sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A menina da rua


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                                                        (*)
E foi num dia qualquer, assim feito um estalo, que seu coração bateu em disparada. Nada entendia daquilo que estava lhe acontecendo. Naqueles tempos só queria estudar matemática. A amizade com uma amiga da escola não fora tão boa quanto pensava. Ficara em recuperação. Logo na matéria que ela mais gostava. A notícia foi dada no exato dia do aniversário do pai. Final de ano. Véspera de natal. 

O professor bem que avisou ao pai. Disse que a aluna estava muito desatenta, “ela sempre foi uma aluna exemplar, mas a amiga lhe tirou a atenção”. A menina sabia do risco que corria. No final das contas as contas ficaram erradas e inferiores. E ela teve que se haver com estudar durante as férias. A amiga tinha a mãe professora de matemática. A menina não. Ficou todo o resto de dezembro e o janeiro a estudar com o irmão as tais frações. Ou determinantes? Tirou nota máxima. Nem precisava de tanto.

Entretanto, se por um lado perdeu suas férias de janeiro, por outro ganhou em aprendizado. Logo faria treze anos. Sempre tivera um corpo maior que sua idade. As regras já vinham desde os dez anos. Justo nesse tempo se apaixonou por um gato dos olhos verdes que apareceu por aquela rua. Tão logo o pai e os irmãos descobriram não se tratar de um jovem merecedor dos afetos da filha e irmã. Mas ela não deu atenção aos falatórios deles. Continuou apaixonada. O moço nem lhe viu os olhos cheios de amor. Namorou tantas outras por ali. A menina sem respostas trocou-o pelos amores de Ceci e Peri, por Teresa e o encapetado Simão Botelho de Amor de perdição... Trocou todas as paixões vivas pelas paixões dos romances contidos nos livros. E ela leu muitos deles. Assim viveu identificando-se com várias personagens.

Mas um dia, já beirando seus quinze anos, brotou um amor diferente. Ela nem esperava mais. Desde aquela recuperação passou a ficar mais voltada para os estudos. Nem percebeu que, algum cupido vendo a menina tão distraída, mandou sua flecha certeira. Fulminada daquele jeito tão sem jeito a menina nem reparou no outro. O outro que vinha devagar. Trazia palavras certas e enchia a menina de novas ideias. Depois trouxe livros desconhecidos e cheios de humanidade. Mais uma vez o pai e os irmãos não aprovaram aquela amizade.

Ingênua como só ela, dizia coisas tolas e descabidas. Tropeçava nas palavras. Dizia coisas sem pensar. Caia das coisas que dizia. E nada dizia do que sentia. Estava já tudo dito no não dito.

Pois bem, tão logo ela se apaixonou, ele se foi. Não teve notícias dele. E logo ela também se fora.

Encontraram dois anos depois. Às vésperas do natal. Nesse tempo escreveram muitas cartas. O amor entre eles estava selado. Até que uma última carta os separaria para sempre. Sem adeus. As poucas palavras escritas deram o tom do fim. Não soube mais dele. Nem procurou saber.

A menina fechou-se para o mundo. Entrou para dentro de si e se perdeu ali. Nunca mais voltou para fora.

Ficou menina para sempre: a menina da rua.


(*) As Meninas - Picasso 1957

18/12/2019


Um comentário:

  1. Para quem sabe interpretar o retorno, um pingo é letra! Dezembro de 2004. Feliz Aniversário de 15 anos adiantado!

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