terça-feira, 17 de março de 2020

DELICADEZAS NO ENTREMEIO DO CORONAVÍRUS I






A dor nos joelhos lhe fez lembrar sua idade, 72 anos.

Com a presença do Coronavírus na cidade, no país e no mundo, resolveu aceitar o isolamento que, para ele, já não faria tanta diferença.

Ficara viúvo há mais de vinte anos. Embora não houvesse decidido não casar de novo, não casou.

Continuou suas atividades enquanto farmacêutico responsável pela farmácia da irmã e enquanto funcionário público junto a um grande hospital. Amava os desafios colocados pela dispensação de medicamentos nos plantões tumultuados pelas urgências e emergências.

No amor, um caso aqui. Outro acolá. Um amor desvairado às escondidas. R
espeitava as filhas. 

Sentia que depois de certa idade teria apenas os amigos como companhia.

Havia criado uma rotina de saúde mesmo antes de sua aposentadoria: sem bebedeiras, sem cigarros, sem excessos alimentares, e muitas caminhadas, trabalhos no tal “home office”, muitas leituras e muito rock.

As poesias, guardavam-nas para si. E gostava muito de escrevê-las.

Mas o Coronavírus chegou.

Teria que rearranjar sua rotina de modo a não se estafar com a solidão, agora imposta. E na arrumação de seus guardados encontrou a foto de sua formatura.

Riu do seu cabelo liso e rebelde daqueles tempos. Lembrou-se da colega que, num dos encontros da turma, falou que ele e seu cabelo eram um dos mais bonitos da turma. Vaidoso feito ele só tinha também uma acidez que espantava gregas e troianas. Parecia que vivia sempre em alerta como se estivesse ao alcance de uma predadora.

Olhou a foto da colega e sentiu saudades da faculdade, dos amigos, das meninas e até mesmo dos professores que pegavam no seu pé, ou melhor, no seu cabelo.

Guardou as fotografias, fechou os olhos e viajou nos seus devaneios de jovem saído do interior em busca de um sonho: ser farmacêutico em uma grande unidade hospitalar.

Voltou a si.

Agora este danado de Coronavírus vinha lhe exigir renúncias e resignações. Pegou seu notebook. Abriu no programa onde escrevia suas poesias e escreveu.

Estava de fato inspirado. As lembranças tomaram forma de versos. Então permitiu que duas lágrimas escorressem dos seus olhos ainda vibrantes e belos.

A seguir inspirou profundamente. Pegou seu celular, "esse bichinho indecente" como ele o chamava, e enviou sua poesia para ela. Obviamente que não disse coisa com coisa para justificar seu ato. Nem fora preciso. Os versos falaram por ele.

A seguir desligou a internet e voltou para seu rearranjo de isolamento imposto.

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