terça-feira, 11 de setembro de 2018

Maria entrou no Palácio das Artes em Belo Horizonte

Era manhã de uma terça-feira qualquer. O dia amanheceu com nuvens escuras e uma chuvinha fina que caía sobre a cidade logo se dissipou.

Para Maria quele tempo estava por demais gostoso. Nem se importou de perder a tão esperada consulta no hospital dos servidores do estado. Havia já uns meses descobrira um nódulo na mama esquerda quando procurou o ginecologista. Após exame clínico, mamografias e até tomografia ficou decidido que deveria procurar um especialista em mamas. Foi difícil agendar a tal consulta com um mastologista na capital.

Não dormiu na noite anterior à viagem. Conseguiu carona com o veículo da prefeitura de sua cidade que, diariamente, leva e trás pessoas para consultas agendadas em Sete Lagoas e Belo Horizonte. 

Logo que chegou ao ambulatório foi comunicada que os servidores estavam em paralisação por questões de pagamentos atrasados. O atendimento foi remarcado e ela nem se importou. Decidiu caminhar no entorno do Parque Municipal até o meio da tarde quando viriam pegá-la de volta.


Foi andando. Chegou à avenida Afonso Pena e Palácio das Artes. Nunca havia entrado ali. Pensava que aquilo era coisa para gente importante. Gente da elite. Viu vários policiais jovens bem defronte a entrada. Sentiu-se protegida e entrou. Parecia que pisava em ovos. Andou calmamente pelo gigantesco hall. Notou movimentação em alguns espaços. Quis ir ao banheiro. Sentiu vergonha. Perguntou para um segurança, todo engravatado, acerca da exposição de um conterrâneo seu que ela vira anunciada no jornal de sua cidade. Ninguém soube lhe dar informações.


Entretanto, assim que vira uma moça da limpeza, criou coragem e perguntou onde era o banheiro. Tal qual não foi sua decepção com o estado de depredação do mesmo. Não havia sabonetes nem papel toalha. Fechaduras, torneiras, saboneteiras  e cabides quebrados. Lembrou, com tristeza, do incêndio que havia destruído o Museu Nacional há três dias.


Olhou o relógio: dez horas. Maria ainda tinha tempo de sobra. Ela queria entrar nas galerias e ver as exposições. Foi convidada por um homem que estava por ali para ver a exposição do artista Décio Noviello com o nome de COR OPÇÃO. Ficou encantada com as cores vivas nas enormes telas e os nomes dados às mesmas. Leu uma frase que lhe chamou a atenção "...a solidão em meio à multidão..." Então o funcionário lhe falou que o artista, além de ser muito famoso, foi também militar e professor em colégios militares. Entendeu  porquê dos militares em frente ao Palácio. Nunca havia ouvido falar no artista.


Neste momento apareceu bem próximo dela um jovem que começou a acompanhá-la e falar das exposições. Era um dos diretores da Fundação Clóvis Salgado. Ele se apresentou e ficaram conversando por longo tempo. Acompanhou-a às outras duas galerias. Levou-a à exposição do artista, também mineiro, Marco Paulo Rolla, cuja obra, ela leu, "tem por marca mais notável a presença do corpo humano e da figura humana". Enquanto via as figuras nas telas , pensava no seu corpo adoecido. Porém não perdeu a serenidade e continuou ouvindo o homem que naquela hora lhe falava  dos vários artistas brasileiros com a exposição denominada "Entre Acervos" na terceira galeria. 

De repente quis sair dali. Agradeceu a gentileza do jovem diretor e deixou as dependências do grande Palácio das Artes.

Já na avenida Maria se deu conta do que lhe acontecia diante das obras expostas. Viu pinturas de mulheres com olhares desoladores. Viu uma boneca de pé olhando para um gigantesco gorila sentado, cabisbaixo, com uma cara de desconsolo - lembrou do filme do King Kong quando foi aprisionado numa gaiola. Pensou em si. Ela, a boneca, a consolar um mundo a sua volta. Então lembrou a que veio na capital: a suspeita de um câncer de mama. Ainda olhou para trás para ver o belo prédio de cor branca daquele palácio.

Maria mais que admirou tudo que viu e ouviu ali dentro. Ela admirou a sua ousadia de mulher interiorana caminhando pelas galerias do Palácio das Artes de Belo Horizonte.

Sentiu que algo havia acontecido dentro dela. Atravessou a avenida e procurou um lugar para almoçar. Sentou-se confortavelmente e percebeu que ainda não estava com fome. Carecia de outros alimentos.

Estava com quarenta e cinco anos. Era professora de geografia numa escola pública na cidade onde nasceu e ainda vive, Curvelo. Tinha duas filhas adolescentes. O marido era caminhoneiro. No início do casamento ele havia sido gentil, amável e companheiro. Depois vieram as suspeitas de traições, as implicâncias com as filhas, o ciúme exagerado e a cobrança por um filho homem. Recentemente vinha abusando da bebida alcoólica nos poucos fins de semana que passava com a família. "Os familiares davam conselhos: se apegue com São Geraldo, padroeiro da cidade, homem é assim mesmo,  você tem duas filhas, não pode separar e por ai afora."


Maria estava cansada das ladainhas de todos eles. Havia desgostado do marido mas temia a reação dele caso ela pedisse a separação. Sabia, conforme lhe dissera o médico, que o câncer aparece com mais frequência nas mulheres que carregam tristezas.
Resolveu comer salada e peixe frito, sua carne preferida. Sentiu saudades das filhas. Elas adoravam o pai.

Tomou café e saiu de novo para a avenida. Fez o caminho inverso. Eram quase duas horas. Ainda lhe restava uma hora. Entrou no Parque Municipal e deixou-se ficar sob a sombra de uma árvore. Estranhou a leveza de seu corpo adoentado.

De volta para sua cidade, pelo vidro da janela do veículo, seu olhar era convocado a ver o amarelo das flores dos pés do cerrado mineiro. Sempre admirava a beleza das flores nascidas nas adversidades daquelas terras quentes e secas. Instintivamente tirou sua aliança de casada e atirou-a para fora. 

Não queria ter câncer de mama ou em qualquer outro lugar do seu corpo. Estava livre.

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