sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Crônica: Natureza exuberante



-” Olhe ali que pássaro enorme e lindo! Acho que é um anu branco. Uma vez, há alguns anos, quando aqui era só mato, eu vi um grupo deles pulando no chão. Parecia uma dança orquestrada. Todos pulavam de uma só vez.”

Esta era eu conversando com minha nora - a arquiteta que ora me apresentava suas propostas, desenhos e decorações para minha nova minha casa. E, bem ali ao lado, num pé de ipê branco, o pássaro que de vez em quando aparece voando por aquelas bandas.

Logo a seguir ele zarpou, provavelmente, desconfiado com nossos olhares e os sons de nossas conversas. Decepcionadas com a fuga do pássaro entramos para nosso almoço.

Dai a pouco escuto o vizinho me chamando na cerca entre nossas casas.

- Rivelli, vem aqui, por favor!

Desci até ele que me mostrava o meu pé das flores brancas, plantado por mim logo que voltei de João Pessoa, onde havia me apaixonado pela quantidade delas por todas as casas e jardins da capital paraibana.

Naquele momento meu arbusto estava repleto de grandes larvas que, vorazmente, devoravam suas folhas. Nunca havia visto larvas tão coloridas, grandes e famintas. Meu vizinho, com dois filhos pequenos e outros sobrinhos brincando próximo à cerca, ficou preocupado. Disse-me que não conhecia aquelas larvas. Pegou algumas e levou para seus galináceos que não gostaram daqueles petiscos. Ele que, recentemente, havia encostado sua mão e seu braço nas temíveis “sapatinhas”, temia que uma das crianças pudesse se encantar com aquelas belas cores rastejantes.

- O que você acha que poderíamos fazer? Queimá-las? Cortar a árvore?

- “Não sei.” Respondi.

Então optamos por cortar minha linda árvore da Paraíba.

Meu vizinho, habilidoso feito ele só, foi balançando cada galho e matando as “danadas” que caiam ao chão. Repetia seu cuidadoso ato sob os olhares da criançada. Meu filho também quis assistir à façanha. Fotografou e foi logo procurando identificar o fenômeno no aparelhinho chamado “celular”.

A planta é conhecida com o nome de Jasmim-manga e existem em várias cores - aquela era das flores brancas. A referida planta é chamarisco para as mariposas da família Sphingidae, conhecida como “bruxa”, que nela colocam seus ovos que irão evoluir para as tais lagartas coloridas e gigantes. Estas, por sua vez, podem devorar até três folhas da planta a cada minuto. Não são ofensivas, mas, se sentirem ameaçadas, podem picar a pele sem provocar fortes dores ou dermatites. Mas “a seiva da qual a larva se alimenta faz com que o animal incorpore um látex tóxico que, junto de sua coloração forte, serve como sistema de defesa contra pássaros, répteis ou até mesmo outros insetos.” (*)

Estava explicado porque eu havia visto voando por ali a horrenda mariposa peluda e preta.

E um último e importante detalhe destas lagartas é que elas são alimentos de apenas um pássaro: o anu branco.

Lamentavelmente, por nossa desinformação, matamos aquilo que poderia nos dar um maravilhoso espetáculo, qual seja, bandos de anus brancos se deliciando com aqueles alimentos no meu quintal. 










Lafaiete, 28/02/2020 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Centro de Memória e Ação em Hanseníase Luiz Verganin

Ontem, dia 20 de fevereiro, foi um dia muito especial para mim. Fui conhecer o Centro de Memória e Ação em Hanseníase "Luiz Verganin" localizado na antiga Colônia Santa Isabel, em Betim. O espaço foi construído sobre as ruínas de pedra de um antigo pavilhão onde eram internados e segregados, compulsoriamente, as pessoas portadoras de "lepra" como a doença era chamada.

Fora ali que iniciei minha carreira como psiquiatra em 1984 e aonde fiquei até meados de 2003.
Foram 19 anos de muito trabalho e, mais ainda, de grandes aprendizados.

Na visita fui recebida por Mara, da ONG (alemã) DAHW, que, carinhosa e entusiasticamente, me falou do referido Centro, seu percurso até ali e a inauguração prevista para o próximo mês de março.
O espaço está lindo, amplo, com histórias vivas, com um acervo de peças que contam sobre os diversos tratamentos da Hanseníase em Minas e no Brasil.
Minha estadia foi curta, mas muito intensa. Um filme de dezenove anos passou pela minha cabeça. Revivi momentos ímpares enquanto uma mera médica num lugar de pessoas extraordinárias.

Obrigada Mara. Obrigada Vila. Obrigada e parabéns a DAHW

Convido a todos para conhecerem o Centro de Memória e Ação em Hanseníase Luiz Verganin.
Rua Emílio Ribas, 300. Colônia Santa Isabel. Betim/MG








quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

OPINIÃO: Palavras e Desabafos



Hoje acordei precisando escrever.

Fiquei muito tempo calada, como reitero por diversas vezes (quem me conhece e/ou convive comigo decerto já escutou isso), não acredito que as palavras serão nossa salvação. Não por duvidar do poder delas, pelo contrário, sempre fui maravilhada pelo alcance e pelo impacto da linguagem na sociedade e, consequentemente, na vida das pessoas. A descrença é um pouco mais empírica mesmo, vem da desilusão de ver tudo o que está acontecendo e, mesmo com estudos, pesquisas, estatísticas, às vezes até desenhos, filmes, séries e tudo o mais que as artes verbal e não verbal nos proporcionam, de nada adianta. Basta meia dúzia de palavras (na maioria das vezes: 1- Comunismo; 2- Lula; 3- PT; 4, 5 e 6 - Família Tradicional Brasileira) e vai por água abaixo todo o trabalho sério anteriormente realizado. Precisamos agir. Urgente.

Mas hoje acordei precisando escrever.

Como um desabafo.

Tá difícil.

Difícil me sentir de mãos atadas pra tudo o que está acontecendo aos olhos de quem quiser ver. Não fazem mais questão de esconder o desdém contra o pobre. Não fazem mais questão de esconder o preconceito contra o negro. Não fazem mais questão de esconder a violência contra a mulher. Não fazem mais questão de esconder a intolerância contra os LGBTQI+. Não fazem mais questão de esconder o ódio. Não fazem mais questão de esconder o projeto de Brasil (e quiçá de mundo) branco, opressor, capitalista e patriarcal (redundância? rs).

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que ninguém nasce pobre porque quer, e nem fica pobre porque quer.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que não é porque o menino é negro que ele vai entrar no mundo do crime, ou que ele não é bonito, ou que o cabelo dele é ruim, ou, ainda, que ele não precisa estudar.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que a mulher não é agredida fisicamente pelo namorado, marido, companheiro ou seja por quem for, porque ela usou uma roupa curta ou o respondeu de forma mal educada.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que a menina de 13 anos não foi estuprada porque quis ou porque ela estava se assanhando pra cima do cidadão de bem.

Tá difícil ter que acordar todos os dias e explicar que o gay não pretende estragar a família tradicional brasileira (lê-se: lar abusivo, em situação de violência doméstica e familiar, na maioria das vezes formado por marido + esposa + filhos + amante).

Tá difícil, muito difícil e exaustivo, praticamente implorar pras pessoas se importem umas com as outras.

Uma vez eu li uma coisa que um cara escreveu há uns anos, posso estar enganada mas acho que o nome dele era Jesus de Nazaré: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo".

Pois bem. Estamos falhando nisso, e muito.

Vivemos na esperança de que as pessoas vão se sensibilizar, que foi apenas um momento de frustração, mas em breve elas irão enxergar tudo o que está acontecendo e vão sentir empatia.

Eu senti essa esperança. Perdoei aqueles que defenderam o golpe, perdoei aqueles que votaram em um "fascista concedido" que homenageou um torturador em uma sessão do plenário da Câmara dos Deputados. Perdoei por amor, afeto, amizade, mas, principalmente, para não ser injusta com aquele que "pensa diferente de mim", afinal vivemos em uma democracia.

Enganei a mim mesma durante este tempo usando o termo entre aspas, tentando a todo instante entender o que levaria uma pessoa a defender um cidadão tão deplorável. E todas as opções me pareciam insuficientes, mas eu me forçava a aceitar em prol da harmonia e da famigerada convivência.

Mas a verdade é que eles pensam igual, são incapazes de se indignar com os indígenas sendo friamente assassinados, com as dezenas de crianças morrendo por ações da Polícia Militar (que por si só já seria uma pauta enorme a se tratar, mas vou me ater a tecer apenas este comentário), com as operações policiais nas favelas no combate ao tráfico, quando ao mesmo tempo nada se faz a respeito de um helicóptero de um Senador carregando meia tonelada de cocaína, e 40 kg no avião da FAB, e detalhe, em viagem oficial.

Parece nada mais indigná-los, a não ser dois homens se beijando. Dois homens, porque duas mulheres, ah, aí sim o cidadão de bem aprova.

Ao contrário do mundo perfeito, sem corrupção e sem violência da classe média, a cada minuto que nos quedamos parados, milhares e milhares de pessoas morrem, pouco a pouco, com nossa inércia. Centenas de mulheres são violentadas, centenas de adolescentes são estupradas (e como as estatísticas já se exauriram de demonstrar, a maioria das vezes dentro de casa), centenas de travestis e homens e mulheres trans são agredidos/as nas ruas de todo o país, centenas de homens negros são presos sem qualquer acusação, e mantidos presos sem qualquer prova para tal, centenas de mulheres negras são minimizadas de sua capacidade de ser simplesmente O QUE ELAS QUISEREM.

Daqui, da minha posição de privilégio, já tá extremamente difícil e angustiante ver diante dos meus olhos tudo isso. Mas sei nunca serei capaz de imaginar como está pra quem vivencia a luta diariamente.

Por isso hoje acordei precisando escrever.

Vou usar a licença poética para também usar o chamado recentemente parafraseado por Julia Reichert, e ainda acrescentar:

"Trabalhadores do Brasil, uni-vos! Negros e negras do Brasil, uni-vos! Indígenas do Brasil, uni-vos! Mulheres do Brasil, uni-vos! LGBTQI+ do Brasil, uni-vos!"

Todos nós que nos sentimos parte de alguma minoria (por ironia da língua portuguesa, ainda somos a maioria no país), do Brasil, uni-nos!

O ódio está vencendo. Não deixemos!
A nossa luta é gigantesca, vamos adiante!



Eulalia Nogueira Mota é minha filha, grande companheira, formada em Direito e pós-graduada em Advocacia Criminal.






sábado, 15 de fevereiro de 2020

Você

amanheci sem você hoje
embora seja sempre assim
não me dou acordar só
então te encontro perdido 
nos recônditos de mim.

15/02/2020

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

DECRETO DE CARNAVAL



A partir deste momento procedo à leitura do meu decreto para este carnaval:



Fica decretado que:
nestas terras chamadas Brasilis deverão viver apenas homens e mulheres do coração à esquerda;


Fica decretado que:

todos os trabalhadores e trabalhadoras terão uma fatia dos lucros produzidos por suas forças de trabalho;


Fica decretado que:
petroleiros, professores e todos os trabalhadores, em greve hoje, terão seus direitos constitucionais garantidos;


Fica decretado que:
o SUS (Sistema Ùnico de Saúde) jamais será revogado e que seus princípios de universalidade, equidade e integralidade permanecerão imexíveis;


Fica decretado que:
as empregadas domésticas deverão viajar para onde quiserem e que, para tal, todas as suas conquistas trabalhistas serão devidamente pagas pelos patrões e fiscalizadas pelos orgãos competentes;


Fica decretado que:
os objetos de desejo sexual de todas as pessoas serão respeitados e que nenhum governante ou crença religiosa deverão se meter;


Fica decretado que:

todas as pessoas afrodescendentes receberão títulos de prpriedade das metades das terras cultivadas por seus antepassados;


Fica decretado que:
todos os indígenas terão suas terras nativas preservadas e que nenhuma exploração do capital ocorrerá nelas;


Fica decretado que:

as mulheres serão proprietárias únicas de seus corpos;


Fica decretada que:
a abstinência sexual jamais será um meio de controle da natalidade; que todos os jovens continuem recebendo educação sexual e que vivam sua sexualidade com satisfação e respeito a(o) outra(o).


Fica decretado que:
a ignorância, a desinformação e o ódio perecerão e que as salas de aula terão multiplicados os conteúdos de história, sociologia, filosofia e economia, por todo o país;


Fica decretado que:
todas as crianças deverão brincar de murundus;


Fica decretado que:
o amor, o bem e a paz estarão presentes em todos os foliões neste carnaval.



E tenho dito.


Este decreto entrará em vigor a partir da data de sua publicação e que, eu, uma barba brasileira assim o assino
                    

                  Maria do Rosário Nogueira Rivelli

                            Fecho do Funil, 13 de fevereiro de 2020

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Mão e a Luva - Machado de Assis

Na semana passada, para espanto meu e de todos e todas que amam a literatura, acompanhamos o governador do estado de Rondônia, censurando vários títulos de livros de autores brasileiros. Para mim atos como este caracterizam uma violência ao estado de direito do cidadão brasileiro. É o mesmo que amputar-nos os sonhos, como se tal lhe fosse possível. Não devem saber os imbecis que o desejo nos surge do fruto proibido.

Pois bem, foi então que me caiu às mãos mais um livro do nosso maior escritor, fundador e primeiro presidente da Academia Brasielira de Letras, Joaquim Maria Machado de Assis. Um romance do final do século XIX, A Mão e a Luva, mais uma história dos amores dos jovens da corte do Rio de Janeiro, do Brasil imperial.

Eis aqui uma belíssima frase extraida da página 130, da "Coleção Clássicos da Literatura TAG Curadoria:


"O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si mesma, isso ninguém soube, a não ser as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janelas, como a espreitar aquela alma faminta de luz"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Poema: "Eu sei que vou te amar"


               








Não sei quantos homens deitaram comigo

                      Quantos deles idolatraram meu corpo

                      Nem sei daqueles que souberam meu nome

                      Mas sei que todos gozaram nas minhas entranhas



                      Não sei quantos homens viram a cor dos meus olhos

                      Quantos deles ouviram a minha voz

                      Nem sei daqueles que deixaram de me pagar

                      Mas sei daqueles que empestearam minha pele



                       Não sei quantos homens se lembrarão de mim

                       Quantos ainda vagueiam sobre outras mulheres

                       Nem sei se aprenderam sobre o sexo

                       Mas sei da pureza do meu amor



                       E sei também que vou te amar

                       Por toda minha vida



03/02/2020




sábado, 1 de fevereiro de 2020

Crônica: “Um sonho de liberdade” (*)



Assim como no filme, cujo nome peço emprestado nesta crônica, não havia cometido nenhum crime que justificasse minha fuga naquela aventura. Mesmo eu estando me refugiando. Pulei no trem no movimento de arrancada e deitei sobre o eixo de um dos vagões de modo a ver os trilhos abaixo de mim. - Continuei dormindo - Queria viajar como uma clandestina. Não foi difícil. Calculei que saltaria na próxima parada. O trem atravessava minha cidade e, num cruzamento com arodovia, pulei tranquilamente e caminhei até uma padaria. Pedi um pastel daquela massa caseira, grossa e temperada. O recheio não importava. Talvez queijo como boa mineira que sou.

Acordei ainda agora degustando o sabor da massa.

E, defronte este escrevinhador, procuro desvendar os mistérios do meu sonho. Nada fácil. Mas arriscarei.

Sabemos que as construções de ferrovias brasileiras trouxeram devastações de florestas e mortes de trabalhadores por doenças regionais como a malária e a febre amarela – “cada mourão custou a vida de um trabalhador” nos conta a história. Além de tudo isto as ferrovias não trouxeram a tão programada integração do vasto território nacional como propagandeavam. Entretanto se, naqueles tempos, elas encantaram a engenharia férrea e seus viajantes em tempos passados, hoje levam embora nossas riquezas minerais.

Quantos brasileiros, assim como eu, vertem lágrimas de tristeza e ódio ao verem desfilar diante dos nossos olhos dezenas de vagões carregados dos mais nobres minérios de ferro e tantos outros. Com certeza as minas gerais também choram pela violação de suas entranhas. E choram pela morte de suas montanhas.

Provavelmente que, no meu sonho, gostaria de ter parado estes vagões. Proibi-los da matança de nossos territórios. 


Depois comeria o pastel com uma média de café no popular copo americano assim como fazem milhões de trabalhadores brasileiros nas portas das fábricas. Só queria sentir na pele a força, a coragem e o horror de ser um deles.

Pois então, no meu sonho quero a liberdade para o Brasil preso nas teias do obscurantismo, tragado na paixão pela ignorância e pelo ódio. No meu sonho quero para o meu país uma juventude saudável, gentil, sexuada como sua própria natureza, indo e vindo pelas escolas e universidades federais.

Quero meu país livre desse governo fascista.

Quero nossos filhos e netos vivendo no meu sonho de liberdade.

01/02/2020

(*) Nome do belo e premiado do diretor Frank Darabont, da obra do escritor Shepen Edwin King, de 1995.