segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Poema: Dia da Partida

 



Antecipou seu aniversário

Queria os coleguinhas da escola na sua festa

Brincaram

se entenderam por quase três horas,

pura folia

Não queria que a festa acabasse

No dia seguinte

Almoçou com os amigos dos pais

Vovós e vovô presentes

Tias e primas ao lado

Visitaram a casa da bruxa

Meu neto tomou a vassoura da tal

Acelerou as turbinas

voou para o outro lado do planeta

O coração desta vovó apertou

E muita água ficou vazando pelos dos seus olhos




16/09/2022

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Conto: Bonecas e desesperos na tarde de domingo

 



                  
    
A meninada insistia para que a mãe os deixasse ir à casa da tia já que o pedido retornava a ela caso pedissem ao pai.
Ele sempre dizia "sua mãe é quem sabe. Pergunte a mãe de vocês”. Assim acontecia em alguns domingos, após o almoço, na casa do Zezinho que era um dos quatro irmãos menores daquela numerosa família. Talvez a mãe consentisse com tal pedido até mesmo para seu descanso das estafantes tarefas domésticas. E para lá iam os dois pares das crianças. Glorinha, Zelinha, Zezinho e Joãozinho. A casa da tia era muito longe, mas eles nem se importavam. Haveria muitas brincadeiras, uma mesa com café e pão com margarina em retribuição.

Os quatro filhos da Tia pareavam nas idades com aqueles primos.

Depois de caminharem sozinhos grande distância até o centro da cidade alta, atravessavam a praça principal e começavam a descer a Rua Brasil. E a tal rua parecia nunca ter fim. A descida era muito íngreme e muito longe até a casa daquele tio louro dos olhos azuis, do nariz muito fino e daquele gogó no pescoço. A mãe dizia que aquilo chamava Pomo de Adão e as crianças caiam nas gargalhadas.

Chegavam esfomeados, sedentos de água e de brincadeiras. E contavam os minutos para a hora do café com pão. A casa mais parecia uma casa de bonecas. Tudo colorido e no seu devido lugar. Parecia que só as personagens das histórias infantis habitavam aqueles espaços. No quarto das meninas haviam as bonecas mais modernas daqueles tempos. Glorinha enchia os olhos de vontade de ter uma daquelas bonecas. Não teria. Zelinha aceitava qualquer brincadeira desde que pudesse desfrutar das companhias das primas. Mas observava tudo. As meninas tinham jeito de princesas, pensava ela. A mãe mais parecia uma rainha. E havia uma ama que, com um sorriso no rosto parecia querer brincar também. Entretanto ela não descuidava de suas pupilas e de toda aquela meninada. Joãozinho ainda era muito pequenino e quase não ia, pois pedia colo.

E foi numa dessas visitas que algo sucedeu. Voltando para casa, depois de muito brincar, chegava o cansaço e logo haveria aquela rua inacabável que, agora era só subida. E lá foram os meninos e as meninas. Zezinho começou a reclamar ainda na metade do morro. Era um choro contido e raivoso. Quando chegou bem lá em cima, já no passeio lateral da padaria do Sô Nestor com a frente voltada para a praça, o menino pisou em falso no meio fio e caiu. Aproveitou a queda e libertou o choro. Chorava convulsivamente. E, toda vez que chorava de raiva, havia o tal do engolir fôlego. Uma vez ele quase arrancou o dedo do pai quando este foi tentar desvirar a língua do filho que impedia a chegada do ar. Deu-lhe uma forte dentada. Aquilo zangou e foi preciso muito tratamento. As irmãs sabiam disso e se desesperaram. Então Zezinho engoliu o fôlego ali mesmo no chão do calçamento pé de moleque. Já roxeava quando as meninas começaram a gritar e a chorar. Como quem desce do céu, apareceu Sô Nestor que conseguiu fazer voltar o fôlego do Zezinho. Nunca se soube o que ele teria feito para salvar o menino. Mas sabe-se que na padaria dele havia o doce de leite com coco em pedaços mais deliciosos da praça.


Fotografia: exposição dos trabalhos das pessoas portadoras de sofrimento mental em Belo Horizonte (arquivo pessoal)

12/09/2022







domingo, 11 de setembro de 2022

Poema : Números Primos

 


Nasci no primo 3

No ano de 57

Numa quinta-feira prima

Dizem os matemáticos

Que três pés seguram o mundo

Minha avó dizia que 7

É o machado na víspora

Meu pai nasceu no primo 19

Minha mãe nasceu no 22

Arte moderna

Dois patinhos na lagoa

Mas,

Para o amor

Bastam 2 que não são primos


11/09/2022

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

João e Maria


 João e Maria

 

Texto 1 -

João Vira-Virou tinha ideias e atitudes extravagantes. Tinha overdose literária quando cheirava o pó de livros e bebia suco de fungo. Gostava de fazer amor no banco de trás da Igreja Matriz.

João Vira-Fumou fumaça de cigarro de chuchu e deu uma grande gargalhada olhando para o buraco das formigas por onde elas saíam carregando água e entravam secas.

João Vira-Comeu uma flor de lírio e foi colocar seu smartfone de molho com sabão em pó no tanque da casa da sua avó.

A seguir João Vira-Passou a mão num bife sobre a mesa, colocou-o no bolso e despediu da família. Precisava de dinheiro para voltar para república onde morava com os amigos da faculdade de direito na capital.

Texto 2-

Maria Que-Não-foi-com-as-outras contou que foi sido gerada entre as capoeiras da mata do sítio do Zé Capeta. A mãe havia lhe segredado que depois da safadeza foi se lavar no "córrego raso de águas cristalinas onde as taiobas nascem brilhantes debaixo dos cedros” – assim havia dito toda cheia das poesias. "Você foi feita com muito amor." O pai nunca ela falou quem foi. Maria-sem-vergonha desconfiava que teria sido um dos filhos do patrão quando era ainda moço sem juízo. "Ele tem os mesmos belos olhos verdes que nem os meus". Mas ficava calada. "Segredo de mãe merece respeito". A patroa da mãe sabia de tudo e, por isso, sempre a tratou com um “chega prá lá” porque não queria atrapalhar o futuro do filho. Mas hoje Maria, sendo moça feita bonita e dançava nas festas e enchia os olhos dos moços de desejo. “Dá eu não dou pra ninguém. Mas divirto à revelia”. Repetia ela.



Texto 3-

João e Maria

Foi logo depois de comer a tal flor de lírio, botar o bife no bolso e sair de casa que João se enveredou pelas ruas da pequena cidade. Já se fazia tarde. Caminhou até o jardim com os olhos que nem duas bolas azuis de gude. Não via nada. E os tais olhos azuis nem serviam para cricar uma na outra já que o nariz as separava. 
João acabou adormecendo encostado num pé de flamboyant cuja sombra se espalhava pela metade do espaço. Acordou com o som do alto falante da igreja que anunciava a hora do Angelus. Precisava de água, de muita água. Então se dirigiu até o bar do turco, Adib, um velho amigo do seu pai.

- Boa noite João. Como estão seus pais? Se aconchegue que vou lhe trazer uma soda limonada para curar esse desvario. E como andam os estudos lá na capital?

-Tão indo Sô Adib. Tão indo.

Era tudo de que João não queria falar. Adorava a roça, os cavalos, as plantações de frutas e as “criações” como a mãe dizia das galinhas, dos porcos e das poucas cabeças de gado. De doutor ele nem queria saber. Queria ser que nem o pai, fazendeiro.

E foi pensando assim que nem viu Maria-toda-prosa entrar no bar. Aqueles olhos verdes na pele morena, o sorriso estampado no rosto e o jeito maroto da jovem logo chamaram a atenção do semiacordado.

- Você vai pra capital e esquece as amigas? Maria-toda-bela foi logo perguntando.

- Não vai me dizer que você é aquela menina que brincava comigo?

Pois eram amigos de infância.

Nesta hora Sô Adib olhou para eles e foi logo dizendo:

-Aqui e em qualquer outro lugar é só conversa! Nada de namoro que os olhos são quase iguais e quem sabe o sangue também!

Foi assim que Mariazinha-a-esperta descobriu com quem sua mãe havia se deitado entre as capoeiras da mata na fazenda.

26/08/2022

Observação: Estes textos foram escritos para a Quarta Oficina de Escrita de agosto de 2022

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

PROSA DE AMOR


                                (beijos)


ELE: vamos sai hoje?

ELA: impossível, não saio na chuva.

ELE: tenho capas, guarda-chuvas e vamos de carro.

ELA: vamos fazer outra coisa.

ELE: jogar baralho?

ELA: detesto baralho e, além do mais, quando vocês começam a jogar vocês esquecem da vida.

ELE: às vezes é bom espairecer um pouco.


ELA: Se quiser poder ir jogar com seus amigos. Eu vou ficar com minhas amigas.

ELE: Então tá. Fui.

ELA: Não é bem isso que eu queria.

ELE: E o que você queria?

ELA: Que queria que você dissesse assim: “Oh meu amor eu vou fazer o que você quiser”

ELE: E o que você quer então?

ELA: Quero ficar com minhas amigas.






OBSERVAÇÃO: exercício da oficina de escrita de agosto de 2022.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Textos "NONSENSES"



                             



TEXTO - 1

A senhora queria atravessar a avenida cheia de carros que não paravam num ir e vir quando um homem tocando bezerros de ouro parou e ficou olhando o vestido - "hijab"- comprido do mulçumano com boné vermelho do MST e anéis de pedra sabão foi então que o trem apitou e o jogador de futebol fez um drible e chutou a bola para dentro do Banco do Brasil de onde a senhora  acabara de sair.


TEXTO -2

Tomate me dá azia. Prefiro a Ásia, lá não me aparecem as dores nos joelhos. Lá aparecem várias barracas com condimentos coloridos nas ruas de Samarqanda em plena rota da seda chinesa mas Marco Polo brigou com Mulan porque queria atravessar o Uzberquistão para conhecer o Zé de Maroca que dizia ter afrontado Hitler às margens do Rio Ipiranga e exigido que o Führer brasileiro não proclamasse a república.  

"Não me mate Zé de Maroca!" gritou o nazista e Dudu deu um grande sorriso.


Observação:  Estes textos foram produzidos durante a oficina de escrita desta semana e revisados em casa.


Fotografia: Moinho de vento (Holanda) arquivo pessoal.

18/08/2022

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Amor de Menina

 





Ele desceu a rua como quem nada conhecia dali. Olhos no horizonte, fixos. Mãos no bolso da calça jeans nada desbotada. Camisa xadrez dos tecidos de algodão de sempre. Andar compassado. Cadernos esquecidos debaixo do braço esquerdo.

Da pequena abertura de cortina, a moça o viu. Quem pensa que a rua dormia na suavidade vespertina de julho não conheceu seus moradores. Por ali moravam querubins, cupidos, elfos, duendes e tantos entes sobrenaturais. A rua vivia dias de mansidão e dias de trovão. Algumas mulheres, sob influências destes seres, saiam de casa a gritar desaforos contra outras mulheres que, supostamente, teriam olhares enviesados para seus maridos ou porque um filho foi ofendido por filhos de outras vizinhas. Até a raiva passar e a normalidade voltar não se falavam nem saiam do lado de fora de suas casas. Ficam moendo e remoendo as palavras ouvidas e ditas. Só não deixavam de ir às novenas e missas das primeiras sextas-feiras de cada mês.

Naquela tarde a rua experimentava um raro dia de paz. As mulheres deveriam estar cuidando das roupas dos filhos, pensando o que fariam para o jantar que seria a marmita do marido na manhã seguinte, ou encostadas num canto da casa com os olhos fechados no descanso. As crianças deveriam estar vendo desenhos na TV colorida que acabara de chegar nas lojas da cidade.

Tereza tinha os olhos ao longe. Sua quietude era apenas um disfarce contra a inquietude dos seus pensamentos.

Naquela tarde havia começado a leitura do livro, “Amor de Perdição” do escritor português Camilo Castelo Branco, e estava envolvida com a história do amor impossível entre os jovens Teresa e Simão.

Parou com a leitura ao sentir o coração apertado dentro do peito. Levantou e, num ímpeto, olhou pela janela. Lá vinha ele. Agora as batidas do seu coração aceleravam à medida que ele se aproximava de sua casa. A moça sentiu sua face afoguear quando viu sendo vista olhando para ele.

Querubins, serafins, elfos, cupidos e tudo quanto havia nas leituras de Tereza, voavam ao seu socorro. Só então se dera conta de que estava sonhando. Abriu os olhos e se viu refletida nos vidros envelhecidos da velha janela de madeira. Estava beirando seus setenta anos. O corpo cansado, as articulações doloridas, a pele ressecada, os cabelos desalinhados, as unhas quebradiças. Então entrou pra dentro dela e se viu a bela menina aos quinze anos sendo amada tal e qual a Teresa do seu livro. Sorriu pra si. Criou asas e voou para dentro do livro.


Fotografia: Arquivo pessoal. Janela em Roma -2019

Maria do Rosário N. Rivelli

Julho/2022

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Conto: Marias Meninas Contemporâneas

 



A tão anunciada festa de rodeios aconteceria no próximo final de semana. Toda a cidade estava em polvorosa. O prefeito não economizara o dinheiro, afinal tudo vinha do fundo perdido do caixa municipal. O controlador da casa que inventasse um meio de esconder as falcatruas do “caixa 2”. Seus eleitores queriam aqueles cantores e duplas sertanejas e assim seria. Que se danasse o erário público. Pois assim aconteceria a grande festa esperada a cada ano. Tudo conforme seus eleitores, ou não, desejavam.

Estela estava ansiosa esperando por tal festa. Ela e suas amigas haviam combinado várias extravagâncias para as noites do rodeio. Entre bebidas e baseados iriam escolher os parceiros para cada noite. As apostas foram feitas entre elas. Quem ficaria com quem. Tudo posto e decidido lá foram elas executarem suas tramoias. E nada saiu fora do previsto. Noitadas regadas a muita vodka, cervejas, drinks coloridos, pó e o charmoso cigarrinho de baseado nos finais das noites. Ainda bem que as mães jamais imaginariam que suas “filhas de Maria” fizessem tais disparates. Pois elas faziam e já não era de hoje. Margeando quinze, dezesseis e dezessete anos, as meninas já haviam entrada no mundo das alucinações até mesmo pelo temível LSD.

Nas manhãs seguintes lá voltavam elas em perfeitas condições de meninas de família. E assim se deram por três noites seguidas. Na semana seguinte tudo voltava aos seus devidos lugares. Estudantes da bíblia na célula na casa de uma vizinha que sabia tudo do antigo e novo testamento. Aquilo deixava as meninas enfaradas. Mas era assim que deveria ser para que as mães jamais suspeitassem do que aprontavam em noites de rodeios.

Entretanto neste ano, depois de duas semanas dos acontecidos nas noitadas, Estela observou que sua menstruação não descera. Pensou que nada lhe aconteceria uma vez que “usei o ´preservativo direitinho”, comentou ela com uma das amigas.



Aos dezesseis anos Estela sonhava em seguir a carreira de modelo. Já havia sido convidada para algumas fotos de propaganda e a mãe fora junto. O rosto delicado, os olhos amendoados, os cabelos pretos e lisos, eram perfeitos para os anúncios de uma empresa da cidade grande. Agora o sangue não mensal não veio e a menina começou a preocupar-se. Procurou uma farmácia e comprou umas pílulas recomendada pela amiga mais sabida. Nada. Comprou o teste da urina. Positivo. Estava grávida. Estela perdeu o sono. Muitos pensamentos começaram a povoar sua cabeça. Lembrou das palavras da vizinha afirmando que aquelas que saíam dos preceitos da bíblia estavam destinadas ao inferno. Lembrou do caso contado na TV da menina que fez aborto clandestino e morreu de infecção. Uma das amigas contou de uma conhecida que havia tomado remédio para cavalo e morreu uma semana depois com hemorragia no útero. Viu-se caindo nas chamas do inferno. Viu-se perdida para sempre.

Já havido passado mais de um mês quando Estela, desesperada, resolveu procurar uma professora de quem gostava muito. Contou-lhe tudo. Nem sabia quem era o pai. Diante da negativa de Estela de contar para a mãe, a professora lhe levou a uma ginecologista. Gravidez comprovada, dez semanas de gestação. Explicações dadas sobre o aborto legal permitido no país e as orientações da médica respeitando a decisão que caberia tão só à menina. Mas os pais teriam que saber e acompanhar a filha e o caso deveria ser comunicado às autoridades legais.

Estela voltou para casa numa tristeza imensa. Sentiu que seus poucos anos de idade não eram suficientes para a tomada de decisão que a vida lhe impunha. Entretanto tomou uma decisão muito além do que se podia esperar. Contou às amigas. Queria saber com quem havia ficado naquelas noites. Procurou os rapazes, contou o acontecido e pediu ajuda. Gostaria que fizessem o teste de DNA para saber quem seria o pai e o que ele pensaria acerca do fato. Se não concordassem ela faria B.O.

Sem alternativas eles aceitaram e fizeram todos os testes protocolares. Com apoio da professora e do serviço de saúde tudo fora feito dentro das leis e em absoluto sigilo, conforme combinado com os rapazes.

Para surpresa de Estela, da ginecologista e dos rapazes, os DNAs foram incompatíveis com o DNA do feto. A menina voltou para casa ainda mais arrasada. Só então percebera que a mãe também estava muito alterada. Estela entrou para dentro de seu quarto e chorou. A mãe entrou devagar, com lágrimas nos olhos e disse:

- “Esse bebê na sua barriga é do seu pai. Ele aproveitou que você estava havia chegado desnorteada naquela noite do rodeio e, enquanto dormia num sono muito profundo, ele abusou de você. Quando dei por mim já havia acontecido. Ele me ameaçou de morte se eu contasse prá alguém”.


Fotografia: arquivo pessoal (presente de Lucélia Ganda)



26/07/2022

 

 


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Conto: A Foto - Reminiscências de um amor


Ah, eu não me esqueço daquele encontro tão esperado. Estávamos ávidos para nos vermos. O ano passara lentamente como se nunca fosse chegar o tempo do encontro. As cartas já não seguravam o desejo de ouvir a voz um do outro, de sentir o cheiro um do outro, de tocar a pele um do outro. Havíamos decidido o local para nosso tão esperado encontro: Cabangu. Ele desceria a BR-040 em direção a Juiz de Fora e eu subiria a mesma BR em direção a Barbacena. Acho que queríamos voar nas asas do “Oiseau de Proie” como os franceses chamaram o 14 Bis de Santos Dumont. Na verdade, queríamos tão só voar na imaginação e tentar parar o tempo. Assim poderíamos eternizar o instante daquele encontro. Tudo arranjado. Iríamos ficar na casa de um amigo que estava viajando e deixara a chave com uma vizinha. Cabangu é uma bucólica fazenda onde nasceu nosso “Pai da Aviação”, Santos Dumont, incrustada em meio à Serra da Mantiqueira.


Tínhamos nos conhecidos havia dois anos, durante uma viagem minha a Belo Horizonte. Eu, enquanto estudante de turismo, desejava conhecer as obras grandiosas do arquiteto de Oscar Niemayer na capital mineira que também não conhecia. Chegara na noite anterior quando procurei um bar na famosa região da Savassi. Na manhã seguinte iniciaria meu roteiro feito cuidadosamente. Um taxi me levou à Pampulha, bem ao lado da Igrejinha de São Francisco. Logo que entrei fiquei encantada com os azulejos. Havia lido que o mosaico de azulejos azuis e brancos fora criado pelo artista Paulo Werneck e que, as curvas da arquitetura da igrejinha representavam uma inovação na arquitetura sacra brasileira e foram inspiradas nas montanhas de Minas Gerais. Sai dali sentindo-me abençoada. Quis aproveitar aquele estado de graça e caminhar no entorno da lagoa. Foi então que, caminhando em sentidos, deparei com dois olhos felinos a me olharem. Despretensiosamente cravei nele meus olhos da cor do ciúme. Os sorrisos foram naturais. Continuamos a caminhada, cada qual por seu lado. Depois de alguns passos, não resisti, olhei para trás e lá estavam os olhos de gato a me olharem. Paramos nossas caminhadas. sorrimos, instintivamente, fomos um em direção ao outro. Assim como eu, ele também estava só. Nos apresentamos. Rimos de nossos embaraços como os dois jovens que éramos. Um convite para sentar debaixo de uma árvore. Um caldo de cana, um pastel e o cupido nos atirou suas flechas impiedosamente. Ficamos flechados e encantados.

Na manhã seguinte voltei para Petrópolis onde trabalhava numa agência de turismo. Voltei flutuando no assento nada confortável do ônibus que me levaria de volta para casa. A primavera deixou comigo os perfumes das flores de Beagá e foram meus companheiros na longa viagem.

Desde então começamos a nos escrever. E nossas solidões ganharam formas. Encontrávamos nas palavras de amor, encontrávamos nos relatos de nossos trabalhos e começamos a construir uma relação de afeto e cumplicidade. Passamos a nos ver sempre que possível. Uma vez lá e outra cá. Ele morava numa cidadezinha próxima a Belo Horizonte.

No natal daquele ano nos encontraríamos novamente. Desta vez ele viria a minha casa. Queria conhecer minha família. Estaria de férias da escola onde lecionava física e eu teria recesso de alguns dias. Tudo combinado a não deixar nenhuma dúvida. No dia marcado para sua chegada eu estava exuberante na minha ansiedade. Um sorriso largo dominava meu rosto. Mas um telefonema tirou de mim toda a euforia. Ele não viria mais. Um imprevisto impediu que ele fizesse a viagem.

Passei o natal com meus familiares e minha desilusão. Não houveram outros telefonemas. Voltei para meu trabalho. Nenhuma carta na caixa de correio. Chegou o carnaval e fui para a avenida. Foi preciso dançar e sambar para exorcizar toda a tristeza que me fazia companhia.

- “Eu chorei na avenida. Não pensei que mentia, a cabrocha, que eu tanto amei”. Esse era o refrão da música que desfilava comigo.

Passados alguns meses encontrei uma carta dele, solitária, entre papéis de anúncios, dentro da caixa dos correios.

Ele me dizia que havia se casado com uma colega de trabalho. Não disse mais nada. Nem fora preciso. Enviou um abraço e desejos de eu fosse feliz. Ainda hoje trago comigo os perfumes e os olhares felinos de Beagá.

Olhei novamente a foto, que ora encontrei perdida numa lata de sabonetes e guardada quase meio século. Estávamos na Leiteria São Luiz, que eu já conhecia por suas quitandas mineiras e os deliciosos queijos, às margens da BR 3 como era chamada naqueles tempos. Bem ao lado da escultura de uma avião, indicando que ali nascera o pai da Aviação. Ele e eu éramos felizes.

E, agora, me veio a belíssima interpretação de Tony Tornado nos festivais brasileiros de música popular:

“a gente morre

Na BR 3...”

14/07/202

Agradeço a gentileza dos trabalhadores da Leiteria São Luiz, Elisângela e Edilson, que entenderam meu pedido, por telefone, da foto e ao proprietário Carlos Alberto de Faria que autorizou o envio da mesma. 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Crônica: “KIGÔ”

 

                                      


Ontem deitei com um propósito: “levantar bem cedo amanhã, regar minhas flores e mudas de frutas, tomar café com uma das filhas que sai para o trabalho e fazer um 'KIGÔ'”. Já vinha pensando numa caminhada inspiradora há alguns dias, mas nunca imaginei que isto que eu queria fazer tinha um nome especial e, menos ainda, que fosse um nome em japonês.

Pois bem, há quinze dias iniciamos, um grupo de colegas da oficina de escrita e eu, um curso básico de haicai, que são poemas de três versos, com um total de dezessete sílabas, que retratam um instante como se fosse uma fotografia em palavras. Seu tema sempre está ligado a natureza no aqui e agora como um clique dos sentidos. Sua origem está no Japão onde é amplamente difundido e onde viveu seu maior mestre – Matsuo Basho que viveu no século XV. O Brasil é o segundo país do mundo onde mais se escrevem Haicais. Ou seja, estou aprendendo a ser uma “Haijin”, aquela que escreve haicais.

Nosso mestre, o poeta haicaista/haijin curitibano – Álvaro Posselt – tem seus haicais espalhados por todos os cantos de Curitiba (abaixo escreverei alguns de seus haicais).


Na aula de ontem ele nos apresentou “KIGÔ” que é a palavra japonesa para designar o termo sazonal, ou palavra de estação.

Então lá fui eu não tão cedo nesta manhã de início de inverno pelos caminhos no entorno da minha casa na bela região do Funil, na cidade de Mário Campos. Com meus óculos escuros e outros para ler, um celular para as fotografias e os pensamentos nos ares. Precisava, pelo menos, pensar como seriam os deveres de casa sugeridos pelo professor.

Entretanto na primeira rua encontro um vizinho e um amigo comum, especialista no plantio de palmeiras e tantas outras folhagens. Pedi licença e fui logo falando do meu propósito com eles, qual seja, falar sobre a possibilidade da instalação de mineradoras na nossa região e os impactos ambientais que sofreremos. A conversa rendeu bons frutos; comprei a muda da tamareira oriental “Phoenix dactyilifera”, cogitamos nomes para a flora, M.C. Palmeiras (Mário Campos) ou Mariano Flora ou M.C. Flora Funil? Mais algumas conversas, algumas fotos e continuei no propósito daquela manhã, procurar KIGÔS, não resistindo ao encanto da floração do manacá-da-serra no quintal da casa da minha jovem e querida vizinha. 

Sozinha pelas ruas deparo com o voo rasante de um tucano que se escondeu num galho ao meu movimento com o celular para fotografá-lo. -Ainda hei de aprender a fazer fotos desses maravilhosos pássaros- Ousei entrar por uma rua sem saída e qual não foi minha surpresa ao ver tantas casas bem cuidadas, com variados estilos e muitas flores. Obviamente que saí fotografando tudo.

Voltando para casa tive a certeza de que é aqui que quero continuar vivendo. As mineradoras que procurem outros lugares para minerar, mas que não destruam nem interfiram nas comunidades originárias. O Funil, com suas riquezas na flora, na fauna, nos recursos hídricos e minerais é nosso. O Funil com suas tradições nas festas de Santo Antônio, de São João, de Nossa Senhora do Rosário e os congadeiros, é nosso.

Nenhuma indenização que, por ventura aconteça, vai possibilitar comprar nossas histórias e nossas lembranças destes lugares. O Funil é parte de nossas vidas.

Funil, 25 de junho de 2022.

Eis alguns haicais de Álvaro Posselt



“A vida é agora

Se alguém chegar atrasado

vai ficar de fora”



“Choveu tanto aqui

que até caiu

outro pingo no i¨¨”



“Noite do espanto

Fui baixar um arquivo

baixou-me um santo”



“Uma dúvida virou poema

O menino perguntou à mãe

se o sol é feito de gema”

Fotografias: desta manhã, feitas pelo celular








(ruas com nomes de pessoas originárias da região)

                                     (manacá-da-serra no terreiro da casa de amiga)

                                            (Uma jaqueira com frutos crescendo)

                                                (Cuide do seu lixo)


                                                       (ipês pelos caminhos)



                                                   (eis aqui o tucano)


                                                         (pedra miúda e pedra graúda)

                                          (mudas de palmeiras -Flora buscando um nome)



                                                    (muro da casa de amigos)


sábado, 18 de junho de 2022

Crônica de uma tarde de outono

 




Da noite de anteontem pra ontem nem consegui dormir. Afinal não é sempre que recebemos em nossa casa um grupo de pessoas amigas tão distintas. Minha casa ficou encantada com tantos poetas, escritores, artistas plásticos, professoras de biodança e ioga (musa inspiradora de poeta paraense), musicista, teve até uma madre superiora com profissão de tradutora juramentada. Foi um encontro pra lá de especial. Trouxeram quitutes, presentes, bebidas, temperos especiais, comidas vegetarianas e tantas outras delícias.

Minhas filhas e a grande amiga e colega de três décadas, juntamente a mim, recebemos este grupo com alegria e um trabalho saboroso.

A organização ficou, como sempre, a cargo do “fazedor de laços” como bem disse a artista dos desenhos e bordados. Nada falhou.

Meu coração que já vinha desandando acabou alinhando-se no compasso dos abraços, dos sorrisos e das conversas. Meus ouvidos que já andam trocando pirralho por cara... queriam escutar e entender tudo o que falavam por ali. Coitados deles. Mas se faltaram escutas, não faltaram entendimentos.

Após a primeira rodada dos diversos comestíveis gentilmente ofertados pelo grupo, a madre superiora iniciou o sarau na tarde de um sol acolhedor. Trouxe-nos uma bela história das conversas acerca da "Melhor Idade" da menina Valentina com seu avô.

O “fazedor de laços” nos apresentou o belíssimo poema “Túmulo de Lorca” da premiada poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Nesse momento meu coração desandou de novo pois me levou de volta aos trágicos assassinatos recentes dos líderes indigenistas brasileiros. Momento sombrio das desgovernanças pelo Brasil afora.

Mas a declamação da poesia de Adélia Prado pela colega, artista de teatro, acalmou as batidas descompassadas e todo meu corpo viajou na suavidade das palavras de poeta setelagoana.

A musa inspiradora nos trouxe a poesia “No lugar do medo” do poeta paraense, Max Martins, o que foi uma surpresa para mim e, quiça para outros presentes, que não o conhecíamos.

A colega, que vive ora nas praias de Florianópolis ora no nosso Belo Horizonte, trouxe um tal “Purê de banana da terra” que acabou num instante tal o desejo guloso de saborear a peculiar iguaria.

O único pesar foi as ausências notadas, em especial, do nosso mestre das artes de escrever. Por onde anda poeta Claver de Luna? Outras não vieram devido a COVID-19. Lamentamos.

Pois bem, num dado momento, pousou sobre a mesa um louva-a-deus que, de mãos postas, apreciava todo nosso fuzuê. Penso que ele rezava pelo nosso pecado do dia – a gula.

E muitas fotos foram feitas do pequeno inseto. Até a artista que não veio, a irmã da outra artista, fez verso do companheirinho verde.

“Jardim onde nasce amor
  Verso a verso
  Até inseto faz louvor”

Enfim acabou-se o que era doce. Empanturramos das delícias compartilhadas, das palavras lidas e declamadas, dos sorrisos, do sol e do Boy, o “cachorrinho amarelo”, que deitou no meio da roda como um ouvinte especial.

E vamos continuar nos encontrando e nos encantando.

Quando e onde será o próximo encontro?

17/06/2022

















segunda-feira, 13 de junho de 2022

Vodka à la Brazil


                    


Cleide cismou que queria conhecer Portugal porque, segundo ela, seu avô paterno teria vindo de lá. Já havia feito a tatuagem de uma belíssima nogueira em seu antebraço, sobrenome do seu avô. Não foi fácil, naqueles tempos, arrumar um conhecido que pudesse lhe dar informações sobre a viagem e ver sua grande paixão, o Rio Tejo. Sempre ficava imaginando Fernão de Magalhães e o bispo Sardinha saindo com as três caravelas em destino ao novo mundo. Dinheiro economizado e guardado, passagens aéreas compradas e hotel reservado lá se foi ela.

Ainda no aeroporto de Portela, em Lisboa, seus olhos foram levados até uma mesinha solitária numa elegante cafeteria. Sentou-se tranquila. Acomodou suas duas enormes malas ao lado, no chão, e pediu um chá, nada de cafés como lhe haviam ensinado. Daí a pouco aproximou um homem alto, magro, com seus bigodes além do limite da boca, óculos na ponta do nariz. Pediu se poderia sentar-se ao lado dela. Diante do sinal positivo, apoiou sobre a mesa dois livros para onde o olhar de Cleide encaminhou. “Um certo Oriente” do escritor Milton Hatoum e “Crônicas de Sol”, da escritora mineira Solange Ladeira. Aguçou sua curiosidade aqueles livros quando perguntou para o homem sobre os mesmos.

São dois escritores brasileiros que viveram no século XIX e ambos falam sobre a revolução russa quando Mikhail Gorbatchov promoveu a Perestroika. O Czar conseguiu expulsar os neonazistas ucranianos que haviam se juntado ao presidente do Brasil, Carluxo Bolsonaro, para apoiar Maria Antonieta, na França, contra Napoleão Bonaparte.

Não houve brioches nem pasteis de Belém naquela cafeteria. Tudo terminou em café com pão de queijo.

Cleide, muito assustada com toda aquela história, pediu a conta quando foi interrompida pelo homem que trouxera os livros. Ele segurou seu braço e lhe tranquilizou, “a conta já está paga pelo partido. Agora venha comigo, camarada Sofia”. E a camarada Sofia pediu para ir ao toilette e escafedeu-se dali. Dizem que foi encontrada rezando ajoelhada no santuário de Santa Sofia, em Moscou, em plena Praça Vermelha.

Se é verdade toda essa história eu não sei, só sei que foi assim que me contaram.

Funil, 13/06/2022

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Um tal pedreiro

 




Era apenas um menino. Por onde andavam seus sonhos ele bem o sabia. A menina da pele branquinha e dos olhos da cor de mel já havia tomado seu coração. Pensava nela enquanto misturava areia, cimento e água. Carregava o concreto com a mesma delicadeza com que a carregaria um dia. Trabalhava tanto que nem percebeu o tempo passado e a menina virado moça. Ele continuava miúdo, pobre e cheio de sonhos. Virou pedreiro. Parou os estudos. Ganhava dinheiro e guardava o que restava da ajuda em casa. A mãe precisava comprar comida e roupas para os filhos menores. O pai só Deus sabia por onde andava. Aparecia de vez em quando. Fazia mais um filho e desaparecia.

Rapaz agora continuava pensando na menina que já era mulher feita. Sabia onde morava e por onde andava. Formou o irmão abaixo dele. Deu-lhe um terno para a formatura. No convite o agradecimento ao irmão pedreiro. A mãe ainda carecia do dinheiro dele. O pai desaparecera de vez. O primeiro emprego do irmão veio logo e desonerou o mais velho que lhe fez um pedido. Queria voltar a estudar e ser engenheiro. Não lhe faltava inteligência, disciplina e sonhos. Aos trinta anos, no seu convite, agradeceu ao irmão que lhe custeou os estudos.

Seu amor que ainda ocupava os pensamentos aparecera um dia na sua casa. Fora convidada pelo irmão que lhe apresentara como namorada. Logo se casaram e ele fora o padrinho.

O menino pedreiro que se tornara engenheiro entrou para dentro de si. Enlouqueceu. Construiu uma casa sem portas e janelas e se concretou dentro dela.

Fotografia feita por Graciele Silva no fundo de sua casa. (Região do Funil - Mário Campos (M.G.)

10/06/2022

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Poema: Mês de Abril

 



Amo o mês de abril

Abril anuncia as manhãs frescas do outono.

Já no seu primeiro dia há o direito às mentiras

Abril tem ares de liberdade

O solo de abril é multicolorido

Tem o farfalhar das folhas nos ventos

Tem folhas no chão

Às vezes tem a morte dolorosa de Cristo

E, às vezes, tem sua ressurreição

Abril tem o restante da colheita do milho

Tem a terra inchada das sementes

Tem as tardes de sol morno

Não que seja um mês tão especial assim...

Mas abril tem a mim.

Poema: Rosa e o Jardineiro

 

Era abril

O jardineiro plantava uma rosa

Era abril.

Rosa se embelezava diante do espelho.


Rosa desbravava um sertão de veredas 

e era abril

O jardineiro olhava para Rosa 

e ela nem viu

 

De repente 

Estavam se olhando.

Rosa e o Jardineiro desbravaram outros sertões

Era abril

E todo mundo viu

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Poesia: ABRIL

 



Amo o mês de abril

Abril anuncia as manhãs frescas do outono.

Já no seu primeiro dia há o direito às mentiras

Abril tem ares de liberdade

O solo de abril é multicolorido

Tem o farfalhar das folhas nos ventos

Tem folhas no chão

Às vezes tem a morte de Cristo

Outras vezes tem sua ressurreição

Abril tem o restante da colheita do milho

Tem a terra inchada das sementes

Tem as tardes de sol morno

Não que seja um mês tão especial assim...

Mas abril tem a mim.

27/05/2022

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Crônica: As paixões de Suely

                       


A menina encantou com a história do Tiradentes contada, e matéria de prova, conforme avisou a professora.

Suely tinha apenas treze anos e, mesmo sem o saber, morava bem perto da Vila Rica do alferes. O encanto virou amor. A estudante sonhava com seu herói trotando no cavalo alazão nas trilhas tecidas pelos fazendeiros que compartilhavam dos mesmos ideais contra a coroa de Portugal.

Quando soube que a escola onde havia estudado o primário (era assim que se chamavam os quatro primeiros anos do atual ensino fundamental) era um dos locais onde Tiradentes se encontrava com os inconfidentes, bem ali perto de sua nova escola e de sua casa, seu amor ficou ainda mais sério. Vindo ou voltando da escola, ao passar pelo prédio colonial da antiga escola, silenciava para ouvir as confidências do seu revolucionário com seus companheiros fieis.

Só havia um pequeno detalhe: seu grande amor vivia há quase dois séculos antes dela. Mas isto não lhe trazia nenhum constrangimento. Dizia-se que o amor vencia barreiras de som, de distâncias geográfica e temporal. Ela simplesmente amava aquele homem de nome Joaquim José da Silva Xavier, o seu valente Alferes Tiradentes, como ela o chamava.

Entretanto, uma coisa desestruturou Suely. A escola onde estudava nessa época ficava à margem da estrada real e, se ela dali podia imaginá-lo desfilando garbosamente à frente de seu pelotão de infantaria, não pode se conter ao ver um absurdo. Logo adiante da estrada, pregada bem no alto para que todos os cavaleiros vissem, havia uma placa com os dizeres: “Aqui foi trocada a salmoura da cabeça de Tiradentes no caminho para o Rio de Janeiro”.

Foi então que seu amor por aquele príncipe encantado das Minas Gerais, como um raio, desapareceu. Suely não podia imaginar as madeixas do seu amado salgada como um toucinho engaiolado no alto do açougue.

- “Salmoura? Que Salmoura é essa na cabeça do meu amor?”

E a cabeça do seu amor rolou estrada real abaixo.

Mas eis que no ano seguinte conheceu o verdadeiro príncipe encantado da sua vida de final de adolescência. Nada menos que o príncipe regente do Brasil. Decorou seu nome e dizia de cor: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Entretanto, para ela, era apenas o “Pedrinho”. Mas essa paixão seria apenas fogo de palha. Entretanto, tão logo soube da exuberante Domitila, seu ódio amargou e o fel estuporou dentro de seu corpo. Nem havia se importado com a esposa legítima, a sábia e sofredora Princesa Leopoldina, mas “uma amante linda e poderosa era demais”.

- “Aqueles bigodes portugueses roçando o buço da rapariga também de Vila Rica era indecente por demais”, esbravejava a moça mineira.

Pois bem, embora a distância temporal já houvesse diminuída alguns poucos anos, Suely não suportava a ideia de outra mulher tomar o amor que seria para dela.

Suely virou uma bela mulher. Foi então que começou a rir de suas paixões adolescentes. E desejou ser amada por um homem tão inteligente e revolucionário quanto seu Tiradentes, mas acabou se casando com um homem tão belo e safado quanto seu Pedrinho.

Atualmente Suely ainda vive sonhando com seus príncipes encantados cavalgando pela estrada real..



                           


Fotografias: Petrópolis (arquivo pessoas)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A japona cor de laranja passada



Foi assim. Ele chegou dentro de sua japona cor de laranja passada. Parou defronte a minha casa e me olhou com olhos de menino perdido. Nem consegui saber que cor tinham aqueles olhos. Olhei com desdém. Era um menino feio; sem jeito algum; sem beleza alguma. Só a japona da cor de laranja passada.


De pé, no meio da rua, meu olhar cruzou com o dele. Eu e meus preconceitos nem demos bola para aquele menino esmirrado dentro daquela japona cor de laranja passada. Era mês de março naquele interior dos interiores. Chovia. Será que fazia frio? Nem sei.

Crescemos perto um do outro. Eu e meus preconceitos não o vimos mais. Será que ele estava ali por perto? Nem dei fé caso estivesse. 

De novo o mês de março chegou. Chuvas trazendo lamas para aquela rua nossa.

E outros marços chegaram. Descobri que São José era pai do Menino Jesus. Descobri também que era carpinteiro. Fiquei sabendo que o menino da japona cor de laranja trabalhava como servente de pedreiro. Eu e meus preconceitos não queríamos saber dele.

Virei moça feita. Escolhi namorados tantos e tontos. Nada mais.

A japona cor de laranja passada e seu dono desapareceram.

Numa tarde de um dia de verão ele apareceu. Sem a japona cor de laranja passada. Estava dentro de um Cadillac verde brilhante. Eu e meus preconceitos choramos o tempo da japona cor de laranja passada sabedoras de que não voltaria mais.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Salve o Funil / Mineração! Aqui não!

 


Da MG -040 o que se vê às margens são belos empórios de móveis rústicos. Este trabalho vem sendo levado a vários lugares do estado, quiçá do país. São trabalhos artísticos feitos pelos moradores daqui e que passam de pai para filho.

A kombi com o milho verde, sendo cozido dentro de um caldeirão num fogão improvisado, já se tornou patrimônio e referência da entrada do bairro.

Dobrem a esquerda, saiam da rodovia e logo chegará numa bucólica pracinha rodeada por espécies de mata Atlântica. A Igreja é de Santo Antônio, o santo casamenteiro com seu dia celebrado pela comunidade que aproveita para fazer novos pedidos e agradecer aqueles alcançados. Uma escola pública com arquitetura local, algumas casas e um ponto de ônibus. É daqui que partem e voltam os moradores para seus muitos afazeres.

Seguindo em frente deparem-se com o recém calçamento de pedras pé-de-moleque, ladeado por grandes árvores que tornam o clima ameno e fresco. Parem para escutar o som das águas do Córrego do Vinho que desce pela montanha. Deixe-se embriagar com suas curvas. Agradeça o milagre de suas quedas tocando moinhos d’água para transformar o milho em fubá. O Córrego do Vinho desce solitário dividindo terras e trazendo delicadezas cristalinas.

Agora comecem a subir o morro e deslumbrem-se com as casas da comunidade – como será que deveria chamar o gentio do Funil? – Floristas talvez seria um nome adequado já que, em todas as casas, o que se vê são flores de vários coloridos durante todo o ano.

Continuem subindo mais um pouco e, no cruzamento do antigo orelhão, virem à esquerda. Mais alguns passos e verão o Cruzeiro, local de orações, de rezas no dia 3 de maio, dia da Santa Cruz e de pedidos de chuvas em tempos de seca. Aqui deem uma pausa para seu descanso. Não se envergonhem se lágrimas brotarem dos seus olhos. Elas irão aliviar seus pesares. Aproveitem e chorem pelos filhos, pais e amigos que já se foram. Respire fundo e continuem se encantando com a região.

Dizem que o Funil teria sido formado por uma única família e seus descendentes. Aqui seria o berço do município de Mário Campos com os primeiros moradores chegando ainda no final do século XIX e início do século XX.

Sagrado berço para uma cidade.

Aos pés de montanhas e matas onde podem ser vistas galinhas d’Ângola, saracuras, seriemas, as ferozes corujas, tucanos, jacus comedores de grãos de café, bem-te-vis, canários da terra, tico-tico -reis, anus, carcarás, rolinhas, micos, lontras, tiús, comedores de ovos, as terríveis cascavéis, algumas raposas atrevidas já passeiam por aqui e até uma jaguatirica teria aterrorizado alguns moradores.

Não assustem se ouvirem uma gritaria por perto. Certamente assustaram um bando das escandalosas jandaias saboreando as amoras nos quintais.

Os ipês amarelos predominam por toda a região e, quando chega o inverno, eles enchem as matas de amarelo ouro. Há também os ipês cor de rosa e roxos. Canelas, angicos, aroeiras, salgueiros e tantas outras nobrezas olhando para o céu.

Ou seja, no Funil, a grande biodiversidade mantém-se em harmonia com seus moradores.

E há mulheres por aqui que ainda fazem a farinha de mandioca com técnicas primitivas como foi ensinado pelos africanos escravizados. Uma imagem para ser vista e lembrada por toda a vida quando elas se reúnem e transformam a mandioca na farinha mais saborosa de toda a região. Outras vezes elas se reúnem para assar biscoitos do padre, roscas de cenouras. É a tradição dos fornos e fornalhas a lenha se perpetuando através de sábias mãos femininas.

Do alto do Funil pode-se ouvir o xique-xique do trem correndo pelos trilhos margeando o Rio Paraopeba. Aqui uma pausa para duas tristezas. São nesses trens que as montanhas de Minas se vão para o outro lado do planeta. E foi no rio Paraopeba que a lama de Brumadinho foi derramada e acabou com sua vida de rio.

Considerando como referência o centro de Mário Campos, tem-se mais próximo o Capão, região de mata preservada, de fazendas produtoras de verduras, e de muita água brotando do chão e formando veios sobre a terra.

Mais distante tem-se a Vila das Amoreiras, há quase meio século recebendo moradores. A Vila está bem aos pés da última formação da Serra do Espinhaço que desce desde o nordeste de Minas Gerais. Do outro lado do Rio Paraopeba tem-se o início da Serra da Mantiqueira que continuará pelo sudoeste até o estado de São Paulo. Eis aqui a formação geológica chamada Funil.

Entretanto, muito mais que uma formação geológica, tem-se aqui um povo originário cuja identidade passa pela religiosidade com as festas da folia de Reis, pelas festas de Santo Antônio e São João, pela culinária local, pelo amor ao meio ambiente, pelas relações humanas respeitosas e acolhedoras.

Salvem o Funil!




                                                           (orquídeas da Helena)

                            
                                 Abóbora d'agua ou marinda
                            (quintal da casa de Helena e João Jiló)



                   (mamoeiro nativo na região - quintal da Helena)










Agradecimentos aos moradores que, gentilmente, tem nos contado suas histórias de vida aqui no Funil e permitido as fotografias. Eles sabem que unidos somos mais fortes.



13/04/2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Crônica para Ana

 

       


Ela estava lá

Era um almoço de domingo entre alguns poucos familiares. Comemoravam o casamento dos filhos que aconteceria em breve. Dois eventos importantes na vida da filha mais nova. Formou-se médica em meio à pandemia e já está trabalhando. E irá se casar com o “amor da sua vida”.

O almoço fora servido num requintado móvel que ora fazia as vezes de um buffet. Poucas pessoas em volta da mesa instalada no melhor local da casa. Uma ampla varanda com direito a decoração do busto da linda negra Zulmira.

O noivo apareceu menos sério que sempre, mais encorpado e com a face bem corada.

E eis que ela chega. Postura elegante dentro de um macacão de tecido amarelo com pequenas estampas pretas e brancas. Ali estava a mãe do noivo. Com o nome da mãe de Maria, sendo, pois, a protetora das mães. Cumprimentou a todos com discrição. O menino veio logo atrás. A avó e o neto de quatro anos. Ela procurou um local qualquer para sentar-se e ali ficou. Os sulcos de sua face pareceram mais profundos. Sua pele e seus cabelos apresentavam-se mais esbranquiçados. Seus passos mais incertos. Seu olhar era vago. Parecia nada ver.

A morte recente da filha levara junto muito daquela bela mulher. Um câncer maligno de mama vitimara a jovem mãe daquele menino. E agora? O que será daquela criança senão uma avó sem sorrisos na face? Que efeitos terão sobre o filho a partida tão prematura da mãe? Quem irá às reuniões das mães? A quem ele dará um abraço no dia das mães? A quem ele mostrará seus avanços na escola? (Certamente que, ao chegar esse tempo, ele terá feito suas escolhas, mesmo que escolhas forçadas.) Do pai nada se soube. Sem presença.

O menino estava ali. Inquieto ele andava pela casa. Certamente procurava algo que dissesse da presença ausência da mãe. Disseram-lhe que a mãe virou uma estrelinha. Será que ele terá que esperar por todas as noites da sua vida para procurar sua estrela-mãe? Talvez há que dizerem para ele que as estrelas também brilham durante o dia, mas que o sol, a estrela mais perto da Terra não deixa que vejamos todas as outras estrelas. Dizer-lhe também que sua mãe estará sempre a lhe olhar com muito amor.

E o que dizer para essa mãe-avó? O que dizer para essa protetora das mães que, agora, está desprotegida? Nenhuma palavra irá preencher o vazio de palavras. Não existem palavras para dizer dessa falta de sentido que é a morte de um filho ou de uma filha.

A dor é maior que o mundo. No caso dessa mãe, órfã de filha, todas as palavras que lhe faltam estarão sempre no viver do neto que lhe ficou.



Figura: Pintura de Santa Ana com a Virgem Maria e São João Batista (1513), Quadro de Leonardo da Vinci 


Fotografias: Imagens de Santa Ana da Igreja de São Paulo Apóstolo de Itapetininga (S.P.) feitas pelo amigo João Ricardo a quem muito agradeço a gentileza do trabalho.

 


12/04/2022