sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Fábula: O Gato emprestou suas Botas


   Dimitri já não tinha mais onde demarcar seu território com aquele seu líquido urinário mal cheiroso. O apartamento de Susi estava todo contaminado com o cheiro ácido da amônia. Mas o bichano continuava ora aqui ora acolá a urinar por onde encontrasse um espaço ainda não demarcado.
  
 Ele chegou para ela ainda tão pequenino que se escondia em lugares jamais pensado para esconderijo de um gato. Tinha sido acolhido nas ruas da grande cidade onde a mãe gata morrera atropelada e deixou os filhinhos desamparados e esfomeados. A futura dona quando fora escolher com qual deles ficaria disse que deixasse que todos fossem escolhidos e que ela ficaria com o rejeitado.

   Quando Susi chegou em casa com aquele gato-ratinho a mãe fora logo dizendo que ele era cego de um olho. Estava ali o fato de ter sido refugado. Mas aquele detalhe não fizera a menor diferença para o amor entre eles que já havia se instalado. E Dimitri logo procurou de mamar nas tetas secas da Princesa Consuelo a quem não parava de solicitar atenção. Passou a brincar todo o pouco tempo em que permanecia acordado. Cismava de dar corredeiras atrás da mãe arranjada. Dava pinotes no ar e logo se fez um belo gato.

   E numa noite a mãe de Susi escutou uma voz estranha que vinha de algum lugar escondido da casa. Levantou e caminhou em direção àquela voz desconhecida. E lá estava Dimitri batendo longos papos com a Princesa.

  -"Onde fica o aeroporto desta cidade? Preciso urgente fazer uma longa viagem"

  A mulher aterrorizada achou que estava alucinando ao ver um gato falar.
  
 Dai ouviu a vozinha aguda da gata respondendo:
   
-"Sei não. Mas para onde tu queres viajar?"
-"Quero ir para Moscou", respondeu Dimitri.

-"E o que tem lá para se embrenhar em tão perigosa viagem?"

 - "Preciso ir salvar minha Anastácia"

   Agora já era demais. A mulher descabelou de vez. Chamou a filha, dona do gato falante, e a levou para a sala. Susi pensou que ainda estivesse dormindo e sonhando. Dimitri logo pulou em seu colo e lhe pediu que providenciasse suas passagens pois não tinha mais tempo. Precisava salvar sua amada dos revolucionários russos.

   Princesa Consuelo também pulou para o colo de sua dona disputando lugar e atenção.

  -"E eu ficarei aqui sozinha?" Queixou-se ela já enroscando-se toda nos braços de Susi.

   A mãe continuava achando tudo aquilo muito estapafúrdio. Entretanto não conseguiu mais voltar a pregar os olhos bambos de sono.

  Agora a filha discutia com o casal aquela situação e prometeu a Dimitri pensar no caso. E que todos voltassem para a cama. Amanhã seria outro dia.

   E no outro dia ambas, mãe e filha, acharam que tivessem tido uma "Folie a deux". Mas logo depararam com os gatos já em discussão para encaminhar a solução. E foi ouvindo tamanho desespero que surgiu uma ideia gatuna na cabeça da proprietária daqueles gatos tagarelas.

  Então disse ela: 


-"De avião não tem jeito de vocês fazerem a viagem. Quem sabe vocês consigam viajar nos porões de um navio cargueiro? Assim ninguém verá vocês"

 -"E quem disse que eu quero viajar para uma terra gelada e ainda mais dentro de um navio? Nem pensar! Esse moço ai tá é doido de amor. Euzinha não!" Resmungou Princesa Consuelo toda dona de si. 


 Dimitri até então permanecia calado e pensativo.

 -"Já sei. Tive uma ideia. Vou pedir emprestadas ao Gato de Botas suas botas de sete léguas. Assim irei tão rápido e não molharei minhas belas patas peludas." E Dimitri saltou de alegria diante de tal possibilidade.

 Então ficou decidido que Susi levaria Dimitri até as montanhas e de lá ele iria buscar sua amada Anastácia calçado com aquelas botas mágicas emprestadas pelo Senhor Gatos de Botas que ficou de pernas para o ar, sem suas botas, na Praia de Itapuã, em salvador, na Bahia.
  
  Dizem que Dimitri encontrou Anastácia na bucólica cidade de Toledo, na Espanha, para onde ela havia fugido. Casaram no Castelo de Seteais, em Sintra, no Portugal. Tiveram muitos convidados. Susi não foi porque tem medo de avião. E Princesa ficou no seu castelo na Floresta.

  F
icaram sabendo que tudo havido saído nos conformes devido a confusão que aprontaram na lua de mel em cima dos telhados do Castelo.

4 comentários:

  1. Parabéns pela "Fábula" amiga Ma. do Rosário Rivelli, adoro gatos e tão logo vi sua publicação me apressei para lê-la. Dei uma "boa viajada" na minha infância e fiquei bem juntinho do Gato Dimitri, na esperança de chegarmos a Moscou. Só fomos até a Espanha mas valeu a pena, tomamos bons vinhos,vimos lindas e maravilhosas Espanholas dançando nas Tabernas e na Festa do Casamento. Um abraço. Um abraço.

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    1. Helton, seu comentário me foi valioso. Você, certamente, tomou vinho com Dimitri em Portugal

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  2. Explorando a intertextualidade... Salve!

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    1. Obrigada Ana. Deve ter sido esta a proposta do professor. Intertextualidade é uma palavra nova para mim em literatura.

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