segunda-feira, 29 de abril de 2019

Crônica: Viagem a Muriaé





Decidi que desta vez eu iria lá. Já houvera um encontro da turma no mesmo local e outros tantos convites. Recusei todos. Agora foi diferente. Eu queria ir; precisava ir e fui. A principio estava decidida ir de carro, mas pensando bem, comprei passagens e viajei por mais de seis horas até Viçosa. Ali visitei uma velha colega da pediatria e revi primos. De lá fomos de carro para nosso destino final: Muriaé. Meu amigo mandou um motorista nos buscar. Chegamos depois das vinte e uma horas. Valeu!

O tempo estava quente e o céu salpicado de estrelas. 


























Muitos abraços. Muitos sorrisos. Uma mesa posta para o jantar. E uma casa saída dos filmes de faroeste. Em estilo rústico, com muitas histórias sobre sua construção. Acho que voltarei para ouvir essas histórias. E a noite foi pequena para tantos assuntos.

Na manhã seguinte, após um café com frutas e coalhada libanesa, o anfitrião nos levou por entre seus jardins. Flores, árvores, arbustos, caminhos tortuosos, talude de antúrios, espaços de descanso debaixo de pérgolas coloridas, redes, bancos. Uma capela da Sagrada Família com telhado em escama de peixe, projeto contemporâneo de iluminação e pedras nas paredes do barranco escarpado.

Meus passos, algumas vezes, se perderam entre tanta exuberância da natureza. A flor da vitória-régia convocou nossos olhares para um dos lagos. O jardim japonês até que tentou colocar ordem no nosso caminhar. Mas já estávamos perdidas e perdidos no emaranhado de tanta beleza.

Nosso anfitrião, calmamente, ia respondendo nossas inúmeras perguntas. "Aquela é uma árvore africana e seu nome é 'para soleil'", "aquele é um baobá", "vejam aquela com tronco cor de cobre". Além de espécies raras há também o cultivo de árvores frutíferas para atrair pássaros. O jambeiro está na sua época de frutos e pensei que eram maçãs. Muitos jambos avermelhados pontilhando o chão. Meu colega sabe os nomes científicos de todas aquelas plantas. E tem cada nome!

Quis conhecer o galinheiro e a história da raposa que visita a casa e dorme numa toca bem ali pertinho.

Chegou a hora do nosso almoço em Pirapanema, distrito de Muriaé, na Serra do Brigadeiro. Observar as montanhas lá do alto foi um momento único naquela viagem.

Para o jantar mudamos de casa. Agora nossa anfitriã é uma mulher de outras artes. A música. E ouvimos músicas que encantaram nossos ouvidos. Conversamos. Lemos poemas. E rimos por quaisquer lembranças. Variados e deliciosos pratos nos foram servidos. Naquela hora ao som de uma música cubana.

Na manhã de domingo um café bem mineiro. Despedidas e a volta para casa.

Agora fiquei aqui pensando no meu colega anfitrião que, em tempos de faculdade, não conseguia parar tamanha ansiedade. Tinha suores por todo o corpo, risos nervosos e passos apressados. Hoje seus suores brotaram em flores, seu corpo exala as fragrâncias de suas plantas e seu andar tem a firmeza dos troncos de suas árvores. Penso que foi recriado num sopro especial. Não foi por acaso que se tornou um grande Pneumologista.

Temos outro colega na cidade que, em tempos da faculdade, andava desvairado pelas ruas da cidade. Entretanto mais tarde, ficaria embriagado pelos acordes da musicista e se encontraria na perdição do amor.

Concluo que Gênesis e seu sopro da vida andaram soltos por Muriaé.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Poema: Visitações



Em Brumadinho 

arrebanho o amigo.

Desorientado,

perdemos o caminho

Meu olhar rearranja o trajeto.

Ponte nova, 

estradas novas, 

caminhões vários

Uniformes alaranjados

lama por todos os lados

“Lá no alto estava a barragem”

Córrego do Feijão - Unidade Básica de saúde

Mulher amarelada

Debilitada. Pressão alta

Uma supervisão clínica na mesa do café:

Depressão grave. 

Quem vai atender?

“A vale deu tudo,

até cadeira de roda elétrica;

sem precisão”

No bar, pastel de queijo com café.

Rumo Parque da Cachoeira

Caminho da lama

Militares buscam o corpo do Sô Manoel

“A irmã correu 

 ele voltou para buscar não sei o quê.”

A vida e a morte debaixo da lama

e do capital.

Vale?



  ...e a estrada acabou. Agora só lama

 Meu Deus, tende piedade de nós.


 Procurando Sô Manoel.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Carta aos Familiares de um Homem Desaparecido

Funil, Mário Campos, 15 de abril de 2019

Prezados Familiares de José Odilon

Uma chuva mansa começa a cair na região onde moro e com ela as lembranças tomam novo colorido.

Desde à tarde do domingo, dia 7 último, tenho estado com vocês. Meus olhos iniciaram numa viagem  incessante e meus pensamentos foram  junto numa louca tentativa de encontrar Odilon.

Não o conheci senão quando as palavras já vinham perdendo os sentidos e os verbos não eram mais significativos de ações. Apenas um belo sorriso iluminava sua face. Entretanto sua história, contada em versos e prosas por Selma, me encheu de uma grande admiração por este homem que, certamente, esteve muito além de nosso tempo, seja enquanto psicólogo, ambientalista ou idealista. 

Sei que não há o que dizer nestas horas. Há que estar ao lado. E, ao lado de vocês, nestes dias que passam rápidos e nestas horas que demoram séculos, estamos centenas de pessoas. Pessoas desconhecidas que, sentindo suas dores, dão-se as mãos e também procuram-no por todos os cantos. 

Queridos Familiares e Amigos, penso que Odilon foi em busca dos tempos perdidos, como Marcel Proust nos escreveu a fim de "alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente 'recriada pelo nosso pensamento' ”.

Ou, quem sabe, foi se encontrar com alguns de seus inúmeros pacientes que lhe deixaram lembranças acolhedoras. Talvez tenha ido a Andréquicé se entrever com seu amigo, o vaqueiro Manuelzão para, numa prosa sertaneja, caminhar ao lado de Guimarães Rosa e viajar no lombo de um burro pelo sertão das Minas Gerais.

Selma e Familiares ainda nos anos oitenta me dediquei ao estudo das demências quando já vislumbrávamos um futuro sombrio para a população brasileira que começava a ter um aumento significativo na expectativa de vida. Ainda eram raros e pouco diagnosticados os casos da Doença de Alzheimer. Logo depois comecei a atender, em meu consultório, alguns casos que chegavam trazidos por familiares. Posso afirmar que, diante de cada caso com diagnóstico confirmado, eu chorava no depois. E, depois, fui aprendendo com os familiares e cuidadores, a doce missão de viajar de volta no tempo com nossos portadores de Alzheimer.

De uns tempos para cá tenho falado que a mãe natureza é sábia por demais,pois, através de uma doença tão drástica, nos dá uma segunda chance para vivermos de novo todas as nossas dores e nossos amores.

E continuemos a procurar o caminho de volta junto a José Odilon.

Abraços respeitosos

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Poesia: O João-de- Barro



Ele chega de mansinho
pousa no para-brisa
vê sua imagem refletida
e bica o vidro
Repetidas vezes ele beija 
sua fêmea  que
do lado de lá
lhe beija também.
Voa pelos arredores
e volta a beijar
Fico ali 
morrendo de ciúmes da imagem
refletida.

05/04/2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Quando comecei a escrever

Já morava em outra cidade. Durante algumas semanas das férias voltava para minha terra natal. Ali eu pensava que tivesse um lugar. Caminhava desenfreada pelas raras ruas entre os morros. Havia duas praças. A principal ficava na região do meio, entre a outra no alto e a ponte de madeira sobre o Rio, mais embaixo. 

Junto das minhas exuberâncias adolescentes havia na cidade uma promessa dos jovens rapazes que saíam para estudar técnicas agrícolas em Barbacena ou engenharia florestal na Universidade Federal de Viçosa. E muitos deles  conseguiam ser aprovados naqueles vestibulares tão concorridos. Outros, talvez aqueles sem recursos, acabavam indo para São Paulo em busca de empregos. Eu ficava admirando uns e apaixonando por outros. Obviamente guardava em segredo todas aquelas paixões. 

Com treze ou catorze já havia decidido que faria engenharia florestal em em Viçosa.

Para acolher tantos amores e sentimentos novos precisava de um diário. Então comecei a escrever.

Nesta época aconteceram dois fatos que marcaram a minha vida para sempre: eu me aproximei de uma menina da minha idade que tinha as pernas paralisadas. Ela vivia em cima da cama. E me apaixonei por um novo morador da cidade.

A menina era muito linda mas o moço era muito feio. Nunca soube o que havia visto nele. Talvez a novidade ou algum charme captado por meu coração. Acho que as coisas aconteceram juntas e tinha um por que. Minha nova amiga havia se apaixonado pelo irmão mais velho do outro. Este sim era tão bonito quanto sua apaixonada. Estava tudo explicado. Duas meninas amando dois irmãos.  Estes irmãos nos deram muito o que falar além de me deixar sonhando várias semanas e de consumir quase todo meu primeiro caderno de diário.

Porém, nisto tudo havia um detalhe deveras importante: a ascendência dos dois irmãos. Eram filhos do mais novo fazendeiro promissor da cidadezinha que logo seria eleito prefeito. 

Deu-se entretanto uma uma tragédia a seguir. O mais velho, ajudando o pai prefeito na conservação das estradas de terra, foi vítima de um acidente quando a patrola mononiveladora que dirigia virou num barranco sobre ele. A morte o levou com seus dezoito anos. Eu nunca havia visto a morte tão de perto. Para suportar a presença dela bem ali ao meu lado eu escrevia. Foi o jeito conseguido para dar nome àquele sentimento avassalador, até então desconhecido.  

Certamente, graças às minhas escritas confidenciais, sobrevivi ao primeiros amores e à primeira morte.

Quase meio século se passou desde então. Mas, ainda hoje, o nome do amor da minha amiga continua entranhado nas minhas memórias e, como canta seu homônimo, "você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir".

01/04/2019