quarta-feira, 13 de maio de 2026

Diário da vovó 8/2: Em casa, a vovó só ficava...

 Em casa, a vovó só ficava…         

    …lendo




Espero que continuem comigo nestas viagens através das letras, das palavras e das histórias contadas por tanta gente ao redor do mundo. 


Vamos lá? 


Latim em Pó / Um passeio pela formação do nosso português, Companhia das Letras, de Caetano W. Galindo. 


Vejam o que nos diz Noemi Jaffe, escritora, professora e crítica literária sobre este autor:


“Não contente em ser um dos melhores tradutores do país, Caetano Galindo também nos presenteia com uma das melhores leituras da nossa língua, sua história, seus aspectos, e uso. Este livro é um passeio, uma navegação  pelo português e pelo Brasil.” 


Jamais poderia imaginar eu viajando por uma língua. Disse para meu filho que não estava conseguindo avançar na leitura porque queria guardar tudo que lia. Tudo aquilo era muito novo e eu achava tudo muito importante. Vai lendo mãe, depois você lê outra vez. Foi a recomendação do meu filho. Até hoje continuo lendo e relendo. Interessante demais. Então descobri que, na verdade, eu não queria perder nada do que este Caetano, tal qual o nosso Caetano Veloso, nos ensinava no livro. Senão vejamos na página 182:


“Apesar das adversidades, foi a língua falada por negros e mestiços que dominou o Brasil. Somos um país que fala português como fruto direto da presença negra.

Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da ‘última flor do Lácio’. O português brasileiro foi um broto africano, flor de Luanda.” (pag. 182)


“... E os milhões e milhões de mortos do passado, nossos antepassados nas estepes da Ucrânia, nas penínsulas da Ibéria e da Itália, nas terras germânicas do centro da Europa, na Arabia, no Magrebe, na Sibéria e nesta América, na África toda, inteirinha cortada pela cicatriz dos séculos de escravismo, Todas aquelas pessoas que um dia ergueram as vozes que nos deram o ‘céu’ (indo-europeu), ‘azul’ (persa), que nos desejaram ‘axé’ (fon), que nos moldaram o ‘barro’ (iberico) ou um ‘carro’ (celta) de ‘boi’ (latim), aqueles que por ‘azar’ (arabe) atravessaram ‘guerras’ (germânico), as maẽs que nos fizeram ‘pipoca’ (tupi)  e zelar por nossos ‘cochilos’ (banto).  (pag. 210)


Saber que a palavra azul veio do fasci/persa me fez gostar ainda mais do Irã com seu povo guerreiro, com sua história milenar, com o grande Império medo-persa dos reis Ciro,  Dario e Xerxes (550 a.c.). 


Gostaria de trazer  outras citações, mas meu texto ficaria ainda mais longo e ainda há mais livros por aqui.  








E chegou a vez de reler:


Vidas Secas, 120 Editora Record, Rio de Janeiro - São Paulo / 2013.


Havia lido este livro na minha adolescência, e agora como uma escolha da Tertúlia Literária de Betim. Excelente escolha. Aqui chorei outra vez, feito criança, com as histórias de Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Maior, o Menino Menor e a cachorra Baleia. Graciliano Ramos nos leva junto à família  numa peregrinação do viver a vida  sem ser vivida. A miséria escancarada num país rico de tudo. A seca matando e exercendo sua seleção natural.    


Agora lembrei-me de alguns professores, durante meu curso de medicina - em tempos sombrios da ditadura militar no Brasil - afirmarem/agourarem o futuro das crianças nordestinas, porque eles não ingeriam proteínas e vitaminas suficientes para formarem cérebros críticos e  pensantes. Contrariando todas estas profecias, o povo nordestino tem nos dado histórias gigantes nos campos social, político, cultural, educacional e tantos mais. Confesso que amo nosso nordeste com sua gente.


Enquanto escrevo, vou relendo algumas partes do livro com o fim de trazer-lhes um período ou um parágrafo para verem a beleza/tristeza do relato de Graciliano Ramos sobre a família que tenta sobreviver à seca e à miséria de um nordeste abandonado pelo poder público da época. Entretanto, todo o livro é maravilhoso, trago-lhes um pouco dele:


“Como é que sinhá Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando a gente via que era assim, mas sinhá Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano entendia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinhá Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo.”


      
     



Nunca fui uma boa estudante de história. Mas meus olhos brilharam aqui ao ver na estante uma pequena coleção juvenil de Química, Ciências, Matemática e História para meu neto, uma vez que o ensino daqui deixa muito a desejar. Obviamente que fui folheá-lo. Por muitos dias ele ficou ao lado da minha cama.(Gosto muito de ler sobre o imperador Romano, Júlio César.)

E já me deliciei com a história da formação da Inglaterra quando li vários livros do escritor inglês Bernard Cornwell. Amo as histórias das formações dos povos.


O livro é grande demais, mas, por vezes, ainda leio alguma coisa nele. (1)



                        







Mais um livro me chamou atenção, este sugerido por minha nora que o leu junto ao Dudu:


As vantagens de ser invisível, Editora Rocco Ltda, 1999, autor Stephen Chbosky.

No livro o jovem nos conta suas histórias, “mais íntimas do que um diário, as cartas de Charlie são estranhas, hilárias e devastadoras" . Sua cartas - diários nos deixam apaixonados por ele. Não sabemos quem é ele, onde mora, com quem vive, sua idade, etc. Entretanto é lendo que vamos descobrindo quem é Charlie.  O livro foi adaptado para filme, em 2012,  com o mesmo nome.


E Charlie nos diz: 


"Eu tive uma sensação na sexta à noite, ……..Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:

'Eu me sinto infinito'."


Num outro ponto ele nos diz:


“27 de maio de 1992


Querido amigo,


Fiquei lendo The Fountainhead nos últimos dias, e é um livro excelente. Estou lendo na capa que a autora nasceu na Rússia  e veio para os Estados Unidos quando era jovem. Ela falava mal o inglês, mas queria ser escritora. Acho que é uma pessoa admirável, então me sentei e tentei escrever uma história.


Ian MacArthur é um companheiro maravilhoso que usa óculos e os usa com deleite.’


Era a primeira frase. O problema foi que eu não consegui encontrar a segunda. Depois de limpar meu quarto três vezes, decidi deixar Ian em paz por um tempo, porque eu estava começando a ficar chateado com ele.”



                                     


Enquanto não tenho o PDF do próximo livro da Tertúlia, fico escarafunchando o segundo livro do Caetano W. Galindo, tomo um café com leite, pelando a língua, para espantar o frio de 8 graus daqui agora.

Na Ponta da Língua - Nosso Português da Cabeça aos Pés, Editora Companhia das Letras - 2025


Neste livro Caetano percorre o corpo humano através da língua portuguesa e vamos vendo e entendendo as interligações das várias origens do nosso idioma. Vejam por onde ele começa:


"Se você viajasse no tempo, até 7 mil atrás, e presenciasse uma conversa de um grupo de pastores nômades na região onde hoje fica a Ucrânia, talvez percebesse que estavam falando de um cavalo mas teriam poucas chances de entender algo do que diziam." 

 

Mais adiante ele continua:


"Esse idioma na linguística recebe o nome de protoindo-europeu não porque tenha qualquer coisa de imperfeito (proto-) nem porque fosse falado na Índia (indo-), mas por ser considerado a matriz de todo um tronco de idiomas que, esses sim, são falados desde a Inglaterra até Bangladesh, da Rússia a Itália. E isto porque os descendentes daqueles pastores que conversavam a respeito de um cavalo no início do capítulo acabaram se espalhando por um terreno gigantesco, ao longo dos 4 mil anos seguintes, determinando a paisagem  cultural, linguística e genética da Europa, da Pérsia e de boa parte do subcontinente indiano."


Numa outra passagem deste livro me diverti com o nome  philtrum dado ao pequeno canal entre o nariz e a boca quando o autor nos diz que:


"Aquele risquinho recebe o nome de uma poção mágica! Afinal, a raiz grega por trás  dessa versão da palavra, e também da mais comum filtro, tem ligação com o radical phileo - de amor. Na verdade, o sentido mais básico, mais antigo de filtro em português é poção do amor." 


E assim vou me divertindo com os livros. 





Agora é hora do Som do rugido da Onça, nosso próximo livro para o encontro da Tertúlia que acontecerá em maio.

Trago aqui algumas frases e passagens que considerei espetaculares:

“Ademais, todo castelo guarda em si túmulo e prisão.”

“O mundo é um pasto de maravilhas para quem tiver olhos de ver e alma para crer.
Eu em nada creio, sou um rio. Eu vou e volto, conheço o chão e o céu, compartilho a língua comum de todas as águas, atravesso o tempo. Morro e renasço. Engulo e regurgito. Sei dos animais tristes que são os homens.”




Também li o conto completo de Clarice Lispector, O Búfalo (2), e não quero deixar de trazer aqui um pequeno trecho dele que muito me colocou a pensar:

"Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, estava tudo preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia pedoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar."

Pois bem, ainda por arrumar as malas de volta para meu país, estou como as águas do rio da Onça, “Eu vou e volto”.  Meu neto já me intimou a voltar no seu aniversário de 13 anos. Acho que não terei coragem. As águas do grande Rio chamado Oceano Pacifico continuarão a me amedrontar. Tenho pra mim que, algum dia, ele vai cismar e regurgitar.

Obrigada a vocês que me acompanharam nesta viagem por lugares, livros, sentimentos e pensamentos. Muitos pensamentos.

Christchurch, N.Z., 08/05/2026






(1) Quero agradecer e homenagear nossa colega da Tertúlia Literária de Betim, Ana Claudia Gomes, historiadora com quem tenho aprendido muito durante as discussões dos livros escolhidos e lidos por nós. Ana Claudia tem enriquecido nossas discussões sobre os livros. Jamais esquecerei Dinamene.

                      



(2) Agradeço à colega e amiga Márcia Chagas que me enviou este conto, trabalhado na Oficina de Escrita da OAP em Belo Horizonte.
































sábado, 9 de maio de 2026

Poema: Minha Mãe

 




Minha Mãe


Minha mãe era assim, 

 comum

Sem penduricalhos



Depois do banho

o perfume do sabonete

das roupas limpas,

espalhava-se pela casa

Cheiro de mãe 



Minha mãe era assim

Às vezes emudecida

Outras vezes encantada,

Muitas vezes rezava



Doce, amarga

Serena, intensa

Destemida, encolhida



Em tempos

perdia o riso

perdia o sono

perdia a fome

Até a fé ela perdia



Noutros tempos

desabrochava

em flor

Rosas, margaridas,

 antúrios

violetas



Às vezes flertava

com o fim

Outras vezes cantava

com a vida



Eu amava as duas




10/05/2026












segunda-feira, 4 de maio de 2026

Diário da vovó 8/1: Em casa, a vovó só ficava...


Em casa a vovó só ficava...                 

                                        … lendo.



Se, em minha casa, fico perdida entre os afazeres domésticos, por aqui, tudo ficou ainda pior e nada tem sido diferente. Confesso que, até tento ajudar de alguma forma, mas nunca sei o que devo fazer, como fazer nem por onde começar. Então leio.

Já havia falado do livro que comecei a ler ainda no Brasil, cuja procedência desconheço, mas sei que foi uma leitura deliciosa com a qual me identifiquei muito. Agradeço a quem o deixou comigo e prometo que o passarei para frente conforme combinado.

O Penhoar chinês, editora José Olympio, R.J. 1987, da autora juízforana, Raquel Jardim, que eu não conhecia.

A ação deste romance começa com a retomada de um bordado iniciado no final dos anos 20, encontrado inacabado pela narradora, quando volta à cidade para enterrar a mãe…

Vejam que escrita suave e interessante:  

Os pavões e a China de minha mãe ainda agora surpeendiam, as mulheres não usavamm mais aqueles quimonos e me perguntaram se aquilo era para ser usado. Respondi que sim e lhes contei dos mercadores que vendiam coisas às donas-de-casa, abrindo suas malas nas salas de costura e delas tirando rendas, toalhas, alfaias vindas de todo o mundo, quimonos de seda chinesa com finos bordados, que minha mãe vestia.







Trouxe outro livro na mochila:


Jerusalém, Editora Companhia das Letras, do autor Gonçalo M. Tavares, nascido em Luanda mas vivendo em Portugal. Este livro recebeu os prêmios José Saramago em 2005 e o prêmio Ler/Millenium em 2004. Mais um livro doado, este por um colega da UFJF. Confesso que jamais havia lido um livro assim, nem tão pouco parecido. Um intrincado de fatos que vão desembocar em accontecimentos terríveis. Um vai e vem das narrativas que me deixaram ainda mais desorientada. Leitura difícil e pesada. Não sei se gostei ou não, embora tenha pensado que valeu a pena conhecer a obra de um jovem escritor premiado e tão elogiado .


Assim o descreveu José Saramago:

“Um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos de idade: da vontade de lhe bater!”

Que tal um só paragrafo do livro? 

"Duas vezes pegara já Hanna na arma de Hinnerk e com o pequeno binóculo e com a sua mão pouco firme apontara em direção a uma criança. Numa das vezes havia mesmo perguntado: se a bala chegaria lá.
Estamos longe, respondera Hinnerk"  








Havia também o PDF do primeiro livro escolhido pela Tertúlia Literaria de Betim para este ano de 2026 e eu não queria perder nenhuma leitura dos escolhidos:


A Árvore mais sozinha do mundo, da autora Maria Salomão Carrara, disponibilizado pela equipe eLivros. Será que iria gostar deste livro com um nome tão diferente? Foi a primeira pergunta que me fiz. Entretanto a leitura me pegou de tal jeito que o li em poucos dias, mesmo sendo pelo tablet. Doce e amargo. Alegre e triste. Suave e denso. Lindo demais. O surpreendente final me trouxe gratidão à coordenação da Tertúlia. Já agradeci e, daqui, continuo agradecendo a escolha dele como nosso primeiro livro do ano.

Pequenas passagens do livro que considerei deliciosoas e ou marcantes:

"Quanta mais feia a grota melhor é a agua"

"...todos temos muito a aprender com o humor das cabras."

"Uma filha desta idade ao ver um pai em total abandono de si deve ficar esvaziada de futuros..."
 
"Maria agora quieta investigando essa primeira dor, deve pensar que naquela noite aprendeu algo importante sobre o mundo, mas não. Foi Alice que, olhando a irmã transtornadam, entendeu alguma coisa que não lhe escapou mais, talvez tenha sido a maldade."



 











Na sala conosco, bem ao meu lado, via minha nora lendo Dom Casmurro. Ela pesquisava e nos trazia algumas reflexõs sobre a obra e seu autor. Já queria ler o livro outra vez. Então ela me disse que tinha outro livro dele na estante, descobri bem perto de mim:


Memórias Póstumas de Brás Cubas. E logo comecei a devorá-lo. Não saberia dizer o porquê, mas a obra me deixou bastante incomodada. Sempre adorei a riqueza dos escritos de Machado de Assis. Foi sensacional enveredar por aquele português riquíssimo e suas histórias tortuosas. Embora Machado de Assis tivesse vivido noutra época, retratando aquilo que lhe era contemporâneo, considero cruel quando se fala do lugar do negro e das mulheres enquanto meros propriedades de seus senhores.

Na contra capa desta edição lemos:

"Valendo-se de uma linguagem complexa e sofisticada, com jogos de palavras que desafiam o leitor, Machado de Assis narra a história de Brás Cubas, um homem rico e ocioso, sem grandes ambições na vida, que experimenta uma série de aventuras amorosas e profissionais, mas nunca consegue encontrar um sentido para sua existência."







Eis um pequeno trecho dessa Memórias:

"Renunciei tudo: tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um jeito inebriante e sutil."

Por falar em português, meu filho me havia sugerido um livro diferente. Não gosto de sair do conforto quanto ao gosto das minhas leituras, mas peguei o livro, afinal ele  deu o nome ao seu  livro homenageando o nosso querido Caetano Veloso e ele, também, se chama Caetano. 

Ainda sob o efeito da leitura desse "Latim em pó", aguardarei vocês para a próxima  publicação.

Até


Christchurch, N.Z. 05/05/2026


Observações:

1-Continuarei minhas incursões em outros livros na proxima semana.

2- Agradeço as tertulianas betinenses, Leni Matta e Adriana Melo pelas fotos. 

3- Este belo vaso da folhagem de Costela de Adão está na sala da casa do meu filho e é, carinhosamente, cuidado por minha nora. 

4- Por favor, deixe seu nome no final do comentário, caso queira fazê-lo.