domingo, 28 de novembro de 2021

Poesia: As cores da liberdade

 

 As cores da liberdade

 

Se liberdade tivesse cor

Seria o mel dos olhos de Francisco

E o branco de sua pele

 

Se liberdade tivesse cor

Seria o vermelho do sangue de Zumbi

E o preto de sua pele

 

Se a liberdade tivesse cor

Seria a cor do desejo

E e a cor da transgressão

 

A liberdade tem a cor de um filho


27/11/2021

(Uma homenagem ao meu filho nascido no dia 20 de novembro com o nome de Francisco nesta semana da "Consciência Negra")

domingo, 21 de novembro de 2021

Caso: O resgate da família canina

 

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - LXIII)

 



Dona Marta atendeu rapidamente ao chamado da vizinha, de pé, no meio da rua-caminho. Perto de suas casas. A vizinha estava inquieta. Apontou a causa de seu apavoramento: um filhote da ninhada da cachorra alojada defronte a casa do outro vizinho. Muito emagrecido, estirado sob a terra, com as costelinhas visíveis e cheiro fétido exalando das feridas pelo corpo. Larvas o comiam ainda vivo. Deu seu último suspiro durante a chegada de Dona Marta. Alice, agora preocupada com o corpinho no meio da estradada, tratou logo de enterrar o bichinho. Mostrou a situação em que se encontravam os demais filhotes da cadela sem dono. “Um morreu atropelado pelo vizinho” informou ela contrariada.

Dona Marta nem quis olhar. Sabia que seu coração não suportaria ver tal cena apontada. Ela, que já adotara alguns cães abandonados, sabia do trabalho dispensado, dos gastos e, agora um pouco adoentada, não poderia cuidar de mais uma ninhada. Entretanto, na manhã seguinte, vieram lhe contar do estado de penúria em que se encontravam os quatro sobreviventes. Dormindo no tempo, ora debaixo do sol, ora debaixo da chuva. A mãe não tinha leite - não comera durante a gestação - e parecia desesperada querendo salvar seus filhotes.

Aceitou cuidar do mais fraquinho. Pediu a visita do veterinário cujo trabalho dona Marta tanto admirava. À tarde, quando voltou do seu trabalho, lá estava o quarteto. Esfomeados, fedorentos, caquéticos, desidratados e desnutridos. O mau cheiro circundava toda a casa.

A noite o veterinário - será que ele é japonês ou chinês? - voltando do consultório, passou por lá para atende-los. Todos eles com bichos de pés, feridas abertas e muitas larvas das danadas varejeiras. O médico, calmamente, 
pegou um por um, tirou todas as larvas, amputou dedos necrosados, limpou as feridas, orientou os tratamentos e deixou as receitas.

Alice, Ana e Nelinho apoiaram a decisão e prometeram contribuir para a recuperação dos bichinhos. Cada um a seu modo e a seu tempo. E, nesta empreitada, ninguém observou quem era macho ou quem era fêmea. A preocupação naquela hora era apenas salvá-los.

Já com viagem programada, afinal era o aniversário do netinho, Dona Marta deixou a ninhada aos cuidados dos prestimosos vizinhos. Pegou o carro e ganhou a estrada. E foi duplamente viajando naquela manhã que seu coração tanto disparou. Lembrou das famílias Severinas, no nordeste brasileiro, que durante tantas décadas morriam de fome, de desidratação, de verminoses, de seca. Certamente ainda hoje, nos rincões das terras rachadas, meninas são trocadas por “algum ganhume” para o resto da família não morrer na miséria. Engasgou detrás do volante ao lembrar do tempo que esteve lá, na década de oitenta, enquanto estudante de medicina. Percorreu vários casebres. Viu vários olhos sem vida. Viu peles ressequidas. Viu meninas grávidas após menstruarem pela primeira vez. Não entendia os convites dos fazendeiros para as festas regadas a bebidas importadas em verdadeiros oásis de flores, frutas e comidas fartas. Cabulou e sofreu muito naquele trabalho e ainda hoje nas lembranças. Constatar as diferenças sociais feriram seus olhos e seu coração. Voltou dividida. Estraçalhada.

Agora a fome volta a assolar o povo brasileiro. O desemprego crescendo por todo o país. Os mais ricos ficando mais ricos. Os mais pobres ficando mais pobres. Uma economia excludente, voltada para o capital. “Que morram os pobres. Eles gastam dinheiro público. Precisam de cuidados assistenciais. Precisam de assistência em saúde." Assim tem-se traduzido as vozes deste governo incompetente e amoral, pensou Dona Marta.

E ela volta dos seus devaneios. Chegou na cidade do seu filho. Num grande sorriso encontra o netinho. “Vovó bufufuda!” E muitos abraços e brincadeiras.

Quando retornou para sua casa, encontrou a mãe cachorra já cuidando e tentando amamentar seus desvalidos. “Não tem outro nome para ela senão Severina” - pensou Dona Marta. Maria e José foram os nomes escolhidos para os mais fraquinhos. Aqueles que tiveram dedos amputados. Dona Marta e Alice deram soro aos dois. Tentou alimentá-los com rações deliciosas. Mas Maria faleceu no segundo dia dos cuidados. Deu seu último suspiro no colo de Dona Marta que ficou com os pensamentos cá e lá.

(Deixou, há muito tempo, de assistir jornais. As fatalidades televisivas ela vem se recusando a ver. Cuida das partes que lhe cabem.)

Descobriu que o filhote, José, é uma fêmea. Ela sobrevive com metade de uma patinha e até arrisca brincar com Paçoca pela grade do canil. Tica agora é seu nome. Ainda desnutrida, mas já dando seus passeios furtivos pelo quintal. Teca e Tico são os mais saudáveis. Ela cor de caramelo da mãe. Ele cor preta, do pai? Teca é atrevida. Não tem medo da terrível Tieta. Teco fica na dele. Faz conhecimento do quintal e dos seus perigos. O velho Neguinho só fica observando como se fosse Tipu, o grande sultão indiano. E todos já se entendem.

Agora é aguardar o fim dos tratamentos e encontrar quem os queira. Lembrando que eles têm uma história de sobrevivência contada e recontada e publicada.

21/11/2021
Funil/ Mário Campos

Mini conto: Mais um amor na minha vida

 

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - LXII)
 
Disseram que ele entrou pela janela do quarto. Caminhou lento pelo corredor. Na sala bateu asas e pousou numa viga de madeira atravessada no telhado. Lá de cima voava até as vidraças fixas. Queria ganhar o céu. Ali ficou o dia todo. Sem água. Sem petiscos. Sujeiras espalhadas pelo chão. Lá de cima olhava atento. A nos espreitar. À noite desceu das alturas. Caminhou lento até a porta. Saiu assim como entrou. Lindo, garboso, alado. 
Outro jacu na minha vida.
Jacu ladrão, roubou meu coração.

21/11/2021

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Conto: A chuva amazônica

 



Naquele dia ela acordou sentindo o mormaço do período chuvoso e a angústia das dores de seus dias, rememorando as palavras e olhares cortantes que havia recebido da pessoa que tanto amava. Assim, sem muita vontade levantou-se. 

Maquinalmente preparou um café preto e uma tapioca com queijo coalho e tucumã. Sentou-se à mesa e olhou para a cadeira vazia a seu lado, pensou nas ausências e nos silêncios que compartilhou por tanto tempo com aquela pessoa que não mais lá estava. Sentiu então uma forte dor no peito pela derrocada de seus sonhos quase infantis de uma travessia comum pelas asperezas da vida e as belezas do caminhar.

Foi despertada desses devaneios pelo gralhar de um casal de araras vermelhas que todos os dias passava sobre sua casa e tanto lhe enchiam de ternura e satisfação por colorirem seu olhar e alegrarem seus ouvidos. Mas seu coração não estava para essas alegrias passageiras, logo invejou a parceria de vida daquele majestoso e alado casal. Ao arrumar a mesa, sentindo-se mal pela inveja que sentira, quis sumir dali. Daquela casa, daquela cidade, daqueles cheiros, cores e pessoas que por anos compartilhou com o ser amado. Queria ir para o outro lado do mundo, recomeçar a vida, reconstruir os sonhos. No entanto, ela sabia, sempre soube, que o lugar mais distante que poderia ir era para dentro de si mesma, um lugar sombrio, mas cheio de esperanças, duro, porém alegre. Um refúgio nem sempre confortável, mas esclarecedor. Daí, sem perceber ela seguiu um dos conselhos que seu pai mais lhe deu na vida, o de que o caminhar é um dos melhores psicólogos que há. 

E saiu caminhando pelo bairro, observando as belezas dos quintais e dos fragmentos de mata no entorno. Admirando a grandeza e a fortaleza das Sumaúmas, mas pensando também na fragilidade de toda aquela imponência natural. O que a trouxe de volta para a sua condição, já que ela acreditava na perenidade de sua relação, que, no entanto, ruiu como uma enorme Sumaúma nas mãos dos desmatadores. Nesse claro momento sua angústia transbordou, sua garganta deu um nó e seus olhos encheram d’água, mas por orgulho ou qualquer outra coisa que há, ela não conseguiu chorar em frente a seus vizinhos que praticavam suas caminhadas matinais. Assim, em um enorme esforço ela continuou suas passadas, altiva, sem derramar uma lágrima sequer, mesmo sentindo uma enorme aflição interior e o peso das lágrimas represadas. E como num milagre ou apenas numa coincidência natural, ela sentiu cair em seu ombro uma grande gota de chuva, daquelas que só o inverno amazônico é capaz de produzir. Neste momento exato, ao pressentir a queda de uma daquelas tempestades que ela tanto admirava e que só havia presenciado nos trópicos, daquelas que lavavam a alma, esse poder único das águas, ela soube que Deus, a Mãe Natureza e os espíritos da floresta vieram lhe cobrir, lhe confortar. Acobertar todo seu pranto, sua angústia, sua dor. 

Neste preciso instante ela entendeu a dádiva da chuva, que como sua amiga e secreta confidente foi a única testemunha da purificação daquele choro engasgado.



Autor: "Eu me chamo Marcelo Rodrigues e sou "mineuara", como queijo Minas frescal com farinha de ovinha do Uarini. Gosto da leveza das palavras e das delicadezas da vida."


Nota do autor: Sumaúmas são umas das maiores árvores da Amazônia junto com as castanheiras. São verdadeiras senhoras da floresta, chegam a 60, 70 até 80 metros de altura.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Conto: Fragmentos - Um

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - LXI)


Foi num sábado qualquer. Sem almoço ou café especiais. A rua estava envelhecida e extenuada assim como a casa onde viveu sua infância. Ele chegou como quem nada quer. Parou o carro. Olhou sem vontade de ver coisa alguma. Desceu. Em casa a mãe não disse palavras. Abriu-se num sorriso dela. Nada escancarado. Porém firme de si. Aquele filho sempre lhe fora especial assim como os demais. Saiu de casa ainda muito jovem. Voou. Trouxe orgulho para toda a família. Agora tenta trazer “Saúde e paz”.

(Será que alguém pode se dar ao luxo de desejar saúde e paz a quem quer que seja?

Por onde teria andando? Que fez de sua vida? Ganhou dinheiro? Ganhou fama? Onde estariam seus amores?)

- Bençoa mãe.

- Deus te abençoe meu filho.

Já dentro de casa, entra no quarto que lhe acolheu criança. Adentra o olhar. Seus olhos vagueiam no espaço vazio. Tenta ver o menino que ali viveu.

- Mãe, onde o pai gostava de senta depois do trabalho?

- Nem assentava. Jantava. Deitava e dormia. O trabalho exigia força física. Chegava cansado.

Então sentou-se em qualquer cadeira. Queria saber do pai. Como ele era. Por onde andava nos dias de folga. Como tratava os filhos. Como se dava com a mãe.

Resposta alguma ouviu dela.

- Que lembranças você tem dele? Foi a resposta pergunta da mãe.

Tomé não se lembrava do pai. Voltou pouco em casa depois que saiu. As lembranças da infância estavam anuviadas. Incertas. Tem na memória que a mãe não chorava quando o pai não aparecia para dormir. Nem dava explicações no dia seguinte. Ela não perguntava. Seu orgulho era maior. A rua sabia dos casos. Não alardeavam. Gostavam dele. Era um homem muito trabalhador. O demais não importava. Gostava de passarinhos. Trocava passarinhos. Vendia passarinhos.

- Mãe, você gostava do meu pai? Ele gostava de você? Não lembro de suas conversas.

Continuou com a mudez das respostas. Abaixou a cabeça. O corpo acompanhou o movimento. Calou-se. A mãe foi até a cozinha. Trouxe uma média de café num copo americano. Num pires colorido, de louça, trouxe bolinhos de chuva que fizera para as netas no dia anterior. Tinha açúcar e canela. Ele saboreou o bolinho com gosto. Entendeu o recado da mãe. Era preciso parar com aquela conversa.

O som da campainha interrompeu o ensurdecedor silêncio.

- Boa tarde dona Vera. Eu vi o carro do Tomé na porta e vim pedir uma benção pra minha filha. Ela está muito triste, calada. Sem ânimo até para brincar. Só emagrecendo. Tô muito preocupada.

Tomé inspirou fundo sem mover senão o peito. Continuou quieto na cadeira. Jamais esqueceria aquela voz.

- "Pode pedir que ela entre com sua filha."  Adiantou ele.

Logo viu o olhar de tristeza naquela vizinha que tanto amou. Perguntou o que estava acontecendo. Sorriu para a menina. Ofereceu um bolinho de chuva. A menina olhou. Aceitou o bolinho e esperou a benção. Tomé fechou os olhos. Colocou sua mão sobre a cabeça de Clara e ficou em silêncio.

Teresa tentava não olhar para o homem. Sabia pouco ou quase nada dele desde que haviam se separado ainda na adolescência. Raras cartas foram trocadas. Teresa havia se casado. Tinha duas filhas. O marido era um homem bonito, bem apresentado. Da vida de Tomé não soube dos estudos fora do país. Não soube das viagens pelo Brasil. Nem soube que havia se tornado um estudioso do evangelho segundo a doutrina espírita. Recentemente ouviu dizer que ele tinha o dom da palavra. “Ninguém nem pisca quando ele vem dar palestras”, ouviu de uma antiga amiga. 

A seguir Teresa agradeceu o passe. Mãe e filha saíram juntas.

Dentro de casa, mãe e filho continuaram calados. Ela não ousaria fazer perguntas. Ele não ousaria dar respostas. Desnecessário. Ambos sabiam as perguntas e as respostas. O silêncio falava por eles.

Já no final da tarde Tomé levantou e despediu-se da mãe.

Ela buscou o olhar dele.

- Meu filho, que muralha tão dura você construiu da fragilidade de seus olhos! Não viu o amor do seu pai. Não viu Teresa. Escute o que você fala nas suas palestras.

Tomé pediu a benção. Entrou no carro.

No caminho parou e desceu. A lua cheia nascia sobre a serra. Sentiu o peso dos anos. Sentiu a direção tomada na vida. O eco das palavras da mãe cortava sua carne. A dor era insuportável.

Sabia do muro que construíra para proteger-se do medo daquele grande amor. Só não sabia que o mesmo muro iria separá-los para sempre.

Não dormiu aquela noite.



Maria do Rosário N. Rivelli

31/10/2012

Dia das Bruxas