segunda-feira, 4 de maio de 2026

Diário da vovó 8/1: Enquanto a vovó está sozinha...

 … ela lê.


Se, em minha casa, fico perdida entre os afazeres domésticos, por aqui, tudo ficou pior e nada tem sido diferente. Confesso que até tento ajudar de alguma forma, mas nunca sei o que devo fazer, como fazer nem por onde começar. Então leio.

Já havia falado do livro que comecei a ler ainda no Brasil, cuja procedência desconheço, mas sei que foi uma leitura deliciosa com a qual me identifiquei muito. Agradeço a quem o deixou comigo e prometo que o passarei para frente conforme combinado.

O Penhoar chinês, editora José Olympio, R.J. 1987, da autora juízforana, Raquel Jardim, que eu não conhecia.

A ação deste romance começa com a retomada de um bordado iniciado no final dos anos 20, encontrado inacabado pela narradora, quando volta à cidade para enterrar a mãe…

Vejam que escrita suave e interessante:  

Os pavões e a China de minha mãe ainda agora surpeendiam, as mulheres não usavamm mais aqueles quimonos e me perguntaram se aquilo era para ser usado. Respondi que sim e lhes contei dos mercadores que vendiam coisas às donas-de-casa, abrindo suas malas nas salas de costura e delas tirando rendas, toalhas, alfaias vindas de todo o mundo, quimonos de seda chinesa com finos bordados, que minha mãe vestia.



Trouxe outro livro na mochila:


Jerusalém, Editora Companhia das Letras, do autor Gonçalo M. Tavares, nascido em Luanda mas vivendo em Portugal. Este livro recebeu os prêmios José Saramago em 2005 e o prêmio Ler/Millenium em 2004. Mais um livro doado, este por um colega da UFJF. Confesso que jamais havia lido um livro assim, nem tão pouco parecido. Um intrincado de fatos que vão desembocar em accontecimentos terríveis. Um vai e vem das narrativas que me deixaram ainda mais desorientada. Leitura difícil e pesada. Não sei se gostei ou não, embora tenha pensado que valeu a pena conhecer a obra de um jovem escritor premiado e tão elogiado .


Assim o descreveu José Saramago:

“Um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos de idade: da vontade de lhe bater!”

Que tal um só paragrafo do livro? 

"Duas vezes pegara já Hanna na arma de Hinnerk e com o pequeno binóculo e com a sua mão pouco firme apontara em direção a uma criança. Numa das vezes havia mesmo perguntado: se a bala chegaria lá.
Estamos longe, respondera Hinnerk"  




Havia também o PDF do primeiro livro escolhido pela Tertúlia Literaria de Betim para este ano de 2026 e eu não queria perder nenhuma leitura dos escolhidos:


A Árvore mais sozinha do mundo, da autora Maria Salomão Carrara, disponibilizado pela equipe eLivros. Será que iria gostar deste livro com um nome tão diferente? Foi a primeira pergunta que me fiz. Entretanto a leitura me pegou de tal jeito que o li em poucos dias, mesmo sendo pelo tablet. Doce e amargo. Alegre e triste. Suave e denso. Lindo demais. O surpreendente final me trouxe gratidão à coordenação da Tertúlia. Já agradeci e, daqui, continuo agradecendo a escolha dele como nosso primeiro livro do ano.





Na sala conosco, bem ao meu lado, via minha nora lendo Dom Casmurro. Ela pesquisava e nos trazia algumas reflexõs sobre a obra e seu autor. Já queria ler o livro outra vez. Então ela me disse que tinha outro livro dele na estante, descobri que, bem à minha vista, estava:


Memórias Póstumas de Brás Cubas. E logo comecei a devorá-lo. Não saberia dizer o porquê, mas a obra me deixou bastante incomodada. Sempre adorei a riqueza dos escritos de Machado de Assis. Foi sensacional enveredar por aquele português riquíssimo e suas histórias tortuosas. Embora Machado de Assis tivesse vivido noutra época, retratando aquilo que lhe era contemporâneo, considero cruel quando se fala do lugar do negro e das mulheres enquanto meros propriedades de seus senhores.

Na contra capa desta edição lemos:

"Valendo-se de uma linguagem complexa e sofisticada, com jogos de palavras que desafiam o leitor, Machado de Assis narra a história de Brás Cubas, um homem rico e ocioso, sem grandes ambições na vida, que experimenta uma série de aventuras amorosas e profissionais, mas nunca consegue encontrar um sentido para sua existência."


Eis um pequeno trecho dessa Memórias:

"Renunciei tudo: tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um jeito inebriante e sutil."


Por falar em português, meu filho me havia sugerido um livro diferente. Não gosto de sair do conforto quanto ao gosto das minhas leituras, mas peguei o livro, afinal ele  deu o nome ao seu  livro homenageando o nosso querido Caetano Veloso e ele, também, se chama Caetano. 

Ainda sob o efeito da leitura desse "Latim em pó", aguardarei vocês para a próxima  publicação.


Christchurch, N.Z. 05/05/2026


Observações:

1-Continuarei minhas incursões em outros livros na proxima semana.

2- Agradeço as tertulianas betinenses, Leni Matta e Adriana Melo pelas fotos. 

3- Este belo vaso da folhagem de Costela de Adão está na sala da casa do meu filho e é, carinhosamente, cuidado por minha nora.