terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ladeira abaixo - Cantada



















Meu amor vem descendo
a ladeira
montado no corcel alaranjado
e meio de lado
me vê embaixo
Desce do motorizado
me abre a porta do amadurecido
e me leva pra sua casa
Deita comigo
me faz de gata
e eu
como uma pata
me derreto nos abraços
Levanta cedo
se apruma
muda o rumo da conversa
e vai-se
Sem dizer palavras
até um outro acaso
marcado na ladeira abaixo

03/10/2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Meus amores


 Aos doze anos enamorei
 do rapaz mais bonito que conheci
 Até me alertarem
 "um pudim de cachaça"
 Meu sonho embriagou-se.
 Aos quinze anos
 apaixonei por outro
 Um vizinho
 sem eira nem beira
 me encantou com as palavras.
 E se foi
 sem me deixar
 Aos dezoito anos
 conheci os amores de Platão.
 Fui tomada,
 um par de olhos verdes
 Aos vinte e dois anos
 me perdi
 amando
 um homem
 bem mais velho
 Aos trinta e cinco anos
 me rendi,
 o cortejar de outro homem
 Aos quarenta e cinco anos
 me apareceu um artista
 poeta e vagabundo
 Fui desejada
 mais que desejei
 Afastei do biscateiro
 Aos cinquenta e nove anos
 quero um amor novo
 que deite comigo
 que conte histórias e
 me empreste seus ouvidos
 para eu falar de mim.


12/10/2016



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Um baile de debutante


   O pai dissera que não pouparia dinheiro para aquela festa. A mãe deveria trabalhar duro para que tudo saísse no mais perfeito requinte. E ela cumpriu bem seu papel nas escolhas de todos os detalhes. O buffet completo viria da capital com toda a decoração nos tons dourados, um capricho da filha. Os vestidos, ternos e acessórios também foram escolhidos e encomendadas as confecções sob medida nas boutiques de lá. Os convites, a menina ou moça definira por letras douradas numa grafia bem clássica.

   Os convidados, em número de quinhentos, foram escolhidos por toda a família. Afinal aquele era o baile de sua única filha mulher.

   Entretanto o pai tivera dificuldades na contratação de um clube na cidade. Alegaram falta de estrutura para tamanha recepção. Restou um clube menor, localizado num bairro de classe baixa. O pai topou o desafio, sugeriu algumas reformas e adaptações. O presidente da associação, lisonjeado com a aceitação daquela sede, investiu ele próprio nas mudanças necessárias.

   Era o ano da copa do mundo de futebol no México e o Brasil seria tricampeão com a seleção canarinho. A alegria reinava por todo o país embora outras situações também dominavam a cena, essas em desespero. Mas a família da moça importava apenas com o sucesso da festa preparada com tanto carinho.

   Na cidade não se falava noutra outra coisa. Todos arriscavam detalhes dos vestidos, do buffet, das lembrancinhas, das músicas escolhidas e até quem dançaria com quem.

   Os quinze pares de amigos e amigas que a acompanharia na valsa foram ricamente vestidos pelos pais da aniversariante. A escolha do tema da festa não agradara a mãe que acabou acatando a decisão da filha. Cinderela. Afinal aquela noite seria dela. Então que se cumprisse todos os desejos incluindo sapatinhos de seda com bordados de cristais.

   Uma equipe especializada em bailes de debutantes fora contratada para que nada faltasse.

   A menina tinha um sonho. Dançar a sua valsa com seu ator de novelas preferido. A recusa do convidado deixara a mocinha inconsolável. As amigas sugeriram vários outros nomes de acordo com a preferência de cada uma delas. Alguns deles foram contactados e novas recusas. Decepção geral. Os pais sabiam o motivo de tantas recusas esfarrapadas. A cor preta da pele. Aquilo sempre fora uma constante na vida deles. Com diplomacia, elegância e muito dinheiro haviam vencido o preconceito por serem afrodescendentes.

   O pai acalentou a filha e pediu confiança na sua escolha para o par na valsa.

   Inventando uma viagem a trabalho, ele foi a São Paulo. Voltou de alma lavada. Havia resolvido a questão. Agora esperar pelo dia da grande festa. E toda a cidade só falava nisto.

   Os moradores do entorno do Clube da Lua limparam suas casas, colocaram flores nas janelas e aguardaram o cortejo festivo. Este fora o jeito deles para presentearam a menina. Tudo ia indo perfeito. Até a natureza adornou o céu de estrelas brilhando e a Terra presenteou com vaga-lumes piscando.

   E chegou a grande noite. O violino anunciou o início do som da orquestra. Estava aberto o baile. Os convidados foram chegando, se acomodando e se encantando com tudo que viam.

   Cinderela apareceu. Estava ainda mais bela em seu vestido de festa. Recebeu todos com alegria contagiante. Às vinte e duas horas fora anunciada a chegada do par para o início da valsa daqueles quinze anos.

   Pela porta principal, sobre um tapete dourado, entra um jovem, elegantemente vestido e com um belo sorriso estampado no rosto. Caminha em direção a Cinderela, estende-lhe a mão no convite a bailar. A menina, surpreendida pela presença daquele seu par, devolve o sorriso e estende-lhe a mão aceitando o convite.

   Edson Arantes do Nascimento bailou pelo Clube da Lua com aquela Cinderela.

   E Pelé, que encantou o mundo inteiro com suas jogadas espetaculares, encantou toda a cidade se apresentando como um verdadeiro pé de valsa.


19/11/2016



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Passariformes


Godelo
um pássaro
de tamanho médio
De tão pretas
suas penas
brilham
azul marinho
Elas chegam
espantam os menores
comem suas refeiçoes
e
botam seus ovos
nos ninhos do Tico-tico
A mãe tica-tica
aquece
e cria os filhotes
como se seus fossem.
Não sabem os
Godelos
que só as fêmeas
dão crias
e
sabem do amor.

26/10/2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Desculpe-me por favor!


   -Desculpe-me por favor!

   Estas foram as únicas palavras possíveis de serem ditas naquele momento. Extremamente constrangida a colega desconversou e nem procurou o abraço tão esperado daquele dia. Enxurradas de lembranças ruins acometeram-na durante todo o resto da festa e adentraram pela noite. Entretanto sendo uma ocasião especial, Tereza precisava se recompor rápido daquele incidente pois queria aproveitar cada minuto ali junto dos colegas dos tempos de faculdade.

   Foi assim que fatos remotos vieram se misturar àqueles de agora. Não se lembrava como começara aquela história de quiromancia. Mas tinha certeza de que havia estudado muito aquela arte cigana durante um tempo de sua juventude. Chegara até a fazer cursos para tal exercício. E fora dessa forma que começou a ler as mãos das amigas, das colegas e de quem lhe pedisse. Nada de comercializar as verdades trazidas nas linhas das mãos. Fazia aquilo por puro deleite.

   Não usava uma bola de cristal, nem um cenário de luzes e cores para dizer do que reservava a vida para cada qual. Pegava a mão contrária àquela usada para a escrita e observava as linhas com seus trajetos, seus formatos, contornos, inclinações, os montes por onde elas caminhavam e seus significados. Para ela tudo aquilo fazia parte de seu imaginário espetacular mas nada dentro de sua realidade.

   Novamente lhe vinha à memória aquilo que o colega havia lhe dito naquela tarde comemorativa dos trinta e cinco anos da formatura em direito. Ela acabrunhada, tentava estar bem. E fizera longas viagens em seu interior. Aquilo lhe deixara sufocada. Quanta besteira não havia dito a tantas pessoas naquela sua mania de falar mais do que a boca lhe permitia.

   Tereza avalia hoje que a quiromancia fora mais uma invenção que possibilitou sua inserção no social. Deste modo ela conhecia e brincava com todos. E mantinha sua vida protegida. Era assim que deveria ter acontecido. Assim, ainda hoje, se livra dos fantasmas que insistem em rondar seus pensamentos. Com  certeza que ela nada sabia de cada um. Só sabia daquilo que as linhas estavam lhe dizendo. Obviamente que acertava em várias situações. Quem nunca sofrera de amor? Quem nunca pensou em ser rico? Quem nunca fora trocado por outro? Quem nunca desejou uma bela carreira? Entretanto ninguém jamais haveria de desejar morrer jovem, ou perder a amada...

   Aquele seu colega era para ela uma incógnita. Considerava-o fora do páreo de suas preferências estéticas. Entretanto jamais ousou duvidar de sua coragem e de seu talento. Desdenhava o colega por baixo daqueles cabelos encaracolados e daquela voz estridente. Era só mais um colega. Tereza sempre estivera mais voltada para si do que para tudo que ocorria no mundo fora dela. E já tinha olhares para outro colega.

   Pois bem, de uns dias para cá vinha recolhendo tudo que se referia ao tal colega. Percebeu que fora muito preconceituosa. Ficou surpresa com tanta informação elogiosa para com ele. Logo passou a desejar conhecer esse colega desconhecido. E deparou-se com um grande cidadão. Com ideologias sócio-políticas parecidas com as suas. Com a mesma dedicação profissional que a sua e por aí afora. E um promotor atuante no interior de Minas. Poderiam ter sido grandes amigos.

   Então viajou para aquele encontro com o desejo enorme de abraçá-lo. Nada precisaria ser dito. Estava no não dito. Implícito. Já haviam trocado algumas poucas palavras no grupo virtual instituído para tal fim. E fora neste implacável recurso tecnológico que ele fizera tal revelação. Lembrou que Tereza havia lido sua mão e dissera que ele viveria até os trinta e cinco anos. “Era por isto. Você não gostava de mim.” Dissera ele na referida mensagem.

   A partir daquelas palavras ela perdera o chão. De vergonha. Desnorteada rumou para a festa. Mas perdeu o abraço. Porém se encantara com a lucidez do colega.

   E Tereza pensou que poderia tentar enganá-lo e reafirmar sua leitura da linha da vida. Diria que teriam sido necessários trinta e cinco anos para que ela tivesse um olhar vivo para ele.



19/10/2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Terceira Gaveta


então
há que se arrumar
tudo misturado
panos de prato
com desenhos de vaca e pato
toalhas de mesa
lá vem a sobremesa
belas passarelas
de crochê
“Um presentinho pra você”
minhas irmãs
na geladeira imãs
volto para minhas gavetas
na primeira talheres miúdos
na segunda talheres graúdos
na terceira meus panos de prato
limpos, perfumados
devo dobrá-los
todos do mesmo jeitim
pontas pra lá
dobras pra cá
enquanto faço assim
esqueço de mim



05/11/2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ana Júlia



a menina
que sacudiu o Brasil
tem nome.
enquanto
nossa geração
viveu em  pesadelos
uma nova geração
acorda
de seu sono
e grita
por educação
e respeito
naqueles tempos
não podíamos falar
então cantamos.
naqueles tempos
não conseguimos sonhar
então fizemos artes
hoje
inspirados em Ana Júlia
vamos novamente
cantar
e fazer artes...

27/10/2016






quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A menina e o beija-flor


O pé era daquele fumo
das folhas raspentas
das flores feias
e do cheiro sem cheiro
Então veio o beija -flor
a menina sem piedade
deu-lhe uma vassourada
Vá lá entender as crianças
O bichinho caiu morto
a menina nem deu fé
O irmão sarcástico gritou
"não vai aprender a ler"
então a menina chorou
apanhou o corpinho morto
fez-lhe uma cova
e o enterrou
Mas a profecia maldita
pegou a menina
que depois
lia, lia e lia
e nada entendia.


01/10/2016




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Revisitar


          Ali
      um grande amor
      eu revi
      ele me sorriu
      e me abraçou
      Ah! 
      Esse tempo
      que não volta mais...

16/10/2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Fábula: O Gato emprestou suas Botas


   Dimitri já não tinha mais onde demarcar seu território com aquele seu líquido urinário mal cheiroso. O apartamento de Susi estava todo contaminado com o cheiro ácido da amônia. Mas o bichano continuava ora aqui ora acolá a urinar por onde encontrasse um espaço ainda não demarcado.
  
 Ele chegou para ela ainda tão pequenino que se escondia em lugares jamais pensado para esconderijo de um gato. Tinha sido acolhido nas ruas da grande cidade onde a mãe gata morrera atropelada e deixou os filhinhos desamparados e esfomeados. A futura dona quando fora escolher com qual deles ficaria disse que deixasse que todos fossem escolhidos e que ela ficaria com o rejeitado.

   Quando Susi chegou em casa com aquele gato-ratinho a mãe fora logo dizendo que ele era cego de um olho. Estava ali o fato de ter sido refugado. Mas aquele detalhe não fizera a menor diferença para o amor entre eles que já havia se instalado. E Dimitri logo procurou de mamar nas tetas secas da Princesa Consuelo a quem não parava de solicitar atenção. Passou a brincar todo o pouco tempo em que permanecia acordado. Cismava de dar corredeiras atrás da mãe arranjada. Dava pinotes no ar e logo se fez um belo gato.

   E numa noite a mãe de Susi escutou uma voz estranha que vinha de algum lugar escondido da casa. Levantou e caminhou em direção àquela voz desconhecida. E lá estava Dimitri batendo longos papos com a Princesa.

  -"Onde fica o aeroporto desta cidade? Preciso urgente fazer uma longa viagem"

  A mulher aterrorizada achou que estava alucinando ao ver um gato falar.
  
 Dai ouviu a vozinha aguda da gata respondendo:
   
-"Sei não. Mas para onde tu queres viajar?"
-"Quero ir para Moscou", respondeu Dimitri.

-"E o que tem lá para se embrenhar em tão perigosa viagem?"

 - "Preciso ir salvar minha Anastácia"

   Agora já era demais. A mulher descabelou de vez. Chamou a filha, dona do gato falante, e a levou para a sala. Susi pensou que ainda estivesse dormindo e sonhando. Dimitri logo pulou em seu colo e lhe pediu que providenciasse suas passagens pois não tinha mais tempo. Precisava salvar sua amada dos revolucionários russos.

   Princesa Consuelo também pulou para o colo de sua dona disputando lugar e atenção.

  -"E eu ficarei aqui sozinha?" Queixou-se ela já enroscando-se toda nos braços de Susi.

   A mãe continuava achando tudo aquilo muito estapafúrdio. Entretanto não conseguiu mais voltar a pregar os olhos bambos de sono.

  Agora a filha discutia com o casal aquela situação e prometeu a Dimitri pensar no caso. E que todos voltassem para a cama. Amanhã seria outro dia.

   E no outro dia ambas, mãe e filha, acharam que tivessem tido uma "Folie a deux". Mas logo depararam com os gatos já em discussão para encaminhar a solução. E foi ouvindo tamanho desespero que surgiu uma ideia gatuna na cabeça da proprietária daqueles gatos tagarelas.

  Então disse ela: 


-"De avião não tem jeito de vocês fazerem a viagem. Quem sabe vocês consigam viajar nos porões de um navio cargueiro? Assim ninguém verá vocês"

 -"E quem disse que eu quero viajar para uma terra gelada e ainda mais dentro de um navio? Nem pensar! Esse moço ai tá é doido de amor. Euzinha não!" Resmungou Princesa Consuelo toda dona de si. 


 Dimitri até então permanecia calado e pensativo.

 -"Já sei. Tive uma ideia. Vou pedir emprestadas ao Gato de Botas suas botas de sete léguas. Assim irei tão rápido e não molharei minhas belas patas peludas." E Dimitri saltou de alegria diante de tal possibilidade.

 Então ficou decidido que Susi levaria Dimitri até as montanhas e de lá ele iria buscar sua amada Anastácia calçado com aquelas botas mágicas emprestadas pelo Senhor Gatos de Botas que ficou de pernas para o ar, sem suas botas, na Praia de Itapuã, em salvador, na Bahia.
  
  Dizem que Dimitri encontrou Anastácia na bucólica cidade de Toledo, na Espanha, para onde ela havia fugido. Casaram no Castelo de Seteais, em Sintra, no Portugal. Tiveram muitos convidados. Susi não foi porque tem medo de avião. E Princesa ficou no seu castelo na Floresta.

  F
icaram sabendo que tudo havido saído nos conformes devido a confusão que aprontaram na lua de mel em cima dos telhados do Castelo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A escrivaninha do meu pai

    Meu pai nunca teve uma escrivaninha alta, se bem que certamente teria desejado ter uma escrivaninha alta e de jacarandá. Ele era dado a palavras bonitas e aos números. Sua caligrafia era impecável e sua aritmética não tinha lugar para erros. Sabia toda a tabuada e se orgulhava das contas feitas de cabeça. Ainda se exibia nas provas dos "novesfora", coisa que eu nunca aprendi nem entendi. 

   Da alta escrivaninha que meu pai não teve eu pegava um avião e viajava por seus atlas e seus países exóticos e desconhecidos. E é obvio que meu pai sempre estava junto em nossas aventuras. Arranjando nossos trajetos e se esbaldando na cabine do piloto.

   Mas, a escrivaninha que meu pai não teve, teria várias gavetas. Numa delas ele guardaria aquele seu estojo de nogueira, dividido em três compartimentos iguais e acolchoados de cetim verde. Ali dentro ficaria seu tesouro. A sua bela  flauta de madeira e aço inoxidável, presente da cunhada e professora de música dos tempos de adolescente. Em outra gaveta ele colocaria suas composições musicais e seus papéis relacionados ao coração.

   Mas, a escrivaninha que meu iria mesmo gostar, teria que ter muitas outras gavetas. Seria necessário uma escrivaninha alta e grande para que ele pudesse guardar suas histórias, seus sorrisos, suas dores, suas alegrias e toda sua família que ele tanto amava.

04/10/2016

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Casa Azul


A Casa Azul   

   Letícia sempre quisera ter sua casa no campo. Assim vivia a cantarolar a música interpretada por sua tão querida Elis Regina: "eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz". Sabia da impossibilidade de concretizar tal sonho naquela época da sua vida diante da turbulência com filhos pequenos, os empregos em cidades diferentes, casamento acabando sem acabar e condições financeiras tal qual a grande maioria de sua classe social naqueles tempos. 

   Até então ainda nem conseguira adquirir seu próprio apartamento. Pagava aluguel desde que se casara e as palavras do pai ressoavam em sua mente: "O dinheiro do aluguel é a prestação de sua casa". Sabia que o pai sempre estivera certo neste e em tantos outros conselhos. Encontrava dificuldades nas pequenas tarefas do seu dia a dia. Como pensar em comprar uma casa?
   Mas tudo isto não lhe impedia de sonhar com uma casa. Aprendeu e assim desejava. Os quartos das crianças deveriam ser voltados para o sol nascente. Sabia também que desejava uma ampla área de serviço pois sempre gostara de lavar roupas. Dizia que enquanto tirava os sujos das roupas também limpava sua alma. E uma biblioteca para seus tesouros, os livros.
   À medida que os filhos foram crescendo foi percebendo que se fazia necessário divorciar também deles. O que podia lhes ensinar já o havia feito. Agora era a vez do voo de cada um. Entretanto faltava-lhe a decisão e o verbo agir nunca fizera parte de sua vida. Era levada pelos outros.
   Um dia, nem sabe como o sucedido sucedeu, a filha mais nova anunciou sua saída de casa. E foi na mesa do café de uma manhã que Juju anunciou:
   -"Preciso estudar e o ambiente nesta casa não tem sido satisfatório para mim"
   Letícia sentiu-se aliviada. Moravam num belo apartamento numa grande cidade e as despesas estavam acima do orçamento dela. Não titubeou. Chamou a filha mais velha e decidiram separar-se. Sofia alugaria um apartamento pequeno e ficaria sozinha. Afinal já havia formado e tinha um emprego que iria lhe garantir a sobrevivência.
   E Letícia sentiu que agora era a sua vez. O que queria ela? Para onde ir? Eram as perguntas que fazia a si e, sabia, que não queria encontrar as respostas.
   Sempre quis viver na sua casinha no campo. Decidiu mudar-se para ela. Afinal a casinha estava lá. Ela, após a separação do marido, havia finalmente construído seu chalé no pé da serra e quase nunca aparecia por lá. A preocupação com as filhas lhe tomava todas as energias. Nada lhe sobrava.
   Contratou um caminhão. Contratou uma ajudante. E mudou. Mudou muito. Agora as noites são só suas. Às vezes um vinho tinto. Sempre uma boa leitura. Seus companheiros os cachorros adotados compartilham sua solidão. Descobriu que podia desejar. E desejou viver muito tempo ainda porque tinha amores deixados no tempo. De lado.
   Agora podia amar sem receio de pecar porque deu um jeito deste verbo escapulir de seu dicionário.
   A casa pintada de azul disse-lhe que seria eternamente sua cúmplice nos pensamentos e nos acasos. E a casa azul resgatou-a de si.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os três

   Elis nunca ficava na cama além do sono. Levantava com o mesmo ânimo de todos os dias. Nada tirava dela a disposição para o trabalho seja na cozinha com o marido ou na loja onde dividia as vendas e as contas com uma amiga arrumada nos tempos recentes. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

amor perdido



uma mensagem
sua
meu coração
bateu forte
li suas muito
poucas palavras
reli
então
tristemente
conclui
nos perdemos
de nós.

06/04/2016

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Reis e Rainhas

   E naquele ano o dia 28 de fevereiro caiu no dia 31 de fevereiro, um belo sábado. Foi um dia muito esperado pois o Sr. Valete de Copas se casaria com a sultana Leah, a dama de Espadas.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Crônica: Uma cuba libre por favor

   E comecei a ler uma nova trilogia cujo primeiro volume, escrito sobre a desventura de um órfão londrino, nascido numa Inglaterra devastada pela fome, por desastrosas condições climáticas e pela peste. Era o ano de 1020, “ano de satã” como fora chamado. Não consegui desviar os olhos daquele primeiro livro, “O Físico”, até muito tarde da noite. Uma taça de um bom vinho seco ao lado e o frio lá fora. Histórias da Inglaterra sempre me seduziram. Mas, ontem fui convidada para uma cerveja com velhas amigas da cidade. Não tive coragem para recusar embora o desejo fosse voltar para minha casinha e me debruçar sobre o livro. Acabei indo e dando carona para duas delas. A terceira não foi. Disse que estava cansada. Lamentamos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Conto infantil: Chiquinho e Balu

   Esta é uma história verdadeira que aconteceu com um menino e seu cachorrinho.

   Chiquinho era um menino muito feliz. Ele morava com sua mãe. O pai morava em outra cidade e vinha vê-lo de vez em quando. Sua mãe trabalhava muito e quase todos os dias. Às vezes até a noite inteira. E ele sempre ficava  na escola ou com as ajudantes que a mãe contratava para cuidar dele. Mas ele gostava mesmo era de brincar com a mãe.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Crônica: Feijoada e galopé

Nem me lembro quando tomei a decisão pela compra deste pedacinho de terra neste lugar. Mas sei que fora como um amor à primeira vista, desses que a gente até esquece da vida da gente pra viver a vida do outro. E foi assim mesmo. Entretanto um lugar, ao invés de nos fazer perder como no amor, nos traz a certeza de um encontro. Esse na solidão e, no meu caso, no contato com a natureza. E eu já me via vivendo ali entre as árvores e os pássaros desde aquele dia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um escorpião no meu pé

   Eu achei aquela ideia ótima. Afinal iríamos mudar para uma casa de esquina cuja frente dava para a rua rica mas com toda uma parte voltada para a minha rua. E esta minha rua era nova, mas mal nascida e pobre. Portanto aquela casa alugada seria um local estratégico. Eu iria morar perto dos ricos, mas sem perder meus muitos amigos daquela rua que eu tanto amava. E éramos deveras muito pobres e muito felizes.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Das Dores



   Quisera o Senhor seu Deus que a vida lhe desse tantos filhos. A mulher, magrela por natureza e judiada pela vida, jamais havia virado uma lua desde aquela primeira noite após seu desdito casamento na roça. Bem que houvera um almoço para os padrinhos. Muitos frangos foram sacrificados para o servir. As galinhas a mãe deixou para os ovos. O macarrão tivera muito araticum colhido no terreiro e cheirava a alho. O arroz ainda da última safra fora socado no velho pilão, herança dos avós, pais de seu pai. Mas fora o tutu, cheio de linguiças e cebolinhas verdes que o pessoal mais gostou.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crônica: " Bonitos em Bonito lV"

           Último dia
   

   Hoje, ao constatar o fato de ter excluído a primeira crônica desta série do meu blog devido à minha  incompetência em informática, tomei ânimo, resolvi voltar a Bonito e escrever nosso último dia naquele paraíso terrestre.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Crônica: Da série " Bonitos em Bonito III"


                             Terceiro dia


   A programação, mais uma vez ditada por minha filha, começaria às seis horas da manhã com nosso café recheado de frutas, pães e uma infinidade de guloseimas. Fiquei na salada de frutas e o meu sempre café com leite e pães variados. Deveríamos chegar ao local estabelecido às sete horas uma vez que nosso grupo seria o primeiro para aquela visitação.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Crônica: " Bonitos em Bonito II"

  Nosso pacote de "turistas ecológicos" neste dia incluía flutuação na Nascente Azul e "Keda d'água". Lá fomos nós em mais uma manhã de um café delicioso. Gosto de acordar em hotéis só por causa desses cafés regados a frutas e muitas variedades de pães. Adoro pães e padarias. A chegada havia sido marcada para as sete horas. Nosso grupo seria o primeiro. Logo que chegamos foram dadas as orientações iniciais acerca da trilha: "jamais sair do caminho" demarcado pela longa passarela de madeira. Caso caísse algum objeto fora desta demarcação, o guia deveria ser comunicado e só ele poderia apanhar o que caiu. Eu fui logo pensando que debaixo daquela madeira, deveria haver muitas cobras pois trata-se de lugares perfeitos para o descanso permanente delas.

domingo, 29 de maio de 2016

Amar em dois tempos

   Morava no interior  e vivia ainda menina nas terras do avô com todos os tios e tias ao redor. Os pais ajudavam na lida pesada e diária do trabalho na terra. Todos viviam e dependiam do que ali fosse produzido. Café, cana para rapadura e bagaço para o gado, arroz de várzea, muito milho para o fubá, para a farinha e para o gado. E tantos outros plantios de época. Havia também um extenso pomar com muitas qualidades de frutas. E havia ainda os filhos e netos da escravidão. Esses eram de casa. Mesmo porque a carta assinada pela princesa Izabel não arrancou deles o respeito, a obediência e a hierarquia. Isto só o tempo e as conquistas de cada um ao final daquele derradeiro século, por todo o próximo e por outros ainda vindouros séculos.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Crônica: Deixar-se perder em BH

   Um cansaço sem explicações tomou conta do meu corpo. Suores molharam minha face e meus cabelos esquentaram minha cabeça. Havia tanto o que fazer naquela sexta-feira e acabei me perdendo entre panelas, xícaras, roupas para lavar, documentos a serem decifrados, almoço e uma infinidade de tarefas a serem executadas.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Pelo retrovisor

   Acordei antes de despertar o meu celular. Outros pormenores me tiraram o sono gostoso do amanhecer.
Café fresco, forte, saboroso e pão com manteiga me acompanharam neste desjejum. Sem frutas. Esqueci de comprá-las. Meus limoeiros estão carregados do galeguinho cheiroso e suculento. Mas limonada pela manhã, jamais.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Crônica: Um que se vai


   Como disse sabiamente minha filha, o fato já era esperado há tempo, mas quando chega a hora percebemos que não estávamos preparados para vivê-lo.

   O do lado era um jovem de trinta e cinco anos. Morreu após se acidentar num caco de vidro e a hemorragia esvair-se e levar junto sua vida. Isto devido ao precário processo de coagulação provocado pela diabetes.

   Mas ali estávamos velando outro homem que se fora. Esse sim nosso velho companheiro. 

   "Ele foi descansar" foi a frase mais ouvida durante todo o velório.

   Ele foi descansar. Como um soldado que luta por sua sobrevivência numa batalha da guerra que não é sua, nosso personagem lutou bravamente para sobreviver a uma fatalidade que lhe deixara tetraplégico e com perdas cognitivas sucessivas após várias infecções hospitalares. 

   Nosso soldado lutou porque amava a vida. Conseguiu estabilizar-se mesmo contra todas as evidências da medicina. Sua guerra solitária não lhe deu tréguas e ele venceu cada batalha como um herói anônimo.

   Agora deixou-se ir. Era a hora.

   Entretanto sua história permanecerá viva em vários de nós. Cada um a seu modo levará junto um pedaço dele. 

  Valente, impulsivo, muitas vezes inconsequente, trazia sérios e desconcertantes problemas na escola quando ainda menino. A mãezinha não sabia por onde mais pedir desculpas e dar-lhe castigos. Se passasse por sua cabeça que um tal menino estivesse olhando enviesado para uma de suas irmãs, coitado daquele. Lá vinha socos.

   Um dia, e há um porque disto, ele cortou a energia da escola. Fizera o danado do trabalho tão bem feito que os técnicos da Cemig levaram três dias para encontrar o defeito e restituir a luz na escola.
Fora o prazo suficiente para que acabasse o castigo de uma irmã e dele próprio depois de uma surra por amores supostos.

   Na adolescência conheceu a cidade grande e se encantou com as ofertas de beleza e sonhos dourados. Não se conteve. Desamarrou de vez dos conselhos valorosos da mãe. Viveu e trabalhou pelo prazer. O preço a pagar ele daria um jeito. 

   E nosso personagem virou homem. Conseguira se fazer amado tanto quanto se fizera indesejado. Gostava de ser assim. Dizia que não acreditava em Deus. Outras vezes dizia que Deus era seu amigo e que viviam juntos.

  Mas fora a matemática o dom que nascera junto do homem que conheci. E foram os números, os problemas, as equações e seu raciocínio lógico que mais me chamou a atenção no dia a dia de nosso relacionamento. Obviamente a alegria de um lado e o puro prazer de outro também foram encantamentos.

  Vieram duas filhas e lhe tornara um pai. Então todo amor do mundo fora posto aos cuidados delas.

  O tempo passou e o pai continuou sua vida de muita alegria.

  Mas hoje, nosso personagem, herói ou anti herói, soldado raso ou cacique, lá se vai. Certamente para outras batalhas.

   Ide. 


14/04/2016


quarta-feira, 30 de março de 2016

João foi reprovado no grupo escolar

     O tempo lá em casa era das vacas magras. Havíamos mudado fazia pouco tempo para aquela cidade grande. Os novos costumes exigiam cuidados e sacrifícios de todos nós, os sete filhos de meus pais. O mais novo nasceria no final daquele mesmo ano de nossa chegada. E ainda havia outro que completaria um ano no mesmo mês do nascimento do esperado. Eu estava com seis anos e já havia sido matriculada no Grupo Escolar assim como minha irmã mais velha um ano que eu. Nós duas éramos de julho. Eu mais gordinha e clara e ela magrinha e morena. 

terça-feira, 15 de março de 2016

 Crônica: Depois de ontem


Nunca entendi porque éramos tão pobres. Meu pai sempre trabalhara muito. Era um homem por demais inteligente e se virava quando o assunto era política. Foi assessor e secretário de políticos famosos da região. Foi funcionário público estadual de carreira da administração fazendária do estado de Minas Gerais. Gostava do que fazia. Sempre nos contava como era procurado pelo povo para ajudar-lhes naquilo que eram suas atribuições, ou seja, guias e documentos fiscais.

quinta-feira, 3 de março de 2016

A menina e a asma

   Um dia sem diferente dos outros, a menina tentou correr mais que tivesse ar nos pulmões para tal façanha sua. As pernas foram enfraquecendo e os passos apressados ficaram pelo desando. A tosse logo tomou lugar e o vermelho apareceu na face da menininha.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Os valentões da minha rua

   Minha rua naquela cidade do interior tinha vários aspectos como todas as outras ruas de todas as cidades do interior de Minas Gerais. Mas aquela rua tinha também tinha suas particularidades. E ela era a minha rua. Minha casa tinha o número 156, escrito numa placa azul que não sei quando nem onde meu pai comprara, mas sei que ela sempre estivera lá. Ali ficava a metade da rua e a partir dali era só ladeira abaixo. Lá no final da minha rua tinha muitos moradores e eu gostava de vê-los passar defronte a minha casa em direção ao centro a cidade. E havia um imenso buraco feito pelas enxurradas logo após estas casas. Era o fim da rua. Depois da reforma minha casa passou a ser uma das únicas casas de laje de toda a rua. E era linda nas cores azul e branca. Embora meu pai fosse atleticano de nascença.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

OUTRA VEZ



                       OUTRA VEZ


    
    Andei por ai sem voz,

    Vaguei no anonimato das letras,

    E não decifrei as palavras.

    Hoje minha voz se faz ouvida,

    As letras me dão um lugar 

    E o sentido das palavras me chega.

    Mais uma vez o amor me aparece.

    Desvestido das roupas do mundo,

    Simples ser.

    Forte por natureza

    E doce na decisão.




14/10/2015




 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

AS MULHERES DA CASA



   Era uma casa diferente. Suntuosa para aquela praça tão humilde. Era de dois andares. Na frente e embaixo tinha várias portas que saiam para a rua num grande e largo passeio. Uma delas, a primeira ao lado do portão, era a entrada. Em cima as janelas foram projetadas sobre cada porta. Eram portas e janelas pintadas de uma cor que eu jamais saberia descrevê-la. Marrom avermelhado? Ou vermelho amarronzado? Só sei que a tal cor brilhava e colava nos dedos.Tinta óleo. Eu saberia futuramente. As paredes eram pintadas de um amarelo quase branco. O conjunto das cores fazia daquela casa a mais bonita da praça. Era uma casa majestosa.

   Ali morava minha avó. Eu era muito pequena. Tinha pouca idade. Mas sabia da doçura que vinha dela. Vivia com vestidos escuros e, em dias de festas, usava seu vestido de uniforme azul marinho do Apostolado da Oração, devota que era do Sagrado Coração de Jesus. Ouvia pouco sua voz. Mas lembro do seu caminhar lento e suave. Às vezes arrastava seu chinelo de couro ou de cordas com brim escuro. Tudo nela me transmitia paz e bondade.

   Morava também sua quarta filha. Minha tia. Esta não se casara. Era linda. Alegre. Dona de si e da casa. Sabia de tudo. Diziam que ela havia recusado bons partidos para cuidar das sobrinhas que ficaram órfãs. E da mãe. Era minha madrinha e eu a amava demais. Mas tinha receio de suas atitudes. Fazia dez coisas ao mesmo tempo. E tudo bem feito. Cortava nossos cabelos. Costurava vestidos lindos. Fazia deliciosas quitandas e falava como ninguém. E sabia o que dizia. Mas era de poucas palavras.

   Ali viviam também as duas meninas cuidadas por minha avó e por esta minha tia. Afinal a mãe, outra tia, morrera no parto. Falecera um ano antes de eu nascer. As meninas eram minhas  companheiras de brincadeiras. E eu tinha muitos ciumes do desvelo de minha tia para com elas. Eram mais velhas que eu apenas dois e três anos. A mais nova tinha o mesmo nome meu.

   Tinha também uma cozinheira. Fia. Era muito preta e eu ficava espantada com tanta brancura nos seus dentes. Ela gostava muito de todas nós e eu acho que ela sempre fora minha protetora naquela casa de mulheres. Eu ficava bem perto dela. Ficava vendo seu trabalhar e adorava vê-la atiçando o fogo. Fia tinha o sorriso mais bonito daquela casa. E ele vinha acompanhado de sua subserviência. Às vezes o fogo estralava e soltava fagulhas para o alto. Outras vezes a madeira escorria água e ela dizia que era lenha verde que chorava quando estava queimando.

    O fogão era muito grande e ocupava quase a metade da metade da cozinha. E tinha muitas bocas. Dentro dele corriam canos que faziam curvas e esquentavam a água daquela casa. Tinha um forno onde Fia assava as variadas quitandas. Ela tinha irmãs e tias que vinham tomar café depois da missa nos domingos. Dizia que sua casa ficava bem pra cima da Fazenda São José do Porto. Onde minha avó morava antes de mudar pra rua. Muito distante da cidade. Pra lá de légua e meia.

   Acho que a Fia revesava a hora de ir a missa com minha Tia pois eram Filhas de Maria e não poderiam deixar de cumprir suas obrigações religiosas.

   E naquela casa ainda havia a Mariquinha. Esta era de nada falar e eu nem chegava perto dela. Tinha medo de seu silêncio e de seus modos. Muito braba e queixosa. Vivia cuidando das roupas para passar. Fazia o serviço sentada e só levantava para trocar as brasas do ferro de passar. Ela fazia um movimento amplo de vai e vem para não deixar a brasa apagar o fogo e virar carvão. Era mais velha. Baixa. E tinha sempre panos enrolando uma das pernas, bem próximo do calcanhar. Devia de ser úlcera varicosa explicava um tio farmacêutico. Mariquinha não era de agradar ninguém. Era só de passar suas roupas. Nunca soube que tivesse família. Acho que só tinha ela e sua brabeza.

   A casa era dividia em três partes e os moradores a ocupavam de acordo com sua importância e serventia. A escada que dava acesso ao andar superior chegava num espaço de nada. Do lado direito ficava a sala de visitas com seus três quartos para as visitas ilustres. Lindos. Arejados e voltados para a praça principal da cidade. De fronte a tal escada ficava o quarto que fora ocupado por Mariquinhas quando já não conseguia descer e subir as escadas do fundo para os quartos debaixo da casa. Era um quarto grande mas muito sombrio. Ou sua ocupante o tornara assim... Será que a Fia também viera dormir ali? Não sei.

   Havia a parte do meio da casa com uma charmosa copa e um belíssimo espaço para a água fresca e uma pia para lavar as mãos. Com ladrilhos hidráulicos nas cores vermelha e branca. Sempre tinha os mais cheirosos sabonetes que vinham de Ubá. E as toalhas sempre limpas. Aqui havia mais dois quartos. Minha avó, minha Tia e minhas primas ocupavam o quarto maior. E eu nunca olhava para aquele outro quarto cuja janela se escondia por detrás da casa.

   Então chegava na grandiosa cozinha com suas enormes janelas para lados diferentes do quintal. E era numa destas janelas que eu ficava olhando para meu mundo além daquele. E eu via coisas que meus olhos marejavam por tanta beleza. A outra escada descia para a parte inferior com uma exagerada sala de banho e um banheiro ao contrário do tamanho. 

   Minha tia dava banho em todas nós de uma só vez. Acho que era para economizar tempo, água quente da serpentina, toalhas e pernas para subir e descer as escadarias. Nossos banhos eram uma festa, ou muitas brigas.

   Portanto eram seis mulheres que moravam naquela casa. Eu e minha irmã, às vezes, ficávamos ali sob os cuidados das mais velhas. E todas as mulheres  usavam vestidos ou saias. O comprimento, modelos e cores eram nos acordos com as idades.

   Entretanto havia um sétimo morador. Um homem que também usava longa saia preta e a quem todas as mulheres referenciavam e tomavam a benção. Eu achava muito esquisito ver minha avó pedindo a benção também. Afinal ela era a mãe dele. Mas ela dizia que ele era o representante do Papa e de Deus aqui na Terra. 

   Era meu Tio, Padre Zizinho, com suas batinas impecáveis. E era ele o ocupante daquele quarto misterioso e que vivia fechado. Minha avó sempre pedia silencio e dizia que ele ficava trancado lá dentro estudando a bíblia e lendo o "breviário". E eu tinha muito respeito por ele mas também tinha muita curiosidade por suas leituras. Jamais ousava olhar para o lado de lá quando passava  pela copa.

   Todavia acho que naquele tempo eu gostava muito das mulheres daquela casa paroquial. 


24/01/2016

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

AMORES SOBREVIVENTES



   Os meninos ainda pequenos e carentes de cuidados já haviam dormido. Apesar do silêncio e do adiantado das horas Letícia não conseguia descansar. Serviu-se de uma taça do seu vinho preferido, sentou-se na poltrona de sempre e deu asas à sua imaginação. Então lembrou de como o conhecera. Ele estava com amigos naquele bar perto do banco. Havia sido transferida recentemente para a cidade e saíra com os colegas numa noite de apresentações. Ela muito tímida tentava mostrar-se descontraída. 
  
    Embora fosse ainda muito jovem já carregava consigo responsabilidades de filha com pais idosos e doentes. Filha única. 
  
    Naquela hora aproveitou a alegria da recepção e deu-se  conta de sua nova vida. Longe dos pais e amigos haveria de encontrar um espaço só seu. A transferência viera como uma promoção. A recusa seria descabida. Juntou a coragem à oportunidade e rumara para o desconhecido. Os pais ficariam bem com os familiares e ela poderia visitá-los uma vez por mês ou quem sabe a cada duas semanas.

   E fora naquele dia que seus olhos encontraram outros a olhar para ela. E, por mais que tentasse evitar, lá iam seus olhos encontrar aquele olhar. Voltou para o hotel arranjado e dormiu feliz aquela noite.

   No dia seguinte, logo após o cafezinho no banco, chegou-lhe flores com um bilhete de boas vindas. Debaixo da assinatura um número de telefone. Venceu aquele dia de metas e atendimentos ao público e voltou para seu quarto de hotel. Pensou muito e acabou decidindo por ligar para o moço, remetente das flores. Marcaram um encontro.

   No devido dia ela se arrumou toda, fez-lhe uma suave maquiagem, vestiu uma roupa do acaso e lá se foi. 

   A noite de um céu limpo e estrelado conspirava para a paixão. Conhecer Douglas lhe trouxera mais força e ânimo para sua nova empreitada. Ele fora educado, gentil e soubera cativá-la para novos encontros. Não era tão jovem quanto Letícia. Já havia tido algumas companheiras e casamento desfeito. Ela escutara sua história sem fazer juízos éticos ou morais. Tudo dele contribuía para aumentar seu desejo. Tão logo se dera conta daquele amor. A partir de então traçara seu destino e investiu seu dinheiro poupado na compra de um apartamento.

   Passado alguns meses foram viver juntos. O casamento viera mais tarde.

   Depois de alguns meses de convivência, Letícia acordou numa manhã com lágrimas nos olhos. Um aperto no peito  e um nó na garganta. Douglas trazia-lhe o café como sempre fazia. Enxugou o rosto molhado e saboreou aquela bebida antes mesmo de se levantar.

   Naquele dia suas metas ficaram longe daquelas conquistadas no seu dia a dia de boa funcionária. Estava distante e nada sabia acerca dos seus pensamentos. No final do dia sentiu-se cansada, o corpo lhe pesava e seu estômago revolvia a comida não ingerida.

   Seu primeiro filho nasceria dai nove meses.

   Sentira que algo mudara na relação com o marido para além da chegada de Pedro. Ele com seu riso escandaloso, seu comportamento ainda com ares de irresponsabilidades e seu futuro, embora já não tão distante, ainda desarranjado. Letícia começava a sentir o peso que lhe caia sobre os ombros embora tivesse clareza da imensidão do amor que continuava nutrindo pelo homem que escolhera como companheiro. Voltara a trabalhar tão logo fora possível distanciar as mamadas. Fazia-se necessário retornar logo uma vez que Douglas vivia trocando de empregos e a chegada do filho aumentara por demais o orçamento da casa. 

   De vez em quando Letícia sorvia um gole de seu vinho e suas lembranças já não lhe doíam o peito.

  A chegada do segundo filho coincidiu com o marido largando mais um emprego. À alegria do nascimento de Arthur juntava-se a tristeza do que viria. Mais uma vez Letícia sentiu-se só. Douglas se  arranjava em serviços nada promissores. Bebia mais que o normal e retardava cada dia mais sua volta para casa. Nesse tempo falecera-lhe a mãe. 

   Dividida entre a solidão do pai e a sua própria, resolvera viver pelos filhos. Passou a trabalhar muito mais e atingia suas metas com muita competência. Junto ao reconhecimento vieram as promoções. E, junto ao novo cargo de gerencia, viera o distanciamento do marido. Ele que, de forma velada, sempre depreciara seu talento, não suportara sua ascensão. Foi o que ela encontrou para desculpar o homem que tanto amava.

  O pai adoecera e Letícia decidiu, com a anuência do marido, que o melhor seria trazê-lo para morar com eles. Pedro e Arthur devolveram ao avô a vontade do viver. De uma só vez ganharam um amigo e um avô. Por esta ocasião sentimentos desconhecidos passaram a existir nela. Vergonha, constrangimento e infelicidade. A presença do pai amoroso, dedicado, correto e doente, fizera-lhe questionar acerca de seu casamento. O marido que já vinha tão afastado, afastara-se ainda mais.

   Se por um lado a presença do pai lhe trouxera tais desconfortos por outro lado a alegria dos filhos e a melhora gradativa da saúde dele lhe restituíra a força para os trabalhos.

   E tudo tomava os rumos de antigamente. Douglas fazia-se mais gentil, permanecia mais nos empregos e continuava a lhe trazer o café na cama.

   Entretanto numa noite o marido não voltara para a casa como de costume. Letícia não dormira. Pela madrugada um telefonema. Uma mulher nervosa e autoritária perguntava por Douglas. Sem que Letícia tivesse tempo para uma resposta, a outra fora logo dizendo: " Ele está dormindo com minha filha de vinte anos. E já faz é tempo que eles estão juntos. Onde você esteve que não viu isto?"

   Só então entendera as lágrimas daquela manhã distante. Ela sabia que esse dia chegaria e chorava pelo que viria. 

   Agora quando a noite já ia alta Letícia colocou mais uma taça de seu pinot noir rosa e bebeu prazerosamente. A seguir certificou-se de que os meninos dormiam tranquilos.

   Então pode chorar pela morte recente do pai. A presença dele com seu silêncio naquela casa fora o bastante para que ela se sentisse amada no momento em que Douglas se fora.

  Teve a certeza de que o tempo dele ao lado dela havia finalizado. Não sentiu ciúmes, desprezo, ódio, mágoa ou coisa parecida. Porém sentiu uma desumana liberdade.

18/01/2016