quinta-feira, 12 de maio de 2022

Crônica: As paixões de Suely

                       


A menina encantou com a história do Tiradentes contada, e matéria de prova, conforme avisou a professora.

Suely tinha apenas treze anos e, mesmo sem o saber, morava bem perto da Vila Rica do alferes. O encanto virou amor. A estudante sonhava com seu herói trotando no cavalo alazão nas trilhas tecidas pelos fazendeiros que compartilhavam dos mesmos ideais contra a coroa de Portugal.

Quando soube que a escola onde havia estudado o primário (era assim que se chamavam os quatro primeiros anos do atual ensino fundamental) era um dos locais onde Tiradentes se encontrava com os inconfidentes, bem ali perto de sua nova escola e de sua casa, seu amor ficou ainda mais sério. Vindo ou voltando da escola, ao passar pelo prédio colonial da antiga escola, silenciava para ouvir as confidências do seu revolucionário com seus companheiros fieis.

Só havia um pequeno detalhe: seu grande amor vivia há quase dois séculos antes dela. Mas isto não lhe trazia nenhum constrangimento. Dizia-se que o amor vencia barreiras de som, de distâncias geográfica e temporal. Ela simplesmente amava aquele homem de nome Joaquim José da Silva Xavier, o seu valente Alferes Tiradentes, como ela o chamava.

Entretanto, uma coisa desestruturou Suely. A escola onde estudava nessa época ficava à margem da estrada real e, se ela dali podia imaginá-lo desfilando garbosamente à frente de seu pelotão de infantaria, não pode se conter ao ver um absurdo. Logo adiante da estrada, pregada bem no alto para que todos os cavaleiros vissem, havia uma placa com os dizeres: “Aqui foi trocada a salmoura da cabeça de Tiradentes no caminho para o Rio de Janeiro”.

Foi então que seu amor por aquele príncipe encantado das Minas Gerais, como um raio, desapareceu. Suely não podia imaginar as madeixas do seu amado salgada como um toucinho engaiolado no alto do açougue.

- “Salmoura? Que Salmoura é essa na cabeça do meu amor?”

E a cabeça do seu amor rolou estrada real abaixo.

Mas eis que no ano seguinte conheceu o verdadeiro príncipe encantado da sua vida de final de adolescência. Nada menos que o príncipe regente do Brasil. Decorou seu nome e dizia de cor: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Entretanto, para ela, era apenas o “Pedrinho”. Mas essa paixão seria apenas fogo de palha. Entretanto, tão logo soube da exuberante Domitila, seu ódio amargou e o fel estuporou dentro de seu corpo. Nem havia se importado com a esposa legítima, a sábia e sofredora Princesa Leopoldina, mas “uma amante linda e poderosa era demais”.

- “Aqueles bigodes portugueses roçando o buço da rapariga também de Vila Rica era indecente por demais”, esbravejava a moça mineira.

Pois bem, embora a distância temporal já houvesse diminuída alguns poucos anos, Suely não suportava a ideia de outra mulher tomar o amor que seria para dela.

Suely virou uma bela mulher. Foi então que começou a rir de suas paixões adolescentes. E desejou ser amada por um homem tão inteligente e revolucionário quanto seu Tiradentes, mas acabou se casando com um homem tão belo e safado quanto seu Pedrinho.

Atualmente Suely ainda vive sonhando com seus príncipes encantados cavalgando pela estrada real..



                           


Fotografias: Petrópolis (arquivo pessoas)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A japona cor de laranja passada



Foi assim. Ele chegou dentro de sua japona cor de laranja passada. Parou defronte a minha casa e me olhou com olhos de menino perdido. Nem consegui saber que cor tinham aqueles olhos. Olhei com desdém. Era um menino feio; sem jeito algum; sem beleza alguma. Só a japona da cor de laranja passada.


De pé, no meio da rua, meu olhar cruzou com o dele. Eu e meus preconceitos nem demos bola para aquele menino esmirrado dentro daquela japona cor de laranja passada. Era mês de março naquele interior dos interiores. Chovia. Será que fazia frio? Nem sei.

Crescemos perto um do outro. Eu e meus preconceitos não o vimos mais. Será que ele estava ali por perto? Nem dei fé caso estivesse. 

De novo o mês de março chegou. Chuvas trazendo lamas para aquela rua nossa.

E outros marços chegaram. Descobri que São José era pai do Menino Jesus. Descobri também que era carpinteiro. Fiquei sabendo que o menino da japona cor de laranja trabalhava como servente de pedreiro. Eu e meus preconceitos não queríamos saber dele.

Virei moça feita. Escolhi namorados tantos e tontos. Nada mais.

A japona cor de laranja passada e seu dono desapareceram.

Numa tarde de um dia de verão ele apareceu. Sem a japona cor de laranja passada. Estava dentro de um Cadillac verde brilhante. Eu e meus preconceitos choramos o tempo da japona cor de laranja passada sabedoras de que não voltaria mais.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Salve o Funil / Mineração! Aqui não!

 


Da MG -040 o que se vê às margens são belos empórios de móveis rústicos. Este trabalho vem sendo levado a vários lugares do estado, quiçá do país. São trabalhos artísticos feitos pelos moradores daqui e que passam de pai para filho.

A kombi com o milho verde, sendo cozido dentro de um caldeirão num fogão improvisado, já se tornou patrimônio e referência da entrada do bairro.

Dobrem a esquerda, saiam da rodovia e logo chegará numa bucólica pracinha rodeada por espécies de mata Atlântica. A Igreja é de Santo Antônio, o santo casamenteiro com seu dia celebrado pela comunidade que aproveita para fazer novos pedidos e agradecer aqueles alcançados. Uma escola pública com arquitetura local, algumas casas e um ponto de ônibus. É daqui que partem e voltam os moradores para seus muitos afazeres.

Seguindo em frente deparem-se com o recém calçamento de pedras pé-de-moleque, ladeado por grandes árvores que tornam o clima ameno e fresco. Parem para escutar o som das águas do Córrego do Vinho que desce pela montanha. Deixe-se embriagar com suas curvas. Agradeça o milagre de suas quedas tocando moinhos d’água para transformar o milho em fubá. O Córrego do Vinho desce solitário dividindo terras e trazendo delicadezas cristalinas.

Agora comecem a subir o morro e deslumbrem-se com as casas da comunidade – como será que deveria chamar o gentio do Funil? – Floristas talvez seria um nome adequado já que, em todas as casas, o que se vê são flores de vários coloridos durante todo o ano.

Continuem subindo mais um pouco e, no cruzamento do antigo orelhão, virem à esquerda. Mais alguns passos e verão o Cruzeiro, local de orações, de rezas no dia 3 de maio, dia da Santa Cruz e de pedidos de chuvas em tempos de seca. Aqui deem uma pausa para seu descanso. Não se envergonhem se lágrimas brotarem dos seus olhos. Elas irão aliviar seus pesares. Aproveitem e chorem pelos filhos, pais e amigos que já se foram. Respire fundo e continuem se encantando com a região.

Dizem que o Funil teria sido formado por uma única família e seus descendentes. Aqui seria o berço do município de Mário Campos com os primeiros moradores chegando ainda no final do século XIX e início do século XX.

Sagrado berço para uma cidade.

Aos pés de montanhas e matas onde podem ser vistas galinhas d’Ângola, saracuras, seriemas, as ferozes corujas, tucanos, jacus comedores de grãos de café, bem-te-vis, canários da terra, tico-tico -reis, anus, carcarás, rolinhas, micos, lontras, tiús, comedores de ovos, as terríveis cascavéis, algumas raposas atrevidas já passeiam por aqui e até uma jaguatirica teria aterrorizado alguns moradores.

Não assustem se ouvirem uma gritaria por perto. Certamente assustaram um bando das escandalosas jandaias saboreando as amoras nos quintais.

Os ipês amarelos predominam por toda a região e, quando chega o inverno, eles enchem as matas de amarelo ouro. Há também os ipês cor de rosa e roxos. Canelas, angicos, aroeiras, salgueiros e tantas outras nobrezas olhando para o céu.

Ou seja, no Funil, a grande biodiversidade mantém-se em harmonia com seus moradores.

E há mulheres por aqui que ainda fazem a farinha de mandioca com técnicas primitivas como foi ensinado pelos africanos escravizados. Uma imagem para ser vista e lembrada por toda a vida quando elas se reúnem e transformam a mandioca na farinha mais saborosa de toda a região. Outras vezes elas se reúnem para assar biscoitos do padre, roscas de cenouras. É a tradição dos fornos e fornalhas a lenha se perpetuando através de sábias mãos femininas.

Do alto do Funil pode-se ouvir o xique-xique do trem correndo pelos trilhos margeando o Rio Paraopeba. Aqui uma pausa para duas tristezas. São nesses trens que as montanhas de Minas se vão para o outro lado do planeta. E foi no rio Paraopeba que a lama de Brumadinho foi derramada e acabou com sua vida de rio.

Considerando como referência o centro de Mário Campos, tem-se mais próximo o Capão, região de mata preservada, de fazendas produtoras de verduras, e de muita água brotando do chão e formando veios sobre a terra.

Mais distante tem-se a Vila das Amoreiras, há quase meio século recebendo moradores. A Vila está bem aos pés da última formação da Serra do Espinhaço que desce desde o nordeste de Minas Gerais. Do outro lado do Rio Paraopeba tem-se o início da Serra da Mantiqueira que continuará pelo sudoeste até o estado de São Paulo. Eis aqui a formação geológica chamada Funil.

Entretanto, muito mais que uma formação geológica, tem-se aqui um povo originário cuja identidade passa pela religiosidade com as festas da folia de Reis, pelas festas de Santo Antônio e São João, pela culinária local, pelo amor ao meio ambiente, pelas relações humanas respeitosas e acolhedoras.

Salvem o Funil!




                                                           (orquídeas da Helena)

                            
                                 Abóbora d'agua ou marinda
                            (quintal da casa de Helena e João Jiló)



                   (mamoeiro nativo na região - quintal da Helena)










Agradecimentos aos moradores que, gentilmente, tem nos contado suas histórias de vida aqui no Funil e permitido as fotografias. Eles sabem que unidos somos mais fortes.



13/04/2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Crônica para Ana

 

       


Ela estava lá

Era um almoço de domingo entre alguns poucos familiares. Comemoravam o casamento dos filhos que aconteceria em breve. Dois eventos importantes na vida da filha mais nova. Formou-se médica em meio à pandemia e já está trabalhando. E irá se casar com o “amor da sua vida”.

O almoço fora servido num requintado móvel que ora fazia as vezes de um buffet. Poucas pessoas em volta da mesa instalada no melhor local da casa. Uma ampla varanda com direito a decoração do busto da linda negra Zulmira.

O noivo apareceu menos sério que sempre, mais encorpado e com a face bem corada.

E eis que ela chega. Postura elegante dentro de um macacão de tecido amarelo com pequenas estampas pretas e brancas. Ali estava a mãe do noivo. Com o nome da mãe de Maria, sendo, pois, a protetora das mães. Cumprimentou a todos com discrição. O menino veio logo atrás. A avó e o neto de quatro anos. Ela procurou um local qualquer para sentar-se e ali ficou. Os sulcos de sua face pareceram mais profundos. Sua pele e seus cabelos apresentavam-se mais esbranquiçados. Seus passos mais incertos. Seu olhar era vago. Parecia nada ver.

A morte recente da filha levara junto muito daquela bela mulher. Um câncer maligno de mama vitimara a jovem mãe daquele menino. E agora? O que será daquela criança senão uma avó sem sorrisos na face? Que efeitos terão sobre o filho a partida tão prematura da mãe? Quem irá às reuniões das mães? A quem ele dará um abraço no dia das mães? A quem ele mostrará seus avanços na escola? (Certamente que, ao chegar esse tempo, ele terá feito suas escolhas, mesmo que escolhas forçadas.) Do pai nada se soube. Sem presença.

O menino estava ali. Inquieto ele andava pela casa. Certamente procurava algo que dissesse da presença ausência da mãe. Disseram-lhe que a mãe virou uma estrelinha. Será que ele terá que esperar por todas as noites da sua vida para procurar sua estrela-mãe? Talvez há que dizerem para ele que as estrelas também brilham durante o dia, mas que o sol, a estrela mais perto da Terra não deixa que vejamos todas as outras estrelas. Dizer-lhe também que sua mãe estará sempre a lhe olhar com muito amor.

E o que dizer para essa mãe-avó? O que dizer para essa protetora das mães que, agora, está desprotegida? Nenhuma palavra irá preencher o vazio de palavras. Não existem palavras para dizer dessa falta de sentido que é a morte de um filho ou de uma filha.

A dor é maior que o mundo. No caso dessa mãe, órfã de filha, todas as palavras que lhe faltam estarão sempre no viver do neto que lhe ficou.



Figura: Pintura de Santa Ana com a Virgem Maria e São João Batista (1513), Quadro de Leonardo da Vinci 


Fotografias: Imagens de Santa Ana da Igreja de São Paulo Apóstolo de Itapetininga (S.P.) feitas pelo amigo João Ricardo a quem muito agradeço a gentileza do trabalho.

 


12/04/2022

terça-feira, 12 de abril de 2022

Crônica dos bichos: Severina e Tieta

 


Severina e Tieta – A contenda

Escuto muitos latidos ferozes. Encontro Tieta acuada, sem a valentia de sua homônima do sertão agreste. Entretanto, mesmo acoitada no chão, ela rosna mostrando os dentes como se ainda tivesse o vigor e a coragem de outros tempos. Grito para Severina deixa-la em paz. Severina que, bem mais jovem e dona de seus três filhotes, acha que agora domina o terreno. Juntou-se a Ernesto, valente guerreiro da Sierra Maestra, aqui apenas um de seus filhotes. Querem destronar Tieta de seu posto mandatário de há quase uma década.

- “Ainda não!” Grito eu com a dupla. A pequenina nordestina sobrevivente das ruas, Severina, e o guapo argentino, Ernesto, fogem da contenda.

Tieta, como a me agradecer, deita próximo a mim que acaricio seu pelo branco amarelado, mas ainda delicado.

Converso com Severina e Ernesto. Dou-lhes uma bronca: “Ainda chegará o tempo de vocês dominarem meu terreiro”

Eles aproximam de mim. Sentam por perto como a reverenciar a rainha Tieta.

E todos eles voltam a comer no mesmo prato. Por enquanto.

12/04/2022

Poema: O homem Verão

 

O Homem do verão

 



Ele perscrutou pela margem de lá

Ainda sereno chamou meu nome

Trazia nas mãos frutas do quintal

Procurou meus fracassos

E assim, logo esbravejou


Tirou-me o sono suas palavras

Quais palavras?

Intrigas masculinas


Amanheci verão

Fogo pelas ventas

Mensagens dele

Não li suas palavras


Tudo em vão

Apenas um homem faísca de verão

quarta-feira, 6 de abril de 2022

História Infantil

 



Vivia uma planta carnívora num campo verdinho quando um rato subiu nela e ela o engoliu.


Autor: Eduardo - 6 anos - (meu neto)

Fotografia: História escrita 


P.S. Dudu pediu para escrever que tem plantas carnívoras gigantes que comem até sapos e ratos.









Segunda oficina de março


Abertura:

A poesia é a linguagem mais sublime?

Resposta: Penso que foi preciso viver seis décadas para dizer “não” a esta pergunta. Outras linguagens também podem ser sublimes para quem é tocado por com elas. Às vezes uma palavra, um gesto, um olhar, uma cena, uma pintura, uma resposta ou um silêncio, podem ser tão sublimes quanto a poesia.


Alongamento 1: Fazer uma parábola do poema apresentado.

EU FUI LÁ

Não vem dizer que não fui lá,

Pois fui lá

E lá a formiga lava-pé picou meu pé

Chorei de raiva

Afinal quem botou ali aquela formiga?

Sabem da minha alergia por elas

E doeu muito

Doeu mais a raiva

Amanhã eu volto lá

Pisarei na formiga lava-pé

E darei um soco na cara

De quem a colocou lá.

Alongamento 2: fazer outra paródia com o famoso poema de Maiakóvski.

Exilado no purgatório


Se cair no purgatório, aproveite.

De um lado a dor,

o sofrimento, a solidão,

a perdição.

Do outro lado a esperança,

o aprendizado, a atenção.

Do lado de cá o horror,

a segregação, o abandono,

Do lado de lá a sorte dos dias coloridos,

a pele branca e limpa

Desse lado o levante, a voz,

a criação

Daquele lado a mesmice, o desencanto,

o nó

Fique no purgatório

Ali que te conheci.

E tu me fizeste gente.

(baseado num cidadão negro, portador de hanseníase, forjado na liderança de exilados em busca dos direitos mais básicos dos seres humanos: a liberdade e a dignidade.)


Alongamento 3: brinque com uma palavra iniciada com a letra M

Misericórdia

Para a igreja seria:

Ter o coração voltado para os pobres

Clemência ou piedade

Miseratio, derivado do Miserere, miséria

Cordis, derivado de COR, coração



Hoje, no popular, a palavra assumiu mais um significado sem, entretanto, estar desvinculado de sua raiz. Este outro significado, mais palatável, vem acrescido de tom debochado ou de espanto diante daquilo que causa surpresa.

“O pai da menina abandonou-a a própria sorte”

Misericórdia!!!! Disse a moça ao escutar a notícia.

Não gosto do “Miserere”, mas gosto muito do “Cordis”. O primeiro me remete à frieza dos bancos duros da igreja.

Enquanto o segundo me traz doces lembranças da minha infância fora da igreja.

Misericórdia

Serecordia

Recordia

Córdia

Cor

dia


Alongamento único:

As cores da minha bandeira

Se não há combinação de suas cores não me importo mais.

Dê cá minha bandeira. Ela tem o amarelo do meu desespero. Esse mesmo que você nem sabe do que estou falando. É preciso ser muito forte para carregar esse amarelo da minha bandeira. Não é pra qualquer um a luta diária pela liberdade de um povo.

O verde do meu ciúme está ali estampado, fulgurante. Ele contorna o meu país e o meu corpo. O verde dos meus olhos destila ódio pelos algozes do meu país.

Dê cá meu azul celeste. Ele reflete minhas calmarias marítimas. - Não me venham roubar minhas milhas - Suas águas embalam minhas noites. Suas estrelas piscam num convite aos amores por seus estados. Não escureçam meu céu de anil. Não permitirei sujeiras nas minhas terras.

Na faixa branca da minha bandeira descubro a escritura: 

“Lulalalá, brilha uma estrela”


06/04/2022

segunda-feira, 21 de março de 2022

Primeira Oficina de Março de 2022

 

 




Abertura:


(Aníbal Machado)

Resposta: Concordo com a afirmação do Aníbal de que sempre sabemos daquilo que não queremos e nunca daquilo que queremos. Entretanto, há uma imbricação entre os dois: o desejo está sempre escondido por detrás daquilo que não desejamos.

Alongamento 1:

O que você mudaria hoje no panorama da literatura, da música e da arte?

Resposta:

Nada mudaria na literatura. Ela está livre e é assim que a quero.

Quanto à música eu pediria aos compositores que fossem mais suaves mesmo na irreverência. Música para mim sempre será paz.

Nas artes visuais pediria que estivessem ao alcance de todas as classes sociais pois elas atravessam nossas almas e nos traduz em linhas, curvas e gestos.

Alongamento 2:

Faça uma paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade que na época causou ira aos passadistas: “No meio do caminho tinha uma pedra”

Resposta:


Um crime na minha estrada

Tinha um trem no meio do caminho.

Dezenas de vagões passavam diante de mim

No meio da estrada tinha outra estrada

O trem passava cantando sobre os trilhos de ferro

Dentro deles tinha um ouro preto

Tinha o aço das Minas Gerais


Minhas montanhas de ferro e aço se vão

Um dia ainda hei de parar esse trem

Bem antes desse negócio parar meu coração


Alongamento 3:

Resposta: As festas dedicadas a São João na Paraíba.

Para mim são verdadeiras expressões da brasilidade.



A vigília ao Presidente


Em se tratando de arte, nada foi mais artioso que a vigília na porta da carceragem da polícia federal em Curitiba.

- “Bom dia Presidente!"

- “Boa tarde Presidente!”

- “Boa noite presidente!”

Assim se deu a vigília desde o primeiro dia da prisão do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, no dia 7 de abril de 2018 até sua soltura no dia 8 de novembro de 2019. Foram 580 dias de vigília nas 24 horas do dia para que Lula não se sentisse sozinho e desamparado. Pessoas de todo o Brasil, intelectuais e políticos de várias partes do mundo se somavam à multidão na frente da porta da Polícia Federal no elitizado bairro de Santa Cândia, em Curitiba.

Confesso que algumas vezes fui tentada a estar lá por um ou dois dias. Cheguei a pagar por uma viagem num final de semana, entretanto desisti de ir temendo a distância e as longas horas de viagem. Cedi meu lugar a uma companheira que não tinha condições financeiras de fazer tal viagem. Mas estive todo o tempo acompanhando a referida excursão. Portanto me senti contemplada duas vezes.

Durante todo esse tempo de vigília houve música, teatro, oficinas de artes, festas, danças de roda e o “Parabéns pra você” no dia 27 de outubro, aniversário de Lula.

Este ato de coragem, de resistência, de subversão, de luta, de solidariedade, etc., foi para mim o mais elevado gesto de arte do povo brasileiro  buscando por justiça social, por um país soberano e por um povo livre.



Fotografia: Passagem de nível, Mário Campos (MG),Arquivo pessoal

Maria do Rosário Rivelli

21/03/2022





quinta-feira, 3 de março de 2022

Mini conto: O Carnaval dos dois mascarados

 

                   

A menina se arrumou e foi ao baile de carnaval naquele seu primeiro ano de folia. A mãe quase endoideceu. O pai autorizou. Lá ela encontrou o mascarado que lhe pegou no pé, ou melhor, na mão. Não se soltaram até o final do baile.

Quando ele tirou a máscara ela viu o moço mais belo do baile.

Quando ela tirou a máscara, ele viu a menina mais bela do baile.

Até então não se conheciam. Confessaram os amores perdidos antes do carnaval. E riram de suas tristezas.


Fotografia: Neide Ferraz

07/02/2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Texto surreal: Apontamentos e Fragmentos

 



Ela precisava de alguém para ajudar nas tarefas de casa com três filhos menores um marido que nada ajudava em casa e dois empregos públicos era prá lá de desesperadora sua rotina então veio a mocinha do interior com referência de mais de vinte anos trabalhando numa única família em São Paulo Joana respirou aliviada no dia vinte de abril data da chegada da prometida o irmão a trouxe para evitar quaisquer transtornos na viagem do interior para a cidade grande a moça muito risonha e caladinha logo aproximou das crianças e por ali ficou como mais uma delas no dia seguinte ela não se encontrava no seu quarto e não atendeu aos chamados as crianças foram encontra-la chorando deitado no chão no terreiro abriu um sorriso lindo e disse que aquele era o dia do seu aniversário fizeram bolo compraram guaraná saíram para lhe comprar um presente e cantaram “Parabéns para você” para ela que continuava num sorriso puro de criança feliz dai para frente todos observaram que ali estava uma moça feito criança corpo de mulher cheio de pureza e sorrisos a dona resolveu investigar como era seu trabalho em São Paulo aproximou com delicadeza da menina-moça estranha e ela disse que fazia de tudo até aparecer um mar de sangue no seu quarto que foi se enchendo até não poder mais ficar dentro dele daí começou a ouvir vozes de pessoas desconhecidas que vinham lhe cochichar nos ouvidos e lhe dar ordens como sair de casa andar pelas ruas e não acreditar na sua patroa que estava roubando seu dinheiro juntado nos últimos vinte anos guardou todo o dinheiro dentro de uma fronha amarrou bem amarrado e enfiou dentro do colchão foi levada num centro espírita e o médium falou que ela estava com demônio no corpo que era preciso muita reza muita luz de vela muito banho de alecrim com capim cheiroso mas de nada adiantou mandaram ela de volta para sua cidade natal no interior das Minas Gerais e a moça voltou feliz para casa de seus pais foi quando recebeu a nova possibilidade de trabalhar na cidade grande a nova patroa preocupada com toda aquela história levou-a no psiquiatra que diagnosticou psicose e deu um monte de remédios os familiares consideraram perigoso ela cuidar de três crianças mas a patroa cuidadosa feito ela sói contratou outra empregada com o objetivo de cuidar das quatro crianças agora procurou os direitos da moça-menina-doida procurou o médico que deu relatório para benefício e foram guardar o dinheiro na poupança quando abriram a fronha na frente do moço da caixa pois era assim que a patroa lidava com a menina-moça-risonha para não trazer desconfianças todo o dinheiro guardado já havia perdido seu valor o cruzeiro agora era real


Funil, 21/02/2022


Comentário: "Rivelli, escrever é sempre revelador, documental. Escrever é também registro. A prosa para quem lidar com ela é sempre reveladora. Está história a partir de suas Palavras ganha contornos eternos. Muito bem, muito bom, bjs" (do poeta Ronald Claver)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Carta de Amor - 16

 

                                               





Bom dia meu desamor


Atordoada com as questões políticas atuais do nosso país resolvi dar uma pausa e passar um batom. Maquiar um pouco meus lábios que há tanto tempo não se colorem nem se abrem num sorriso ou entre conversas. Levantei dessa escrivaninha companheira e fui até meu batom esquecido no velho estojo. Agora já posso dizer o que há muito está preso e descolorido dentro de mim.

Pois bem, desde que soube “por onde andas e que dizes fazer” caminhei no sentido oposto àquele que até então desejava. No início achei que estava deveras enlouquecendo. Meu peito apertou. Viajei sem rumos. Enlutei minha alma. Mas ainda não chorei. Vivi os últimos meses como uma folha que despenca da árvore e cai leve de encontro ao solo. Despenquei-me de mim. Despenquei-me de nós. Não há palavras que definam meu luto. Eu me perdi de você.

Como você sabe, lemos muito sobre a Rússia. Ainda bem adolescentes lemos “A Mãe” de Máximo Gorki. Na época me envolvi pela luta dos operários russos e ali começava minha paixão pelo país frio e vermelho. Depois devorei quase toda a obra de Dostoiévski e adentrei nas almas de seus personagens pelas ruas de São Petersburgo. Recentemente li “O Adolescente” e, mais uma vez, lembrei-me de você. Anton Tchékhov e Lev Tolstói vieram por indicações do meu filho. E, desde então, tenho viajado para a Rússia nos meus devaneios, entrando na “Era Dourada da Rússia” com seus escritores, acabei ficando por lá.

Então gostaria de lhe dizer que jamais aceitarei, mesmo que isto contrarie senão a mim, que um cidadão como o presidente do Brasil e toda sua comitiva inculta, pise em solo de um país tão meu. E que você, culto e sabedor de todas essas histórias, caminhe junto a ele pela Praça Vermelha e o acompanhe até o Túmulo do Soldado Desconhecido no Kremlin. Isto já se traduz num atentado à minha dignidade e a do povo russo.

Lembrando da citação de Dostoiévski de que “Tenho de proclamar a minha incredulidade. Para mim não há nada de mais elevado do que a ideia da inexistência de Deus. O homem inventou Deus para poder viver sem se matar”, Bolsonaro e tantos de vocês, em nome de Deus, matam, destroem e gozam sobre os cadáveres.

Não posso mais amar você. Entretanto continuarei amando o menino operário que um dia você foi.

Sem abraços.

Rosário Rivelli, 17/02/2022

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Fábula: A fantástica aventura dos gatos

                                                 


 



Igui, o neto danado de esperto, arrastou a vovó para dentro do carro.

- Vovó, vamos fazer uma viagem!

Assim foi o menino-gato dizendo e já ligando o ícone do GPS. Com destreza foi logo posicionando o destino, a rota mais rápida e o simulador de navegação. Enquanto isto a vovó ficava só olhando o roteiro da viagem.

Sabedor do interesse da vovó pelas viagens, mesmo aquelas imaginárias, buscou no histórico uma cidade desconhecida para ela.

Riu, travessamente, diante do espanto dela ao ler o nome que apareceu na telinha do GPS. FIGUSGUN. Isto mesmo. Lá estava o nome da cidade e todo o itinerário. E para lá foram eles. Vovó estava atenta a todo o trajeto. Queria saber onde ficava essa tal cidade de FIGUSGUN.

Logo que saíram de sua cidade o GPS indicou a BR 040 em direção a Belo Horizonte.

No meio do caminho havia um acidente. Tudo parado. Um carro conseguiu escapar de um precipício ao ter seu carro ultrapassado por um caminhão baú descontrolado. Kiter estava indo buscar seus quatro filhos e sua esposa para irem para Guarapari. Toda a família adora a praia.

Mas um bando de gatos havia planejado roubar toda a carga de sardinhas frescas que vinham de Figusgun. Colocaram pregos na pista para furar os pneus do caminhão. Enquanto o motorista cuidava dos reparos, todos os gatos que estavam acomodados na moto do Igui pularam para dentro do baú e colocaram uma bomba lá dentro. Na explosão abriu um enorme buraco na carroceria e voou sardinhas para todo canto.

Os gatos fugiram nas motos voltando para Figusgun quando perceberam que o caminhão estava atrás deles. Igui, sendo um excelente motociclista, conhecia toda a região e logo saíram da estrada principal. Entraram por um caminho até um riacho e chegaram num túnel. Vieram outras motos com vários gatos que decidiram para e  esconderem as sardinhas. O esconderijo ficava bem perto de uma árvore, num precipício no alto da montanha.

Sardinhas bem escondidas. Motos e gatos salvos e felizes. E assim foi possível continuar nossa viagem para FIGUSGUN que, para mais um espanto da vovó, ficava bem perto da Contagem das Abóboras.



Observação: esta fábula foi escrita a quatro mãos. Vovó e o netinho de seis anos no dia 5 de fevereiro de 2022


                                        




Fotografias: Arquivo pessoal (Nina e Princesa Consuelo são as gatinhas do meu neto)



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Mini conto: Declaração de Amor

                                                  



Aquela foi a declaração de amor mais genuína que recebera em toda sua vida. Teresa, aos setenta e quatro anos, assim considerou o afeto recebido.

Ele, com nome de santo, fervoroso, temente a Deus e devoto de Nossa Senhora.

Ela, com nome de santa, sem fé, nenhum temor a Deus e sem devoção alguma.

Teresa, apesar de ter ficado envaidecida, considerou o silêncio da confissão como sua única resposta ao amor declarado.



Ouro Branco, 05/02 /2022

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Crônica: Cananeia III - Viagem de volta

 



Ali estava um pedaço de mar, um desbarrancado de arei e algumas pedras grandes recebendo os batidos das ondas do mar. Ali estava a ponta mais ao sul da Ilha Comprida; voltada para o mar aberto. Um espetáculo de acelerar o coração e provocar um não sei o quê na alma. Tirei as fotos que quis. Gosto de fotos que tocam na gente. Ali estava a chamada Praia Da Trincheira, também conhecida como Praia dos Golfinhos. Onde eles se acasalam e tem seus filhotes. Vimos alguns deles brincando bem perto de nós.

(O parágrafo acima estaria na metade desta crônica cujo início foi apagado quando cliquei não sei em quais teclas deste medonho aparelho. Vou tentar partir daqui e fazer a viagem ao inverso.)


Depois de caminharmos uns trezentos metros, conforme me informou outra aventureira, chegamos ao destino que eu tanto esperava. Toda a trilha era um grande corredor de centenas de bromélias, muitas dela em florações. Este foi um espetáculo à parte. Valeu a insistência e a paciência do meu irmão na direção do carro diante dos muitos pedidos para que voltássemos uma vez que a estrada parecia abandonada. Seriam cinco quilômetros até a chegada de um bar. Um bar no meio da mata e do mato. Mas, bem em frente, uma visão deslumbrante do mar dos golfinhos saltitantes. Ainda na beira do canal entre a ilha Comprida e a ilha de Cananeia. Portanto teríamos que margear a trilha se quiséssemos ver a ponta da ilha e o mar aberto. E queríamos. Valeram todos os riscos e o cansaço.

Na volta passamos pela moça e suas duas irmãs. Fora ela quem me ensinou o caminho e alertou para os perigos daquela praia. “Ela afunda bem na praia e o mar puxa para dentro dele.” Estavam a pé pela estrada de cinco quilômetros. Pegariam a balsa até a ilha de Cananeia e, de lá, iriam para a cidade de Registro, onde moravam. Lamentamos não ter espaço para as caronas.

Antes meu irmão queria conhecer a estrada para a cidade de Pedrinhas margeando a praia ao norte. Andamos por mais de quatro quilômetros sobre a areia molhada, bem junto ao mar, em praias totalmente desertas. Tivemos que voltar porque as águas do mar estavam subindo rapidamente represando as águas dos riachos doces. Minha irmã ficou apavorada temendo que o carro agarrasse nas areias.

- “Na areia é o contrário da terra. O carro agarra em areia seca, mas anda bem na areia molhada. Na terra molhada o carro agarra no barro, mas anda bem na poeira.” Assim explicou meu irmão. E vi exatamente que assim era.

(Chegando em casa fui ver toda a orla da Ilha Comprida. Fiz outra viagem. Desta vez uma viagem virtual.)

Na noite anterior foi comemorado o aniversário do Samuel. Uma vela de oito anos improvisada. Muitas pizzas deliciosas e um bolo de biscoito de chocolate. Tudo como quis o menino. A alegria estava estampada no seu rostinho de anjo. Os pais realizaram o pedido dele: queria uma viagem de presente de aniversário, junto de sua família. Aqui gostaria de fazer um elogio palpite pessoal. As massas de São Paulo são bem melhores que as nossas massas mineiras. E não poderia esquecer das “girellas” de massa folhada recheadas com ricota e brócolis ou com quatro queijos que foram assadas para nosso lanche na noite anterior ao início da jornada pelas ilhas do sul de São Paulo. Não conhecia tal guloseima. Estavam deliciosas.

Todos prontos para nossa viagem de volta. Quatro carros em comboio. O quinto havia voltado um dia antes. Os sobrinhos e suas companheiras precisavam retornar aos trabalhos. Desta vez a Casa do Bolinho de Frango da Rose estava aberta. Paramos para degustar o famoso quitute. Um bar bem simples no quilômetro 139 da rodovia Neguinho Fogaça, em plena Serra da Macaca, no município de São Miguel Arcanjo. Dentro do bar havia uma pequenina loja de artesanatos locais. Muita criatividade. Muitas cores. E o famoso suco de uvas “San Raphael” produzido na região cujos vinhedos se espalham pelos arredores. Tudo estava perfeito para mim. Café coado forte e quente. A decoração bem a caráter do interior paulista. O atendimento tranquilo apesar do grande número de nós, turistas mineiros. Com gentileza e rigor nos serviços. Enquanto terminávamos nosso repasto nos pareceu que o céu estava desabando. Uma tempestade nos prendeu ali. Só comendo mais bolinhos de frango com café ou suco de uva e comprar mais lembrancinhas. (https://restaurantguru.com.br/Casa-Do-Bolinho-De-Frango-Sao-Miguel-Arcanjo)

E chegou a notícia da queda de uma árvore que interrompeu o tráfego nos dois sentidos quando já estávamos na estrada.  Então mais uma cena chamou atenção dos meus olhos. Vários rapazes e moças de botas, calças jeans, chapéus, caminhando ou correndo pelas margens do asfalto para desobstruírem a rodovia. Pareciam cenas de filmes estadunidenses quando todos eles estavam de divertindo como se dançassem na chuva com seus pares machados e foices. Tal espetáculo ficou gravado no meu mole coração

Uma caminhonete seguia à frente levando as terríveis motosserras. Meu irmão me lembrou do trabalho temporário do corte da cana e do colheita de laranjas que agrega jovens de toda aquela região. 

Estrada desobstruída e lá continuamos nós até a histórica Itapetininga. 

E finalmente conheci o tão falado Vale do Ribeira.

Uma viagem que deixou muitas histórias e encontros de três gerações.

Acabou-se o que era doce. Congratulo-me com todos os viajantes jovens que alegraram a comitiva. Em especial ao meu irmão, minha cunhada, a minha irmã, colega de quarto, assim como minha “menor filha” também pelos cuidados comigo em todos os momentos. Amo todos vocês.

                                               Bromélias



                            Trilha das Bromélias

 


                  Praia da Trincheira ou dos Golfinhos e eu.


                                            Praia da Trincheira


                    Praia da Trincheira - meu irmão e minha cunhada






Banheiro do Restaurante do bolinho de Frango Casa da Rose


Meu quarto na pousada  Costa Azul            



Flor no jardim da pousada


                                                        Girella de brócolis 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Crônica: Cananeia II - Ilha do Cardoso

 



Acompanhei cada passinho do viajante mais novo assim que os pais o colocaram na areia molhada junto ao mar. Foi uma verdadeira epifania.

O menino correu em direção ao mar como se fosse uma tartaruguinha recém saída da casca do ovo no local onde a sábia mãe tartaruga o colocou. Gabriel ia de encontro às águas e voltava com a maré lhe tocando os pezinhos. Seus movimentos eram suaves, divertidos e ousados para seu pequeno tamanho. E eu, como uma tia avó babona, aproveitei aquela cena com um olhar misto de atenção e curiosidade. E por ali ficou todo entregue às pequeninas ondas que lhe beijavam os pés. Não negou sua ascendência do elemento água. O irmão mais velho, também com nome de anjo, o acompanhava em todas as descobertas que iam sendo feitas e pronto para quaisquer eventualidades. E, com certeza, todos nós ali desfrutamos das cenas do mais novo peixinho do mar.

Outra cena também capturou meu olhar. Se desta vez a protagonista não era nenhuma criança, a alegria era de uma menina feliz. Tratava-se da minha cunhada. Uma bela e elegante mulher. Aniversariante daquele dia. Dalú estava iluminada em seus trajes de praia. Seu rosto demonstrava esconder alguma travessura adolescente. Dito e feito. Pediu ao simpático garçom uma bebida à base de gim. Logo veio uma enorme taça decorada com rodelas de laranja e gelo. O conteúdo ficava ainda mais sofisticado com a bebida gasosa produzindo minúsculas borbulhas no vidro da taça. Eu olhava a bebida que nunca acabava. Não acabaria. Minha cunhada havia levado a garrafa de gim que ficara bem acondicionada dentro do carro e, a cada hora, um filho seu ou minha filha ia até o estacionamento e voltava trazendo a tal bebida de zimbro numa latinha de refrigerante. Aquela fora sua festa pessoal. Eram gargalhadas contagiantes. Conversas jogadas fora e nossa aniversariante se esbaldava na sua traquinice. A festa continuou até a noite com direito a jantar regado a variedade de peixes, vinho e bolo com “Parabéns pra você”. E, no dia seguinte, seria a vez de outro aniversariante. Samuel, o outro sobrinho-neto, estaria fazendo oito anos. Muita festa para tão poucos dias naquele paraíso ecológico.


Meu irmão já havia planejado nossos passeios. Um deles seria a travessia por lanchas no canal marítimo entre a ilha de Cananeia e a Ilha do Cardoso. Havia me informado que esta última tem seu mapa lembrando o mapa do Brasil. Mais tarde ganharia um panfleto onde pude constatar a semelhança. Ali está localizado o Núcleo Perequê e toda área marítima é chamada de Santuário dos golfinhos. Vimos muitos deles saltitando bem perto de nós. Segundo explicações científicas ali teria alimentos fáceis para os filhotes e eles estariam protegidos dos grandes predadores. Toda a área faz parte de reservas ecológicas da Mata Atlântica e o guia, que nos fez lembrar indígenas, mostrava-se muito orgulhoso de nos apresentar seus espaços preservados, seus projetos e estudos do boto-cinza como são chamados os golfinhos. Ouvi dele e de outros guias que aquela imensidão de canais de água salgada constitui a maior área “marítima abrigada” preservada de todo mundo. Só no depois é que iria entender tratar-se de águas marítimas protegidas por ilhas, não a mar aberto. A importância de tal nomenclatura também está nas embarcações o que, até então, não havia entendido.

Pois bem, apesar do sol e do intenso calor não declinei do desejo de fazer a trilha do Manguezal e Mirantes, tudo bem cuidado e protegido. No meio das restingas de areias brancas escaldantes deparamos com um engenhoso sistema de captação de energia solar. O guia nos informou então que, o “Programa Luz para Todos” do governo federal conseguiu levar energia para todos os moradores da ilha trazendo conforto e possibilitando guardar os pescados para serem vendidos na cidade de Cananeia. E mais adiante fomos surpreendidos com uma moderníssima instalação para duzentos pesquisadores e estudantes das universidades federais do Brasil. Moradias, refeitórios, centros de pesquisas, museu arqueológico e um pequeno anfiteatro. Sempre nestes momentos meu coração bate mais acelerado. Ver tudo aquilo numa ilha quase deserta. O cuidado com o meio ambiente. Pesquisadores. Tudo ao lado de poucos moradores, incluindo comunidades caiçaras, vivendo harmoniosamente com o meio ambiente em extrativismo sustentável. Caminhamos por uma passarela cuidadosamente feita de madeira por sobre o manguezal onde os caranguejos ficavam chafurdando na mistura cinza escuro de água e material orgânico. Paramos para vê-los soltando borbulhas e caminhando na peculiar lentidão. Observei que, apesar de eles saírem daquela lama, saem limpos e brilhantes. Alguns com vermelhos vibrantes. Mais uma pequena caminhada na trilha e sentimos o frescor da Mata Atlântica. Entramos para ver o museu de antropologia, com esqueletos de golfinhos, outros peixes e tartarugas marinhas, utensílios usados pelos povos que ali viveram há cinco mil anos- os sambaquis - e a história da formação daquele parque estadual.

Além dos muitos quilômetros de praias desertas há por ali rios e cachoeiras. Infelizmente não consegui chegar até a voz do riacho de águas escuras cristalinas. O cansaço e o calor me fizeram dar meia volta para o quiosque onde se encontrava a turma restante. Minha filha sempre ao meu lado a me amparar caso fosse necessário. Entrei no mar de águas mornas protegidas das marés com blusas UV, viseira e muito filtro solar. Ali não havia como furar ondas mergulhando sob elas. No dia anterior eu já havia furando muitas delas. Como nosso pequeno anjo Gabriel também sou do elemento água. Acho que já nasci nadando.

E chegou a hora de voltarmos para nossa pousada na ilha de Cananeia. Pegamos as lanchas previamente contratadas – tudo organizado de acordo com os protocolos da marinha e dos regulamentos do parque da ilha do Cardoso. O número de turistas é limitado como mais uma forma de proteger todo o parque ecológico. Foi aqui que fiquei atenta para não perder nem uma palavra do piloto. José aproximou de uma ponta de praia e nos pediu que olhássemos à direita. “Ali é a ponta mais sul da ilha Comprida” e nos ensinou como chegar, por terra, até ali. "Depois que atravessar a balsa vire a segunda rua a esquerda, vocês vão encontrar um restaurante. Peguem uma trilha e vão deparar nessa praia". 

Guardei a explicação. Gostaria muito de fazer tal caminhada e explorar mais uma praia deserta. Outra hora nosso piloto-guia parou a lancha suavemente para assistirmos ao espetáculo dos golfinhos saltitantes. 

Virou e nos apontou a extrema esquerda, na ilha de Cananeia. “Ali naquela casa velha foi construída a primeira fundição de ferro do Brasil. Hoje é um museu”. E muito entusiasmado continuou: “Minha mãe foi a única parteira de Cananeia por muitos anos. Ela está viva com 104 anos.” “Agora olhem ali aquela casa de dois andares no meio da mata, logo adiante da fundição. Aquela casa tem o mesmo tanto de altura para baixo. Ali tem um túnel de quatrocentos metros até a baia. Era a casa do Martim Afonso de Souza que conheceu a índia ‘Caen’ e se apaixonou por ela ficando por aquelas terras onde passou a chama-la de Cananeia em homenagem à sua amada.” E nosso piloto continuava suas explicações sobre possíveis ataques de piratas quando, através de túneis e mirantes de observação eram dadas mensagens para a defesa da ilha de Cananeia. (*). Verdades ou mitos não interessa. O importante foi a simpatia do nosso piloto.

Entretanto não me lembrava de ter escutado a história do padroeiro da cidade, São João Batista, também contada por José. Mas no dia seguinte, querendo conhecer o centro histórico da cidade bem defronte à igreja, minha cunhada me repetiu a lenda de que São João Batista, pela manhã aparecia no altar com "os pezinhos" sujos de areia. Teria ido proteger os pescadores durante a noite.





                                                     
                                                   Noite de lua cheia no canal que liga as ilhas de Cananeia e Comprida



Estrela do mar de cinco pontas. Planta rasteira na restinga.



A bebida servida no Juras Quiosque - Ilha Comprida








Por do sol fotografada na pousada Costa Azul- Cananeia



Esqueleto de um golfinho no centro de estudos do Núcleo Pequerê

                                                 
                                                         Dalu, aniversariante do dia

                       
           Lua cheia fotografada da balsa durante uma das travessias.


Fotografias: Grupo de WhatsApp dos viajantes

 
(*)Fundada em 12 de agosto de 1531 por Martim Afonso de Souza, Cananeia é a primeira cidade do Brasil. A história desse município por onde passava a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas que dividia o mundo entre Portugal e Espanha, é recheada de muitas lendas de piratas, tesouros enterrados e batalhas.

(https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/visite-cananeia-a-primeira-cidade-brasileira/#:~:text=Fundada%20em%2012%20de%20agosto,piratas%2C%20tesouros%20enterrado)