sexta-feira, 27 de maio de 2022

Poesia: ABRIL

 



Amo o mês de abril

Abril anuncia as manhãs frescas do outono.

Já no seu primeiro dia há o direito às mentiras

Abril tem ares de liberdade

O solo de abril é multicolorido

Tem o farfalhar das folhas nos ventos

Tem folhas no chão

Às vezes tem a morte de Cristo

Outras vezes tem sua ressurreição

Abril tem o restante da colheita do milho

Tem a terra inchada das sementes

Tem as tardes de sol morno

Não que seja um mês tão especial assim...

Mas abril tem a mim.

27/05/2022

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Crônica: As paixões de Suely

                       


A menina encantou com a história do Tiradentes contada, e matéria de prova, conforme avisou a professora.

Suely tinha apenas treze anos e, mesmo sem o saber, morava bem perto da Vila Rica do alferes. O encanto virou amor. A estudante sonhava com seu herói trotando no cavalo alazão nas trilhas tecidas pelos fazendeiros que compartilhavam dos mesmos ideais contra a coroa de Portugal.

Quando soube que a escola onde havia estudado o primário (era assim que se chamavam os quatro primeiros anos do atual ensino fundamental) era um dos locais onde Tiradentes se encontrava com os inconfidentes, bem ali perto de sua nova escola e de sua casa, seu amor ficou ainda mais sério. Vindo ou voltando da escola, ao passar pelo prédio colonial da antiga escola, silenciava para ouvir as confidências do seu revolucionário com seus companheiros fieis.

Só havia um pequeno detalhe: seu grande amor vivia há quase dois séculos antes dela. Mas isto não lhe trazia nenhum constrangimento. Dizia-se que o amor vencia barreiras de som, de distâncias geográfica e temporal. Ela simplesmente amava aquele homem de nome Joaquim José da Silva Xavier, o seu valente Alferes Tiradentes, como ela o chamava.

Entretanto, uma coisa desestruturou Suely. A escola onde estudava nessa época ficava à margem da estrada real e, se ela dali podia imaginá-lo desfilando garbosamente à frente de seu pelotão de infantaria, não pode se conter ao ver um absurdo. Logo adiante da estrada, pregada bem no alto para que todos os cavaleiros vissem, havia uma placa com os dizeres: “Aqui foi trocada a salmoura da cabeça de Tiradentes no caminho para o Rio de Janeiro”.

Foi então que seu amor por aquele príncipe encantado das Minas Gerais, como um raio, desapareceu. Suely não podia imaginar as madeixas do seu amado salgada como um toucinho engaiolado no alto do açougue.

- “Salmoura? Que Salmoura é essa na cabeça do meu amor?”

E a cabeça do seu amor rolou estrada real abaixo.

Mas eis que no ano seguinte conheceu o verdadeiro príncipe encantado da sua vida de final de adolescência. Nada menos que o príncipe regente do Brasil. Decorou seu nome e dizia de cor: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Entretanto, para ela, era apenas o “Pedrinho”. Mas essa paixão seria apenas fogo de palha. Entretanto, tão logo soube da exuberante Domitila, seu ódio amargou e o fel estuporou dentro de seu corpo. Nem havia se importado com a esposa legítima, a sábia e sofredora Princesa Leopoldina, mas “uma amante linda e poderosa era demais”.

- “Aqueles bigodes portugueses roçando o buço da rapariga também de Vila Rica era indecente por demais”, esbravejava a moça mineira.

Pois bem, embora a distância temporal já houvesse diminuída alguns poucos anos, Suely não suportava a ideia de outra mulher tomar o amor que seria para dela.

Suely virou uma bela mulher. Foi então que começou a rir de suas paixões adolescentes. E desejou ser amada por um homem tão inteligente e revolucionário quanto seu Tiradentes, mas acabou se casando com um homem tão belo e safado quanto seu Pedrinho.

Atualmente Suely ainda vive sonhando com seus príncipes encantados cavalgando pela estrada real..



                           


Fotografias: Petrópolis (arquivo pessoas)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A japona cor de laranja passada



Foi assim. Ele chegou dentro de sua japona cor de laranja passada. Parou defronte a minha casa e me olhou com olhos de menino perdido. Nem consegui saber que cor tinham aqueles olhos. Olhei com desdém. Era um menino feio; sem jeito algum; sem beleza alguma. Só a japona da cor de laranja passada.


De pé, no meio da rua, meu olhar cruzou com o dele. Eu e meus preconceitos nem demos bola para aquele menino esmirrado dentro daquela japona cor de laranja passada. Era mês de março naquele interior dos interiores. Chovia. Será que fazia frio? Nem sei.

Crescemos perto um do outro. Eu e meus preconceitos não o vimos mais. Será que ele estava ali por perto? Nem dei fé caso estivesse. 

De novo o mês de março chegou. Chuvas trazendo lamas para aquela rua nossa.

E outros marços chegaram. Descobri que São José era pai do Menino Jesus. Descobri também que era carpinteiro. Fiquei sabendo que o menino da japona cor de laranja trabalhava como servente de pedreiro. Eu e meus preconceitos não queríamos saber dele.

Virei moça feita. Escolhi namorados tantos e tontos. Nada mais.

A japona cor de laranja passada e seu dono desapareceram.

Numa tarde de um dia de verão ele apareceu. Sem a japona cor de laranja passada. Estava dentro de um Cadillac verde brilhante. Eu e meus preconceitos choramos o tempo da japona cor de laranja passada sabedoras de que não voltaria mais.