sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

CRÔNICA DE UMA VIAGEM: UM VÔMITO E UMA FEMINISTA




Se me perguntarem de que maneira gosto de viajar, direi que é de carro, mesmo com todos os perigos que rodeiam em estradas. Sentir o vento, a paisagem, o dentro e o fora, os acontecimentos da viagem, o inesperado.
Recentemente viajei com duas crianças, ambas com sete anos, uma menina e um menino. Era uma viagem um pouco longa, as duas atrás no carro, a mãe de uma delas na direção. Uma das crianças desde pequena sempre enjoou nas viagens, a outra criança passou a enjoar recentemente. 

A menina, talvez porque se acostumou, lida muito bem com essa intercorrência. Vomitar nas viagens não é nenhum problema para ela. Anda sempre com uma toalha e um saco plástico. Nessa viagem a mãe substituiu o saco plástico pelo pote. Diz que o pote era só jogar fora, lavar e estava pronto para seguir viagem sem ter que se preocupar e sem deixar um saco plástico pela estrada.

Já pelo meio da viagem, após as crianças acordarem de um sono restaurador, começamos a brincadeira de falar palavras começadas com letras do alfabeto, uma forma de distraí-los e passar o tempo. Logo o menino começou a sentir-se mal e dizia com grande sofrimento.

-Eu não quero vomitar, eu não vou vomitar.

Os olhos cheios de lágrimas. Um sofrimento de partir o coração, vê-lo com tantas sensações ruins e se segurando para não vomitar.

Eu e a mãe tentando ajudar, enquanto não tínhamos um lugar para parar, dizíamos: Pode vomitar. Isto não é nenhum problema, é só usar o pote.

Por fim, a mãe diz para a menina que está sentada ao lado de seu filho: Ana ajuda ele. Mostra como usa o pote. Nós mulheres temos mais facilidade com essas coisas. Os homens são assim mesmo, temos que ajudá-los, eles não sabem lidar com essas coisas.

O que prontamente ela responde: Mas ele tem que aprender.

Rimos um pouco, embora a situação não fosse muito propicia. Uma estrada cheia, a mãe no volante e eu tentando diminuir o sofrimento de uma criança, o seu nojo frente o seu vômito, antes de encontrarmos um lugar onde pararmos.

Buscando dar um sentido para aquele sofrimento, no automatismo de psicólogo penso, num primeiro momento, ele está precisando aprender a colocar as coisas para fora. Depois fui pensar no sentido daquele acontecimento e na frase poética de Fernando Pessoa, que substitui pelo “ viajar também é pensar.”

Não sei o que aquela menina quis dizer com o “ele precisa aprender”. Aprender que não tem coisas que são de meninos e coisas que são de meninas. Aprender a não ter nojo do seu próprio vomito, do que sai de seu próprio corpo, que tem coisas que precisam ser colocadas para fora. Aprender que os papéis de homens e mulheres já não são os mesmos. São vários possibilidades, qual era o seu sentir naquele momento, não lhe perguntei, não tive acesso, portanto só posso fazer conjecturas.

Mas com certeza levou-me a refletir no momento que vivemos, onde uma onda reacionária de “uma escola sem partido” preconiza não se poder falar inclusive nas questões de gênero.Um retorno a valores de um tempo que já se foi faz sentido no sentir das mulheres do tempo de hoje? Mesmo para uma menina de sete anos? Viajar no tempo pode ser poesia, sonho, saudade e nostalgia de uma realidade que já se foi. Necessário se faz viajar e sentir a paisagem de um tempo real.


Maria José Birro Costa (Colega junto à Oficina de Escrita)

Nove
mbro/2018

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A menina da rua


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                                                        (*)
E foi num dia qualquer, assim feito um estalo, que seu coração bateu em disparada. Nada entendia daquilo que estava lhe acontecendo. Naqueles tempos só queria estudar matemática. A amizade com uma amiga da escola não fora tão boa quanto pensava. Ficara em recuperação. Logo na matéria que ela mais gostava. A notícia foi dada no exato dia do aniversário do pai. Final de ano. Véspera de natal. 

O professor bem que avisou ao pai. Disse que a aluna estava muito desatenta, “ela sempre foi uma aluna exemplar, mas a amiga lhe tirou a atenção”. A menina sabia do risco que corria. No final das contas as contas ficaram erradas e inferiores. E ela teve que se haver com estudar durante as férias. A amiga tinha a mãe professora de matemática. A menina não. Ficou todo o resto de dezembro e o janeiro a estudar com o irmão as tais frações. Ou determinantes? Tirou nota máxima. Nem precisava de tanto.

Entretanto, se por um lado perdeu suas férias de janeiro, por outro ganhou em aprendizado. Logo faria treze anos. Sempre tivera um corpo maior que sua idade. As regras já vinham desde os dez anos. Justo nesse tempo se apaixonou por um gato dos olhos verdes que apareceu por aquela rua. Tão logo o pai e os irmãos descobriram não se tratar de um jovem merecedor dos afetos da filha e irmã. Mas ela não deu atenção aos falatórios deles. Continuou apaixonada. O moço nem lhe viu os olhos cheios de amor. Namorou tantas outras por ali. A menina sem respostas trocou-o pelos amores de Ceci e Peri, por Teresa e o encapetado Simão Botelho de Amor de perdição... Trocou todas as paixões vivas pelas paixões dos romances contidos nos livros. E ela leu muitos deles. Assim viveu identificando-se com várias personagens.

Mas um dia, já beirando seus quinze anos, brotou um amor diferente. Ela nem esperava mais. Desde aquela recuperação passou a ficar mais voltada para os estudos. Nem percebeu que, algum cupido vendo a menina tão distraída, mandou sua flecha certeira. Fulminada daquele jeito tão sem jeito a menina nem reparou no outro. O outro que vinha devagar. Trazia palavras certas e enchia a menina de novas ideias. Depois trouxe livros desconhecidos e cheios de humanidade. Mais uma vez o pai e os irmãos não aprovaram aquela amizade.

Ingênua como só ela, dizia coisas tolas e descabidas. Tropeçava nas palavras. Dizia coisas sem pensar. Caia das coisas que dizia. E nada dizia do que sentia. Estava já tudo dito no não dito.

Pois bem, tão logo ela se apaixonou, ele se foi. Não teve notícias dele. E logo ela também se fora.

Encontraram dois anos depois. Às vésperas do natal. Nesse tempo escreveram muitas cartas. O amor entre eles estava selado. Até que uma última carta os separaria para sempre. Sem adeus. As poucas palavras escritas deram o tom do fim. Não soube mais dele. Nem procurou saber.

A menina fechou-se para o mundo. Entrou para dentro de si e se perdeu ali. Nunca mais voltou para fora.

Ficou menina para sempre: a menina da rua.


(*) As Meninas - Picasso 1957

18/12/2019


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

O que ela queria?

(Este conto foi premiado com o Primeiro Lugar no VII Concurso de Contos e Poemas da OAP/UFMG em 30/11/2018)


                                                                                          (*)
Ela mudou de cidade. Tudo aconteceu tão rápido que nem teve tempo para pensar no depois. Uma amiga bem que advertiu sobre outros tempos: " Você não encontrará a mesma rua que deixou quando saiu de lá. As pessoas de sua época que ainda estão lá não fizeram o mesmo percurso de vida que você". Mas a decisão já havia sido tomada. Dificuldades nos relacionamentos com os filhos, desavenças com um vizinho de apartamento, aposentadoria, a chegada da terceira idade e outros fatores foram os motivos alegados para deixar a cidade. Entretanto não seria apenas uma mudança. Seria uma volta. 

Izabel sentia-se cansada da vida. Havia o exaustivo trabalho diário no hospital, as tarefas de chefe de família e dona de casa. Havia a responsabilidade pela educação dos filhos. Havia a solidão de afetos. E havia o peso da idade. Tudo isto já vinha trazendo muito desânimo, cansaço e um crescente isolamento. Atualmente passava seus fins de semana dentro dos poucos metros quadrados do seu apartamento. A divisão dos bens viera após um demorado divórcio litigioso. Mas era o apartamento que lhe dava a melhor vista da cidade. Dizia a todos que não comprara o apartamento mas a visão permanente da cidade aos seus pés.

Um filho logo casou e escolheu, para construir sua família, uma cidadezinha nas redondezas da capital. A moça era de lá. Uma filha queria estudar e trabalhar noutra cidade. Outra filha iria para onde fosse aprovada em concursos públicos. Ela literalmente sobraria por ali.

Havia muitos anos que matutava acerca das alegrias da sua adolescência. Era feliz. Muito feliz. A rua era sua casa. Ali brincavam, faziam festas, encenavam peças de teatro escritas por algumas amigas e enamoravam dos vizinhos. Ali se sentia completa. Nada faltava. Pois bem, queria sentir tudo aquilo de novo. De novo. Agora seria a hora.

Comunicou a decisão aos filhos. Colocou a "vista permanente" do apartamento a venda. Contratou a transportadora e foi-se. A rua a recebeu de braços abertos. A casa voltaria a ter moradores. E Izabel voltaria a ter alegrias. Voltou para a casa de seus pais que estava fechada havia alguns anos. Fez pequenas reformas; pintou-a toda de branco; limpou o que foi preciso. A casa ficou ainda mais linda do que era antes. Uma casinha numa rua estreita que acaba numa ladeira abaixo. Ali ela fora moça.

Os primeiros dias foram de entusiasmo. Muitas visitas. Muitos cafés. Muitas lembranças. Ela encheu-se de vida. As filhas vieram mas logo voltaram. Conseguiram empregos na capital. Izabel sabia que seria assim. No seu aniversário fez uma festa e convidou as antigas vizinhas. Foi uma noite memorável. Porém continuou mantendo cursos e outros programas na capital. Viajava toda semana apesar das preocupações dos filhos.

Entretanto depois de alguns meses passou a perder o sono. Os pensamentos não lhe deixavam dormir. Perguntou o que queria a mais. Sem respostas continuou só. Os grupos de amigos virtuais já não tinham mais graça. Tudo turvou em sua volta. Numa manhã deixou o carro numa vaga no centro da cidade e foi ao médico. Os aparelhos de audição não estavam mais sendo eficazes. Ao voltar encontrou duas jovens raivosas que lhe chamaram a atenção. Havia bloqueado a entrada de uma garagem. Não bastou o pedido de desculpas. Entristeceu com o descuido jamais dantes acontecido. De fato estava envelhecendo. Enviaria bombons com mais pedidos de desculpas para as jovens.

Izabel ainda tentava disfarçar sua tristeza. A rua ainda lhe sorria. O frio manso deste ano não afastou as pessoas do convívio diário. Ela nunca se importou com seu envelhecimento. Sempre soubera que se, por um lado o corpo iria murchar, por outro os sentimentos aflorariam e a sabedoria adquirida iluminaria as noites. Os estudos lhe ensinaram que aquilo que há de mais íntimo, a alma como dizem os espíritas ou o inconsciente como dizem os psicanalistas, não caminhava num tempo cronológico, sendo atemporal. E isto explicaria porque ela, no avançar do seu tempo, ainda se sentia como uma menina. Enamorada como fora pela primeira vez.

Era isto! Izabel ainda esperava por seu príncipe encantado. Aquele dos tempos de adolescência daquela rua. E, como nos tempos da adolescência, ele não viera. 


Acabou-se a história. E agora? Perguntou a si mesma.

Os pensamentos tornaram um turbilhão na cabeça. Depois vieram a preguiça e as desculpas para continuar deitada até mais tarde. Sentia que o conforto da casa acolhia sua solidão. Deixou-se ficar à mercê do tempo. Sabia que, quando chegasse a hora, não se furtaria em tomar um outro rumo. Era tempo de aguardar. Um antigo namorado apareceu. Ofereceu flores e convites para um encontro. Izabel não queria. Tratou-o com delicadeza. Agradeceu a orquídea e o convite e não pensou mais nele.

Numa manhã Izabel não quis sair da cama. E se voltasse a ficar desanimada, com apatia e sem vontade de fazer as pequenas coisas que lhe sobraram? Assustou. Não queria ficar assim outra vez. Lembrou-se de uma frase ouvida recentemente: "Antes de tudo é necessário se amar..." Então numa manhã levantou-se calmamente; pegou sua agenda e começou a delinear os primeiros passos para outra mudança. Qual seria agora? Entendeu que o sentimento de outrora que tanto buscava outra vez não estava fora dela. Não estava na rua dela.

Foi quando, passados alguns dias, lhe viera uma onda de ânimo e ela começou por lavar roupas. Era assim que ela recomeçava sua vida; lavando sua alma. Pensou no grande amor da adolescência que ainda nutria seu coração mas que não mais nutria seu corpo. Decidiu deixá-lo à margem. Resolveu que iria construir sua tão adiada casa no campo. Há alguns anos comprara uma chácara próxima aos amigos e aos trabalhos. Era a hora. E mãos à obra.

Quem sabe agora Izabel permitisse que um outro vizinho plantasse flores em seu jardim?


(*) "Jaqueline com Flores" - Picasso 1954

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Poema: Mal me quer...bem me quer

De três coisa não gosto:
calor,
picadas de insetos,
perfume nauseante.
De três coisas gosto eu:
do olhar contemplador
das atitudes precisas
da palavra encontrada. 
02/01/2017

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Crônica: O QUE FALTAVA A ELA?

Carolina nasceu em Ipanema, Rio de Janeiro, portanto em berço de ouro como diziam seus amigos. Cresceu num ambiente sólido e tranquilo. Nada lhe faltou. Os pais diplomatas sempre lhe deram boas escolas, várias viagens de férias por todo o país e até mesmo em lugares paradisíacos como Tailândia, Nepal e Nova Zelândia. Quando completou 18 anos ganhou um carro importado que fora causa da disputa dos interessados em namoros. Ou seja, Carolina fazia parte daquela faixa dos "1% mais ricos do país". 

Decidiu estudar RI (relações internacionais) numa universidade em Belo Horizonte que sabia estar sempre entre as melhores do país. Queria seguir a carreira promissora dos pais. 

E assim estudou bastante e conseguiu ser aprovada no tal curso. Já na universidade nem percebeu que foi se interessando por disciplinas e professores que falavam sobre os conflitos civis armados ao redor da Terra. Passou a assistir filmes e documentários sobre as guerras civis dos países africanos. Angola, Sudão, Congo, Egito e por ai afora. Chorou muito quando assistiu os filmes "Hotel Ruanda" e "Diamante de Sangue". Buscou informações sobre a Primavera Árabe.

A jovem já não queria mais as tão fantásticas viagens de férias. Passou a preferir outros tipos de companhias e outras leituras. Aceitou um convite para  trabalho voluntário em Moçambique no período de suas férias mas acabou ficando mais tempo e, obviamente, atrasando a conclusão do seu curso.

Os pais não acompanharam as transformações que a filha vinha sofrendo. Acharam apenas que eram extravagâncias da adolescência. Mas Carolina mudava a cada dia. 

Quando retomou seus estudos passou a visitar acampamentos do MST nas comunidades mais próximas da capital onde morava e a acompanhar outros movimentos das minorias. Comprou e devorou os livros que falavam sobre a época da ditadura no Brasil e na América Latina. Lia os contos e romances do colombiano Gabriel Garcia Marques, as poesias do chileno Pablo Neruda e com o livro "As veias abertas da América Latina" do uruguaio Eduardo Galeano.

E foi assim que Carolina encontrou André, um jovem advogado ligado às causas das minorias. Ela se encantou com tanta disposição e conhecimento daquilo que ele defendia. Saíram juntos algumas vezes e logo ela passou a dormir no pequeno e desajeitado apartamento que ele dividia com outro amigo.

Numa noite, em viagem à casa de seus pais, sentiu algo diferente na sua respiração. Estava sozinha. Sua respiração estava muito curta. Será que estaria com pneumonia? Ou será que estaria enfartando? Não conseguiu dormir. Não falou disto para seus pais nem para André. Mas sentia que algo estava acontecendo. Cumpriu toda sua agenda daquele dia. Esqueceu do ocorrido e continuou entre estudos, trabalhos, leituras e namoro. 

Na semana seguinte teve outra crise e se apavorou. Sua respiração não dava a volta e não conseguia bocejar. Lembrou da fisioterapeuta falando de uma aluna que teve uma crise assim e que só conseguia bocejar se ficasse com a boca bem aberta por alguns minutos. Assim ela fez e conseguiu a tal volta na respiração até melhorar e dormir. 
Carolina se perguntava a todo instante o que estava lhe acontecendo. Entretanto, a cada dia, sua ligação com os movimentos sociais ficava mais forte. Agora ela já saía de casa para participar de reuniões com o namorado e foi para as ruas nas grandes manifestações. Gritou e cantou #eleNão. Poetizou a favor das mulheres e levantou bandeiras para LulaLivre.

Na noite da eleição presidencial quando da derrota daquilo que acreditava não saiu de casa. Também não dormiu. Na madrugada faltou-lhe ar novamente. Tentou tudo que podia para conseguir respirar. Telefonou chorando para o irmão mais novo, estudante de medicina. Este orientou-a que fosse para um pronto atendimento. Ela chamou um uber e foi até a UPA mais próxima de onde morava. 

A enfermagem avaliou dentro do tal protocolo de Manchester. Colocou-lhe uma pulseira alaranjada e encaminhou-a para atendimento médico. Enquanto aguardava ser atendida pode perceber a precariedade do espaço físico. Chorou ao ver chegar crianças feridas ou debilitadas mas se encantou com o excelente acolhimento das servidoras que ali trabalhavam. 

Exame clínico normal. Eletrocardiograma normal. RX tórax sem alterações. Exames de sangue normal. Foram-lhe prescritos ansiolíticos e antidepressivos. Ela voltou para casa num choro convulsivo.

O irmão telefonou para os pais contrariando a irmã. Eles vieram da capital federal e, só então, perceberam que a filha era outra pessoa. Propuseram que ela fosse morar uns tempos na Europa até que as coisas por aqui ficassem mais tranquilas. Ela não aceitou. Falou a eles do namorado e pediu que eles o recebessem. 

No dia seguinte foram almoçar juntos. André e Carolina ficaram calados. Apenas ouviram. E ouviram tudo que não queriam. Os pais dela foram bem claros ao declararem seus votos e apoio ao presidente eleito.

André falou tudo o que pensava sobre a enorme dívida que a elite brasileira acumulou com as várias minorias. Defendeu a política de cotas nas universidades. Defendeu os direitos humanos constituintes para todo brasileiro. Reconheceu a irreparável dívida com os afrodescendentes escravizados nas Américas. Deu um show nas argumentações a favor do MST. Foi demais para os pais de Carolina. Haviam perdido a filha para um "comunista" disseram eles. Levantaram e foram embora.

Carolina ficou com André naquele dia e à  noite. No dia seguinte, despediu-se dos pais afirmando seu lado na vida  de seu país. "Ficar a favor dos comunistas junto com as classes inferiores sendo que você pode escolher viver onde quiser!" Insinuou a mãe. Mas ela já havia escolhido viver ao lado de André e junto da luta.

Carolina não teve outras crises de falta de ar. O que lhe faltava não era o ar. Concluiu então que lhe faltava o olhar crítico para com o Brasil e sua decisão na vida. Agora só precisava de forças para lutar por tudo que estava por vir.




Poesia: Solidão

"Às vezes
  preciso de mim
  Então me delicio
  com o perfume do jasmim"

13/11/2018
   

domingo, 4 de novembro de 2018

Uma História de Morte - Itália, século XIX

Dona Mariinha nunca sabia dizer ao certo de onde viera seu avô. Ou será que sabia e foram seus filhos que não guardaram o nome da tal cidade. Salerno ou Palermo? Uma das filhas cismou que era Salerno pois soube que seu bisavô era filho de pessoas muito pobres e que, portanto, só poderiam  ter vivido no sul do país que mais parece uma bota surfando no Mar Mediterrâneo. Recentemente ficou sabendo que ele era, na verdade, de um vilarejo chamado Casalento Spartano, próximo a Salerno. Então estava tudo explicado. Tudo napolitano. 

A mãe falava que o avô vivia contando estórias esquisitas e numa língua enrolada. Ele era um homem muito forte, cheio de histórias e muito trabalhador. Ninguém desobedecia suas ordens. Falava  alto e falava com todo seu corpo. Amava sua família.

Mas nada disso interessa para a história que seguirá. Foi um fato que ficou no imaginário de vários familiares e veio passando de geração a geração.

Dona Mariinha contava a seus filhos que pelas bandas da região onde vivera seu avô havia uma família muito rica. Tinham muitas terras e cultivavam uma uva que dava o melhor vinho de toda a Itália. A famosa uva Falanghina que, segundo contava seu avô, fora trazida da Grécia para a região da Campânia.

Pois bem, teria sido com a venda desse néctar dos deuses que o homem ficou famoso. Sua riqueza já se estendia para além mar.  As filhas andavam cheias de joias. Os vestidos eram confeccionados com rendas da Madeira e seda chinesa. Uma dessas filhas, talvez a mais bela e, portanto a mais amada pelo pai, gostava de joias. E bastava ela sonhar com este ou aquele anel para o pai orná-la com as mais caras pérolas do Mediterrâneo e os diamantes vindos da África. Tudo corria  na mais perfeita harmonia naquele reino da família Rivelli. 

Porém a desgraça caiu sobre a riqueza. Numa manhã, ao acordar as filhas, encontraram Cecília morta. O desespero fora total. Inacreditável. Vieram todos para constatar aquela fatalidade. O vigário fora chamado. O prefeito fora chamado. O boticário fora chamado.

O pai desconsolado mandara fazer o mais belo esquife para enterrar a filha. Não deixou que o tampasse antes que todos pudessem apreciar a beleza da filha que, mesmo morta, parecia uma deusa romana mitológica. E o anel de diamantes enfeitava o anelar direito da moça. 

Entretanto, lá pelas tantas da madrugada, quando todos estavam sob o efeito do vinho, entrara um desconhecido que, cautelosamente, tentara roubar a joia do dedo da falecida. A falta de jeito do rapaz para surrupiar o anel fez com que ele usasse de mais força. Eis que então escutá-se um grito. A moça acorda e sentá-se entre as rendas e as flores coloridas. 

Foi um verdadeiro "Deus nos acuda" em bom italiano. 

Mais tarde descobriu-se que a filha sofria da terrível doença do sono. A tal catalepsia.

Então o ladrão foi perdoado e, obviamente, Cecília apaixonou e casou com o larápio seu salvador.

E, quem sabe, não seria eu descendente deste casal tão romântico.

30/10/2018

P.S. Esta história também é parte dos trabalhos da Oficina de Escrita, coordenada pelo poeta e professor Ronald Claver.

domingo, 28 de outubro de 2018

Sangra-me o peito

Nesta noite
meu país escureceu,
luzes artificiais
brilharam
fugazes.
Das sombras
surgiu uma luz
Mas um povo
chamado resistência
há de brotar
nesta "terra brasilis",
por todos os lugares
Então numa só voz
cantaremos
à liberdade
e ao amor.

28/10/2018







segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Amores

AMOR E RAPADURA

Quando o amor rasga-me a pele
só me resta o doce da rapadura.
Então adoço o gosto amargo deste amor
com o melado da saliva envolvendo
meus pedaços de rapadura.


AMOR NA RUA

Cheguei à janela
e o procurei na rua
Vi do outro lado da rua
ele 
que me procurava na janela


AMOR NA LUA

No meio do caminho
parei para ver a lua
No telefone; baixinho,
ele me diz:
Parei no meio da rua
pensando ver seus olhos
a me olhar da lua

22/10/2018




segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Carta a um amigo professor



Caro amigo 

Neste dia do professor lembrei-me de você.
Como sabe estamos em campanha eleitoral. Nosso país nos próximos dias deverá eleger um novo presidente da república. As redes sociais lotam as telas com propagandas de um ou outro candidato. Acho que estou virando uma zumbi vagando por tantas postagens. 

Como posso imaginar que mais da metade dos eleitores tem apoiado um candidato cuja história pregressa dentro ou fora da politica nacional é a mais sombria e repulsiva para quaisquer cidadãos? Como posso discutir com amigos e parentes que apoiam este candidato se eles não querem ver? Como posso sonhar com meu país solidário, soberano, rico, sem miséria se o que nos desponta é o oposto disto? Onde estão os sentimentos mais nobres do nosso povo? Onde foram parar a certeza de dias melhores para nossos filhos e netos? O que cegam estes eleitores para além do voto? 

Mas e você? Por onde anda? Quanta saudade eu tenho das nossas longas discussões políticas.

Meu caro, já não se faz possível sentar-se à mesa com familiares eleitores de um candidato que defende tortura, porte de armas de fogo,  que legitima a violência e cultua o ódio contra as diferenças.

Não consigo mais pensar no que tem levado esses eleitores e apoiadores a se identificarem com um sujeito que se arvora à obscuridade, que ri com escárnio do que estar por vir caso seja eleito, que se isola do debate e do mundo para garantir seu lugar de nada. O que houve conosco? Perdemos a direção da justiça, da generosidade, do afeto e consagramos o ódio?

Lembro bem dos tempos de nossos encontros. Éramos dois jovens e estávamos vivendo os horrores da ditadura enquanto as emissoras de televisão nos mostravam as maravilhas das construções da Ponte Rio-Niterói, da Transamazônica e de tantas outras obras faraônicas. Nossos olhos brilhavam diante daquelas grandezas. A seleção  brasileira era “a seleção canarinho” e enchia o povo de alegrias. Entretanto, por trás havia as perseguições, os sequestros, as torturas, os desaparecimentos. Quantas mães não puderam enterrar seus filhos. Foram muitos os assassinatos. Você me falava de tudo isto. Trouxe-me livros e me presenteou com vários deles para que eu pudesse entender “O Capital” e os desvalidos da mais-valia.

Professor digo-lhe que, logo no início das propagandas eleitorais, fui ler para conhecer cada um dos candidatos. Considerei improvável que o povo brasileiro - tão pacífico que é- fosse escolher um candidato tão violento. Um candidato que nada fizera pelo nosso país enquanto deputado federal por 28 anos.  Errei. Confesso. Mas não deixei de também postar sobre as diferenças entre  eles. Continuei fazendo minha parte nesta disputa.

Meu caro, de um lado temos um mestre, portanto temos a educação, a delicadeza, a moderação, os planos para um governo consonante com a diminuição das desigualdades sociais, o respeito, a segurança social, a segurança jurídica, a segurança alimentar. Do outro lado temos tão só o outro... Ah! O outro é o avesso!

E, enquanto avesso neste caso, tenho visto o pior dentro deste homem. Um homem inescrupuloso, egocêntrico, manipulador, autoritário, mentiroso e perigoso. Um homem que odeia as diferenças; odeia negros, pobres, mulheres, um homem que odeia o amor. 

Meu caro professor, o Outro que vive dentro deste homem não quer senão mais que prazer. Quer obscenidades, quer  horror, quer violência, quer nada. Ele só quer a morte do ”inimigo” porque não suporta o vazio da sua própria existência.

Ah! Estes eleitores e seus candidatos! Não poderemos perdoá-los por não saberem o que fazem como nos ensinou o cristianismo. Eles sabem o que fazem.

Meu amigo desculpe o desabafo. Foi preciso.

Aguardo uma palavra. Quiçá uma saída
                                              Maria do Rosário

15/10/2018

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Carta de Amor XIII

Meu tão caro amigo

Agora, remexendo em caixinhas do passado, caiu em minhas mãos um cartão de votos de  feliz natal e próspero ano novo. Era dezembro de 1987. Sua letra já me era inconfundível. Entretanto a delicadeza do cartão não diz mais do homem de hoje. Incongruências do ontem e do hoje. Você naqueles tempos se permitia ser visto, ser amado e desejado. E conversávamos sobre tudo. Eu, uma menina ingênua, e você um homem feito. Feito amor. Feito doçura. Feito humanidade.

Ontem, desfeita com todo o processo político eleitoral do país, precisava falar. Meu coração quase saía pela boca. Rodava pela casa como barata tonta pelas chineladas e o inseticida à vista. Aquietei-me assistindo filmes. Fugi da realidade.

Fugi da nossa realidade. Você, perdido no caminho que escolheu, preferindo não avançar para lugar algum. Eu, aquiescida na casa do ontem, sonho meu sonho que não desejo real. Dois perdidos num passado, esforçando-se no presente para que eles não de reencontrem num futuro. Medo senão de ser sermos felizes de novo. 

Tal e qual a campanha vencedora em 2002, "sem medo de ser feliz", conclamo você a desejar de novo. Desejar para além de você. Sair da redoma que construiu para ficar escondido nela. Ser adorado apenas. Isto é desistir de viver para virar ídolo de si mesmo.

Grite às estrelas, salte riachos, mergulhe em águas profundas, fure ondas gigantes, suba às montanhas, arrebente as correntes que te prendem e vá de encontro ao seu desejo. Pois só o amor é capaz de te resgatar do invólucro que amordaçou sua boca e engessou seu corpo. Posso estar lá, no fim da sua caminhada. Mas antes faz-se necessário que me desejas. "E eu sei que tu me amas..."

Data: Um dia após os brasileiros declararem todos os seus preconceitos contra as minorias. Um dia após o ódio e a ignorância vencer o amor.


               Assina: seu grande amor entre as minorias

PS:. e, coincidentemente, o número desta carta já fala muito de mim.

                      E te encontro na próxima esquina.
                                          
                            08/10/2018

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Id

                                                                                                                                                                                                                           





              Onde as palavras me faltam

                                                 eu me mostro.

                  Logo existo

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Carta de Amor XII



Meu caro, bom dia.

Como, às vezes acontece, passei algum tempo afastada de todos. Não que eu tenha esquecido você. Isto não! Assim como outros animais também preciso aninhar-me durante o inverno. Talvez seja uma maneira de fugir do que a vida me demanda. Talvez seja uma maneira de estar apenas comigo. Mas não me interessa saber do que me causa o refúgio deste ano. Só sei que preciso dele. E nesse tempo estranhas idéias me assombravam a mente. 


Embora não tivesse feito o frio que desejei enrosquei-me em trapos da memória para aquecer minhas saudades de ti. E quantas lembranças de épocas felizes! Se fecho os olhos ainda posso ver o matiz rosa da blusa que confeccionei quase toda costurada à mão, em pontos paris, para estar com você amadrinhando nossos amigos no casamento. Eu estava deslumbrante ao seu lado e, acredito, muito mais por sua companhia do que pela roupa que cobria meu corpo adolescente. E você vestiu-se com um dos seus carros antigos; um Cadillac? Lembro da cor verde fundo de garrafa. Levou a noiva nele? Isto não me lembro.

Mas foi-se o tempo das tristezas. A primavera chegou e junto com ela todas as cores. Outras decisões. Rumos novos ou mesmo os antigos. Acordei outra nesta última semana. As saudades metamorfosearam em borboletas multicoloridas. Saí do casulo voando por ares de aromas diversos. Quero viver tudo outra vez. 

Meu coração deseja novas paixões e meu corpo já se delicia com outras carícias. Estou pronta. Refeita de um amor que ficou no outono. No verão estarei exposta ao sol, correndo nas enxurradas ou saltando na ondas de algum mar aberto. Então meu olhar será convocado a ver outro homem desejante de estar ao meu lado. E, mais uma vez, aceitarei o drinque oferecido e a cama macia. Leremos histórias, poesias e brindaremos ao amor da maturidade.

E você ficará apenas na memória que tão logo se apagará.

É mais uma despedida.

Boa dia

24/09/2018


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

#eleNão



(Poetizando em época de eleição)

A Delicadeza da Mulher

Homem tem que ser macho
Mulher é mansidão.


Ele dá ordens
Ela se cala

Ele é tirano
Ela é Ana.

Ele mata
Ela gesta vidas

Ele grita
Ela sussurra

Ele faz sexo
Ela ama.

Ele
é candidato à presidência da república
Ela
somos cem milhões de guerreiras no Brasil


25/09/2018

domingo, 23 de setembro de 2018

Poesia: Rio ou Mar


                    
Não sei se vou para o campo
Ou se caminho descalço na praia
Não sei se amo quem me quer
Ou se amo o outro
Não sei se durmo sonhando
Ou se o sonho me sonha
Nada sei do meu desejo
Mas sei que estou de partida
E partida meu corpo me leva.

23/09/2018


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Maria entrou no Palácio das Artes em Belo Horizonte

Era manhã de uma terça-feira qualquer. O dia amanheceu com nuvens escuras e uma chuvinha fina que caía sobre a cidade logo se dissipou.

Para Maria quele tempo estava por demais gostoso. Nem se importou de perder a tão esperada consulta no hospital dos servidores do estado. Havia já uns meses descobrira um nódulo na mama esquerda quando procurou o ginecologista. Após exame clínico, mamografias e até tomografia ficou decidido que deveria procurar um especialista em mamas. Foi difícil agendar a tal consulta com um mastologista na capital.

Não dormiu na noite anterior à viagem. Conseguiu carona com o veículo da prefeitura de sua cidade que, diariamente, leva e trás pessoas para consultas agendadas em Sete Lagoas e Belo Horizonte. 

Logo que chegou ao ambulatório foi comunicada que os servidores estavam em paralisação por questões de pagamentos atrasados. O atendimento foi remarcado e ela nem se importou. Decidiu caminhar no entorno do Parque Municipal até o meio da tarde quando viriam pegá-la de volta.


Foi andando. Chegou à avenida Afonso Pena e Palácio das Artes. Nunca havia entrado ali. Pensava que aquilo era coisa para gente importante. Gente da elite. Viu vários policiais jovens bem defronte a entrada. Sentiu-se protegida e entrou. Parecia que pisava em ovos. Andou calmamente pelo gigantesco hall. Notou movimentação em alguns espaços. Quis ir ao banheiro. Sentiu vergonha. Perguntou para um segurança, todo engravatado, acerca da exposição de um conterrâneo seu que ela vira anunciada no jornal de sua cidade. Ninguém soube lhe dar informações.


Entretanto, assim que vira uma moça da limpeza, criou coragem e perguntou onde era o banheiro. Tal qual não foi sua decepção com o estado de depredação do mesmo. Não havia sabonetes nem papel toalha. Fechaduras, torneiras, saboneteiras  e cabides quebrados. Lembrou, com tristeza, do incêndio que havia destruído o Museu Nacional há três dias.


Olhou o relógio: dez horas. Maria ainda tinha tempo de sobra. Ela queria entrar nas galerias e ver as exposições. Foi convidada por um homem que estava por ali para ver a exposição do artista Décio Noviello com o nome de COR OPÇÃO. Ficou encantada com as cores vivas nas enormes telas e os nomes dados às mesmas. Leu uma frase que lhe chamou a atenção "...a solidão em meio à multidão..." Então o funcionário lhe falou que o artista, além de ser muito famoso, foi também militar e professor em colégios militares. Entendeu  porquê dos militares em frente ao Palácio. Nunca havia ouvido falar no artista.


Neste momento apareceu bem próximo dela um jovem que começou a acompanhá-la e falar das exposições. Era um dos diretores da Fundação Clóvis Salgado. Ele se apresentou e ficaram conversando por longo tempo. Acompanhou-a às outras duas galerias. Levou-a à exposição do artista, também mineiro, Marco Paulo Rolla, cuja obra, ela leu, "tem por marca mais notável a presença do corpo humano e da figura humana". Enquanto via as figuras nas telas , pensava no seu corpo adoecido. Porém não perdeu a serenidade e continuou ouvindo o homem que naquela hora lhe falava  dos vários artistas brasileiros com a exposição denominada "Entre Acervos" na terceira galeria. 

De repente quis sair dali. Agradeceu a gentileza do jovem diretor e deixou as dependências do grande Palácio das Artes.

Já na avenida Maria se deu conta do que lhe acontecia diante das obras expostas. Viu pinturas de mulheres com olhares desoladores. Viu uma boneca de pé olhando para um gigantesco gorila sentado, cabisbaixo, com uma cara de desconsolo - lembrou do filme do King Kong quando foi aprisionado numa gaiola. Pensou em si. Ela, a boneca, a consolar um mundo a sua volta. Então lembrou a que veio na capital: a suspeita de um câncer de mama. Ainda olhou para trás para ver o belo prédio de cor branca daquele palácio.

Maria mais que admirou tudo que viu e ouviu ali dentro. Ela admirou a sua ousadia de mulher interiorana caminhando pelas galerias do Palácio das Artes de Belo Horizonte.

Sentiu que algo havia acontecido dentro dela. Atravessou a avenida e procurou um lugar para almoçar. Sentou-se confortavelmente e percebeu que ainda não estava com fome. Carecia de outros alimentos.

Estava com quarenta e cinco anos. Era professora de geografia numa escola pública na cidade onde nasceu e ainda vive, Curvelo. Tinha duas filhas adolescentes. O marido era caminhoneiro. No início do casamento ele havia sido gentil, amável e companheiro. Depois vieram as suspeitas de traições, as implicâncias com as filhas, o ciúme exagerado e a cobrança por um filho homem. Recentemente vinha abusando da bebida alcoólica nos poucos fins de semana que passava com a família. "Os familiares davam conselhos: se apegue com São Geraldo, padroeiro da cidade, homem é assim mesmo,  você tem duas filhas, não pode separar e por ai afora."


Maria estava cansada das ladainhas de todos eles. Havia desgostado do marido mas temia a reação dele caso ela pedisse a separação. Sabia, conforme lhe dissera o médico, que o câncer aparece com mais frequência nas mulheres que carregam tristezas.
Resolveu comer salada e peixe frito, sua carne preferida. Sentiu saudades das filhas. Elas adoravam o pai.

Tomou café e saiu de novo para a avenida. Fez o caminho inverso. Eram quase duas horas. Ainda lhe restava uma hora. Entrou no Parque Municipal e deixou-se ficar sob a sombra de uma árvore. Estranhou a leveza de seu corpo adoentado.

De volta para sua cidade, pelo vidro da janela do veículo, seu olhar era convocado a ver o amarelo das flores dos pés do cerrado mineiro. Sempre admirava a beleza das flores nascidas nas adversidades daquelas terras quentes e secas. Instintivamente tirou sua aliança de casada e atirou-a para fora. 

Não queria ter câncer de mama ou em qualquer outro lugar do seu corpo. Estava livre.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Olhos de Luzia




Luzia
Vivia no seio da mãe Terra
Quieta
Calada
Solitária
Encontrada pela ciência
Ganhou fama
Casa de vidro
Ganhou cama
Luzia contou histórias
Mais de dez mil anos
Ontem não sobreviveu
Morreu outra vez
Luzia virou cinzas
Ganhou sua liberdade
Subiu aos céus
Prazer em conhecê-la
E perdoe por nossa ignorância
Obrigada Luzia.


03/09/2018:

Homenagem à "Luzia" no dia seguinte ao incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio de janeiro. Fóssil humano mais antigo das Américas, encontrado na cidade de Pedro Leopoldo (MG) em 1970

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rosa

Rosa
perdeu 
o brilho
o perfume
a cor

emudeceu
sofreu

despetalou
caiu

Rosa
chorou
voou
e não voltou

caducou

Rosa
acordou 
em botão
e
se fez menina


Funil, 13/03/2018

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Oficina de Escrita

ABERTURA:
Encontrei-me com a dama da noite na esquina de um canteiro. Ela cheia de charme e classe esperava o cravo que prometera ir vê-la num encontro amoroso.
Ele não apareceu no horário combinado. A dama da noite, desiludida, transformou-se numa margarida rapariga.
Foi então que o cravo apareceu e se alvoroçou com o remelexo da moça. E assim se deram muito bem 

ALONGAMENTO 1:
"Preta é gata, é fêmea como toda mulher. Pulou em minha cama, inquieta, ansiosa, pedindo com urgentes e ligeiros miados alguma coisa. Preta pulou em minha cama pedindo alguma coisa com sua voz rouca e sensual.
Preta...minha cama..."

(abaixo minha escrita em continuação ao proposto pelo professor)          
...não é telhado de cios e pavios. Se quer um gato, vá à caça, e rápido pois um deles está por ai andando numa bota de sete léguas.


ALONGAMENTO 2:
"Quando eu tinha onze anos, um amigo de meu pai deu-me de presente uma carabina de brinquedo. Quando fiz vinte anos comprei uma escopeta de verdade. Aos vinte e cinco anos entrei para o Clube de Tiros. Aos trinta já era...)" *

(abaixo minha escrita em continuação ao proposto pelo professor)      
...    um defensor da liberação do porte de armas para toda a população, da pena de morte para bandidos, já era pastor evangélico, um homem misógino, homofóbico, racista e adorava ser chamado de DR. BUMBUM.

14/08/2018


.*O início dos textos são de Gullar- um programa de homicídio, in Folhas Verdes de Fale- UFMG, de Maria Litz ( Luz Negra) e Wallace Leal V. Rodrigues (O Pardal)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Conto Infantil: Dudu e o Murundu

Naquela manhã vovó Zarinha acordou com muita saudade do seu netinho. E ela só tem um netinho.

Levantou cedo, lavou o rosto, escovou seus dentes, comeu um pedaço de mamão com mel e tomou café com pão e manteiga. Mas continuou com muita vontade de ver o menino.

Telefonou para o papai e a mamãe dele e perguntou se poderia ir vê-lo ainda naquela manhã. Nem esperou a resposta. Logo pegou seu carro - porque as vovós de hoje têm carros e sabem dirigir - e lá foi ela na casa do netinho.

Eduardo é o nome dele mas todos lhe chamam de Dudu. Ele tem dois anos e oito meses e mora numa cidade vizinha da casa da vovó. Seu pai já havia lhe explicado que cidades vizinhas são aquelas que estão perto umas das outras, como os vizinhos de suas casa. Ele entendeu tudo que o papai dele falou.

Assim que Dudu viu sua vovó, ficou muito feliz e abriu um lindo sorriso. Logo já queria brincar com ela.

Dudu tem uma bike sem pedal e ele faz grandes viagens nela. Claro que ele convida a vovó para ir junto. Adora ir na cidade de Rondonópolis que fica muito longe mas ele chega rapidinho para brincar com as primas Lili e Lulu. Outras vezes quer ir no sítio da vovó pra brincar com os cachorros. E outras vezes quer ir a Guarapari onde mora sua outra vovó e seu vovô. E assim Dudu e a vovó Zarinha viajam muito na bike. Vovó vai correndo atrás para não perder o caminho nem o netinho.

Naquele dia, depois de viajarem muito em redor da casa e por tantos lugares, ficaram cansados e Dudu foi deitar um pouquinho. Quando a vovó chegou no quarto dele viu apenas as cobertas sobre a cama com uns cocurutos embaixo. Chegou bem pertinho daquilo e disse:

 - "Que morundus são esses?" 

Ninguém respondeu.

Depois a vovó colocou as mãos naquilo e novamente perguntou:

-"O que é isto? Será que é um avião?" Perguntou a vovó.

-"Não!" - Ela ouviu esta resposta.

-"Será que é uma bola ou será que é uma graviola?"

Então ela ouviu uma voz responder:

-"É um murundu."

Dai para frente Dudu descobriu que murundus são cocurutos escondidos debaixo dos cobertores. E, a cada vez que a vovó perguntava o que era aquilo, ele respondia " É murundu!". 

Brincou e riu muito com a vovó e os murundus. Cada hora era um murundu diferente debaixo dos cobertores. Até chegar a hora de almoçar, tomar banho e ir para a escola. Lá foi Dudu. Vovó ficou com os papais dele. Mas dormiu um pouco pois estava cansada de viajar com seu netinho para tantas cidades.

No final da tarde foram todos buscar o Dudu. Vovó ficou sentada numa escada esperando por ele. 

E lá vem ele arrastando uma "Mala Encantada". Tão logo viu a vovó, abriu um sorriso e falou "Murundu". Ela riu sozinha da lembrança dele.

Agora Dudu convida todos os seus coleguinhas para brincarem de murundu. E diz: " É só esconder debaixo dos cobertores e fazer cocurutos". 

E assim começa uma brincadeira muito legal.

Vovó voltou para sua casa e já começou a sentir saudades do Dudu.

12/08/2108


Observação: significado de murundu:
palavra de origem indígena; substantivo masculino; montículo; montão de coisas misturadas; uma quantidade de qualquer coisa.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

“Rosa nos Tempos” - Ruas e Relatos da Rivelli


A crônica abaixo foi escrita por um grande colega e lida durante a Oficina de Escrita ministrada pelo poeta mineiro,Ronald Claver, da qual venho participando há dois anos.
"Tião" como o chamamos, me deu a honra de sua presença no lançamento do meu livro no Hospital Galba Veloso - FHEMIG - Belo Horizonte - onde trabalhei como psiquiatra plantonista na "Urgência" até minha aposentadoria em 2016.


ROSA NOS TEMPOS

Maio nos traz os ventos de agosto da nossa colega Rivelli em seu delicioso livro “Rosa nos Tempos” e nos faz viajar pelas ruas da sua infância, seus laços familiares, suas memórias de encanto. Bando de crianças, familiares, vizinhos, personagens característicos do vilarejo saem de suas páginas e passam a povoar a mente do leitor. 
Como Proust em busca do tempo perdido, ela passeia por esse território levada pelo vento no fundo do quintal, balanço das folhas das árvores, a horta, os canteiros, os muros que dividiam as casas, as flores. A rosa naqueles tempos, a roda viva, as ruas, os rios da memória.
      
A capa mostra uma rua de casas antigas, emendadas, cheias de janelas e portas, próximas das calçadas, muitas gente na rua, chão batido. Foto amarelecida, vinda da rosa dos tempos. Uma procissão de pessoas simples em seus trajes domingueiros. Uma festa religiosa para a qual convergiam todas as atenções, Minas e sua tradição. Era quando as pessoas largavam sua dura lida com a terra, a dureza do dia a dia e iam comemorar junto à família, aos vizinhos e às possibilidades que o amor oferecia. Justificando até a odisseia com a amiga no final do livro, entre caronas e ataque de abelhas, o olhar zangão da mulher do motorista, a autora já universitária em Juiz de Fora. Com a bênção de Deus, de Nossa Senhora do Rosário, a aura do tio padre, a proteção da tia e de todos os santos invocados nesse livro encantador.
     
Em linguagem simples e agradável, Rivelli vai desfiando as fotos, as lembranças junto à poeira vermelha da rua cantada no livro, das ruas da sua Brás Pires, das novas ruas no rio da sua vida. Fala da família com carinho de quem foi pobre e feliz, com os cuidados delicados do pai e da diligência constante da mãe, enfrentando dificuldades, doenças e escorpiões no caminho dos tempos.
     
Apresenta personagens únicos e que ficam na nossa imaginação já delineados. Como não excitar a curiosidade diante do Caxotim, que mesmo já adulto, não ousa confessar à irmã a origem do seu apelido? Impagável o atirador das estrelas, o louco depois de sugar os seios deliciosos da mulher do soldado, os vizinhos e suas excentricidades, o menino doente. Estava ali o gérmen da futura psiquiatra, curiosa e solidária com o asilo no fim da rua, a vizinha de manias e falas, a jovem filha de louca e sua gravidez, os cães Rex e Sultão em suas lutas e majestades.
      
Um livro carregado de humanidade. Talvez carente de melhor revisão na sua escrita, mas isso torna suas histórias mais próximas, como um causo a ser compartilhado. Como memórias sempre reescritas, espontâneas em sua simplicidade.
    
Em agosto, os meninos soltavam pipas ao vento, a menina tentava e, quando não conseguia, divertia-se também com seus recados no ar, bilhetinhos amorosos, fantasias. Agora, espalha a poeira divertida e amorosa de uma infância feliz, cheia de quintais e compaixão.  Nas páginas do livro, uma procissão de personagens e histórias. De lembranças. Essa rosa nos tempos de antes, do meio e do agora.
                                            
                                         Sebastião Aimone Braga
                                            Maio / 2018                         

                                             sebastiaoaimone@gmail.com

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Crônica: Zé Capeta.

Foi assim: decidi dormir com minha irmã na casa da madrinha dela. Eu, que sempre ficava na Fazenda, naquele dia acabei ficando com os outros primos. Não lembro quantos já eram naquele ano. Ainda não haviam nascidos todos. Ou haviam?

A casa era linda. Parecia aquelas que nosso pai fazia para o presépio no natal. Ela ficava plantada numa várzea que se descortinava por toda sua frente e por todo o lado esquerdo. Ali onde nascia o sol. À direita havia uma lasca de terra com um barranco que iria dar num veio d'água. Era a água mais transparente que eu havia visto desde então. Nele brincávamos de fazer bicas com talos de mamona e nos deliciava com as gotas d'água brilhando nas enormes folhas verde-arroxeadas de inhame. Atrás da casa haviam muitos pés de frutas. Até mesmo a jaca que era uma raridade por aquelas bandas. Havia um paiol de madeira escurecida pelo tempo. Era muito grande. Ficava suspenso do chão por estacas de madeiras. Debaixo dele as galinhas e seus pintinhos ciscavam o tempo todo. Mais nos fundos, para além das frutas ficava um chiqueiro e mais atrás ainda havia terra com plantação de mandioca.

O veio d'água serpenteava todo o fundo da casa e se encontrava com outro veio e formavam um córrego de águas escuras e bem fundo. Ali não podíamos brincar. Era perigoso escorregar e cair dentro dele.

Mas era na frente da casa que tudo acontecia depois de nos fartarmos com os biscoitos de polvilho, ora fritos ora assados, com as broas de fubá, com os tarecos, a brevidade de rapadura e o café ralo e doce. 

Minha Tia era pequenina, tinha a pele e os cabelos claros, os olhos verdes, a doçura no sorriso e a mansidão no olhar. Meu Tio era diferente. Era grande, da pele escurecida pelo sol com os trabalhos na lavoura ou com o gado. Era de poucas palavras e de muitas artimanhas com os sobrinhos. Um matuto. Ao pedido de um sobrinho para andar de cavalo ele arriava o mais bravo ou o mais empacado. De duas uma: ou não saíamos do lugar ou eram tombos sob as gargalhadas do tio e dos primos. 

E nós adorávamos tudo aquilo.

A casa tinha quatro quartos, duas pequenas salas e uma cozinha ampla e muito bem arranjada. Com direito a bancos e fogão de lenha. Toda ela era de telhado e com forro de taquara trançada. Exceto um pequeno quadrado na cozinha onde meus tios guardavam seus segredos. E eu nunca soube o que havia ali.

Zé era o filho mais velho. Se não crescia no tamanho nem nos juízos, crescia nas extravagâncias. Esse filho deu muito trabalho aos amorosos pais. Quando não sabiam o que mais fazer para botar retidão no menino, pediram ao Tio Padre para auxiliar nos conselhos e até mesmo nas orações. Adiantou de nada. Zé continuava a dar muitas dores de cabeça. Entretanto, apesar da sua voz aguda e do seu jeito sem jeito, foi crescendo nos trabalhos da casa.

Logo abaixo do Zé vinha a prima que tinha a nossa idade e que era nossa grande amiga. E ela dividia sua cama conosco. Dormíamos as três sobre um colchão de palha numa cama rústica que não era nem de solteiro e nem de casal. Ficava no meio do tamanho.

Naquele dia eu não conseguia dormir. Ficava com meus olhos abertos vendo o negrume da noite após apagar a lamparina porque poderia pegar fogo na palha do colchão. Era a mais nova e estava com muito medo. E o sono não chegava e a escuridão dominava tudo. Antes havia visto todo o céu estrelado bem perto de nossas cabeças. Agora só o barulho do silêncio e da escuridão. Certifiquei que meus tios já haviam deitado. A noite seria muito longa com meu medo e minha insônia.

De repente começo a ouvir sons de tambores e uma cantoria diferente de tudo que já havia ouvido nas rezas da igreja. O que era aquilo? Minha Nossa Senhora me protege e trás meu sono de volta. Comecei a rezar Ave Maria - Santa Maria, Creio em Deus Pai. Vou fazer xixi nas palhas. E a urina morna escorregou pelas pernas. O som continuava. Parecia que vinha detrás dos morros. Além da várzea.

Foi então que Zé pegou um cavalo, pulou sobre ele em pelo e zarpou rumo do som no meio da noite negra.
Eu continuava com meus olhos arregalados e meus ouvidos colhendo os batuques ao longe. Minha irmã e minha prima já dormiam há muito tempo. Eu e meu medo ficamos na espera do Zé e seu cavalo. Jurei que jamais dormiria naquela casa. Achei que ela era mal assombrada.

Ouço o tropel do cavalo. Zé entra no quarto e pergunta se tinha alguém acordado. "Tudo macumbaria" contou ele. Disse que viu várias velas acesas em volta de ramos e flores perfumadas no chão. Haviam galinhas pretas sangrando. Homens tocando tambores e mulheres dançando e cantando numa língua desconhecida. Todos estavam vestidos de branco. Tudo na negritude da noite. A cena descrita com pequenos detalhes jamais saíra da minha memória. Ficou como uma fotografia dançante e cantante.

Eram os familiares da Bia, descendentes dos escravos da Fazenda dos nossos avós, explicou ele. E agora, como ficaria meu amor pela Bia? Era ela quem cuidava de todas nós na casa do Tio Padre. Será que ele sabe destas coisas? Minha mãe dizia que eram coisas do diabo. E toda a família estava envolvida numa festa pagã!
Pensei nisto o resto da noite. Certamente dormi com os sons dos tambores que batiam tal qual o meu coração e com as cantorias doces das mulheres negras.

Nunca mais dormi com minha irmã naquela casa. Promessa cumprida. Entretanto jamais deixei de saborear as quitandas feitas por minha tia da pele clara e dos olhos verdes.

Zé cresceu muito pouco no tamanho mas cresceu muito nas invencionices das ideias. Não fora por acaso que recebeu o apelido de Zé Capeta. Casou por duas vezes com duas excelentes mulheres e nos deus sobrinhos muito especiais.

Recentemente numa visita à sua casa pedi que me levasse ao exato local da cena que ele me descrevera há mais de meio século. Prometera sem entretanto abrir um sorriso muito comprometedor. 

Mas ontem Zé Capeta morreu. Vitimado por um câncer impiedoso e fulminante que não lhe poupou a vida.

Fiquei aqui trabalhando e pensando que Ele iria de encontro a Nossa Senhora do Rosário sob o cortejo da Guarda do Congo e que seu caminho seria iluminado por aquelas velas, perfumado por aquelas flores, saudado pelos sons daqueles tambores e acolhido por todos aqueles descendentes de nossa mãe África.

Zé Capeta, vai com Deus.





Funil, 01/08/2018