segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Crônica: No meio da estrada tinha um homem

 

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - LVIII)



Era de manhã, início de setembro. Já não me lembro mais para onde estava indo. Seria para minha atividade física? Ou seria para meu trabalho? Nada vem ao caso.

Vem ao caso dizer que, lamentavelmente, a grande maioria da malha rodoviária estadual foi construída sem levar em conta o trânsito de pedestres que moram nas regiões rurais ou mesmo aqueles que gostam de caminhar pelas estradas. Eu mesma sempre caminhei por elas. Entretanto tive o privilégio de caminhar por estradas de terra nos interiores dos interiores das Minas Gerais.

Importante lembrar que nosso estado é conhecido em todo o Brasil por suas montanhas fazendo com que as estradas fiquem com muitas curvas perigosas.

Pois bem, dito isto volto aos pensamentos que me acometeram logo após meus olhos me convocarem para uma cena nada incomum. Um homem muito alto, negro retinto, como me ensinou meu filho ao contar-lhe o acaso, muito magro, barba crescida, encaracolada, tufos embranquecidos misturados com tufos pretos, cabelos do mesmo colorido e rente à cabeça. Usava camisa e calça comprida em tons azuis. Enquanto meu carro aproximava, ele olhou para trás e nele li um pedido de carona. Desconsiderei o pedido. Ao passar por ele, vi que ele estava de mão dada a um menino que lhe chegava à cintura. Um filho? Um neto? A criança estava do lado de dentro. Exatamente como deve ser para evitar atropelamentos com a distração dos motoristas, dos acompanhantes ou das crianças.

A partir de então meus pensamentos ganharam asas e lá se foram a me levarem junto. O que teria me chamado a atenção numa cena tão corriqueira na beira das estradas asfaltadas? Talvez a cor tão negra do homem. Talvez o escancaramento das diferenças sociais. Quem sabe o biótipo do homem: tão alto e magro. Seria um dos muitos moradores do acampamento Pátria Livre do outro lado do Rio? Seria minha desconsideração no imaginado pedido de carona? Houve um tempo, na minha juventude, quando eu só viajava de carona. Hoje “os protocolos sociais e clínicos” me orientam a não dar caronas.

Foi então que me vieram, de uma só vez, todas as respostas. E elas chegaram através de uma única palavra ao me lembrar do personagem Tom, do filme infantil “Aristogatas”. Um gato de rua, sem eira nem beira, que, tentando seduzir uma “aristogata” e seus três filhotes, usa todo seu charme, com elegância e criatividade. Obviamente que ele acaba conquistando a bela gata e seus filhotes.

O olhar do homem cruzando com o meu, em menos de um segundo, me demonstrou altivez. É isto. Altivez.

Fiquei pensando que efeitos trariam para aquela criança o fato de ser conduzida com tanta altivez. Com certeza ali estava uma criança segura, feliz e altiva tanto quanto aquele que lhe dava a mão.

Envergonhada na minha condição social acelerei meu carro enquanto meus pensamentos continuavam no homem com a criança tentando equilibrar na beira do asfalto para não serem atropelados.

Mais uma vez me veio a discussão filosófica dos dois modos básicos de estar no mundo: o modo “ter” e o modo “ser”.

Não se compra altivez.



Fotografias: MG 040, trecho bem próximo da cena relatada.

Maria do Rosário N. Rivelli

13/09/2021

sábado, 28 de agosto de 2021

Crônica: As peripécias da Vovó em sua viagem.

 (Delicadezas em tempos de Coronavíurus- LVII)






O aniversário da “menor filha”, como ela se referia à filha mais nova, estava chegando e ela ainda não decidira ir ou não ao interior do estado de São Paulo para abraçar a “menina”.

- "Em trem que avoa e afunda eu não vou", era ela argumentando e resmungando com a filha do meio que ficara encarregada de comprar as passagens. Na verdade, a Vovó queria fazer uma surpresa para a filha. Embora um pouco receosa por viajar sozinha uma vez que vinha estando meio aperrengada.

- “Eu vou de ônibus leito. Vou dormindo.” Decidiu ela por fim. Sempre gostava de fazer suas viagens a noite.

Passagens compradas, arrumou sua mala, uma muda de roupas por dia. Um vestido bonito para abraçar a filha no dia de seus anos. E mais tudo que uma vovó precisa. Comprou um presente para a aniversariante, comprou os queijos que o irmão tanto gosta, ajeitou sua bolsinha de viagem e lá se foi a idosa.

O filho mais velho levou-a à rodoviária, o netinho foi junto, a filha do meio também, afinal a mãe não andando bem de saúde, os cuidados e carinho se faziam necessários.

Toda empoderada e empoleirada e a Vovó tremeu nas pernas ao entrar naquele “Cometa” gigante. Procurou sua poltrona-leito número 61. A referida já estava ocupada por outra idosa tão desorientada quanto a nossa vovó. Um gentil jovem sentado ao lado se ofereceu para “dar uma olhadinha na passagem” quando a filha desta última, preocupada também com a mãe nessas viagens, entrou no apertado corredor e consertou o engano.

Vovó entrou, não sem alguma dificuldade, sentou ao lado do jovem que logo ajeitou uma parte da poltrona que estava acoplada na traseira da poltrona da frente. Manobra feita e sua poltrona transformou-se numa cama. Vovó só olhava. 
“Então é pra isto que esse negócio servia?” Lembrou da última vez que fez a mesma viagem naqueles ônibus cor de rosa, gigantes também, chamados Buser, que para ela pareciam coisas da boneca Barbie.

Naquela viagem, com passagens mais baratas, havia comentado, indignada com as filhas, que as poltronas eram convencionais e suas pernas ficaram dependuradas, um verdadeiro sacrifício para ela, uma vez que só havia um “escorregador” para apoiá-las. Agora descobriu que “aquele escorregador” exigia uma técnica para se transformar numa poltrona-leito. 

A seguir, deitada e aconchegada ao travesseiro oferecido junto com uma manta, lá se foi ela.

Mas a vovó nem esperou descer a serra de Igarapé. Dormiu antes. Já havia avisado ao jovem companheiro que, caso roncasse, era para acordá-la. Ele só apontou para seu fone devidamente colocado nos seus ouvidos. E um sorriso dele aliviou a culpa antecipada pelos possíveis e indecentes roncos.

Não acordou na primeira parada. Aquela bem chique e modernosa, na cidade de Oliveira, no sul das Minas Gerais. Mas um despertador infalível acordou-a mais a frente. Sua bexiga. O terrível incômodo do líquido amarelado ultrapassando a capacidade volumétrica da bexiga junto à flacidez dos músculos perineais, deixaram nossa vovó acordada e inquieta. "Ainda bem que não existem quebra-molas nesta Fernão Dias senão vou sentir o líquido morno escorrendo por entre minhas pernas." Era ela confabulando consigo mesma. 

Mas, heroicamente, ela suportou até a próxima e última parada. Aquela nada chique nem modernosa. Mas ela nem se importou. Eram meros detalhes para esvaziar sua bexiga. Ainda meio dormindo desceu tateando as poltronas no escuro. Ao sair tentou ler a placa do gigante para não entrar em ônibus errado. Foi ao banheiro. Só então percebeu que havia trazido a enorme manta da poltrona-leito. “E agora?” Pensou ela e continuou: “Como fazer xixi, segurar a bolsa, seu lindo cachecol e o cobertor?”

“Será quando as mulheres arquitetas começarão a desenhar toilettes, cozinhas e quartos? Nunca vi um banheiro decente. Nunca existem cabides e outros confortos indispensáveis para um banheiro feminino? Quiça para homens também”

Mas ela se arranjou. Saiu e quis fazer um lanche. Olhou a lanchonete. Nada lhe seduzia. Entretanto, como boa mineira, optou por café com leite e pão de queijo. Então observou a lanchonete vazia e deu jeito de terminar seu lanche. Ao voltar para o ônibus se perdeu. Não lembrava o número da placa lido ainda sem acordar. Apenas um gigante encostado na plataforma. Belo Horizonte – Campinas eram as letras iluminadas.

“Perdi meu ônibus.” Nem exasperou. Talvez ainda estivesse dormindo. Viu o motorista aproximando. Com sua surdez crescente e a máscara inviabilizando a leitura labial, teve grandes dificuldades para perguntar e ouvir a resposta. Mas, de alguma forma, entendeu ser aquele “seu ônibus”. Entrou catando cavacos. Ajeitou-se. Adormeceu novamente. Acordou na rodoviária da cidade de Sandy e Junior. Vovó gostava muito daquela dupla de irmãos embora preferisse a dupla mais velha dos irmãos, Chitãozinho e Xororó. Ali desceram quase todos os passageiros. Inclusive o jovem do seu lado. Agora podia roncar à vontade. 

Acordou na simpática e exuberante Sorocaba, seu destino dentro daquele turbo.

Arrastou sua mala até a sala de desembarque e logo a “menor filha” ligou. Estava ali com o tio. Foi uma alegria danada. Rever a filha tão longe, no dia de seu aniversário, teria sido o maior presente para si mesma. 

Itapetininga seria seu destino final. Com conforto total e muito bem acompanhada. Sabemos que a Vovó adora o seu irmão, sua cunhada, seus sobrinhos e a cidade onde escolheram para viver.

Tendo a certeza de que virara uma idosa de verdade, nossa vovó já pensava na volta, na bexiga cheia, nos roncos apavorantes e nas tantas viagens que ainda desejava fazer.

Entretanto, quando estivesse de volta para casa, seria a hora de restabelecer à sua rotina. Há que se dizer que ela se sente muito bem no seu dia a dia. E ficar em casa com seus livros, com seus pensamentos e com suas estrelas tem sido sua grande viagem.



Nascer do sol em Itapetininga







                                       Por do sol em Itapetininga



Fotografia de abertura: Cristiane Vilhena

Fotografias no final: Alda Lucia Carvalho Rivelli

28/08/2021





sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A foto do ex-presidente Lula

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - LVI)


Esta semana a foto do ex-presidente Lula com sua atual companheira, Janja, em noite de lua cheia, chamou atenção dos internautas por diversos motivos. Fiquei ao lado daqueles comentários que exaltaram sua jovialidade, delicadeza e sensualidade. Ignorei os demais.


Na manhã seguinte o celular me despertou de uma sonho quase real. Eu estava sendo abraçada por um homem tal e qual Lula. Foi muito bom.

Viva a sensualidade dos homens e mulheres que tem ideais de justiça social, de uma nação soberana e de um povo sem miséria.

26/08/2021

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Lançamento virtual "Olhares Clínicos"

 






Em tempos de destemperanças, é preciso bordar poesias.

Gostaria de apresentar nosso livro, “Olhares Clínicos”, uma coletânea dos escritos de sete colegas que se reencontraram depois de trinta anos de formados e se identificaram na literatura e no humanismo hipocrático da prática médica.

“Olhares Clínicos" traz aquilo que, de cada um, transborda da alma.

O livro foi lançado dia 18 de outubro de 2019 em Juiz de Fora, cidade onde o grupo se formou pela UFJF em 1981. A seguir, seria lançado nas cidades onde cada colega escritor reside atualmente. Entretanto a chegada da Pandemia inviabilizou nosso projeto. 

Hoje ouso lançá-lo virtualmente. Informo que o valor arrecadado será doado para a Casa dos Amigos São Vicente de Paula, na pequena cidade de Brás Pires (MG), conforme decidido pelos autores.

Valor (incluindo frete): *R$40,00*.

Quem se interessar pelo livro, entrar em contato comigo no particular, com mensagem de texto, pelo WhatsApp:  (31) 996126423

 Maria do Rosário Rivelli

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Primeira Oficina de Agosto

 


                     


Primeira oficina de agosto 2021

Abertura: Você teme o mês de agosto? Sim. Não. Por quê?

Resposta: Não temo o mês de agosto. Ao contrário, amo este mês tão cheio de mistérios e enigmas. Tudo nele vem montado nos ventos. Às vezes os ventos, apaixonados pelas brisas, nos trazem sussurros de amores.


Alongamento -1


Os Moinhos de vento sempre me encantaram. A descoberta da energia produzida por eles trouxe grandes benefícios para a humanidade. A misteriosa força dos ventos que os povos dos países baixos transformaram em sobrevivência contra as impiedosas marés do norte.

Entretanto é em Dom Quixote onde mais me inspiro nos "seus moinhos de vento". Ao enfrentá-los como seus inimigos internos, Dom Quixote, na verdade mata os horrores dilacerantes efetuados pelo amor à Dulcineia.

Sou como os ventos. Ora eles me destroem com sua fúria, ora eles me trazem vida com suas sementes.


Alongamento - 2
As cortinas de seda sempre enfeitaram as casas das madames. Eu adorava entrar naquelas casas para montar nos ventos e descobrir todos os segredos daquelas casas.


Alongamento - 3

Soltar papagaios sempre foi coisas de meninos. Meninas decentes não podiam fazer aquilo. Era prazer demais para uma menina que iria virar mulher. Então ela ficava vendo os papagaios nos ares do desbarrancado e sonhava com as mãos dos meninos bulinando as linhas do seu corpo.



Alongamento – 4


Ventos de agosto

O meu primeiro amor o vento levou. O vento levou o meu primeiro amor. Desde então viajo nos redemoinhos a procura dele. Um tal vento leste me disse que ele montou numa nuvem e foi para os Andes. Lá ele vivia brincando nas águas altas e geladas do lago Titicaca. Outro vento me segredou que, desiludido na vida, ele foi viver com os maoris numa exuberante ilha da Nova Zelândia. E hoje ele vive nas selvas com uma mulher encantadora de baleias.

Continuo procurando o meu primeiro amor. Agora menos que antes. Nos meses de agosto fico atenta. Vai que um vento forte me pegue desatenta e me leva prá lá. Não quero ver meu amor assim bem casado.

Outro dia. Ainda em agosto, tive o desgosto de saber que ele virou pai. Nasceu uma menina. Meu amor, disseram, endoideceu. A menina tinha os meus olhos e a minha pele. Acabaram me contando que ele entrou nos olhos dela. Perdeu-se de vez no olhar.

Atualmente ele vive pedindo aos deuses das matas neozelandesas que o transformem numa tempestade marítima e o devolvam para o seu primeiro amor.
Estou a esperar.


Maria do Rosário Nogueira Rivelli

15/08/2021

Observação: Sempre em gratidão com o poeta 
Ronald Claver, meu mestre das escritas.










sábado, 31 de julho de 2021

Crônica: Abelhas, andorinhas, tico-tico-rei e rolinhas

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - LV)

Sempre fui alérgica a picadas de insetos. Com os anos passados a pele muito branca deu de ficar ainda mais susceptível a tais reações. No inverno são blusas e meias a me protegerem das picadas. No verão é um sofrimento só. Repelentes servem de perfumes para atrair os danados. Cremes antialérgicos fazem parte das várias compras nas farmácias.


E vejam o que ouvi, recentemente de um colega, sobre sua mais nova aquisição. Uma colmeia de abelhas nativas. Não contente com a novidade contada, insistiu para que eu também criasse tais abelhas no meu sítio.

- “Sou alérgica a picadas. Imagine picadas de abelhas!” Retruquei com meu colega.

- “Elas não têm ferrões. São nativas. Não são as africanas.” Era ele de novo.

E o assunto continuou com as abelhas já zunindo em torno de mim.

Lembrei de um dia, já bem distante no tempo, durante um almoço num restaurante campestre, quando eu ainda tomava refrigerantes. Ao beber o resto de Coca-Cola deixada na latinha pelo meu filho fui picada por uma abelha africana que se negou a dividir o resto comigo. A danada estava lá dentro. O ferrão alojou na ponta da minha língua. Não fosse a presença de um colega médico e a pinça na bolsa de uma convidada e eu teria ido parar no hospital. Imediatamente o rosto ganhou o aspecto de uma melancia. Vermelha e gigante. Comprimidos de antialérgicos apareceram de várias bolsas por ali. O proprietário do restaurante veio em auxílio e me encaminhou para uma salinha de primeiros socorros.

Eu e as abelhas nunca nos demos bem. Elas para lá e eu para cá.

Entretanto aconteceu um imprevisto por aqui. A casinha charmosa onde coloco diversos grãos misturados com fubá grosso para atrair os pássaros da região, foi dominada pelas abelhas. O jardineiro alertou: “a senhora não pode colocar fubá. Tem que ser canjiquinha. Vem cá para senhora ver as abelhas carregando o fubá nas patas”. Lá fui eu, corajosamente, ver a cena. Dezenas de abelhas, operárias, transportando o fubá nas patinhas. Nenhuma sobra para os passarinhos que não se aventuravam a disputarem a comida. Teriam medo, como eu, dos ferrões das africanas?

Outro dia fui surpreendida com um tico-tico- rei bicando o chão, debaixo da casinha. As rolinhas levantam suas asas e rodam a baiana. Conseguem subtrair das voadoras alguns grãos. Por alguns segundos elas espantam as ditas. Os canários da terra sumiram. E hoje, enquanto fico defronte a este escrevinhador digital, vejo andorinhas dividindo a bandeja do fubá com as abelhas. Corajosas estas avezinhas ligeiras.

Ainda com muito receio delas, já estou me acostumando com essas tais. Coloco a mistura com elas farejando em volta. E não me picam. Arredam para receber o manjar.

Será que elas já me conhecem? Ou será que meu sangue já não é tão nobre?

Por essas e outras já avisei para os vizinhos:

“Caso alguma delas resolva me estranhar, corram comigo para o PA senão poderei morrer sem ar.”


Ilustração: desenho feito por meu neto, Eduardo, de cinco anos.

P.S.: E, enquanto organizo esta publicação, minhas mãos foram picadas pelos tais mosquitinhos invisíveis. Já estão vermelhas e com pruridos intensos. Oh! My God


30/07/2021



O Carcará

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - LIV)

 





O Carcará

Lá estava ele. Pomposo. Equilibrando na estaca da cerca. Seus olhos de águia e seu faro de cão não perderiam a suposta presa.

- “Vejam lá o carcará! Ele é muito bonito”. Assim gritou o homem que o mostrava ao filho pequeno.

Grande e imponente carcará – pensou sem dizê-lo ao menino.

- “Ele está procurando sua namorada”. Respondeu o menino.

E o carcará, sem dar bolas para pai e filho, voou pela campina seca do inverno. Com certeza encontrou uma apetitosa presa. Um rato. Um preá. Um ninho cheio de filhotes de canária do campo. Sem culpa ou piedade o carcará devorará a todos que cruzar seu olhar.

Assim são os predadores, sejam eles animais irracionais ou sejam homens e mulheres à caça de outros limites sem lei. O prazer subjugando a honra.

- Pai, acho que o carcará encontrou sua namorada. Agora, vão viver felizes para sempre.

25/07/2021






(Tarde de domingo com o filho, a nora e o neto de cinco anos no Campus da UFSJ - Ouro Branco - MG)


Fotografia: "Não é um carcará, mãe" informou meu filho para minha tristeza.

sábado, 17 de julho de 2021

Devaneios - 1

 

“De que pode servir calar, quem cala nunca se há de falar, o que se sente? Sempre se há de sentir, o que se fala!”. 


Gregório de Matos foi poeta brasileiro. A figura mais importante da época colonial. O maior poeta do barroco brasileiro. Por suas críticas à sociedade baiana, recebeu o apelido de "Boca do Inferno" .Gregório de Matos nasceu em Salvador, Bahia, no dia 23 de dezembro de 1636. Filho de pai português e mãe baiana, frequentou o Colégio da Companhia de Jesus. Foi estudar na Universidade de Coimbra. 

Em 1661 já está casado e formado em Direito. Neste mesmo ano, é nomeado juiz em Alcácer do Sal, no Alentejo. Volta à Salvador, nomeado procurador da cidade, junto a corte portuguesa. Fica viúvo e casa-se novamente. Além de grande poeta, fez também um trágico retrato da vida e da cultura baiana do século XVII. Como não havia imprensa no Brasil Colônia, seus poemas tiveram circulação escrita e oral. 

Sua produção poética pode ser dividida em três linhas: satírica, lírica e religiosa. Seus poemas líricos e religiosos revelam influência do barroco espanhol. Sua poesia satírica é do tipo que ataca sem compostura, toda a sociedade baiana, da qual ele se sentia um censor e uma vítima. Por suas críticas ferinas, recebeu o apelido de "Boca do Inferno".

Em 1694, por suas críticas violentas e debochadas às autoridades da Bahia, é degredado para Angola. Em 1695 recebe permissão para voltar ao Brasil, mas não para a Bahia. Vai viver na cidade do Recife. Gregório de Matos Guerra morreu no Recife, no dia 26 de novembro de 1696.

Gregório de Matos não publicou nada em vida. A totalidade de sua obra se manteve inédita, até quando Afrânio Peixoto a reuniu em 6 volumes, publicados no Rio de Janeiro, pela Academia Brasileira de Letras, entre 1923 e 1933, sob o título de "Obras de Gregório de Matos".


Devaneio 1: 

"Minha palavra vem do outro e a mim cabe a dor em não dizê-la."




sexta-feira, 2 de julho de 2021

Conto: Um homem e uma mulher.

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - LIII)


             


- Ela me acompanhava a dois passos atrás como se não houvesse me beijado na boca logo na esquina de cima. Resolvi mudar de rumo no final daquela tarde. Então dobrei a próxima esquina a esquerda. Subi a ladeira. Cai na praça Tiradentes. Ela atrás de mim. Atravessei vagarosamente dando tempo para que ela continuasse a me seguir. Desci em direção ao quarto alugado nos fundos da República dos Amores de Marília. No caminho passei no armazém do Sô Tonico. Comprei, na caderneta, duzentos gramas de mortadela, pão sovado e um pacote de Tang de pêssego, meu sabor preferido. Seria um lanche improvisado caso a moça resolvesse ficar comigo. Não a vi ao sair do armazém. Pouco depois lá estava ela. Logo atrás. Tinha desaparecido por alguns minutos. Não sei se eu estava ou não gostando daquele jogo de esconde-e-aparece. Mas, certamente, gostaria muito que ela me acompanhasse até o quarto.

Foi assim. Ela entrou logo depois de mim. Atravessamos todo o corredor lateral da casa até minha suíte barroca. Ofereci uma cadeira junto a uma pequena escrivaninha naquele espaço solitário que mantinha para imprevistos. Ela sentou com naturalidade. Ficou me observando. Preparei o suco com água mineral do frigobar. Abri o embrulho dos pães e da mortadela. Ela continuava calada. Eu também. Fizemos nosso lanche como velhos conhecidos.

De repente perguntei:

- O que você quer de mim? Quem é você? Por acaso já nos conhecemos? Confesso que tenho gostado de saber que uma bela mulher anda me perseguindo por essas ruas e ladeiras.

Queria saber de onde ela havia surgido. Na minha ânsia de controlar a situação quase tropeçava nas minhas palavras. Sentia desesperadamente que, se continuasse o interrogatório, a perderia. E eu não queria perde-la. Ela já tomava conta dos meus pensamentos e dos meus desejos.

Roberto continuava matutando e conversando consigo mesmo. Estava em Ouro Preto havia mais de vinte anos. Nunca vira aquela mulher por lá. Era professor de introdução à filosofia no IEF da cidade. Conhecia quase todos os alunos e alunas. Não era uma delas. Mesmo porque ela aparentava ter mais de trinta anos.

Chegou a pensar que, na sua triste solidão após desfeito seu casamento de quase quinze anos, algum amigo quisesse ajudar ajeitando-lhe uma companhia.

Os pensamentos faziam festa na sua cabeça. Ele passou a contar os dias para esperar por ela.

Um dia, estando no intervalo das aulas, pegou o celular e viu uma chamada não atendida. Um número desconhecido. Não deu atenção. No meio da aula, veio a dúvida.

- Seria ela? Mas não trocamos nossos contatos.

Logo após a aula retornou à ligação. Era ela. Jamais deixaria de reconhecer a voz pausada e suave daquela mulher.

- Meu carro estragou na chegada da cidade. Poderia me ajudar?

Naquela noite conversaram muito. Estava casada. Tinha dois filhos. Vivia na capital. Conhecera-o numa videoconferência quando foi convidado a falar sobre Alberto Camus. Ela já havia lido dois de seus intrigantes livros. Queria saber mais acerca do escritor franco-argelino premiado com o Nobel de Literatura. Não perderia a conferência.

Através da tela sentiu algo no professor. Queria conhece-lo. Conversar com ele. Procurou informações. Encontrou-as poucas. Não desanimou. No final de alguns meses, apaixonada com o desconhecido, foi encontra-lo vagando pelas ruas ouro-pretanas.

Naquela noite ela o convidou para dormirem no hotel onde já havia feito as reservas. Uma luxuosa suíte os aguardava. Uma fina garrafa de champanhe. Jantar sofisticado. Luz de velas. Ela havia preparado tudo com o apoio da recepção do hotel.

Mais tarde, enlevados pela bebida, ela beijou-lhe a fronte. Acariciou lhe os braços. Suas mãos brancas deslizaram pelo corpo negro de Roberto. Isto o deixou sem palavras. Fechou os olhos e sentiu. Apenas sentiu.

No meio da madrugada ela partiu. Roberto nem percebeu que ela havia ido.

Mudou o número do seu celular.

Ainda hoje Roberto sonha com aquela mulher que levou embora seu coração.

Uma alma solitária caminha pelas ruelas de Ouro Preto.



Fotografia: Arquivo pessoal - Café Havana em Haia (Holanda) 2018

01/07/2021









terça-feira, 29 de junho de 2021

Conto: O menino que descobriu sua cor.

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - LII)


Ele era “de menor”. O pai conseguiu o emprego. Não exigiram experiência. A construção do viaduto sobre a estrada que ligava a capital mineira ao Rio de Janeiro se dava bem próximo a região onde moravam. Foi contratado como armador. Aprendera rápido a envergar os cabos de aço. Não tinha direito à alimentação. O menino acompanhava o pai ainda antes do sol nascer por aquelas redondezas. Davam-se as mãos. Iam conversando. O pai contando sobre o jeito de dobrar os arames grossos para amarrar os vergalhões. “A gente faz uma forma com pregos grandes. Pega a ferramenta com uma mão e com a outra mão a gente segura bem forte”. O filho escutava atento. Às vezes perguntava alguma coisa para engrandecer o trabalho dele. Voltava sozinho para casa imaginando tudo aquilo na sua cabeça.

Agora era a vez de ajudar a mãe. Buscava água fresquinha na bica no final do terreno, “naquela ribanceira”. Era para colocar na bile de barro e fazer o almoço. Logo o menino ia fazer seus deveres da escola.

- Tá na hora de se arrumar. Vem comer meu filho. Lave a cara. Troque de roupa. Pegue seus cadernos. Passe antes no canteiro de obras e entregue a marmita para seu pai. Diz pra professora que na semana que vem você leva a prenda para a coroação de Nossa Senhora.

Era a mãe e sua ladainha de todo dia.

Betinho, o quarto dos cinco filhos, não sentia que aquilo fosse uma tarefa difícil. Amava ver seu pai torcendo e retorcendo aqueles cabos de arames. Seus olhos brilhavam observando a força dos braços dele.

- Quantas formas você fez hoje pai? Mais que ontem? Umas duzentas?

O pai mostrava as mãos dormentes pelas câimbras e dava um sorriso. Recebia a marmita. Colocava sob uma areia quente bem próximo de onde preparava suas formas quadradas. Dois pratos esmaltados. Um tampando o outro. Bem amarrados com um pano colorido. Daquele jeito da roça. Feijão, arroz, quiabo, angu e pedaços de carne de porco de panela. Ele saboreava aquela comida como um manjar dos deuses.

-Bença pai. Vou pra escola.

- Deus te abençoe meu filho.

E o menino rumava por aqueles caminhos de terra. Encontrava com os três irmãos que voltavam do quarto ano. As turmas eram divididas de acordo com as idades. Betinho, estava sendo alfabetizado. Tinha quase oito anos. E, esperto feito ele só, logo aprenderia a ler.

Naquele dia uma colega lhe chamou de “preto macaco”. Ele abaixou a cabeça. Chorou para dentro. Ninguém veio em seu socorro. Voltou para casa sem palavras. Nem quis passar para ter o pai como companhia na volta do trabalho. Justo aquela menina de quem tanto gostava havia lhe desfeiteado. Dormiu pouco aquela noite. Sonhou com a sua cor. Nunca havia pensado que a cor de sua pele fizesse alguma diferença.

A mãe percebeu que algo havia acontecido com o menino.

-"Foi nada não mãe..." Respondeu Betinho quando interrogado sobre o olhar perdido e a cabeça abaixada.

No dia seguinte, após entregar a marmita, se escondeu atrás da moita daquele gigantesco bambuzal. Coberto de vergonha por ali ficou. Os irmãos falaram pra mãe que não toparam com Betinho pela estrada. Preocupada, ela saiu a procura-lo. Não foi difícil encontrar o menino. Ele chorava cabisbaixo sentado sob a sombra.

- Quê que o ocê tá fazendo aí, meu filho?

- Mãe, eu sou preto macaco? Perguntou entre soluços.

- Desembuche meu filho. O que aconteceu?

- Foi a Rosa, filha da dona Zinha. Ela me chamou de preto macaco. Todos os meus colegas ficaram rindo de mim.

A mãe o abraçou. Assim ficaram por alguns minutos. A mãe era uma mulher de cor preta, sacudida, dona de si, dona da casa, dona da maternidade.

- Vou na escola amanhã. Vou queixar com a diretora. 

E explicou: 

- Somos pretos mesmo meu filho. Nossos antepassados vieram para cá como escravos dos ricos. Éramos considerados como coisas dos fazendeiros. Nem fomos tratados como gente. Diziam que não tínhamos almas como os brancos.

E continuou:

- Mas, preste atenção: não é a cor da pele que diz quem somos e, diante de Deus, somos todos iguais. Levante a cabeça. Enxugue essas lágrimas e venha para casa. Amanhã você volta para a escola. Quando a Rosa aparecer, sorria para ela. E seja o melhor aluno da sala.

Abraçou-o novamente. Juntos voltaram para a casa.

E a rotina voltou naquela casa cheia de crianças e de muito trabalho.

Betinho não faltava nem um diazinho. Levava a marmita do pai e ficava olhando aquele viaduto tomando forma de ponte lá nas alturas das nuvens.

- Pai, para onde vai esta estrada?

- Lá em cima tem uma linha de trem. Ouvi dizer por aí que os vagões vão levar o minério tirado das montanhas para o Rio de Janeiro. De lá, eles vão de navio para a Europa e a China.

Betinho não perdia uma palavra. Ficava imaginando tudo aquilo que o pai dizia. Embora sua cor ainda causasse dor e vergonha, tomou rumo de estudar muito. No recreio ia para a biblioteca. Pedia ajuda na escolha dos livros. Queria saber sobre a vinda dos negros africanos para o Brasil. A bibliotecária viu nele o interesse e passou a contar-lhe várias histórias daqueles tempos.

Tudo isto despertou no menino perguntas que a mãe já não sabia mais como responder.

- Pergunte na escola meu filho. É lá que as professoras podem te responder tanta pergunta.

O tempo passou. Depois de dois anos o viaduto ficou pronto. Uma maravilha da arquitetura e da engenharia de pontes e viadutos. O pai se viu orgulhoso e desempregado.

Mas, para surpresa de todos, o encarregado avaliou como ótimo o desempenho, a pontualidade e o caráter do inexperiente trabalhador braçal. Chamou-o para integrar a equipe que iria para outra obra. Desta vez no nordeste do Brasil.

A esposa, depois de muito pensar e chorar, decidiu acompanhar o marido. Teriam casa e escola para os filhos.

A história não acabou aqui. Outro dia continuo com o retorno da família após a morte súbita daquele pai de família.

 

26/06/2021

 

 

 















































sexta-feira, 18 de junho de 2021

Conto: O Canário

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - LI)




Da pequena oficina nos fundos da casa seu olhar fora chamado a ver o canário bicando a porta de vidro da sua casa bem ao lado. Entendeu a sujeira na soleira com as pequeninas fezes do passarinho. Largou a ripa de madeira que estava lixando e acompanhou o voo do coroinha. Agora, equilibrando na porta do carro bem defronte ao retrovisor, dava inúmeras bicadas no espelho.

 A esposa comentou “acho que ele está fazendo ninho por aqui”. Procurou algum indício de ninho ao redor do telhado. Procurou na garagem. Nada. A ave apresentava-se desesperada. O que teria acontecido? Será que algum tucano bicudo roubou sua companheira? Talvez tenha destruído seu ninho ou quem sabe até mesmo devorado seus filhotes? Ou seria uma dessas corujas traiçoeiras? Assim pensava Carlos que não tirava os olhos do chapinha. Este continuava voando de um a outro vidro. Agora entrou na oficina. Nem mesmo teve medo do homem que poderia engaiola-lo. Pousou na prateleira junto aos toquinhos de madeira, arames galvanizados e ferramentas. Olhou ao redor. Voou novamente para o retrovisor do carro. 

A seguir Carlos escutou o reclame da esposa, “veja seu passarinho bicando o vidro da porta do forno!” Era ele de novo. Agora descobrira outra fonte do falso reflexo da sua amada. Na porta de vidro daquele tão desejado forno do fogão a lenha da esposa de Carlos. E lá vem o marido preocupado com o bicar incessante do cabeça-de-fogo. Carlos começou a ficar desinquieto com o que ele chamou de angústia do canário. Nem conseguia mais se concentrar na bela e sofisticada gaiola que construía.

- Você vai trabalhar ou vai continuar tomando conta do canário? Interpelou a esposa.

- Deixe esse passarinho pra lá. Vida de passarinho é vida de passarinho. Cuida da sua vida.

O homem engoliu um seco com a insensibilidade da mulher. Lembrou do seu desespero quando Rosa mudou pra cidade grande. Rosa fora seu primeiro amor. Por ela teria perdido a cabeça não fosse a mãe que dera conselho de aquietar seu coração. Rosa não era moça de viver em cidade pequena. Queria voar. Não valia a pena. Era moça diferente. Queria desfrutar outras diversões.

Agora, mais uma vez, Carlos sentia toda aquela dor de quando perdera Rosa para o mundo. Queria também consolar aquele canário-do-campo. Dizer pra ela se tranquilizar. O tempo daria um jeito de lhe trazer de novo a vontade de viver. 

Será que esses canários são fieis e só casam uma vez na vida como aquelas galinhas d'Angola e as maritacas? Seu pai dizia que aquelas espécies só acasalavam uma vez. Ficou a pensar no pobre passarinho viúvo.

De repente notou que já era tardinha e o chapinha dourado continuava na sua busca do que, provavelmente, havia perdido.

- Como ele ainda continua nesse alvoroço? Onde arranjou tanta força física para seu desespero? Continuava pensando.

Da mesa do jantar ainda podia ver os sobrevoos do pássaro bem próximo dele. A porta do seu Escort já estava toda suja das fezes do coitado.

Carlos foi dormir pensando ora na Rosa, ora no canário, ora na esposa, ora nos filhos que já haviam voado para outras terras.

Na manhã seguinte acordou com sons intermitentes no vidro da janela do seu quarto. Nem atinou que pudesse ser as bicadas do macho buscando sua fêmea. Mas lá estava o canário. Entretanto, se Carlos não atinou para as bicadas na janela, atinou para outro fato. Naquele instante seu coração apertou. Fora ele o causador de todo o desatino do bichinho. Ele havia cortado a grande árvore de sibipiruna que não permitia a chegada do sol na porta da cozinha, sujava todo o chão com aquelas folhinhas esvoaçantes e deixava as calhas sempre entupidas.

Nem percebera que ali poderia estar a canária chocando seus filhotes.

Atordoado com a dúvida Carlos levantou e procurou o passarinho.

Foi então que a esposa ouviu soluços e uma conversa muito estranha do seu marido. “Esse homem tá endoidecendo” logo pensou ela.

Carlos aproximou do amarelinho, agora bicando o vidro da porta da sala, pediu desculpas. Soluçou. Lágrimas brotaram de seus olhos. Rosa. Sempre a Rosa. Os dois machos choraram as fêmeas perdidas. E o canário chorou muito mais. Chorou os filhotes que não chegaram a nascer. 

A partir dai Carlos decidiu nunca mais construir gaiolas. E, assim como ele em sua doce lembrança pelo amor de Rosa, o canarinho continuava a bicar todos os vidros da casa. 

A tristeza seria compartilhada por todos os amores perdidos.





Fotos: Arquivo n. 391352200  - Adobe Stock

Observação:

Canário-da-terra

O canário-da-terra (Sicalis flaveola), também é conhecido como canário-da-horta, canário-da-telha (Santa Catarina), canário-do-campo, chapinha (Minas Gerais), canário-do-chão (Bahia), canário-do-reino (Ceará), coroinha e cabeça-de-fogo, é uma ave admirada pelo canto forte e estalado e por isso é frequentemente aprisionado como ave de cativeiro (está entre as 10 mais apreendidas, segundo o IBAMA), mesmo tal ato sendo considerado crime federal pela Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98). Graças à ação das autoridades e da conscientização da população, registros do canário-da-terra vêm se tornando mais frequentes nos últimos anos.
Nome Científico


Seu nome científico significa: do (grego) sikalis, sukallis or sukalis = pequeno; (Latim) flaveola, flaveolus diminutivo de flavus = amarelo. ⇒ Amarelinho.

Fonte:   http://www.wikiaves.com.br/wiki/canario-da-terra

Maria do Rosário Nogueira Rivelli

 

18/06/2021



Comentário do mestre das escritas - Ronald Claver- Poeta e escritor de Belo Horizonte:


"Rivelli, bom diaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Bom começar o domingo te lendo. o dia fica mais bonito e povoado de sábias e deliciosas palavras.

Gostei de tudo, você cada vez melhor. Texto limpo, claro, sensual, surpreendem.

Quem te lê, acha que "escrever" é a coisa mais natural do mundo. A fluidez de suas tramas e enredos nos envolve em uma rede, teia de mil surpresas.

A abertura, as brincadeiras, o poema,as respostas, os homens de preto e ONDE ELA Está são textos para ficarem no caderno de memória e belezuras.

A ave/mulher é pura ficção e de um realismo fantástico que não fica a dever a ninguém, parabéns e continue devagar e sempre, beijos."








quinta-feira, 17 de junho de 2021

Conto: Sonhar de novo

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - L)


                                      



Esta noite um sonho acordou-a de um pesadelo. 

Lá estava ele. Risonho, amigo, afetuoso. Ela jamais havia esperado por ele. Naqueles tempos ela ousou amá-lo. Nem uma palavra fora trocada entre eles. Os olhares bastavam. Ela mergulhava naqueles mares verdes do seu olhar. Por lá ficava. Platão estava certo, concluía.

Mas nesta noite ele apareceu para ela. Estava como sempre. Charmoso. Delicado. Exato. Trocaram afagos de amor. Nenhuma palavra. Não fora preciso. Sua presença, assim sonhada, valeu.

Por estes tempos ela estava tomando antidepressivos. Havia ido ao psiquiatra. Não era uma tristeza apenas. O doutor diagnosticou. Era depressão. Sabia bem a causa daquela falta de ânimo. A vida tinha descolorido. Ficava na cama mesmo após ter  dormido muito. Não queria ver o dia. A noite passou a ser sua companheira. Pela manhã não tinha forças para sair da cama. Não pensava coisa alguma. Acolhida e encolhida sob os cobertores. Parecia envolta nas membranas uterinas. Ficava assim. Não queria nascer.

Passou a abusar do leite. Café com leite. Leite com chocolate. Cappuccino com muito leite. Mamava.

As normas para o enfrentamento da Pandemia foram uma perfeita desculpa. Isolamento e recolhimento. Ela nem precisava explicar nada. Estava dito. Sua tristeza embalava seus dias. Os filmes e séries que tanto gostava já não lhe atraiam. Suas articulações voltaram a incomodar. Era necessário movimentá-las. Ela sabia disto.

Estava decidido. Iria engolir as tais “pílulas da felicidade”. Já não aguentava mais. Seu corpo precisava sair do casulo. Precisava desabrochar e voar.

Até então não fora difícil esconder sua apatia e sua tristeza. O isolamento imposto pela maldita pandemia vinha sendo seu aliado. Assim ninguém perceberia a solidão. Ninguém desconfiaria do desânimo. Embora, às vezes, percebia a importância da presença dos familiares e dos amigos. Mesmo sendo virtuais.

Paradoxalmente, a chegada do outono lhe trouxera esperança. Sempre gostou das baixas temperaturas. amava as florações e as cores da estação. Gostava ainda mais do inverno. Estava explicado sua melhora para além do sonhado. 

Com as baixas temperaturas, poderia usar suas roupas coloridas. A extravagância e as combinações nas cores deixavam-na mais bonita. Assim pensava. Assim se vestia.

Depois de alguns dias começou a levantar mais cedo. Esticar o corpo. Alongar os músculos. Levantar a cabeça. De repente viu sua buganvília cheia das flores alaranjadas. De repente quis comer a "terrível" baba de moça do supermercado próximo à sua casa. Voltou a fazer seu chá de capim-cidreira após o almoço. Plantou aquela muda de azaleia e nem pensou que vingaria. Voltou a ler. Passou a interagir nos tais grupos de WhatsApp. Mesmo com muito medo arriscava fazer algum comentário.

Tornaram-se afetuosos nas raras mensagens que trocavam. Continuavam sem palavras. A vida de cada um estava feita. Às vezes refeita. A admiração, o respeito e, agora, o carinho os reaproximaram. Não se viam. Uma vez ela tentou assistir uma palestra proferida por ele. Ficou que nem uma estátua. Nem piscou os olhos temendo que ele pudesse vê-la.

Já conseguiu voltar às caminhadas. Já escolhe os livros e os filmes. Até atreveu-se em documentários. Viajou pelos “Andes Mágicos”. Hoje está comprando passagens para conhecer o Amapá. Que conhecer a Fortaleza de São José de Macapá, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, o Museu Sacasa e adoraria chegar até a cidade de Calçoene, no extremo norte do Brasil. Obviamente que caminhará pelas calçadas a beira do Rio Amazonas.

Sim. Ela voltou a sonhar.

E esta noite sonhou com ele. E ele, sem jamais o saber, a tirou do pesadelo. 

No sonho estavam alegres como os dois adolescentes que foram um dia.


Fotografia: Manacá da Serra ao lado da casa da minha querida vizinha Poliana. (Fotografado por mim em 15/06/2021)

02/06/2021





quinta-feira, 10 de junho de 2021

Carta de Amor 15

 








Das terras férteis de minério, 10 de junho de 2021.


Manhã de quinta-feira.


Meu amado JTHX,


Espero que, por essas terras também férteis em minério e história, você se encontre com saúde e paz.

Não pedirei desculpas por mais uma carta. Álvaro de Campos, há muito, me autorizou a escrevê-las. Sei que, realmente, são ridículas. “Não fossem ridículas não seriam cartas de amor” como nos escreveu o grande poeta lusitano.


Tenho novidades. Quero lhe contar que estou de casa nova. Colorida. Grandes janelas por onde entram ventos e suspiros dos amantes. Muitas árvores. Agora estamos plantando flores. Azaleias. Bocas-de-lobo (lembra dessas pequeninas flores que se abrem como uma boca desejosa de beijos?). Displadênias que subirão pelos cobogós. O enorme ipê que plantei há oito anos como se fosse roxo, floriu pela primeira vez. Flores rosas. Já havia esperado a floração do branco que também floriu neste outono. O cascudo das flores amarelas. Agora tenho quatro pés de ipês amarelos. E continuam brotando ipês do chão de minério.

As orquídeas estão me ensinando a arte da paciência para acompanhar suas florações. Lindas. Perfumadas. Elegantes. Perfeitas.

O pé direito alto da área social da minha nova casa trouxe o frio tão desejado. A amplitude do espaço me faz navegar por todo o mar verde no entorno. Neste instante o sol da tarde já invade a varanda e, daqui a pouco, invadirá esta sala. Então ficarei iluminada.

O convite para conhecê-la se mantém. Haverá sempre um bom vinho tinto. Uma massa com molho bolonhesa. E um café na madrugada.

 JTHX, tenho lembrado muito dos tempos de nossas cartas. A última delas ainda doí dentro do meu peito. Você foi econômico nas palavras e inexorável nas duas únicas frases. Ficou a cicatriz que, vez ou outra, mina água. Foi a partir dela que nos perdemos. Foi, a partir dela, que comecei a escrever cartas para mim mesma. E, nas longas noites de inverno, eu esperei por elas. Elas me acalentavam da sua ausência. Elas me trouxeram os mineiros franceses de Emile Zola apresentados por você. Suas cartas me falavam da importância da educação dos jovens brasileiros e de tantos outros assuntos daqueles nossos tempos sombrios. E minhas cartas sempre tiveram você como inspiração.

Nunca tive tempo - ou interesse? - em datilografia. Minha letra, bem feita, deveria ser mais um detalhe nas minhas cartas. Hoje, nestes tempos de e-mails e mídias sociais, as cartas perderam o glamour. Ler um email ou uma postagem numa rede social jamais será tão prazeroso quanto ler uma tão esperada carta. Abrir o envelope com medo de dilacerar uma só letra escrita pelo amado era de cortar o coração. Sorver cada palavra esperada. A sensação era e ainda é algo indizível.

Meu amor, recentemente assisti uma de suas conferências. Inicialmente não me interessei pelo assunto. Entretanto me chamou atenção o toque esplendoroso que deu à narrativa. Conte mais histórias. E me avise. Vou querer ouvi-las e ver você.

Neste momento de Pandemia e de um Brasil a beira do abismo, carecemos uns dos outros. Carecemos sobreviver na solidão.


Para terminar, me dê a sua mão. Quero beijá-la. Quero dormir com o afago dela.

E, se acaso me chamar de ridícula, terei cumprido meu propósito.

Abraços eternos.

Maria do Rosário Nogueira Rivelli


Comentários de amigos da estrita:

1 - Sua carta tem a maturidade da troca, a admiração amorosa e a sabedoria trazida pelo tempo. Tem a generosidade do feminino, o estoicismo da espera, o amor pela natureza, a dor de uma ruptura. Tem humanidade, poesia, cheiro de terra e flores, cores. Tem vida em sua gestação mais plena! Tocante! Parabéns, Rivelli!

Tentei postar no seu blog esse comentário  inúmeras vezes e não finalizava... (Sebaistão Aimone)

2 - Rivelli, fiquei sem palavras diante de tanta beleza e sensibilidade. Tocou fundo meu coração. Parabéns. Você é uma grande escritora. Beijos. 🌸 (Kátia Pimentel - Poeta)

3 - Rivelli, que mergulho lindo e corajoso neste amor que é  feito de prazer e dor! Parabens! (Cida Amaral - Psicóloga e poeta)

4 -Rivelli,
    Sempre surpreendendo e cada vez melhor. Esta carta de amor é          qualquer coisa de sublime, um doce pecado tropical, uma fruta          madura no pé, uma casa mineral e mineira de janelas abertas para      a liberdade. É uma carta metalinguística, nada ridícula, criativa e        amorosa. Uma carta que convoca outros olhares e vozes. Muito,        muito boa, essa carta de amor, bjs (Ronald Claver - Poeta e                professor na Oficina de Escrita)

terça-feira, 25 de maio de 2021

Conto: DEVANEIOS


(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XLIX)



“Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada na garganta”
(Eduardo Galeano).


DEVANEIOS

Foi assim. Depois da noite de amor, ela acordou e viu um bilhete sobre o travesseiro do amante.

“Morena, fui comprar café. Volto logo – Seu Moreno”

Ela sorriu e esperou.

Era um quarto vazio. Uma casinha alugada por ele. Um colchão usado no chão. Uma cadeira usada na sala. Uma estante improvisada com tábuas e tijolos. Alguns livros. No banheiro um sabonete comum. Só as toalhas eram novas e coloridas. Ela comprou-as.

Ela continuava esperando. Às vezes levantava. Olhava, sem ver, a casa e o terreiro. Havia árvores frutíferas que ela não via.

Voltava para o quarto. Sentava no colchão.

“Ele já devia estar chegando”, pensava ela.

Amava-o de uma forma a não conseguir mais viver sem ele. E tinha certeza que ele também a amava.

“Onde terá ido ele?”

Era ela a se perguntar. Levantava novamente. Novamente olhava pela janela da cozinha. Não via o abacateiro imenso que trazia sombras no terreiro. Mas sentia as sombras que a ausência dele vinha lhe trazendo nos últimos tempos.

“Já são onze horas”, pensava ela sem conseguir pensar além.

“Mas ele foi tão gentil no bilhete. Deve ter acontecido alguma coisa”

Assim ela suportava e se iludia com as escapadelas dele. E ele sempre escapava com outras. Ela só era mais uma delas.

A manhã de sábado terminava e ela continuava esperando o café. Nem sentia o estômago pedindo alimentos. Seu único alimento era o amor que sentia por ele.

Quinze anos mais velho que ela. Um casamento meio que acabado sem acabar. Uma colega amante. Outra colega no flerte. E todas aguardando por ele. Com certeza.

“Com qual delas ele estará agora?”

“Por que ele me trata assim?”

De repente ela se deu conta que ele não voltaria. Mas esperava. Não conseguia mais andar sem aquele amor. Sentia-se abandonada. Largada.

Ao anoitecer já não conseguia mais pensar. Só esperava.

“Ele deve vir a noite”.

A expectativa fazia-a renascer.

Ela bebia água. Da torneira.

Oito horas da noite.

“Daqui a pouco ele deve estar chegando”

Um banho para reanimar e aguardar seu amado. Um copo de água.

Um barulho de motor de moto na rua.



“Parou aqui perto.”

“É ele.”



Não era ele.

Dez horas da noite. Ela já não se reconhece. Nem consegue chorar. Tem certeza que, a qualquer momento ele estará nos braços ele.

Meia-noite. Outra moto se aproxima.


“Que bom. Ele chegou”

Não. Ele não chegou.

Uma hora. Duas horas. Três horas. Quatro horas. Cinco horas.

A madrugada começava a dar lugar ao dia.



“Daqui a pouco ele chega com meu café da manhã”



Assim ela o esperou por muitos anos. Não soube ser de outra maneira. Estava presa no desamparo que ele lhe causava.

Esperou nove meses.

Não fosse seu filho na barriga continuaria sozinha.


24/05/2021

 

 

 

 

 

 

sábado, 22 de maio de 2021

Crônica: O dia do casamento

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus XLVIII)

                                          

                                 

Lembro do seu vestido de noiva. Era a primeira vez que ouvia falar do “marabu”. Você quis que esse adereço fosse colocado na gola rente ao pescoço e nos punhos das mangas longas e, também, justas aos braços. Seu pescoço parecia descansar suavemente num ninho de nuvens assim como suas mãos saindo delas. Nada mais enfeitava aquele vestido. Ele se bastava. Era um vestido de noiva. As plumas finas e brancas do tal "marabu" foram suficientes para esbanjar sua felicidade. Elas esvoaçavam como fios das virgens nuvens de outono. E você estava radiante.
Era inverno. Eu caprichei no meu vestido de veludo "cotelê" em tom marrom. Botas curtas em tom whisky. E uma meia prá lá de fina.

Sua pele estava ainda mais branca no seu vestido de noiva. E você estava muito bela. 


Sua entrada na igreja foi um espetáculo à parte. Você foi agraciada com uma tarde exuberante daqueles tempos de frio. As nuvens coloriram o céu de rosa, alaranjado e dos últimos raios dourados de sol brilhavam no fundo em tons azul . Quem olhava você entrando na igreja, sendo conduzida pelos braços do nosso pai, via a natureza emoldurando a porta de vitrais coloridos. Aquela cena ainda permanece bem viva dentro de mim. Jamais irei esquecê-la.

E a matriz de Nossa Senhora da Conceição abençoou você e seu noivo. Aquele que escolheu e que soube receber seu amor.

Depois houve a recepção dos seus convidados. Da festa pouco me lembro. Mas sei que você preparou tudo com o cuidado e o capricho que sempre lhe foram tão peculiares. Havia trabalhado dobrado para não onerar seu pai e para que tudo saísse do seu jeito. E saiu tudo perfeito como só você saberia fazer.

A seguir viajaram para a lua de mel. Vitória fora a cidade escolhida. Não poderia ser outro o nome da cidade escolhida. Uma filha vitoriosa.

Entretanto, para além deste relato, há uma outra história.

Naquele ano eu já estava na cidade onde fazia faculdade. Quando possível visitava meus pais e irmãos. A irmã do meio já havia se casado, morava em São Paulo e já havia nos presenteado com nossa primeira sobrinha, Letícia.

Os irmãos mais velhos já moravam fora de casa. Os irmãos mais novos também já estavam estudando noutra cidade. Portanto a casa esvaziou. Ficaram nossos pais e um guarda-roupas, de uma única porta. Era nele que as três filhas guardavam suas parcas roupas de vestir e nossas roupas de cama. 

Aquele quarto fora o segundo banheiro da casa que virara dormitório. Não tinha mais que sete metros quadrados. Uma cama de solteiro e o guarda-roupas. Só. Eu sempre havia querido aquele quarto. Talvez fosse porque ele recebia o sol da manhã. Talvez fosse porque nele havia o guarda-roupas. Ou talvez fosse porque sua janela abria para um canteiro de flores. Hoje sei que não fora por nada disso. Ali era o quarto da minha irmã caprichosa, inteligente, estudiosa, dona de si e cheia de graça.

E foi para aquele quarto que me dirigi naquela noite do casamento da minha irmã. Abri a porta do guarda-roupas. Agora ele seria todo meu. Abri a sua única porta e olhei-me no espelho. 

Então caminhei para dentro do meu vestido marrom. Sentei na cama e chorei. chorei copiosamente.

Eu não sabia que gostava tanto daquela minha irmã.


Observações: 
1 - esta crônica foi escrita em homenagem aos setenta anos da minha irmã, no dia 19/05/2021 


2 - "marabu" é um pássaro africano.


Maria do Rosário Nogueira Rivelli



30/03/2021















sábado, 15 de maio de 2021

O lavabo da casa paroquial

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLVII)

 


Para ela a casa paroquial era a mais encantada da cidadezinha onde vivia. Ficava na praça central. Com dois andares. Amplas janelas pintadas de verde escuro bem defronte ao sol nascente. E paredes pintadas de amarelo palha. (Ou eram brancas e empoeiradas pela terra vermelha das ruas?) O telhado de quatro águas de dar inveja.

A menina morava numa casinha no final da rua de baixo. (O encantamento por sua casinha só viria na vida adulta). Os irmãos mais velhos brincando e brigando o tempo todo. O pai, estrangeiro por ali, ganhara respeito por todos os moradores e era amável com todos eles. A mãe, filha da fazenda, era a sinhazinha adorada por toda a cidade. Mas eram a avó e a tia materna que adocicava a vida da menina. Embora estas tivessem sob seus cuidados primas órfãs, o que causava olhares e demandas de ciúmes na menina, ainda sobravam carinhos e atenções para a neta e sobrinha- afilhada mais nova. E a menina amava aquela tia. Suas palavras soavam doces. Seus gestos no ar deixavam-na com olhares perdidos. E a sobrinha nada perdia daqueles gestos e palavras ao vento. Os cuidados dedicados continuavam dias adentro como expressões de amor pela menina afilhada.


Na sua inibição e pequenez, raramente ia àquela casa. Devia guardar os afetos recebidos até exaurirem; então voltava para buscar sua dose de atenção. Cabelos lavados e cortados. Piolhos catados. Lêndeas tratadas. Vacinas recebidas. Lombrigas vermifugadas. Feridas cuidadas. E biscoitos oferecidos. A menina, porém, falava apenas com o olhar.

A irmã, mais velha um ano, a conduzia até a casa. Já na porta seu coração disparava. Um misto de medo, respeito e desejo apoderava-se dela. Ela entrava devagar, de mãos dadas com a irmã, cabeça baixa e olhar para os ladrilhos hidráulicos avermelhados, frios e limpos. Logo defronte a porta do escritório do tio padre. O que tanto ele fazia ali dentro? Rezava, dizia a prima mais velha que morava na casa.

À esquerda a escada de madeira. A menina subia ali como se estivesse indo para o céu, mas passando pelo purgatório. Cada passo mais batedeira no coração. Parava no cume e esperava a tia vir recebe-las. Era parte dos protocolos daquela casa paroquial. A menina entendia. Esperava. A avó, caminhando com sua doçura, ou a tia, caminhando com sua altivez, aparecia. Às vezes demoravam. Estavam cuidando das ordens da cozinha.

As duas entravam e eram levadas diretamente para a cozinha. Era ali que tudo acontecia. Era ali que recebiam parentes, pessoas simples como o Petetê que ia pedir ovo cru. Tinha medo de ser envenenado com comidas e quitandas. Só ovo cru que bebia ali mesmo. Depois aceitava café na sua caneca tirada de dentro do saco de linhagem. A menina observava tudo. Cada pedaço daquela enorme cozinha tinha sua história. No centro o fogão a lenha onde cheirava a comida da Fia. Uma mesa no centro, onde eram servidos os pratos. Num outro lado, próximo a uma das janelas, outra mesa. Alta e ajeitada. Ali Joaninha passava toda a roupa da casa e do padre. Um armário de madeira bem colocado na parede que vinha da copa. Petetê sentava num banquinho perto dele. Do outro lado a avó. Dali a avó espreitava o movimento de toda a cozinha.

Mas, na travessia até a cozinha, havia a copa. Do lado esquerdo uma porta. Era o quarto das meninas, da avó e da tia. Do outro da copa, outra porta. Para esta, a menina nunca dirigia o olhar. Era o quarto do tio padre. E ele era muito bravo. Quando enfiava lá dentro ficava muito tempo. A sobrinha dizia que ele estava lendo o breviário. A menina ouvia, acreditava e admirava tanta sabedoria e tanta fé.

Onde mesmo eram feitas as hóstias? O sacristão e sineiro, com nome apropriado - Divino - ia até a casa paroquial, esparramava farinha de trigo com água numa prensa quente e recortava as hóstias redondinhas. Dava as réstias para as sobrinhas do padre. A menina, que ainda não podia comungar, se abastecia daquelas sobras com gosto de nada. Agradeciam ao sacristão que tinha um sorriso sincero e curto. Não havia criança que não gostasse daquele homem divino.

A copa tinha um jogo de mesa e um armário muito diferente de tudo que conhecia, cheio de portas de vidro. Eram nas cores branca e alaranjada. Ou vermelha? Era ali que os padres convidados faziam suas refeições. A menina passava por ali e espichava seu olhar. Tudo era tão lindo. Tudo era tão grande. Tudo estava sempre tão limpo e cheiroso.

A casa era dividida em duas partes. A parte da frente, com seus três quartos trancados, era destinada aos padres que sempre vinham ajudar nas celebrações das festas. E eram muitas as festas. E eram muitos os trabalhos para as cozinheiras e arrumadeiras. Minha tia tinha o dom de preparar tudo. Nada faltava. Ela era uma artista. Fazia flores de papel. Bordava toalhas de mesa e toalhas para os altares da igreja. Era uma verdadeira dona de casa. A sobrinha-afilhada não tirava seus olhinhos claros daquela tia. Virava e mexia a menina estava aconchegada a ela.

A cozinha era a parte final da casa. De uma das janelas podia-se ver o terreiro, o paiol e o forno de barro onde as quitandas eram assadas nas vésperas das festas. Naqueles dias várias quitandeiras paroquianas vinham ajudar. Na cozinha havia uma escada de cimento, que descia até o banheiro. Um cômodo bem pequenininho. Só o vaso sanitário. E um cômodo grande com um chuveiro bem ao meio dele. Nenhum conforto. Entretanto a água da serpentina supria qualquer desconforto. Do outro lado, uma adega com chão de terra batida e uma pequena portinhola que saía para um amplo jardim com os tanques de lavação das roupas. Ali ficavam os garrafões do vinho doce que se transformava no sangue de Jesus na consagração durante as missas. Depois ainda havia dois quartos onde dormiam a Fia - pura alegria - e a Joaninha - sempre aborrecida. Em épocas de festejos todos os familiares desciam e dividiam aqueles quartos com as duas. A menina reparava em tudo. Calada. Sentida.

Porém havia naquela casa um espaço proibido. Será que era mesmo proibido? Ou será que a menina se proibia de vê-lo?

Era o lavabo. Ele ficava na copa. Aquela dos móveis coloridos. Parecia um apêndice da copa. Tinha a largura e a profundidade de não mais que um metro e meio. Enquanto o assoalho da copa era de tábuas largas, o piso do lavabo era do tal ladrilho frio. Na parede do fundo, à esquerda, havia a pia com um sabonete redondo, cor de rosa, dependurado numa correntinha pregada na parede. Um porta toalhas ao lado. Às vezes o sabonete cheirava a jambo. A menina achava que os sabonetes eram feitos daquela fruta. Do lado direito havia um gigantesco filtro de barro sob uma mesinha delicadamente colocada ali. No alto da parede, sobre um pequeno espelho, havia um quadro emoldurado de madeira escura, coberto com vidro e uma figura. Uma caçada. O quadro ocupava quase toda aquela parede do fundo. Uma mata fechada e vários caçadores com espingardas. O que sobrava de espaço era preenchido com folhagens. Costelas de Adão, antúrios, palmas de São José, Espadas de São Jorge ou flores da época. Era de fato um lugar sagrado.

Com pouco mais de dois metros quadrados, a paisagem do quadro, o perfume dos sabonetes, as toalhas tecidas a mão e seus frequentadores religiosos esporádicos, configurava um mistério para a menina. Ela, que via e sentia além da sua pouca idade, parava diante daquele lavabo, pisava no frio do ladrilho e olhava. Olhava muito mais do que lhe era permitido. Uma sensação estranha atravessava todo seu corpo de criança. Nunca soube dar nome àquilo que sentia. Passou pela vida com as lembranças da casa do tio padre.

Hoje, com seus cabelos brancos, sua pele fina, ressecada, seus passos incertos, a menina-velha certifica-se que, diante daquele lavabo da casa paroquial, jamais sentiu tão plena de paz.




15/05/2021