quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Crônica: Zé Capeta.

Foi assim: decidi dormir com minha irmã na casa da madrinha dela. Eu, que sempre ficava na Fazenda, naquele dia acabei ficando com os outros primos. Não lembro quantos já eram naquele ano. Ainda não haviam nascidos todos. Ou haviam?

A casa era linda. Parecia aquelas que nosso pai fazia para o presépio no natal. Ela ficava plantada numa várzea que se descortinava por toda sua frente e por todo o lado esquerdo. Ali onde nascia o sol. À direita havia uma lasca de terra com um barranco que iria dar num veio d'água. Era a água mais transparente que eu havia visto desde então. Nele brincávamos de fazer bicas com talos de mamona e nos deliciava com as gotas d'água brilhando nas enormes folhas verde-arroxeadas de inhame. Atrás da casa haviam muitos pés de frutas. Até mesmo a jaca que era uma raridade por aquelas bandas. Havia um paiol de madeira escurecida pelo tempo. Era muito grande. Ficava suspenso do chão por estacas de madeiras. Debaixo dele as galinhas e seus pintinhos ciscavam o tempo todo. Mais nos fundos, para além das frutas ficava um chiqueiro e mais atrás ainda havia terra com plantação de mandioca.

O veio d'água serpenteava todo o fundo da casa e se encontrava com outro veio e formavam um córrego de águas escuras e bem fundo. Ali não podíamos brincar. Era perigoso escorregar e cair dentro dele.

Mas era na frente da casa que tudo acontecia depois de nos fartarmos com os biscoitos de polvilho, ora fritos ora assados, com as broas de fubá, com os tarecos, a brevidade de rapadura e o café ralo e doce. 

Minha Tia era pequenina, tinha a pele e os cabelos claros, os olhos verdes, a doçura no sorriso e a mansidão no olhar. Meu Tio era diferente. Era grande, da pele escurecida pelo sol com os trabalhos na lavoura ou com o gado. Era de poucas palavras e de muitas artimanhas com os sobrinhos. Um matuto. Ao pedido de um sobrinho para andar de cavalo ele arriava o mais bravo ou o mais empacado. De duas uma: ou não saíamos do lugar ou eram tombos sob as gargalhadas do tio e dos primos. 

E nós adorávamos tudo aquilo.

A casa tinha quatro quartos, duas pequenas salas e uma cozinha ampla e muito bem arranjada. Com direito a bancos e fogão de lenha. Toda ela era de telhado e com forro de taquara trançada. Exceto um pequeno quadrado na cozinha onde meus tios guardavam seus segredos. E eu nunca soube o que havia ali.

Zé era o filho mais velho. Se não crescia no tamanho nem nos juízos, crescia nas extravagâncias. Esse filho deu muito trabalho aos amorosos pais. Quando não sabiam o que mais fazer para botar retidão no menino, pediram ao Tio Padre para auxiliar nos conselhos e até mesmo nas orações. Adiantou de nada. Zé continuava a dar muitas dores de cabeça. Entretanto, apesar da sua voz aguda e do seu jeito sem jeito, foi crescendo nos trabalhos da casa.

Logo abaixo do Zé vinha a prima que tinha a nossa idade e que era nossa grande amiga. E ela dividia sua cama conosco. Dormíamos as três sobre um colchão de palha numa cama rústica que não era nem de solteiro e nem de casal. Ficava no meio do tamanho.

Naquele dia eu não conseguia dormir. Ficava com meus olhos abertos vendo o negrume da noite após apagar a lamparina porque poderia pegar fogo na palha do colchão. Era a mais nova e estava com muito medo. E o sono não chegava e a escuridão dominava tudo. Antes havia visto todo o céu estrelado bem perto de nossas cabeças. Agora só o barulho do silêncio e da escuridão. Certifiquei que meus tios já haviam deitado. A noite seria muito longa com meu medo e minha insônia.

De repente começo a ouvir sons de tambores e uma cantoria diferente de tudo que já havia ouvido nas rezas da igreja. O que era aquilo? Minha Nossa Senhora me protege e trás meu sono de volta. Comecei a rezar Ave Maria - Santa Maria, Creio em Deus Pai. Vou fazer xixi nas palhas. E a urina morna escorregou pelas pernas. O som continuava. Parecia que vinha detrás dos morros. Além da várzea.

Foi então que Zé pegou um cavalo, pulou sobre ele em pelo e zarpou rumo do som no meio da noite negra.
Eu continuava com meus olhos arregalados e meus ouvidos colhendo os batuques ao longe. Minha irmã e minha prima já dormiam há muito tempo. Eu e meu medo ficamos na espera do Zé e seu cavalo. Jurei que jamais dormiria naquela casa. Achei que ela era mal assombrada.

Ouço o tropel do cavalo. Zé entra no quarto e pergunta se tinha alguém acordado. "Tudo macumbaria" contou ele. Disse que viu várias velas acesas em volta de ramos e flores perfumadas no chão. Haviam galinhas pretas sangrando. Homens tocando tambores e mulheres dançando e cantando numa língua desconhecida. Todos estavam vestidos de branco. Tudo na negritude da noite. A cena descrita com pequenos detalhes jamais saíra da minha memória. Ficou como uma fotografia dançante e cantante.

Eram os familiares da Bia, descendentes dos escravos da Fazenda dos nossos avós, explicou ele. E agora, como ficaria meu amor pela Bia? Era ela quem cuidava de todas nós na casa do Tio Padre. Será que ele sabe destas coisas? Minha mãe dizia que eram coisas do diabo. E toda a família estava envolvida numa festa pagã!
Pensei nisto o resto da noite. Certamente dormi com os sons dos tambores que batiam tal qual o meu coração e com as cantorias doces das mulheres negras.

Nunca mais dormi com minha irmã naquela casa. Promessa cumprida. Entretanto jamais deixei de saborear as quitandas feitas por minha tia da pele clara e dos olhos verdes.

Zé cresceu muito pouco no tamanho mas cresceu muito nas invencionices das ideias. Não fora por acaso que recebeu o apelido de Zé Capeta. Casou por duas vezes com duas excelentes mulheres e nos deus sobrinhos muito especiais.

Recentemente numa visita à sua casa pedi que me levasse ao exato local da cena que ele me descrevera há mais de meio século. Prometera sem entretanto abrir um sorriso muito comprometedor. 

Mas ontem Zé Capeta morreu. Vitimado por um câncer impiedoso e fulminante que não lhe poupou a vida.

Fiquei aqui trabalhando e pensando que Ele iria de encontro a Nossa Senhora do Rosário sob o cortejo da Guarda do Congo e que seu caminho seria iluminado por aquelas velas, perfumado por aquelas flores, saudado pelos sons daqueles tambores e acolhido por todos aqueles descendentes de nossa mãe África.

Zé Capeta, vai com Deus.





Funil, 01/08/2018

3 comentários:

  1. Perfeito como sempre! Parabéns!

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    1. Obrigada pelo comentário. Gostaria de saber quem é você. Pode ser?

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  2. Que lindo conto! Me fez lembrar de quando íamos passar férias em Brás Pires e íamos para a fazenda do tio João Bosco. Me lembro das quitandas e dos doces que a tia Rita fazia...Como era gostoso!... Os primos também eram bem "tentados", mas não tanto quanto o Zé Capeta!

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