domingo, 4 de novembro de 2018

Uma História de Morte - Itália, século XIX

Dona Mariinha nunca sabia dizer ao certo de onde viera seu avô. Ou será que sabia e foram seus filhos que não guardaram o nome da tal cidade. Salerno ou Palermo? Uma das filhas cismou que era Salerno pois soube que seu bisavô era filho de pessoas muito pobres e que, portanto, só poderiam  ter vivido no sul do país que mais parece uma bota surfando no Mar Mediterrâneo. Recentemente ficou sabendo que ele era, na verdade, de um vilarejo chamado Casalento Spartano, próximo a Salerno. Então estava tudo explicado. Tudo napolitano. 

A mãe falava que o avô vivia contando estórias esquisitas e numa língua enrolada. Ele era um homem muito forte, cheio de histórias e muito trabalhador. Ninguém desobedecia suas ordens. Falava  alto e falava com todo seu corpo. Amava sua família.

Mas nada disso interessa para a história que seguirá. Foi um fato que ficou no imaginário de vários familiares e veio passando de geração a geração.

Dona Mariinha contava a seus filhos que pelas bandas da região onde vivera seu avô havia uma família muito rica. Tinham muitas terras e cultivavam uma uva que dava o melhor vinho de toda a Itália. A famosa uva Falanghina que, segundo contava seu avô, fora trazida da Grécia para a região da Campânia.

Pois bem, teria sido com a venda desse néctar dos deuses que o homem ficou famoso. Sua riqueza já se estendia para além mar.  As filhas andavam cheias de joias. Os vestidos eram confeccionados com rendas da Madeira e seda chinesa. Uma dessas filhas, talvez a mais bela e, portanto a mais amada pelo pai, gostava de joias. E bastava ela sonhar com este ou aquele anel para o pai orná-la com as mais caras pérolas do Mediterrâneo e os diamantes vindos da África. Tudo corria  na mais perfeita harmonia naquele reino da família Rivelli. 

Porém a desgraça caiu sobre a riqueza. Numa manhã, ao acordar as filhas, encontraram Cecília morta. O desespero fora total. Inacreditável. Vieram todos para constatar aquela fatalidade. O vigário fora chamado. O prefeito fora chamado. O boticário fora chamado.

O pai desconsolado mandara fazer o mais belo esquife para enterrar a filha. Não deixou que o tampasse antes que todos pudessem apreciar a beleza da filha que, mesmo morta, parecia uma deusa romana mitológica. E o anel de diamantes enfeitava o anelar direito da moça. 

Entretanto, lá pelas tantas da madrugada, quando todos estavam sob o efeito do vinho, entrara um desconhecido que, cautelosamente, tentara roubar a joia do dedo da falecida. A falta de jeito do rapaz para surrupiar o anel fez com que ele usasse de mais força. Eis que então escutá-se um grito. A moça acorda e sentá-se entre as rendas e as flores coloridas. 

Foi um verdadeiro "Deus nos acuda" em bom italiano. 

Mais tarde descobriu-se que a filha sofria da terrível doença do sono. A tal catalepsia.

Então o ladrão foi perdoado e, obviamente, Cecília apaixonou e casou com o larápio seu salvador.

E, quem sabe, não seria eu descendente deste casal tão romântico.

30/10/2018

P.S. Esta história também é parte dos trabalhos da Oficina de Escrita, coordenada pelo poeta e professor Ronald Claver.

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