segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Poema: Mal me quer...bem me quer

De três coisa não gosto:
calor,
picadas de insetos,
perfume nauseante.
De três coisas gosto eu:
do olhar contemplador
das atitudes precisas
da palavra encontrada. 
02/01/2017

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Crônica: O QUE FALTAVA A ELA?

Carolina nasceu em Ipanema, Rio de Janeiro, portanto em berço de ouro como diziam seus amigos. Cresceu num ambiente sólido e tranquilo. Nada lhe faltou. Os pais diplomatas sempre lhe deram boas escolas, várias viagens de férias por todo o país e até mesmo em lugares paradisíacos como Tailândia, Nepal e Nova Zelândia. Quando completou 18 anos ganhou um carro importado que fora causa da disputa dos interessados em namoros. Ou seja, Carolina fazia parte daquela faixa dos "1% mais ricos do país". 

Decidiu estudar RI (relações internacionais) numa universidade em Belo Horizonte que sabia estar sempre entre as melhores do país. Queria seguir a carreira promissora dos pais. 

E assim estudou bastante e conseguiu ser aprovada no tal curso. Já na universidade nem percebeu que foi se interessando por disciplinas e professores que falavam sobre os conflitos civis armados ao redor da Terra. Passou a assistir filmes e documentários sobre as guerras civis dos países africanos. Angola, Sudão, Congo, Egito e por ai afora. Chorou muito quando assistiu os filmes "Hotel Ruanda" e "Diamante de Sangue". Buscou informações sobre a Primavera Árabe.

A jovem já não queria mais as tão fantásticas viagens de férias. Passou a preferir outros tipos de companhias e outras leituras. Aceitou um convite para  trabalho voluntário em Moçambique no período de suas férias mas acabou ficando mais tempo e, obviamente, atrasando a conclusão do seu curso.

Os pais não acompanharam as transformações que a filha vinha sofrendo. Acharam apenas que eram extravagâncias da adolescência. Mas Carolina mudava a cada dia. 

Quando retomou seus estudos passou a visitar acampamentos do MST nas comunidades mais próximas da capital onde morava e a acompanhar outros movimentos das minorias. Comprou e devorou os livros que falavam sobre a época da ditadura no Brasil e na América Latina. Lia os contos e romances do colombiano Gabriel Garcia Marques, as poesias do chileno Pablo Neruda e com o livro "As veias abertas da América Latina" do uruguaio Eduardo Galeano.

E foi assim que Carolina encontrou André, um jovem advogado ligado às causas das minorias. Ela se encantou com tanta disposição e conhecimento daquilo que ele defendia. Saíram juntos algumas vezes e logo ela passou a dormir no pequeno e desajeitado apartamento que ele dividia com outro amigo.

Numa noite, em viagem à casa de seus pais, sentiu algo diferente na sua respiração. Estava sozinha. Sua respiração estava muito curta. Será que estaria com pneumonia? Ou será que estaria enfartando? Não conseguiu dormir. Não falou disto para seus pais nem para André. Mas sentia que algo estava acontecendo. Cumpriu toda sua agenda daquele dia. Esqueceu do ocorrido e continuou entre estudos, trabalhos, leituras e namoro. 

Na semana seguinte teve outra crise e se apavorou. Sua respiração não dava a volta e não conseguia bocejar. Lembrou da fisioterapeuta falando de uma aluna que teve uma crise assim e que só conseguia bocejar se ficasse com a boca bem aberta por alguns minutos. Assim ela fez e conseguiu a tal volta na respiração até melhorar e dormir. 
Carolina se perguntava a todo instante o que estava lhe acontecendo. Entretanto, a cada dia, sua ligação com os movimentos sociais ficava mais forte. Agora ela já saía de casa para participar de reuniões com o namorado e foi para as ruas nas grandes manifestações. Gritou e cantou #eleNão. Poetizou a favor das mulheres e levantou bandeiras para LulaLivre.

Na noite da eleição presidencial quando da derrota daquilo que acreditava não saiu de casa. Também não dormiu. Na madrugada faltou-lhe ar novamente. Tentou tudo que podia para conseguir respirar. Telefonou chorando para o irmão mais novo, estudante de medicina. Este orientou-a que fosse para um pronto atendimento. Ela chamou um uber e foi até a UPA mais próxima de onde morava. 

A enfermagem avaliou dentro do tal protocolo de Manchester. Colocou-lhe uma pulseira alaranjada e encaminhou-a para atendimento médico. Enquanto aguardava ser atendida pode perceber a precariedade do espaço físico. Chorou ao ver chegar crianças feridas ou debilitadas mas se encantou com o excelente acolhimento das servidoras que ali trabalhavam. 

Exame clínico normal. Eletrocardiograma normal. RX tórax sem alterações. Exames de sangue normal. Foram-lhe prescritos ansiolíticos e antidepressivos. Ela voltou para casa num choro convulsivo.

O irmão telefonou para os pais contrariando a irmã. Eles vieram da capital federal e, só então, perceberam que a filha era outra pessoa. Propuseram que ela fosse morar uns tempos na Europa até que as coisas por aqui ficassem mais tranquilas. Ela não aceitou. Falou a eles do namorado e pediu que eles o recebessem. 

No dia seguinte foram almoçar juntos. André e Carolina ficaram calados. Apenas ouviram. E ouviram tudo que não queriam. Os pais dela foram bem claros ao declararem seus votos e apoio ao presidente eleito.

André falou tudo o que pensava sobre a enorme dívida que a elite brasileira acumulou com as várias minorias. Defendeu a política de cotas nas universidades. Defendeu os direitos humanos constituintes para todo brasileiro. Reconheceu a irreparável dívida com os afrodescendentes escravizados nas Américas. Deu um show nas argumentações a favor do MST. Foi demais para os pais de Carolina. Haviam perdido a filha para um "comunista" disseram eles. Levantaram e foram embora.

Carolina ficou com André naquele dia e à  noite. No dia seguinte, despediu-se dos pais afirmando seu lado na vida  de seu país. "Ficar a favor dos comunistas junto com as classes inferiores sendo que você pode escolher viver onde quiser!" Insinuou a mãe. Mas ela já havia escolhido viver ao lado de André e junto da luta.

Carolina não teve outras crises de falta de ar. O que lhe faltava não era o ar. Concluiu então que lhe faltava o olhar crítico para com o Brasil e sua decisão na vida. Agora só precisava de forças para lutar por tudo que estava por vir.




Poesia: Solidão

"Às vezes
  preciso de mim
  Então me delicio
  com o perfume do jasmim"

13/11/2018
   

domingo, 4 de novembro de 2018

Uma História de Morte - Itália, século XIX

Dona Mariinha nunca sabia dizer ao certo de onde viera seu avô. Ou será que sabia e foram seus filhos que não guardaram o nome da tal cidade. Salerno ou Palermo? Uma das filhas cismou que era Salerno pois soube que seu bisavô era filho de pessoas muito pobres e que, portanto, só poderiam  ter vivido no sul do país que mais parece uma bota surfando no Mar Mediterrâneo. Recentemente ficou sabendo que ele era, na verdade, de um vilarejo chamado Casalento Spartano, próximo a Salerno. Então estava tudo explicado. Tudo napolitano. 

A mãe falava que o avô vivia contando estórias esquisitas e numa língua enrolada. Ele era um homem muito forte, cheio de histórias e muito trabalhador. Ninguém desobedecia suas ordens. Falava  alto e falava com todo seu corpo. Amava sua família.

Mas nada disso interessa para a história que seguirá. Foi um fato que ficou no imaginário de vários familiares e veio passando de geração a geração.

Dona Mariinha contava a seus filhos que pelas bandas da região onde vivera seu avô havia uma família muito rica. Tinham muitas terras e cultivavam uma uva que dava o melhor vinho de toda a Itália. A famosa uva Falanghina que, segundo contava seu avô, fora trazida da Grécia para a região da Campânia.

Pois bem, teria sido com a venda desse néctar dos deuses que o homem ficou famoso. Sua riqueza já se estendia para além mar.  As filhas andavam cheias de joias. Os vestidos eram confeccionados com rendas da Madeira e seda chinesa. Uma dessas filhas, talvez a mais bela e, portanto a mais amada pelo pai, gostava de joias. E bastava ela sonhar com este ou aquele anel para o pai orná-la com as mais caras pérolas do Mediterrâneo e os diamantes vindos da África. Tudo corria  na mais perfeita harmonia naquele reino da família Rivelli. 

Porém a desgraça caiu sobre a riqueza. Numa manhã, ao acordar as filhas, encontraram Cecília morta. O desespero fora total. Inacreditável. Vieram todos para constatar aquela fatalidade. O vigário fora chamado. O prefeito fora chamado. O boticário fora chamado.

O pai desconsolado mandara fazer o mais belo esquife para enterrar a filha. Não deixou que o tampasse antes que todos pudessem apreciar a beleza da filha que, mesmo morta, parecia uma deusa romana mitológica. E o anel de diamantes enfeitava o anelar direito da moça. 

Entretanto, lá pelas tantas da madrugada, quando todos estavam sob o efeito do vinho, entrara um desconhecido que, cautelosamente, tentara roubar a joia do dedo da falecida. A falta de jeito do rapaz para surrupiar o anel fez com que ele usasse de mais força. Eis que então escutá-se um grito. A moça acorda e sentá-se entre as rendas e as flores coloridas. 

Foi um verdadeiro "Deus nos acuda" em bom italiano. 

Mais tarde descobriu-se que a filha sofria da terrível doença do sono. A tal catalepsia.

Então o ladrão foi perdoado e, obviamente, Cecília apaixonou e casou com o larápio seu salvador.

E, quem sabe, não seria eu descendente deste casal tão romântico.

30/10/2018

P.S. Esta história também é parte dos trabalhos da Oficina de Escrita, coordenada pelo poeta e professor Ronald Claver.