sábado, 30 de agosto de 2014

ChicoAdriano - "O PETETÊ"



            
 Há alguns dias venho me lembrando do ChicoAdriano. Escrevi sobre ele um tempo atrás e a escrita se perdeu nestes novos arquivos virtuais.

  -“Esta é a Pititeza da Maria do Carmo, filha do Sô Antônio e da Marianinha, sobrinha do Padre Joãozinho...” 
  
  Era assim que me respondia quando lhe perguntava quem era eu. Fazia a mesma pergunta toda vez que o via, pelo simples prazer de ouvi-lo dar a resposta. Ou para ver se ele ainda se lembrava de mim. 
  
  Ele também gostava da brincadeira e sorria ao dar a resposta certa.

  Toda meninada gostava dele, embora algumas mães aproveitavam de sua figura bizarra para amedrontar filhos desobedientes. Mas ele era só doçura. Corriam em sua direção quando o viam aparecer na praça.
  
  "-Lá vem o Petetê". 

  Era assim que o chamavam.
    
  E era sempre uma festa sua aparição nas ruas.
  
  Ele parecia um homem-menino. Ou era um menino-homem?
   
  A criançada pedia que ele falasse seus nomes e ele, prazerosamente, repetia aquela ladainha de Zezinhos, Joõezinhos, Mariazinhas, filhos de Fulano, netos de Ciclanos e por ai afora.     
  
  Ele não errava nunca. Fora capaz de nos reconhecer mesmo com o passar dos anos.
  
  Sempre se entusiasmava em dizer nossos nomes na ponta da língua. Às vezes fazia fita, demorava um pouco, como se houvesse esquecido, para logo a seguir nos recitar nossos nomes. E ele também se alegrava de nos ver ali, atentos, ao lado dele.
  
  Não sabia quem ele era e o que aconteceu na vida dele. Só sabia que ChicoAdriano vivia perambulando pela região. Sempre sozinho, carregando seu corpo miúdo e um saco nas costas. Não era um anão, embora tivesse uma estatura muito baixa. Usava uma calça arregaçada até o meio das pernas, um velho cinto ou algum cordão qualquer, uma camisa de mangas compridas e com botões, pés descalços, cabelos despenteados e esbranquiçados. E um belo sorriso no rosto.
  
  Nesta época eu já morava em outra cidade, mas ia com meus irmãos passar as férias naquela que era minha terra natal. Adorava vê-lo chegar à casa do meu tio, onde eu sempre ficava aos cuidados deste e de minha tia.
  
  Ele chegava silencioso e chamava por Dona Vivi. Pedia licença, subia as escadas de madeira e caminhava em direção à cozinha.Tinha um andar pendular e leve. Então tirava o pesado e misterioso saco das costas, ajeitava-o no mesmo canto de tantas outras vezes. Esperava o café. 
  
  Porém, de tempos em tempos, ele cismava com as pessoas. Dizia que estavam envenenando sua comida. Por isto, só aceitava o de comer naquela casa. Ali morava o “Padre Santo” como repetia nosso pequenino cidadão. Pedia apenas o líquido do café. Tirava uma enorme lata de seu tesouro. Pegava um ovo dos seus escondidos e o bebia cru, afinal não haveria modo de enfiar veneno nele. Ficava mais alguns minutos. Despedia. Pedia a benção e lá ia ele para seu mundo.
  
  Muitos anos mais tarde ficaria sabendo onde e com quem ele vivia. Por uma feliz coincidência do destino, minha irmã tornaria sua vizinha e, com o jeito altruísta dela, ajudaria a cuidar dele no final da sua vida.
  
  Mas nosso herói ainda está bem vivo, esperto e mantendo seus passos da casa paroquial ao jardim e dali por vários lugares da redondeza.   
  
  Às vezes, quando íamos à fazenda de outro tio, o encontrávamos por aquelas bandas.
  
  Na verdade, ele tinha outras esquisitices.    
  
  Antes do sol nascer, quando os galos começavam a cantar, ChicoAdriano caminhava  naquela estrada. Ia se fartar de água. Havia um veio d'água que  descia pelo barranco e corria em direção ao rio, do outro lado da estrada, bem perto dali. Ele improvisava uma bica com pedaços de bambus ou folhas.

  Primeiro ele benzia a sua água. Rezava várias orações, fazia repetidos nomes-do pai. Então lavava seu rosto. Jogava água em sua cabeça. Voltava a rezar, fazia genuflexões. E tantos outros rituais como aqueles das missas e suas consagrações. Agora sua água estava benta. Só então ele bebia dela. A seguir ele enchia algumas garrafas daquele líquido santo, ajeitava tudo naquele saco e rumava de volta para um seu lugar na cidade.

  Na rua ele benzia e jogava sua água benta em quem assim o pedisse.
  
  Do outro lado daquele barranco por onde descia a água, havia uma majestosa árvore de pau d’alho. 

  Depois do meio dia, ela sombreava toda a largura daquela estrada. E esse trecho era conhecido como Pau D’Alho. Eu pensava que era pau Dário. Ainda hoje, quando caminho por ali, vejo ChicoAdriano e seus mistérios.
  
  E ChicoAdriano sempre repetia aquele percurso no final da tarde, voltando à cidade quase ao anoitecer.
  
  Houve uma época que ele endoideceu. Ou será que só piorou?  Apaixonou por uma parenta minha que morava na praça principal. Foi um Deus nos acuda.
  
  O Padre deu conselhos, esbravejou, mas de nada adiantou. Ele dizia que ela era sua namorada. Queria vê-la a qualquer custo.        

  Andava o dia todo procurando por ela. Falava em noivado e casamento. O nome dela não saia de sua boca. Começou a vigiá-la. Passava as noites na praça esperando que ela saísse de seu castelo. Mas a princesa ficou aprisionada pelo amor declarado. 

  Os pais dela acharam por bem tirá-la da casa na praça e leva-la para a roça. E assim o fizeram.
  
  ChicoAdriano enlouqueceu de vez. Procurava seu amor por toda a cidade. Haviam roubado sua noiva, ele delirava. Chegou a dizer que haviam matado sua escolhida.

  ChicoAdriano então não voltou à casa do Padre, seu protetor. Esqueceu o café. Alguns disseram que ele deixou até de beber os ovos. Amiudou suas vindas por ali. Até não ser mais visto nas ruas. O povo não se incomodou pela sua desaparição. Ninguém deu por falta dele. Fora esquecido.
  
  Mas eis que, passados alguns dias, espalhou-se a noticia. Nosso louco amante estava morando dentro do cemitério, ao lado de um túmulo onde, diariamente, ele jogava sua água benta e colocava flores.
  
  O Padre fora chamado. O delegado fora chamado. O coveiro fora chamado. Não conseguiram demover dele suas certezas.
  
  Ao ser indagado sobre o que fazia ali, respondera que haviam matado sua noiva e que ele ficaria ali para cuidar dela, pois ele e sua amada iriam se casar no céu e haveria de ter uma grande festa por lá...


11/03/2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

UM HÉLIO NA MINHA ESTRADA






   As meninas não acordaram na hora combinada para o café da manhã. Estavam indo para Ouro Preto. Era a primeira vez que minha filha convidara duas amigas para dormirem no sítio.


 Devo explicar mais uma vez que não se trata senão de um pequeno terreno, um chalezinho, um jovem angico, um jatobá também em crescimento e cinco pés de ipês, o mais antigo deles estará todo florido daqui uma semana. Será um grande espetáculo com o qual a natureza me presenteará neste final de inverno.

   Elas vieram comigo. Foram ao Inhotim e voltaram para saborear a lasanha de molho branco. Não sabia que, há dois dias, havia sido aniversário da amiga alemã e que todos os anos ela vem pedindo à sua mãe tal especiaria. Ela saboreou o prato com gosto. Não agradeceu, coisas de alemães. Mas sorriu e falou, em inglês, que comeu muito, mas que a lasanha olhava para ela pedindo que ela comesse mais. E ela comeu mais.

  Fiz um mapa para o trajeto da viagem embora minha filha já tenha feito este percurso comigo. Na época contrariada porque não gostaria de fazê-lo. Colocou fone nos ouvidos e fechou os olhos. Perdeu a bela paisagem das montanhas de Minas. 

  Hoje perdeu também o caminho ensinado e foi parar em outra cidade, em sentido oposto ao desenhado e explicado. Perdeu tempo e gasolina mas ganhou na vida.

  Telefonei para saber se haviam chegado bem e a outra amiga, paulista, atendeu e informou que estavam em São Joaquim de Bicas, em direção a Igarapé. Não sei como foram parar por lá. Ouro Preto está a leste e tais cidades a oeste da região do meu sítio. Tudo bem. Ainda aprenderão.

  O caminho ensinado e desenhado é um atalho que liga a BR 381- Fernão Dias à BR 040- em direção ao Rio de Janeiro, bem próximo ao trevo para Ouro Preto. Portanto corta a Serra do Rola Moça passando por alguns distritos de Brumadinho, com paisagens de perder o fôlego.

  Lá se foram elas. Fiquei sozinha com muitos textos para estudar, com meus cachorros, galinhas e muitos passarinhos beliscando as comidas de passarinhos.

  Ainda não comecei a ler o que devia, embora ontem tenha avançado bastante nas leituras. Então lembrei das muitas viagens que fiz na minha vida e que pretendo ainda fazer.

  Houve um tempo, em que ainda não havia terminado meus estudos em Juiz de Fora, mas já namorava a possibilidade de continuá-los em Belo Horizonte. Então vivia para cá e para lá, sempre com dedos apontados nas direções desejadas.

  Nunca fiquei nas estradas. Mas passei por alguns apertos. Meus pais jamais souberam deles embora sempre contasse outras verdades.

  Hélio. Era esse o nome que de repente passaram a chamar os motoristas que me davam caronas. Assim fora uma coincidente sequencia de seis Hélios. Mas foi o último deles que marcou as muitas histórias das minhas viagens.

  Não me lembro onde eu estava a pedir caronas quando esse tal Hélio parou e eu, sozinha, entrei no carro. Só lembro que meu destino era Belo Horizonte. Ele ficou calado o tempo todo e eu a observá-lo.

  Era um homem jovem. Bonito. Pela aparência e vestuário parecia um homem rico. Eu viajava na poltrona ao lado uma vez que ele também estava sozinho. Notei várias latinhas de cerveja caídas no chão do carro. Ele estava alcoolizado. Fiquei receosa e amedrontada. O carro era possante e ele corria mais que o devido.
  
  Eu, calada ao lado. Olhava a estrada. Desde sempre amei as estradas. Viajei comigo por todas as casas que escolhia pelo caminho. “É ali que quero morar” ou “ Quero uma casa igual aquela” ou “quero uma árvore daquela em meu sítio” e meus desejos e alternativas eram infinitos. Imaginava-me vivendo aqui e acolá. 

  Mas eis que esse Hélio freia e pára o carro em cima daquela ponte imensa, alta, em curva, cheio de mistérios e que eu tanto amava. Muito lá embaixo o Córrego das Almas, fazendo limites entre as cidades de Itabirito e Ouro Preto. Inaugurado no ano do meu nascimento, 1957, pelo então presidente da república, Juscelino Kubitschek. 

  Estávamos sobre o Viaduto das Almas.

  E ai ele desliga o motor e me diz:   
  -Saia do carro. 

  E saio do carro. 

  Ele ameaça:

  -Vou te jogar lá embaixo!

   Pois acho que nasci de novo...












Funil, 17/08/2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

DE UMA MAÇÃ E DE MAIS UMA IRMÃ



                        

    Mudamos algumas vezes de casas e até de cidade. Estas mudanças me possibilitaram saber minha idade dentro das lembranças da minha infância. Portanto minhas casas são preciosas aliadas nas minhas histórias. Não foram tantas assim, mas cada uma delas marcou de alguma maneira a minha vida.
  
    Um dia contarei da casa onde nasci.
  
    Hoje falarei daquela onde vivi por volta dos dois aos cinco anos. Depois deste tempo mudamos desta pequena cidadezinha. Era preciso escolas. Meus irmãos estavam crescendo.

    Mudamos de cidade e, de novo, de uma para outra casa. Sempre gostei de mudar de casa. Parecia festa. Ainda hoje me encontro buscando desculpas para mudar de um lado para outro.
  
    Bem, este acontecido deu-se então antes dos meus cinco anos e, provavelmente, eu ainda era a filha mais nova dos quatro irmãos vivos. Isto era o que eu pensava até ouvir meu pai dizer de uma irmã mais velha que morava na cidade de sua mãe e irmãos.

    Eu não sabia que tinha uma irmã mais velha. Essa minha irmã fora morar com sua madrinha, única irmã de meu pai, na tal cidade grande. Ela teria ido para estudar, pois na nossa cidade tinha apenas o primário.
  
    E eu nem queria ouvir falar naquela irmã que eu não conhecia. Acho que nunca tinha escutado meus pais falarem dela antes deste fato.

    Fora na nossa segunda casa desde que eu nasci, embora meus pais já tivessem morado em outras casas e outras cidades até chegarem ali. Era a última casa daquela rua, uma das poucas ruas que saia da praça principal. Era toda de terra e, lá no final, ela dividia em duas. 

   À esquerda, a rua acabava. Ou melhor, virava estrada.  Ia dar noutra pequena cidade cujo nome eu amava, Calambau. Meu pai dizia que o nome de Calambau era dos índios e que significava canoa pequena feita de um só tronco de madeira. Eu ficava imaginando os índios naquela calambau deslizando pelo rio Piranga.  
  
    Mas voltemos para aquela rua que, à direita continuava apenas mais um pedaço dela. E era aí que ficava minha casa. A última da rua.  E como era linda a nossa casa. Era amarelada, talvez pela poeira da rua-estrada e pelo tempo. Nela havia quatro janelas de madeira pintadas de azul, que abriam como um todo e eram fechadas com tramelas (ou taramelas?).  A porta também era azul. Janelas e porta defronte para a rua. Para mim ali era o melhor lugar do mundo.

    Ainda me lembro do fio do rádio que descia do morro do outro lado da rua e que fazia o rádio do meu pai cantar lindas músicas e trazia noticias do Brasil e de todo o mundo. Meu pai tocava na banda e na igreja e adorava os programas musicais. Gostava muito de Ari Barroso da tão querida cidade de Ubá, de Lupicínio Rodrigues, de Dalva de Oliveira, Vicente Celestino, Ataulfo Alves e tantos outros. Às vezes eu ouvia um programa infantil. Havia uma tal de Regina, ela era uma  menina que cantava lindamente. 

    De noite ficava imaginando como aqueles homens com seus instrumentos musicais e as meninas desciam pelo fio do alto do morro até o rádio do meu pai. E dormia ouvindo flautas e bombardinos tocados por pequeninos homens dentro do radio.

    Meu quarto tinha uma janela que abria para os fundos da casa. E como era grande aquele terreno que descia até o rio Xopotó. No final do dia meu pai chegava do trabalho e descia com meus irmãos para pescarem lambaris e traíras para o jantar. Minha mãe fritava os peixes passados no fubá. 

    O pomar se estendia até a margem do tal rio. Havia várias laranjeiras, goiabeiras, mangueiras, bananeiras, limões capeta que eu não gostava. As limas e as laranjas-limas eram minhas frutas preferidas. 
  
   Mas havia uma pequena árvore, com todos os galhos muito parecidos, compridos, finos e nascidos bem embaixo do tronco. Não era uma árvore bonita e suas folhas eram escassas e secas. Ficava penalizada com a falta de beleza daquele pé de fruta que eu nunca havia visto florescer. 

    Nem sabia que fruta dava naquele pé. Até eu escutar uma conversa do meu pai com minha mãe. Ele dizia que a macieira daria frutas naquele inverno e que não eram para serem apanhadas. Ele esperaria pela filha que viria nas férias. As frutas seriam para ela. 

    Descobri duas coisas. Aquela árvore feia e seca que me fazia penalizar-se dela, dava uma fruta que se chamava maçã. E eu tinha mais uma irmã que já me causava ciúmes.

    E aquilo não saiu mais da minha cabeça. Como seriam as maçãs? Que gosto teria? Da minha irmã eu não queria nem saber.
  
    Ouvi meu pai dizer que eram frutas originárias de lugares frios como a Argentina. Ele disse também que elas amadureciam ficando vermelhas.  Mas onde era a Argentina? Só conhecia frutas alaranjadas, amarelas e verdes.

    Naquela noite, dormi com tudo isto na minha cabeça. E tive um sonho. A janela do meu quarto se abriu e eu fiquei de pé no seu beiral. Abri os braços e criei asas. Voei até aquele pé da tal fruta. Apanhei as poucas maças que havia naquela árvore feiosa. Voei de volta para meu quarto e adormeci. 
  
    Acordei com minha cama toda molhada de xixi. Minha mãe chamou minha atenção. Disse que havia muito tempo que eu não fazia xixi na cama. 

     Perguntou o que houve. Então eu respondi :

    - chupei muita maçã esta noite. 



30/06/2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Já tenho um novo amor



                  
Acordei cedo. Um devido compromisso me chamava. O frio deu-me uma noite mal dormida por preguiça de pegar mais cobertores.

As brumas, ainda adormecidas, insistiam em continuar seu sono gelado. Agora caminhavam vagarosas e molengas pelo canal do Rio Paraopeba. Viajo nos flocos delas e, lá de cima, me farto de tanto ver o trem de ferro deslizando e apitando com seu chique-chique mineiro. É o que faço em minhas viagens imaginárias.

Um primo, geólogo e músico, me dissera que nesta região há uma formação geológica que permite tal beleza. O encontro de duas serras. Não me lembrava da nossa conversa que se dera há alguns anos, mas arrisco a dizer que são as Serras do Espinhaço, ou o finalzinho dela com a Serra do Curral, e a Serra da Mantiqueira. Eu não entendo nada dessas coisas, mas adoraria saber disto. Acho que tentarei encontrar meu primo novamente. Quem sabe ouvir boa música e ouvir das serras e rios.

Galinhas tratadas. Agora tenho frangas e projetos de galos no meu pequenino sítio. Ontem a tarde uma juriti visitou o ipê ainda jovem ao lado do meu chalé.
  
Cachorros alimentados. Uma velha cadela branca, que vivia nas ruas da região cavando a terra como tatu e dormindo em tais buracos, acabou ficando dentro da minha área quando coloquei a cerca. Logo chegou um jovem cachorro preto. Minhas vizinhas disseram que ele era muito valente e vivia sendo espancado pelos moradores devido sua ousadia. Ele me adotou e eu adotei sua ousadia.

  Aguardei inquieta a chegada dos canários da terra, dos garrinchas, dos sanhaços, dos tico-tico e outros ainda não reconhecidos. São muitos a me visitarem nesta manhã. Coloquei alimentos e outros atrativos para que eles viessem. Deu certo.

  Uma xícara com café grosso, bolo, pão e manteiga, às escondidas da minha filha, pois estamos mudando hábitos alimentares e cortando carboidratos. Tarefa mais árdua de todas. Sou mineira e não viveria sem os queijos, broas, biscoitos, doces de leite e por ai afora.

  Então vem o pensamento que também habitou minha cabeça na noite fria. Um amor que não vingou. Ficou lá trás. Entretanto deixou referencias do existir.

  Dele recebi como presente, ainda menina, o empréstimo do livro Germinal, do francês Émile Zola. Tomei o lado dos carvoeiros e chorei suas vidas e suas mortes. Fora o início de uma grande amizade e identificação com as leituras dos oprimidos e excluídos pelo capital e seu abismo social. 

  Antes, aos onze anos, eu havia pedido como presente de natal “Os Miseráveis” e meu pai comprou uma bela edição infanto-juvenil com ilustrações e um pouco da história de Victor Hugo. Muito tempo depois eu iria ler “A Mãe” do russo Máximo Gorki. Nunca mais parei de ler.

 Mas, voltando ao meu amigo, ou namorado, vem a lembrança de nossas conversas acerca do momento político em que vivíamos, a ditadura brasileira e sua violência. Tínhamos assuntos os mais variados. Só não falávamos de nós.

 Chegou o tempo de cada um seguir seus rumos e suas escolhas. Nossas conversas foram tornando-se pouco frequentes.

  Porém, durante alguns anos, nos encontramos nas noites de Natal, em nossa cidade. Não lembro como se arranjavam, mas lembro de sua mansidão e de seu riso farto, assim como fartos eram seus cabelos e sua barba.

  Até que não houve mais encontros. Um não soube mais do outro.

  Continuei minha vida naquilo que me fora possível viver dadas minhas posições frente à vida. 

  Várias noites tentei escutar, em vão, o eco das risadas daquele que tanto amei. 

  Sempre soube que seríamos como os referenciais da física. Um teria o outro, eternamente, vivendo como vetores paralelos, mas em sentidos opostos. Um na carne e outro no espírito. E não haveria verbo.

  Hoje, passados quase quarenta anos, vem a pergunta que jamais calou. O que houve?

 Sabemos todas as respostas. Entretanto nenhuma delas bastará para apagar a saudade e os desencontros.

  Agora, enquanto arrumo meu quarto nesta fria manhã de agosto, uma grande ave sobrevoa em torno da minha casa, bem próxima a minha janela. 

  Ela pousa num dos galhos do mais majestoso ipê. Então fica ali a me espreitar, atentamente. 

  Paro com as dobras de colchas e cobertores e encaro o olhar atrevido daquele pássaro gigante.

 Reconheço tal ave. 

 Então decido que tá na hora de um novo amor: um jacu.


 Funil, 03/08/2014



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TRÊS SANTAS MARIAS



                             TRÊS SANTAS MARIAS          


                           Cheia de graça
                           Ave
                           Maria das Graças.

                          Glorificado
                          O vosso nome
                          seja
                          Maria da Glória

                          Três terços
                          Lágrimas em conta
                          Muitos mistérios
                          Maria do Rosário


terça-feira, 5 de agosto de 2014

CONFIDÊNCIAS



                                    CONFIDÊNCIAS

  Alguns dias atrás uma amiga me procurou. Queria falar comigo acerca de uma conversa que tivera com um colega de profissão durante um café no local de trabalho dos dois. Eles já se conheciam há mais de 30 anos e nunca foram amigos, embora assim ela o tratasse. Eram bons colegas de trabalho. Às vezes pensava que falava mais dela do que ele desejava escutar, disse-me ela. Mas ele, com toda sua elegância, escutava.
  
  Bem, no dia da tal conversa e, como sempre, falaram sobre o trabalho, sobre viagens, sobre politica, sobre os filhos. Neste momento, ela não resistindo, falara-lhe também do romance que estava vivendo naqueles tempos. Era um amor acontecido na juventude que reaparecera e a tomara com o mesmo colorido da época. Falara para ele acerca daquele sentimento que a abduzira para além de qualquer racionalidade, como todo amor, ainda mais sendo esse, um amor ressurgindo da adolescência.

  Beatriz me segredou que não conseguia controlar as palavras para falar do homem que a deixava fora de si. Estava muito alegre, exuberante, acreditando no renascimento daquele amor tão significativo para ela. Foi então que o tal colega fizera um comentário sobre ela e sua paixão recorrente. Dissera poucas palavras, fora doce e cruel, contara-me ela. Feriu-a no ponto. Emudecida ela permaneceu. Entretanto não conseguira lembrar quais palavras foram ditas por aquele seu amigo. Desde então vem buscando respostas para as várias perguntas que já se acumulavam em sua cabeça.

  Eu não sabia o que dizer para minha amiga. Temia por minhas palavras. Apenas fiquei ao lado, escutando.

  O que seu amigo teria dito de desastroso? Sabia que ele acompanhara sua vida, seus casamentos, a chegada dos filhos, as dificuldades financeiras, as sobrecargas de trabalho, suas alegrias. Afinal trabalhavam juntos há muitos anos. Assim ela também sabia e esteve do lado dele em seus tempos difíceis.

  Ele era um belo homem, muito charmoso, tinha garantido seu poder de sedução e usufruía dele; sabia que era desejado pelas mulheres. Mas para ela, seu amigo nunca fora mais do que um antigo e bom colega de trabalho. Por outro lado, minha amiga sempre fora uma bela mulher, atraente, inteligente, bem sucedida na profissão, boa amiga e querida por todos.

 -"O que ele dissera? Quais palavras foram ditas? E porque o que ele dissera causara tanta dor?”

  Beatriz não conseguia respostas nem esquecer aquilo que não lembrava.

 No avançado daquela hora de nossa conversa, num bar da cidade, nos despedimos. Ela continuava mais que apreensiva, continuava tristonha. Certamente, para ela, amanhã não seria outro dia...
Fiquei pensando em Beatriz e sua alma. Não conseguia entende-la. Considerava-a uma mulher destemida, corajosa e ousada. Entretanto, agora, me parecia muito frágil. Soube que ela se recolhera com sua dor. Era um tempo preciso.

  Uma vez , quando em situações opostas, eu chorava um amor perdido, ela me dissera que eu não deveria poupar lágrimas, que eu deveria me permitir cair no chão, perder noites de sono e não me poupasse do sofrimento.

  “É só no fundo do buraco que encontramos chão para nos impulsionarmos e voltarmos à vida”, dissera-me ela.

  As semanas passaram e o sorriso voltou a se instalar no rosto de Beatriz. Um sorriso diferente. Reassumiu seus trabalhos com a mesma garra, competência e disciplina.
Aquele homem que lhe trouxera tantas recordações já não aparecia mais. Ela ainda agarrava à esperança de outros reencontros sempre que ele enviava mensagens carinhosas. Ela estava, mais uma vez, apaixonada.

  Às vezes eu a convidava para sair, ir ao cinema, ao teatro, ao bar de um amigo comum. Ela respondia que estava cansada pelo trabalho estressante. Até que um dia nos encontramos e a percebi recolhida, distante, calada.

  Beatriz me revelou que não conseguia deixar de pensar no que ouvira seu colega dizer. Entretanto percebera que, já não se importava com o que ele teria dito. O que tanto lhe angustiara era o que ela escutara naquilo que o colega dissera. A verdade nua. Então se lembrara de uma frase lida em seus estudos naqueles dias: “nada é mais temível do que dizer algo que possa ser verdadeiro”



17/02/2014