sábado, 28 de março de 2020

Carta para meu neto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VII)




Conselheiro Lafaiete, 28 de março de 2020. 

Meu querido netinho, 

bom dia. 

Acordei hoje com muitas saudades de você. 

Ainda bem que tenho visto você nas nossas ligações, ao vivo, diariamente. Até tomamos, todos juntos, um café da tarde. Mas pelo celular, é claro! E foi muito bacana. Vi que você tem se alimentado muito bem. Parabéns. 

Seu papai e sua mamãe já lhe explicaram sobre esse Coronavírus, eu sei. É por causa dele que temos que ficar dentro de casa. E por causa dele também que não podemos ir até sua casa. E então fico aqui morrendo de saudades de você. 

Vi seu pai lhe ensinando a lavar as vasilhas do almoço. Cuidado para não cair da cadeira, viu? 

Seu pai me mostrou o quadro que fizeram para o dia a dia de vocês. E ele me falou também que você está cumprindo direitinho o período de leituras. 

Dudu, quero lhe dizer que sairemos todos bem desta nossa quarentena, assim se chama esse tempo que ficaremos dentro de casa. Quero lhe dizer também que depois disto tudo iremos brincar muito. Você na sua bicicleta e eu no meu cavalo de pau. Vamos correr em torno da casa como se estivéssemos numa longa estrada. Às vezes teremos que parar debaixo do pé de goiaba como se lá fosse uma lanchonete na beira de estrada. E vamos beber uma água bem fresquinha, tomar um café com pão de queijo e descansar. Meu cavalo também tem que beber água e descansar, pois ele é velho que nem a vovó. 

Dudu, eu te prometo que dormirei na sua casa como sempre tem me pedido. Irei numa quinta-feira para te buscar no SESI. Depois vamos à feirinha. Lá, de novo, vou querer comer mingau de milho verde, ver você dando muitos saltos no pula-pula, dando risadas com seus amiguinhos e conversando com a moça enquanto espera seu suco de laranja com melancia, ou laranja com mamão? E a vovó esqueceu qual é seu suco preferido! 

E no seu aniversário de cinco anos, no final do ano, nós vamos fazer uma festa no sítio junto dos cachorros, dos passarinhos e, é claro, dos seus convidados também. Estamos combinados? 

Esta carta está ficando muito comprida. Mas antes de terminar quero notícias da Nina, do Spock, da Princesa, do Igüi e da Morgana que vai todo dia à sua casa para brincar com seus gatinhos e comer a ração deles. 

Agora já estou terminando, mas antes, quero lhe dizer que você me traz muitas alegrias e que eu te amo muuuiiitooo. 

Quero lhe enviar um beijo e um abraço, mas só de longe, prá você, para o papai e para a mamãe. 

E ainda hoje nos veremos no celular. Ok? 

Então até mais tarde. 


                            Vovó Zarinha 







quinta-feira, 26 de março de 2020

Marias da Rua

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VI)
   
   Da janela da minha infância 

   Na noite longa de outono

   Fecho os olhos

   Escuto os guizos

   dos meus sonhos

   e vejo as Marias

   Maria do Sô Antônio

   Ela barriga d’água

   Ele de passos incertos

   Lá vai ele

   Maria do Sô João

   Nem vejo

   Mas escuto a voz

  -Varre essa casa menina!

   Maria do Sô Pedro

   Andar ligeiro

   mais um filho na barriga

   Maria do Sô Sebastião

   Conversa com a Carolina:

   Dá a bênção minha mãe

   Maria cheia da alegria

   era só poesia 

  
   Maria da frente

   dos mamões de corda

   e do jardim de rosas

   Maria das palavras

   E dos “filhos meus”

   Maria da janela

   Nem me vê

   Olhando prá ela.

   Maria minha mãe

   Levanta dai

   e me beija.


26/03/2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

ALÔ VÓ

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - V)

- Alô Jéssica, minha neta.

- Sua benção vó!

-Deus abençoe. Mas por que você está me ligando tão cedo? Aconteceu alguma coisa?

-Não vó. Eu só quero saber se você e o vô ouviram o pronunciamento do Bolsonaro ontem à noite?

- O que é que aquele homem falou? Não gosto dele não e não acato de nada que ele fala.
Eu fiquei aqui rezando meu terço e meus Padre-Nossos para minha Nossa Senhora do Rosário proteger todos os velhos como eu e que ela tenha piedade dos moradores de ruas e de todos os pobres deste nosso Brasil tão grandão, né Jéssica?

- Vó não escute o que ele falou não, viu? Continue quietinha dentro de casa e, já sabe, se precisar de alguma coisa é só telefonar para nós. Aquele homem só fala o que não deve, viu vó? Ele falou que o tal vírus, que está matando muita gente lá na Itália e que já matou muitos chineses, provoca apenas uma gripezinha de nada e que é para todo mundo voltar ao trabalho e para reabrir as escolas.

- Jéssica, não dô atenção de nada para ele. Não votei nele, não gosto dele e acho ele um pobre coitado dum safado com aqueles filhos dele. Tudo feito da farinha do mesmo saco, como diz seu avô. E véio como eu e seu avô, se tem uma gripezinha, vira tudo a danada da pneumonia.

- Vó, cadê o vô?

- Eh, minha neta, ele tá lá por perto do curral. Nem não dormiu de noite. Ficou parecendo marido de mulher na hora do parto. A vaca Maiada gemeu a noite inteira para nascer sua cria e nada até agora. Tá ele sofrendo com a Maiada. Falei prá ele ter calma que tudo vai dá certo. A natureza sabe o que faz com tudo que Deus botou no mundo.
E como tá sua mãe, Jéssica?

- E vó, ela quase deu um treco aqui depois da fala do presidente. Ficou muito nervosa.
Falou que ele é um irresponsável, que ele tá é querendo matar os velhos para não ter que pagar aposentadoria, que ele já sabe que perdeu a presidência e, agora, quer sair de vítima.E ficou falando sem parar.
Depois vó, ela perdeu o sono, desligou o celular e foi comer doce. Então acalmou, voltou prá cama e dormiu.

-Jéssica, minha neta, cuida direitinho dela. Minha filha mais ocê e seu irmãozinho são tudo  que eu tenho na vida.

-Tá bom vó. Então bom dia e sua benção de novo.

-Deus abençoe.


Conselheiro Lafaiete, 25/03/2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

Dona Quarentena e o fogão a lenha de Dona Mariinha


(DELICADEZAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS --  IV)


Esfrego minhas mãos observando a secura que vem se instalando nelas desde que iniciei minha tranquila quarentena. As lavações com água e sabão, raramente o álcool gel uma vez que não tenho saído de casa, as lavações de roupas e as várias limpezas da casa tem deixado a pele das mãos como uma fina camada de lixa. Não me importo. Nada como cremes e vaselina para deixa-las macias novamente. 

Entretanto tem sido faxinando esta minha casa e separando quinquilharias que uma lembrança de outros tempos me veio à memória, qual seja a cozinha da Dona Mariinha, minha mãe. 

Ela, a cozinha, era como um apêndice da copa que não servia para nada já que, além da janela, por ela entravam e saiam quatro portas. Entretanto minha mãe ainda conseguira instalar ali uma mesa oval, com seis cadeiras (ou quatro?). E, nos tempos do Natal, ainda conseguia um cantinho entre duas paredes para montar seu presépio, cheio de pequenos vasos de flores, casinhas de papelão e a manjedoura onde fiavam Maria, José e Jesus, além do burrinho, da vaca e dos carneirinhos. 

Mas a cozinha era, para mim, o pedaço mais belo da nossa casa. Acabei de medir o espaço ocupado por ela que, mais tarde, seria nosso banheiro. 

Calculando 1,5m de largura por 2,0m de comprimento, nossa cozinha tinha 3m². O fogão fora muito bem construído em alvenaria, sob a supervisão do meu pai, com o famoso xadrez vermelhão. Ele ocupava uma das paredes mais largas. Será que tinha forno acoplado nele? Não consegui lembrar. Provavelmente não uma vez que não caberia naquele minúsculo espaço. No restante da parede onde ele encostava, tinha uma prateleira de tábuas e, nela havia quatro ou cinco latas escurecidas pela fumaça. Arroz. Açúcar. Gordura de porco. Banha de côco. Pó de café. Talvez algumas quitandas. O feijão ficava numa enorme gamela (de madeira), destampado, num quartinho de muros e zinco construído no terreiro para ajudar a guardar o que não cabia dentro de casa. 

Na outra parede tinha a porta da copa e na outra tinha a porta para o quintal, descendo por uma larga escada até o tanque. Ali minha mãe lavava as roupas da casa em dias de sol. Não havia cobertura. Tudo ficava ao tempo. 

E a pia? Esta ficava na parede restante entre as duas portas. Era tão pequena que deveria caber apenas os pratos. Penso que minha mãe deveria lavar as panelas de pedra, ferro e barro no tanque, pois, além de não cabê-las na pia, tinha o pó escuro do carvão grudado nelas. 

A lenha era comprada e entrega por carroças. Uma vez meu pai pediu a mim e à minha irmã que fôssemos encomendá-la a um vendedor que morava do outro lado da cidade. Atravessamos uma longa trilha no meio dos morros e dos matos. 

Não havia geladeira. Havia sim um caldeirão de ferro onde minha mãe fazia nosso angu dizendo que não teríamos anemia, pois partículas de ferro se misturariam nele. Nosso angu era do fubá de moinho d’água trazido da roça. Meus tios, que continuavam morando na cidadezinha de onde viemos, sempre traziam fubá, feijão novo, ovos e frutas da época que tinham em seus quintais ou sítios. Quando eles chegavam era uma grande festa. 

Nas noites de frio e, por aqui ainda faz muito frio, era em torno daquele fogão que juntávamos para aquecer. Seis filhos, mais um ainda no colo, acocorávamos para ouvir minha mãe e meu pai contar história e eles nos contavam muitas histórias. 

Agora, enquanto escrevo, estou nesta mesma casa, já numa ampla cozinha, cheia de armários, com uma enorme mesa de madeira, geladeira, uma adequada pia, fogão a gás, duas janelas, muitas quinquilharias e uma saudade gostosa daquela cozinha que nem tamanho tinha. 

Junto à lembrança da cozinha da Dona Mariinha estou cá matutando se seria preciso haver uma molécula de DNA (ou RNA?) para nos apontar onde está nossa felicidade, nossa alegria, nossos prazeres, nossas vidas? 

Seria necessário um vírus em forma de coroa, invisível, intruso e letal a nos impor tal dona Quarentena e a virar nossas vidas de ponta cabeça? 

Certamente que não. 

Mas e esta dona Quarentena? 

Ela nos obriga a ficar em casa. E nos obriga a olhar o acúmulo de coisas desnecessárias jogadas nos fundos das gavetas, nos armários e por toda a casa. 

Esta Dona Quarentena nos expondo ao ridículo frente às todos estes objetos que o mercado nos enfiou goela abaixo. Este mercado voraz que nos faz trocar de celular a cada seis meses. Que nos deixa endividados com as novas maquiagens. Este mercado sedutor que nos impõe roupas a preço de ouro. 

Lojas de quinquilharias contrabandeadas do Paraguai, ou trazidas da China. 

Estaríamos nos transformando também em quinquilharias? 

Penso que nossos valores éticos e morais jamais estarão nos objetos que podemos comprar, nas cozinhas que podemos construir e planejar. Nos fogões ultramodernos que as lojas nos oferecem por doze vezes sem juros, obviamente já embutidos nas longas prestações. 

Mas, acredito sim que nossas vidas estão ancoradas nos encontros, nas contingências, nos caminhos, ou acocoradas em cantos de fogões, ou nas beiras das estradas, ou nos olhares de quem olha para além dos olhos. 

E o fogão a lenha da Dona Mariinha existiu também para que eu pudesse estar aqui a escrever a importância que ele me desvendou nestes tempos de Dona Quarentena. 

Quando este impertinente vírus se for, caminharei calmamente nas areias das praias, subirei as montanhas, dormirei numa rede ao relento, visitarei meus familiares nas terras de onde vim, irei novamente a Itália (agora tão sofrida), escutarei violeiros, cantarei minhas modas e terei olhos para me ver sendo olhada.



Conselheiro Lafaiete, 23/03/2020


Observação: peço permissão à minha irmã para postar seu comentário neste conto.

"Muito bom! Só uma observação: a estrutura de ferro da prateleira da cozinha está na minha casa, guardada com muito carinho! E a trempe do fogão era grossa por onde circulava água, tínhamos água quente(fervendo) no tanque e no chuveiro! Eta tempo "bão"!" (Maria das Graças Nogueira Rivelli Teixeira)

domingo, 22 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS -- III



História infantil – “A menina que vestiu de alface”


Esta história aconteceu há muitos e muitos anos numa cidadezinha do interior do reino encantado chamado Brasil.

Havia neste reino uma família muito pobre mas muito feliz. O pai trabalhava o dia todo e a mãe, que ficara doente, não podia cuidar dos filhos.

E eram muitos filhos.

Um dos meninos mais velho levantava muito cedo e ia pegar pães na padaria longe de sua casa para vendê-los nas ruas da cidade. O outro menino levava marmitas para os trabalhadores numa mina de manganês muito longe de sua casa. Os outros dois meninos ainda eram bem pequeninos e ficavam em casa.

A irmã mais velha tinha só 15 anos e tomava conta deles. Ela também arrumava toda a casa. Acho que por isto ela era tão brava.

A outra filha era mais nova e tinha que cuidar da lavação do banheiro. E ela cuidava direitinho.

E ainda tinha outra filha. Esta vivia no mundo da lua. Ou seja, vivia lendo histórias dos planetas, das estrelas e de tudo que conseguia pegar na biblioteca da escola. O nome desta filha era Aninha.

Um dia a professora da Aninha disse que haveria uma semana de lições na escola sobre alimentação saudável. Falou também que haveria um teatrinho no último dia.

A menina que gostava de participar de tudo também quis estar no teatro.

Na peça do teatro cada aluno deveria ir vestido de uma fruta, de um legume ou de uma verdura.

Aninha foi sorteada para ser um pé de alface. Achou aquilo muito esquisito. Ela seria um pé de alface?


Prestou bastante atenção nas explicações da professora sobre a importância daquelas folhas tão sem sabor.

Aprendeu que não é o alface, mas a alface. Aprendeu também que a alface tem várias vitaminas e sais minerais importantes para nossa saúde.

Porém como vestir-se de uma alface? E como o pai, que não tinha dinheiro, iria comprar alguma coisa para fazê-la parecer uma alface?

Aninha ficou muito triste.

Foi então que a mãe, mesmo adoentada, levantou-se da cama e foi para a sua máquina de costura.

Comprou um tecido da cor verde parecida com a folha de alface. E ela o vestido mais lindo que a menina já havia visto.

A menina desfilou com sua roupa de alface e sentiu-se a folha mais importante dentre todas as verduras da horta.

Depois deste dia aconteceram duas coisas muito importantes na vida de

Aninha: a mãe dela voltou a costurar e a cuidar da casa e Aninha passou a gostar muito das folhas de alface e de todas as verduras que o pai dela plantava na horta do fundo do quintal de sua casa.

quarta-feira, 18 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS II

 -Alô vó...


 - É esse tal de telefone sem fio que não me deixa em paz. Agora não posso fazer mais nada. É só prosear com meu povo. 

Vem lá Dona Mariinha, toda atrapalhada, equilibrando o aparelhinho nas mãos.

-Sim Jéssica, eu entendi. Ficar que nem galinha choca: só no meu ninho. Eu já tô até descorando viu minha neta. Aqui na roça tá todo mundo falando desse bichinho que ninguém vê, mas que tá fazendo um estrago danado.

- Tô tomando minhas providências. As filhas da Dona Rosa até se ofereceram para trazerem meus remédios do Posto de Saúde. Até vão no armazém do Sô Inácio comprar umas farturas pra mim.

-Oh minha neta, vô te dizer umas coisas dos meus tempos quando a gente nem sabia o que era esse tal de álcool gel. Até agora eu acho que são aqueles docinhos de gelatina com cachaça. Que gostosura e que cheiro bom e a gente ria sem parar depois que empaturrava com eles.

- Jéssica minha neta! Pois fique tranquila viu? Vou aproveitar e lavar as roupas todo dia. Fala pra sua mãe não se agastar. Eu tô bem.

Dona Mariinha desligou seu aparelhinho sem fio e saiu resmungando e falando com as galinhas e com os cachorros:

- Agora veja só! Os moços do rádio não param de falar deste tal de Coronavirus.

Na minha época o que matava eram as cascavéis, as urutus, os gaviões que não deixavam os pintinhos vingarem.

Agora vem dos estrangeiros um bicho tão pequeno que ninguém nem vê e vai pegando todo mundo e nem tem remédio que dê jeito nele.

Eu fico pensando é nos meus filhos nas cidades. Uns encostando nos outros dentro do trem debaixo da terra quando vão e voltam do trabalho. Rezo o terço pra eles toda noite.

Quando um fio meu tinha perebas nos braços e nas pernas eu passava a tal água de alibur que eu gostava de brincar e falava com eles que era água de urubu para espantar a doençada.

Se era nos olhos eu molhava um pedaço de pano limpinho com água boricada e gotejava dentro deles.

Agora essas meninas de hoje falam numa tal de água micelar que é pra limpar as peles. Eu cá que não passo nada na minha cara. Só lavo com água da bica.

Mas eu tô lembrando é que outro dia meu filho me convidou para ir na praia com ele e a mulher dele e meu neto. Eu cai na besteira e fui. Mas tava tão quente aquela excomungada da areia que eu fiquei só matutando nas minhas ideias. Como é que todo mundo fica ali tostando no sol sem fazer nada?

E depois ainda me contaram que tinha uma tal de água viva que tava dentro do mar e estava queimando as pessoas. Como é que esta coisa há de viver dentro desta água toda salgada?

Ainda bem que eu só botei meus pés dentro daquela água. Sei lá... De repente a água via e ia e eu nem sabia se ela voltava. Uma hora inté lembrei do meu véio. Quando ele bebia aquela aguardente de cana – era assim que o dono do alambique lá da fazenda chamava a pinga dele - meu véio ficava sonhando acordado. Dizia que queria conhecer o mar. Morreu sem ver esse trem tão perigoso e tão grande e eu ainda tô viva pra ver um bichinho que a gente não vê e que mesmo assim pode me matar.

E por conta desse tal de Coronacírus tô eu aqui sendo vigiada por meus filhos e até por minha neta Jéssica.

Mas eles podem ficar assossegados. Não quero morrer inda não. Quero ver meus netos crescerem e voarem com as asas que meus fios dão pra eles.

Mas uma coisa eu devo confessar só pra vocês aqui, peraí que caiu um cisco nos meus olhos...

- Havia era tempo que eu não sentia tanto amor dos meus filhos e da minha neta por mim.

terça-feira, 17 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS I






A dor nos joelhos lhe fez lembrar sua idade, 72 anos.

Com a presença do Coronavírus na cidade, no país e no mundo, resolveu aceitar o isolamento que, para ele, já não faria tanta diferença.

Ficara viúvo há mais de vinte anos. Embora não houvesse decidido não casar de novo, não casou.

Continuou suas atividades enquanto farmacêutico responsável pela farmácia da irmã e enquanto funcionário público junto a um grande hospital. Amava os desafios colocados pela dispensação de medicamentos nos plantões tumultuados pelas urgências e emergências.

No amor, um caso aqui. Outro acolá. Um amor desvairado às escondidas. R
espeitava as filhas. 

Sentia que depois de certa idade teria apenas os amigos como companhia.

Havia criado uma rotina de saúde mesmo antes de sua aposentadoria: sem bebedeiras, sem cigarros, sem excessos alimentares, e muitas caminhadas, trabalhos no tal “home office”, muitas leituras e muito rock.

As poesias, guardavam-nas para si. E gostava muito de escrevê-las.

Mas o Coronavírus chegou.

Teria que rearranjar sua rotina de modo a não se estafar com a solidão, agora imposta. E na arrumação de seus guardados encontrou a foto de sua formatura.

Riu do seu cabelo liso e rebelde daqueles tempos. Lembrou-se da colega que, num dos encontros da turma, falou que ele e seu cabelo eram um dos mais bonitos da turma. Vaidoso feito ele só tinha também uma acidez que espantava gregas e troianas. Parecia que vivia sempre em alerta como se estivesse ao alcance de uma predadora.

Olhou a foto da colega e sentiu saudades da faculdade, dos amigos, das meninas e até mesmo dos professores que pegavam no seu pé, ou melhor, no seu cabelo.

Guardou as fotografias, fechou os olhos e viajou nos seus devaneios de jovem saído do interior em busca de um sonho: ser farmacêutico em uma grande unidade hospitalar.

Voltou a si.

Agora este danado de Coronavírus vinha lhe exigir renúncias e resignações. Pegou seu notebook. Abriu no programa onde escrevia suas poesias e escreveu.

Estava de fato inspirado. As lembranças tomaram forma de versos. Então permitiu que duas lágrimas escorressem dos seus olhos ainda vibrantes e belos.

A seguir inspirou profundamente. Pegou seu celular, "esse bichinho indecente" como ele o chamava, e enviou sua poesia para ela. Obviamente que não disse coisa com coisa para justificar seu ato. Nem fora preciso. Os versos falaram por ele.

A seguir desligou a internet e voltou para seu rearranjo de isolamento imposto.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Poema: NA RUA



Na rua

bem defronte a minha casa,

uma corda estirada no chão


dividia os campos

Cada líder a um lado

escolhia seus jogadores

Os mais fortes iam primeiro


Os mais ou menos depois

os demais eram café com leite

Eu ficava no meio

escolhida por outro critério

Queria fazer bonito

Suava, corria, sorria

Mas era logo queimada

E ardia de amores

pelo vizinho que

não entrava na brincadeira.




Observação:
Este poema é um "exercício de casa" proposto pelo mestre e poeta, Ronald Claver, na Oficina de Escrita da segunda aula de fevereiro de 2020

sábado, 7 de março de 2020

Negra



Negra de pano colorido amarrado na cabeça

Quero conhecer seus cabelos. Solte-os


Negra dos pés descalços

Por onde andou? Conte-me




Negra dos dentes brancos, do sorriso esbanjado

Como conseguiu? Invejo-te


Negra dos olhares nobres

Para onde olhas? Que ver também


Negra dos peitos fartos

Por favor, alimente-me


Negra dos passos firmes

Ensina-me a caminhar


Negra que semeia a terra

Colha-me na primavera


Negra que cozinha tão bem

Onde encontra seus sabores?


Negra da senzala

Perdoe o meu silencio

Só queria ser igual a você



06/03/2020