domingo, 31 de maio de 2020

Festa no interior - Mini conto

(Delicadezas em tempos de Coronavírus X)

Durante todos os anos da festa do Santíssimo as mocinhas da cidade esperavam pelos rapazes que chagavam de São Paulo. Cada uma se informava acerca do seu pretendente. E a pergunta que todas faziam: “será que ele vem este ano?”. 

Foi num ano desses encontros e desencontros que Lurdinha ficou com o irmão do Bento e este ficara com a prima dela. Nada com haviam planejado. Lurdinha tinha jurado que na festa deste ano não queria amolações, mas esqueceu sua promessa uma vez que não avisara ao seu coração. Bento que imaginou uma grande paixão com Lurdinha, maltratou seu coração e jurou nunca mais voltar à festa do Santíssimo.

E o Santíssimo que nada havia previsto continuou sendo carregado nos andores enfeitados com flores coloridas de papel crepon.


Conselheiro Lafaiete, 31 de maio de 2020



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mês de Maio 2

(Delicadezas em tempos de Coronavírus IX)


No mês de maio tem amor, mãe, presentes 

No mês de maio tem almoço com os filhos, 

tem lombo de panela 

e arroz doce com canela.

Depois tem arrumação 


e solidão.



(Alongamento da Oficina de Escrita)

Mês de Maio 1 - Sonhos


(Delicadezas em tempos de Coronavírus VIII)


Ela sempre sonhou em se casar no mês de maio.

Ele queria em dezembro.

Ela falou do perfume das flores de maio. 

Ele falou do décimo terceiro para a viagem.

Ela abriu mão da viagem de núpcias para casar em maio.

Ele insistiu em se casar em dezembro.

“Mas é época de chuvas!” Lamentou ela.

“Quantos menos convidados presentes melhor. A festa fica mais barata” Argumentou ele.

Ela se calou. Ele se deu por vencedor.

Ela se foi e nunca mais voltou. 

(Alongamento da Oficina de Escrita)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Conceição ou a Rainha de Sabá?


Delicadezas em tempos de Coronavírus - VII



Naquela época já estava obesa. Não lembro se o fato de não andar estava relacionado com isto, se era portadora de alguma outra doença, ou se, simplesmente, gostava de ser levada dentro daquele carrinho.

Mas ainda lembro bem de suas exaltações nos meses de maio quando as flores brancas serpenteavam o vão da pequena ponte sobre a via férrea. Ou quando chegava o frio e ela queria ficar ao sol.

Tanto suas risadas quanto seus xingamentos e deboches se davam em altíssimo tom e reverberava pelo entorno.

Conhecia bem seus súditos e os pontos fracos de cada um, assim chantageava uns, defendia ou culpabilizava outros, sempre de acordo com seus interesses e vontades. Comia exageradamente. Não aceitava as dietas ou os remédios prescritos. Dizia que não precisava daquilo.

Seus banhos exigiam dois ou três eunucos e fazia desses momentos, cerimônias sagradas para si. Exigia roupas limpas, vestidos coloridos, cabelos lavados e água de cheiro. E, como já informei, todos andavam sob suas ordens ou poderiam sofrer terríveis retaliações.

Sobre sua carruagem empurrada por funcionários escolhia os destinos e fazia longas viagens pelos arredores do seu imenso palácio.

Dar um bom dia podia ter como resposta um suave aceno de mão, um bom dia desinteressado ou um palavrão conforme tivesse acordada. Mas ela sempre amanhecia dando ordens e coitado daquele que caísse em seu desagrado. Ela gritava uma infinidade de impropérios tirados do fundo do seu baú.

Quem a visse assim poderia imaginá-la como sendo a famosa rainha das terras de Sabá que teria vivido por volta do século X a.C., ou quem sabe, a terrível Catarina de Médicis. 


Só sei que era uma matrona da realeza mineira.

Conceição era assim, poderosa nas suas atitudes, ferina nas suas palavras e dona de suas vontades. Todos deveriam andar sob seu jugo senão lá vinham xingatórios e muito furdunço.

Sua voz ia do agudo dos gritos de raiva e destempero ao grave de suas histórias dos amores deixados ao leu, passando pela rouquidão quando queria fazer charme, ou pelas estridentes gargalhadas por deboches de alguém.

Ela era assim: uma mulher completamente dona de si. Para ela não fazia a menor diferença seu corpo avantajado, sua pele branca e envelhecida, seus cabelos em desalinho. Todo aquele conjunto desarranjado fazia dela a mulher mais bela de todo seu reino.

E seu reino era toda a vastíssima área do Hospital Colônia de Barbacena com seus vários pavilhões apinhados de “loucos e loucas” abandonados e segregados pela política de assistência psiquiátrica daquele início de século.

E Conceição era a rainha de seu tempo.

Quando morreu foi enterrada com honras de estado e seu carrinho empurrado por vários funcionários daquela unidade hospitalar.

Salve sua alteza, a rainha Conceição!


Observação: esta história foi inspirada na paciente do mesmo nome, interna do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), onde fui “acadêmica de medicina concursada” pela FHEMIG, no ano de 1981. A ela  (e aos demais que ali viveram) rendo muitas homenagens.


(Conselheiro Lafaiete, 27 de maio de 2020)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

VIAGENS NO TERRAÇO

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VI)


Sempre gostei dos serviços de lavações numa casa. Lavar banheiros, lavar o chão, lavar vasilhas e, principalmente lavar roupas. Agora, neste tempo de pandemia e quarentena, voltei às minhas lavações. Acabei descobrindo o tanto que gosto de subir as estreitas escadas até o terraço não apenas para estender minhas roupas lavadas e cheirosas. O que antes seria apenas mais um trabalho doméstico, passou a ser também uma desculpa para escalar os degraus e deslumbrar com minha visão lá de cima.

Minha casa está localizada numa rua pequena, tranquila, com muitos moradores desde o tempo em que fui criança, num dos pontos mais altos da cidade, a mais de mil metros de altitude. Portanto tenho uma visão privilegiada em 360°. Com muitos arames esticados logo percebi que poderia colocar as roupas de modo a não obstruir as imagens mais belas que ficam na parte dos fundos da minha casa.

Se eu olhar em direção retilínea e bem próximo de nós - a nordeste - vejo o que sobrou da mineradora inglesa que extraiu e levou todo nosso manganês. Olho e ainda posso ver a poeira dos minérios subindo, ainda posso escutar as explosões das dinamites nas rochas e ainda posso sintir as trepidações nas janelas de vidro. Por conta disto minha casa sempre teve rachaduras em várias paredes. Hoje, dizem, ainda tem uma barragem de dejetos bem no alto e posso ver muitos eucaliptos plantados na base. Um sobrinho mora bem aos pés de onde estava este “Morro da Mina” causando-nos preocupação embora seja um local encantador.

Se eu olhar a leste vejo as montanhas por onde viajo em direção a Itaverava, Catas Altas da Noruega - (cidade que não conheço e que sempre estou adiando minha visita), Lamin, Piranga, Senhora de Oliveira e minha doce Brás Pires. Se arrisco olhar um pouco mais à esquerda da estrada, encontro Ouro Preto e Mariana. 

Pausa para o trabalho:
“Espere aí, deixe eu arredar aquele lençol para ver Pinheiros Altos, distrito de Piranga, de onde vem a pedra sabão para as panelas, as imagens e tantas outras peças. Passei por lá dentro de um Jeep velho, com meu Tio Padre Zizinho no volante para irmos a Mariana visitar Tio Felício Rivelli."

Por toda a região atrás da minha casa, ainda pode-se ver grandes áreas verdes que, gradualmente vem sendo povoadas. Não gostava de ver o cemitério municipal construído, obviamente, na região mais desvalorizada da cidade onde há um pequeno aglomerado de pessoas das camadas mais pobres da cidade. Ali havia um matadouro (não sei se ainda existe) e, em torno dele, nasceu o Bairro nomeado de JK, mas vingou apenas como Matadouro. Nesta hora toda uma história de miséria social invade meu peito. Mas deixarei, por ora, essas mazelas brasileiras de lado, para falar do meu olhar. Embora meu olhar olhe duas mortes naquela direção.

Recomponho-me desta visão para virar um pouco mais a norte onde, bem perto, vejo outra área verde, com uma trilha por onde, ainda menina e acompanhada da minha irmã também menina, atravessamos algumas vezes indo encomendar “1 metro de lenha” para nosso fogão. Não tínhamos fogão a gás que foi um presente do meu pai para minha mãe no Natal de 1969 e que só chegou ao último dia daquele ano. A trilha era muito erma. Nenhuma casa na redondeza. De um lado dela ainda tem um grande buraco que me faz lembrar a dolina do Pantanal. Sério problema para administração pública uma vez que tal formação geológica tende a desabar no entorno por onde passa uma importante via de acesso, outrora um pedaço da verdadeira Estrada Real que atravessa toda a cidade alta de Conselheiro Lafaiete. Uma honra para nós.

Pausa para um devaneio:
(De vez em quando me vejo também conspirando com os inconfidentes contra os impostos da coroa. Acho que eu seria "Marília de Dirceu")

E bem naquele alto tem uma gigantesca escultura do Cristo como se fosse uma réplica do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Uma praça ampla envolve nosso Cristo que, embora fique na cidade alta, está voltado para a cidade baixa. Logo estamos todos abençoados.

Ainda tenho mais roupas para lavar. Ainda bem! Vou subir de novo até o terraço.

Enquanto trabalho viajo para dentro e para fora de mim e ainda faço atividades físicas.

Minha quarentena tem sido cheia de lembranças e grandes viagens.

Quem sabe amanhã viajo para dentro da rua, por ora esvaziada, mas posso viajar pelo oeste e pelo sul até onde eu quiser. 

Então até amanhã em direção a Barbacena, Juiz de Fora e Rio de Janeiro.
















sexta-feira, 15 de maio de 2020

poema- amanheci mais lerda que ontem

acordei no meio da noite
o ar me sufocava
libertei minha face 

adormeci ainda
no frio
senti calor 
debaixo do cobertor 
de pelos

enfim 
levantei
na cozinha
um café forte 
na janela fechada
reparei
a prisão da alma
no corpo 
esvaziado de mim

acudi o olhar
vi a cidade
envolta no sereno

desci o olhar
o peito doeu
me encontrei 


me vi 
mais lerda que ontem

15/05/2020


quarta-feira, 13 de maio de 2020

AMIGAS PARA SEMPRE


(DELICADEZAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS - V)


-"Mãe, lá em Minas tem minério pra todo lado. Até nas margens das estradas. Olhe aqui!"

Margarida entregou à mãe uma pequena pedra escura que havia apanhado quando, deslumbrada com sua primeira viagem a Minas Gerais, pedira a um motorista que parasse para que pudesse pegar uma pedra. Guardara a relíquia dentro da bolsa como se aquela fosse uma pedra valiosa.

Foi assim que Lúcia reviu Dona Aparecida. Havia combinado com a amiga de infância que voltaria com ela se a mesma fosse visitá-la em seu novo emprego na capital mineira.

As duas se conheceram ainda crianças, no bairro da Moca onde morava a avó de uma delas. Tornaram-se inseparáveis desde então. Mas, como sabido, os sonhos infantis nem sempre acompanham seus sonhadores. E assim se dera com as duas meninas, naquela ocasião, já eram jovens adultas. Cada uma seguira seu caminho. Cada uma buscando seu lugar no mundo.

Margarida cursou contabilidade; trabalhava num escritório no centro de São Paulo e Lúcia acompanhou um grande amor que morava em Belo Horizonte. Continuaram mantendo contato e prometeram uma à outra de se verem uma vez por ano.

No primeiro ano, após a partida de Lúcia, Margarida agendou suas férias tendo alguns dias coincidindo com o período das férias escolares. Telefonou para a amiga e combinaram as viagens. Adiantou o desejo de conhecer a histórica cidade de Ouro Preto e ver as montanhas mineiras.

Depois de passearem pela Pampulha, pela Praça da Liberdade, pela Feira Hippie, pelo Mercado Central, nos dois primeiros dias, foram para Ouro Preto.

Margarida não contava com o encantamento das estradas nem com as pedras nas suas margens. Seus olhos queriam ver além. Percebeu que via mais com o coração do que com os olhos. Não se importou com a emoção nem com as lágrimas. Estava emocionada. Era sua primeira viagem para outro estado brasileiro.

Lúcia, enquanto acompanhava a amiga, ia contando as histórias de Minas que aprendera com o namorado, professor de história e amante dos "Inconfidentes". 

As duas subiam e desciam pelas ladeiras da cidade encantadas com os calçamentos de pedras, com os casarios, com as igrejas e suas artes barrocas que ela já ouvira falar e, principalmente, com a Praça Tiradentes. Às vezes riam com os nomes das repúblicas dos estudantes universitários. Comentavam acerca do grande número de turistas que cruzavam por elas em todos os lugares da cidade.

No final da tarde voltaram para a capital. Margarida, apesar do cansaço, não conseguiu fechar os olhos que saltavam de um lado para outro entre as montanhas e os desfiladeiros da estrada.

Voltando para São Paulo com a amiga, Lúcia, depois de rever seus familiares entrou num ônibus e se dirigiu à casa de Margarida. E foi no abraço dado à dona Aparecida que seu olhar viu outra cena.

O irmão mais velho da amiga estava sentado numa cadeira na área contígua à porta da cozinha. Viu que ele usava um pijama bem maior que seu corpo. Nele chegavam os últimos raios de sol daquele inverno. Antônio não virou para ver a amiga da irmã. Continuaram os abraços e conversas como se ele não estivesse ali. Mas Lúcia não pode deixar de perceber seus movimentos lentos, seu emagrecimento e sua pele muito esbranquiçada.

Durante todo o tempo da visita se viu buscando aquela cena. Ouviu o rapaz pedir uma lata de leite condensado. Notou a voz fraca e irritadiça. A mãe apenas comentou que, “ultimamente ele só come isto”. A amiga disse, com desinteresse, que o irmão estava com uma doença rara que os médicos não descobriam o que era. Já havia feito vários exames e não conseguiam chegar a nenhuma conclusão. Só diziam que ele estava com anemia e sem defesas para outras doenças, mas não conseguiam descobrir a causa. Já havia sido internado devido a crises de diarreia e até tivera pneumonia. Tratavam, davam muitos antibióticos, mas logo piorava novamente. E o rapaz só ia definhando.

Dona Aparecida achava que poderia ser mau-olhado, pois o rapaz era muito bonito e tinha um futuro promissor. Estudava engenharia e já trabalhava como estagiário numa grande empresa de construção civil.

-"É isto. Fizeram alguma coisa muito bem feita para meu filho", dizia Dona Aparecida, resignada com a situação. Lúcia apenas escutava. Lembrava-se do irmão da amiga e das várias colegas que apaixonavam por ele. Nunca havia se interessado por nenhuma delas. Quisera olhar nos olhos do moço e lhe dar um sorriso, entretanto só o viu através das palavras da mãe.

Voltou para Belo Horizonte com a cabeça ainda dentro daquela cena. Não conseguia entender porque não parava de pensar naquela doença esquisita, na solidão, na anemia, no pijama largo, nas réstias de sol e no mau-olhado do irmão da sua amiga que estava mais preocupada com a pedra no meio do caminho das Minas Gerais.

Depois de algumas semanas, Lúcia já tendo retomado sua rotina de estudos num cursinho de pré-vestibular da cidade, escutou uma notícia que lhe chamou a atenção. Médicos e cientistas anunciavam as primeiras mortes, em São Paulo, de doentes portadores da “síndrome da imunodeficiência adquirida” à qual chamaram de SIDA. A doença seria causada por um vírus descoberto recentemente, originário da África e o primeiro caso, descoberto nos Estados Unidos, havia infectado um homem que tinha morrido.

Era final dos anos oitenta do século passado quando o mundo conheceu um vírus que, infectando os homens através das relações sexuais e das transfusões sanguíneas, atacava e destruía todo o sistema de defesa do corpo humano. Muitos jovens morreriam naquela década de noventa.

A partir de então jovens do mundo inteiro foram alertados sobre o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e mudariam seus comportamentos sexuais uma vez que havia uma pedra no meio do caminho.



(Conselheiro Lafaiete, 13/05/2020)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Aldir Blanc é vencido pelo Coronavírus



Leitores

Nesta manhã fomos informados da morte do colega médico, psiquiatra e grande compositor, Aldir Blanc. 

Há quinze dia lemos, com muita tristeza, o apelo de seus familiares pedindo um leito de UTI na cidade do Rio de Janeiro. 

Portador de diabetes e na faixa etária de risco para o Coronavírus, nosso poeta da música se foi.

Logo a seguir um amigo e colega médico, num grupo de rede social, nos envia a letra da música abaixo sugerindo que eu a publicasse pois estaria em conformidade com as paixões dos meus contos.

Aceitei a sugestão dizendo-lhe que, coincidentemente, é uma canções de Aldir Blanc que escuto com maior frequência.

E é publicando esta letra que agradeço e homenageio Aldir Blanc. 

Muito obrigada por ter vivido conosco e nos presenteado com tanta poesia.




Resposta ao tempo

“Batidas na porta da frente é o tempo

Eu bebo um pouquinho pra ter argumento

Mas fico sem jeito, calado, ele ri

Ele zomba do quanto eu chorei

Porque sabe passar e eu não sei

Um dia azul de verão, sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo

Recordo um amor que perdi, ele ri

Diz que somos iguais, se eu notei

Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos

Que amores terminam no escuro, sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto

Que ele adormece as paixões, eu desperto

E o tempo se rói com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder me esquecer”



(Obrigada a você também, Felício, por este presente)

Foto: Cine Teatro Central (Juiz de Fora - MG, minha autoria)