sexta-feira, 16 de abril de 2021

Crônica: Tanto Mar de Mariana

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XLV)

 




Ainda sob o efeito daquele telefonema liguei para uma prima. Era a única parenta na cidade onde eu morava naquela época.

- “Eu também não sei onde fica, mas podemos procurar. Eu vou com você.”

Essa foi a resposta. E, sem demoras, nos dirigimos ao referido crematório. Só havia aquele crematório em toda a região metropolitana.

- “Fica atrás do CEASA, em Contagem”.

Foi a informação obtida.

Não foi difícil chegar ao local mesmo sem os tais sofisticados GPS de hoje.

Ao chegarmos no cemitério, procurei por aglomeração de carros, de pessoas, de entregadores de coroas de flores. Nada.

Mas conseguimos localizar a sala onde estava ela.

E ela estava linda como sempre.

Durante toda a vida tivemos raros contatos. Entretanto esses foram sempre intensos e marcantes. A história do casamento de seus pais foi-nos passada como cheia de mistérios. O pai era um dos irmãos da minha mãe. Havia se casado muito jovem e fora morar em Mariana. Ela, uma delicada professora de nome estrangeiro, do distrito de Pinheiros Altos, da cidade de Piranga. Tiveram três filhas. Era tudo que nos fora contado.

Na minha infância, quando de férias na casa da avó materna bem no interior da Zona da Mata Mineira, meu tio padre, o “Padrinho” como o chamávamos, nos levava lá para visitar o irmão e sua família. E foi assim que conheci Mariana, Ouro Preto apinhada de hippies – era o ano de mil novecentos e sessenta e seis – e foi assim também que conheci minhas primas. A mais velha já era casada. Tinha no rosto um sorriso e uma beleza inconfundíveis, assim como o apelido. Cabelos liso e pretos. Olhos de jabuticaba e um quê nas atitudes que eu nunca esqueci. A mais nova usava aqueles óculos fundo de garrafa e seus jeitos pareciam com os de sua mãe. Mas foi a filha do meio que me chamou a atenção. Tinha a pela branca como a porcelana. Os olhos castanhos claros assim como seus cabelos. O rosto perfeito. O riso solto e os dentes alvos e bem colocados. Era a moça mais linda que eu havia visto até então. Mas, outra característica, foi tão marcante como sua beleza física. A beleza das palavras.

Algum tempo depois essa prima apareceu sozinha na minha casa, em Lafaiete. Dormia sem travesseiros. - Quem sabe aquele jeito de dormir não acabaria com minhas dores de cabeça? - Parei de usar todos aqueles travesseiros confeccionados por minha mãe na tentativa de acabar com aquelas dores terríveis. Eu era bem mais nova e ela me exercia um grande encantamento. Eu iria querer ser assim, delicada, sorridente, cheia de sabedorias e, ao mesmo tempo, misteriosa. Conversou assuntos particulares com meus pais.

Logo depois foi embora. Mas voltou com o namorado. Teria fugido de casa? A rigidez de seus pais teria sido o motivo que a levou a pedir abrigo na nossa casa? E assim eles se casaram sob as bençãos dos meus pais padrinhos. A lua de mel teria sido naquele quarto tão sem graça e sem conforto? Acho que sim.

Muitos anos depois, fui convidada a visita-la no bairro onde haviam comprado uma casinha pelo BNH numa distante região de Belo Horizonte. Ela dava aulas numa escola pública. Duas filhas já haviam nascido. Era loiras e lindas como a mãe. E fora a primeira vez que vi as portas estilo “Shallon” americano dos filmes de faroeste. Era tudo muito simples e tudo de muito bom gosto. Entretanto pude notar que algo não ia bem por ali. O primo que me levou até lá já havia me adiantado algum pormenor. Ele havia levado alguns alimentos e prometemos voltar.

Saí dali sabendo o quanto eu admirava e gostava daquela prima tão afastada de nós. Naqueles tempos não tínhamos telefones. Os contatos eram raros. Mais tarde iríamos ter outros contatos. As notícias não eram boas. Eu ficava com uma imensa tristeza. Podia imaginar o tanto que aquela prima poderia estar sofrendo. E eu sofria por não ter como ajuda-la. (Eu também tinha lá meus sofrimentos). Pensava sempre nela com muito carinho e admiração.

Minha prima havia ido atrás dos sonhos dela. Era tudo que eu sabia.

Depois das meninas ela teve um filho cujo nome escolhera como forma de, mais uma vez, expressar seu amor pelo marido. E, mais tarde, nascera a terceira filha. Esta ganhou o nome de cidade italiana, talvez uma homenagem aos ascendentes de seu pai. Conheci esta menina bem pequenininha. Parecia uma boneca de verdade. Pele alva, cabelos e olhos claros (verdes?).

Uns tempos depois soube que o marido havia falecido. O que teria acontecido?

Quantos anos haviam de passado?

Agora eu estava ali diante dela. Morta. Ao redor suas três filhas. Onde estaria o filho? Apenas algumas poucas mulheres. Elas cantavam para minha prima, traziam cartazes de agradecimento pela vida vivida da mulher branca, bela e eterna “companheira”. Até ali eu não sabia suas lutas pela dignidade dos moradores da sua região que havia crescido no abandono do poder público, na violência, nas drogas e na miséria. (Havia sido candidata a vereadora). Juntei-me a elas e chorei como ainda choro todas as vezes que lembro do seu corpo descendo para ser cremado e não voltar jamais. Abracei-me às suas filhas. E uma pergunta me viera.

- Como conseguiram me localizar e me telefonarem?

- Nos seus últimos dias de vida ela nos pediu que fosse cremada. Disse-nos gostaria que você fosse comunicada quando de sua morte. Nós não conhecíamos você. Mas ela mostrou um papel onde havia escrito seu nome e o número do seu telefone. Queria que você estivesse presente aqui junto das outras mulheres.

Foi a resposta da filha mais velha.

Hoje penso que minha prima e eu sempre estivemos juntas através de uma conexão que ainda desconheço.


Fotografia: Catedral de Colônia (alemão: Kölner Dom) - Cidade de Colônia - Alemanha - Arquivo pessoal.


15/04/2021

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O desencontro dos astros

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLIV)



   


A lua, as estrelas, as constelações pareciam conspirar para a realização do amor, quando surgiu um vento, Zéfiro, anunciando tempestade.

Naquela noite Teresa estava exuberante. Nem se dava conta de sua alegria. Parecia que aquela felicidade vinha de dentro dela. E sua alegria genuína contaminava todos ao redor.

Apesar dos ventos anunciarem tempestade, arriscou sair de casa naquele fim de tarde. Vestiu uma roupa de festa, nada muito espalhafatoso. Olhou-se no espelho. Ajeitou os cabelos. Vermelhou os lábios com aquele batom sabor cereja. Pegou seu carro e foi ao encontro das amigas.

Água para começar a noite. Uma única taça de vinho tinto seco. Nunca bebia mais que uma taça. Sabia dos efeitos na sua cabeça. Muito enjoo e ressaca no dia seguinte. Sempre foi fraca para as bebidas. Havia alguns anos que parara com os refrigerantes. Só água e sucos naturais. Além do mais estava dirigindo. O encontro com as amigas era uma comemoração. Muitas novidades sendo colocadas em dia. Muitos risos. Muitas lembranças. Muito o que falar. Eram amigas inseparáveis. Trabalhavam juntas e comungavam os mesmos ideais sociais. O bar era o mesmo de toda semana. O dono, um grande amigo de todas. Um belo jovem empreendedor; de sorriso largo e de ares de grande artista latino.

Esqueceram a tempestade lá fora. Os ventos deixaram de assobiar; apenas acariciam-nas. Uma mansidão dominou o ambiente. O zumbido dos ventos deu lugar aos zumbidos das amigas, às gargalhadas de algumas delas e os despropósitos da Conceição depois do segundo copo de sua cerveja.

Teresa, como acontecia em todos aqueles encontros, dera uma desculpa e logo foi embora. Ao chegar em casa, instintivamente, olhou para o céu. Era noite de lua cheia. O céu escuro estava claro, salpicado das estrelas que piscavam ora lá ora cá. Então pensou no grande amor de sua vida. Quantas saudades. Onde estaria ele? O que estaria fazendo? Teria casado? Pensou naquilo que os astros falavam acerca de seus signos.

Estavam separados havia muitos anos. Separados de corpos, de conversas e com longas distâncias separando-os.

Ela de câncer. Romântica, sob a inspiração e regência da lua. Suave e flexível. Ela é da água.

Ele de touro. Ligado ao prazer, ao conforto, a boa comida e boa música. Ciumento por natureza. Conservador. Teimoso. Habilidoso. Ele é da terra.

Os astrólogos afirmam que terra e água podem dar relacionamentos duradouros. Mas o que Teresa viu foi o amor deles resultar em lama.

O toque do telefone tirou-a daqueles pensamentos nostálgicos. Reconheceria sua voz até os finais do tempo. Era ele.

-Teresa, boa noite. Estou retornado para casa e encostei o carro na beirada da estrada, bem no alto da serra. Queria ver a lua. Sempre que ela me aparece assim tão bela, é de você que me lembro.

Teresa entrou em casa e deitou. Não dormiu. Chorou durante toda aquela noite.

O Zéfiro lhe trouxera arrepios no corpo e dores no coração.

Fotografias: Daniela Vida

09/04/2021















sábado, 10 de abril de 2021

Receitas para brincar com um neto

 

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLI)

 

Voe com ele numa nave espacial

Arrepie de prazer ao andar num cavalo de pau

Engrosse a voz; seja a bruxa mexendo um caldeirão com poções mágicas

Caia sobre ele nas curvas das estradas e

grite: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!

Escute-o dizer:

“Vovó! Você passou de fase no LEGO!”

Então tente montar uma casa com as peças miúdas.

Fique no gol e seja uma péssima goleira

Escute-o gritar: “gol vovó!”

Conte a história dos Três Porquinhos

Coloque seu neto na floresta enfrentando o lobo mau.

Se chegar viva até o final da tarde

Durma se puder.


29/03/2021

 

domingo, 4 de abril de 2021

E, neste outono que se inicia, você espera o que, além da vacina?

( Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLIII)







Neste domingo, enquanto espero meu neto chegar e ouvi-lo me chamar de vovó, fico cá a pensar no vazio de cada um de nós que essa pandemia escancarou.

Aqueles cuja negação da funesta doença continuam, desnecessariamente, circulando pelas ruas não puderam e, talvez, jamais poderão sentir esse volteio interno em nós.

Lamentável quando nos acovardamos diante da possibilidade deste reencontro de cada sujeito consigo mesmo nesse momento "sublime" que nos é dado (imposto?).

Essas pessoas continuam expostas ao contágio e à transmissão deste Coronavírus para familiares, colegas de trabalho, amigos e, quiçá, continuam expostas à morte.

Pois bem, estou a falar da Covid19 que, neste outono, poderá matar ainda muitos milhares de brasileiros por ignorância ou por encarnar as palavras de um presidente desqualificado, impiedoso, que leva a morte de seus seguidores e de todo seu povo.

Vale lembrar que o Brasil tem o maior, mais amplo e bem implantado serviço de saúde pública do mundo, com profissionais altamente qualificados, com prestação de atendimentos em todas as áreas da saúde, com um plano nacional de imunização (PNI) invejado por todos os países e com financiamento garantido pela constituição federal.

Entretanto, nosso povo está morrendo afogado, sem oxigênio. O planeta “água” pegou fogo, as geleiras choram lágrimas vulcânicas. Os animais estão morrendo de fome, de sede e sem habitat. O surgimento de novas cepas de vírus e espécies de bactérias não é sem razão. O homem está se matando. Não sem ter sido avisado.

Não consigo ver nada além de uma vacinação lenta, precária e que, sabemos, não trará a esperada imunização contra o contágio nem a desesperada imunização contra a ignorância. Neste quesito só a educação pública e de boa qualidade salva.

Porém, diante da falta de luzes das ciências em meu país, ainda posso olhar no meu pequeno entorno. Ainda posso assistir ao sobrevoo raso dos tucanos procurando alimentos, das rolinhas, dos sanhaços, dos tico-ticos e canários beliscando os grãos bem na porta da minha cozinha. Ainda posso levantar saudável numa manhã qualquer e cuidar de mim. Ainda faço longas viagens para dentro das minhas lembranças. Ainda ando bem acompanhada dos grandes escritores. Ainda espero as folhas velhas das minhas árvores colorirem o solo dos encantadores tons do outono.

E, além da vacina, ainda espero meu neto chegar.



                                           
 


                                                 
Fotografias: arquivo pessoal

04/04/2021

“A terra me chamou de Poeta e o eco no céu respondeu, Profeta” (Victor Hugo)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ingredientes para um texto não ficar enxuto

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XLII)




Abra bem os olhos

Veja as cores da natureza

use e abuse delas para colorir seu texto

Vá até as nuvens e roube suas formas

Agora dê formas às suas palavras

Viaje pelas estradas de Minas

Ilumine-se diante de tanta beleza

Sensualize seu texto com as curvas das montanhas

Quando lhe faltar verbos e carnes

Entre para dentro de si

Busque suas lembranças

e deixe que as lágrimas escrevam o resto.



Foto de Rosângela Alves ( poeta e fotógrafa)

30/03/2021

sábado, 20 de março de 2021

Crônica: Mulheres da Região

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XL)



















Escrever... Escrevendo

Missão difícil foi-nos dada por nosso mestre em escritas. Pensei e pensei e nada saia na página que continuava em branco. Queria falar das mulheres da minha região. Então, ouvindo as belíssimas canções, “Ontem ao Luar” e “Mulher Nova Bonita e Carinhosa” dos compositores nordestinos, Catulo da Paixão Cearense e Zé Ramalho, respectivamente e, juntando aos vários nomes dos livros publicados por nós, alunos da oficina de letras, decidi botar a mão na massa. Obviamente que bati tudo no liquidificador, rebolei bastante, juntei algumas ervas aromáticas num caldeirão e deu no que deu. Senão vejamos:

 

Mulheres da região


Trata-se de uma região abençoada nela natureza que nela colocou um pedacinho da mata Atlântica. Por ali ela já se mistura com o cerrado mineiro. É o sopé de um pedaço de serra. Ao longo dos caminhos encontramos grandes árvores. São flamboyants, buganvílias, ipês amarelos, roxos, palmeiras com as folhas decoradas de ninhos de jandaias e flores nos jardins. Entretanto o mais belo que se vê por ali são suas moradoras.

Lá embaixo, bem junto à “margem que ladeia o rio” Paraopeba, encontramos uma mulher diferente assim como seu nome. Ela luta pelos seus direitos de cidadã e pelos direitos dos outros. Ao lado de outra mulher cujos “caminhos do viver” vem lhe trazendo muitas dores. A tragédia de Brumadinho levou seu único e jovem filho. Entretanto ela se mantém íntegra e guerreira junto de todas as mães, pais, namoradas e namorados e filhos que se tornaram órfãos antes do tempo.

A maioria dessas mulheres são parentes. São primas, sobrinhas, cunhadas. Parece que a região, “Da Pitangueira à Pasárgada” deu como berço essas mulheres encantadoras.

Algumas delas vivem na “Primeira Pessoa”, sem mesmo o saber. Não faria diferença se o soubesse. São poderosas, cheias de sabedoria e expediente. 

Outra vive na “Composição” de afetos, de educação e de liberdade. Como “A Criadora de Sonhos e outras histórias” ela tece muitos caminhos.

Algumas irmãs vivem tão juntas que, não fossem as características seguintes, não saberiam quem é quem. Uma é frágil e doce e anda com “Os Pés descalços”. Outra é forte e esperta e vive como “Essetremloucodavida”. Outra é inteligente, dançarina e tem “Um olhar em cada canto”.

Há um quarteto de outras irmãs indistintas também. Uma é enigmática como o “Flexível Aço”. Outra está sempre juntando pedaços como “Soldas Poéticas”. A alegre e danada lembra a “Rosa nos tempos”. A outra traz o silêncio e “Tudo que há em mim” e vive viajando no “Vagão da Lia”. E da outra nada se sabe.

Do outro lado do caminho, há uma enorme ladeira em curva, ali mora “A mãe de ouro”, cujo filho é um jovem belo, amigo e futurista.

Noutra curva, desbarrancada pelas enxurradas, pode-se ver uma filha dessas mulheres, ela tem os olhos verdes de Atena, a explosão de Menalau e, “Por não saber fotografar um pássaro” quase caiu no buracão defronte a sua casa.

Aquela é linda mas, se não fosse tão recatada, poderia viver “As quatro estações do amor”. Sua irmã, vivendo nas “Entranhas” da mata, faz florescer todas as belezas da natureza em seu pedaço de chão.

As tias, junto com as sobrinhas, podem ser vistas torrando farinha de mandioca em gigantescos tachos (seriam de cobre ou de alumínio?) sobre a lenha crepitando nas bocas dos fogões de barro. Uma é pura doçura, de estatura pequena, e tia de padre. Quem a escuta e vê seu sorriso pensa que ela é um “Livro nas estantes”, cheia de sabedorias dos antepassados. Bonito de se ver e ouvir. Certamente que, o aroma exalado pela torrefação, leva a todas ao mais íntimo de cada uma.

A filha, despachada e amorosa, “Pergunta ao luar do mar a canção,
Qual o mistério que há na dor de uma paixão?’


Uma outra Tia, muito bem respeitada na região, sabe bem o que quer e como “Desenrolar o fio”. E faz lembrar uma “Maria Fumaça”.

São tantas as mulheres da região que não caberia aqui falar de todas elas e, esse, nem é o propósito. Entretanto seria verdade afirmar que todas elas sabem que “A dor da paixão não tem explicação”.

Se fosse escrito um livro sobre essas mulheres , ele se chamaria "Crônicas de Sol".

São todas luminosas e flores amorosas.

E, “Quem não ama o sorriso feminino

      Desconhece a poesia de Cervantes”



Observações:

1 - Os escritos entre aspas, em itálico e negrito são os nomes dos livros dos colegas da Oficina de Escrita, incluindo o meu "Rosa nos Tempos"

2 - Os escritos entre aspas e em itálico, são versos das letras das referidas músicas citadas acima.

3 - Fotos gentilmente cedidas por uma Cristiane Siqueira e Andresa Rodrigues.

4 -Adorei escrever sobre essas mulheres maravilhosas.

Rivelli, 20/03/2021



terça-feira, 16 de março de 2021

Crônica: Pandemia x Ignorância

(Indelicadezas em Tempos de Coronavírus - I)

Há um ano a Organização Mundial de Saúde anunciava ao mundo uma nova doença causada pelo Coronavírus cuja transmissão humana se dava pelo contato com as gotículas de água expelidas durante a fala, os espirros e tosses e a respiração (o perdigoto como é chamado em medicina). Informaram que nada sabiam do novo vírus que sofrera mutação dos animais para o homem, surgido provavelmente na China. Foi dito também acerca da alta taxa de transmissão embora com baixo índice de adoecimento grave e ou morte. Mas salientaram que, devido ao contágio rápido, acabaria resultando em um grande número de pacientes graves e mortes. Nada sabiam sobre o possível tratamento. Nenhum medicamento havido sido eficaz na China, onde a doença fora diagnosticada, senão a prevenção que consistia em distanciamento, o uso de máscaras, o ato de lavar as mãos com água e sabão e álcool em gel, várias vezes ao dia, e o isolamento caso houvessem pacientes com exames positivos.

As TVs do mundo inteiro começaram a mostrar os doentes, os hospitais cheios, as dezenas de mortes, as centenas de mortes e as milhares de mortes pela então denominada doença COVID-19. Pelo mundo afora. Foi tudo muito rápido. Só se viam pessoas de máscaras transitando pelas diversas cidades do planeta. Assim aprendemos uma nova palavra que vem causando calorosas discussões: lockdown. As cidades deveriam fechar e manterem apenas os serviços essenciais. Estavam dadas as orientações.

Cada país, cada região, cada cidade foi criando seus comitês de enfrentamento à Pandemia pelo Coronavírus. Nossas famílias foram perdendo pais, mães, filhos, tios, avós, sem nem mesmo fazer as honras fúnebres. O mundo parou para chorar seus mortos.

Entretanto no país chamado Brasil nada fora feito pelo presidente que minimizava a doença, criticava aqueles e aquelas que se comportavam conforme os protocolos da ciência, ironizava as dores dos familiares órfãos. E, para além disto, incitava o povo a saírem às ruas sem máscaras, fazerem aglomerações e não obedecerem às instruções dos especialistas e que "aquilo", não passava de uma “gripezinha”. Esse mesmo presidente comprou toneladas de medicamentos que, segundo ele, deveriam ser usados como agentes preventivos. Medicamentos esses sem quaisquer comprovações científicas para tal uso e, para além disso, com efeitos colaterais graves como hepatite e problemas cardíacos. Mesmo assim, uma grande parcela do povo brasileiro obedeceu cegamente ao seu “mito”. Muitos deles acabaram sendo infectados, outros apresentaram doenças hepáticas e tantos outros acabaram morrendo também.

O Coronavírus vem nos mostrando que ele não escolhe raça, cor, gênero, rico, pobre, embora, inicialmente, fora observado que ele infectava mais as pessoas acima de sessenta anos, devido ao fato de terem o sistema imunitário mais lento e deficiente. Entretanto, passado um tempo, a transmissão se alastrou por todos os recantos do mundo e o Coronavírus passou a infectar também outras faixas etárias, chegando à triste realidade de mortes de crianças e recém-nascidos. Ele vem, sem piedade, entra em nossos pulmões, rouba-nos o ar e a vida. O vírus nos mata. Só isso. O vírus veio ensinar sobre o conceito de democracia. De todos para todos. Quem quiser que aprenda a lição negada pelo tal presidente do Brasil.

Esta foi a introdução para a questão que desejo colocar, ou seja, o que faz as pessoas se orientarem pelo erro, pela negação da obviedade, pelo descaso com a ciência, pelo apelo e amor à ignorância e ao ódio, pelo descaso com o outro, pela cegueira diante da luz?

A história já nos mostrou os horrores da idade Média, os povos vivendo nas trevas, os reis e clérigos usurpando direitos, queimando as “bruxas” porque elas eram mulheres sábias e belas. E, tal fato, era uma ameaça ao patriarcado, ao poderio da igreja e à imoralidade.

A história, ainda bem recente, nos mostra também sobre o inominável alemão de bigodes curtos quando, na segunda grande guerra mundial, matou seis milhões de judeus, duzentos mil ciganos, três milhões de soviéticos, dois milhões de poloneses, porque queria uma raça ariana pura, porque não gostava de outros povos. Fez o povo alemão acreditar que ele estava certo. E o povo acreditou e cometeu a barbárie que todos nós conhecemos.

Volto à questão: o que faz um povo amar um ser inescrupuloso, horrendo, sem expressão na sua língua mãe, violento, machista, racista, subserviente aos interesses imperialistas dos EUA?

Não quero acreditar que os apoiadores desse presidente - os chamados “bolsominions ou bolsonaristas” se identifiquem com tal figura. Freud nos ensinou sobre a identificação aos detentores do poder e aos líderes, quando esses tem dentro de si as mesmas características daqueles. Portanto e, infelizmente, me rendo, calo e aceito que assim seja como tão bem trabalhado pela psicanálise. 

Seja pela paixão à ignorância. 

Seja pelo ódio ao saber.

Mas, há o amor à ignorância e há a preguiça de ler e aprender. Aqui abro um parêntese para dizer daqueles que jamais tiveram a oportunidade de estudar e que, nem por isto, deixaram de aprender com a vida. A sabedoria é aprendida e apreendida com a vida. Não posso deixar de citar nosso eterno presidente Luiz Inácio da Silva. Mas volto ao presidente atual que, num desabafo de ignorância e contrário aos livros didáticos, nos disse que, “os livros atuais tem muitas letras”.

Então volto á minha leitura do clássico “Os Miseráveis”, escrito no século XIX, na França, com suas mais de mil páginas, outras milhões de belíssimas palavras e bilhões de letras.

E termino transcrevendo a seguinte afirmativa de Victor Hugo: “O impulso das paixões e das ignorâncias, é diferente do impulso do progresso. Levantem-se, que seja, para crescer. Mostrem-me para que lado vão. Não há insurreição senão para adiante. Qualquer outro levante é mau. Qualquer passo violento para trás é revolta. Recuar é uma violência contra o gênero humano.” (livro X – cap. I)

14/03/2021

segunda-feira, 15 de março de 2021

Apenas uma resposta

 (Delicadezas em Tempos de Coronavírus -XXX)

(Alongamento 3 da Primeira Oficina de março de 2021)

"Continue o parágrafo abaixo..."

Ele precisa atravessar a ponte e avisar que eles estão chegando. Mas a ponte foi bombardeada. Ele precisa pegar o barco, atravessar o rio e comunicar que eles estão chegando. Mas o barco está sem remos. Ele precisa salvar o seu amor que está do outro lado rio, e dizer a ela de seu amor imortal. Mas não há ponte, não há remos, mas há um coração pulsando de paixão.



Jamais haverá necessidades de pontes para dois corações que se amam uma vez que existe a leitura nos olhares dos apaixonados. As faíscas do amor atravessam rios, tempestades, oceanos e, até mesmo, tempos, vidas e mortes. 

O grande amor de Maria foi assim. Viveu a infância apaixonada por Joaquim que viajou pelo mundo e se casou em terras longínquas. Ela casou-se por aqui mesmo. Teve filhos. Um dia Joaquim reapareceu. Junto dele voltaram todas as luzes e fogos que iluminaram os tempos idos.

Outros ventos, outras tempestades, outros oceanos e outras terras impediram a concretização dos amantes.

Entretanto continuam se amando. Ele lá, ela acolá.

Ainda aguardam a ponte etérea que ligará o abismo que os une.

14/03/2021



quinta-feira, 11 de março de 2021

O Córrego do Inferno - Lenda

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXXIX)





No caminho para a Fazenda São José do Porto, em Brás Pires (MG) havia um trecho onde a mata era fechada, as árvores altas e os cipós, entrelaçavam tudo, tornando impossível adentrar por ali. Só se ouvia o som de uma queda d´água escondida na mata. O trecho era longo e, de uma curva acentuada numa descida, dava-se com o Córrego do Inferno.

Era ali que o demo aparecia nas noites escuras de lua nova. Soltava fumaça pelas ventas e seus olhos faiscavam labaredas de fogo e sangue. Deixava no ar um cheiro podre de enxofre e um hálito etílico. Ninguém se arriscava passar ali naquela luas. Até tentaram mudar o nome do riacho para Córrego da Glória, para tentar exorcizar o coisa ruim. Mas o diabo enfeitiçou os passantes que continuavam a chama-lo de Córrego do Inferno. 

Quem quiser ver o desconjuro é só ir lá na lua nova. Eu já me arrisquei. Fui lá. Queria ver bem de perto quem era o tal safado que aparecia nas noites sem luar. Jamais contei o que eu vi por lá. Mas conto que um primo, danado de matreiro, ganhou o apelido de Zé Capeta. Todos diziam que ele, quando morresse iria direto para o limbo e para os infernos pois teria que pagar por seus pecados. Pois bem, agora que ele morreu, voltou a amedrontar os cavaleiros e senhoras que passam pelo Córrego do Inferno.

Aviso que, quem for lá, deve levar uma garrafa de pinga, da boa. Ele vai adorar a visitinha e a cachaça.

28/03/2021

Fotografia: cachoeira no meio da mata no alto da Serra da Mantiqueira - Aiuruoca (MG) - Arquivo pessoal

Observação: 
Esta historieta foi escrita em resposta à questão colocada na quarta Oficina de Escrita de fevereiro de 2021, pelo mestre e poeta Ronald Claver: "Você tem medo de assombração?"

Consideração do mestre:

A história da assombração é fantástica, tão simples, mas gostosa de fazer medo até no capeta. Ah, o capeta, hoje os capetas vivem de terno e gravata e dão uma banana, poderia ser uma vela, para o povo que o elegeu. A escrita é leve, um contar sem fim, é como estivéssemos em uma roda, comendo broa e tomando café e ouvindo a avó contando coisas do demo. E a gente morrendo de medo. E escrever é também isto, facilitar, sem se tornar pequeno, as pequenas coisas. Parabéns, bjs

quarta-feira, 10 de março de 2021

A Procissão do Encontro


(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXXVIII)





















Como por todo interior das Minas Gerais, a cidade de Lafaiete também teve seus áureos tempos de grandes encenações durante a semana Santa. Delas jamais esquecerei. A disputa entre as paróquias, para que cada qual tivesse suas apresentações mais bonitas que a outra, acabava por nos proporcionar grandes encantamentos e emoções.

Eu era ainda muito pequena e não aguentava seguir todo o trajeto das procissões. Ia atrás da minha mãe. Agarrada a ela. Sentindo muito frio dentro de poucas roupas. O frio entrava pelo tecido e cortava minha pele. Às vezes, as mãos adormeciam. O xixi quase escorria pelas pernas abaixo.

Meu pai tocava na banda. Era um acalento naquele frio congelante saber que ele era um importante músico da banda.

Lembro que havia procissões em quase todas as noites. Santa Maria ficava numa igreja e Jesus Cristo noutra. Nas quartas-feiras havia a procissão do encontro. Para mim era o sermão mais bonito de se ouvir. Eu chorava junto com Nossa Senhora ao se encontrar com seu filho carregando a cruz e todo ensanguentado. O padre gritava seu sermão. Falava da dor de Maria ao ver seu filho preso, condenado e açoitado. Não sabia se chorava mais de pena da mãe de Jesus, se chorava de sono, de frio, de fome ou de vontade de fazer xixi.

As procissões eram longas. Subiam e desciam as ladeiras da cidade alta. Duas filas, uma de cada lado. Passos lentos e as ladainhas davam-lhes o ritmo. Sempre havia mais mulheres que homens. Eu observava tudo. Será que as mulheres eram mais piedosas?

Nunca guardei a ordem dos eventos da Semana Santa. Havia a cerimônia do Lava-pés. A crucificação de Jesus. A encenação da decida da cruz nos deixava de olhos vidrados nos movimentos, temendo que deixassem Jesus cair. Não achava tanta graça naquilo. Acho que ficava muito cansada. Sermões tinham toda noite. Havia o sermão das sete palavras que nunca soube quais eram elas. Se soube, já esqueci. Mas, para mim, o mais bonito era o silêncio na procissão do enterro. As velas acesas deixando respingar cera quente nos dedos e nas mãos. De repente ouvia-se um canto noutra língua. Uma única voz potente e estridente chorava uma canção. Enquanto cantava ia desenrolando um pano branco com o rosto de Jesus Cristo com uma coroa de espinhos e gotas de sangue caindo na sua face. Eu chorava baixinho. A voz da Verônica, me contaram o nome dela depois, entrava dentro do meu coração e o dilacerava.

Achava muito esquisito todos os altares ficarem escondidos por imensas cortinas roxas. O altar da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Lafaiete ainda continua sendo, para mim, um dos altares mais belos que conheço. Todo em rococós dourados, com pinturas em tons rosa e azul claro. O contraste das cores com o dourado torna tudo uma beleza de se ver e admirar. Na Semana Santa ficava tudo escondido. Uma tristeza para mim que amava ficar olhando toda aquela arte dos mestres barrocos de Minas. Muitos anjinhos, santos, santas e até demônios pintados (será que havia demônios ou eles estavam só na minha imaginação?) em cenas bíblicas no teto e nas paredes laterais. As paredes tinham quase um metro de largura. Ficava imaginando se não havia ouro escondido (dos portugueses) entre as paredes.

Os bancos centrais da igreja, durante as missas e outros eventos, eram ocupados pelas pessoas mais importantes da cidade. Roupas de domingo desfilavam pelo centro da mais antiga igreja da cidade. As pessoas de classe inferior e as pessoas negras ficavam nas capelas laterais. A maioria dessas pessoas ficava de pé. Eu, minha mãe, meu pai e meus irmãos, ficávamos de pé encostados nas gigantescas paredes frias. Meu pai costumava encostar também a cabeça na parede.

Penso que, naqueles tempos, embora ainda criança, já sabia qual era meu lugar. Não que me importava ser pobre, mas eu gostaria muito de ficar bem defronte aqueles maravilhosos altares. Entretanto saberia, num futuro próximo, do imenso abismo que ocorria entre as classes sociais, o racismo que escravizou tantas pessoas mesmo após a lei abolicionista, e tudo com pactuação das áreas mais conservadoras da igreja católica.

Os estudos, as leituras, a vivência com minha família e com outras famílias vizinhas, me mostravam o avesso de tudo aquilo. Fui entendendo muita coisa. Talvez, minha família, não quisesse que eu deixasse de ter fé. Mas foi inevitável. A partir desse tempo fui me afastando das missas e orações, não sem muitos atritos com os pais e irmãos. De repente eu me tornava a ovelha negra da família.

Hoje, meio século depois, ainda ouço o canto desesperado da Verônica desnudando o sudário; ainda sinto o cheiro delicioso dos incensos; ainda sinto o corpo congelando do frio; ainda sinto vontade de fazer xixi; ainda tenho um grande orgulho do pai músico.

Mas não compactuo e denuncio sempre os descalabros praticados pelas religiões em nome da fé de um povo cuja ignorância vem sendo mantida para manter a vida farta de seus “pastores”.

Certamente faria tudo outra vez só para sentir as emoções daqueles tempos.

09/03/2021

Fotografias: Gentilmente cedidas pelo lafaetense "garimpeiro de fotos antigas de nossa cidade"  e servidor da Secretaria de Cultura de Conselheiro Lafaiete: Mauro Dutra de Faria. Meu amigo virtual no Facebook a quem muito agradeço.

Observação: Esta crônica é o dever de casa proposto na "Quarta Oficina de Escrita" do mês de fevereiro deste ano com o tema "A quaresma é paciente e dura quarenta dias", ministrada pelo poeta, Ronald Claver.

Considerações de Ronald Claver para o trabalho:

Procissão: Também é uma deliciosa narrativa, vejo como os olhos de hoje/ontem a menina toda doce, ouvindo o sermão e se encantando com o canto de Verônica. Com os santos escondidos por sedas lilases e roxas. A batalha das igrejas em busca da perfeição. Os altares de Lafaiete tão encantadores como místicos. O frio, a vontade de fazer xixi, o medo e o êxtase diante do Cristo crucificado. A igreja é humana e sendo humana padece de imperfeições e abusos. Mas aquela fé que ficou nos passos da menina que se agarrava à saia da mãe continua intacta. Depois vieram os pastores do dinheiro, da cobiça e o encanto de ontem continua, mas o de hoje não existe mais. Parabéns pelos textos e continue escrevendo para delícias de olhos e corações, bjs

domingo, 28 de fevereiro de 2021

O Carnaval das Borboletas

 (Horrores em Tempos de Coronavírus -I)             




Marcia decidira que naquele ano iria sair no carnaval. Perderia a vergonha. Descobrira que, com uma única dose da caipirinha, soltava seu corpo e arriscava alguns passos de dança. Amava o carnaval de sua cidade. Os sons e os ritmos das bandinhas traziam de volta a menina que ficou lá trás. A prima já a havia convidado desde sempre; esta jamais faltaria a um bloco de carnaval. Era a animação transvestida de estudante de química. Sua química era bem outra: muita alegria e muita sedução. Ângela e Luciana também estavam na roda. Quatro amigas mais outras tantas que foram se aconchegando.

Uma semana antes começaram a fazer as fantasias. Marcia nunca ousara vestir uma minissaia ou uma blusa mais extravagante. Foi criada como moça de família, moça virgem para o casamento, moça de bons modos. Não se havia permitido nem se olhar nua no espelho. Aliás não existiam espelhos na sua casa senão aqueles pequenos com molduras alaranjadas. Só via seu rosto. Agora havia decidido cair na folia. Ângela, a amiga artista nas costuras, bordados e tantas outras invenções, sugerira sair como odalisca. Faria para Márcia, uma calça e uma blusa, esvoaçantes, nos tons azul marinho para destacar sua pele muito branca. Enquanto para si faria nos tons amarelos para realçar sua pele morena. Tidinha, a prima, escolhera o vermelho e Luciana, o verde escuro. O quarteto de odaliscas estava formado. As quatro procuraram aprender alguns passos da dança do ventre e prometia alvoraçar os colegas com muita sensualidade e beleza.

A ansiedade tomou conta das meninas ainda bem antes das ruas. Combinaram quando e onde iriam as odaliscas mineiras nos quatro dias do carnaval juiz-forano. Sexta-feira haveria um baile numa boate famosa da cidade e um dos proprietários havia convidado a festeira Tidinha que, de imediato, aceitou desde que pudesse levar as outras três. Feito e combinado foram logo escolhendo seus trajes para aquela noite de estreia no carnaval. Era uma das boates mais famosas da cidade e o início do baile estava previsto para as vinte e duas horas. Para lá se foram as quatro borboletas coloridas e esvoaçantes após se encontrarem num local combinado. Estavam lindas.

Uma mesa as esperava com todo o requinte que o ambiente exigia. Tidinha logo encontrou um antigo namorado e voou para junto dele. Lucinha ficou sentada, à espera do acaso, Ângela era a mais animada. Dançava para si. Não precisava de nenhum outro. Marcia estava atônita. Era sua estreia num baile de carnaval como aquele. Percebeu que estava sendo flertada por um simpático rapaz. Ficou quieta vendo-o dançar com outras moças. Até que chegou e convidou-a para dançar. Marcia, que sempre ouvira de seu pai sobre seu desarranjo nos passos, arriscou aceitar e foi para o meio do salão. Começaram a conversar: Como é seu nome? Perguntou ele. Ela respondeu e devolveu a pergunta. “É de Prata”, foi a resposta dele. Ela logo pensou que ele estaria debochando dela e, instantaneamente, respondera: “Pensei que fosse de ouro.” A música acabou e ele agradeceu a parceira. Marcia voltou para a mesa e ficou a observar os dançantes.

De repente um alvoroço tomou conta do lugar. Foi o tempo de Marcia ver um jovem caído ao chão. Estava ensanguentado. Na correria para a saída Marcia pode ver o rosto de um jovem transtornado, com sangue na sua roupa e um estilete comprido na mão

A noite acabara naquela hora. Cada qual de volta pra sua casa. Marcia entrou em casa sem nem mesmo saber como chegou ali. No dia seguinte, as emissoras de rádio anunciavam a morte de um estudante numa boate da cidade. E, por volta do meio dia, o prédio onde morava fora cercado por policiais. Olhou pela janela e viu um vizinho ser conduzido até um camburão. Ele virou o olhar e encontrou o olhar de Marcia. Teria pensado que fora ela a denuncia-lo? Esta ideia ficou nos pensamentos de Marcia que logo pedira abrigo na república de Tidinha.

Na tarde do sábado as meninas haviam combinado desfilar na avenida num bloco de universitários. Embora ainda com a cena da noite anterior bem viva dentro delas, foi decidido que manteriam a programação. Ângela era a mais tranquila. Lucinha ainda perguntava o que teria acontecido. Tidinha estava noutro planeta depois do cigarrinho de cannabis. Marcia estava ressabiada, mas acompanhou o voo das borboletas.

No ponto de encontro dos estudantes foi lhes oferecido o cheirinho da loló. Só Lucinha não aceitou. Dançando e cantando “prá não dizer que não falei das flores” o bloco chegou na avenida principal da cidade. Nesse momento Marcia se viu tonta, a visão embaralhada, o estômago dando reviravoltas. Mais tarde só lembraria que sentou-se no meio-fio e um braço lhe socorreu. O trio havia seguido o bloco. Estava num bar bebendo Coca-Cola. Ao seu lado o jovem da boate. Edir Prata era seu nome. Tratou-a com gentileza e cuidados e oferecera para leva-la para casa. Marcia não conseguia nem pensar para onde deveria ir. Tidinha estava na avenida com as duas amigas. Ela tinha medo de voltar para sua república e encontrar o vizinho. Aceitou ir para o apartamento daquele que não era de ouro. Ainda conseguiu esboçar um sorriso ao lembrar da noite anterior.

O rapaz sugeriu que tomasse um banho e fosse descansar um pouco. Marcia acordou no meio da noite. Um cheiro de sopa caseira pairava no ar. Ela saboreou o caldo leve. Agradeceu os cuidados e pediu que a levasse para a casa de Tidinha.

Ele prometeu leva-la na manhã seguinte e tranquilizou-a. Era um apartamento bem cuidado. Tudo nos seus devidos lugares. Limpo. Decorado com simplicidade, mas tudo de bom gosto. Um só quarto com uma cama de casal, um enorme guarda-roupas. A cozinha em estilo americano. A sala ampla e um espaço com uma luxuosa escrivaninha.

Marcia acordou com uma mesa de café da manhã e flores. Estranhou tanta dedicação, mas se calou. Edir Prata falou de seu trabalho como gerente de banco. Disse que já algum tempo vinha gostando dela e, por meio de Tidinha, soubera de todos os seus passos. Confessou que estava apaixonado por ela. Falou sobre seus familiares vivendo num sítio numa cidadezinha próximo dali. Falou dos pais e dos irmãos mais novos que viviam dos produtos da roça. Convidou-a para irem até lá naquele domingo de carnaval. Marcia aceitou o convite desde que passassem na casa de Ângela, a mais pé no chão, e dissessem para elas não se preocuparem.

Ângela não estava em casa. Havia dormido na casa de amigas. Marcia deixou o recado.

Viajaram brincando e cantando, embora Marcia ainda estivesse um pouco enjoada. Seria bom sair da cidade. O ar do interior lhe faria bem, pensou ela.

Pararam no meio do mato, sem casas visíveis ao redor e Edir Prata pediu-a que descesse. Queria lhe mostrar umas árvores raras daquela região. Seguiram por um caminho estreito, adentraram pela mata e encontraram uma cabana abandonada.

Aproximaram da cabana. Ele abriu a morta e um cheiro forte de carne apodrecida saiu de dentro do espaço escuro e sem janelas.

Ele pegou-a pelo braço, empurrou-a para dentro. Trancou a porta e gritou.

-É aqui que guardo aquelas que amo.

E foi-se embora ouvindo apenas o silêncio que emanava daquele lugar.

28/02/2021 (Em clima de horror frente ao bolsonarismo)


Fotografia: feita por mim numa visita ao distrito de Córrego do Feijão - Brumadinho - cinco meses após a tragédia-crime da Vale em janeiro de 2019.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Carnaval de 2021

 

Neste carnaval meu coração bateu aos sons da cuíca, do pandeiro e, às vezes, do surdo, que lhe deu voz. 

Então meu coração cantou esparramando pelo mundo todas as dores das famílias das duzentas e cinquenta mil pessoas mortas pela Covid-19 num país presidido por um genocida.

E eu chorei fora da avenida.

(Exercício da oficina de escrita Ronald Claver, fevererio de 2021)

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Haicai

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXXVII)


Na folha em branco, sem inspiração 

faço umas dobraduras

e viajo num avião


Funil, 20 de fevereiro de 2021

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Crônica do acaso

 

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXXVI)

 


Eu queria ter meu próprio dinheiro. Havia decidido que não iria parar meus estudos por falta de capital. O curso escolhido exigia muita disciplina, estudos e financiamento. Embora já tivesse claro para mim que só poderia fazê-lo numa universidade pública. Morando no interior, talvez fosse ainda mais difícil. Ou não. Eu precisava inventar meios de trabalhar. Lembro que dei aulas de reforço em aritmética, geografia e ajudava nos deveres de casa de duas irmãs gêmeas e a satisfação do pai em vê-las aprovadas valeu qualquer esforço além do pagamento vir ainda com um acréscimo. Eu guardava todo o pagamento recebido pelos meus trabalhos. Até que surgiu a oportunidade de dar aulas no MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Estava com quinze anos e todos os alunos eram mais velhos que eu. As aulas eram dadas numa enorme sala do prédio do Tiro de Guerra, bem próximo à minha casa. A alegria dos meus alunos e alunas ficava estampada nos seus rostos a cada letra reconhecida ou escrita. Se conseguiam juntar as letras, formar sílabas e juntá-las para formar uma palavra, a alegria era redobrada. A cada nova palavra uma descoberta e uma viagem às rotinas de cada uma delas.

Um aluno, em especial, chamou muito minha atenção e dele jamais esqueci. Era meu vizinho e sua família havia mudado para ali recentemente. Não conhecia pessoas com aquela cor de chocolate e dos cabelos pretos e lisos. Sempre achei que fossem índios. Ainda acho. A mãe já era uma senhora mais velha, com os modos diferentes de andar, de prender os cabelos lisos, brincos e colares dourados e coloridos. Quando a via no passeio de sua casa, estava sempre acocorada, com saias rodadas. Era uma família numerosa. Todos eram bonitos; com aquela bela cor e os belos cabelos negros brilhantes. Será que eram índios? Ou será que eram ciganos? De onde será que vieram? Por que o rapaz não aprendeu a ler e escrever? Seriam muito pobres? Moravam na roça? De que cidade vieram? Mas minha pouca idade me levava para outras imaginações. Enquanto eu viajava noutros planetas, minha mãe e outras vizinhas prestaram solidariedade e deram boas-vindas àquela imensa família.

Ou será que, naquela época, eu já estaria invernada nos meus livros e cadernos para garantir uma bolsa de estudos noutra cidade? Não me lembro de ter sabido as respostas para minhas perguntas. Mas lembro bem que esse jovem começou a beber muita cachaça. Meu coração doía todas as vezes que o via descendo a rua, após um dia de trabalho. Cambaleava. Abaixava a cabeça quando me via.

Ganhei a tão desejada bolsa e fui embora. Voltava, de vez em quando, para visitar meus pais. As passagens eram caras e precisava continuar economizando meus parcos recursos.

Muito tempo depois disto soube que o irmão mais novo que o meu vizinho e ex-aluno havia se casado e que continuava morando com os pais. E pouco tempo depois disso soube que o irmão havia falecido no mesmo dia em que seu primeiro filho havia nascido. Tenho para mim que a emoção fora tanto que seu coração parou. Morrera de enfarto minutos depois de ver seu filho ou nem chegara a vê-lo? Não sei.

Meio século depois de ter tido esse aluno no MOBRAL comprei a casa onde vivi naqueles tempos. Sempre que vou lá fico viajando através das janelas, do terraço ou chego ao portão. A rua ainda é a mesma. Muitos moradores ainda são os mesmos. Mas agora, quando aquele “índio-rapaz-homem” passa sóbrio, após mais um dia de trabalho e me cumprimenta, há um não dito em seu olhar.

Só eu e ele sabemos da história desse olhar.


Foto: dentro de um barco para Frankfurt, Alemanha, agosto de 2018.

Funil, 17 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

“Aquela que não hesita está perdida”*

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus -XXXV





Efigênia encontrou a frase num dos últimos livros que leu. Não gostou tanto do enredo do mesmo embora tenha gostado muito da forma como a autora conduziu os diálogos. A frase ficou na sua cabeça. Ia e vinha e a frase a acompanhava. Aquilo lhe tirou o sono por algumas noites.

Será que, se tivesse hesitado, teria tido uma vida melhor? Teria conseguido caminhos menos tortuosos?

Passou a lembrar do fato de ter sido tão afoita nas suas escolhas e decisões ao longo de sua vida. Suas inquietações não teriam lhe dado tempo para hesitar? Ia. Só ia... E sempre foi só. Não olhava para os lados nem para trás. Era preciso andar para viver. Ou foi preciso viver para andar?

Efigênia escolheu sua profissão. Não hesitou na escolha. Não haviam tantas escolhas no seu tempo. Depois não conseguiu exercê-la. Mas conseguiu fazer dela um degrau para licenciar-se como professora de física e matemática.

Casou com aquele que amou embora ele já tivesse dado provas de que não seria um bom marido. Não hesitou. Estava apaixonada. O casamento durou o tempo para dois filhos, muitas desavenças, traições e um desfecho litigioso. Ela continuava amando o marido que, a seguir, casou-se com outra. Ela fechou-se dentro de si, de seu trabalho e de sua casa. Cuidou e protegeu os filhos como uma leoa.

Outros homens apareceram e, sem hesitar, Efigênia caía de amores e logo se via, novamente, em maus lençóis. Sofria toda vez que era deixada ou trocada por outra. Amasiou com a tristeza e a solidão. Não sabia ser diferente.

Depois que leu a maldita frase no livro famoso ficou atordoada. E se tivesse hesitado em tudo na sua vida? Conclui que aquela que hesita não se encontra e que ela, de alguma maneira, havia se encontrado. Deu-se conta que era assim: inquieta, sonhadora, guerreira, maternal, amante.

Lamentou aqueles que hesitaram e a perderam.


Conselheiro Lafaiete, 3 de fevereiro de 2021.

(*) Frase do Livro "O Conto de Aia" - Autora Margaret Atwood

Observação:
Este texto foi construído em resposta ao provérbio árabe que diz "A primeira vez que me enganares, a culpa será tua; já da segunda vez, a culpa será minha" sugerido pelo meu mestre da Oficina de Escrita


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

História Infanti- As aventuras de "Igui de la Mancha"

 

(Delicadezas em tempos do Coronavírus - XXXIV)



Meu neto de cinco anos decidiu mudar de classe animal. Agora ele se tornou um gato. O gato IGUI, com toda a elegância que a pronúncia exige. Chegou a nomear-se de "Igui Igor de la Mancha" ou "Igui Lacan de la Mancha" mas acabou abandonando os segundos nomes. Agora faz questão de manter o “De La Mancha”, provavelmente por suas incursões nos moinhos de vento do Dom Quixote, leitura atual de seu pai que não é gato, mas divide com ele suas imaginações. 

Pois bem, em visita recente e demorada à casa do meu neto, Igui, fui convidada por ele para uma viagem ao Uruguai – atentem para a quantidade de vogais iguais repetidas e para a pronúncia – uma vez que decidira morar naquele país que faz divisa, ao sul, com o Brasil.

Imediatamente aceitei o convite e entramos no confortável Honda Fit da mãe dele. O pai arrumou todo o conforto possível para os viajantes. Ali estavam, além do Igui, gatos e gatas da família e um gato amigo.

E lá fomos nós de Minas Gerais, Brasil, para as terras uruguaias. Igui começou a dirigir, mas logo cansou das estradas. Foi dormir junto aos companheiros e companheiras no espaço cheio de cobertores e almofadas.

-“Durma bastante e assim aproveitarei para ganharmos mais estrada”- disse-lhe eu.

- Ok motorista! Mas como é mesmo o seu nome? -perguntou-me ele.

- Marina – respondi-lhe

Igui dormiu até São Paulo quando o acordei para um café da manhã. Ele pediu leite com chocolate meio amargo, pão francês e ovos mexidos.

- Não esqueça de comprar bastante água e leite para seus amiguinhos! - Lembrei-lhe, pois afinal ele era o chefe daquela expedição.

Voltamos para as estradas em direção ao Paraná. Falei sobre a bela cidade de Curitiba e seu planejamento urbano reconhecido em todo o mundo. Ele, então, decidiu almoçar por lá.

Entretanto, devido a sua ansiedade para chegar no Uruguai, pediu que fôssemos ligeiros.

- Daqui a pouco estaremos em Santa Catarina e eu gostaria muito de conhecer Florianópolis, a capital do estado que é uma ilha. – Fui logo dizendo prá ele.

Igui aceitou minha sugestão desde que não atrasássemos muito por ali. Decidimos passar apenas pela parte continental da cidade.

Diminui a velocidade do carro para ver as maravilhosas praias catarinenses quando, de repente, Spock saltou do carro e pulou para cima do capô vermelho.

- Cuidado! - alertou Igui.

- Acho que ele queria também ver o mar e pegar uma onda – meu chefinho deu uma risada da minha resposta.

Paramos e o gato rajado de branco e amarelo deu outro salto; agora para dentro do carro.

Todos tranquilos, voltamos para nossa viagem. Já estava anoitecendo e ver o por do sol naquela região foi um espetáculo.

Igui já havia reservado nosso hotel. Ou melhor, o hotel para os gatos, mas que aceitava uma humana também. Hotel Aguaboia. Bem na divisa com o estado do Rio Grande do Sul.

Foi só nesse momento que as gatas dorminhocas acordaram. Ou seja, acordaram para dormirem no hotel de cem estrelas. Porque hotel para gatos é sempre sobre os telhados. Foi neste hotel que Mingau comeu todo o creme de milho verde com muita canela que estava sobre a mesa. 

- Não conseguirei atravessar os quase setecentos quilômetros de extensão do estado até a divisa com seu país num só dia. – Comuniquei para o felino dos pelos pretos e luminosos que era o meu chefe.

- Não tem problemas – foi logo respondendo.
 Já reservei o Cats Hotel. Vamos dormir lá e voltaremos a pegar a rodovia bem de madrugada. Quero chegar no Uruguai ainda amanhã. Tudo bem? – perguntou-me ele, o gato Igui.

Contei-lhe que a cidade brasileira mais ao sul do país chama-se Uruguaiana. Foi o bastante para ele antever seu amor pela cidade.

Dormimos em Pelotas, bem pertinho da Lagoa do Patos, a maior laguna do Brasil, disse ao meu “cat-boss”. Disse também que tenho um amigo naquela linda cidade e que os habitantes do estado são chamados de gaúchos. Mas ele já nem me ouvia. Seu coração batia acelerado. Queria logo chegar ao país que escolhera para morar.

Como motorista e viajante das estradas – lembro que não gosto das viagens de avião – contei-lhe sobre minha viagem àquele país há alguns anos, quando também havia pensado em mudar para lá.

Meu amor pelos nossos vizinhos uruguaios já era antigo. O futebol uruguaio é um dos melhores do mundo e vários jogadores de lá já brilharam no nosso querido Clube Atlético Mineiro. Tentei explicar, aos modos de gato, sobre o escritor uruguaio, Eduardo Galeano – xará do nome humano do meu neto - de quem gosto muito. E o orgulho do povo de lá do grande ex-presidente e cidadão, José Mujica, a quem também tanto admiro. 

Ficou atento a tudo que eu disse. Não era apenas pelas vogais repetidas e pelo som semelhante ao seu nome que meu neto escolhera aquele país para viver. 

 Prestava atenção em tudo que dizia.

E quase explodiu de tanta felicidade quando atravessamos a divisa com o Uruguai. Não se conteve e acordou Princesa Consuelo e Nina que dormiam até aquele momento. Spock pulou logo para fora do possante vermelho e saltitava de alegria.

Dormimos em Montevideo, num amplo Cats-Hotel, na parte antiga da cidade. À noite todos os gatos saíram para se divertir em torno do mercado do peixe e da carne de boi.

Obviamente que, após refastelarem da melhor carne bovina da América do Sul, dormiram em “berço-esplêndido”, ou melhor, em telhado iluminado.

Mas meu chefe ainda queria mais. Conhecer o Mar Del Plata na região da única cidade portuguesa do Uruguai, a maravilhosa e pequenina cidade de Colônia de Sacramento à beira do mar Del Plata. Do outro lado do mar a capital da Argentina, Buenos Aires.

Os cinco amigos gatos ficaram ali. Parados. Sentados sobre as patinhas traseiras. Fixaram seus olhares na imensidão das águas prateadas daquele mar.

Foi então que aconteceu o imprevisto que me alegrou profundamente. Enquanto eu admirava tudo em torno os gatos, deslumbrados com as ondas prateadas do mar, voltaram às suas formas humanas.

Ali, ao meu lado, estavam Olívia, Aninha, Samuel, César e meu neto, Dudu. 







Fotografias de Fernando Cunha@fedasunha

Conselheiro Lafaiete, 26 de janeiro de 2021