã fomos informados da morte do colega médico, psiquiatra e grande compositor, Aldir Blanc. 

Há quinze dia lemos, com muita tristeza, o apelo de seus familiares pedindo um leito de UTI na cidade do Rio de Janeiro. 

Portador de diabetes e na faixa etária de risco para o Coronavírus, nosso poeta da música se foi.

Logo a seguir um amigo e colega médico, num grupo de rede social, nos envia a letra da música abaixo sugerindo que eu a publicasse pois estaria em conformidade com as paixões dos meus contos.

Aceitei a sugestão dizendo-lhe que, coincidentemente, é uma canções de Aldir Blanc que escuto com maior frequência.

E é publicando esta letra que agradeço e homenageio Aldir Blanc. 

Muito obrigada por ter vivido conosco e nos presenteado com tanta poesia.




Resposta ao tempo

“Batidas na porta da frente é o tempo

Eu bebo um pouquinho pra ter argumento

Mas fico sem jeito, calado, ele ri

Ele zomba do quanto eu chorei

Porque sabe passar e eu não sei

Um dia azul de verão, sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo

Recordo um amor que perdi, ele ri

Diz que somos iguais, se eu notei

Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos

Que amores terminam no escuro, sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto

Que ele adormece as paixões, eu desperto

E o tempo se rói com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder me esquecer”



(Obrigada a você também, Felício, por este presente)

Foto: Cine Teatro Central (Juiz de Fora - MG, minha autoria)

domingo, 26 de abril de 2020

ORAÇÃO DA CASA



Nasci mineira
Pequenina
Em torno de mim
algumas outras
como eu assim

Dentro de mim
sorrisos e interrogações
Das minhas janelas abertas
um mundo familiar


Devagar meus apêndices cresceram
dentro de mim rumores continuaram
São Jerônimo e Santa Bárbara,
em noites de tormenta,
me protegeram.


Aromas doces habitaram em mim
Cresci mais um tanto
Reformei-me em candura
De repente amadureci


Estou vazia
Na minha solidão,
Pessoas vagueiam.
Fui Maria
Fui José
Fui a trindade cristã


Envelheci
As lembranças me sucumbem
Preciso de ti
Ainda tenho histórias pra contar
Não me deixe morrer


Hoje te peço:
Volte!
Tome meu corpo
Penetre nas minhas entranhas
Cuida de mim

Daqui ainda ouço os sinos
Fazenda das Carreiras,
Itatiaia,
Lavras Novas,
Santa Rita.


Daqui ainda vejo o ouro
Ouro Branco
Ouro Preto


Mas de que me vale a liberdade
Se ainda estou presa a ti?



Abril/2020
Este poema foi escrito para o 17° Abril Poético do grupo LESMA Poesia de Conselheiro Lafaiete cujo tema neste ano foi "300 anos de Capitania de Minas Gerais". Neste ano de pandemia, o evento tem sido realizado de forma digital.

domingo, 12 de abril de 2020

A comunista vai para Cuba








Já que me mandaram ir para Cuba resolvi pegar meu casaco de pele de largatixa e me mandar. Afinal é época do degelo e naquelas savanas a temperatura é de rachar os calcanhares. 

Meu desejo mesmo é ir direto para sua capital, a lindíssima Cidade do Cabo, onde as cores verde, amarelo e preto brilham e dançam ao som das polcas.

Recomendaram-me não deixar de visitar suas imensas muralhas mas deverei ter muio cuidado com os tigres de Bengala e os cangurus que saltitam por lá.

Obviamente não deixarei de visitar a Praça Vermelha, nem o maior prédio de parlamento do mundo, o Parlamento Húngaro.

Mas, meu amor me disse que estará na cidade de Cascavel que fica logo ali, bem pertinho das cataratas do Iguaçu, e que eu devo pegar um trem-bala e ir me encontrar com ele. Entretanto tenho medo dos ursos polares que podem aparecer por lá caso tenham sede. Arriscarei, apesar do meu medo. Para ver meu amor, atravesso até o tal estreito do Pacífico com seus (até) sessenta quilometros de profundidade e suas águas azul marinho.

Será que terei tempo para comprar os tamanquinhos holandeses no Covent Garden de Londres. Com as fortes proteções dos guardas do exército devo me sentir segura embora me alertassem que neste tal jardim/garden tem as terríveis surucucus e as jaguatiricas e que, portanto todo cuidado é pouco. Juro que tentarei chegar perto. Mas minha amiga terá mesmo que andar de havaianas, nada de tamanquinhos holandeses.

Bem, ontem comecei a arrumar minha mala com bastante roupas de frio. Dizem que tem lá um tal de Caribe e que pode até fazer um pouco de calor, mas não quero fazer feio nem sentir frio quando for esquiar no Vale Nevado. 

Como tenho muitos amigos escritores, darei um pulo em Berlim e trarei  livros das famosas livrarias de Fernando Pessoa. 

Nos Champs Elysees passearei com meu amor, inebriados com os perfumes das vanilas canadenses e das cerejeiras argentinas.

Beberemos uma puríssima vodka da Indonésia e comeremos os deliciosos pasteis de Belém. 

Obviamente faremos amor sob as estrelas, ao som das ondas do Havai, cheirando a maresia do haxixe e convivendo com o despudor dos índios da Amazônia.

Porém, como não sou afeita a brincadeiras, a seguir acordaremos debaixo das redes no nordeste do Brasil gritando:

 "#ele não".

Mais alguém quer ir comigo?

OBSERVAÇÃO: Este é mais um texto proposto na Oficina de Escrita como exemplo de escrita DADAISTA ou NONSENSE.

Foto 1 -  Teatro Isabelino - Londres - construído em 1589 onde foi encenada a peça "Romeu e Julieta"

Foto 2 - Café Havana - Haia -  Bélgica

(Fotografias feitas por mim quando da minha primeira viagem a Europa em 2018)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

HOJE



(Delicadezas em tempos de Coronavírus – IX) 


Entrevistas, vídeos

Na Bahia

Artur Henrique morreu

Faltam EPIs

Cadastro. R$660,00

Uma enfermeira morreu

Presidente Cloroquina

em rede nacional

Desligar a TV

Bater panelas

Ex-presidente numa live,

primeiro salvamos vidas

a economia salvamos depois

Ligar a TV

Um médico morreu

China ajuda o Consórcio do Nordeste

Ministro da Justiça na rádio

Mudar a estação

Infectologistas de Santos entrevistados

Deixar nesta estação



MLB(Movimento de Luta nos Bairros)

dá show no PolitiQueijo

Coronavírus nas periferias

Luiza, 25 anos, na UTI

Nos Estados Unidos

a maioria de mortos são latinos.

O mundo se isola

E dá as mãos

É outono

Vovô morreu

A espécie humana hibernou

Na primavera nasceremos flores.



09/04/2020













quarta-feira, 1 de abril de 2020

VIAGENS IMAGINÁRIAS

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VIII)

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade de
Queluz de Minas
(Conselheiro Lafaiete)
Realizo longas viagens

Olho para o leste
(e eu amo o nascer do sol)

Atravesso Catas Altas da Noruega
(desvio uns quilômetros para almoçar com minha irmã em Lamin)

Passo por Piranga, Porto Firme, Viçosa,
Dou um pulo em Ervália
e beijo minha afilhada

Tomo o café das montanhas em Martins Soares
Sigo para Realeza,
Venda Nova dos Imigrantes
Ouço os amores do Frade e da Freira petrificados.
As placas de Brejetuba e Brejaúba divertem a mim e meu neto
que vamos nos esbaldar nas areias escuras da praia do Morro
E dormiremos exaustos ao som das ondas

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens

Olho para o oeste
Sinto uma pontada no peito
(tudo por ali me é desconhecido)
Mesmo assim embrenho na minha viagem
Em Lagoa Dourada
como o tradicional rocambole
Atravesso São Paulo,
São José do Rio Preto
Chego ao Pantanal, ao Buraco da Araras
Mato Grosso do Sul
Arranho o norte do Paraguai
(não compararei quinquilharias,
mas abraçarei, respeitosamente o povo paraguaio, talvez pedir desculpas)
Encanto-me com o chaco boliviano,
lembro-me do grande general Sucre
E, para ver as águas profundas do Pacífico,
busco coragem
e atravesso o deserto de Atacama

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o sul

Logo estou em Barbacena
Desço, nostálgica, a Serra da Mantiqueira
Talvez entre em Cabangu
Certamente subirei o Morro do Cristo
De lá verei toda minha Juiz de Fora
Parque Halfeld,
rua Halfeld
Avenida Rio Branco
Academia Cristo Redentor
(aqui estudei, com bolsa, meu terceiro ano para o vestibular)

Estou chegando de novo
no charmoso Museu Mariano Procópio
passeio com Dom Pedro II pelos jardins da casa

Depois descerei pelas encostas da Serra do Mar
entre os perfumes da Mata Atlântica
subirei por Itaipava
tomarei um tinto seco
com minha colega cigana (médica antroposófica)

Chego em Copacabana
E mergulho nas praias do Rio de Janeiro

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o norte

E logo vejo o Belo Horizonte
Pego minha amada BR-040
Sete Lagoas
(antes terei lido, na estrada, Bairro Franciscadriângela)
Meus olhos viajam com os jagunços de Guimarães Rosa
Curvelo, Corinto, Boacaiuva,
Em Montes Claros dançarei ao som da valsinha de Godofredo Guedes

Cheguei em São Francisco, Januária,
Em Verdelândia encontro Frei Agnaldo e sua bondade
Continuarei subindo
Agora, montada no Benjamin Guimarães de outros tempos
Tô na Bahia de todos os santos
Bom Jesus da Lapa me abençoe.

São Raimundo Nonato
Aqui quero ver as artes rupestres,
as riquezas e belezas naturais das serras
e chegar em Teresina, a princesa do nordeste.
Mas no delta do Parnaíba
não dormirei
Ficarei ali por toda a madrugada
Só para ver as águas doces do Rio beijando
O mar do Piauí

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo distantes viagens

-desce daí menina e vem estender as roupas!

É minha mãe
me acordando dos sonhos
de primeiro de abril.



1° de abril de 2020

sábado, 28 de março de 2020

Carta para meu neto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VII)




Conselheiro Lafaiete, 28 de março de 2020. 

Meu querido netinho, 

bom dia. 

Acordei hoje com muitas saudades de você. 

Ainda bem que tenho visto você nas nossas ligações, ao vivo, diariamente. Até tomamos, todos juntos, um café da tarde. Mas pelo celular, é claro! E foi muito bacana. Vi que você tem se alimentado muito bem. Parabéns. 

Seu papai e sua mamãe já lhe explicaram sobre esse Coronavírus, eu sei. É por causa dele que temos que ficar dentro de casa. E por causa dele também que não podemos ir até sua casa. E então fico aqui morrendo de saudades de você. 

Vi seu pai lhe ensinando a lavar as vasilhas do almoço. Cuidado para não cair da cadeira, viu? 

Seu pai me mostrou o quadro que fizeram para o dia a dia de vocês. E ele me falou também que você está cumprindo direitinho o período de leituras. 

Dudu, quero lhe dizer que sairemos todos bem desta nossa quarentena, assim se chama esse tempo que ficaremos dentro de casa. Quero lhe dizer também que depois disto tudo iremos brincar muito. Você na sua bicicleta e eu no meu cavalo de pau. Vamos correr em torno da casa como se estivéssemos numa longa estrada. Às vezes teremos que parar debaixo do pé de goiaba como se lá fosse uma lanchonete na beira de estrada. E vamos beber uma água bem fresquinha, tomar um café com pão de queijo e descansar. Meu cavalo também tem que beber água e descansar, pois ele é velho que nem a vovó. 

Dudu, eu te prometo que dormirei na sua casa como sempre tem me pedido. Irei numa quinta-feira para te buscar no SESI. Depois vamos à feirinha. Lá, de novo, vou querer comer mingau de milho verde, ver você dando muitos saltos no pula-pula, dando risadas com seus amiguinhos e conversando com a moça enquanto espera seu suco de laranja com melancia, ou laranja com mamão? E a vovó esqueceu qual é seu suco preferido! 

E no seu aniversário de cinco anos, no final do ano, nós vamos fazer uma festa no sítio junto dos cachorros, dos passarinhos e, é claro, dos seus convidados também. Estamos combinados? 

Esta carta está ficando muito comprida. Mas antes de terminar quero notícias da Nina, do Spock, da Princesa, do Igüi e da Morgana que vai todo dia à sua casa para brincar com seus gatinhos e comer a ração deles. 

Agora já estou terminando, mas antes, quero lhe dizer que você me traz muitas alegrias e que eu te amo muuuiiitooo. 

Quero lhe enviar um beijo e um abraço, mas só de longe, prá você, para o papai e para a mamãe. 

E ainda hoje nos veremos no celular. Ok? 

Então até mais tarde. 


                            Vovó Zarinha 







quinta-feira, 26 de março de 2020

Marias da Rua

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VI)
   
   Da janela da minha infância 

   Na noite longa de outono

   Fecho os olhos

   Escuto os guizos

   dos meus sonhos

   e vejo as Marias

   Maria do Sô Antônio

   Ela barriga d’água

   Ele de passos incertos

   Lá vai ele

   Maria do Sô João

   Nem vejo

   Mas escuto a voz

  -Varre essa casa menina!

   Maria do Sô Pedro

   Andar ligeiro

   mais um filho na barriga

   Maria do Sô Sebastião

   Conversa com a Carolina:

   Dá a bênção minha mãe

   Maria cheia da alegria

   era só poesia 

  
   Maria da frente

   dos mamões de corda

   e do jardim de rosas

   Maria das palavras

   E dos “filhos meus”

   Maria da janela

   Nem me vê

   Olhando prá ela.

   Maria minha mãe

   Levanta dai

   e me beija.


26/03/2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

ALÔ VÓ

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - V)

- Alô Jéssica, minha neta.

- Sua benção vó!

-Deus abençoe. Mas por que você está me ligando tão cedo? Aconteceu alguma coisa?

-Não vó. Eu só quero saber se você e o vô ouviram o pronunciamento do Bolsonaro ontem à noite?

- O que é que aquele homem falou? Não gosto dele não e não acato de nada que ele fala.
Eu fiquei aqui rezando meu terço e meus Padre-Nossos para minha Nossa Senhora do Rosário proteger todos os velhos como eu e que ela tenha piedade dos moradores de ruas e de todos os pobres deste nosso Brasil tão grandão, né Jéssica?

- Vó não escute o que ele falou não, viu? Continue quietinha dentro de casa e, já sabe, se precisar de alguma coisa é só telefonar para nós. Aquele homem só fala o que não deve, viu vó? Ele falou que o tal vírus, que está matando muita gente lá na Itália e que já matou muitos chineses, provoca apenas uma gripezinha de nada e que é para todo mundo voltar ao trabalho e para reabrir as escolas.

- Jéssica, não dô atenção de nada para ele. Não votei nele, não gosto dele e acho ele um pobre coitado dum safado com aqueles filhos dele. Tudo feito da farinha do mesmo saco, como diz seu avô. E véio como eu e seu avô, se tem uma gripezinha, vira tudo a danada da pneumonia.

- Vó, cadê o vô?

- Eh, minha neta, ele tá lá por perto do curral. Nem não dormiu de noite. Ficou parecendo marido de mulher na hora do parto. A vaca Maiada gemeu a noite inteira para nascer sua cria e nada até agora. Tá ele sofrendo com a Maiada. Falei prá ele ter calma que tudo vai dá certo. A natureza sabe o que faz com tudo que Deus botou no mundo.
E como tá sua mãe, Jéssica?

- E vó, ela quase deu um treco aqui depois da fala do presidente. Ficou muito nervosa.
Falou que ele é um irresponsável, que ele tá é querendo matar os velhos para não ter que pagar aposentadoria, que ele já sabe que perdeu a presidência e, agora, quer sair de vítima.E ficou falando sem parar.
Depois vó, ela perdeu o sono, desligou o celular e foi comer doce. Então acalmou, voltou prá cama e dormiu.

-Jéssica, minha neta, cuida direitinho dela. Minha filha mais ocê e seu irmãozinho são tudo  que eu tenho na vida.

-Tá bom vó. Então bom dia e sua benção de novo.

-Deus abençoe.


Conselheiro Lafaiete, 25/03/2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

Dona Quarentena e o fogão a lenha de Dona Mariinha


(DELICADEZAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS --  IV)


Esfrego minhas mãos observando a secura que vem se instalando nelas desde que iniciei minha tranquila quarentena. As lavações com água e sabão, raramente o álcool gel uma vez que não tenho saído de casa, as lavações de roupas e as várias limpezas da casa tem deixado a pele das mãos como uma fina camada de lixa. Não me importo. Nada como cremes e vaselina para deixa-las macias novamente. 

Entretanto tem sido faxinando esta minha casa e separando quinquilharias que uma lembrança de outros tempos me veio à memória, qual seja a cozinha da Dona Mariinha, minha mãe. 

Ela, a cozinha, era como um apêndice da copa que não servia para nada já que, além da janela, por ela entravam e saiam quatro portas. Entretanto minha mãe ainda conseguira instalar ali uma mesa oval, com seis cadeiras (ou quatro?). E, nos tempos do Natal, ainda conseguia um cantinho entre duas paredes para montar seu presépio, cheio de pequenos vasos de flores, casinhas de papelão e a manjedoura onde fiavam Maria, José e Jesus, além do burrinho, da vaca e dos carneirinhos. 

Mas a cozinha era, para mim, o pedaço mais belo da nossa casa. Acabei de medir o espaço ocupado por ela que, mais tarde, seria nosso banheiro. 

Calculando 1,5m de largura por 2,0m de comprimento, nossa cozinha tinha 3m². O fogão fora muito bem construído em alvenaria, sob a supervisão do meu pai, com o famoso xadrez vermelhão. Ele ocupava uma das paredes mais largas. Será que tinha forno acoplado nele? Não consegui lembrar. Provavelmente não uma vez que não caberia naquele minúsculo espaço. No restante da parede onde ele encostava, tinha uma prateleira de tábuas e, nela havia quatro ou cinco latas escurecidas pela fumaça. Arroz. Açúcar. Gordura de porco. Banha de côco. Pó de café. Talvez algumas quitandas. O feijão ficava numa enorme gamela (de madeira), destampado, num quartinho de muros e zinco construído no terreiro para ajudar a guardar o que não cabia dentro de casa. 

Na outra parede tinha a porta da copa e na outra tinha a porta para o quintal, descendo por uma larga escada até o tanque. Ali minha mãe lavava as roupas da casa em dias de sol. Não havia cobertura. Tudo ficava ao tempo. 

E a pia? Esta ficava na parede restante entre as duas portas. Era tão pequena que deveria caber apenas os pratos. Penso que minha mãe deveria lavar as panelas de pedra, ferro e barro no tanque, pois, além de não cabê-las na pia, tinha o pó escuro do carvão grudado nelas. 

A lenha era comprada e entrega por carroças. Uma vez meu pai pediu a mim e à minha irmã que fôssemos encomendá-la a um vendedor que morava do outro lado da cidade. Atravessamos uma longa trilha no meio dos morros e dos matos. 

Não havia geladeira. Havia sim um caldeirão de ferro onde minha mãe fazia nosso angu dizendo que não teríamos anemia, pois partículas de ferro se misturariam nele. Nosso angu era do fubá de moinho d’água trazido da roça. Meus tios, que continuavam morando na cidadezinha de onde viemos, sempre traziam fubá, feijão novo, ovos e frutas da época que tinham em seus quintais ou sítios. Quando eles chegavam era uma grande festa. 

Nas noites de frio e, por aqui ainda faz muito frio, era em torno daquele fogão que juntávamos para aquecer. Seis filhos, mais um ainda no colo, acocorávamos para ouvir minha mãe e meu pai contar história e eles nos contavam muitas histórias. 

Agora, enquanto escrevo, estou nesta mesma casa, já numa ampla cozinha, cheia de armários, com uma enorme mesa de madeira, geladeira, uma adequada pia, fogão a gás, duas janelas, muitas quinquilharias e uma saudade gostosa daquela cozinha que nem tamanho tinha. 

Junto à lembrança da cozinha da Dona Mariinha estou cá matutando se seria preciso haver uma molécula de DNA (ou RNA?) para nos apontar onde está nossa felicidade, nossa alegria, nossos prazeres, nossas vidas? 

Seria necessário um vírus em forma de coroa, invisível, intruso e letal a nos impor tal dona Quarentena e a virar nossas vidas de ponta cabeça? 

Certamente que não. 

Mas e esta dona Quarentena? 

Ela nos obriga a ficar em casa. E nos obriga a olhar o acúmulo de coisas desnecessárias jogadas nos fundos das gavetas, nos armários e por toda a casa. 

Esta Dona Quarentena nos expondo ao ridículo frente às todos estes objetos que o mercado nos enfiou goela abaixo. Este mercado voraz que nos faz trocar de celular a cada seis meses. Que nos deixa endividados com as novas maquiagens. Este mercado sedutor que nos impõe roupas a preço de ouro. 

Lojas de quinquilharias contrabandeadas do Paraguai, ou trazidas da China. 

Estaríamos nos transformando também em quinquilharias? 

Penso que nossos valores éticos e morais jamais estarão nos objetos que podemos comprar, nas cozinhas que podemos construir e planejar. Nos fogões ultramodernos que as lojas nos oferecem por doze vezes sem juros, obviamente já embutidos nas longas prestações. 

Mas, acredito sim que nossas vidas estão ancoradas nos encontros, nas contingências, nos caminhos, ou acocoradas em cantos de fogões, ou nas beiras das estradas, ou nos olhares de quem olha para além dos olhos. 

E o fogão a lenha da Dona Mariinha existiu também para que eu pudesse estar aqui a escrever a importância que ele me desvendou nestes tempos de Dona Quarentena. 

Quando este impertinente vírus se for, caminharei calmamente nas areias das praias, subirei as montanhas, dormirei numa rede ao relento, visitarei meus familiares nas terras de onde vim, irei novamente a Itália (agora tão sofrida), escutarei violeiros, cantarei minhas modas e terei olhos para me ver sendo olhada.



Conselheiro Lafaiete, 23/03/2020


Observação: peço permissão à minha irmã para postar seu comentário neste conto.

"Muito bom! Só uma observação: a estrutura de ferro da prateleira da cozinha está na minha casa, guardada com muito carinho! E a trempe do fogão era grossa por onde circulava água, tínhamos água quente(fervendo) no tanque e no chuveiro! Eta tempo "bão"!" (Maria das Graças Nogueira Rivelli Teixeira)

domingo, 22 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS -- III



História infantil – “A menina que vestiu de alface”


Esta história aconteceu há muitos e muitos anos numa cidadezinha do interior do reino encantado chamado Brasil.

Havia neste reino uma família muito pobre mas muito feliz. O pai trabalhava o dia todo e a mãe, que ficara doente, não podia cuidar dos filhos.

E eram muitos filhos.

Um dos meninos mais velho levantava muito cedo e ia pegar pães na padaria longe de sua casa para vendê-los nas ruas da cidade. O outro menino levava marmitas para os trabalhadores numa mina de manganês muito longe de sua casa. Os outros dois meninos ainda eram bem pequeninos e ficavam em casa.

A irmã mais velha tinha só 15 anos e tomava conta deles. Ela também arrumava toda a casa. Acho que por isto ela era tão brava.

A outra filha era mais nova e tinha que cuidar da lavação do banheiro. E ela cuidava direitinho.

E ainda tinha outra filha. Esta vivia no mundo da lua. Ou seja, vivia lendo histórias dos planetas, das estrelas e de tudo que conseguia pegar na biblioteca da escola. O nome desta filha era Aninha.

Um dia a professora da Aninha disse que haveria uma semana de lições na escola sobre alimentação saudável. Falou também que haveria um teatrinho no último dia.

A menina que gostava de participar de tudo também quis estar no teatro.

Na peça do teatro cada aluno deveria ir vestido de uma fruta, de um legume ou de uma verdura.

Aninha foi sorteada para ser um pé de alface. Achou aquilo muito esquisito. Ela seria um pé de alface?


Prestou bastante atenção nas explicações da professora sobre a importância daquelas folhas tão sem sabor.

Aprendeu que não é o alface, mas a alface. Aprendeu também que a alface tem várias vitaminas e sais minerais importantes para nossa saúde.

Porém como vestir-se de uma alface? E como o pai, que não tinha dinheiro, iria comprar alguma coisa para fazê-la parecer uma alface?

Aninha ficou muito triste.

Foi então que a mãe, mesmo adoentada, levantou-se da cama e foi para a sua máquina de costura.

Comprou um tecido da cor verde parecida com a folha de alface. E ela o vestido mais lindo que a menina já havia visto.

A menina desfilou com sua roupa de alface e sentiu-se a folha mais importante dentre todas as verduras da horta.

Depois deste dia aconteceram duas coisas muito importantes na vida de

Aninha: a mãe dela voltou a costurar e a cuidar da casa e Aninha passou a gostar muito das folhas de alface e de todas as verduras que o pai dela plantava na horta do fundo do quintal de sua casa.

quarta-feira, 18 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS II

 -Alô vó...


 - É esse tal de telefone sem fio que não me deixa em paz. Agora não posso fazer mais nada. É só prosear com meu povo. 

Vem lá Dona Mariinha, toda atrapalhada, equilibrando o aparelhinho nas mãos.

-Sim Jéssica, eu entendi. Ficar que nem galinha choca: só no meu ninho. Eu já tô até descorando viu minha neta. Aqui na roça tá todo mundo falando desse bichinho que ninguém vê, mas que tá fazendo um estrago danado.

- Tô tomando minhas providências. As filhas da Dona Rosa até se ofereceram para trazerem meus remédios do Posto de Saúde. Até vão no armazém do Sô Inácio comprar umas farturas pra mim.

-Oh minha neta, vô te dizer umas coisas dos meus tempos quando a gente nem sabia o que era esse tal de álcool gel. Até agora eu acho que são aqueles docinhos de gelatina com cachaça. Que gostosura e que cheiro bom e a gente ria sem parar depois que empaturrava com eles.

- Jéssica minha neta! Pois fique tranquila viu? Vou aproveitar e lavar as roupas todo dia. Fala pra sua mãe não se agastar. Eu tô bem.

Dona Mariinha desligou seu aparelhinho sem fio e saiu resmungando e falando com as galinhas e com os cachorros:

- Agora veja só! Os moços do rádio não param de falar deste tal de Coronavirus.

Na minha época o que matava eram as cascavéis, as urutus, os gaviões que não deixavam os pintinhos vingarem.

Agora vem dos estrangeiros um bicho tão pequeno que ninguém nem vê e vai pegando todo mundo e nem tem remédio que dê jeito nele.

Eu fico pensando é nos meus filhos nas cidades. Uns encostando nos outros dentro do trem debaixo da terra quando vão e voltam do trabalho. Rezo o terço pra eles toda noite.

Quando um fio meu tinha perebas nos braços e nas pernas eu passava a tal água de alibur que eu gostava de brincar e falava com eles que era água de urubu para espantar a doençada.

Se era nos olhos eu molhava um pedaço de pano limpinho com água boricada e gotejava dentro deles.

Agora essas meninas de hoje falam numa tal de água micelar que é pra limpar as peles. Eu cá que não passo nada na minha cara. Só lavo com água da bica.

Mas eu tô lembrando é que outro dia meu filho me convidou para ir na praia com ele e a mulher dele e meu neto. Eu cai na besteira e fui. Mas tava tão quente aquela excomungada da areia que eu fiquei só matutando nas minhas ideias. Como é que todo mundo fica ali tostando no sol sem fazer nada?

E depois ainda me contaram que tinha uma tal de água viva que tava dentro do mar e estava queimando as pessoas. Como é que esta coisa há de viver dentro desta água toda salgada?

Ainda bem que eu só botei meus pés dentro daquela água. Sei lá... De repente a água via e ia e eu nem sabia se ela voltava. Uma hora inté lembrei do meu véio. Quando ele bebia aquela aguardente de cana – era assim que o dono do alambique lá da fazenda chamava a pinga dele - meu véio ficava sonhando acordado. Dizia que queria conhecer o mar. Morreu sem ver esse trem tão perigoso e tão grande e eu ainda tô viva pra ver um bichinho que a gente não vê e que mesmo assim pode me matar.

E por conta desse tal de Coronacírus tô eu aqui sendo vigiada por meus filhos e até por minha neta Jéssica.

Mas eles podem ficar assossegados. Não quero morrer inda não. Quero ver meus netos crescerem e voarem com as asas que meus fios dão pra eles.

Mas uma coisa eu devo confessar só pra vocês aqui, peraí que caiu um cisco nos meus olhos...

- Havia era tempo que eu não sentia tanto amor dos meus filhos e da minha neta por mim.

terça-feira, 17 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS I






A dor nos joelhos lhe fez lembrar sua idade, 72 anos.

Com a presença do Coronavírus na cidade, no país e no mundo, resolveu aceitar o isolamento que, para ele, já não faria tanta diferença.

Ficara viúvo há mais de vinte anos. Embora não houvesse decidido não casar de novo, não casou.

Continuou suas atividades enquanto farmacêutico responsável pela farmácia da irmã e enquanto funcionário público junto a um grande hospital. Amava os desafios colocados pela dispensação de medicamentos nos plantões tumultuados pelas urgências e emergências.

No amor, um caso aqui. Outro acolá. Um amor desvairado às escondidas. R
espeitava as filhas. 

Sentia que depois de certa idade teria apenas os amigos como companhia.

Havia criado uma rotina de saúde mesmo antes de sua aposentadoria: sem bebedeiras, sem cigarros, sem excessos alimentares, e muitas caminhadas, trabalhos no tal “home office”, muitas leituras e muito rock.

As poesias, guardavam-nas para si. E gostava muito de escrevê-las.

Mas o Coronavírus chegou.

Teria que rearranjar sua rotina de modo a não se estafar com a solidão, agora imposta. E na arrumação de seus guardados encontrou a foto de sua formatura.

Riu do seu cabelo liso e rebelde daqueles tempos. Lembrou-se da colega que, num dos encontros da turma, falou que ele e seu cabelo eram um dos mais bonitos da turma. Vaidoso feito ele só tinha também uma acidez que espantava gregas e troianas. Parecia que vivia sempre em alerta como se estivesse ao alcance de uma predadora.

Olhou a foto da colega e sentiu saudades da faculdade, dos amigos, das meninas e até mesmo dos professores que pegavam no seu pé, ou melhor, no seu cabelo.

Guardou as fotografias, fechou os olhos e viajou nos seus devaneios de jovem saído do interior em busca de um sonho: ser farmacêutico em uma grande unidade hospitalar.

Voltou a si.

Agora este danado de Coronavírus vinha lhe exigir renúncias e resignações. Pegou seu notebook. Abriu no programa onde escrevia suas poesias e escreveu.

Estava de fato inspirado. As lembranças tomaram forma de versos. Então permitiu que duas lágrimas escorressem dos seus olhos ainda vibrantes e belos.

A seguir inspirou profundamente. Pegou seu celular, "esse bichinho indecente" como ele o chamava, e enviou sua poesia para ela. Obviamente que não disse coisa com coisa para justificar seu ato. Nem fora preciso. Os versos falaram por ele.

A seguir desligou a internet e voltou para seu rearranjo de isolamento imposto.